terça-feira, 30 de setembro de 2008

"E lá vem, outra vez, o futebol!..."


E não é que vem mesmo?!...

Vem o futebol e vem o Benfica---o "meu" Benfica, aquele de que falo abundamentemente noutro lugar.

Retomo agora, aqui, os temas 'Benfica' e 'futebol' para pôr em relevo mais um dos múltiplos equívocos (cultu(r)ais, políticos, etc.) em que o país socrático é fértil.

Durante muito tempo, com efeito, foi comum gabar, por tudo quanto era jornal económico, as proezas e os sucessos os conseguimentos gestionários do F.C. Porto e até do Sporting por oposição aos insucessos e sucessivas "cabeçadas" do Benfica, nesse âmbito. Os do Sporting diziam, sobretudo, respeito ao "realismo" da sua política económica. O défice crónico com todas as suas implicaçõesobrigara (e continua, de resto, a obrigar) com efeito, o clube de Alvalade a um encurtamento drástico dos respectivos investimentos na equipa de futebol, i.e. naquela que pode (ou que poderia) trazer ao clube competitividade autêntica e sucesso internacional significativo.

Não traz! E não traz porque o Sporting tem o tal défice para (di) gerir e está, na prática, refém dele (e dos juros respectivos) mas não só: está, de igual modo, refém de uma dimensão, chamemos-lhe sociológica e cultu(r)al que pôde, com alguma facilidade, ser consistentemente sobredimensionada, devido à cumplicidade do poder político que ia suprindo a pressão de um mercado (aliás, na realidade, inexistente) com um apoio jurídico especial (a chamada lei da opção" que fazia dos praticantes literalmente propriedade dos clubes) mas, também , financeiro (com a desculpa de que os clubes substituiam o Estado no âmbito da educação física" genericamente entendida).

Este duplo respaldo permitiu aos grandes permanecerem grandes enquanto quiseram...

Com o 25 de Abril, as coisas alteraram-se drasticamente e os clubes tiveram , pela primeira vez, de confrontar-se com o mercado. O mercado que é o que dimensiona real e objectivamente os clubes.

Incapaz de dotar-se de uma base de apoio humana (de um mercado!) que lhe assegurasse o estatuto de segundo grande que sempre tivera, o Sporting nunca mais foi o mesmo---dos violinos à equipa da Taça das Taças.

Teve de "emagrecer" substantivamente em matéria de objectivos. E aí pode dizer-se que o seu grande trunfo acabou por ser, também, o seu mais determinante óbice: aceitou na prática "emagrecer" de objectivos mas (mais grave!) conformou-se implicitamente com isso. Fez da pobreza (relativa, claro) um trunfo ("Somos pobres mas, num certo sentido, ainda bem porque assim podemos demonstrar a genuinidade da nossa devoção ao clube") mas numa segunda fase um problema ("Para que é que a gente há-de criar muitos problemas se não gnha, quando o nosso projecto passa, sobretudo, por provar a nossa fidelidade, ganhemos ou não?...")

O F. C. Porto, por seu turno, congeminou uma estratégia de crescimento que passava (e passa, pelos vistos) por hostilizar tudo e todos, numa espécie de subtil reprodução do lema salazarista do "Orgulhosamente sós!"

Também no caso do F. C. Porto, o que é ponto forte se confunde singular (e inextricavelmente) com o que é equívoco e, sobretudo, fraqueza: aquele clube só pode crescer dentro do espaço que para si próprio escolheu.

Quem é que fora dele quer ser de um clube cuja massa associativa "só quer ver Lisboa a arder" ou se declara na "Mauritânia", logo que sai da sua cidade?...

Como limitou drasticamente a si próprio o seu espaço de crescimento, o Porto não consegue, também ele, constituir um verdadeiro mercado.

Vende mas como selecciona a "clientela" (ou aceita investir numa "selecão" há muito feita) as vendas têm de ser forçosamente limitadas.

E é isso que está na base do equívoco de que falava no início desta 'entrada': como é que de uma empesa que só consegue equilibrar as contas vendendo as máquinas, as carrinhas, as várias formas de matéria-prima com que trabalha se pode dizer que tem uma gestão exemplar e de "fazer inveja" à concorrência?

