sábado, 22 de janeiro de 2011

MI jJuventud...

...y mi locura se han casado ambas y tienen ahora ele mismo nombre azul por lo que grito quando quiero estardefinitivamente seguro de que todavía soy you el que habla y de que etsoy vivo

Joan Manuel Serrat - Cantares



La muerte me ha muy recientemente visitado, la aguardava en ela cais de embarque pronto para segirla, como siempre ligero de equipaje casi desnudo con o los hijos de la mar

sábado, 15 de janeiro de 2011

"Falemos Um Pouco de Televisão!"


Um 'pot pourri' de informações e pequenas notícias: a Zon retirou da grelha-satélite uma das "jóias da coroa" da respectiva programação: o Canal franco-alemão ARTE, o único onde era possível ouvir, hoje-por-hoje, numa televisão, falar de Beckett e Kafka, de Scott Fitzgerald, Brecht, Freud ou Artaud, entre inúmeros outros nomes incontornáveis da Cultura.

Um verdadeiro [e imperdoável!] atentado a essa mesma Cultura tendo até em vista o que o que veio... "substituí-lo": uma "coisa" verdadeiramente inenarrável intitulada "Canção Nova" ou coisa que o valha cuja exumação [consta que já por ali tinha andado antes sem que eu, pelo menos, tivesse, alguma vez, dado por isso] se deveu, foi-me expressamente dito, ao "pedido de várias famílias".

... Ou seria aos suculentos cabedais do Vaticano, cada vez mais assustado com a perda consistente e regular de influência para "as religiões de garagem", versão "sacra" do populismo político, que ameaçam tomar de assalto a cena religiosa?

Enfim...

Esta, em todo o caso, a primeira notícia que queria aqui trazer e com a qual, não consigo deixar de referir, não me conformo: foi-se o ARTE, vai-se a seguir o meu vínculo contratual à entidade que, de uma forma tão imperdoavelmente negocista e "pesetera", pactua com o que na prática é o grande projecto global; a... parceria público-privada dedicada à descerebração consistente do conjunto da comunidade nacional [o chamado Ministério da Educação vai fazendo o que pode para nela se integrar e com ela colaborar e ajudar, isso é evidente!] eliminando de vez os "nichos de resistência" sedeados nos poucos "Mezzos" e "ARTES" que por aí, ora dentro, ora fora, vai havendo [deveria dizer: a seguir vai o meu vínculo contratual com a empresa que aceita pactuar com o vandalismo cultural por acção e omissão, impuro e nada simples que a supressão do ARTE no satélite inescondivelmente configura!...]

Passemos, porém, à segunda notícia: o "pior programa de televisão [?] de 2010" para a Associação de Telespectadores [para o crítico do "Diário de Notícias", Joel Neto--cf. "Asociações para quê?" in "D.N." de 13.01.11] trata-se mesmo "possivelmente do pior programa que alguma vez passou na TV portuguesa em horários familiares"] o inqualificável "Casa dos Segredos" é segundo ou terceiro nos "charts", valeu a quem o apresenta ter assinado "o contrato da sua vida" [é ainda Joel Neto quem o afirma] e assume mesmo o estatuto de trunfo decisivo na estratégia de uma operadora rival da Zon, julgo que a Meo [que, se bem entendi, promete---ou... ameaça?---ter a abominação em causa no ar ininterruptamente 24 horas/dia!] na conquista de mercados no âmbito da 'guerra das instalações' em curso.

Comentários?

Vale a pena fazê-los?...

Enfim, terceira notícia: segundo Francisco Penim [ex-director de programas do canal privado SIC] e Felisbela Lopes [professora universitária e "estudiosa", diz o "Diário de Notícias", na edição de 06.10.10, "do panorama audiovisual português"] a "solução para derrotar o líder" [a tenebrosa e populista TVI---sozinha com maior share diário de audiência que a totalidade da programação-cabo!---e onde a tal "Casa", digna herdeira dos nefandos "Big Brothers" que abriram uma era de insuspeitado aviltamento no "entertainment" televisivo fazendo-o descer a profundidades de vulgaridade e imbecilidade que antes não parecia possível que ele atingisse, ocupa lugar de... honra] "é fazer o mesmo mas melhor" [!!]

Poderia continuar por muito tempo ainda, a coligir e a citar documentação que pude ir compulsando, ao longo dos tempos.

Tão-pouco aqui valerá a pena: o que deixo registado bastará, penso eu, para se ter uma ideia suficientemente clara daqueles que são os cancros do panorama televisivo e, pior ainda: cultural, nacional: um inquietantemente baixo nível de exigência do cidadão/espectador médio cujas taxas de iliteracia funcional são--e não por acaso!--aquelas que se sabem; a drástica concentração dos seus interesses em matéria de cultura num estreitíssimo leque de programas organizados em torno das famigeradas "novelas" e um ou outro "concurso", minuciosamente copiado de uma série infindável de outros nacionais e estrangeiros, geralmente estrangeiros, anteriormente passados e a que agora se juntam os impropriamente chamados "reality shows", encenações confrangedoramente indigentes da realidade, onde vale literalmente tudo para prender a atenção do espectador [vale, aliás, a pena atentar um pouco neste termo] e reduzi-lo, no limite, à... impotência de que são feitas ou sobre a qual são feitas, afinal, as famosas "charts" e os não menos famosos "shares" a partir dos quais, por sua vez, toda a programação ulterior é moldada e cozinhada---de onde resulta inevitavelmente o dramático empobrecimento geral do gosto e dos critérios de escolha, potenciados, um e outros, por seu turno, por políticas culturais invariavelmente erráticas e inconsistentes [quando não meramente pretextuais e/ou orçamentalmente residuais]; e, por fim, resultante de tudo o que acima fica dito, o efeito final consistente na massificação ou progressiva transformação do conjunto das audiências numa massa amorfa, inescapavelmente refém do "gosto" médio formado [ou deformado!] todo ele, "cirurgicamente", daquele modo que atrás muito sumariamente descrevo.

Quando uma professora universitária admite que a cópia é a «melhor forma» de concorrer [noutro lugar deste "Diário" refiro--e critico!--o fenómeno tão caracteristicamente... "pós-moderno" do 'plágio legal' renobilitado sob a designação pomposa de "franchising", outra maneira adicional de condicionar o gosto e de ajudar a reduzi-lo à expressão mais simples] percebemos, de vez, o que significa hoje "concorrer" em matéria de "entertainment" televisivo privado em Portugal ["concorrer"--a concorrência, recordo, foi o supremo argumento que sustentou a introdução da iniciativa privada na televisão entre nós: da concorrência iria inevitavelmente sair a melhoria da qualidade e o consequente benefício do espectador---concorrer, dizia, não significa aqui abrir o leque, diversificar a oferta, valorizar a autonomia na definição e formação do gosto: significa somente, oferecer mais do mesmo e fazer triunfar comercialmente não programas mas empresas---é uma guerra comercial assumida que claramente já contaminou e infestou ou mesmo infectou um serviço público de televisão que ninguém verdadeiramente sabe o que seja ou logra sequer ver, marcado como está por toda uma fenomenologia gradual de osmose, de 'osmose por defeito', de que o espectador, como facilmente se compreende, pouco ou nada tem a beneficiar] do mesmo modo que ninguém consegue perceber onde se situam coisas hoje-por-hoje, pois, obsolescentes ou mesmo de todo obsoletas como a originalidade, a diversidade e a criatividade.

Quando Felisbela Lopes diz que "as novelas se alimentam umas às outras" e que "não basta uma", são precisas muitas ["É preciso ter três novelas ao mesmo tempo", diz expressamente. "Se calhar mais" (!!)] a fim de consolidar definitivamente o respectivo consumo é exactamente isto que ela está a dizer---e pior ainda, a aceitar implicitamente como estratégia de conquista de mercado e, por conseguinte, de formação ou, volto a dizer: deformação tragicamente ideal de públicos.

O que aqui deixo registado com a supressão do inimitável ARTE à cabeça bastaria, suponho, numa sociedade minimamente esclarecida e mesmo apenas sumariamente civilizada para tornar incontornável e inadiável, isto é, para repor de uma vez por todas na ordem do dia a questão de um serviço público, realmente consistente e verdadeiramente sério de televisão, liderado, não pelos habituais comissários políticos e oportunistas ou arranjistas de carreira mas por gente competente e com um projecto claro de formação de audiências [em caso algum, susceptível de ser levado à prática sem ser no âmbito de um plano conjunto nacional articulado com um Ministério da Educação onde prevalecessem, por uma vez, a inteligência e a competência educativas e não, em vez de políticas e ideias sólidas para o País, habilidades de guarda-livros de mão dada com espertezas saloias de pedagogo feito à pressa e a martelo, com meia dúzia de livrecos manhosos publicados---ou seja, todo um projecto político, cultural e até civilizacional que não há; que poucos querem que haja, no único país que, em resultado disso mesmo, era--esse sim!--fatal que houvesse e que está, aliás, em tudo quanto disse e escrevi, para nossa desgraça colectiva nacional, eloquentemente retratado...

"Portugal Parque Temático Mental, Zoo Vivo do Oitocentismo Económico e Social Mais... «Puro»"


Um homem foi recentemente baleado na sequência de uma perseguição policial de que foi objecto por ter roubado... dois sacos com pão!

Contrariamente ao que poderia quase instintivamente pensar quem assim tomasse conhecimento da notícia, não se trata do início de um romance naturalista de Zola ou dos Goncourt e tão pouco provém ela de qualquer obra dos criadores de David Copperfield ou Jean Valjean assim como, tão-pouco, de um filme de Eisenstein ou Pudovkin: aconteceu, segundo uma edição recente do "Público" [que prometo, logo que encontre tempo e feitio, localizar no meio do imenso caos que é cada vez mais a minha hemeroteca pessoal...] e teve lugar no europeíssimo Portugal 'de' Sócrates---que ainda o é e já se apresta a ser do FMI com o "alto patrocínio" de um Coelho ou Coelha qualquer... perto de si.

Portugal, uma esplendorosa ficção social e política---uma deslumbrante ilusão temporal e quebra-cabeças histórico---que decidiu recentemente converter-se, adicionalmente, no museu arqueológico mental ou no parque temático institucional de uma Europa económica e social oitocentista, há muito enterrada já no cemitério das civilizações, no jazigo das coisas tão definitiva quando felizmente ultrapassadas...

