domingo, 28 de março de 2010

"Empty room"


Uma das mais esplendorosas e seminais canções de [íntimo] amor que conheço!

Bernardim Ribeiro de estranha [e baça] luz reencontrado no labirinto [na cicatriz?] lenta e dispersa da Lisboa moura.

A música como grande ferida ou 'grande sangue crepuscular' nocturno
cidade interior nas margens do próprio sangue...

Um quarto vazio no vento?

Na sombra sem muros do mesmo vento

talvez




[Imagem extraída com a devida vénia de mindinsomnia-dot-com]

sábado, 27 de março de 2010

"«Simón del Desierto», para Buñuel""

"Sagt Mir!..."

WANN WIRD MANN JE VERSTEHEN?
[Na imagem: "Lazarus Reburied", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado

"Wo...


... sind die Soldaten?

"Wo..."

... sind die Blumen!
...Was ist geschehen?!...


[Imagem ilustrativa "gentimente cedida" por wallcoo-dot-net]

"This is..."

... like a homecoming: being here now, I mean.

So I decided to record here as an appropriate musical score two of my favourite tunes concerning the topic of coming home: the classic "Green, Green Grass of Home" [which is actually a bitter in-negative version of it] and Bruce Springsteen's "My Hometown" [which is in many regards by no means sweeter for that matter].
The point is to prove that no homecoming is either simple in itself or ultimately altogether fulfilling.

In a very precise and in many ways obvious way you never quite actually come back.
Homecoming [and "Home-being" for that matter] are both complex, intrinsecally problematic experiences involving rejection for one thing and in unavoidable sense of deprivation, of irretrievable dispossession for other.
In point of fact you don't just come back: you come back from and then you have to consider the inextricable twin question of coming back to.
Choice, choice, choice.
Loss, loss, loss.
Quite often like elephants and whales you come back home simply to die.
To die in a more comfortable familiar environment.
To make death a bit more of a relative 'thing' than it usually is, I mean.
I don't know why I came back home in this particular circumstance.
I guess I'll find something it eventually though.

It's a risk I have to take.

Still a question keeps haunting me to which I definitely have to answers for the moment:
is Death what I am experiencing from it anyway now?

Is Death what I will ultimately meet 'at the end of the corridor'?

Is Death what I really hope to win in the end---my own comfortable, wise death?

I don't know about that either and it is just as well, I suppose.
Death I guess either it is the death of your body or that of your soul is just a task you have to perform,
In a way a mission you have been confided upon,
a delicate object which you must not mislay or above all corrupt.
A job you have to do:

You might as well do it right, don't you think?...


"Dispersa [como] até aqui...


... toda a doença une-se com [o] um brusco
punho de espuma
que me cinge
reconsolida
alimenta
---e abre na voz suspensa
uma dor única compacta
que derramo toda inteira num vaso
de leituras
e de cinza

a dor por folhas ou
praticada num pão alto
vertiginoso e doente
que não alimenta mas injecta
o remorso todo inteiro
nas aves completamente líquidas de que é
a partir de hoje todo imóvel
feito o sonho e
feita a álgebra gelada
do abraço

o pão a galope
o pão hermético
o pão fechado
o pão em cruz
o pão em crise
o pão em merda

e tu, dor que
ensinaste a lua ao mar
e o verão à terra;
o outono ao chão e
ensinaste a solidão à massa funda
do sangue
ensina-me a regressar em dias de esperança e
ramos
demasiados

o crâneo ardido e independente
o volume da dor
o desenho da voz
o inquérito do sangue
a geometria da morte
o episódio da solidão
outra vez, o volume da tristeza
e do pânico
recobrado a golpes de vida desconhecida
à luz do mar
o leito das pedras onde corre a primavera
de regresso
ao veneno que de esperança infecta
o olhar apodrece a liberdade
a primavera de regresso
à chuva às raizes às fezes
a cascata das canções
da noite a primavera
de regresso à noite

o patamar ferido do horizonte
o pedal do sentido
a branca memória
a memória a memória

tu oh dor onde se oculta toda a casa
ensina-me a regressar de puro vento
sangue e pão no bolso
camisa madura de luz
esperança de palavras
nervos por palavras

sem dizer
meu nome
sem reunir
meus ossos a minha vida corrompida
o alimento
a esperança até ser noite...


firme crua flor de suor oh frágil noite
dos sentidos
devassados
conta-me de um só
ininterrupta voz toda a história
da matéria que cegou.


Fundo e exausto concluo aqui o inventário
aberto da dúvida o trémulo fulgor
o relâmpago sumptuoso da cabeça que crepita
de saudade
e pura pasmosa
espumosa ignorância:
não há que procurar mais
perguntar mais
querer saber mais


[de hoje em diante vou viver só de poesia
Em poesia]

Carlos Machado Acabado


[Na imagem: "Full Face", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, a partir de uma fotografia de Jorge Molder]

terça-feira, 23 de março de 2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

"No dia..."


... que também é Mundial e da Poesia, comemoro-a aqui com uma referência especial ao mais beckettiano dos Poetas portugueses e um dos meus preferidos de todos os tempos: Herberto Helder...

"Can You Believe It?!"

Então, não é que me esqueci de celebrar a "inauguração oficial" da Primavera, este ano?!!
Senti-a, porém--que é, afinal, bem vistas as coisas, a melhor maneira de celebrá-la, todo o ano!
Toda a vida!
E, se escutássemos, agora o grande Machado e o irrepetível Serrat, cantando o seu 'milagre' como ninguém?

http://www.youtube.com/watch?v=-zMm7nKF79s

"D. Quixote de la Mancha..."


...porque é isso o que nós [felizmente!...] na realidade, somos...

"Dia Mundial da Água..."


... Dia Mundial da Vida...

[Imagem extraída com a devida vénia de skepticdetective-dot-wordpress-dot-com]

domingo, 21 de março de 2010

"Ancora...


... l' arcobaleno, quel secreto amico delle anime sensibile...

