domingo, 28 de fevereiro de 2010

"Mote...


... e glosa: "emptiness and void in De Chirico's suggestive metaphysical surrealism and in Hitchock' s subtle 'subjective realism'."

"Mote..."


... e glosa: "from Escher ["Relativity"] to Hitch ["Vertigo"]: reality's conundrum...

"Mote..."


... e glosa: "from Hopper to Hitch or how painting realized it could move"...

"Mote..."


...e glosa: from Magritte's painting to Hitchcock's cinema: "translating", even from one medium to another, does not necessarily meam "copying"---let alone "betraying"...

A Propósito de "Vanitas" de Paulo Rocha"


Ontem, na RTP2, houve "sessão dupla" de cinema português com um Paulo Rocha ["Vanitas", de 2004] e um Manuel de Oliveira ["O Espelho Mágico", 2005].

E houve, "do lado de cá" do écrã um desconforto íntimo e uma perplexidade que ainda estão longe de se ter extinguido....

Com efeito, se o Oliveira consegue ser razoavelmente estimulante ["geométrico" e rodando, como sempre, em espiral, embora, na sua aparente a-geometria e distintiva natureza sempre algo rígida e rectilínia, ele é, de uma forma algo contraditoriamente labiríntica, barroca e sempre muito idiossincrática, "pure Oliveira pós-"Aniki-Bóbó"/"Douro, Faina Fluvial"...]; se assim é, dizia, o Paulo Rocha é, sobretudo, "inquietante".

Cultural e cinematograficamente inquietante.

Há, definitivamente, um grave e profundo problema com o cinema nacional!

Falta----de forma gritante, clamorosa, arrasadora!---'uma indústria', claro.

Mas 'uma indústria' [como---deixem-me lá que, mais uma vez, puxe a 'brasa' à minha 'sardinha profissional': por alguma razão os meus "quistos" são todos ou quase todos... "didácticos"...]; 'uma indústria', como a autoridade perdida nas escolas, não se decreta nem se impõe por qualquer outra forma oficial.

É um dado de cultura, um "fact of life", como outro qualquer.

A verdade é que 'uma indústria' possibilitaria aos cineastas nacionais ["whatever that means---which is open to debate"...] pararem, de vez de, substituir, nas coisas que fazem, a prática do cinema [do Cinema] por uma outra, adventícia e completamente espúria, de "reflexão fílmica e filmada sobre ele" que está longe de ser a mesma coisa e configura uma realidade que não pára de gerar [e multiplicar!] equívocos e resistências que, em última análise, o inviabilizam.

Uma 'indústria' que pusesse os pontos nos ii em certas questões básicas, primárias, de linguagem [que diabo! A linguagem do cinema não tem de ser reinventada do zero a cada novo objecto: uma 'indústria'---mesmo implicando necessariamente a emergência de coisas horrorosas de todo o tipo, traz consigo uma certa "tranquilidade semântica" e "sintáctica" geral que falta, de todo, a um cinema, no fundo, completamente por re/inventar como é o cinema português de hoje].

A linguagem do cinema tão pouco é o fim de si própria e um fim em si própria.

Não pode ser!

Quando isso aconteceu na literatura, por exemplo, estava por trás uma forma de civilização para acabar---o que está longe de ser animador, como se compreende.

Sintomático, talvez, mas animador, seguramente que não!

Eu diria que, antes de uma indústria faltou [e continua a faltar? É uma pergunta que faço sem ter objectivamente elementos que me permitam dar-lhe resposta] uma Escola [uma Escola e uma escola, "if you get my drift"]...

Ou seja, uma Escola [instituição pedagógica com um corpo docente e uma filosofia e uma epistemologia próprias] que pudesse gerar e fixar uma... escola [um 'hábito' genérico, amplo, colectivo e estabilizado de cinematizar a realidade] onde alguém ensinasse, a partir de uma visão estável, consistente da Arte, a organicidade intrínseca do objecto artístico-filme, no mínimo dos mínimos.

O Cinema nacional tem uma 'arqueologia' própria onde esse saber chegou a estar já globalmente definido e a plasmar-se mesmo num acervo concreto de "meia-dúzia" de "coisas" cinematograficamente boas [politicamente boas é uma coisa diferente, entendamo-nos!...] mas esse saber, é de todo evidente, perdeu-se completamente nesse súbito "vértice" da nossa História política [e, para alguns, também mental] recente que foi o 25 de Abril.

Mas há uma coisa que é preciso ter presente: esse que foi o cinema 'da ditadura' [o cinema 'do Portuga que levou a ditadura "ao colo" até ao poder material e a man/teve lá, quarenta-e-não-sei-quantos anos]; até esse cinema nasceu, como todos nós sabemos, em última análise, inteiramente... por acaso.

Por acaso e contra a vontade e os projectos, o programa estético, estético-político, de António Ferro e Salazar---se é que Salazar teve algum mas enfim....

Mais: além de ter tido essa espécie de parto imprevisto, ele reduz-se "en fin de partie" a "meia-dúzia" de obras, de facto, cinematograficamente muito eficazes mas girando todas elas em torno de um motivo básico que, a dado passo, fatalmente se esgotou.

Que tinha necessariamente de esgotar-se e, de facto, como digo, se esgotou.

Havia, com efeito, uma "herança" tópica em termos de "estória" que vinha do Teatro, da comédia de boulevard [homens como André Brun ou Félix Bermudes, por exemplo, operaram como uma eepécie de ponte entre ela e o cinema] e que o 'regime' mais ou menos instintivamente adaptou---e "moralizou".

Os trocadilhos e equívocos envolvendo "chapéus de palha de Itália" [que deram de resto directamente cinema, em França com Clair, como se sabe] e bailarinas de cancan ou coisa parecida escondidas em armários de senhores respeitáveis deram pudicamente lugar a um temário onde havia sempre, de um modo ou de outro, um trangressor [que, às vezes, chegava quase "lá", i.e. à brejeirice original, como o "professor de Moral" d' "A Vizinha do Lado" de Brun/Lopes Ribeiro] mas que, em geral, se envolvia mais com questões de dinheiro---e/ou de falta dele.

Na realidade, aquilo que estava, a meu ver, em causa ali, era a ideia de que havia uns quantos "marotos" a quem, ignorando "o seu lugar" no projecto obsessivo de sociedade "socialmente arrumadinha", isto é, obediente, conformada e conformista [lembram-se do filme italiano, do Bertollucci, com esse nome?...] do salazarismo, dava para irem além da "chinela económica e social" que lhes estava destinada.

O que isso tinha de "social e politicamente dessarrumado" [fosse gastar o dinheiro de umas tias idosas ou o de uma outra emigrada no Brasil ou de...] era, também [ou era, sobretudo, era na essência] em abstracto, "traição à ordem estabelecida e, de uma forma ou de outra, à autoridade" [quem dá o seu dinheiro "aos pobres", dando-o generosamente aos mais pobres, não merece ser enganado: dos pobres exige-se que sejam gratos e cumpridores---é assim que funciona toda a pirâmide económico-social e política---a 'lição' de filmes como "A Canção de Lisboa" ou "O Pai Tirano" ou "O Leão da Estrela" é clara e toda a gente no 'Portugal mental, social e político' de então a percebe].

O grande mérito do cinema da época foi o de ter transformado isto que era, no fundo, uma ideia, toda uma retórica moral e, claro, política, num género ou subgénero com "pernas cinematogfráficas" próprias, para andar.

As "pernas" foram um Lopes Ribeiro ou um Arthur Duarte ou ainda um surpreendentemente versátil Cotinnelli Telmo [noutro registo mais 'sério', houve um desigual mas muito intuitivo Leitão de Barros ou um promissor mas, a breve trecho, completamente gorado Brun do Canto] e, enquanto houve maneira de [passe a vulgaridade da imagem!] "cozinhar o bacalhau temático" e homenas de talento para fazê-lo de várias maneiras aparentemente novas, houve cinema em Portugal.

A lição perdeu-se, todavia, por completo esgotado que foi o modelo.

Perdeu-se, aliás, ainda durante a vigência do 'regime' em que a ideia cinematográfica envolvendo o 'bom malandro' a que António Silva e/ou Vassco Santana [mais o primeiro] deram um rosto começou claramente a ser apenas [como dizer? Continuando a usar uma imagética mais ou menos... gastronómica poderíamos dizer] começou a ser, na realidade... "mastigada sem engolir" ["Um marido Solteiro", etc. etc.] e o cinema português visivelmente "encalhou".