Tê-la-ia se, sendo em tese uma empresa produtora de espectáculos, lograsse manter as finanças equilibradas e saudáveis NESSE âmbito específico, sem ter de, copm recurso a uma legislação matreira e socialmente injusta (aquele "truque" de se ter de pagar a "formação" de um atleta é um embuste grosseiro, como tentarei demonstrar noutro ponto) destinado, como sucedia, aliás, com a extinta "lei da opção" a atenuar, astuciosa mas não legitimamnte, o impacto directo do mercado.

Na prática, a lei permite aos clubes cujo mercado não basta para (tentarem... lateralmente!) conservar um estatuto, no fundo fictício, exactamernte porque não realmente determinado de forma necessária e natural pelo mercado, tornarem-se secundária e, sobretudo, dissimuladamente, agentes de jogadores, actividade com a qual vão, aliás, obter supletivamene, com a cumplicidade do aparelho jurídico, as receitas extraordinárias que a sua actividade genuína, primária, legítima lhes não permite obter.

"To make a long story short": se isto é um exemplo de gestão vou-ali-e-já-venho, como costuma dizer-se...

ANTOLOGIA 1: "Um país de imigração, de Paulo Portas e do Dr. Cavaco"


Portugal, o Portugal "tecnologicamente basbaque", desesperadamente campónio do Sr. Sócrates (que o Dr. Portas quer "social e nacionalmente incontaminado" ou para aí e onde o dr. Cavaco acha que vive uma "raça"...); o "Portugal-feira-cabisbaixa" de "saca-de-orelhas" ao lombo (para utilizar as saborosas expressões do O' Neill) gosta, hoje-por-hoje, de se "armar cultu(r)al e sociologicamente em parvo", acreditando, por exemplo, parecer mais importante quando desdenha (de preferência, tão ruidosamente quanto possível!...) dos imigrantes.

Sendo um país que, ainda hoje, para não sossobrar de vez tem de exportar regularmente cidadãos para as sete partes do mundo, é caso para dizer que sobra em descoco o que lhe falta em esclarecimento, em memória (ainda não há muito se arrastava, atolado em porcaria até aos joelhos por tudo quanto era "bidonville" e "banliena" parisiente...) e, sobretudo, em humanidade.

No âmbito da "Semana do Diálogo Social", vamos passar, juntamente com um clássico absoluto de Chaplin ("The Immigrant") um filme, de Alain Jessua, uma alegoria terrível com a malograda Girardot e esse belo canastrão do Delon, onde os emigrantes portugueses em França são simbolicamente sangrados (no filme são realmente sangrados!...) para extracção das glândulas (das quais é fabricada, no filme, uma espécie de soro da juventude, adquirido, depois, a preço de ouro pela alta burguesia francesa...)

Hoje-por-hoje são as perseguições na Irlanda ou a desenfreada exploração na Holanda: mudam os lugares, permanece tragicamente desgraça...

Lembrando essa terrível época (que, de resto, conheci de perto, naquele acidentado início da década de '70) trago hoje aqui, para uma "antologia" pessoal que agora se inicia, um texto de "Max et les Ferrailleurs", um policial de Claude Neron, editado nos "Livres de Poche" onde se fala justamente de um "bidonville" à portuguesa:

Bidonville de Nanterre



"(...) et vous verrez les bidonville des Portugais, en carton, et il vous ferra tout visiter Jésus, seulement faites attention qu'il ne tombe pas, et quand il tombe il s'endort, et vous ne pourrez plus retrouver les portes de la Misère pour vous en aller, et il ne faut pas que Jésus tombe, et il vous emmènera, et vous verrez le bidonville des Algeriens et c'est pas mal non plus, mais eux ce n'est pas en carton, ils préfèrent la brique creuse mais des fois ils oublient de mettre le toit, alors ils tendent cette bâche, et quand il pleut cela fait toujours une réserve d'eau (...)".



Bidonville de Noisy


Esclarecedora imagem, sem dúvida, esta de uma época em que África (uma certa imagem fortemente "colonial" de África...) começava de facto nos Pirinéus...