Incompleta

A leitura de uma obra já com alguns anos, daquelas [muitas!] que se guardam para ler "quando nos reformarmos"; uma obra colectiva, com data de Abril de 1977, intitulada "O Apodrecimento das Sociedades" [edição Livraria Bertrand, col. "Tempo Aberto"] forneceu-me o ensejo imediato para uma reflexão que há muito venho fazendo sem propriamente verbalizar sobre o que poderíamos, parafraseando um título famoso da extinta "Minotauro", designar por "a personalidade paranoica do nosso tempo".
O texto em concreto de que vou falar aqui, o primeiro, intitulado "A delação de massa ou a contra subversão" de Paul Virilio é todo ele um texto claramente marcado pela paranoia.
Não que muito do que diz sobre a vigilância dos cidadãos nos nossos dias, nas sociedades de democracia formal do Ocidente não seja pontualmente verdade; o que eu questiono é a leitura quase [ou mesmo?] "conspiracional", muito "orwelliana" de escola que o autor faz da realidade desse vigilância.
Que eu não questiono como tal repito: o que me parece particularmente perigoso neste tipo de análises mais ou menos "conspiratoriais" e mesmo tendencialmente "apocalípticas" da sociedade contemporânea é---muito à Orwell, precisamente---perder de vista a natureza altamente sofisticada e complexa, subtilíssima, dos mecanismos de condicionamento da opinião, nos nossos dias.
Aquilo que, na essência, distingue, com efeito, esses mecanismos daqueles que imediatamente os antecederam [ligados estes aos 'autoritarismos tópicos' dos anos '20 e '30 do século passado: o fascismo italiano ou japonês e o nazismo alemão---sobretudo este] é a fixação no seio da própria arquitectura política objectiva e, num certo sentido, sobretudo, subjectiva dos sistemas políticos da figura inteiramente ficcional da liberdade associada à escolha dos próprios modelos de gestão política das sociedades no seu todo.
Ou seja: aquilo que aconteceu quando se chegou historicamente à conclusão de que o projecto de "capitalismo total" não possuía, de facto, viabilidade social e política em si mesmo foi a transferência perversíssima---através da construção de uma falsíssima cultura astuciosamente assente no suposto reconhecimento primário do papel determinante do arbítrio individual na definição dos modelos de gestão política---do próprio ónus da política ou políticas encontradas para gerir o capitalismo do estrito âmbito da classe ou classes dominantes [como sucedeu na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini ou até no Portugal de Salazar] para o conjunto da sociedade, responsabilizando-a pelas disfunções estruturais do sistema económico-político.
Bem gerida no plano cultu[r]al, a co-responsabilização institucional das classes dominadas na sua própria dominação resultou em pleno.
O grande inimigo da autonomia da Política relativamente a um conjunto de condicionantes estruturais muito poderosas de natureza especificamente económica e financeira nacional e multinacional, nas sociedades de hoje não é já qualquer tirano ou qualquer clique decisória organizada em torno de um tirano como Hitler ou Mussolini: o grande inimigo da autoniomia política interna das sociedades ocidentais é, sem dúvida, essa interiorização de uma falsíssima imagem ou noção implícita de liberdade que leva as sociedades no seu todo a imaginar que as coisas vão acontecendo de um certo modo porque elas sociedades, num dado momento em que podiam assim não ter querido, pelo contrário, assim quiseram e pior ainda que se elas continuarem a querer tudo mudará.
A eleição seguinte a uma desilusão tem, antes da escolha de um deterrminado partido oyu pessoa, essa função celebracional abstracta de reconfirmar o falso papel determinante da liberdade de opção que é vital para que o sistema de democracia aparente em que vivemos se conserve globalmente operativo.
É por isso que quaisquer interpretações dos diversos mecanismos de vigilância cidadã hoje que tenham pressupostos modos de funcionar social e políticamente que se esgotaram com o fim do nazi-fascismo e da II Guerra Mundial apenas podem confundior e fazer com que, no limite, deixemos de perceber aquela que é a verdadeira i/lógica das formas modernas de condicionamento e opressão da consciência individual.
Dito de outro modo ainda: se o verdadeiro inimigo está vhoje nas nossas cabeças e, especificamente nas nossas falsíssimas representações de natureza conceptual política é, de facto, dentro de nós e em nós que é preciso operar revolucionariamente e não em qualquer tenebrosa cidade subterrânea secreta de onde um Big Brother [ou mesmo meia-dúzia...] orwellianos vigiam 24 horas sobre 24 cada um dos nossos passos e/ou gestos.
Aqui há tempos, um amigo meu, dramaturgo, escreveu uma peça sobre António José da Silva onde procurava, com raro talento e subtileza, identificar o funcionamento da Inquisição em Portugal com o da sinistra PIDE salazarista.
Intervindo, num debate público sobre a peça, tive ocasião de referir: "agora só falta, para que possamos ter uma re/leitura dramática completa da nossa História política recente, escreveres uma outra sobre os métodos de condicionamento subjectivo; de 'mind control' ou de 'mind shaping' sistémico; de manipulação cultu[r]al intensiva e extensiva que substituiram já a coação formal ou exógena.
Sem isso, os espectadores e leitores mais jovens correm o risco de imaginar terem-se enganado de país ou, pelo menos, de Tempo e de História quando virem e/ou lerem o teu excelente trabalho dramático e---mais grave, ainda!---de continuarem completamente desprecavidos relativamente àquilo que são as ameaças hoje!"
A recolha de informação hoje não tem como propósito a intervenção punitiva imediata de uma clique opressora bem identificada e definida---um governo e uma ou várias polícias políticas fortemente armadas e ocupando um conjunto de espaços perfeitamentre localizáveis e identificáveis; pelo contrário, visa, sim, reforçar e consolidar os subtis [de facto, a um primeiro olhar, in-visíveis!] mecanismos de potenciação abstracta da sugestão primária difusa de liberdade sobre a qual assenta, em última instância, na realidade, todo o modelo de democracia aparente que falsamente designamos hoje simplesmente por 'democracia' sem mais.
Tenho para mim que uma das direcções erradas seguidas pelas análises teóricas e consequente labor de esclarecimento por parte dos partidos de esquerda imediatamente a seguir ao 25 de Abril, coincidiu nesta simplificação e neste perigosíssimo "erro de paralax hermenêutico" de imaginar que a História apenas poderia repetir-se ou duplicar-se mecanicamente, algo que, tendo em conta as lições históricas e políticas internacionais do fim dos fascismos era, na realidade, para dizer o mínimo, de todo improvável, como veio, de resto, a confirmar-se com a assimilação por parte dos partidos "sistémicos", especialmente o "pê-ésse" que venceu as primeiras eleições após 1974, das lições da "democracia funcional" adoptada pelo capitalismo multinacional, sobretudo, europeu para gerir a sua própria sobrevivência material e objectiva.
Há, todavia, dois aspectos no texto de Virilius que me parecem extremamente interessantes e dignos de particular consideração: um, quando o autor refere o modo como a "democratização" objectual dos meios de comunicação acabaram perversamente por conduzir, exactamente ao contrário, não apenas à banalização total das formas de arte e, de um modo geral, de cultura como---o queb é mais grave, ainda---ao aprisionamento da própria inteligência e ao isolamento desta [ao seu banimento efectivo do universo da comunicação entre as pessoas e entre estas e a própria cultura ou a arte] numa espécie de utilização aberrantemente paradoxal e perversa da liberdade contra si própria e contra tudo quanto a liberdade efectivamente instituida nas sociedades humanas pode proporcionar de bom na valorização dos indivíduos e da respectiva consciência de si e delas próprias, sociedades.
Virilius fala mesmo, a propósito, em utilização da liberdade para delatar.
Ora, não querendo, como comecei por dizer, ser tão dramático eu diria que, a meu ver, há óbvia utilização/manipulação da liberdade, mas de um modo infinitamente mais subtil, para levar os indivíduos e as sociedades a desprevenidamente trairem, através, desde logo, do entretenimento, gostos, propensões, pulsões cultu[r]ais inconscientes, pré-juízos não completamente formulados mas nem por isso menos importantes, etc. todos eles mais ou menos inconscientes, repito, no sentido de serem, esses sim e então sim, "estrategicamente" usados a posteriori para condicionar subtilmente a [formulação de] "opinião" e re/construir esta última ponto por ponto conforme os interesses específicos e primários do próprio sistema.
Não se trata, pois, aqui de "delatar" no sentido pidesco ou "gestapista/ovrista" do termo: trata-se, sim, de algo incomensuravelmente mais complexo---e perverso: trata-se de recondicionar mais ou menos minuciosamente, tão minuciosamente quanto possível, a vontade dos indivíduos e das sociedades, usando os objectos que ela, num dado momento, contém e, muito em particular, o modo como ela os apreendeu e fez seus ou integrou em si---o que, sendo, de algum modo, a mesma coisa, é, de outro ponto de vista, afinal, a meu ver, num certo sentido, pelo menos, muito diferente.
Também a liberdade do próprio corpo como tal, recorda Virilius, sofre uma em tudo idêntica deformação: liberto ele mesmo de pressões de um tipo directa e imediatamente [auto] censório [recordemos a condição des/estruturalmente ancilar e degradantemente "utilitária" da Mulher nos regimes fascistas] acaba, de igual modo, o corpo, da Mulher como do Homem, refém de utilizações que não são menos determinantes e que não são, sobretudo, menos perversas.
Basta ver o modo como a Beleza é violentamente formatada, a sexualidade firmemente "conduzida" e mantida [algo de impensavelmente repressor e opressor] "pudicamente" fora das escolas e aberrantemente convertido em "matéria moral" e/ou "de consciência" [não os usos da sexualidade: ela própria, como tal]"
nem

"What Is The World Coming To?!"