Mas há uma coisa que me surpreende e para a qual não tenho, francamente, resposta: por que é que após o fim da I Guerra Mundial [com Antoine e o seu "cinéma libre", por exemplo] res/surge em França, todo um cinema "de ruptura e pobreza técnica" recuperada, sobretudo, esta última numa estética própria de onde vão surgir ou eclodir em triunfo; onde vão impor-se, afirmar-se, os Gance ou os Epstein, os Clair, os Renoir, etc. etc.; por que é que em Itália, após o fim da II Guerra aparece o neo-realismo, outro Cinema 'de crise e de ruptura', outro cinema "pobre", que soube fazer da pobreza um elemento de afirmação e auto-regeneração e abrir caminhos que levaram de "La Terra Trema", "Roma Città Aperta" ou "Sciuscià", por exemplo, aos ulteriores Fellinis ou aos ulteriores Viscontis já incomparavelmente menos políticos ou, no mínimo, de alguma forma menos "militantes"; por que é que assim é na França e na Itália dos põs-guerras mas, em Portugal, após a queda do fascismo e após o fecundo período de 'laboratório social e político' que foi, também em alguma medida, estético e especificamente cinematográfico, nada ou muito pouco de cinematograficamente fecundo, estável e consistente, todavia, emergiu.

Uma explicação possível é que, em Itália ou antes em França existiam bolsas de público culto para as quais a Arte era importante e o Cinema como forma de Arte um meio natural de reflexão sobre a realidade.

De modo que, quando o capitalismo se consolida na sua forma "democrática"--- democrática instrumental----por meio da qual se assegurou de que a 'propriedade e a gestão efectiva da História' [que os autoritarismos tópicos das décadas anteriores tinham deixado de garantir, algo que, em Portugal, fica a cargo de um falsíssimo partido "socialista" neo-bernsteiniano que teve de esperar ainda algum tempo, depois de '74, para... "pegar ao serviço" e re-colar a história do capitalismo nacional onde ela tinha ficado quando as massas populares, tão "inoportunamente" se interpuseram entre ele, capitalismo nacional e a História, em '74]; quando, dizia, se consolida o capitalismo democrático-instrumental em Portugal [ao invés da França ou da Itália onde houve uma classe ou amplo sector do público que continuou a pensar: a pensar a realidade em redor e a pensar-se a si próprio, em Portugal] nada pafrecido com isso aconteceu.

Em Portugal, antes [e infelizmente, no in/essencial, depois de Abril, também...] pensar há muito que se havia tornado um "luxo de ricos" e, de uma forma ou de outra, um hábito perigoso.

Portugal não tinha [eb nunca teve] um proletariado que "animasse" e "desse vida"; que "conferisse movimento" à História mas a verdade é que, tão-pouco, possuía uma intelligentsia que regular e, sobretudo, consistentemente, a pensasse: como se diz no futebol, Portugal... "não tinha extremos"...

E o pior é que "no meio" também acabou---de forma natural, aliás---tendo em vista outras "ausências históricas, sociais e políticas", por existir um vazio, um vazio crítico imenso onde cinematografia alguma poderia, em última análise, consolidar-se e prosperar.

Um ou outro filme, talvez---mas uma cinematografia?...

Seria isso?

Fosse-o ou não, a verdade é que não há hoje, demonstravelmente, um Cinema português---o que, voltando ao início destas notas, força cada realizar a recomeçá-lo [desde logo, no que respeita à linguagem, à gramática e até mesmo ao simples léxico] do nada---o que, não existindo cinema, tem, naturalmente, que se lhe diga...

É aí que falta, a meu ver, a tal Escola, a tal escola-instituição.

Uma escola, uma visão, uma perspectiva cultural mas, de igual modo, algo concreto e concretamente "ensinável" [com currículos, "estudo acompanhado", exercícios escolares, etc.] que permitisse evitar equívocos clamorosos como este "Vanitas", de um importante e consagradíssimo Paulo Rocha.

Que até fez "Verdes Anos", que é um verdadeiro ângulo ou vértice no Cinema português...

Se este existisse, claro mas a verdade é que, a partir daí, até poderia ter [re?] começado a existir.

Porque uma gravíssima falha de Rocha e especificamente de "Vanitas" é ter completamente ignorado que um filme é, antes de mais, um objecto orgânico---ou não é.

Não é filme, quero eu dizer.

É isso que falta, possivelmente, ensinar nas escolas já existentes: transmitir a ideia, o princípio teórico básico, autenticamente primário, de que um filme não é um exercício formal [isso faz-se na escola]; de que ele não é--- sempre, quero eu dizer; obrigatoriamente, quero eu dizer---uma reflexão obsessivamente recomeçada e nunca efectivamente acabada sobre o meio de expressão enquanto tal.

Não basta "fazer bonito", que diabo!

Um filme 'é' um argumento [algo que deixou praticamente de haver no cinema português]; são actores [que hoje ou vêm do Teatro ou são meros espontâneos "com jeitinho" mas claramente---lá está!---sem "escola" [um crítico, André Sá, na Net fala a propósito dos actores em "Vanitas" expressamente em "erros crassos [de Paulo Rocha] na direcção de actores" e tem toda a razão: aquela gente mais do que sugerir cinematograficamente, de forma "educada" e consciente, a decadência que se pretende ilustrar, parece, sobretudo, estar a fazer um frete incrível por a terem posto ali a fazer não se sabe bem o quê excepto um esforço hercúleo para conter os bocejos e adormecer de vez, completamente incapazses de vencer a gigantesca falta de convicção que parece ter-se apoderado de todos...].

Mas um filme é também uma visão total e um projecto consciente e consistente de gestão global de um conjunto integrado de elementos que vêm dar corpo a um outro projecto específico envolvendo rostos, posições significadas no espaço, uma estrutura e um fio narrativos, etc. que aqui, se existem, é apenas na forma de uma intenção teórica muito genérica e muito difusa, muito vaga e muito lata: "ir buscar imagens e poética a um género de pintura alegórica que floresce na Europa do século XVI representando a luta das Vaidades deste Mundo contra o Tempo e o triunfo da Morte" [cito da já referida crítica de André Sá].

Pois... o pior é que, não "havendo", como vimos, propriamente filme, bastavam... "a pintura e a poética": lá estavam, lá ficaram, nada ocorreu, envolvendo-as, que viesse dialecticamente "de diante para trás" i.e. do filme [presente temporal e/ou cultu(r)al] para a pintura [passado, idem], fosse em que aspecto ou plano fosse, que, mesmo remotamente, a tocasse quanto mais que chegasse efectivamente até ela.

Há, de facto, um imenso equívoco de organicidade no filme: ele tem, imagens, enquadramentos, belíssimos mas não arranjou [isso é evidente] contexto efectivamente cinematográfico para elas: desperdiças, esbanja-as ingloriamente, não sabe de todo, o que fazer cinematograficamente com elas.

Falta ali, de uma maneira que quase... "grita" aos ouvidos do espectador, uma marca pessoal distintiva, um sinal, um ponto de vista visual, plástico, consistente e orgânico sobre o que quer que seja: algo que "agarre", que dê mostras de uma determinação efectiva de cinematizar, de pensar já com o Cinema e não simplesmente usando-o.

"Vanitas" é uma "coisa", que, pelo ar de puro enfado e de pura impotência textual, narrativa, que dele a cada plano, a cada sequência se desprende, exaspera, impacienta, irrita mesmo---se pensarmos que é um filme de Paulo Rocha, "do" Paulo Rocha [do cineasta que fez "Os Verdes Anos" e merece, por isso, uma consideração a que o filme está, porém, a quilómetros de fazer jus] mas que simplesmente adormece, se não fizermos ao próprio Paulo Rocha, a justiça de, a cada momento, lembrá-lo...

Diz um texto que consultei que Isabel Ruth está excelente no papel de 'Nela Calheiros'; eu diria que, perante o que a rodeia nessa matéria e com a experiência da própria Isabel Ruth, difícil seria que, mesmo que não estivesse, não perecesse, pelo menos, estar...

Resumindo [e, repito, não há o mínimo de má vontade, nisto!]: "é "Vanitas" [sem exagero] um daqueles filmes que, passe o sarcasmo, é preciso não ver para... gostar; um que serve para se perceber exactamente por que razão, para muitos portugueses [nem sempre pelos melhores motivos, é certo mas essa é outra questão!] o cinema se divide ainda em cinema "bom" e cinema... português.

Talvez tudo ou quase tudo sobre o filme fique dito citando, num ponto particular, o blogue "O Insurgente": segundo este, o filme que custou ao ICAM 645.500 euros, teve ao todo, 493 [!] espectadores, o que dá 1315 euros, nas contas do blogue, por espectador.

Será preciso dizer mais?...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

"Sobre a Legalidade da Divulgação Pública das Escutas do «Face Oculta»"


Admito [não é a minha área de formação académica e apenas posso, quero---e devo!---por isso, abordar esta questão do ponto de vista cidadão, no fundo, aquele que interessa e ao qual deve em última instância submeter-se o domínio técnico, técnico-jurídico, que deve, por sua vez, ser sempre um instrumento de expressão operativo do interesse colectivo e estar, portanto, na essência ao serviço dele e não ao contrário]; admito, dizia que, do ponto de viasta estritamente jurídico-formal não seja legal fazê-lo, uma vez decretada nas instâncias regulamentares a sua nulidade efectiva.

Como cidadão de um Estado de direito, devo, repito, aceitar essa deliberação.