Recordo-me, aliás, de em Bruxelas, me terem um dia perguntado se eu era árabe.

Quando esclareci que não, que era português, o meu interlocutor (com o ar característico de quem 'não se enganou, afinal, por muitos'...) mundo comentou: "Ah bon mais c' ést à peu prés la même chose, non?..."


Claude Neron e Alain Jessua (entre tantos outros) achavam, seguramente, que sim...

Fotograma de "Traitement de Choc" de Alain Jessua

"O Senhor Chico..."


O Chico Ferreira, o "Barriguinhas", é outra referência absoluta de benfiquismo, ele que começou no Porto...

Porque liderou, como capitão, um Benfica que era mais "sangue e suor" do que outras coisas ("classe", desde logo) que viria a ser posteriormente.

Com ele e com o Mário Coluna, o Benfica viveu um longo período de sucessivos anos em que o capitão de equipa foi um negro.

O que, a juntar a todas as outras valências cultu(r)ais típicas, diz qualquer coisa de muito nobre e importante sobre a... "benfiquicidade"...

" O "meu" Benfica..."

Volto aqui a falar do "meu" Benfica: aquele que ganhava tudo mas que era, sobretudo, aquele que dava voz, no plano simbológico e ritual, ou mesmo totémico, do "ludus", às aspirações difusas, inexprimíveis (porque politicamente "dissolvidas" quando não formalmente reprimidas e proibidas de fazerem ouvir-se) dos extractos sociológicos mais humildes, menos esclarecidos e menos capazes de organização própria autónoma da sociedade portuguesa durante o fascismo: o "povo". O Benfica era, de facto, o povo como tal, com todas as suas glórias e coisas admiráveis mas, também, com toda a sua pequenez e as suas abjecções.

O 'povo' como tal por contraposição ao povo-que-julga-que-deixa-magicamente-de-sê-lo se se aproximar fisicamente dos "outros" que era, muitas vezes, o "lugar simbológico e cultu(r)al" ocupado pelo Sporting e hoje por uma não-eexistência sociológica e política absoluta chamada "P.S.D."...

...Do Sporting que tinha banho, duche, quente para os jogadores e campo relvado e, por isso, "nos" "roubou" a primeira grande vedeta que produzimos, o Artur José Pereira, lançando as bases de uma rivalidade que era e é (para mim, pelo menos) tanto competitiva quanto social, sociológica, cultu(r)al e até política.

O "meu" é o Benfica do Cosme Damião (que expulsou o Artur José Pereira, da sua própria equipa e o proibiu de sair do quarto da pensão, num célebre jogo na Galiza porque foi inconveniente com o árbitro); do presidente-operário, do presidente-tipógrafo, o Manuel Afonso; do Cândido de Oliveira (que é uma figura admirável de cidadão e de---verdadeiro---desportista que, até hoje, ainda não foi reabilitado como merece); do Guilherme Espírito Santo (um dos primeiros j0ogadores negros---juntamente com o Aníbal Paciência do Sporting e o Melão, do Benfica, que, uma vez, EM ÁFRICA (!) numa digressão do Clube não pôde ficar no mesmo hotel do resto da equipa o que diz qualquer coisa do salazarismo, santarrão e farisaico!...; Espírito Santo que era, de facto, um fulano extraordinário do ponto de vista ético que não quis, por exemplo, num jogo célebre, festejar um golo porque o havia marcado ao Azevedo que tinha o braço, a omoplata, partida; ou daquela direcção que protestou um jogo que a equipa de futebol tinha ganho porque achava que o tinha feito com um penalty inexistente a seu favor; e por aí adiante.

Já agora, é também o Clube que tem um presidente que em miúdo teve refeições só de sopa e não se envergonha de dizê-lo...

ESSE é o "meu" Benfica que aqui homenageio, mais uma vez, numa célebre equipa que "deu" sete-a-dois ao rival, ao... "clube do sr. visconde" como lhe chamou um dia o Octávio, que o treinou.