[retomando 'à Brecht' tema da vigilância auto-censória sobre essa parte autenticamente vital da realidade que é o corpo]

Lamento escandalizado do moralista repressor :


Não percebo nada disto!

O meu avô tinha pilinha, o meu pai idem e até eu, por vezes, tenho a sensação de estar já a ficar contaminado!

Hereditariedade ou apocalipse impendente?

Que raio está a acontecer à excelente [protectora e sã!] santa ignorância de outros tempos, afinal?...


What is the world coming to, anyway?


[Imagem extraída com a devida vénia de davewainscott-dot-blogspot-dot-com]

sábado, 20 de março de 2010

"Malcriado? Eu? Vão-se Queixar ao Prémio Nobel..."


... ou à minha Amiga Nina Pirata que me reenviou o fragmento.

Vale a pena lê-lo, porém, "malcriado" ou não---e meditá-lo: um pouco de sentido crítico e de lucidez nunca fizeram mal a ninguém...

Podem não dar dinheiro e até poôr em risco umas quantas promoções profissionais mas, bem vistas as coisas, do ponto de vista da nossa saúde mental e política não se perde nada em ouvir---quanto mais não seja uma vez por semana...---a voz da integridade [e da verdade a que ela anda persistentemente ligada].

Assim sendo, cá vai então..

Em qualquer dos casos, eu ainda prefiro um bom malcriado [sobretudo se tiver talento] a um mau filho da p., sobretudo se o não tiver...


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»


José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148


[Na imagem: Saramago em Montemor-o-Novo em Outubro de '98]

"«Por uma Sexualidade Não-repressiva nem Repressora»---fragmentos de um manifesto a organizar"


Insisto: é completamente errada a identificação que invariavelmente nas culturas modernas e pós-modernas se faz entre pornografia e sexo---ou sexualidade.

A pornografia não está no conjunto de actos que consubstanciam a relação sexual: está no uso in-justo, iníquo e opressor desses mesmos actos; está na projecção, de um modo ou de outro, activa de padrões de dominação literalmente colonial sobre eles---que é uma coisa muito diferente.

Vista deste prisma específico, a pornografia estáb longe de se restringir ao domínio específico da sexualidade.

Há diversaas pornografias particulares que vão da religião ao cinema, por exemplo [basta considerar o que se vende hoje nas televisões, de uma maneira geral]: há uma pornografia da estupidez, da fealdade, da má política e das más políticas---e há uma que a um espírito instintivamenmte libertário [e mesmo---por que não?---um pouco libertino...] como eu repugna de forma particular e muito forte: a pornografia da [falsa] piedade e da pudicícia---a partir da qual, de resto, se gera e se gere a maior parte das diversas pornografias individuais.


[Acima: "Mask" de Ron Mueck, imagem "gentilmente cedida" por brooklynmuseum-dot-org]

"Lisboa, Declaração de Amor"


Lisboa,
com os teus segredos, o teu fundo mistério, a tua sábia altitude
o teu sangue aceso, luminoso, sempre encostado à Luz
se faz música;

com a tua ilimitada água, uma sede perfeita;
Com o teu infinito, uma ordem
que queima e abrasa

sem fatigar

Com as cicatrizes todas do teu espaço definido e límpido
de puro vidro ou fogo, dia!

O dia em que virás sobre o mar.

"Para uma Arqueologia da Violência Moderna: algumas notas pessoais" [Inc. por rever]


Um texto muito recente de Francisco Teixeira da Mota no "Público" [cf. "Público" de hoje, sábado, 20 de Março de 2010, artigo "Elementos para pensar e actuar a nível do bullying"] permite-me ir um pouco mais além do que fui, num texto meu, publicado um pouco mais abaixo, envolvendo basicamente a questão das touradas.

Teixeira da Mota, referindo-se ao fenómeno do 'bullying' do qual resultaram, como se sabe, recentemente duas mortes praticamente simultâneas em Portugal evoca a dado passio um termo e, sobretudo, um conceito fulcrais para se contextualizar, com um mínimo de rigor, consistência analítica e idoneidade intelectual e o problema: "empatia".

Vivemos, hoje, com efeito, numa sociedade física e mental onde o valor da empatia inexiste não apenas circunstancialmente mas de forma [e por imperativo] eu diria, num caso e noutro, sistémicos.

Uma visão persistentemente practicista e estr[e]itamente funcional da Educação [que, de facto, nada ou muito pouco tem de efectivamente funcional mas essa é outra questão que não vem, agora, directamente ao caso] conduziu sucessivos dos respectivos ministérios ao fomento objectivo de uma cultura de brutal e cega concorrencialidade em determinados níveis mais "selectivos" do edifício escolar [nos outros, vai, como é sabido, reinando a "escolocracia inorganicamente ludocrata" que tantas vítimas continua "alegremente", dia após dia, a fazer das pessoas à própria Cultura] situação essa que constitui de forma inquestionável o 'caldo' onde há muito se afogaram já a maior parte os valores de são e desinteressado humanismo; de formação global do indivíduo que deviam ser [mas não são!] estruturalmente indissociáveis de qualquer ideia abstracta ou conceito teórico minimamente apresentável quer de "educação", quer de "cultura".

Fala-se muitas vezes de "massificação" como sendo algo que está na base de um certo tipo de fenomenologia caracterizada, basicamente, pelo rebaixamento consistente dos níveis de cultura e dos próprios valores, de uma forma geral.

Quando se fala geralmente de massificação não se tem, porém, por via de regra, diria eu uma noção completa, histórica e política, do fenómeno que, é vital tê-lo presente, constitui uma decorrência inevitável da própria "prise du pouvoir" histórica, social e política pela burguesia.

Esta, na verdade, "entra na posse económica e política política da História" com o argumento básico da competência técnica que, segundo ela, legitima definitivamente essa "prise du pouvoir".

Basta ler, entre inúmeros outros exemplos, "Il Gattopardo" de Lampedusa, "Fu Matia Pascal" de Pirandello ou "Castle Reckrent" de Maria Edgworth para se ter uma ideia de como funciona em termos concretos, práticos, materiais, no próprio seio da família e na vida dos indivíduos, este processo.

A verdade, porém, é que não havendo "Histórias completamente perfeitas", a troca de proprietário político da História envolveu, da parte das sociedades europeias no seu tudo, o pagamento de um preço substancialmente elevado em matéria de profundidade e sofisticação da Cultura.

São mais ou menos claros dois pontos: primeiro, a clase deposta havia, há muito já, deixado de ser em termos globais detentora de cultura a qual tinha genericamente deixado já, na maioria dos casos, de circular no conjunto dos membros da classe e, em seguida, que a posse dessa mesma cultura havia sido tudo menos uma realidade generalizada, democrática, mesmo quando existiu com outra expressão qualitativa e qualitativa no seio da aristocracia.

Seja como for, a burguesia entra na História como classe, por definição, para "rentabilizá-la".

Possui o conhecimento, o saber, a técnica: de posse deles, argumenta que deve ser ela a re/produzir a riqueza e a gerir, consequentemente, a sua redistribuição.

Na verdade, para ela [é essa visão da História e da sociedade---da economia e da política que ela traz de novo para a própria História] logo desde o início [assenta como disse nesse verdadeiro ângulo ou vértice argumentativo o essencial da sua reivindicação relativamente à propriedade legítima da História] "Conhecimento" e "utilidade" são conceitos virtualmente indissociáveis entre si.

Não é apenas a nobreza "de sangue" que ela supera: é a nobreza em termos categoriais, arquetipais---a nobreza como modo, ao menos "simbólico" ou mesmo teórico e até, num certo sentido, ideológico, de abordar a História e a realidade, em geral.

A massificação é também isso---esse novo olhar dessacralizador e deliberada---eu quase diria: programada e programaticamente---não-transcendente mas, pelo contrário, imanebntre e imediatista da realidade.

É isso que marca a Política a partir de um dado ponto---é isso que explica por que exacta histórica, económica e social razão ou razões, a História, em lugar de se democratizar, se vulgarizou---e "massificou".