Mas, igualmente como cidadão do mesmo Estado de Direito, devo, tendo em vista a gravidade potencial [ou real, efectiva---o facto de haver gravidade potencial num caso como este, envolvendo em última análise, quem envolve, transforma imediatamente essa grravidade em real!] do que veio a público, pôr frontalmente em questão o problema da adequação objectiva que [in?] existe entre o conteúdo e a forma operativa da Lei [ponto de vista cidadão].

Ou seja, sendo o Direito uma "ciência" [ou, no mínimo, uma "ciencialidade operante", enfim, uma "ciência humana"] as suas formulações específicas são questionáveis, enquanto forma, adequadamente pelos técnicos, pelos juristas, e apenas ou sobretudo, prioritariamente, por estes.

Mas a adequação da forma do Direito ao seu conteúdo operativo [enquanto expressão actuante---ou não---esta da Ética de uma certa sociedade] essa tem de ser posta em causa [quando for obviamente caso disso] pela sociedade à qual o modelo concreto de Direitro se reporta.

E esse é que é o ponto de vista cidadão.

Se um edifício legal, neste caso o que vigora em Portugal hoje, é capaz de permitir que suspeitas tão graves como as que vieram a público envolvendo o primeiro-ministro sejam elididas através da possibilidade [ou, pior ainda, da inevitabilidade] de declará-las nulas, há, seguramente, uma falha, um lapso, um "gap" naquela adequação que tem de ser, no mínimo, seriamente considerado como "questão" ou "problema", técnico porque social e cultural.

Não se trata, pois, em síntese, para o cidadão anónimo e leigo na forma do Direito que sou de questionar a deliberação do Procurador-Geral de anular [independentemente do direito, com minúscula, que me assiste de ter dúvidas sérias sobre ela mas que não passam em última análise, disso: de dúvidas e/ou meras incertezas mais conjecturais do que substantivas insuficientemente satisfeitas]; trata-se, sim, muito claramente de ter dúvidas [e agora já substantivas, já fudamentadamente legítimas] sobre se este Direito---aquele que permite a anulação das escultas e o seu "empochement" legalmente sustentado, corresponde ou não à Moral da sociedade em que vivo que o mesmo é dizer que se trata de questionar a adequação orgânica entre a sociedade e o seu Direito ou ainda de pôr em questão a operatividade e a eficácia moral do ["meu"] Direito.

São aspectos distintos, o técnico e o cidadão, mas se há um [e há!] que deva inquestionavelmente prevalecer sobre o outro [porque o prevalecido é sempre instrumental relativamente à posta em acto do outro] é o ponto de vista cidadão que emerge do conteúdo do Direito enquanto que o outro ponto de vista emerge da forma ou da mera técnica instrumental desse mesmo Direito.

Não há confusão entre ambos se esta espécie de 'geometria funcionante integrada' da "juridicidade histórica" como o todo orgânico que é for adequadamente entendida e posta em prática.


[Imagem extraída com a devida vénia de estavapensando-dot-files-dot-wordpress-dot-com]

"O Terramoto no Chile"

Informa-me Luisana Medida que o número de mortos no terramoto do Chile ascende, neste momento, já a 78.

[Na imagem: cenário para a ópera "Das Erdbeben in Chile" de Jan Cikker [1911-1989] baseada na obra homónima de Heinrich von Kleist.

"Sobre o Imperativo Científico da Existência de um Modelo de Educação Sexual para o Ensino Público em Portugal" [Não revisto]


Leio no "Público" de hoje, dia 27.02.10 um título que me chama a atenção: "Crianças muito expostas a imagens sexuais e isso traz problemas".

É preciso começar por dizer que isto, posto deste modo categórico e descontextualizado, é disparate: é um mau título, por conseguinte.

É mau porque perpetua implicitamente um equívoco---um equívoco que está, aliás, já a outro nível e outro plano bem mais amplo e relevante, na base daquilo que é, na in/essência, a des/política oficial do poder em Portugal na área da chamada 'Educação Sexual'.

O equívoco que a formulação tem implícito era "normal" há trinta e cinco/quarenta anos.

Hoje, não!

Vai, com efeito, sendo altura de se começar a ter da sexualidade humana uma perspectiva verdadeiramente científica, i.e. moralmente neutral, de aproximação cognitiva que permita que abordemos como comunidade educativa, a questão exactamente do mesmo modo não impositiva e não-previamente [não-abusivamente!] "significado" como abordamos [ou devemos abordar]qualquer outra questão no sentido de a organizarmos no término como conhecimento.

O que vale por dizer: é preciso [mais uma vez insisto nisto!] que saibamos distinguir [e exigir que seja distinguido onde deve impreterivelmente sê-lo que é, desde logo, na base de tudo, nos programas e currículos escolares---na filosofia educativa] o olhar religioso do olhar científico a lançar sobre a realidade e que, sendo nós como povo, uma sociedade do século XIX, formalmente laica, desses olhares, aquele que passemos para as instituições académicas em geral seja este último e não [mesmo camufladamente, mesmo 'de contrabando'...] o primeiro.

Devo dizer que me surpreende [e até choca!] que seja, em geral, a direita a pretender que signifiquemos antecipadamente o modo [que devia, repito, ser sempre científico e objectivo] de abordar questões como a da Educação Sexual.

Desde logo, porque preconizando ela, em teoria, valores de "liberdade", não se percebe que não permita ou pretenda [e até aqui com sucesso prático] que não seja permitido que as pessoas usem livre e autonomamente o conhecimento adquirido em moldes objectivamente modernos.

Eu posso obviamente exercer a minha sexualidade desta ou daquela maneira e uma delas [ou várias delas] serem consideradas 'imorais' por alguém que comigo partilha a sociedade.

Agora, isso é uma coisa---que é em si mesma legítima no sentido preciso em que configura o exercício, por parte dos hipotéticos críticos da minha não menos hipotética conduta sexual, de um direito socialmente reconhecido: o da liberdade de crença ou de pensamento, em geral.

Outra coisa [e aqui é que bate o ponto!] é pretender que o conhecimento das coisas em si e estas mesmas, independente do seu uso ou usos sociais sejam "imorais".

Que possuam uma natureza moral própria, ínsita, intrínseca em si, distinta da sua natureza científica.

Esta segunda atitude é a das sociedades pré-científicas e ou "totémicas".

Aquilo que eu afirmo [e foi precisamente por aí que comecei] é que formulações que confundem, ao menos implicitamente, a natureza objectual e uma suposta natureza, natural e intrinsecamente "moral", da realidade paralela, concorrente ou mesmo anterior àc sua natureza essencial, estrutural, são formulações de natureza objecivamente obscurantista e anti-científica que Estado algum deve acolher no seio do seu património institucional específico e, por maioria de razão, especificamente educativo.

Confundir as imagens da sexualidade, no caso do título do "Público" com os usos teórica ou mesmo convencionamente---cultu[r]almente errados que dele se podem fazer não é uma atitude científica nem ajuda a que esta se forme no seio da sociedade em geral.

Claro que não está aqui em causa a liberalização do acesso a qualquer imagem de índole objectualmente sexual, independentemente, por exemplo, da idade dos sujeitos.

Agora, não se pode é em rigor dizer que a exposição de crianças ou adolescentes a imagens sexuais "traz problemas": o que traz, em abstracto, problemas é o mau uso que como comunidade educativa e/ou educacional em geral fazemos, neste caso concreto, do conhecimento.

As imagens sexuais como o próprio sexo [ou até a nudez que não é em si mesma nem moral nem imoral] fazem parte da realidade, são algo normal na vida, à vida e até indispensáveis, de um modo ou de outro, à vida.

O que traz problemas [e muitos!] é a minha eventual falta de capacidade, como pai [como "parent"] ou como professor e como sistema escolar, para transmitir esta ideia que é intrinsecamente autónoma relativamente a qualquer leitura moral, 'moralizante' ou 'moralizada' que dela façamos, aos jovens.


[Imagem 'gentilmente cedida' por lincoln-dot-iu-dot-edu]

"Ainda o mito da «gnoseotopia»perante a circunstância concreta de uma catástrofe natural"


No momento em que produzo esta 'entrada' do "Quisto", apenas se sabe, em essência, que houve um terramoto com a intensidade de cerca de 8 pontos na escala de Richter, no Chile.

Tem-se conhecimento de mortes mas as informações permanecem escassas.

Seja como for, o "meu mês" tem-se revelado singularmente trágico: o Haiti, a Madeira, agora o Chile...

É preciso, todavia, não fazer como um fulano na TVI que se entreteve a misturar todas essas tragédias com o propósito de evidente de... "epoustuflar", muito "à TVI".

Não se trata de confundir terramotos com cheias---circunstâncias, na origem, igualmente de origem natural mas [e aqui é que bate o ponto] de previsibilidade distinta e uma e outro com consequências em matéria de segurança para as pessoas e para as respectivas comunidades por elas formadas distintamente controláveis, digamos assim.

Tanto quanto sei, eu que nãso nem geólogo, nem meteorologista, podem-se prever com alguma antecipação períodos de chuva mais intensa mas não um terramoto que [volto a dizer: tanto quanto sei---e julgo saber aquilo que um cidadão responsável mas sem formação científica específica deve saber] possui padrões de previsibilidade incomparavelmente mais amplos e distantes.