[Nota final: uma coisa que aqui---veementemente!---reafirmo é que é essencial que (como dizer?) "aprendamos a perder" definitivamente determinados preconceitos elitistas que supostamente nos "proibem" de misturar, na nossa reflexão incessante e orgânica sobre a realidade, Filosofia e, por exemplo, o Futebol. Não é o facto de incluirmos este último nas nossas reflexões que nos diminui e vulgariza: é o modo como o incluimos que pode, seguramente, minimizar-nos.]

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"Do 'Progresso, sua lei e sua causa', como dizia Spencer..."

[Herbert Spencer, autor de um ensaio intitulado "Do Progresso, sua Lei e sua Causa" que li em adolescente e me impressionou profundamente dado tratar-se de uma tentativa de ver a realidade como algo de integrado e orgânico, exactamente como eu passei a partir daí a pensar que ela deve ser considerada e, em todos os casos, reflectida]

Preparando uma possível intervenção na "Semana do Diálogo Social" na qual a minha amiga Maria Reina Martin teve a generosidade de me convidar a participar, dei comigo a alinhar (com mais ordem e de forma mais sistematica do que usualmente faço) algumas reflexões sobre o tema do "Progresso".

É preciso dizer que a Reina me convidou para organizar uma espécie de "ilustração cinematográfica" dos temas debate com especial relevo para os tópicos "Condições de Trabalho", "Migrações" e "Condição Feminina". No primeiro destes tópicos vamos passar um documentário sobre o fordismo/taylorismo nos E.U.A. (da série "O Século do Povo") e "Modern Times" de Chaplin.

Ora sucede que, sobre o tema do "progresso", existem, a meu ver, equívocos demasiados sobre os quais é, por essa razão, essencial reflectir no sentido absolutamente fundamental de desfazê-los tão depressa e, sobretudo, tão eficaz e tão radicalmente quanto possível.

Uma tradição epistemológica (ou epistemeoforme) invisível de índole mais ou menos providencialista, judaico-cristã, impele-nos sempre, cultu(r)almente, de um modo ou de outro, a (não!) ver e a (des) representar o "progresso" como algo que (i) caracteristicamente sobe ou avança no decurso de um processo contínuo mais ou menos (mais mais do que menos...) sempre mas não só: também (ii) como algo que sobre ou avança em direcção a um horizonte (meta) histórico com muito de mágico ou mesmo de mítico onde então esse mesmo progresso passará/ria a ser o único habitante ou a única personagem gnoseológica sobrevivente do seu próprio crecimento, se assim me posso exprimir.

Ora, se há coisa que o progresso, a meu ver, não é nem (i) algo que necessariamente suba nem (b) que o faça, em caso algum, "em direcção a".

Aliás, eu diria mesmo que na natureza (e decorrente do próprio paradigma de realicidade "escolhido" pelo real para se "mover") se move realmente em direcção"---excepto talvez a "consciência" que, todavia, tal como eu a entendo, não "faz propriamente parte da natureza" senão que se situa já logicamente "para além dela" como parte de uma fase muito ulterior do processo de "desdobramento" (de "deployment ") contínuo da realidade onde esta é apenas visível (im) precisamente dela, "consciência", e sempre sob a fiorma "criticionalmente secundária" (senão mesmo terciária) de "juizo" indirecto e crítico sobre si.

Na verdade, volto a dizer: o paradigma de realicidade resultante do big bang desconhece o seu próprio futuro.

Ou melhor: talvez seja mais exacto dizer que o futuro do real natural se encontra sempre, por definição, atrás, não à frente do seu (falso ou puramente virtual, puramente teorético) "presente".

O tempo da realidade é (ou são) um tempo (ou uma temporicidade) "funcionantemente dialécticos puros", isto é, definem-se sempre, por sistema, por um desenho composicional dinâmico (na verdade, "só o pensamento é estático"...) em que, como digo, o "futuro" dos objectos se encontra sempre atrás deles e o "presente" raramente existe a não ser no "espaço criacional puro" (ou na formac desse "espaço") aberto pelo movimento dialéctico como tal entre esse mesmo "futuro" estruturalmente "anterior aos objectos" e, de algum modo, ele mesmo, se assim posso dizer.