Os valores [que são algo que, de uma perspectiva abstracta e simbólica, nascem de forma natural das culturas aristocráticas] tendem a tornar-se, na "nova História" progressiva mas, sobretudo, naturalmente obsolescentes e excescenciais: não se convertem eles mesmos naturalmente em "valor".

Os políticos, eles mesmos fruto dessa visão vulgarizadora e utilitarista não conseguem conceber um lugar natural para os valores no contexto das suas "políticas" ia, em lugar de se democratizar.

Claro que político ou pessoa alguns dizem que solidarizar-se "é feio" ou que é algo que deva ser postergado e banido das práticas sociais, educativas e, claro, espercificamente escolares; dizem, porém, de um modo ou de outro---ou, não dizendo, agem em função dessa ideia que a todos norteia---que não é rentável ser desinteressadamente solidário ou empático"; sê-lo como valor em si---porque é desse modo preciso que vêem a História e tudo quanto ela contém---incluindo os indivíduos que a povoam e oas diversos programas que cunham para reger as relações, desde logo institucionais, entre eles.

É daí, a meu ver, desse vazio sistémico último, básico, de valores puramente simbólicos que subjaz às "nossas" sociedades de hoje que emeergem o "bullying" e todas as outras formas de opressão práticas, objectivas, em cuja génese está o impulso pragmatizante desumanizador que resulta, volto a dizer, do modo significado preciso como a burguesia enquanto classe social e económica entrou na História e dela ideologicamente se apoderou.


[Na imagem: "Philosopher", colagem sobre papel e cartão de Carlos Machado Acabado ]

"Olga Roriz..."


... e a caleidoscópica aventura estética por ela teimosamente protagonizada, aqui, ainda uma vez, recordadas a partir de uma espécie de triste e ininterrupta efeméride, recentemente retomada no "Facebook", de onde a imagem que ilustra esta nota é extraída: a extinção do Ballet Gulbenkian de que se redivulga aqui um momento de "Seres Imaginários" pelo extinto Ballet Gulbenkian, com coreografia da Artista.

"Será absolutamente necessário...


... que entre revolução e sexualidade exista a permanente suspeita que a cada 'volta' ou a cada 'esquina' da História humana reconfirmamos continuamente persistir?...

Se as sociedades podem, ainda que muito breve, muito fugazmente, libertar-se da opressão da própria História, não pode o corpo fazer outro tanto relativamente àquela que parecem ter-lhe obstinadamente destinado as inúmeras avulsas "morais" que enchem invariavelmente alguma falsa política mal sai da cabeça dos que a vêm até à própria História propor?...


[Imagem ilustrativa extraída conm a devida vénia de liberdadeparacabeça.dot-blogspot-com]

"É Possível..."


... que haja uma cidade mais límpida e, ao mesmo tempo, mais íntima, humana, definitiva---e total do que tu, Lisboa?
Não creio...

"É Possível..."


... ler "Michael Kohlhaas" de Kleist a partir de uma chave de natureza iniciática, isto é, como um apólogo sobre a necessidade crucial de subverter pelo espírito a resistência firme da realidade a deixar-se vencer e penetrar, recomeçando-a completamente ao contrário pela "morte" para acabar em "triunfo crítico" na "Vida", algo estimulantemente gnóstico e tipicamente rosacruciano.

'Rosacruciano' genuíno, não pseudo-rosacruciano ou... "gnóstico-carnavalesco" versão Não-sei-quantos Heinkel, um norte-americano que é uma espécie de "comedy relief" dos iniciados autênticos ou Jerry Lewis filosófico cujas "descobertas" nunca deixam de provocar um são e pruficador riso de ironia...

"Bom Trabalho!"


Tenho uma Amiga que a esta hora deve estar a ajudar a limpar uma destas...

"Touradas? Não, Obrigado!"


A minha perspectiva relativamente às touradas [assim como, de um modo mais lato, relativamente àquela verdadeira aberração mental e antropológica que consiste em considerar automaticamente "legitimada" qualquer monstruosidade, por absurda---ou até mesmo desumana---que possa ser pelo simples facto de ser "antiga" e ter, por conseguinte, ganho o estatuto mágico, quase "totémico", de "Tradição" que, para muitos subjaz, em última instância, à defesa que fazem da inominável barbaridade que são, queiramo-lo ou não, as touradas ...]; a minha perspectiva pessoal relativamente a todas essas questões, dizia, é muito sucintamente a que passo a expor.

Aquilo que, na base de tudo, impressiona [e inquieta!] aqui, nesta matéria, é a ideia de alguém converter a própria sobrevivência [uma das formas que ela assume, em qualquer caso; falo, obviamente, do consumo de material proteico de origem animal pela espécie humana---algo que, de resto, não constitui em si mesmo uma necessidade incontornável nem uma fatalidade biológica, é preciso dizer] num espectáculo em si.

O indivíduo, por muito dourada que possa ser a roupagem que revestem os rituais de morte quaisquer que eles sejam, não se torna animal---torna-se, pelo contrário, perigosamente humano!---quando perde a noção da 'necessidade' [ao menos, convencional e, num certo sentido, até simbólica] da sua tarefa; quando se torna, dito de outro modo, incapaz de continuar a distanciar-se criticamente da realidade, na forma daquilo que faz para viver; quando, por conseguinte, se ALIENA da sua relação objectiva com o que faz e começa a 'saborear' como um objectivo em si isso mesmo que faz---independentemente dos respectivos fundamentos objectivos, materiais, passíveis de serem convertidos num "conhecimento" qualquer---da realidade como tal mas, num certo sentido, sobretudo, de si e do seu papel particular nela, na produção organizada dela.

A partir daí, deixa de ser 'sujeito' e passa naturalmente a mero 'objecto' [quando muito "objeito" ou "subjecto"] dos seus actos e, de um modo mais lato, do próprio real como todo.

Do real como 'coisa'.

Perde o privilégio da Culpa que é um atributo exclusivo do 'sujeito moral' e, assim, "humanizando-se", «objectifica-se», afinal.

É, também isso, esse mecanismo alienado[r] que transforma a fruição responsável da Cultura [da Estética como comportando necessariamente uma Ética, da Estética como Teoria da Realidade] em consumo e a da própria Ética num mero hábito ou numa simples habitualidade que abre, por seu turno, toda a espécie de portas ao fascismo.

Aos fascismos---mesmo aos "fascismos de vidro", aos "brancos fascismos" de hoje que são precisamente a consagração, no plano político e no plano [pós-] moral desta "objectificação" que certas concepções mais mecanicistas e 'pós-modernas' de "cultura" objectivamente preparam e sofisticaram---quando não SÃO elas próprias.


[Imagem extraída com a devida vénia de listenlittleman-dot-com]

"Yeah!..."


Here is your Today's Aquarius Horoscope:
"If it feels like the whole world is against you or that nothing can go right, take a deep breath and look to the future. You're going through a brief phase of trouble that can't last much longer".

Pois...