Há toda uma pedagogia e uma prática política concretas a fazer, num caso como noutro, mas essas, desgraçadamente, não as fazem nem o poder político em geral [muito mais interessado, por exemplo, em copneber modelos de compatibilização e compatibilidade com o poderosíssimo sector da construção civil, nomeadamente a nível onde os rendimentos legais das autarquias se encontram, de algum modo, é possível dizer-se assim: 'indexados' ao volume da construção/impermeabilização dos solos] nem as televisões enquanto não houver [ou se não houver] da parte da sociedade civil uma forte e bem determinada pressão exercida sobre uma e outra entidades, em especial, por razões óbvias sobre a primeira, nesse sentido.

O que a televisão-tablóide [e, no fundo, qual a televisão que não é, hoje-por-hoje, tablóide?...] visa é, porém [exactamente ao contrário daquilo que é verdadeiramente essencial e que é ir directamente às causas dos fenómenos] fixar-se nos sintomas exteriores dos mesmos que são o âmbito onde ela pode facilmente movimentar-se no sentido de concretizar as operações de tráfico de impressões e emoções que são o objecto real do seu "negócio" comunicacional].

Passar uma e outra vez imagens de catástrofes pode garantir audiências mas não resolve o que quer que seja no sentido de se evitar construir em leite de cheias; de se impermeabilizarem caótica e indiscriminadamente os solos; de se desflorestar irresponsavelmente com o único e cego objectivo de recolectar exaustivamente matérias-primas; de se confundir ecologia com mera "decologia" [que é a aberrante "fusão" de uma certa imagem reduzida e redutora da própria Ecologia com simples "decoração vegetal e/ou animal"; com mero "alibi biomórfico" destinado a justificar formalmente a construção] ou, no caso da prevenção conttra abalos telúricos, tornar compulsivas medidas já conhecidas no âmbito da localização das zonas habitacionais e no âmbito específico da engenharia dos edifícios.

Insisto num ponto que me é caro: o nosso modelo de "desenvolvimentalidade"é in/essencialmente caracterizado pelo facto de as diversas produções de natureza económica serem, de facto [como, aliás, de direito] ancilares e instrumentais em relação ao produto situada no núcleo activo mesmo do paradigma que é o capital.

I.e. aquilo que, nas sociedades democapitalistas de hoje, realmente, se produz ou---reproduz continuamente---é capital: todas as restantes produções operam como um mera variável e/ou alfaia possibilitadora politicamente "legitimadora" dessa produção nuclear---é isso que define na base o sistema, que o explica e é a percepção clara e rigorosa disso que permite entender o seu verdadeeiro funcionamento, em todos os estádios e fases do processo.

Como a ciência, o conhecimento científico, é produzido para ser investido imediata e directamente, sem escala pela sociedade no seu todo, no processo privado de produção de capital, ele e as formas de consciência e de inteligência da realidasde que a partir dele se formam não chegam topicamente ao vulgo.

Mais: não chegando ao vulgo não chegam à política porque o vulgo as não exige.

Gera-se, desse um modo, um vácuo, um vazio des/estrutural, um "void des/construcional" naquilo que é a passagem da Política à prática.
Quando se olha para as cidades do "Ocidente" actual, é impossível não se ficar boquiaberto de perplexidade com o gritante desordenamento da maioria senão da totalidade delas, a todos os níveis e em todos os planos.

A constatação é tanto mais surpreendente e imediatamente inexplicável por se tratar de uma época da História em que a tecnologia se desenvolveu de forma verdadeiramente extraordinária!

De facto, porém, ela não chega à política: não chega ao urbanismo, não chega [senão muito relativamente sob a forma tópica de negócio] aos serviços de Saúde pública, não chega ao essencial dos serviços do Estado como tal.

Está, claro, nos hospitais privados, nas clínicas de luxo, nos condomínios inacessíveis ao comum dos cidadãos onde os acabamentos de luxo [que, de facto, em muitos casos, como no da prevenção anti-sísmica, são de segurança elementar e básica] e por aí adiante.

Mas isso apenas prova a minha asserção de que a ciência, nas sociedades mistificatoriamene designadas "do conhecimento" só chega à base dfa pirâmide económico-social na forma de "produto" ou, como julgo mais rigoroso e mais exacto dizer de "produto" [de facto, de sub-produto da produção de capital!] "inerte".

"Inerte" porque já não permite gerar por si ulteriormente capital.

Porque mesmo quando isso é teoricamente possível há um Direito específico, próprio, que o impede.

O mito da "sociedade do conhecimento", da sociedade "gnoseotópica", intencionalmente propalado pelo poder para esconder o "void des/construcional" de que atrás falo apenas ajuda a evitar que a falácia que existe no próprio núcleo deste paradigfnma de distribuição social des-igual do saber seja percebida---e adequadamente combatida.
[Na imagem: gravura alusiva ao terramoto de 1755, em Lisboa]

"Difícil de crer?..."

Difícil de crer?
Sim---porém, tragicamente, bem real!

"Frida [Ferida?] Kahlo"


O onirismo febril, falsamente naïve e enganadoramente decorativo; os cromatismos em delírio, agudos, dilacerantes [a cor "em ângulo recto"]; os questionamentos frenéticos do espaço e da estrutura global ou total da [ir] realidade em que ele [sempre com uma falsíssima serenidade] se movimenta e que ele recolhe e redifunde contínua e significadamente devolvendo-o drasticamente ressignificado ao [ir] real, seu proprietário original; as multiplicações caleidoscópicass do [sur] real; a semântica visual [neoplásica?] inquieta e irreprimivelmente contagiante; a eloquência visual torrencial do todo---eis Frida Kahlo [res] sentida aqui no "Quisto" a propósito do "upsurge" de "latino-americanicidade" directamente proporcionado pelo envio do texto poético que imediatamente abaixo se reproduz.

"«Febrero 89», canção por Julio Jorge Perez Venezuela, enviado por Luisana Medina"


FEBRERO 89 [*]


Está vacío el anaquel,
no hay que comer
y la sardina ya subió por quinta vez
en la semana.
Otra vez
Carlos Andrés balbucea pendejadas
Mientras nos vende y nos dispara
Por la espalda.
Dispara primero y averigua después,
ñángara muerto no vuelve a joder,
desaparecido desaparecido esno perturba,
y no perturba la paz de la clase alta
que es lo que importa pa’ la finanzay
pa’ que el Fondo Monetario nos devuelva
la confianza,
huele a hambre toda la casa,
el apetito de los críos con Perrarina se calma.
¿Quién puede sobrevir con un sueldo de albañil?
Mucho menos cuando el patrón
se monta en el avión
y le da la gana
de irse pa’ Miami
a consumir veinte botellas de Swingy
gastar nuestro salario
En su barragana.
Si el pueblo se arrecha
nadie lo va a parar,
arde el barrio a punto de estallar,
no servirá de nada la represión policial,
ladran los perros,
bajan los cerros pa’ acabar con esta vaina,
el mal gobierno caro se pagala mejilla
del obrero no aguanta otra bofetada
pa’ l candado la cizalla
y para el oligarca la justicia de las masas.
Es febrero 89
es veintiocho
y no llueve
pero la sangre se encargó
de humedecer la carretera
para que pueda resbalar
el furgón de impunidad
que transporta nuestros muertos
A dónde no los vean.
A la fosa común no le cabe uno más,
Revienta la peste con la dignidad
de los que murieron por llevar el pan
hasta su casa,
es lo que pasa si nos quedamos callados
hoy esos muertos cumplen 21 años
21 años de silencio,
21 años sepultados,
21 años esperando a que la justicia ciega
por fin le tienda los brazos,
21 años reclamando hijos desaparecidos,
cuerpos no identificados.
Cemeterio abarrotado,
órdenes de exhumación,
trámites es Fiscalía,
más planilla pa’ l cajón.
Burocracia que asesina al proceso
y no termina de encajarcon
las ideas que nos hablan de justicia,
de igualdad
y libertad.
Burocracia que asesina al proceso
y no termina de encajar.

Jorge Julio Perez Venezuela


[*] [...] no seu segundo governo, Carlos Andrés Pérez [...] em Fevereiro de 1989 [fez aprovar] um plano de austeridade fiscal que foi duramente contestado pela população venezuelana, especialmente a de Caracas. Tal descontentamento popular ficou conhecido como "Caracazo" e é tido por muitos como a génese do 'fenómeno Hugo Chávez' [...] [apud "Wikipédia"]


[Na imagem: Desenho de Diego Rivera, México, "Niño Con Taco"]

"Sobre Alguns Aspectos de Uma Ecologia Desejável da Produção Linguística: Ainda o Acordo Ortográfico"


Ainda o chamado Acordo Ortográfico.
Sobre ele, uma breve reflexão incidindo especificamente sobre dois aspectos que passo a detalhar.

Primeiro, a noção de "consoante transparente" [ou signo verdadeiramente funcional"].