Não fosse ele e não fosse Sócrates e as suas geniais inspirações... políticas que, de vitória em [esplendorosa!] vitória, à actual calamidade nos trouxeram e correríamos todos, com efeito, o risco de pensar que, por exemplo, "Les Misérables" não passava, afinal, do simples fruto de uma crise de fígado de um pessimista dotado de mórbida inventiva e que "Oliver Twist" mais não era, afinal, do que um simples e mal-disfarçado "remake" da "Comédia" de Dante na parte do Inferno escrita por algum hipocondríaco misantropo arvorado em cronista das suas próprias tormentosas fantasias e tempestuosos fantasmas pessoais...

[Na imagem: Gravura ilustrando a "instrução" de Oliver Twist, ministrada pelos jovens ladrões de Fagin]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Entre «bê-pê-énes» e «bê-pê-is»..."

...urbanizações no Algarve e cheques perdidos em memórias aparentemente sem fundo, deixou definitivamente de haver espaço para dúvidas ou hesitações...

"Da Aranha e da Sua Estratégia: a Propósito de um Artigo do «Sol»"


Do "Sol" de 01.10.10 retiro um excerto que merece seguramente alguma reflexão--desde logo a quantos, como eu próprio, não alimentam propriamente já grandes ilusões sobre a sustentabilidade do actual modelo de "democracia funcional" ou "economocracia plebiscitária" socialmente consentida, gerido em regime de co-propriedade e "leasing político" pela dupla neo-liberal "social"/neo-liberal 'hard core', "pê-ésse/pê-ésse-dê"--e chegaram a ver no aparecimento de candidaturas presidenciais aparentemente "de margem" como a de Fernando Nobre não tanto a solução em si para o problema do apodrecimento sistémico do 'regime' mas o possível ponto de partida para uma vaga de fundo capaz de conduzir à mobilização geral que permitisse, por sua vez, encontrar, no debate político sério e a sério, as saídas políticas que o 'regime', só por si, afogado entre Sócrates e Passos Coelhos, Santos Silvas e Rebelos de Sousa e tendo apenas Josés Lellos e Ângelos Correias ou Marques Mendes para oferecer, já não é manifestamente capaz de apresentar.

O excerto em causa permite, em meu entender, como se verá, independentemente daquilo que nele possa haver [e seguramente há] de interesse estr[e]itamente propagandístico, perceber exactamente o tipo de "estratégia da aranha" e/ou perversíssima i/lógica conspiratorial que tem intrinsecamente marcado, de forma persistente, o funcionamento interno do 'regime' desde a "novembrada" restauracionista de '75; o tem envenenado consistentemente por dentro---e evidencia como, de facto, já só com uma verdadeira limpeza integral é possível devolver-lhe alguma saúde básica e garantir-lhe a hipótese de sustentabilidade que, com o tipo de pessoa que, no centro mesmo, o habita--e continuamente manipula, "teleguia"--parece de facto cada vez mais dramaticamente longínqua--senão mesmo, repito, já, de todo, impossível.

O texto a que me reporto pertence ao artigo "Alegre acalma fúria de militantes" [de Graça Rosendo e Helena Pereira] e diz citando José Luís Cardoso, "capitão de Abril" e apoiante de Manuel Alegre, o candidato que, acrescento eu, apoiado ao mesmo tempo pelo "pê-ésse" e pelo Bloco, possui o singularíssimo [e improvável!] atributo de sedear e concentrar em si... a sua própria oposição:

"Mário Soares é 'pai' da candidatura de Fernando Nobre e como viu que ela se revelou um flop vem agora apoiar explicitamente Cavaco Silva.
Para Mário Soares, o mais importante é que Manuel Alegre não vença as presidenciais".

Símbolo para muitos de um "25 de Abril" que, na realidade, é apenas o "24" marcelista cirurgicamente remaquilhado de modo a parecer... mais um aos incautos, há muito que Soares deveria ter sido afastado da cena política no âmbito de um projecto verdadeiramente popular de saneamento e higienização da nossa vida colectiva, cada vez mais urgente e essencial.

A sua, não-tão-nova-como-isso, carreira como possível "pupeteer" do que são, afinal, tudo indica, goradas as esperanças de verdadeira alternativa, "zombies políticos" lançados às canelas da democracia para enredá-la, confundi-la e evitar que ela se "torne finalmente independente" vem ulteriormente demonstrar a urgência em fechar de vez essa mesma "democracia"--este híbrido de autoritarismo e 'economia total' temperada com votos--"para balanço" e reabri-la, uma vez concluído este, com uma "gerência" verdadeiramente nova [e até aqui sempre cuidadosamente evitada] e que é a de todos nós como comunidade, na condição social, económica e politicamente tão natural quanto ideal de principais protagonistas e únicos a[u]tores--com o apoio das forças políticas realmente interessadas em mudar o muito que está mal, na sociedade portuguesa: aquelas às quais não é justo exigir responsabilidades exactamente porque não é possível apontar-lhes cumplicidades de fundo no estado miserável a que o País chegou e que, por isso, justificam plenamente, mais uma vez nestas eleições, a oportunidade que aquele, o País, por excessiva credulidade ou simples inércia, sempre teimou--para sua infelicidade e persistente desgraça, afinal--em negar-lhes.

[Imagem extraída com a devida vénia de artmight-dot-com]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Religar Teoricamente o Real: Tarefa Urgente da Esquerda--breve reflexão pessoal sobre a teoria e prática da Política, hoje" [incompl./por rever]


Se eu tivesse de indicar qual é, em meu entender, o maior problema da democracia, acabaria muito provavelmente por dizer que é a ilusão, verdadeiramente fatal, de que ela existe...

De facto, tal como eu a vejo, a democracia possui o atributo realmente singular de ser algo que é preciso reiniciar, recomeçar--num certo sentido preciso: reinventar--a cada novo instante da nossa vida individual e colectiva.

Algo que [curiosamente, como os mandamentos moisaicos...] uma vez criado, existe muito mais para impedir e limitar; algo que idealmente se define ou vai definindo, em última análise, por quanto evita muito mais do que por quanto, de forma directa, possibilita e oferece.

Não se trata, porém, quero desde já dizer, de uma visão restritiva e artificialmente ascética, possivelmente "sacrificial", mesmo, da democracia: uma vez criada e continuamente re/ajustada, a si mesma e ao universo mental e social, político--humano--a que se reporta, a democracia [que é, também num certo sentido 'genético' motor, sobretudo o seu próprio espírito] assume-se como o "manual de instruções" das sociedades verdadeiramente civilizadas ou daquelas que aspiram realmente a sê-lo.

É, diria eu, num certo sentido transmissor, sempre dialéctico, de "significado", a racionalização ideal do primitivo tabu, o grande alimentador da organicidade das culturas humanas originais em matéria de sentido individual e colectivo para a sua própria existência.

Elementos vitais da democracia são, obviamente, a inteligência e a propriedade colectiva, não-dissociada, do conhecimento essencial para poder gerar em todos os pontos da comunidade as formas estáveis de 'inteligência da realidade' que evitam que o poder [como dizer?] "se quebre" e, por conseguinte, se aliene quando se transmite ou se torna função ou 'operação'.

Quando se converte em História---numa História.

Em Portugal, como no conjunto dos países capitalistas, o conhecimento assim como, naturalmente, a inteligência que dele pode derivar, são mantidos na condição estruturalmente des-igual de propriedade e de função.

Uma propriedade privada utilizada na produção de capital.

Uma propriedade que não se distingue na prática da sua função económica mas também política.

É essa natureza privada e [vou cunhar um neologismo útil] "proprietacional" do conhecimento que explica que a inteligência, quando se forma em geral, na sociedade, o faça de modo em larguíssima e des/estrutural medida, inorgânico e que, por isso, nunca chega verdadeiramente a constituir, no conjunto das sociedades capitalistas, um atributo reconhecível--e muito menos tópico!--na formação colectiva daquela inteligência da realidade de que atrás falo.

É este último aspecto que explica, a meu ver, por que motivo não existe nas sociedades que apresentam este tipo de característica de des-igualdade na propriedade do que poderia, a partir de Marx, chamar 'os meios de produção' de conhecimento e, por conseguinte e por extensão, de inteligência, uma ciência ou uma ciencialidade--um «olhar [verdadeira e organicamente] causal»--sobre os mecanismos materiais, concretosa, objectuais, da democracia, a começar por esse aspecto absolutamente crucial e nuclear que é votar.

A incapacidade para estabelecere nexos realmente estruturais entre o acto de votar, a escolha eleitoral, e a siutuação politica concreta que dele deriva é, no fundo, aquilo que melhor define o funcionamento demoformal que confundimos comummente com "democracia".

Enquanto as pessoas forem votando no político A porque foi agredido ou porque essas mesmas pessoas ofereceram a si próprias um avental ou uma esferográfica barata por intermediação do político B [que não é propriamente o mesmo que dizer--o que já seria, de resto, suficientemente mau mas enfim...--que o político B lhes ofereceu o referido avental ou a caneta em causa]; enquanto [e isto, é no fundo, exactamente a mesma coisa dita de outro modo] as pessoas não tiverem a total percepção de que o poder que, de uma forma ou de outras, imediatamente a seguir a um acto eleitoral as explora, ignora ou mesmo oprime resulta objectiva ou seja: realmente da sua acção [cá está a tal ausência de "olhar causal" de que atrás falo!] e que é precisamente para isso, para gerar resultados concretos e eleger políticos que servem as eleições e não para qualquer outra coisa alienadamente "moral" ou arbitrariamente pessoal, continuaremos a ter sonhos eleitorais que se tornam, se dificuldade, instantaneamente pesadelos, mal cumprido o acto eleitoral.

Isto não será em si novo nem difícil de perceber: o que talvez o seja é a explicação que aqui pretendo avançar e que relaciona, de forma causal directa, o modo como se aliena comummente o uso da própria democracia [o voto] com a forma como, por outro lado, enquanto modo de produção, integramos económica e politicamente o conhecimento.

Dito de outro modo: a forma estruturalmente des-igual como permitimos que os modelos ou paradigmas de inteligência em geral sejam, entre nós, topicamente produzidos.

Não, pois, a partir da propriedade realmente democratizada e, portanto, verdadeiramente democrática do conhecimento mas como algo que pode formar-se, isto é, nascer e desenvolver-se, parea todos os efeitos, independentemente dele e de forma, por conseguinte, in-orgânica relativamente àquela propriedade--a qual, ao longo de todo o processo de formação de inteligência, permaneceu sempre inatacável e sempre, em geral, inargumentadamente privado.