"Daily Mood"


"Trop penser est une maladie"

Fiodor Mikhailovitch Dostoievski

"Deadheads, she says"


Jeez! I must be one of "them"!...
Anexo: "El Viajero" de Machado que completa de modo absolutamente definitivo e único o sentido do está aqui em cima proposto:
He andado muchos caminos;
he abierto muchas veredas;
he navegado en cien mares
y atracado en cien riberas.
En todas partes he visto
caravanas de tristeza,
soberbios y melancólicos
borrachos de sombra negra,
y pedantones al paño
que miran, callan y piensan
que saben, porque no beben
el vino de las tabernas.
Mala gente que camina
y va apestando la tierra...
Y en todas partes he visto
gentes que danzan o juegan,
cuando pueden,
y laboran sus cuatro palmos de tierra.
Nunca, si llegan a un sitio,
preguntan adónde llegan.
Cuando caminan, cabalgan
a lomos de mula vieja,
y no conocen la prisa
ni aún en los días de fiesta.
Donde hay vino, beben vino;
donde no hay vino, agua fresca.
Son buenas gentes que viven,
laboran, pasan y sueñan,
y en un día como tantos,
descansan bajo la tierra.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Participando numa necessariamente muito breve troca de impressões sobre questões educativas no "Facebook", uma ex-'amiga' minha desse mesmo "Facebook", professora do 1º ciclo, lembrava a propósito dos recentes casos de "bullying" em escolas portugueseas o papel dos psicólogos num contexto que os inclui assim como envolve, de uma maneira geral, o problema global da indisciplina escolar nos nossos dias nas escolas nacionais.
Trata-se, a meu ver, de um ponto a ter em séria conta, sem dúvida, quando estiver em causa equacionar, em termos amplos e até, de algum modo, estruturais, o problema básico da própria viabilidade educativa de uma parte quantitativa e qualitativamente considerável do edifício escolar e educacional em Portugal, hoje.
A Psicologia e especificamente a Pedo-psicologia, hoje [e tenho a clara noção de que vou tocar num nervo particularmente sensível para a comunidade educativa e até para a sociedade portuguesa dos nossos dias, de um modo geral, sempre muito vulnerável às generalizações sobretudo se forem bem-soantes mesmo que pouco conteúdo possuam ou que esse conteúdo não haja sido suficientemente debatido e adequadamente perspectivado]; a Psicologia,hoje, em Portugal, dizia, tende a situa-sernuma espécie de plano sob inúmeros aspectos [de natureza social, política e até---como dizer?---secundariamente epistemológica ]análogo
,
A minha própria opinião sobre

"No More Lownly Naughts..."

...or "The ROT Club of Portugal"...

[Imagem gentilmente voltada a ceder ao "Quisto Didáctico" por ilustragargalo-dot-blogspot-dot-com]

quinta-feira, 18 de março de 2010

"Quando Eu Acordar Desta Euforia Toda!..."


This is how feel right now...
Tomorrow?
Who the hell cares about tomorrow!!

[What is a 'tomorrow', anyway?...]


[Imagem vergonhosamente pilhada a oliricocronicas-dot-com]

"Tropismos..."


Um filme geométrico e abstracto: "L' Année Dernière À Marienbad" de Resnais.

A estimulantíssima experiência do "nouveau roman" de Robbe-Grillet levada ao cinema por um dos maiores cineastas franceses.

Um olhar particularmente inquietante sobre a condição humana reduzida aqui a uma pura e descentral fenomenologia---a uma indecifrável quasi-geometria final onde, como na pintura de Klee ou Mondrian, por exemplo, o espaço surge como o seu próprio e único sentido possível e fundamento demonstrável---um espaço absolutiforme total, semicamente liso, onde significado e significante surgem completamente fundidos num único ininterrupto "ideograma zero" situável muito próximo da "naughtopy" beckettiana.

"Joe Hill"


Numa altura da vida em que, por diversos motivos que não vêm todavia agora ao caso, é possível dizer que... renasci um pouco hoje, acode-me ao espírito uma canção que há muitos anos anda comigo [primeiro em vinil e, mais tarde, em CD] em que se fala de alguma coisa que vem, de um modo muito especial [e apenas parcialmente figurado, devo dizer] a propósito: "Joe Hill" de Joan Baez.

Joe Hill, "the man who absolutely refused to die", herói de lutas pela causa da organização dos trabalhadores norte-americanos, de um respeitável filme de Bo Widerberg [com Tommy Berggren no papel de 'Joe'] e, também, claro, desta admirável canção da irrepetível Baez [esteve ainda muito recentemente em Portugal, lembro onde cantou Zeca Afonso, "Grândola" e onde, em tempos, se recusou fazer uma canção dedicada a um dos homens de Abril porque "não faz cançõers para militares"] que aqui recordo tributando-lhe, de forma simbólica, a minha eterna admiração e o meu mais do que justificado respeito pela sua voz sublime tanto quanto pela sua exemplar coerência.

Faço-o especificamente através desta canção porque também a mim houve quem não quisesse deixar que eu recentemente tivesse, desta feita ainda---e ressalvadas as devidas diferenças---em mais de um sentido, morrido...


I dreamed
I saw Joe Hill last night,
alive as you and me.
Says I "But Joe, you're ten years dead"
"I never died" said he,
"I never died" said he.

"The copper Bosses killed you Joe,
they shot you Joe" says I.
"Takes more than guns to kill a man"
Says Joe, "I didn't die."
Says Joe "I didn't die."

"In Salt Lake City, Joe," says I,
Him standing by my bed,
"They framed you on a murder charge,"
Says Joe, "But I ain't dead,"
Says Joe, "But I ain't dead."

And standing there as big as life
and smiling with his eyes.
Says Joe "What they can never kill
went on to organize,
went on to organize."

From San Diego up to Maine,
In every mine and mill,
Where working men defend their rights,
it's there you'll find Joe Hill,
it's there you'll find Joe Hill!

I dreamed
I saw Joe Hill last night,
alive as you and me.
Says I "But Joe, you're ten years dead."
"I never died" said he,

"I never died" said he.

"A Joan Manoel Serrat..."


... que tão bem soube entender e converter em música o sereno lirismo e a profunda ironia do canto machadiano.

"António Machado, Poeta"


Conversa recente com uma pessoa amiga a quem me ligam inúmeras afinidades trouxe-me mais uma vez à memória uma das minhas 'paixões intelectuais' mais estáveis, mais sólidas e mais profundamente entranhadas: a que há muito nutro pela poesia de António Machado.

Há---a vida confirma-no-lo a cada dia...---paixões que não se explicam: que se sentem; que, num certo sentido muito íntimo, felizmente não-racional e extremamente preciso, se completam a si próprias e, de algum modo, por isso, também, se esgotam, encontram a sua grande [e com frequência, única!] explicação e fundamento no serem sentidas de fiorma irreprimível e total, absoluta, e nos consumirem, assim, finalmente no irrepetível conjunto de emoções que despertam e preenchem, às vezes, pelo brevíssimo espaço do que nosd parecem ser apenas segundos, a vida inteira.

Falo de paixões como tal---por isso, no caso do que me liga à poesia de Machado talvez fosse mais apropriado falar de Amizade---uma grande e profunda Amizade que vem, como digo, de há muitos anos e passa por um ou vários exílios físicos mas também interiores e íntimos, por uma Guiomar impossível e por uma persistente saudade que toda a vida pareceu buscar o seu verdadeiro e sólido fundamento...

Na Poesia de Machado há, com efeito, um substrato de persistente sofrimento que o Poeta [seu máximo mérito e, em meu entender, sua grande lição de vida à posteridade] parece continuamente obstinar-se em sublimar em sucessivos e delicadíssimos clarões de puro génio ---textualidades sublimes onde a dor se converte quase miraculosamente uma e outra vez em felicidade---quanto mais não seja a de se saber ter, em geral, vencido os limites que são demasiadas vezes impostos pela própria Vida à possibilidade [ou à esperança] individual de se ser feliz.

De entre os textos de Machado que mais vezes relembro e sempre com a respiração suspensa de emoção como da primeira vez figura o 'instante textual' verdadeiramente fulgurante que imediatamente abaixo transcrevo e que diz:


Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar

súbitamente y quebrarse.


Há um conto de Salinger [de "To Esmé with Love and Squalor"] envolvendo um jovem que se suicida numa manhã de sol ardente que parece copiado deste magistral momento poético de Machado acerca do qual me permito fazer, ainda, antes de termimar, uma sugestão muito pessoal: experimente quem me lê ouvi-lo cantado por Serrat, Joan Manoel Serrat, e depois diga-me [ou diga a si próprio, é ainda melhor...]o que sentiu...

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Contaminação..."


Mário Soares fez recentemente, no teatro Charlot, declarações que podem ser entendidas como sérias críticas à política económica e social do governo...