O presente "acordo" assenta, como é pelos seus mentores e propugnadores em geral, expressamente admitido num imperativo [muito limitado, redutor, confuso e linguisticamente exógeno, porém] de ser "funcional".

A perspectiva pela qual é aferida a natureza "funcional" das "reformas" propostas é, todavia [e aqui é que reside o problema] o reflexo de um espírito [um "espírito-de-época"] de des-estruturação consistente, de des-cientifização das formas comuns de saber [e especificamente de "aprendizagem", no âmbito escolar intermédio, um fenómeno de que, como professor, tive, de resto, amplas oportunidades de constatar]; de des-tecnologização global tópica que resulta [é uma velha tese minha que retomo aqui] por sua vez, do fenómeno igualmente tópico nuclear de apropriação do saber e da sua utilização especificamente política no processo de produção histórica privada de capital sobre o qual tenho persistentemente elaborado teoricamente noutros lugares deste "Diário" e não só e cujos efeitos se fazem sentir em toda a sociedade, em geral].

O que eu quero dizer é o seguinte: funcionalizar continuamente a expressão linguística das pessoas e dos povos em geral é, em si mesmo, algo de [obviamente] positivo, de um ponto de vista epistemológico específico, próprio.

Aquilo que os acordiastas ignoram é que, em geral, a língua "se reforma natural e espontaneamente a si própria" sem precisar, em geral, de intervenção exterior normativa demasiado "musculada" e 'excessivamente prévia', digamos assim.

Quando alguém se põe a "mexer" ou mesmo a "brincar" com a língua por imperativos puramente políticos o resultado é inevitavelmente o sofrimento da língua, claro, mas, sobretudo [e, de forma paradoxal, relativamente à intenção original do reformador] o do pensamento que através dela [i] se expressa mas, muito especialmente, o que através [ii] dela é continuamente re/feito.

Há, na realidade, uma ecologia da produção linguística como 'escala técnica' do "círculo producional" global que é a construção contínua de pensamento ou de "inteligência específica da realidade" que, interferida arbitrária e autoritariamente, de forma exógena e disfuncional, do exterior [configurando um "delito ecológico" como outro qualquer] conduz de imediato a "crises" no contexto próprio de todo o processo [que, insisto, não é autónoma e exclusivamente linguístico, linguístico-formal] e, no limite, à desfuncionalização final do mesmo.

Retomo aqui o "caso" das consoantes ou signos funcionais.

Vistas de fora, consoantes como o "p" em certas palavras do português, parecem completamente "inúteis".

E, se, por exemplo, no Brasil, se escreve "receção" lendo-se com o "e" aberto [«recéção»] "recepção" porque existe um impulso articulatório---não sei se natural, em toda a verdadeira acepção da palavra [não é isso que está aqui agora fenomenologicamente em causa, de resto] mas objectivamente presente, em qualquer caso, para a abertura generalizada da massa vocálica---em Portugal, isso não acontece pelo que, no contexto específico do português falado em Portugal, o "p", passou a desempenhar aí a função de abrir ou clarear a vogal que, de outro modo, espontaneamente fecha.

Se nós compararmos os termos portugueses "recepção" e "recessão" percebemos, de imediato, aquilo que eu estou a dizer.

É, por isso, absurdo para não dizer outrra coisa] pretender que o "p" é estruturalmente "inútil" quando nãso se lê.

Insisto: não é inútil porque ler-se não é tudo o que se exige de um signo linguísto.

Também não lemos os acentos e não é por isso que [até agora, pelo menos...] os "deitámos todo fora".

Deitámos há muito o 'trema', o 'umlaut' alemão e o resultado foi que temos hoje, por exemplo, dificuldade em explicar logicamente---com alguma discernível lógica objectual, em todo o caso, pelo menos em certos estádios básicos da aquisição de língua, numa fase em que a aprendizagem dos mecanismos etimológicos determinantes ainda não desempenha qualquer papel verdadeiramente relevante, assentando, de facto, em referenciações de natureza muito mais imediatamente prática e objectual---por que razão «aguentar» "é" «agUentar" e «unguento» "é" «ungUento» mas... «guerra» não é «gUerra», como em italiano...

Pois...

Tal como na ecologia chamemos-lhe 'genuína' ou global, em sentido lato, interferir em excesso e, sobretudo, de forma arbitrária e autoritária, exógena ou exogenamente política, na realidade pode ter consequências imprevistas e, sobretudo, perversamente disfuncionais.

A línguas, insisto, possuem uma "ecologia da evolucionalidade formal" ["ciclos ou círculos eco-estruturais e eco-estruturantes que se geram e idealmente regeneram continuamente a si mesmos] numa dinâmica globalmente própria que não asdmite impunemente interferências e/ou concretas manipulações ["tampering with"]---por muito "politicamernte generosas" que sejam as intenções de quem tenta fazê-lo.

Se eu quisesse aqui "falar linguista" [como os autores de uma famigerada e taxonomicamente delirante tabela ministerial ainda recente] diria que, nos processos de [permitam-me que recorra, ainda neste ponto em concreto, mais uma vez, a uma semântica própria] nos processos de "volução" ou "deslocação formal" linguística se verificam basicamente dois movimentos: um que vem da "semias" para o "sema" ou "semas" e outro que vai, de algum modo, revitalizado, do "sema" ou "semas", de volta para a "semia".

É este duplo movimento, esta tectónica intercomplementar espontânea, orgânica, permanente que permite fazer [e manter!] o vínculo ecológico ideal da "langue" à "parole" e da "parole" à "langue", para utilizar uma semântica saussureana clássica.

Que permite ligar o universal ao particular e este, de novo, ao universal.

Que promove a democratização da produção de língua e pensamento [e pensamento! E 'inteligência da realidade'!] e, ainda uma vez o repito, conservar o equilíbrio ou equilíbrios ecológicos, ecoformais, genericamente funcionantes nos mecanismos de produção de língua ou de "idiomaticidade".

Porque [e esse é o outro aspecto da questão que eu queria aqui voltar a abordar] nós vivemos hoje, essa é que é a realidade, numa suposta "sociedade do conhecimento" ou "gnoseotopia" de raiz tecnológica que alegadamente forneceria um rosto estável e mesmo tópico à História---marcando, de forma indelével e nuclear, determinante, o nosso modo característico de abordá-la e de abordar, em geral, a realidade.

De facto, assim não é: a "gnoseotopia" é uma ficção civilizacional [e especificamente política] que outro conteúdo não possui para além da sua natureza [im] puramente estatística e simplesmente formal, isto é, não é por haver muita tecnologia e muito saber "em suspensão" numa sociedade que esta possui um e outro, democraticamente distribuidos pelo conjunto dos indivíduos e das classes que a compõem, tal como sucede, aliás, com qualquer outro bem a começar pelo próprio capital...]

De facto, nas sociedades de capitalismo tecnológico [é "disso" que estamos realmente a falar] não foi apenas o saber, o conhecimento, que foi "enclosed" para ser continuamente reinvestido no processo de produção histórica e social de capital: foram, a montante e a jusante, o essencial dos meios subjectivos, a ciência abstracta, de gerar naturalmente inteligência da realidade.

Não apenas o conteúdo do saber mas, de igual modo [e até sobretudo!] a sua forma, a sua técnica em abstracto.

O saber pressupõe, com efeito, também ele, um 'universo ecológico' próprio, uma ecologia da respectiva produção que é exterior ou recorre a componentes exteriores [as escolas, etc.] mas, de igual modo interior [um específico abstracto ligado ao desenvolvimento próprio da inteligência, da criação de estruturas causais prévias na consciência a partir das quais se organiza todo o olhar cognitivo ou cognicional que vai ser lançado para o exterior, etc.]

Ora, esse património é naturalmente é implícita e reconhecivelmente] privatizado com o resto do saber e é, por seu turno, esse processo que permite que, no conjunto das sociedades de capitalismo tecnológico, persistam, de forma tópica, formas de representação, chamemos-lhe "teórica" da realidade que, de facto e em si, em muito pouco diferem da superstição e/ou dos paradigmas 'primitivos' de cognicionalidade por desrepresentação totémica, ligadas a modelos de causalização puramente "sintomáticos" ou "epifenoménicos" cognicionalmente inertes e atípicos.

No limite, existe, hoje, nas sociedades em que o saber foi efectivamente privatizado e se encontra no essencial já "enclosed", formas espuriamente "políticas" de preencher o 'vazio gnoseomórfico' assim criado: a emergência de formas de sacralização, formalmente causal ainda, dos meros fenómenos, dos "sintomas" do real [porque os mecanismos de sequenciação abstracta da realidade exterior são de ordem instintiva, biológica e filogénica e não dependem, em meu entender, do respectivo conteúdo sendo-lhe de facto sempre---e muito---anteriores].

Existe uma "ciencialidade" sincrética, amorfa, difusa, multifenoménica que substituíu já a propriedade da ciência e dos meios de acesso directo à realidade que foi, como digo [mas nunca será demais repetir se queremos realmente saber como a realidade histórica e política se forma---e se explica---no in/essencial hoje] privatizada e convertida numa propriedade [dos grandes conglomerados multinacionais] onde é usada como matéria-prima na produção de capital.