É esse mesmo "corte gnoseomórfico" entre acto e consequências [ao lado de doses suicidárias de des-conhecimento objectivo das leis da República, é preciso reconhecer] que explicam, de outro modo, as coisas, muitas vezes, dificilmente imagináveis, quase surrealistas, que têm vindo a ser pedidas aos candidatos à presidência da república.

Na verdade, ouvindo certas "antenas abertas", "opiniões públicas" e por aí adiante percebe-se claramente como o "olhar vagamente cívico" que muitos cidadãos anónimos, descontentes com a Política e por ela ameaçados, lançam sobre a campanha e os candidatos releva muito mais do olhar inorgânico e "mágico" ou mesmo, num certo sentido, proviodencial e "místico", directamente reportável à prece do que ao olhar que, de forma intelectual, cívica e politicamente sã--causalmente límpido, transparente--um cidadão deve lançar sobre as figuras do presidente, do voto e sobre a Política em geral.

Muitos não percebem que se encontram na triste situação de terem de pedir ao presidente, como pediriam ao "Pai" ou a um... Zeus qualquer, que intervenha na História concreta de todaos nós corrija os excessos e as loucuras, as iniquidades, de um governo inepto e composto, em muitos pontos de verdadeiros imbecis, exactamente porque ainda não há muito que ele chegou ao poder em resultado de um acto que cada uma dessas pessoas--muitas delas, em todo o caso--praticou e podia não ter praticado e que, por conseguinte, a censura que pedem, agora em desespero, ao futuro presidente que apresente ao poder seria lógica e naturalmente a si mesmas que deveriam, em bom rigor [em bom rigor causal!] apresentar.

Esta ausência de um olhar causal sobre a realidade e o seu funcionamento, para além de constituir uma consequência, volto a dizer: directa e inevitável das formas políticas desiguais vigentes de partilha política do conhecimento e da inteligência [dos «meios de produção» de inteligência] opera como uma das principais armas de dominação e controlo ou mesmo de manipulação políticos por parte da economocracia no poder.

Parece-me, por conseguinte, diria para concluir, que uma das tarefas verdadeiramente básicas e essenciais da Esquerda e, de um forma mais geral, da Revolução hoje passa nuclearmente pelo encontrar e fazer com que se instalem na mente dos indivíduos estratégias claras e eficazes de religação ou reorganicização teórica [e prática!] da realidade de modo a tornar o funcionamento desta realmente acessível a todos.


[Na imagem: poster eleitoral soviético extraído com a devidas vénia de Soviet Posters]

sábado, 8 de janeiro de 2011

"Duas Memórias Cinematográficas"

Duas actrizes que nos deixaram, também elas, no ano recentemente findo e que, com saudade e emoção, através da sua efígie e da recordação do seu contributo para a Arte do Cinema, aqui se evocam: Jill Clayburgh, actriz que foi também de Teatro [foi com Richard Dreyfuss intérprete de grandes dramaturgos como Arthur Miller, "All My Sons", Noel Coward, "Design for Living", no papel que Miriam Hopkins fez no cinema no filme de Lubitsch, com Fredric March e Gary Cooper; Tom Stoppard, "Jumpers" ou Neil Simon, "Barefoot in the Park"] e que só já relativamente tarde alcançou o estrelato cinematográfico.

Comparada pela grande crítica cinematográfica Pauline Kael, do "New Yorker" a Jean Arthur, outra grande estrela, foi entre outros intérprete do perturbante "La Luna" de Bertolucci [onde a voz de Maria Callas substituía a sua própria nas cenas de canto] ou "Uma Mulher Solteira" de Mazurski.

Faleceu de leucemia, após uma luta de vários anos com a doença .

A segunda actriz que aqui se evoca é a britânica Jackie Burroughs.

Francamente menos conhecida do que Clayburgh foi actriz de televisão tendo, no cinema constado do elenco, por exemplo, de "The Dead Zone", de David Cronenberg.

Também de cancro.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Avalie-se e Credite-se!---Breves Reflexões Pessoais Sobre Alguns Aspectos da Vivência Democrática"


Um dossier inserto na edição de 23.01.10 do "Público" dedicado ao Ensino Superior em Portugal, inclui uma entevista feita por Bárbara Wong ao presidente de uma tal A3ES, imaginativa sigla da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, uma "fundação de direito privado independende do governo".

De entre os diversos assuntos abordados, permito-me destacar aqui trêss que me parecem de especial relevância pelas sugestões que, a mim, pessoalmente, pelo menos, oferecem de reflexão sobre aspectos relevante da nossa existência colectiva.

Primeiro aspecto: abordo-o a partir de uma frase do entrevistado.

Concretamente a que diz: "O dever do estado é garantir o nível mínimo de qualidade do ensino superior. Este tem três características que tornam essa obrigação importante: ser um bem de experiência, uma aquisição rara e ter custos de abandono muito altos." [sublinhado meu]

A primeira reflexão que este fragmento das reflexões de Alberto Amaral é, desde logo, a seguinte: como é que sendo os custos do abandono universitário assim tão elevados e constituindo o fracasso de uma carreira profissional de professor, por exemplo, um exemplo demonstrável de tipo abandono [inutilizando todo o investimento feito pelo Estado e pelo próprio na sua formação e obrigando à escolha de uma carreira alternativa ou o ataque sem nenhuma ao mundo do trabalho] podem ser preconizados os exames de admissão à carreira docente realizados precisamente no fim do ciclo de formação académica dos sujeitos?...

Parece evidente [pareceria num país menos surrealista do que nosso...] que a alternativa a esta medida inexplicavelmente cruel, absurda e despesista residiria na integração em lugar "de honra" nos cursos visando a formação de docentes de dispositivos de orientação profissional, por um lado, conjugados, por outro, com disciplinas de simulação lectiva avaliada dotadas de peso crescente na geografia curricular.
Já o escrevi e publiquei noutro lugar: proponho-me agora dar um doce a quem for capaz de provar que não tenho razão...

Segunda reflexão: abordo-o, retomando para o efeito, a mesma passagem da entrevista e prende-se com uma das "bandeiras" eleitorais da direita política---as defesa de um mirífica "liberdade de escolha" em matéria de instituições escolares da mesmíssima rede de ensinos básico e secundário.

Também nesta matéria tive ensejo de me pronunciar publicamente em mais de uma ocasião e, a menos que a frase de A. Amaral que diz: "é dever do Estado garantir o nível mínimo de qualidade no ensino superior" [frase relativamente à qual tenho, de resto, reservas substantivas uma vez que ao Estado eu exijo que garanta francamente mais do que um nível, simplesmente mínimo, de qualidade"]; a menos, dizia, que a frase em causanão se aplice, por absurdo de raciocínio, aos restantes níveis de ensino que são, no entanto, na realidade, os que colocam ou não o indivíduo que pretenda e possa fazê-lo em condições de frequentar o nível superior não faz qualquer sentido [aqui sim: por mínimo que seja] apresentar como "medida" no sentido da valorização de uma formação académica uma que pressupõe que, para todos os efeitos, não só que a qualidade não é assegurada em sectores vários da rede paga por todos como que não deve sê-lo oporque se assim não fosse não faria sentido a opção entre escolas "boas" [onde o Estado cumpre o seu dever] e escolas "más" onde ele não o faz e fica, assim, dispensado, na prática, de fazê-lo.

Junto um segundo doce [é só... pedir por boca!] a quem fornecer também aqui demonstração credível da minha sem-razão...

Terceira reflexão: prende-se com a essência mesma do conteúdo da entrevista, o seu "gist", como dizemos em didáctica do Inglês.

Há longo tempo que venho propondo uma «Instância de Acreditação Política» para os programas dos partidos e dos candidatos a cargos de representação unipessoal, onde esses programas devessem obrigatoriamente ser depositados juntamente com [algo que parece, de resto, não suceder no caso da acreditação dos cursos] todo um «plano de exequibilidade material demonstrável», formalmente vinculador dos respectivos proponentes como condição básica de aceptabilidade por parte do sistema eleitoral.

Trata-se de uma proposta a que junto outra criando a figura do crime público de incumprimento programático doloso, i.e., de incumprimento de medidas do programa político previamente apresentado sem necesssidade de denúncia desde que esse incumprimento demonstravelmente não se baseie em razões excepcionais não imputáveis à entidade incumpridora e só a ela, por incompetência ou má fé, atribuíveis.

Mais de uma vez propus esta medida sem pensar em particular no modelo de avaliação/acreditação universitária.

A verdade, porém, é que o precedente por este criado me permite consolidar a convicção ulteriormente, se necessário fosse, da bondade e da desirabilidade de um projecto que, por isso, faz, a meu ver, se possível ainda mais sentido, agora que já existe para um domínio relevante ainda que singular da vida democrática, a própria A3ES.

[Na imagem: "Democracy", fotografia extraída com a devida vénia de mideastposts-dot-com]

"País lunar..."


Não sei [desconfio...] se por qualquer estranho efeito potenciador/multiplicador da gripe [que recentemente resolveu vir fazer-me uma visita e prestar-me os seus... desrespeitos...] sobre o meu pessimismo natural, chego ao fim do dia de hoje mais suspeitoso do que nunca de ser, de facto, eu a versão moderna da "vox clamantis in deserto" a que aludo noutro lugar e que nunca deixa de me transmitir, ao apresentar-se, esta inquietante impressão de ser, na realidade, Portugal [com todas as pessoas, objectos, lugares, esperanças e o próprio futuro que parece conter] uma mera impressão dos sentidos mais audazes, uma simples ilusão de óptica [ou de ética?...] um imenso deserto lunar onde, de facto, coisa alguma a não ser pedras e pó, possui existência real...

Ou seja, dito [perguntado!] de outro modo: estaria afinal, num sentido mais literal e mais real do que inicialmente se supôs, Beckett, o Beckett ontológica e metafisicamente apocalíptico e final de "En Attendant Godot" e "Fin de Partie"---o Beckett niilista, desencantadamente mineralizador, de "Happy Days" certo?...

Portugal "fonte" beckettiana? Cá para mim, em especial em momentos e circunstância pessoais como estes de hoje, é essa cada vez mais uma hipótese a ter em conta...

[Imagem extraída com a devida vénia de legaljuice-dot-com]

"Vem Aí O Passado! Cuidado Com As Cabeças!..."