Críticas de Soares ao governo feitas no Charlot?
Percebo: há pessoas que resistem pior do que outras à pressão subtil do espírito dos lugares onde vão...

"I Hope You Do!..."


A quem esta entrada é dedicada, não digo.

Não preciso de dizer...

Publico-a, porém, como imperativo da mais elementar justiça.

... Que tem de ser prestada, agora, porque assumi perante mim próprio, o compromisso solene de nunca ser preciso voltar, alguma vez, a fazê-lo.

Se não fosse, portanto, agora, deixaria de haver ensejo para ela.
Por isso...

"Uma das minhas..."


... maiores dificuldades consiste em decidir se sou lisboeta, se alentejano...

Por nascimento, sou lisboeta, claro.

Lisboetíssimo!

Aí, não há dúvidas; quando, porém, se trata de convicções,i.e., de onde sou por vocação, por onde em matéria de naturalidade o instinto me leva tudo se complica!

Às vezes, sou lisboeta, outras [sobretudo quando penso em tardes de estio habitadas praticamente só por remotos enxames de grilos tão vagabundos como eu---pesadas tardes de estio brevemente iluminadas de cursos de água frágil e reservada que são outros tantos gritos estrídulos de sábia frescura e pura luz irrompendo agilmente como aves duras e velozes da cortina tensa imóvel do calor] aí converto-me miraculosamente em alentejano e "nunca fui de outro lado" até ao mais íntimo de mim...

Outras vezes sou parisiense de Montparnasse, do Pernety, da Porte de Vanves, bruxelense de Ixelles ou Saint-Gilles e, uma que outra vez, por muito que isso a mim próprio custe a crer tendo em vista o frio e a saudade que por lá passei das margens álgidas do Amstel ou do Mosa.

Sou assim: não tenho, há muito, pátria nem lugar---apenas sangue e alma, crepúsculos mortos num deserto amargo e rente---que vão mudando continuamente de lugar como mãos ávidas, ébrias de um erotismo cifrado insaciável de luz e alturas que percorressem incessantemente o corpo em carne vida da memória mas da memória de um futuro que anoitece e se converte invariavelmente em cinza antes que lhe toque e o possua.

Eu fui criado num "Alentejozinho" em miniatura que era a casa dos meus pais em Lisboa: primeiro, em Benfica, depois na Penha de França, na rua do Triângulo Vermelho e, por fim, nos Anjos, na rua Palmira, onde a minha Mãe faleceu não "se acabando com ela, porém, o Alentejo"---esse Alentejo portátil e tenaz que, de um modo ou de outro, consciente ou inconscientemente, trago, desde essa altura, sempre comigo porque o meu pai [que um puro acaso da fortuna tinha feito nascer muito longe, em Moçambique, onde o meu Avô que era médico e militar, nascido em St. Aleixo da Restauração mas sedeado em Moura, esteve colocado] tomou a seu encargo fazer o que a morte e apenas a morte impediu a minha mãe de continuar a fazer.

Daí vem a memória rotunda e feliz do pão cortado ao peito e mastigado em religioso silêncio num tributo mudo à seara e ao suão---essa espuma obsessiva que cobre os dias densos e compactos de uma poeira invisível que é, no fundo, a própria luz----e essa propensão lenta e quase doentia para a saudade com que desde que me lembro me visto e de que, não-raro, me alimento, também.

Hoje, todavia, acordei [imaginem!] outra vez lisboeta, talvez até mais lisboeta do que nunca!

A dor que por pura crueldade e imperdoável estupidez infligi recentemente a alguém muito próximo fixou-me aqui à terra e estabeleceu entre mim e esta um laço dificilmente rompível que aqui me retém e submete até que expie a estupidez e acabe por convertê-la na única luz capaz de reduzir essa mesma estupidez ao silêncio e a noite na garganta onde ficou retida a uma massa de pura e alva claridade---um gás de luz e brancura de onde comece finalmente a sair a voz...


[Imagem extraída com a devida vénia de Ruin' Art]

segunda-feira, 15 de março de 2010

"De Hoje Em Diante É Que Eu Não Faço Mesmo Mais «Visitas»!"


Uma soma de desagradáveis pequenos 'casos' ocorridos em sequência no "Facebook" decidiram-me: "isto" vai levar uma grande volta e começou com a extinção da minha "conta" no próprio "Facebook", algo que finalmente descobri como se faz.

De aqui em diante, fica tudo ao critério do "Aquário" que há em mim...

É uma reviravolta que nem eu próprio tinha previsto...

Por vezes, nós os imprevisíveis "de carreira", somo-lo, com efeito, de tal modo que até a nós mesmos surpreendemos...

"Poe by Price"


Uma sugestão que seguramente vos supreenderá---e talvez delicie como me delicia a mim: Vincent Price, "the Vincent Price", lendo Poe, no Youtube.

Experimentem---e depois digam-me..."

"An absolute feast for one's mind---and ears---I can assure you"...

"Sacro Império"

"Gil Vicente na Televisão"


Hoje, de tarde... teatro: Gil Vicente numa encenação muito antiga [1968] com Mário Pereira, Fernanda Montemor e Lurdes Norberto, entre outros.

Dado tratar-se de uma encenação temporalmente... "arqueológica" [com cenografia de Lagoa Henriques, já agora] poderia ser-se levado a supor que a linguagem utilizada tivesse "envelhecido" demasiadamente, dificultando de modo talvez irrecuperável a percepção, e especialmente a fruição do belíssimo texto vicentino.

Nada mais longe da verdade, porém!

De facto, é precisamente o inverso que ocorre.

Um estúpido novo-riquismo pseudo-moderno tomou, de então para cá, demonstravelmente, conta da sintaxe e, de um modo mais amplo, da gramática televisivas e mesmo espectaculares, em geral.
Uma das razões que, com efeito, me tornaram um programa ainda recente de grande sucesso popular definitivamente intragável---falo de um famoso "Dança Comigo", transmitido ainda não há muito na RTP1---foi precisamente o trabalho verdadeiramente ignóbil, miserável, de câmara---uma câmara que, manejada com um inimaginável analfabetismo estético e até tecnológico, devia há muito estar [juntamente com quem ali, de uma forma tão afrontosamente inábil a manipulou] presa e definitivamente impossibilitada, de uma vez por todas, de repetir proezas como aquelas que ali, semanas a fio, impunemente, levou a cabo.

Uma câmara completa---obstinadamente!---impermeável às regras mais primárias e mais elementares não só já da linguagem televisiva como até do mero bom senso e do mais simples bom gosto---uma câmara para quem filmar alguém que, bem ou mal, tenta dançar é desenhar no ar, completamente alheia ao espírito e à essência da própria dança, estupidamente arrogante e megalómana, as mais improváveis e delirantes---as mais ébrias!---piruetas e esgares; uma câmara para a qual pés, mãos, cabeças, troncos etc. dos bailarinos são algo que, na sua in-essência, não se distingue--- algo de difuso, homogéneo, amorfo, meramente pretextual e sempre indiferente---indo tudo no limite "dar ao mesmo" porque, afinal, o que é manifestamente preciso é provar-se que se é modernaço e "genial" e a dança, boa ou má, repito, um mero pretexto para a "burrice dourada" dos analfabetos "de carreira" florir em pleno; uma câmara frenética na sua cega boçalidade e absurda epilepsia que foi sempre, ao longo das semanas, espalhando alarvemente no espaço indefeso de um écrã de televisão pedaços avulsos de corpos e fragmentos mutilados de movimentos, num arraial de crua insensibilidade e do mais genuíno mau-gosto, num num recorrente anti-discurso televisivo verdadeiramente de bradar aos céus.

Rever hoje, a quase meio século de distância, o modo sóbrio, inteligentemente humilde, esclarecidamente discreto como o realizador da versão televisiva deste clássico vicentino---Félix Ferreira, de seu nome---abordou a o texto e no-lo ofereceu faz muito seriamente pensar no modo ou nos modos como hoje se concebe o "progresso"---e não apenas em matéria de linguagem televisiva.