Fora dessa classe sacerdotal gnoseomórfica, o saber que circula é o tal saber totémico que sequencializa objectualmente sintomas e epifenómenos.

É aí que se formam as nossas representações dismórficas e disfuncionais do real; é aí que os aprendizes de feiticeiro da linguística se movimentam e actuam sempre impermeáveis è Ecologia e à percepção da verdadeira consistência ecológica global do real.

Hoje é uma função da linguagem que se atira copm toda a despreocupação para o lixo, amanhã um curso de água que não menos alegre e não menos despreocupadamente se bloqueia para construir uma estrada ou um bairro inteiro e assim, de "conquista" em "conquista", de "estádio" ou "representação" de "desenvolvimento" em "estádio" e "representação" de "desenvolvimento" vamos alegremente caminhando para... para aquilo que todos nós, no fundo, sabemos perfeitamente que não vamos conseguir como espécie, mais cedo ou mais tarde, evitar.


[Imagem ligeiramente amputada extraída com a devida vénia de]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

"A Vontade Que Eu Tinha Era Encostá-los À Parede e...Piiiii! A Todos!..."


Se eu já estava piúrso antes [os motivos, como diz a minha prima Bella Davy "are neither here nor there"...] pior fiquei quando ao jantar sou informado por um tipo com uma beiçola maior que a incompetência dos ministros todos juntos de que o tal Sócrates vai baixar os salários e as "comparticipações sociais", como ele diz, aos portugueses.

E eu só pergunto a esse tal Sócrates: Oiça lá, oh, parceiro: você acha-me com cara de ter sido, alguma vez, primeiro-ministro ou ministro das finanças ou outra m. qualquer do mesmo tipo desta "coisa" a que você chama Portugal?

Eu caí uma vez na esparrela de me deixar eleger para uma junta de freguesia e foi o mais próximo que eu alguma vez já estive de ser filho da p., pá!

Tirando esse erro de juventude, não tenho, que me lembre muitos mais pecados.

Pronto! Está bem! Fui---SOU professor [você sabe: aquela coisa que há nas escolas para vocês chamarem nomes e terem desculpa para serem incompetentes...

Pois! ISSO!

Você já deve ter visto algum a sério!

Ou, pelo menos, aquelas imitações baratas em barro que andavam lá pela Independente onde o meu amigo foi sorteado para...

Pois... para isso...

"Inglês técnico" et al... ]

Pois... mas isto para lhe dizer: o meu amigo [salvo seja!] acha que fui eu quem geriu esta geringançada toda de tal modo que ainda o sol não tinha nascido e já estávamos a todos dever mais ao mundo que os seus ministros da educação todos juntos à inteligência??

Acha??!!

Pois, se acha está muito enganado!

Fique sabendo que não fui eu quem meteu o pobre do País nessa cangalhada toda do "aeroporto do Jamé" nem do IVG ou TGV ou lá como é que se chama isso que fica mais caro só de pensar nele que alimentar um ministro seu a pão-de-ló, ouviu?

Eu sou professor, meu amigo: ensino uns tipos malcriados a ficarem desempregados todos os anos e em matéria de indignidades fico-me por aí, pá!

Nunca pus ex-ministros a render, nunca gastei um chavo que não tivesse ganho a trabalhar.

Quando digo "tirei um curso" posso-me gabar de que não o tirei a ninguém: tive de dar ao coco se quis ficar com ele, não me saíu na barraca das panelas da Feira Popular como... como a alguns, pronto!

Fartei-me de esgalhar para o conseguir e olhe que eu nem sou burrinho de todo, ouviu?


Mas, então, se não é a mim que é preciso pedir contas pelo buraco de todo o tamanho em que vocês [vocês e não eu!] meteram o País ano após ano, por que cargas de água acha o meu amigo que eu é que tenho de pagar pelas cameladas e incompetências de todo o tipo que uma cáfila de ineptos e galifões de carreira escolhidos a dedo entre o pior que lá havia andou a fazer estes anos todos??!!


Eh! Pá! Mas você acha-me com cara de Santa Casa da Misericórdia ou de Madre Teresa ou quê??!!

Olhe para as minhas costas: vê lá algumas asinhas?

Está maluco ou quê?

Eh! Pá! Não brinque mas é comigo!
Vá reduzir o pré ao Cavaco ou comece pelo seu!

Ponha-se à porta do Belmiro e espere que ele saia ou tente convencer o Vara a adiantar-lhe algum da pensão de invalidez!

Agora a mim!!

Encostem mas é já aí o País que eu quero sair!

E é já!...

Olha! Olha!

"Outro..."


Outro...

[Hoje "deu-me" para aqui, que é que querem?...
Bem, mas antes assim "ca mais mal", como dizia o outro...]

"Só Pode, Oh! Mónica!"


Quando fiz o estágio, uma colega pôs-me a alcunha de... "O Senhor de Pernas Para o Ar"...

Na altura, até achei que ela tinha uma certa razão: se há alguém a quem a demasiada ordem faz alergias, sou eu, tenho de admitir.

Ver tudo à minha volta nos "seus lugares", "dá-me ânsias", como dizia a minha avó.

Eu tenho uns livritos [uns milhares...] uns disquitos [umas centenas...] uns filmezitos [uns quantos...]

Pois, vocês vão à minha casa e, se forem do género de ter angústias têm, logo ali, um pesadelo dos grandes: aquilo é a desordem perfeita, ideal, e fui eu quem pôs tudo assim...

Não sei se é defeito se é... compulsão: sou desorganizado, pronto: uma "disaster área formada em Germânicas", como às vezes digo, para me animar...

Ora, sucede que, olhando com alguma atenção e cuidado para o mundo de hoje, afinal, verifica-se que, se calhar, vendo bem as coisas, quem tinha razão, era eu, não era a Mónica!

Quem está de pernas para o ar é o mundo, não é "cá o Jones", como dizia o meu amigo [e ex-correligionário---que isto, para mim, de "ex" está o inferno---o meu inferno pessoal---cheio!...] Jerónimo!

Querem que eu exemplifique?

Está bem, eu exemplifico!

Sabem aquele jornal que fez agora 20 anos e que o "outro" queria fechar ou trocar-lhe de gerência e de fidelidades, o "Público"?

Pois, hoje mesmo, quando o comprei e abri na última página, a primeira coisa com a qual dei logo de caras foi com uma referência a uma suposta "luz ao fundo do túnel" para a economia [ou para a chamada "economia", o que não é bem a mesma coisa] em Portugal: uma tal Autoeuropa, diz o jornal, está, ao que parece, "back in businness".

"Porreiro, pá", como dizia o outro?

Talvez... e o que é que produz a tal "Auto-não-sei-quantos"?

Energia verde?

Pão verde?

Empregos verdes?

Uma fórmula qualquer que dê juízo ao povo, assegure sustentabilidade ao planeta---contribua para evitar tragédias como aquele horror ainda bem recente da Madeira---e seja capaz de gerar uma forma de emprego qualquer que permita às pessoas voltarem a comer todos os dias e poderem descansar um pouco ao fim de semana?

Uma maneira eficaz de correr de vez com o governo?

Não!

Automóveis, imaginem!

Vivemos, hoje, num mundo em que cada automóvel já se vê aflito para ter uma pessoa, tantos são os automóveis e tão poucas as pessoas que "hão", como dizia o outro.

Por cada pessoa que se fabrica, fabricam-se hoje logo para aí dois carros e meio ou três, qualquer dia começamos a ter sérios problemas quando um casal de Fiats ou de "Bê-Éme-Dâbliús" quiser adoptar uma pessoa, um motorista, por exemplo e pura e simplesmente não chegarem os que "hão" e, agora, vem um tipo qualquer, desata a fazer mais carros ainda e "Glória! Glória! Aleluia! Que bom! Vem aí mais poluição fresquinha! Podemos voltar a respirar de alívio"

O Senhor De Pernas Para o Ar??!!

Oh! Mónica!

Como nós somos de línguas, isso deve ser para aí... "ilusão... de semiótica", não?...

Só pode!...

Olha! Olha!


[Imagem extraída, com a devida vénia, de freakingnews-dot-com]

"Eu Hoje Estou Assim..."


Eh! Pá! Não me lixem! Bons, sãos, puros, completamente puros e inocentes em todos os sentidos da palavra, são estes!

Até a crueldade deles, quando existe, é honesta e limpa!
Vão ser a minha família, de hoje em diante, pronto!

Nomeio-os... "primos e primas---ou irmãos---do coração"!

Viva a Tanas!

"Long live Nocas"!
Haja saúde e pingue a pipa!

"O resto"?


'Tá bem, '!...

"Li num jornal..."


...que alguém teria dito [ao que parece, sem se rir] que Jaime Gama era capaz de dar um bom P.R.

E fiquei assim, imaginem: para que raio havia eu de quer um P.R. dado pelo Gama, são capazes de me dizer??!...