Se, em Portugal, tivéssemos uma elite independente e partidos políticos com capacidade para liderarem processos que são absolutamente fundamentais e cada vez mais urgentes de reflexão séria sobre as formas da nossa vida colectiva presente e futura, o artigo de Jorge Moreira da Silva no "Público" de 06.01.11 ["Sete desafios que Portugal não pode falhar"] não teria passado em claro, isto é, sem despertar reacções de, no mínimo, profunda apreensão e compreensível inquietação dos sectores económicos e sociais que são já hoje as grandes vítimas [as grandes "baixas"!] de um modelo de economia "que só vê para um lado"---e mal, pelos vistos---a avaliar pela "disaster area" em que ele tornou o nosso presente 'global' para já não falar no futuro que começa agora, para nosso horror, a delinear-se com um desemprego calamitoso, aumentos de todo o género e uma recessão de duração e efeitos imprevisíveis, aí à porta.

Não vou agora aqui repetir as propostas do autor do artigo do "Público" [era o que faltava, ser eu, a quem a maior parte delas desperta a mais séria repugnância e e a mais veemente e frontal rejeição, a fazê-lo!] remetendo aqueles poucos que, em Portugal, ainda se dão ao trabalho de pensar [e que são, como digo, meia-dúzia pouco mais...] para o texto em si: vou apenas referir os alguns aspectos que me parecem essenciais.

Começo por registar que os tais "desafios" de que fala o autor vão todos invariavelmente dar ["et pour cause"!...] ao velho pressuposto/obsessão neo-liberal puro de privatizar ou, como preferem dizer os apóstolos da ideia temendo---muito compreensivelmente, aliás---a indignada oposição dos que não ignoram onde fatalmente nos conduzirão a todos como sociedade os projectos de «regressão civilizacional» organizada [senão... "estratégica"!] dos neo-liberais em fúria articuladas com as de aprofundamento cego de um modelo intrínseca e des/estruturalmente disfuncional como é o do capitalismo neo-liberal deixado à solta; grande parte dos "desafios" em causa é, pois, dizia, aí que vão dar a esse antigo sonho distópico de "economia total" que tão graves consequências como modelo civilizacional está a ter para nós, classe média europeia e "europeia"---afirmando o seu proponente fazê-lo, pelos motivos "de prudência táctica" que acabo de referir, em termos argumentativamente "açucarados", enunciando objectivos irrecusavelmente eufónicos e de sucesso pop garantido com esse astuciosíssimo "libertar a sociedade portuguesa do peso do Estado" à cabeça, habilíssima escolha de palavras que mostra como a direita "não as deita em saco roto", sempre que se trata de ganhar posições na batalha "pela conquista e apropriação estável da História", batalha essa que vai, como ninguém duvidará, conhecer novos e importantes episódios, nos tempos mais próximos, por razões que, de tão óbvias, me dispenso de voltar a enunciar.

Propõe, por exemplo, o extensíssimo texto/programa dos "Desafios" "uma reforma estrutural ao nível das funções do Estado" [está-se mesmo a ver, não está?...] que passa por "privatizações no sector da energia, comunicação social, transportes e telecomunicações" [pois...].

É verdade que ele vai dizendo sempre querer um "Estado mais forte na relação com os privados" [?] com [maiores?] "poderes de regulação, auditoria e fiscalização" mas tranquilizam-nos esse tipo de pias intenções quando todo o tecido activo da sociedade portuguesa se encontrar já, de facto e de direito [a electricidade, a televisão, os transportes urbanos e interurbanos---que eu sempre disse que deveriam ser incluídos entre os serviços públicos básicos, ao lado da Saúde, da Educação ou da Justiça---a Internet e por aí fora, tudo ou quase coisas que são já hoje, sem neo-liberalismo "canónico" no poder, chorudas negociatas para grandes grupos económicos privados] nas mãos desses mesmos intereses privados e, como é evidente, obedecendo no seu uso social ao quadro de objectivos intrinsecamente unilaterais que eles por definição têm?

Aliás, o texto nem faz segredo do que prevê, por exemplo, para o emprego quando vem, logo a seguir, preconizar o ataque a uma "rigidez laboral" que ninguém honestamente é já hoje capaz de ver---senão obviamente quem faz absoluta questão de não ver...--- atirando o ónus da precarização vigente do mercado laboral não à cupidez dos empresários em consonância com um Estado dócil e hipocritamente cúmplice mas à tal "rigidez" que só é, todavia, repito, 'visível' da direita política, incluindo nesta, por direito próprio, aliás, a direita "social" "pê-ésse" operando na sociedade portuguesa---como é seu timbre, de resto---na condição da "lebre" da disfunção economocrata ortodoxa, chamada agora a corrigir os efeitos da incompetência [eu chamar-lhe-ia: "significada": da "incompetência significada"] dos "suspeitos do costume" que são os discípulos de Bernstein onde quer que a sua acção se faça sentir.

Seria bom, desde logo---é um 'conselho de amigo' que me permito aqui deixar aos meus concidadãos habitualmente mais... "distraídos" e/ou mais sensíveis ao tipo de lugar-comum adocicado a que tanta desgraça económica, social e política recente, como país, devemos, na próxima circunstância eleitoral, normal ou extraordinária; seria bom, dizia, que se tivesse o texto/programa em causa em mente na altura de votar, enquanto for ainda tempo de evitar a americanização total da sociedade portuguesa---e isto, numa altura, em que a própria sociedade americana, que fez em geral, do estado de desregulamentação social uma mais que discutível bandeira, tenta, lutando com resistências poderosíssimas da "América profunda", na Saúde, desde logo, com Obama, encontrar formas de humanizar e efectivamente democratizar uma comunidade que, com as consequências que se conhecem, faz questão de se orgulhar do modo como, com sacrifício de si mesma e dos seus direitos mais elementares, garante chorudos negócios a quantos fazem do objectivo de espremê-la quanto podem em nome de uma desumana "liberdade", todo um projecto e todo um tópico programa social e político.

Considero, ainda, particularmente curioso e digno seguramente de reflexão aquilo que a edição do "Público" de 19.09.10 [Cf. João Caraça, "Milagre Chinês?" e "A economia poderá falar mais alto do que o Estado-providência nas legislativas suecas?", este último, aliás, um título profundamente enganador que, de alguma forma, nega o conteúdo do texto a que se reporta, como veremos mais adiante].

No primeiro daqueles textos, refere-se o caso da China, país onde "os sectores estratégicos permanecem firmemente sob o controlo do poder central, podendo nos outros sectores da economia funcionar os mecanismos de mercado", um modelo para que, ao que tudo indica, tende actualmente, flexibilizando a sua própria estrutura de modo a adaptá-la à perda de fornecedores e mercados de eleição como os socialistas, o regime cubano, por exemplo e que, mesmo não esquecendo os negativíssimos impactos não-sistémicos ambientais, tem conduzido a China ao estatuto de super-potência global emergente e concretamente à primeira linha das economias mundiais de modo a que, "a alta finança" ['global' que, como é sabido] "não mostra especial afecto pela democracia" não tenha tido já mais remédio do que aceitar reconhecê-la e até, como no caso nacional, torná-la detentora de parte da dívida pública portuguesa.

No segundo dos textos que refiro, aborda-se o bem conhecido e sempre muito propalado "caso" sueco para dizer [e, por isso, eu referia atrás que o título da peça induz em erro] o qual, lembra a autora, Francisca Gorjão Henriques, assenta em larga medida em [e cito] "uma pesada carga de impostos para financiar o Estado social" aliada a "uma economia fortemente liberal".

Uma economia" fortemente liberal" que não considera, pois, o Estado social e ipso facto o conjunto da sociedade que dele pode, assim, alguma coisa efectivamente beneficiar, um inimigo natural, curiosa singularidade!...

Mais: a campanha dos sociais-democratas suecos tem [pasme-se!] sido conduzida, diz ainda a autora, "com a garantia de não cortar os impostos" e [pasme-se ainda mais!] "até aumentar alguns no futuro".

Poder-se-ia, lendo apressadamente o artigo supor que fosse assim sob tutela governamental social-democrata [curioso termo este que tanta variedade de concepções esconde!...] mas a verdade é que Francisca Henriques tem o cuidasdo de acrescentar, noutro ponto do seu artigo, que "Com a vitória do centro-direita [actualmente no poder] não houve alterações espectaculares ou sistemáticas, nem golpes radicais no Estado-providência".

Leram bem "Com a vitória do centro-direita [...] não houve golpers radicais no Estado-povidência".

É verdade, diz a autora, que "o centro-direita tornou as regalias menos generosas, baixou impostos para os salários mais baixos e diminuiu o número de subsídios de doença" [diria eu: por alguma coisa é direita e não esquerda!...] mas, no essencial, não pôs, segundo a jornalista, em causa "os serviços públicos".

"Com", conclui a autora, "bons resultados".

... demonstrando, a meu ver, que pode haver direita e não haver selvajaria [anti] social; que pode haver direita e não retrocesso civilizacional impuro e nada simples; que pode haver direita sem recurso a fórmulas e "soluções" velhas-e-relhas que outros ou há muito já puseram, com demonstráveis bebefícios, à porta do "seu" próprio capitalismo ou estão agora a tentar, pelo menos em pequena e, sob diversos aspectos, sobretudo "simbólica", medida...

Escreve ainda a jornalista a rematar: "os eleitores parecem valorizar mais um Governo competente do que a ideologia"; curiosa conclusão, esta! A propósito dela aquilo que eu pergunto muito clara e muito firmemente é: mas não é a "questão da natureza do Estado moderno" uma questão intrínseca e nuclearmente ideológica?

É por muitos pretenderem que acreditemos que não e que as ideologias [como a própria História ou com a própria História] chegaram ao fim que, nós portugueses [vamos ser claros!] entregues criticamente indefesos nas mãos de uma social-democracia... "de aluguer" e aceitando tão implícita quanto regularmente ser a ela imolados estamos onde eastamos ou chegámos onde chegámos...

À calamidade em que se tornou a nossa existência conmo sociedade onde o melhor futuro que perece conseguir-se arranjar é... o passado que outros não quiseram!

[Imagem extraída com a devida vénia de new-dot-taringa-dot-net]

Michel FUGAIN - Le Chiffon Rouge



Um cântico espantoso, cujos primeiros acordes se ouviram hoje [pasme-se!] na televisão pública de Sócrates, Santos Silve, Lelo e companhia...