O progresso visto como algo completamente dissociável---e des/estruturalmente dissociado---do conteúdo do real e/ou especificamente do significado específico ou possível das coisas; o "progresso" como exercício gratuito de boçal indiferença e frequentemente mesmo im/pura arrogância relativamente à realidade no seu todo, seja ela estética ou ecológica, mediática ou política.

Quantas vezes revendo velhos programas de televisão reapresentados por esta mesma RTP Memória dou comigo pensando naquela genial frase/ideia que dizia que 'o passado dá sempre, de um modo ou de outro, um péssimo e degradado---para não dizer: degradante---futuro'!

"Completando---e Explicitando---Uma Ideia Apresentada Noutro Lugar [Mas Sempre Não ao Bullying Animal!]"


Não se ofendem os animais por se garantir a especificidade dos respectivos atributos e competências, o carácter particular da sua natureza e até das suas formas específicas de nobreza .

Ofendem-se é quando os desentendemos, reportando erradamente esses atributos e essas competências às nossas próprias---e vice-versa.

De resto, não é apenas a eles e a nós próprios que, nesse caso, desentendemos---e começamos, de algum modo, a violar: é a própria Natureza como tal...

"Jean Ferrat, 1930-2010"


Petrtenço, como há pouco ainda dizia, a uma geração que, mais do que qualquer outra coisa, perdeu heróis.

Todas as gerações os terão tido---e perdido---mas a minha terá sido também aquela que mais perdeu a ponto de hoje ser possível admitir que os tenho perdido... todos, irremediavelmente tragados, "en fin de partie", como diria Beckett, pelo 'sistema'.

Muitos vieram de Maio de 68 directamente para o poder e aí se instalaram [aí se acomodaram!]de forma aparentemente definitiva com grande vantagem para si mas desgraçadamente pouca ou nenhuma para os ideiais que pouco antes defendiam ou diziam defender: há um deputado "centrista" [seja lá o que for que isso signifique mas enfim...] outro que apresenta uma cor que jura a pés juntos ser esverdeada mas a quem o nuclear não incomoda e, sobretudo, não repele; há uma senhora cujo rosto foi um ícone do próprio Maio [vimo-la andar em ombros, brandindo uma bandeira vermelha] e que hoje se deixa conformadamente fotografar pela 'presse chic' do "Paris Match", essa longevíssima "Caras" francesa e por aí fora...

Poderia---poderá---ser que algum deles regresse, um dia, desiludido da experiência sempre, de um modo outro, pelas piores razões, marcante do poder ao seio dos heróis-referência dos desalinhados e 'vocacionalmente insubmissos'---dos sempre tenaz e orgulhosamente "descentrais"---como eu próprio, mais do que qualquer outra coisa, ainda hoje, permeneço?

Poderia---poderá---mas, como diz o anúncio famoso, não seria a mesma coisa...

Durante muito tempo tivemos Sartre, a Beauvoir, durante algum tempo, o Malraux e até certo ponto o Aragon [que o Ferrat cantou, aliás, num disco célebre] o Ferré, o "anarco-mor"; em Portugal, tivemos o Zeca e temos o Zé Mário, que, ao contrário de outros, não se rendeu.

Cuja obra felizmente, não se... "vendeu", como diz o Samuel, num trocadilho particularmente feliz.

E havia, até ontem ou anteontem, o Jean Ferrat, esse obstinado e romântico "Asterix ao contrário".

"Ao contrário" porque o Asterix era, no fundo, "demasiado direita francesa" para o meu gosto, sempre [ao menos, potencialmente] trauliteiro e vulgar e o Ferrat, para além da bigodaça e do sorriso 'malin' que a assemelhava exteriormente ao herói de Goscinny e Uderzo, era aquele tipo que em vez de cumplicidades mais ou menos fáceis, piscadelas de olho ao lado mais "avichysado" [ou... "avichysável" de uma França que, de um modo ou de outro, anda sempre "às voltas com" esse seu lado mais pétainista e mais nocturno] e fidelidades oficiais [mesmo a clichés---ou sobretudo a clichés...] tinha a fidelidade a si próprio, à sua obstinada e sempre esclarecida independência mental, intelectual e artística, à sua inegociável lucidez---aos valores políticos e de cidadania que exprimia na música que fazia [e sempre fez num país, queiramo-lo ou não, maioritariamente "de Sheilas" e "de Claudes François"] e que são também aqueles que mais custam a manter porque há sempre um momento ou outro na vida em que defendê-los é alguma coisa que se tem de fazer na mais absoluta solidão, contra quase tudo e quase todos.

Pois, a partir de ontem já nem o Ferrat temos e, com ele, perdemos, de modo irremediável, mais um herói.

... E agora ou inventamos outro ou---e isso, sim, isso é que seria o ideal!---tomamos nós mesmos em mãos o testemunho e convertemo-nos nós próprios, senão em heróis, ao menos em gente cívica e politicamente digna e capaz de não envergonhar a memória dos heróis que fomos perdendo e, sobretudo, não desmerecer dela no que ela teve de mais revolucionariamente vivo, mais subversivamente interventor e actuante e [idealmente, ao menos!] de mais estruturalmente libertador e, em mais de um sentido, intrinsecamente redentor da própria História como tal.


Anexo

QUE SERAIT-JE SANS TOI?

Que serais-je sans toi
Que serais-je sans toi qui vins à ma rencontre
Que serais-je sans toi qu'un cœur au bois dormant
Que cette heure arrêtée au cadran de la montre
Que serais-je sans toi que ce balbutiement


J'ai tout appris de toi sur les choses humaines
Et j'ai vu désormais le monde à ta façon
J'ai tout appris de toi comme on boit aux fontaines
Comme on lit dans le ciel les étoiles lointaines
Comme au passant qui chante on reprend sa chanson
J'ai tout appris de toi jusqu'au sens du frisson


Que serais-je sans toi qui vins à ma rencontre
Que serais-je sans toi qu'un cœur au bois dormant
Que cette heure arrêtée au cadran de la montre
Que serais-je sans toi que ce balbutiement


J'ai tout appris de toi pour ce qui me concerne
Qu'il fait jour à midi qu'un ciel peut être bleu
Que le bonheur n'est pas un quinquet de taverne
Tu m'as pris par la main dans cet enfer moderne
Où l'homme ne sait plus ce que c'est qu'être deux
Tu m'as pris par la main comme un amant heureux


Que serais-je sans toi qui vins à ma rencontre
Que serais-je sans toi qu'un cœur au bois dormant
Que cette heure arrêtée au cadran de la montre
Que serais-je sans toi que ce balbutiement


Qui parle de bonheur a souvent les yeux tristes
N'est-ce pas un sanglot de la déconvenue
Une corde brisée aux doigts du guitariste
Et pourtant je vous dis que le bonheur existe
Ailleurs que dans le rêve ailleurs que dans les nues
Terre terre voici ses rades inconnues


Que serais-je sans toi qui vins à ma rencontre
Que serais-je sans toi qu'un cœur au bois dormant
Que cette heure arrêtée au cadran de la montre
Que serais-je sans toi que ce balbutiement


Louis Aragon [musicado e cantado por Ferrat]

domingo, 14 de março de 2010

"Definitivamente..."


... Não ao 'bullying' animal!!

Quem quer provar que é inteligente usa para tal outros padrões que não a inteligência dos animais!...


[Imagem extraída com vénia do lugar de Fora Assessins de Bous de Catalunya, no "Facebook"]

"«Forty Guns»/«Quarenta Cavaleiros» de Samuel Fuller" [Por rever]


Quando ontem a RTP mutilou [mutilou mais do que exibiu o que, no caso vertente, assume foros de autêntica selvajaria e profanação!] "Forty Guns", de Samuel Fuller [1957] muito mais do que, por exemplo, "Johnnie Guitar" de Ray, o filme que mais vezes me acudiu ao espírito, infelizmente sempre pela negativa, foi "Vanitas" de Paulo Rocha, o filme português recentemente ainda passado na "Dois", numa sessão dupla conjunta com "O Espelho Mágico" de Oliveira.