Eu nem sequer quis o actual [que me foi dado pelo eleitorado inteiro!] quanto mais um dado só pelo Gama que eu não conheço de lado nenhum!!...

[...Que raio! Isto até tinha começado tão bem, hoje, com Teixeira Gomes et al, e, afinal, só me está a dar para a vacarrice!

Tenho mesmo de ver o que é isto!...


Será dos joanetes?...]



[Imagem ilustrativa "gentilmente cedida" por abc-dot-news-dot-go-dot-com]

"Decisão: Vou Deixar de Fumar Estranhos..."


Se há característica negativa que eu possua [e posso citar várias que reconhecidamente possuo!...] é o pouco louvável [nada invejável! Mesmo abertamente censurável e humilhante!] hábito de voltar atrás em muitas das minhas---originalmente mais firmes---decisões.

Aconteceu recentemente mas vou [Ai! Vou! Vou!] fazer um esforço extraordinário [extra-ordinário...] para que não volte a acontecer, designadamente com uma que, ainda muito recentemente havia tomado, envolvendo [como dizer sem... dizer?] "viagens" mais ou menos "virtuais" e "electrónicas"... "por aí".

Tinha, com efeito, ainda não há muito, como disse, decidido, aparentemente de forma terminante [e, ao que tudo parecia indicar, também definitiva] que não voltaria a "viajar" para certos lugares do "deserto dos bits", como Sterne viajou pelo da crítica e do sarcasmo, pelo 'British humour' em versão... "badalhoco-filosófica" só que em busca [em... "quest"] de algo diferente [que não vem, todavia, agora, ao caso]---e, afinal, reincidi.

Reincidi mas vou, como disse, fazer tudo para que tal recaída não volte a ocorrer, ou seja, de hoje em diante, nunca mais volto a "pôr o pé fora de casa"!
Pronto, está dito!...

Juro!

"Eu seja cão", se volto.

Não é que ser cão, seja mau, entendamo-nos: de facto, alguns dos meus melhores amigos e amigas [se calhar, até os únicos...] são cães.

Não é isso! O que eu quero dizer, para encurtar razões [que o almoço está a arrefecer, gritam-me da cozinha...] é que, de hoje em diante, se me apanharem "na rua", fazem favor de me chamar nomes, ouviram?

Feios, quero eu dizer.

Porque, de hoje em diante, "só se Cristo descer à Terra", como dizia o "outro", é que eu vou afastar-me de 'Zanzibar e províncias limítrofes'!

Farto de "estranhos", estou eu!...

Livra! Vou ser uma espécie de "andrófobo profissional"---senão mesmo outra coisa ainda pior: "xenófobo existencial" e "maldisposto de carreira" ["assanhado, num caso como noutro"!]---ou coisa assim...

Quem me quiser ver feliz é, de hoje em diante, pois, a atirar 'pedras verbais' aos "de fora", aos que passarem ao alcance da minha "adornada e férvida misantropia" [da "acuta misantropia infecciosa"]---que, a partir de hoje, são todos!...

Vou ser "como os sheiks das fitas que dão porrada a quem passa", pronto!

E vocês, "aí fora", não se ponham a pau, não e depois digam que eu não os avisei!


Olhem só para a minha cara, ó: pareço o Pinto da Costa [ou "o outro"...] no dia em que lhes disseram que alguém tinha finalmente inventado a Justiça em Portugal!...

[Imagem extraída com vénia de chandralee.com]

"Ainda as Cheias na Madeira"

"How stupid can you get".



See what I mean?...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"Silence of the Lambs?" [Não-revisto]


Percorrendo, recentemente, as "Novelas Eróticas" de M. Teixeira Gomes, surgiu-me no espírito uma espécie de vago projecto de "reflexão alargada" ou de "leituração activa" da célebre 'figura crítica' do "provincianismo" de Pessoa.

Porque Teixeira Gomes o seja?

Exactamente ao contrário, porque Teixeira Gomes, o Teixeira Gomes escritor, cosmopolita e finíssimo epicurista, observador educado e esteta atento; o Teixeira Gomes, ao mesmo tempo, sofisticadamente céptico e subtilmente estóico, pode ser visto como configurando o anti-provinciano nacional, de algum modo, por excelência, i.e., a figura que opera como o polo oposto, ao mernos, simbólica ou teoricamente, do conhecido conceito pessoano.

A reflexão que proponho implica estudo mais atento e consulta/reconsulta directa de textos.

Para designar o objecto da proposta que ele envolve vou, todavia, desde já propondo um termo: o "decadentismo".

Acho, com efeito, que se pode, com alguma substantiva propriedade e justeza, falar de "decadentismo"; numa espécie de "linha" ou "linhagem" decandestista", mais ou menos contínua, nacional ligando, por exemplo, um Cavaleiro de Oliveira a um Teixeira Gomes e este a um Jorge de Senna a partir do que admito, em tese, ser uma circunstância, objectiva mas, sobretudo, subjectiva, comum que é a de terem podido operar relativamente à 'circunstância mental' geral um distanciamento de onde saíu "luz crítica" final sobre esta.

Ou seja: há na 'figura mental crítica' de todos eles, directa ou indirectamente; de forma expressa ou não o resultado da inclusão substantiva discernível nas diversas formulações que, até popr absurdo, fizeram sobre a portugalidade---sobre todos "nós" como "circunstância mental" estável e possvelmente tópica, de um efeito de "Verfremdung" que teve o mérito invulgar de oferecer ao "específico mental" nacional, tal como ficou a partir de dado momento histórico, constituído, um espelho para observar-se, se assim o desejar; um contraponto especular relevantíssimo que ele não terá sabido aproveitar [mas aí ainda há portugalidade, há sedimentação dela; há, se se quiser, reafirmação prática dela...] mas que existiu e poderia, em tese, no limite, ter proporcionado ao Portugal físico um outro Portugal mental completamente novo e diferente.

Melhor?

Mais crítico, mais lúcido, mais esclarecido, com certeza.

Todos esses homens [e mais um José Anastácio da Cunha que foi um emigrante e/ou um "viajante interior" e, num certo sentido um "transfuga mental"] têm em comum, pois, o terem gozado do privilégio de poder ter saído física e, depois, mentalmente da circunstância mental nacional, tendo, a partir daí, gozado do privilégio crítico único de vê-la "de fora".

E, se cada um reagiu crítica e literariamente a seu modo, há uma linha teórica [parafraseando Butor e um esplêndido título seu:] um "génie du lieu literário" ligando todos eles e que se traduz,, entre outras coisas ou traços possivelmente tópicos, no tal sofisticado cepticismo/epicurismo [no caso de Sena e dos seus "Sinais de Fogo", um "The Sun Also Rises" e e, de um modo mais lato, uma marca de "geração perdida"---outro termo óptimo para sinonimizar alternativamente o "decadentismo" tal como eu o vejo...---uma espécie de desesperado e voraz apetite pela multiplicidade das experiências de onde a percepção da impotência própria para mudar a História abre disfarçadamente a porta à presença impendente de uma sugestão 'consumição triunfal' ou mesmo de admissível 'suicídio ritual pela acção' que torna a obra desse cuidado tradutor de Hemingway um curioso "caso" de "hemingwayanismo" ou "fitzgeraldismo" à portuguesa].

Há, insisto, uma marca de fino "disgust" por absurdo na atitude do homem e do escritor que [como Teixeira Gomes nos seus "Contos Eróticos"] vira quase ostensivamente as costas a uma certa realidade portuguesa 'à Júlio Dinis', a uma realidade portuguesa provinciana e exaustivamente 'ordenada' [interna e externamente...] socialmente dócil, conformada, respeitadora dos "valores", temente a Deus e ao pároco ou chefe político ou até "apenas" cultu[r]al e vivencial; turbulenta mas, no fundo, incapaz de disciplina crítica ou justeza estável de auto-análise como em Camilo, brilhante narrador mas fraquíssimo crítico "em profundidade".

Existe, no erotismo das "Novelas" [como em certos "pornógrafos"---e não apenas o fulgurante e torrencial Sade cuja obra é, porém, um verdadeiro "laboratório dos sentidos", um "gabinete de auto/analista" precursor e revolucionário!---do século XVIII, herdeiros existenciais do experimentalismo genuíno, "sério"...] um abrir de portas e janelas potencialmente saneador [volto a dizer: "revolucionário?] subentendidamente crítico dos valores "morais" da tradição, dos limites globalmente aceites do "decoro mental" e/ou "cultu[r]al" [e especificamente literário] que opera [ou poderia operar!] como polo dialéctico à "portugalidade" que não "saíu de casa", que permaneceu externa e internamente; física e mental ou cultu[r]almente "estabelecida" e não teve de [ou quis] "errar" ["errância" é decididamente outro termo-chave do "decadentismo" visto como sublimação estética e experiencial da impotência material]; sair para experimentar, "arriscar", numa espécie de "iluminismo interior" onde surge, então, a figura/sugestão do Cavaleiro de Oliveira ou a desse exilado do espírito que foi Anastácio da Cunha, tudo figuras que se "perderam", forçasda ou espontaneamente, da 'portugalidade estabelecida' figurando assim em múltiplas "gerações perdidas" sucessivas com as quasis desgraçadamente o País como todo parece muito pouco ter afinal, aprendido contribuindo desse modo ulteriormente para maior "perdição" [um "amor" e uma "perdição" completamente diferentes, pois...] ainda.