O que é essencial que percebamos é que a nossa percepção arbitrária de um passado, um presente e um futuro em sucessão deve, para que possamos aspirar um dia a perceber como se desloca e se forma a própria "realidade" ser substancialmente repensada tanto como substantivamente reestruturada.

A minha hipótese é que o próprio desenho composicional da "realidade" se decide através do movimento expansional/dissipacional, é verdade, mas tendo mm conta as anisotropias quie se vão formando sempre que as "extremidades do real" se afastam em excesso do centro e todo o desenho tende, então, a fim de evityar ou atenuar os efeitos da "crise composicional" a procurar definir continuamente modelos de "readequação funcionante" cada vez mais secundários, continuamente re/organizados em redor dessas anisotropias para onde o real, de algum modo, se diz que se desloca, então.

Afirma-se, muita vez, que pela sua natureza (eu acrecentaria: pela sua natureza composicional) a realidade tem "horror ao vazio".

É um conceito que subscrevo e (porque) vejo readequado a um número de circunsâncias "realicionais" teoricamente bastante para me transmitir a ideia da sua própria 'possivelmente típica ou tópica persistencia', digamos assim.

Mas, se o tem (porque á matéria é talvez o oposto efectivo da não-matéria) apresenta, de igual modo, um segundo "horror": ao excessivamente grande. E talmbém neste caso em resukltado do próprio modo como a "realidade" em tese se origina: como efeito puramente secundário da expansão ou dissipação contínua de si mesma, se assim me posso exprimir.

Ao expandir-se, a realidade fundamenta-se, é certo, mas, também, a partir de um dado ponto do processo entra teoricamente em crise e vê-se forçada a reagrupar-se ou recompor-se mais além num ponto de si já suficientemente afastado do "centro" para que este se tenha tornado já objectual e/ou realmente "invisível".

É uma verdadeira falácia de composição: a dissipação, que, até um dado ponto, representa numa palavra a "vocação natural e espontânea da própria realidade" está condenada a caminhar inintrruptamne para um ponto teórico de si onde a crise se inicia e o real "dá um salto composicional" por assim dizer. Foi, de resto asim, diria eu que se formou a "consciência" e é assim que ela se "explica" e, sobretudo, fundamenta.


[Nota final: na minha (discuível...) semântica pessoal é preciso distinguir entre "realidade" (que é des/estruturalmente um conceito ou um juízo teórico) e "realicidade" que suponho ou admito existir como a base objectual mesma desse juízo mas cuja "visão" e, sobretudo, cuja "experienciação" se me encontra definitivamente vedada pela "Razão" e/ou pela "consciência".
No mesmo sentido, distingo (julgo tê-lo já escrito algures) entre "ser" que, mais uma vez, configura um ponto de vista subjectivo, crítico, subjectivizado ou subjectival, sobre a condição natural possível dos seres em geral e "esser" que corresponde à própria base objectual possível desse juízo antes da formulação teórica ou crítica de qualquer juízo.]

"Uma dúvida..." ou "O País da Floribella"

A inenarrável "Floribella". Lembram-se?...


Eu (já várias vezes o revelei) leio o "Público". O que não faz de mim um 'leitor do "Público", note-se... Faz de mim tão somente isso mesmo 'alguém que lê o "Público", ponto final. Ao contrário do que contendia um humorista de génio que se ignorava (Marcello Caetano, de seu nome) a "paisagem mediática" em Portugal não possui qualquer versatilidade ou variedade e riqueza. Divide-se entre as publicações que são puros (ou im-puros...) ecos "do regime" como o sempre majestosamente subserviente "Diário de Notícias", os que são mais ou menos subtis "órgãos teóricos" do poder económico como o "Público", os que já o foram (como o "Expresso") ---e note-se que, até aqui, temos estado sempre a falar de uma imprensa, apesar de tudo, de elites ou para elites (ou seja: para aquilo que, em Portugal, em resultado de um esforço intelectivo colossal levado a cabo por uma minoria que sabe ler e quase aprendeu a escrever, o País conseguiu parir mais parecido com uma "elite"...).

Depois vem o "Povo" com as suas exigências "cultu(r)ais" caracteristicamente primárias e boçais.