Como disse, infelizmente, sempre pela negativa.

A base témica dos filmes é a mesma: o crepúsculo de uma era.

No filme de Rocha de que crepúsculo estamos concretamente a falar é algo mais difícil de definir---e talvez que o crepúsculo de que ali mais manifesta e mais abundantemente se "fala" seja o do próprio Rocha e/ou do cinema português como expressão culta de uma sociedade e de uma consciência esclarecida e esteticamente consistente dela.

No caso do filme de Fuller, um dos grandes "westerns"---não! Um dos grandes filmes americanos alguma vez realizados!---o crespúsculo perante o qual nós e o filme nos achamos é o da fase da expansão e da "conquista", o da fase "fordiana" da epopeia americana tão bem expressa no "western".

O grande mérito de Fuller é, do meu ponto de vista, o de ter não apenas uma linguagem muito pessoalizada para transmitir essa mensagem abstracta de decadência e de fim de História como, de igual modo, o de ter uma visão igualmente pessoal que ultrapassa largamente o discurso mais ou menos teórico e mais ou menos objectivo ou objectivado para radicar ou ancorar diferentemente toda a abordagem que da ideia em causa é feita nas personagens---nas pessoas, como tal.

Numa palavra: interiorizando, humanizando mas, também, complexificando profundamente a abordagem narrativa da matéria em questão.

Daí o uso esclarecidíssimo do preto-e-branco, numa espécie de subtil metaforização imediatamente idiomática da ausência de opções e, por conseguinte, da trágica fatalidade [muito inteligentemente, alguém chamou a atenção do espectador para o estatuto coral do bardo que canta duas belíssimas canções, duas baladas, sobre Jessica Drummond, a personagem titânica de Barbara Stanwick] do fechamento total da História sobre as figuras que, no écrã como na vida de que o écrã é eco, evolucionam numa espécie de labirinto ou até de círculo fechado---a 'ratoeira do real' onde parecem todos, de um modo ou de outro, apanhados.

Quando se compara este "Forty Guns" com, por exemplo, "Ride the High Country" outro "western" crepuscular, de Peckinpah este, percebe-se perfeitamente como aqui opera esta angulação precisa---este ponto de vista particular pelo qual é narrativamente 'apanhada' a ideia básica e/ou condutora de "fim".

Trata-se, com efeito de muito mais do que discorrer sobre o declínio por factos, fazê-lo por impressões e sentimentos das pessoas---por sugestões visuais a elas subtilissimamente reportadas--- fazendo com que, em última instância, muito mais do que acerca do fim, o filme seja acerca do modo como o fim é percebdo e sentido pelas pessoas acerca das quais o filme realmente, mais do que qualquer outra coisa, é.

Enquanto construtor de um objecto fílmico, Fuller é, de facto, extremamente inventivo, criativo e, por isso, invariavelmente interessante.

Não por acaso, há quem a propósito dele evoque alguns aspectos de Godard, por exemplo, ou esse torrencial criador de óperas que foi Leone.

Falando especificamente da linguagem cinematográfica em "Forty Guns", um crítico, Tony Williams, releva o modo como "à Godard" Fuller desdobra e descentra numa 'estudada torrencialidade' ou intencional simultaneização subtil da acção no écrã.

Ora, eu tenho para mim que há, nessa renúncia subtilíssima a fechar a acção num único ponto, o propósito de integrar aquela sugestão témica básica da inexpugnabilidade última do real, ou da impossibilidade dos indivíduos em épocas de decadência ou de crepúsculo em submeterem ou docilizarem, efectivamente o cursdo da realidade, escapando-lhes, ao invés, os recursos para controlarem a respectiva mecânica ou o respectivo funcionamento.

Há, pois, no modo como Fuller utiliza o motivo da policentralidade ou mesmo subtil descentralicidade da acção no écrã, o propósito de 'dizer alguma coisa' muito específica e muito determinada sobre a capacidade humana, pessoal e até mesmo, no limite, colectiva, para intervir na História no sentido de condicioná-la mas, sobretudo de significá-la.

Também, o motivo dos cavaleiros me parece um achado verdadeiramente genial com a sugestão fantástica da espectralidade [eu diria: quasi-bergmaniana ou---por que não?----"wim wenderiana" [1]---é outra sugestão metalinguística possivelmente europeia ou europeizante no filme de Fuller] e de absurdo no exacto sentido em que aqueles [aliás belíssimos!] espectros quase alados passam---ou erram?---aparentemente sem destino pelo écrã, "haunting it" como almas incapazes de reencontrar o seu lugar na acção e, por conseguinte, metaforicamente na própria História.

Ora, é precisamente nesta aptidão pessoalíssima para colar sempre sigtnificadamente a "arquitectura visual" do filme ao sentido que se prertende que ele tenha que falta [eu diria: de forma verdadeiramente confrangedora] a Paulo Rocha quando pretende, no fundo, dizer a mesma coisa que Fuller.

É, dito de outro modo, a velha questão do "orgânico" e do "in-orgânico" no cinema de que falava quando, aindas recentemente, aqui abordei "Vanitas" de Rocha: a velha questão da mais do que provável falta de uma disciplina escolar de "Composição" ou mesmo "Orquestração" no ensino do Cinema em Portugal onde, com raríssimas excepções, parece faltar essa perspectiva integrante global de que o filme de Fuller é um soberbo exemplo concreto.

O uso do "coro" na figura e, sobretudo, na voz de 'Jidge Carroll'/Barney Cashman evoca e mais uma vez, de forma subtil, integra no filme, como disse, a sugestão de tragédia grega---'Jidge' é o coro mas é também o bardo errante que fornece a dimensão mitificadora específica que é apanágio quase invariável dos heróis mortos, daqueles que já começaram a não estar "deste lado da História", como é claramente o caso de Griff e Jessica que, de resto, renuncia aberta, explícita e assumidamente, no fim, a esse seu lado mais titânico e mítico; mais ligado a um tempo e a um modo específico de ocupar a História e vivê-la para ser apenas a pessoa, o indivíduo que [outro momento subtilíssimo do filme] vai gradualmente sendo reduzida na dimensão e se perde progressivamente na distância, desaparecendo figuradamente do filme e da realidade nas sequências finais do filme.

Há, no entanto, uma ambiguidade [outro aspecto da complexificação deliberada que Fuller introduz no filme] entre o mal e o desejo: a hybris e a heroicidade, o Tempo e a circunstância---uma espécie de intencional dualidade ou dualização da perspectiva narrativa que potencia, em última instância, aquela sugestão de trágico que o filme contém.

Não esqueçamos que Jessica é uma mulher poderosa mas também manipuladora e, num certo sentido muito preciso, autoritariamente opressora e que 'Griff' é ou foi um pistoleiro.

A verdade é que nem um nem outro nos são no limite apresentados como figuras negativas, como vilões; de facto, eles são o próprio tempo e a própria circunstância, a seu modo necessária, que o filme 'apanha' já em pleno declínio, em plena crespúsculo.

Aquilo que os torna admiráveis é a consciência que ambos possuem da sua situação um termo muito... existencialista] e a possibilidade, ela própria muito existencialista, de fazerem opções e, por esse motivo, sairem com reconhecível dignidade da própria História.

Um grande "western" mas, sobretudo, um grande filme que merecia melhor sorte do que ser "cortado às fatias" e exibido apenas parcialmente por uma RTP que de cultura percebe, de facto, muito pouco.



[1] Wenders, como é sabido, ofereceu a Fuller um pequeno papel-tributo no seu belíssimo "Der Stand der Dinge", "O Estado das Coisas" de 1982.