quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Vale a pena reflectir nisto---texto enviado por Márcia Cristina Hungerbühler via «Facebook»"!

A queda do Muro de Berlim e o fim do campo socialista decretaram o término do longo período inaugurado com a revolução russa de 1917 e do socialismo do século XX.
O socialismo, que havia passado a, pela primeira vez, fazer parte da atualidade histórica da humanidade, praticamente desapareceu da agenda contemporânea, há duas décadas.

A China optou por uma via de economia de mercado, Cuba tratou de se defender de retrocessos ingressando a seu “período especial”, o Fórum Social Mundial surgiu para lutar contra o neoliberalismo.
Essa viragem histórica – acompanhada pela passagem de um ciclo longo expansivo a um recessivo da economia capitalista, de um modelo regulador a um modelo neoliberal, - representou, ao mesmo tempo, a transição de um mundo bipolar a um mundo unipolar sob hegemonia imperial norte-americana.

Mudanças todas de carácter regressivo, que alteraram de forma radical a correlação de forças mundial a favor das forças conservadoras.

Esgotava-se um modelo de socialismo, que se caracterizou por promover a estatização dos meios de produção, a partir da expropriação da burguesia privada, e não da socialização dos meios de produção, produzindo uma imensa burocracia que dirigia os Estados de economia centralmente planificada.

O seu esgotamento se deu tanto pela falta de democracia e de participação política dos trabalhadores, como pela falta de dinamismo económico, que os relegou a não superar os ritmos de desenvolvimento econômico do capitalismo, como a depender das economias capitalistas, de forma subordinada.

Nunca um sistema daquela dimensão se havia desmoronado por um processo de auto degeneração, a ponto de praticamente não apresentar nenhum tipo de resistência interna, adaptando-se de forma suave à restauração do capitalismo nos seus territórios.

O que revelava os efeitos desagregadores que a ideologia ocidental tinha tido sobre o sistema, especialmente sobre seus estratos dirigentes, levando ao que os próprios ideólogos norte-americanos não esperavam – sua autodissolução.

O modelo do socialismo do século XX foi um modelo de socialismo de Estado – como alguns autores o caracterizaram. Buscou, através da acção determinante do novo Estado, o apoio para tentar recuperar a distância em relação ao capitalismo ocidental, decorrente das rupturas com esse sistemas terem se dado na periferia atrasada e não no centro do sistema, como previa Marx.

Para Lenine tratava-se apenas de uma mudança temporária de roteiro, até que a revolução em um país da Europa ocidental pudesse resgatar a Rússia do seu atraso.
O fracasso da revolução alemã – o país em que mais se condensavam as contradições depois da sua derrota na primeira guerra – praticamente condenou a Revolução Russa ao isolamento.
A partir daí, as rupturas seguintes se deram na direção oposta, da periferia profunda – China, Vietname, Cuba.

Nas palavras de Lenine, era mais fácil tomar o poder nos países mais atrasados, mas sumamente mais difícil construir o socialismo.

Reduzida ao seu isolamento, a Rússia optou pelo “socialismo num só país”, em um país atrasado, afectado pelo cerco dos países ocidentais, pela guerra civil interna, posteriormente pela invasão alemã.

O modelo estatal foi uma decorrência disso, de buscar uma acumulação socialista acelerada, que dificultasse o bloqueio ocidental contra a URSS.

Stalin optou pela expropriação maciça dos camponeses, que permitiu a industrialização acelerada dos anos 30 – e propiciou as condições de resistência e derrota diante do poderoso exército alemão – mas à custa da ferida agrária de que nunca se libertaria a URSS até seu final, e da destruição da democracia interna no partido.

O socialismo se reactualiza, pelas próprias mazelas do capitalismo, porque o socialismo é o anticapitalismo, a incorporação dos avanços económicos, mas em um outro tipo de sociedade, que nega o caráter discriminatório e injusto do capitalismo, negando-o e superando-o numa sociedade solidária.

Enquanto houver capitalismo, haverá, mesmo que embrionariamente, um projeto socialista, que sempre precisa ser recriado, renovado, a partir dos balanços do capitalismo e do socialismo existentes

O socialismo do século XXI, para chegar a existir, tem que partir do balanço de conquistas e erros do socialismo do século XX, se não quiser repetir sua trajetória.



Postado por Emir Sader

4 comentários:

São disse...

Algo deverá ser feito, pois é totalmente inviável a continuação deste modelo social!
Saudações.

Ava disse...

Caro amigo Carlos. Tenho sentido a falta dos seus posts nos últimos dias. Espero que esteja tudo bem e que volte depressa para nos encantar com as suas experiências e opiniões.

Um beijo, Ava

Carlos Machado Acabado disse...

É verdade, São!
E os blogues---o diálogo vivo e crítico que neles, entre eles e até com eles---se estabelece um meio particularmente eficaz de contribuir para isso.
Num universo mediático selectivamente estrangulado e sempre mais ou menos subtilmente vigiado como aquele que, hoje-por-hoje, é o «nosso», eles começam a ser mesmo o único meio de "ouvir" qualquer voz minimamente independente e 'alternativa' que sobre a realidade [económica, social e política] portuguesa queira pronunciar-se.
Também por isso, as suas "visitas" com opiniões, sugestões, ideias eou críticas são sempre [mais do que!] bem vindas!
Um beijinho amigo do

Carlos

Carlos Machado Acabado disse...

Curiosamente, Ava, estive aí, em Montemor [onde, de momento, não tenho PC operacional], nestes últimos dias.
Mas já estou de regresso.
Obrigado pela sua simpatia e pelas suas amabilíssimas palavras!
Um beijinho!

Carlos