Accroche à ton cœur un morceau de chiffon rouge
Une fleur couleur de sang
Si tu veux vraiment que ça change et que ça bouge
Lève-toi car il est temps

Allons droit devant vers la lumière
En levant le poing et en serrant les dents
Nous réveillerons la terre entière
Et demain, nos matins chanteront

Compagnon de colère, compagnon de combat
Toi que l'on faisait taire, toi qui ne comptais pas
Tu vas pouvoir enfin le porter
Le chiffon rouge de la liberté

Car le monde sera ce que tu le feras
Plein d'amour de justice et de joie
Accroche à ton cœur un morceau de chiffon rouge
Une fleur couleur de sang

Si tu veux vraiment que ça change et que ça bouge
Lève-toi car il est temps
Tu crevais de faim dans ta misère
Tu vendais tes bras pour un morceau de pain

Mais ne crains plus rien, le jour se lève
Il fera bon vivre demain
Compagnon de colère, compagnon de combat
Toi que l'on faisait taire, toi qui ne comptais pas
Tu vas pouvoir enfin le porter
Le chiffon rouge de la liberté
Car le monde sera ce que tu le feras
Plein d'amour de justice et de joie

Michel Fugain

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"O 'Che'..."


O 'Che', mais que um pessoa real, um símbolo eterno de generosidade e inquietação revolucionárias e de saudável insatisfação transformadora do real!...

Ainda a «Questão da Igreja» e do Seu Evidente Desajustamento da Realidade"


Num texto de jornal que cito noutro lugar deste "Diário" [cf. "D.N." de 09.02.10, "Papa afirma que inferno existe e pede aos fiéis jejum de palavras"] faço referência a uma notícia envolvendo a defesa da realidade física do Inferno feita, em pleno século XXI pelo actual Papa, supostamente um abalizado pensador e reputado teólogo cristão.

Sobre o primeiro destes aspectos, pronuncio-me noutro lugar do "Quisto": não tenciono, por isso, regressar, para já, aqui, a ele.

Sobre o segundo e ao segundo, sim.

Teimou ele em acudir-me recorrentemente à memória desde que dele tive conhecimento e não resisto a trazê-lo agora aqui ao ler, de Ana Vicente ["membro", diz o jornal, "do movimento Internacional Nós Somos Igreja e investigadora"] uma referência à praga da pedofilia protagonizada por eclesiásticos e, pelos vistos, segundo esta investigadora, também por eclesiásticas num inquietante quadro fenomenológico ou fenoménico de incidência sexual desviante que não pode, a meu ver, dissociar-se do tipo de concepção profundamente disfuncional da própria igreja em matéria de sexulidade e de que deste, trágico embora, caso da pedofilia está longe de constituir sintoma isolado.

Mas, dizia, eu, sucede que a primeira daquelas referências que citei me acorreu, desta última vez, irresistivelmente ao espírito ao ler o que Ana Vicente escreve sobre uma amiga sua, norte-americana, também ela abusada em criança, com sete anos de idade, pelo prior, suponho que da sua freguesia ou, pelo menos, de uma freguesia próxima, ignoro se em Portugal, se nos Estados Unidos onde, como se sabe [vai-se, aos poucos, descobrindo...] o problema atingiu, aliás, tambem as inquietantes proporções de autêntica epidemia que teve noutros lugares.

Ocorreu-me a referência àquele "jejum" [singular palavra, insidiosamente censória e hipocritamente repressora e silenciadora, esta, no contexto!] "de palavras" pedido pelo Papa aos fiéis ao ler que à vítima dos abusos narrados por Ana Vicente foi prometida assistência terapêutica especializada pela própria igreja [onde, refere ainda a autora, quando a amiga desta pôde afastar-se do lugar dos abusos, outras crianças permaneceram "num estado de extrema vulnerabilidade"] no sentido de ajudá-la a lidar com as sequelas traumáticas da violência a que fora [assim, reconhecidamente] sujeita se [imagine-se!] aceitasse "asssinar um documento a afirmar que jamais falaria do caso" [!]

É espantoso [e arrepia!] que tenha sido possível a uma instituição, apesar de tudo, de referência moral no mundo em que vivemos [e que jura, aliás, a pés juntos ter feito e continuar a fazer tudo o que estava ao seu alcance para lidar frontalmente com esta verdadeira calamidade endémica dos abusos sexuais praticados por padres e outros membros da instituição]; é espantoso, dizia, que tenha sido possível à igreja, a alguém em nome dela e por ela, fazer uma exigência desta natureza que a torna obviamente cúmplice directa dos abusos praticados e avançar com uma condição deste jaez quando a sua óbvia [e gritante!] única obrigação era [i] responsabilizar directamente o abusador, não pactuando, fosse como fosse, com as práticas sexuais desviantes a que comprovadamente se entregara e [ii] pôr-se decorrentemente à incondicional disposição da vítima ou vítimas [Ana Vicente sugere, como disse, que o caso não ficou por aqui o que torna tudo isto de uma gravidade ainda maior] no sentido de ressarci-las por todos os meios previstos na lei como na consciência e no sentido humanista e moral dos seus membros da imperdoável agressão sofrida.

Escandaliza-me, confesso, que seja possível à igreja vir dizer não apenas que, enquanto instituição, não considera haver o que quer que seja no seu património educacional e formativo; na sua identidade cosmovisional e especificamente pedagógica, prática, formadora e multiplicadora de identidade e consubstanciadora activa de uma praxis global própria para propiciar a emergência de situações que são, porém, recorrentes e se estendem demonstravelmente por todo e qualquer o lugar onde haja padres como que cumulativamente se permita afirmar, com idêntica ousadia que nunca tentou ocultar essas situações ou deixou de lutar contra elas onde casuisticamente surgiram.

Meter a cabeça na areia, como tantas vezes vimos fazer no passado [e testemunha a própria autora do segundo dos artigos que cito] já seria suficientemente mau para uma instituição que se pretende tutela moral de todo um universo cultu[r]al e civilizacional; fugir para a frente e mentir abertamente parece-me, então, não há violta a dar a isto, repugnante, objectivamente criminoso e absolutamente imperdoável.


[Imagem extraída, com a devida vénia, de ca70-dot-blogspot-dot-com]

"Malangatana Valente, 1936-2010"


Morreu Malangatana!

Era um dos meus "pintores naturais" preferidos, com aspectos de um Guimarães muito mais épico e articulado ou de um Mirò ainda mais visionário e disposto a ir fabularmente mais longe onde, nos seus melhores momentos, brilhava um impulso narracional e um empolgante sopro global que trazia ao espírito imediatamente Picasso, o Picasso sinfónico dos grandes frescos visual e iconceptulamente panfletários---temperado com algo "muito bem diluído" [como diria um mais imaginativo... 'gastrónomo das formas'] de Paula Rêgo.

Foi, com efeito, um artista plástico empolgante, muito sofisticada e, por isso, muito falsamente "naïf", cultor de um 'vitalismo' plástico e até de concepção ou entendimento e intuição pessoais da realidade que fazem, por vezes, pensar nessas arrebatadoras e quasi-hipnóticas sínteses concepcionais e textuais do chamado 'realismo fantástico' latino-americano.

Os seus fabulosos e, por vezes, inquietantemente apocalípticos 'retábulos barrocos habitados' com algo, por exemplo, de pilha de corpos em campo de concentração e/ou cerimonial dos mortos mexicano empolgam visual, plástica e concepcionalmente tanto quanto inquietam filosoficamente pela visão da condição humana que têm pressuposta ou colada---"tecida"...---às próprias formas e que, a mim, em especial, que cunhei o termo e defini o conceito, apontam para a ideia muito beckettiana de "trans-realismo" no método e de "comédia ontológica" na concepção teórica final.


Morreu, hoje, 5 de Janeiro, aos 74 anos, no Porto.

"Pirataria: Comercial ou... Cultural?..."


Singular momento aquele que o comércio de "produtos culturais gravados" escolheu para intensificar a campanha "anti-pirataria"!...

A França sarkozyana já há há muito o havia começado a fazer, de direito e de facto, com recurso àquela curiosíssima medida de suspender o acesso à Net aos prevaricadores.

Digo que é singular que o tenha feito [e que entre nós se pretenda imitá-lo] por vários motivos.

Começo por referir um que me parece particularmente relevante---significativo: a semelhança existente entre a medida em causa e uma recente proposta "europeia" de origem alemã visando condicionar o direito de voto aos países orçamentalmente incumpridores.

Disse-se, então---muito acertamentemente, aliás, a meu ver e julgo que no de qualquer pessoa minimamente bem formada e mesmo apenas medianamente esclarecida!---que se tratava de uma violação grave da democracia desde logo na medida em que estava em causa, com a medida referida, atingir as sociedades europeias em geral onde "dói mais", a saber nos seus direitos políticos básicos: básicos, de resto, em qualquer estrutura ou sistema minimamente democráticos.

Eu diria mesmo que a medida do governo francês representa, em última mas real instância, o reconhecimento implícito mas também claro da natureza decorrencial e meramente ancilar, insubstantivamente instrumental, da Política na Economocria e especificamente na i/lógica economocrata.

É, pensei e disse, a admissão do papel de "ancila economiae" que lhe foi distribuído no contexto de um dos maiores embustes políticos e civilizacionais [e atentados à democracia e ao espírito democrático] de que há memória na História moderna e Contemporânea: esta "Europa" desenhada a régua e esquadro, à maneira [e, ao que tudo indica, com consequências, sob muitos aspectos, semelhantes] das antigas 'manobras' imperiais de "engenharia nacional" típica dos colonialismos clássicos que, como se sabe, faziam e desfaziam [volto a dizer: com os invariavelmente trágicos efeitos que são hoje públicos] nações "à la carte" conforme as suas conveniências e o poder dos seus canhões e exércitos...
O modelo de «state building» ou mais exactamente de «nation engineeering» "civilizou-se" exteriormente e, do ponto de vista do projecto ou projectos de reordenamento continental, neste caso, europeu, a férrea e opaca "Berlim" de 84-85 mudou-se, hoje, para uma bem mais «simpática» ou mais... «porreira» "Lisboa" 2010 mas a i/lógica de imposição e instrumentalização política e nacional, de autoritarismo e funcionalização constitucional, é exactamente a mesma assim como a falta de dignidade democrática, repito, de todo o processo de construção e desconstrução de países, culturas e dependências ou independências que estiveram na "Berlim" original.

A tal proposta que visava retirar direitos políticos essenciais inscreve-se, pois, de forma natural, nesta i/lógica centralista e feroz---e implacavelmente!---economicista desenhada pelas grandes potências multinacionais e levada à prática pelos respectivos serventuários políticos de todo o tipo.