Fascina-me esse lado "cultu[r]almente sacrílego" e [desesperadamente, sob a aparência ilusória de uma ---irónica?---serenidade ou "nonchalance" e naturalidade exteriores] "profanador" em Teixeira Gomes e não consigo [talvez com excessiva audácia, admito: é um risco "filosófico" que aceito assumidamente correr!] dissociar a circunstância mental, a atitude interior, do Teixeira Gomes das "Novelas" [ou do Cavaleiro de Oliveira, outro 'libertino' que não deixou de chamar a atenção de Cardoso Pires, a dado momento da sua carreira, cronista---nada inocente!---de vários "libertinismos" nacionais] da obra cinematográfica [da obra... política?] de um Marco Ferreri ou até da personagem adfmissivelmente metafórica de um Hannibal Lecter, o intelectual e esteta-limite que devora a sociedade estabelecida e normal em orgias de requintado e irónico devorismo; um Lecter [um "lector" numa sociedade que apenas "vê"---e mal?] que o "Ocidente livre" [sempre tão pronto a "denunciar" o concentracionismo repressional-mental dos "outros"] encerrou significativamente numa prisão/asilo psiquiátrico [onde não deixa, apesaer disso, de acorrer quando precisa de quem pense...] numa demostração, subconsciente ou não, de medo do seu próprio ['seu' dele, Ocidente] lado inteligente, auto-crítico, lúcido, esclarecido e, por isso mesmo, inevitavelmente solitário, perigoso e, claro, transgressor...

"How Ridiculous Can You Get?!"


A melhor da semana: os Estados Unidos estão profundamente indignados com o tratamento dado aos presos nas prisões cubanas!

Can you believe it??!!!

Os Estados Unidos indignados com o tratamento dado aos reclusos nas prisões cubanas!!!

Quando é que alguém faz o favor de explicar àqueles caramelos que Guantánamo é
EM Cuba mas não é CUBANO??!!...


Dahhh!




[Imagem de Flickr.com]

"How Stupid Can You Get-I?"


[Imagem originária de truthrss.com]

"Average Citizen..."


...or average stupid?...


[Imagem "gentilmente cedida" por rsurgent.com]

"Just How Stupid Can you Get-II?"

"EXACTLY How Stupid Can You Get-III?..."


ECOFASCISM??!!

EXACTLY HOW STUPID CAN YOU
GET?...

"Por Que Lhe Chamo «Idade Mídia»..."


Já ontem aqui denunciei, indignado, a prática insolente e boçal da televisão pública de sobrecarregar, de forma tão importuna quanto indiscriminada, impertinente e alarve, o écrã com todo o tipo de informações, apelos, etc. a qualquer hora e sem qualquer critério que não os não-critérios que impõe a inteligência escandalosamente rudimentar de quem por ali anda disfarçado de prestador de um serviço público cultural [!] para desempenhar o qual não está, todavia, minimamente habilitado.

Trata-se de uma demonstração de [im] puro analfabetismo tecnológico e cultural [estético, no caso de situações como a que ontem ocorreu durante a passagem do filme "A Promessa" de António Macedo e que, insisto, deixa a S.P.A., a quem compete zelar pela integridade da criação inlectual e pelo respeito que lhe é devido, inexplicavelmente indidferente] e que tem como consequência inevitável [só não o vêem, aliás, os novos ricos da comunicação---e da própria inteligência---que, por uma razão qualquer, ali foram dar e que por ali erram, insusceptíveis de evolução, culturalmente primários, tão primários e saloios como quando para lá entraram, completamente impermeáveis ao gosto para já não dizer: à simples lucidez mais elementar e mais primária]; trata-se, dizia, de uma demonstração de incultura e de estupidez [não há outro termo! "Aquilo" é estupidez "em estado puro"!] que tem como inevitável consequência a completa destruição final da própria mensagem comunicacional [e será que é, afinal, isso o que verdadeiramente se pretende?] saturada como vem, a cada passo, de interrupções disparatadas, de registos estranhos uns aos outros acumulados, de forma alarvemente caótica, em cima uns dos outros, no écrã, sem rei nem roque; de patacoadas debilóides e sem interesse, tipo "records" desse inominável "Guinness", misturadas [literalmente] a granel com dramas pessoais que ali, para o tipo de gente que gere "aquela coisa" e para a que a leva até ao público sem se envergonhar, se convertem, de imediato, em "furo jornalístico" e "rigoroso exclusivo"; um "blur" informacional cacofónico absurdo, monstruosamente amoral e orgulhosamente terceiro-mundista, que é de forma e que é de fundo; que não respeita inteligências nem exigências ou critérios de verdadeira qualidade; que desacta impunemente filmes e autores; que se está insolentemente borrifando para a formação do público e para a cultura em geral mas que, para as luminárias que por lá vagueiam como para as caricaturas e paródias de "político" que, mal chegam ao poder, imediatamente ali plantam e infiltram os seus agentes [basta ler os jornais destes últimos dias para se perceber até onde chega a pouca vergonha] e que dali só esperam "câmaras de ressonância" dóceis e facilmente manipuláveis [volto a dizer: basta ler a imprensa escrita ainda bem recente!] da sua própria mediocridade, novos S.N.I.s [senis?!] hipocritamente "democráticos" e calhordamente populistas; feiras populares [ou feiras da ladra?] do berro, da boçalidade e da cretinice pomposa mas lerda e néscia que, para toda a inimaginável "quinquilharia da inteligência" que passa hoje, entre nós, por "elites", culturais [?] e "políticas [!] imita, satifatoriamente, um serviço público [ou mesmo, no caso dos privados] um universo global perfeitamente digno e civilizado [!!] de... informação.

Passam-se anos [Anos?! Vidas inteiras!!] sem que os cidadãos que não têm meios para aceder ao serviço de televisão por cabo [ou os que não podem dar-se ao luxo de ficar a pé até às quatro ou cinco horas da madrugada, depois de atravessar um interminável deserto de cretinice "à la carte"] tenham acesso a um filme que vá além do bacorejar bronco de um Eddie Murphy qualquer reexibido até à exaustão e ao vómito ou de outra patacoada qualquer do mesmo género, vejam um bailado, oiçam uma ópera ou uma sinfonia [ou até uma mera ária ou tenham acesso à visão de dois passos de dansa que não sejam uma palhaçada qualquer protagonizda por um magote de insignificantes "de profissão" retorcendo-se mais ou menos grotescamente em cima uma pista de gelo para gáudio de uns quantos "pacóvios de carreira" a quem outros alarves iguais chamam pomposamente "espectador médio nacional"]---e ninguém entre nós parece espantar-se e muito menos escandalizar-se!

Nem sequer quando como ontem um filme é tranquilamente "assassinado" em público [algo que se repetiria, aliás, na mais escandalosa impunidade, hoje mesmo, com uma tal "Fátima", meio portuguesa, meio italiana integrada no mês do cinema nacional e que, nem o facto de vir oficialmente "protegida pela Virgem" salvou de levar em cima com o tal nastro insolente que, em nome da clássica caridadezinha estrondosamente alardeada em público [pois não!] já ontem se tinha lembrado de ir implicar com um filme que não lhe tinha feito, aliás, que se saiba, mal nenhum e tinha acabado de chegar ali, sem sonhar sequer tudo o que estava para lhe acontecer, como na altura denunciei].

A repetição da cavalidade insolente que consiste em passar continuamente com uma coisa qualquer à frente de quem está a tentar ver um filme [antigamente, nos cinemas dava direito a chamar o arrrumador e exigir a expulsão do cabeçudo ou cabeçuda que se atrevesse a repetir a gracinha com a frequência com que o faz o exibidor televisivo público de hoje...]; a repetição da cavalidade insolente, dizia, faz-me, porém, começar a pensar se seria "só" ignorância e "cultura pedal"...

Pensando bem e observando o conteúdo da mensagem [trata-se, no caso do tal nastro que, pelos vistos, "sonha ser actor e não sabe como", de apelar ao contributo dos telespectadores para as vítimas das recentes cheias na Madeira] assim como a repetição do "fenómeno", é, talvez, altura de começarmos a interrogar-nos sobre se não estaremos perante uma situação em tudo análoga à do senhor ou senhora muito bem postos e "generosos" que, na missa, fazem absoluta questão de tilintar sonoramente as moedas no bolso uns bons cinco minutos antes de deixá-las cair com idêntica... "discrição" no cestinho dos óbolos para toda a gente ficar a saber que ele ou ela "são bons e deram"...

E dão!

Ainda que isso signifique interromper a missa, desrespeitar a ocasião e fazer virar para si todas as cabeças no templo.


Pois, se, em boa [ou má...] verdade, é exactamente isso que se pretende!


[Imagem extraída com a devida vénia de mockable.com]