Para ele, inventaram os merceeiros da "Cultura" que parecem ter tomado de vez o poder entre nós (e que agora, até fizeram refém da sua abjecta mediocridade uma "coisa intelectual e até biologicamente difícil de descrever chamada ministra"---da "Educação", leia-se) instrumentos de dominação moral e intelectual (como o "Correio da Manhã" ou essa coisa simplesmente inenarrável---e perigosamente tóxica---chamada "24 Horas") onde os imbecis e os analfabetos de carreira (que nós, decididamente, como... "cultura" e por uma questão de "Cultura", vemos como francamente preferíveis aos vulgares cidadãos) podem cevar à vontade a sua ânsia insaciável de mediocridade e alimentar "à pantagruel" uma viscosa e obstinada vulgaridade que eles tomam, aliás, sem regatear, por uma "vida "mental" (que não sabem, todavia, minimamente o que possa ser).

Por tudo isto, quem conseguiu resistir a ser condicionado para pôr uma bandeira nacional à janela e a confundir "telenovelas da TVI" com "entretenimento" e "inteligência" lê o que resta: o "Público".

No "Público" há coisas verdadeiramente misteriosas, porém. Há, por exemplo, uma senhora que escreve sobre Israel (eu devia dizer: que nos bombardeia sistematicamente, a partir da página estratégica onde invariavelmente se entrincheira para nos tentar teimosamente acertar com a sua visão de Israel---que é também, note-se, a visão que ela faz absoluta questão que tenhamos todos de Israel). Vem 2ª feira e a senhora em causa---zás! Faz pontaria à nossa inteligência com um artiguinho "de opinião" onde, já se sabe, os maus são sempre os outros (o Irão, o governo democraticamente eleito do Hamas e por aí fora) e Israel o "bom pai dos povos" que se esforça denodadamente por levar a Democracia e a Civilização (de que, como se depreende das palavras da senhora, só ele tem verdadeiramente o "segredo-e-a-chave") contra todas as incompreensões e obstáculos, ao seu "querido Médio Oriente".

Depois, descansa à 3ª mas, na 4ª, já lá está outra vez com o seu habitual estendal de "argumentos" e cintilantes "lucubrações".

À 5ª já ninguém tem dúvidas (ou terá já idealmente poucas) de que "tem de ser assim como ela diz" senão ela já se teria, sei lá, cansado, farto, de dizer sempre a mesma coisa e de tentar "par dessus le marché" arranjar novas formas instrumentais de fazê-lo e por aí fora.

Pois, como dizia, no dia 25 de Setembro, comprei o jornal e zás! Lá estava a senhora a perorar (adivinhem contra quem! Ora, não!) contra o Irão, pela chamada-e-escolhida bondade natural de Israel e por aí adiante sem esquercer, claro, a "inevitabilidade" mais ou menos "debruada a fatalidade" da guerra contra a fera xiita...

Do texto, intitulado "A apatia favorece a guerra" (mas esta gente só saberá falar de guerra, meu Deus??!!) extraio algumas "reflexões" potencialmente interessantes.

Por exemplo?
Por exemplo, logo essa mesma de que a "a apatia favorece a guerra".

A apatia: mas a apatia de quem?

De uma América do Norte que ela vê fugir-lhe "da mão" com o fim (providencial!) de um bushismo bronco e carn(ic)eiro que incendeou alegremente meio mundo nestes tempos mais recentes e o consequente provável advento de um "obamismo" no qual ela manifestamente prevê ir encontrar muito mais dificuldades no que respeita a achar um "amigo de ferro", com armas "para gastar", semelhante ao regime dos dificilmente imagináveis "imbecis armados" (o regime dos "ayatolahs W.A.S.P." que comandou a América nos últimos tempos?

Não aparecem já, mais ou menos regularmente, na imprensa artigos como o de Margarida Santos Lopes (inserto no "Público" de 23 de Setembro; título: "Como tornar o Irão num parceiro do Ocidente") ou o de Robert Skidelski ("Um Irão nuclear é um perigo para o mundo?", também do "Público", de um dia que, porém, o meu arquivo de recortes se esqueceu de registar...) onde a tal truculenta (e sangrenta!) "tese" da inevitabilidade da guerra contra o Irão é tudo menos a "ideal fatalidade" pretendida pelo regime israelita e pelos respectivos agentes e propagandistas no estrangeiro?...