Ora, a minha tese é que, numa época em que, como dizia um amigo meu, "os lápis são todos virtuais e o nosso cérebro é cada vez mais electrónico" o caminho do "horizonte gnoseotópico" tantas vezes [com a ilusória designação de «sociedade do conhecimento» reclamado pelo Ocidente liberal e neo-liberal] para que alegadamente se caminha hoje-em-dia, passa, de forma irregressível e absolutamente verticial, pelo acesso [e pela cultura de acesso!] aos universos virtuais, os potenciais grandes difusores de Inteligência e de Cultura num futuro cada vez mais próximo.

Em meu entender, o acesso ao mundo virtual está para o Conhecimento e, por isso, "en fin de partie" para a própria Democracia, como esta enquanto dispositivo institucional [e mental!] está para uma verdadeira Europa que está, por seu turno, infelizmente bem longe de existir e que não é seguramente esta, a das aspas...

Atingir as pessoas ali, nos mecanismos conducentes àquela cultura de acesso aos universos virtuais onde se situam as portas, não da "Percepção" como titulava Huxley numa obra famosa, mas da Informação e da Inteligência equivale, no fundo, pois, a atingir em cheio uma população, em larga medida, iletrada [e/ou funcionalmente iletrada] e a comprometer ainda mais o respectivo acesso às formas realmente determinantes dessa mesma Inteligência e, por conseguinte, do próprio Futuro.

Tal como vem insistentemente posta a questão da pirataria é uma questão legimamente comercial, nunca ou em pequeníssima escala a vi tratada como o problema cultural e até civilizacional que é ou tem de ser.

Isto é: impõe-se, a meu ver, como algo de histórica e, insisto, civilizacionalmente essencial que se distinga muito bem o que é comércio paralelo e, por conseguinte, atentado ao legal [que eu não discuto porque não sou comerciante e o problema ou problemas dos comerciantes, por muito que reconheça naturalmente a sua legitimidade objectiva e formal não são meus] e aquilo que é, sobretudo numa altura em que os objectos da cultura, por virtude da crise, tendem a tornar-se para muitos ainda mais proibitivos, um meio ideal de fazer circular esses mesmos objectos na sociedade, pondo-se [tendo obrigatoriamente em termos éticos, políticos, civilizacionais, de se pôr!] em toda esta questão, o problema realmente central da responsabilidade social da propriedade, intelectual e comercial como noutros, se porá [e põe!] o das outras formas fisicamente mais concretas de propriedade.

"Soa bem" falar em "pirataria" e por aí adiante e diabolizá-la de forma indiscriminada mas é essencial que se percebam as decorrências políticas e, insisto, civilizacionais do problema--para o que é vital que não sejam misturados alhos e bugalhos que o mesmo é dizer intereses comerciais e, no limite, a Democracia e a própria viabilidade realmente democrática do Desenvolvimento e do Progresso.

[Imagem ilustrativa extraída com a devida vénia de www1-dot-folha-dot-uol-dot-com-dot-br]

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

"Colonialismo de Influência ou Canibalismo de Charme?..." [por rever]


A fazer fé no "Confidencial/Economia & Negócios", o suplemento do semanário "Sol", a empresa Mota Engil está "interessada na ferrovia angolana".

De acordo o jornal, já tem mesmo "quadros" no terreno a trabalhar para "garantir a concessão" das linhas de Luanda, Benguela e Moçâmedes.

Sabendo nós o fabuloso potencial lucrativo de Angola em matéria de negócios para as grandes empresas não há seja o que for de novo nisto.

Angola [como a China, outro dos alvos preferenciais da "diplomacia de recovagem" de Sócrates e Cª, a qual mete, como se sabe, compra de parte da dívida pública nacional portuguesa pela China e tudo] tem uma estrutura política que, no plano económico, pode ser referida, ressalvadas as respectivas diferenças, como "de economia teleguiada", isto é, um modelo económico, de um modo ou de outro, à medida do tipo de concepção tipicamente "lobbyista" paradoxalmente tão do agrado dos poderes económico-políticos... liberais [mesmo dos... "sociais"] os quais se movem como peixe na água em áreas onde possam mover "par... dessous le marché" o tipo de "discretas" influências [Cê-pê-éle-pês e Cª] por detrás das quais estão sempre, afinal, os grandes negócios privados.

Não há, pois, repito, o que quer que seja de novo neste apetite da Mota Engil pelo pingue mercado petro-africano.

O exercício que aqui proponho hoje, a propósito da notícia do "Sol", não se prende, pois, com qualquer "novidade" vinda propriamente do lado desse apetite ou desse interesse enquanto tal.

Não: o exercício que proponho é de outro tipo e vai muito além da constatação da existência, por um lado e da naturalidade, por outro, ainda e sempre deles, desse interesse e/ou desse apetite.

Envolve a consideração e a equacionação de um texto de Maria Cândida Proença, investigadora do Instituto de História Contemporânea Faculdade de Ciências Sociais e Humanas no suplemento "P2" do "Público" de 02.09.10 onde se aborda a visão colonial da I República [que contemplava modelos de descentralização autonomizadora progressiva das colónias] projecto esse, recorda a autora, a breve trecho bloqueado pelos "interesses económicos" aos quais a autonomia em causa estava, por razões óbvias, longe de interessar.

Foram interesses que o salazarismo não soube ou não quis contrariar [até homens de "direita civilizada" como cunha Leal o sublinharam] e que estiveram afinal na base da tragédia que foi o fim do colonialismo, também do português.

Ora, aquilo para que Maria Cãndida Proença apongta, na realidade, no seu artigo e naquele ponto em concreto que cito atrás, é num aspecto crucial de todos os colonialismos e neo-colonialismos: o bloqueio não só sistemático: sistémico também, do desenvolvimento do colonizasdo, essencial para que o próprio modelo colonuial cumpra a sua "missão" que é basicamente, como se sabe, encontrar fornecedores de matérias-primas que sejam ou também possam mercados de produtos manufacturados.

É evidente que o colonialismo só considera, nesse quadro, as formas e graus funcionais de desenvolvimento local.

A própria rede viária ou, em boa medida, a rede urbana e até a estrutura urbanística, por exemplo, obedecem aos interesses do colonizador---do transporte das matérias-primas que extrai ou interessando a distribuição dos produtos que, a partir delas, pôde gerar.

No plano laboral, o colonialismo determina proletariados não apenas extremamente rudimentares e pouco instruídos ligados, sobretudo, à extracção das matérias-primas em bruto ou quase mas, de igual modo, barato porque o segmento da fileira onde a parte relevante da técnica e da tecnologia é aplicada se situa nas metrópoles onde as matérias-primas se convertem em produtos.

Por isso, o modelo colonial é por definição um modelo económico, social e político estruturalmente des-igual: o pouco ou muito desenvolvimento que traz, trá-lo para os centros, reservando às periferias um papel meramente ancilar que não fomenta nem o desenvolvimento tecnológico nem o progresso material e económico.

Ora, quando nós, mais de três décadas depois do fim do colonialismo português vemos como a antiga colónia precisa de tecnologia externa [a fazer fé no "Sol" a tal Mota Engil tem, apesar da presença dos "quadros" prospectores no terreno, concorrência] para modernizar a sua rede viária e é-nos difícil não pensar como estamos, se calhar, afinal, bem perto da estrutura colonial ou sejam os tais "interesses económicos" bloqueadores instrumentais mas também sistémicos da autonomia local em nome do seu próprio interesse em exportar, em vender, aquilo que, sendo localmente concretizado, não necesita, por razões óbvias, de ser comprado, de ser importado.

É esse, aliás, o papel do neo-colonialismo como "mutação" politicamente "decorosa" do velho paradigma colonial puro-e-duro: simulando a tal autonomia de que falava a investigadora da FCSH na forma de uma independência política formal, aquilo que ele faz, no fundo, é limitar-se a utilizar o poder ou poderes estabelecidos como mediadores do tráfico que antes era conduzido por si próprio, não lhe alterando, em última análise, nem a natureza nem o essencial das dinâmicas de natureza económica, social e, muitas vezes, até política que o caracterizavam.

É outro aspecto da famigerada justificação histórica e política---civilizacional, também---do capitalismo de que "gera desenvolvimento" e "produz riqueza" e por isso possui legitimidade para, como costumo dizer, se conservar "por trás do motor ou do volante da História": de facto, como tantas vezeas tenho insistido, ele só gera riqueza porque multiplica a montante as carências, a estrutura de "carencialidade significada", que, do ponto de vista dele e da sua i/lógica de produção, constitui uma matéria-prima vital na re/produção de capital que constitui a sua actividade real, efectiva: quando, com efeito, ele afirma que "desenvolve", esquece-se de dizer que esse desenvolvimento se caracteriza pela sua estrutural [mas desestruturante!] des-igualdade a todos os níveis [exactamente porque é parte integrante do seu modo de produzir e de gerar "valor"] e mesmo nos casos em que gera equipamentos estes têm sempre como referência de utilidade ainda e sempre os tais interesses do colonizador e, naturalmente, do mediador, seu associado no processo.

[Na imagem: colonialismo, gravura extraída com a devida vénia de neocolonialismo7-dot-blogspot-dot-com ]

"Sobre o [Im?] Possível Papel da Igreja no Mundo de Hoje"


De um "D.N." [o de 09.02.10] extraio um recorte que me permite documentar e, assim, de alguma forma, completar, as reflexões que faço na 'entrada' imediatamente a seguir.

Intitula-se o texto a que me reporto, significativamente, "Papa afirma que inferno existe e pede aos fiés jejum de palavras" e começa por dizer:

"O Papa Bento XVI defendeu a existência do Inferno, a seu ver, um lugar real, não vazio".

E mais adiante: "A tese de Bento XVI não é exactamente nova, pois o Papa já em 2007 havia afirmado que i inferno era um lugar, para além disso eterno.

Sempre o disse: não gosto de Papas, confesso e repugna-me, sobretudo, a ideia de "Papado".

Nunca obtive, por exemplo, resposta à pergunta: "Quem ou o quê começa por dizer aos papas as coisas que eles, em seguida, repetem... urbi et orbi ou coisa que o valha e como 'se arranjavam' as pessoas, no plano teológico e até prático, moral, antes disso?"

E, já agora, "Porquê aos Papas?"

"Por que necessita a Verdade de mediação [esta é uma questão-chave com diversos aspectos ou graus, chamemos-lhes assim e de que os Papas, muito naturalmente, nem querem ouvir falar...] e que efeitos tem---ou deveria ter---essa mediação nos indivíduos escolhidos para protagonizá-la?"

"Ficam permanentemente omniscientes?"

"É mediúnica?"

"Sonham os Papas com ela?"

"É um transe?"