E já nem falo nesses outros textos da imprensa (como o inserto na revista "Pública"11 de Maio de 2008 intitulado "Israel e os seus mitos 60 anos depois": autora Maria João Guimarães") que é um repositório de revelações sobre a "genuinidade" das intenções geopolíticas de Israel ou ainda um outro de Sónia Pereira de Figueiredo, inserto ("Surpriiiiise"!) no tal "Diário de Notícias" de que há pouco falava ("São judeus mas criticam Israel", "Diário de Notícias", 19.07.08) onde se aborda expressamente o tema da "nakba", termo significativamente traduzido, pelo próprio jornal, citando os cidadãos judeus Alan Stoleroff e Gilad Aztmon, por "catástrofe palestiniana"...

Não anda já tudo (tudo o que não é "política" oficial e "inteligência" de uma das nações mais belicosas e militaristas da terra: não é verdade, igualmente da imprensa, que ainda há bem pouco se recusava a participar num forum mundial para a erradicação das bombas de fragmentação que, aliás, alegremente fabrica e exporta?...); não anda, dizia, já tudo farto de ouvir clamar pela guerra em gritos... dela hipocritamente disfarçados das mais idóneas "constatações objectivas" da respectiva... inevitabilidade?

Fala a senhora em causa da tal "apatia" ser aquilo que favorece a guerra (que Israel, porém, deseja, fingindo publicamente ver-se obrigado a considerá-la uma fatalidade) de "um regime" [curiosamente, não está, neste caso, a falar do de Israel: refere-se, sim ao regime iraniano democraticamente eleito, aliás] que "arma treina e financia bandos de fanáticos destinados a gerar o caos na região", [e que] "mente sobre os fins do programa nuclear em curso no Irão" e mais bla-bla, bla-bla e bla-bla.

Lê-se e pasma-se! Mas não é Israel que continua (ainda segundo o "Público", desta vez o de 18 de Julho de 2008, cf. o artigo: "Samir Kuntar continua a ser "um alvo" para Israel": autora Francisca Gorjão Henriques) com a mais escandalosa das impudícias a afirmar que considera o tal Samir Kuntar do título da notícia (Samir Kuntar que ele, Israel, se viu há pouco forçado a libertar porque partiu os dentes perdendo surpreendentemente uma guerra recente contra um dos tais "bandos"...) "um alvo" (e cito), como se isto de matar, de aniquilar fisica e materialmente adversários não fosse, para qualquer pessoa (deixemo-nos, por uma vez, de rodeios!) para qualquer pessoa intelectualmente séria e moralmente bem formada um crime puro e simples escandalosamente admitido por um governo?...

Mais: por um governo que acaba de libertar um prisioneiro mas se prepara já para, desta vez, num acto de inqualificável barbárie (leia-se: na implícita admissão de que, para si, a selvajaria substitui, facilmente, em última instância, as formas civilizadas de lidar com a barbárie concorrente) em lugar da prisão, recorrer ao assassínio, puro e simples?

Como pode alguém para mais num jornal português, de um país ("malgré tout" ou talvez melhor: "malgré lui-même"...) europeu, (teoricamente, ao menos...) civilizado e (por agora, pelo menos...) em paz (militar: em matéria de paz social "são mais quinhentos" mas enfim!...), vir, praticamente "a cada dia que passa" (desculpem a expressão!) "chatear a gente" tentando "lavar o cérebro" ao pessoal e "meter os dedos pelos olhos" de pessoas (que lêem o "24 Horas" e a revista dominical do "Diário de Notícias", é verdade e vêem "A Outra" e acham a Luciana de Abreu e a Teresa Guilherme, sei lá, mais importantes para a Cultura portuguesa do que a Natália Correia e o Tony Carreira mais essencial para essa mesma "cultura" do que o Lobo Antunes, o Cardoso Pires e o Eduardo Lourenço todos juntos---o Eduardo QUEM?!...---também é verdade mas) que não serão, ainda assim, tolinhos e tolinhas a esse ponto?!...