"Possui natureza xamânica?"

[Se eu pretendesse ser brejeiro ou coisa pior perguntaria se os Papas vão jantar com Deus e é depois do café e do brandy que Deus comunica aos Papas a Verdade na forma "das últimas", tipo: "Bento, queres, então, saber as últimas, filho? Vamos lá, então! Tens papel e lápis?"...]

Mas, enfim, digamos que não pretendo ser brejeiro e, por isso, pergunto apenas mais "por quantos é a Verdade divísível", isto é, se as verdades não vêm todas de uma vez [se viessem continuaria a justificar-se que houvesse mais Papas daí em diante?...] quando é que a Verdade... «fica completa»"?

Há muitas outras questões que o princípio da infalibilidade papal [quem a fixa? Quem a legitima? etc.] levanta e que nem vale a pena aqui referir.

A pena vale, sim, dizer que é precisamente esta linha seguida pela igreja institucional para fazer face à questão do seu lugar e muito especificamente da sua pertinência, da sua fundamentada e fundamental [ou não...] relevância no mundo de hoje que, a meu ver, está em causa e deveria ser [ao lado de outras levantadas por verdadeiros momentos de abominação mental intelectual, civilizacional, etc. dificilmente imaginável envolvendo, por exemplo, a questão feminina que mais do que uma questão abstractamente ontológica e até ideológica ou teo[i]lógica é uma questão elementar de humanidade e até de direitos humanos básicos]; a pena vale, sim, reflectir, dizia, sobre a oportunidade perdida no plano da afirmação de uma genuína relevância civilizacional por uma instituição capaz de, apesar de tudo, obter eco no conjunto da sociedade humana inclusive naquela parte desta que, valorizando a essência da atitude ou da praxis crística tal como ela nos chegou, nela se revê sem nunca deixar de ser, para aquilo que, em termos humanos básicos, conta, Esquerda.

Uma instituição, porém, que parece mil vezes mais interessada em desafiar a inteligência, o bom senso, a própria ciência---o Tempo, a História, numa palavra---através de uma espécie de teimoso projecto ou programa de resistência que passa por opor a toas essas coisas algo, um modo de pensar, que se aproxima, como nos casos que acabo de citar, perigosamente do medievalismo e do obscurantismo impuros e nada simples...

[Imagem extraída com a devida vénia de pliniocorreadeoliveira-dot-info]

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"É A História, Meu Caro!..."


Santana Lopes [Santana Lopes "of all people"!...] reflecte no "Sol" de 12.11.10 ["Que é feito da Espanha católica?"] sobre o que entende ser a "laicização radical do país vizinho".

Não vou agora aqui pronunciar-me sobre a evolução da 'Espanha mental, cultu[r]al, social e sociológica' no pós-franquismo.

Não sou antropólogo ou sociólogo para me abalançar a fazê-lo de uma forma minimamente séria e responsável.

Digamos, no entanto, que tenho uma "educada impressão" da questão, formada a partir, sobretudo, do meu contacto directo com a sociedade espanhola [sem excluir outras fontes mais académicas e literárias sem falar na imprensa, desde logo e por exemplo] e que essa "educada impressão" vai francamente no sentido da formulação de uma ideia globalmente lisongeira da evolução da Espanha, sobretudo da Espanha urbana, nesse período da sua História mental, cultu[r]al e até política recente.

Não ignoro o bem consolidado consumismo da sociedade espanhola nem, por outro lado e noutro plano mais relevante envolvendo a vida colectiva, a cedência substantiva de uma parte importante da sociedade espanhola a um mitário [como dizer?] "facilmente demomórfico" [isto é, mais determinado pela acção de lugares-comuns eufónicos e, por essa razão, de fácil assimilação pelo cidadão médio do que por uma verdadeira reflexão de ordem realmente e, sobretudo, consistentemente política] que a levou, por exemplo, à eleição dos ilusórios Felipe González ou José Luis Zapatero [para já não falar no embaraçoso "deslize" democrático e até humanitário que foi o do politicamente minúsculo Aznar].

A Espanha é, no entanto, em termos globais um país ainda fortemente traumatizado pela sangrenta Guerra Civil resultante da sedição franquista e pelo doloroso [e não menos sangrento] processo de consolidação da ditadura que se lhe seguiu e que deixou, a meu ver, fundas marcas no inconsciente colectivo espanhol.

Ora é minha firme convicção que aí a cumplicidade do catolicismo oficial e institucional com a opressão/repressão fascista terá, por isso mesmo, i.e. porque se tratou de pactuar com [e até de oficialmente con/sagrar] um regime com aspectos dificilmente contornáveis de ditadura militar e política obscurantista, ultramontana, instrumentalmente genocída onde as 'operações' de sanguinária "limpeza" política ["political cleansing"] atingiram limites que não alcançaram, desde logo, entre nós, onde o salazarismo [cujas cumplicidades no plano eclesial institucional, assumiram aspectos, porém, substancialmente similares] se revelou, como é sabido, basicamente um fascismo... "descafeinado" cujas mãos puderam sempre sujar-se "a bom recato" [nos calabouços e salas de "interrogatório" da Pide] ou suficientemente longe [e entre povos... "primitivos"] para não incomodar demasiado as consciências, em geral; é minha firme convicção, dizia, que essa cumplicidade e esse papel consagrador da ditadura por parte da igreja católica oficial desempenhou um papel decisivo, no modo como a consciência espanhola relativamente às suas próprias instituições e ao seu passado se foi formando e desenvolvendo.

Não me custa, por isso, admitir como tese que a repugnância mesmo se muitas vezes instalada, sobretudo, como digo, sob forma muita vaga e muito 'esquemática', demasiado linear, até, talvez, em tese, no subconsciente colectivo da Espanha resistentemente legalista e/ou civilizada; não me custa, por isso, dizia, a crer que a repugnância ou mesmo até simplesmente a indiferença de uma parte considerável da Espanha contemporânea relativamente a esse trágico período da História do país com as inúmeras abjecções e vilezas que trouxe consigo [a começar pela da própria sedição que está nos genes do franquismo e com a qual muitos, de uma forma ou outra, acabaram por pactuar] e por quem o protagonizou ou caucionou tenha acelerado um processo de, a meu ver, inevitável laicização generalizada das sociedades modernas---uma laicização para cujo ascenso muito terá contribuído a tenaz obstinação da estrutura vaticana e naturalmente das suas ramificações locais no sentido de se eternizarem como um persistente corpo cada vez mais estranho no tecido [ético mas também cultural, mental, cognicional, especificamente científico, etc.] da sociedade moderna e com a sua dificilmente compreensível teimosia em não percebê-la não só onde ela é mais lúcida e esclarecida do que a própria igreja mas também onde ela é simplesmente vã e desprovida de substância humanista assim como de verdadeiros valores.

Santana Lopes espanta-se [e inquieta-se] com a laicização espanhola; eu, sinceramente, não.

Isto é, inquieto-me---porque acredito que uma Igreja-consciência poderia ter um papel absolutamente vital na humanização global de um mundo que perdeu já, por completo, a noção de demasiadas coisas essenciais para poder permanecer, em termos genéricos, civilizacionalmente respeitável e digno---mas não me espanto.

Se eu fosse dado a clichés e esse tipo de coisa que dá, aliás, sempre muito jeito para "fechar" textos e reflexões como esta---sendo, como sou, além disso, uma pessoa em geral verbalmente contida e bem educada---seria tentado a encerrar esta brevíssima "lucubração" com a frase dirigida ao autor do artigo do "Sol", atirando-lhe, mutatis mutandis, com o já clássico 'bushismo': "É a História... meu caro!..."


[Na imagem: "As Horas de Maria" da série "Sacrilégios Escolhidos", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, inédito]

O Estado 'Broker' ou Estado Almocreve..."


É uma tese antiga minha: a consistente involução civilizacional operada pós-modernamente nas sociedades do Ocidente pelo triunfo e consolidação do capitalismo tecnológico encontrou no neo-liberalismo político [o qual, ao contrário do que pretendem alguns mais... distraídos, não é, em última instância, assim tão difícil de identificar e definir nos seus traços essenciais] e na 'demomorfia instrumental' o rosto social até aqui 'perfeito', funcionante] deu origem à deriva do modelo burguês anterior de 'Estado nação' [e do seu, chamemos-lhe: 'específico subjeccional', o «Estado-consciência»] para o que chamo o "Estado funcional", o "Estado broker" ou o "Estado almocreve", recoveiro dos interesses privados [e coveiro dos públicos, já agora...] de que é expressão... política adequada o modelo de "democracia instrumental" que nos rege desde '75.


Do suplemento "Economia & Negócios" do semanário "Sol", retiro para a minha recolha pessoal de "monstruosidades vulgares" mediáticas, o seguinte excerto de uma entrevista ao "Presidente executivo da EDP", António Mexia:


P- "Não era mais saudável o Estado não estar nas empresas?" [velha mata-mata neo-liberal


R- "Distingo a gestão boa da má e não necessariamente a natureza dos accionistas.

Não há razão nenhuma para que, na EDP, a presença do Estado seja negativa, pelo contrário.


Tem sido positiva para a nossa capacidade de desenvolvimento, e o seu apoio, em conjunto com o dos outros sócios, nacionais e internacionais, à estratégia de crescimento e de diversificação geográfica e de mercados foi importante [...]"


Estado "syndicat d' inniciative" ou num registo mais picarescamente "argot", "Estado Maquereau" são outras designações possíveis para esta diplomacia de guarda-livros a que vieram desembocar as antigas e, em geral [ao menos oficialmente... ] nobres funções da diplomacia formal...


[Na imagem: Imagens de financeiro e soldado por Georg Grosz]

"A Educação! Ah! A Educação, Esse... Abjecto Obscuro---do Desejo?..."


Com a devida vénia, retiro do "Público online" de hoje, dia 03.01.11, o texto que se segue e que devia em bom rigor ser senão chapado na cara ao menos colado na testa de todos os malofeitrores civilizacionais e imbecis institucionais ou privados que recentemente se puseram em bicos de pés [para pensar com uma parte do corpo que a boa educação me impede de mencionar expressamente e] vitoriar um relatório da OCDE que supostamente mostraria como o Portugal "sucático", politicamente agonizante e social [e até cientificamente] fétido, fez já a sua entrada triunfal na Gnoseotopia ou Olimpo Gnoseotópico Moderno...

"Numa escola da Pontinha, nos arredores de Lisboa, uma das professoras de Matemática já interiorizou a regra que tornou sagrada:Nunca me viro para o quadro”.
"Porquê?"
Não se sabe o que pode acontecer nas minhas costas”.
Esta é a imagem de insegurança que marca o dia a dia de um elevado número de professores em Portugal.
A indisciplina na sala de aula transformou-se num sério problema que, em muitas escolas do país, parece tender a agravar-se.
Que dificulta o trabalho de elevado número de professores, que os afecta psicologicamente e, em muitos casos, os leva a meter baixa médica.
Muitos destes casos nunca se tornam públicos mas são tema frequente de conversa nas escolas e motivo de queixas aos conselhos directivos.
Quando o problema se arrasta e perante a falta de soluções, muitos docentes recorrem à linha SOS Professores, da Associação Nacional de Professores.
Nos últimos quatro anos, foram ali registados quase 400 pedidos de ajuda para situações de agressão e de indisciplina nas escolas.
A maioria foi apresentada por docentes do sexo feminino entre os 40 e os 49 anos que leccionam o terceiro ciclo ou o ensino secundário na zona de Lisboa e já têm mais de 26 anos de serviço. Os dados foram recolhidos entre Setembro de 2006 e Junho de 2009 e no período de Outubro 2009 a Junho 2010, totalizando os 386 contactos com aquela Linha.
A grande maioria das situações diz respeito à agressão verbal (43,6 por cento) seguindo- se as queixas de indisciplina (29,5 por cento), de agressão física (27,8 por cento) e de mau relacionamento (13,6 por cento).
A maquilhar-se e a mandar mensagens.
Numa escola de segundo ciclo do Areeiro, as alunas de 11 anos maquilham-se durante a aula de Português, mandam mensagens de telemóvel e contam anedotas.
Aquela sôtora não faz nada, podemos fazer o que nos apetecer”, diz uma delas.
Na aula de Inglês, não, ninguém manda um pio”.
Porquê?
A DT [directora de turma] é bué exigente e não deixa”.
Visto assim, o problema parece residir na incapacidade do professor impor autoridade.
Mas, nalguns casos, a questão é mais complexa e interligada aos meios desfavorecidos em que as escolas e os alunos pertencem. Como aquela em que o quadro não está afixado na parede, mas tombado no chão da sala de aula.
É preciso pedir giz para escrever e não há apagador. Os que houve, foram logo roubados pelos alunos, crianças dos 5 aos 9 anos oriundas de bairros considerados muito problemáticos.
Não há lápis de cor, nem cadernos, nem material nenhum.
Mas é uma escola de ensino básico, do primeiro ao quarto ano.
Não, não é em Moçambique.
Fica no centro de Lisboa.
s alunos são ainda muito pequenos mas nada parece intimidá-los.
Respondem com o riso às ordens dos professores, saltam e correm na sala de aula.
É impossível cativar a sua atenção para ensinar.
Quando uma professora tentou impor-se, os pais protestaram, acusando-a de ser demasiado rígida e o caso foi analisado pelo director.
A professora passa a dar aula de porta aberta, decidiu.
Assim, nestas condições e com estes miudos é impossível ensinar”, diz a docente, exausta.
Há estabelecimentos de ensino em que os incidentes assumem maior gravidade e dão lugar à violência.
Numa escola da linha de Sintra um professor retirou um telemóvel a um aluno do oitavo ano que perturbava a aula.
Furioso e com a ajuda de outros colegas, o rapazvingou-se retirando o relógio ao professor.
Este queixou-se ao conselho directivo que discutiu o caso, aplicou uma suspensão aos jovens e restituiu o relógio ao docente".
[Nota: A fim de facilitar a leitura do texto, procedeu-se a uma reorganização integral dos parágrafos da notícia original]

"O Novo Fardo do Homem---Cristão ou Não..."


Do "Público" de 31.12.10 relevo um texto de José Manuel Fernandes ["O novo fardo do homem, e cristão"] sobre o que segundo o ex-director do jornal tem vindo a constituir a discriminatória e supostamente generalizada "indiferença" do Ocidente perante alguns ataques de que tem sido ultimamente vítima [os exemplos que dá são todos recentes] a prática do cristianismo no mundo.

Contrapõe Fernandes essa indiferença [o termo é seu] às denúncias que, em sua opinião, invariavelmente acompanham a intolerância religiosa sempre que estão em causa outras confissões que não as que compõem o cristianismo.

Ora, não passará pela cabeça de nenhum homem ou mulher de hoje civilizados e minimamente bem formados caucionar a intolerância, seja sob que forma for e seja ela praticada pelo ou contra qualquer parecela do universo religioso, incluindo, naturalmente, o seu próprio.

Aliás, discriminar, comparar, graduar poderá já até ser, no limite, entendido como uma forma---muito subtil, embora e até aparentemente piedosa---de abrir discretissimamente a porta a uma atitude muito subtilmente "significada" que é, a meu ver, em tese, debatível se não fará já mesmo parte de uma espécie de 'cone de penumbra mental e crítico' do qual não andará já muito longe, em embrião, larvarmente, a própria intolerância, como tal.

Mas seja como for o que me interessa aqui, sobretudo, a mim, sempre partindo desse pressuposto prévio de que não há intolerâncias boas e más [mas de que tão pouco há humanisticamente, de um modo ou de outro, um "ranking" delas...] é tentar perceber---e fundamentar credivelmente---as origens assim como algumas decorrências e possíveis ilações do que poderá, em tese, ser visto como a "parte" da intolerância [e da intolerância reactiva desgraçaadamente generalizada que "coube" ao cristianismo na grande massa das que continuam teimosamente a afectar o mundo "civilizado" de hoje e a marcar, de forma indelével, os paradigmas relacionais inter-humanos e inter-cul[r]ais contemporâneos, em geral.

Em última instância, aquilo que suubjaz a muita dessa intolerância é reaccional, residuantemente reaccional, e prende-se, em muitos casos, de forma óbvia, com o modelo de organização imperial [de "imperialização"] mundial que marcou, por seu turno, topicamente, de um modo ou de outro, a História das Civilizações.

A partir, sobretudo, das Descobertas portuguesas e espanholas, com muitas das nações europeias definitivamente estabilizadas e detentoras de comparativamente maior poder tecnológico global, o modelo "europeicizou-se" definitivamente e ganhou uma espécie de 'identidade civilizacional' estável que não veio propriamente a ser negada, antes acrescentada e reforçada com a emergência geo-política dos E.U.A. num matiz identitário "aggiornado" que só muito recentemente começa, de resto, a ser posto em causa com a emergência de novas potências geo-económicas e geo-políticas.

Embora citando Bérnard-Henry Lévy, Fernandes fale, no seu artigo, de "disparate imenso" a verdade é que é difícil não concordar com a ideia de que, de um modo ou de outro, o cristianismo sempre forneceu voluntariamente o ensejo legitimador do impulso expansionista/imperialista europeu operando no seio dos mecanismos de apropriação e gestão da História como um polo estável fixador e redifusor do etnocentrismo cultu[r]al mas também político, muitas vezes, abertamente genocida, sistemática quando não sistemicamente devorista e saqueador, «reorganizador significado» unilateral do mundo [ainda hoje há ene conflitos em África e na própria Ásia emergente que são directa ou indirectamente resultantes das políticas de "state engineeering" resultantes da partilha imperial do mundo e da imposição de modos de pensar e sentir a realidade que interessavam, em exclusivo, ao colonizador, extractor de matérias-primas e cumulativo construtor de mercados].

É difícil não ver tudo isso assim como é difícil não entender como num grande leque de universos cultu[r]ais situados sistemicamente "do lado errado" da imperialicização mundial ou heerdeiros desses, objecto de "cruzadas" cíclicas, interiorizaram e culturalizaram, inclusive com recurso às suas próprias formas de religião, formas de planteamento reactivo que tendem, por seu turno, pendularmente a regressar ao primeiro plano da História---fenómeno que verdadeiras e inomináveis barbaridades e novas "cruzadas" [movidas, aliás, por motivações de um tipo que faz com que, em última instância, em pouco ou nada difiram das que substanciaram o colonialismo económico clássico, como a recente abominação económica, militar e política das invasões do Iraque, por exemplo] não contribuiram, como é evidente, em nada, para atenuar...

Este, um aspecto que queria aqui abordar a propósito do texto de José Manuel Fernandes: como tantas culturas e nações [incluindo a 'nossa' própria] descobriram amargamente, mais cedo ou mais tarde, não se coloniza sem um ónus, i.e., sem custos históricos que além de serem elevadíssimos, é muito raro que se circunscrevam também tranquilizadoramente no tempo.

E que, por outro lado, não se fornece ao aparelho colonizador/imperializador todo um argumentário teórico preciso e à sua maneira sistémico [como aconteceu no caso das Cruzadas] sem se ser naturalmente chamado, a dado passo, a partilhar desses mesmos custos.

Claro que é preciso contextualizar a violência, seja ela militar, cultural ou política mas a minha tese [que me parece, aliás, óbvia!] é que não é menos necessário contextualizar adequadamente as formas de integração ou de assimilação cultural e política [leia-se: de "culturalização"] do impulso ou impulsos reactivos desencadeados a partir dos fenómenos [e epifenómenos!] originais que, por sua vez, desencadearam todo o processo de fabrico e construção ou partilha des-iguais anterior da História.

E vou mesmo mais longe: não se trata aqui de sempre debatíveis pedidos de desculpas a posteriori.

Trata-se, sim---e a meu ver, o ensejo cultu[r]al dificilmente podia, por diversos motivos, alguns deles, aliás, bem mauzinhos, ser mais propício!---de o próprio cristianismo institucional perceber, de uma vez por todas, que a via para a reconversão ou readequação histórica e sobretudo civilizacional; para a credível modernização do seu papel na História não passa---não pode admissivelmente, por todos os motivos e mais um, passar!---pela insistência num modelo gnoseomórfico completamente esgotado, moralmente insubstantivo, epistemologicamente unilateral que o coloca em conflito com a própria inteligência, cultu[r]al e até intelectualmente intrusivo porque arbitrariamente impositivo mas, exactamente ao invés, pela adopção de um pensar de natureza ou de raiz, humilde mas, ao mesmo tempo, corajosamente fenomenológica, capaz de "empocher" aqueles aspectos ligados a uma fase ela própria esgotada de pensamento científico em favor da assunção de um papel transversal ou "transversantemente" ético genuinamente 'ecuménico' que lige em vez de separar e, sobretudo, que contribua para dotar a História de uma consciência e de um rigor ético e consciencial que ela há muito já perdeu.

[Imagem Flickr]