É caso para dizer: por amor de Deus! Ou, como dizia "o outro": "Oh minha rica senhora! Experimente bater aí, na porta do lado! Eu não vi o acidente, já tenho enciclopédia, não quero ser sócio do Sporting e não preciso de mais nenhum seguro!..."

Livra!


"Eduardo Lourenço por Vasco" ou como ainda há quem, apesar de tudo, vá pensando, no "País da Floribella" e "da TVI"...

sábado, 27 de setembro de 2008

"Vítor Gonçalves"


A minha alma benfiquista enche-se de (justificadíssimo!) orgulho com o conhecimento de que o Pai daqule que foi um dos Homens mais sérios, mais honestos, mais desinteressadamente devotados ao País e também, por este mais injustamente tratados, o falecido General Vasco Gonçalves, jogou no Glorioso...
Dele, Pai, Vítor Gonçalves, deixo aqui, com o sentido intento de recordá-lo a quem tiver a generosidade de vir "visitar-me" virtualmente a inconfundível efígie, numa estampa da época.
...E viva o Benfica---o Benfica como referência popular e símbolo de um universo sociológico e cultu(r)al único (que não é o da pseudo-aristocracia sportinguista nem o do truculento regionalismo portista) mas onde estão plasmadas algumas das verdadeiras virtudes de um Povo que não tem, aliás, assim tantas...

"Evocando uma grande estrela"


Um convite da Amiga e ex-colega de escola Maria Reina Martin para participar na "Semana do Diálogo Social", forneceu-me o ensejo imediato para rever um clássico absoluto de Chaplin: "Tempos Modernos".

Sobre o filme, elaboro especificamente noutro lugar. Aqui, agora, quero apenas deixar um tributo justíssimo a quem deu um contributo verdadeiramente decisivo para a eficácia, beleza e merecido sucesso do filme: Paulette Goddard, a "sauvageone" que eu já tinha visto, por exemplo, num "De Mille" muito antigo com Gary Cooper que, em português se intitulou, "Os Sete Cavaleiros da Vitória", onde ela desempenha o papel de uma mestiça índia, aliás, com algumas reconhecíveis semelhanças com o que tem em "Tempos Modernos".

Verdadeiramente fabulosa, a expressão da imagem que ilustra este texto, sem dúvida!

"Uma velha teoria minha..."


Uma velha teoria minha é a que diz que, se o comunismo foi "o mais gigantesco embuste do século XX", como defende um conceituado embusteiro português que, por sê-lo tem, inquestionavelmente, legitimidade para falar do tema, então que dizer do democapitalismo economocrata ou economaníaco inventado expressamente para combatê-lo?

Que, como embuste, vale bem a outra suposta mistificação?

É, com efeito, o mínimo que se pode dizer dele.

A "economia perfeita", isto é, o capitalismo "total" (que, numa trágica versão "alternativa" semeou, como se sabe, a desgraça e a morte no mundo inteiro, no início do século XX); o capitalismo sem Estado, dizia, não passa, com efeito, de um "sonho húmido" de teóricos sem grande imaginação (mas, para compensar, um desplante verdadeiramente colossal) do capitalismo, em panne de expedientes argumentativos. Não há modelo de sociedade que mais tenha de recorrer aos "bons" serviços do Estado do que o do Estado-sem-Estado neo-liberal.

Foi essa, de resto, a sua 'providencial' boia de salvação quando a brutalidade teórica e ideológica do sistema pretendeu, para se "segurar mais firmemente à História", passar da economia à política ou tornar-se todo ele política e quase o levou ao apocalipse, a partir da Alemanha (nazi), e do binómio Itália/Japão (fascistas).

Aquilo que eu defendo a este propósito é que,



a) o paradigma de expressão politiforme natural do capitalismo é o fascismo numa das suas circunstancialmente distintas formas; o fascismo que representa, de facto, a politicização natural (e eu acrescento: naturalmente inevitáveis) do modelo teórico de organização capitalista típica e que, portanto,

b) o encontro histórico (ou meta-histórico, pós-histórico) e político (ou trans-político) entre o capitalismo e a "democracia" configura, na realidade, uma circunstância de pura (ou... im-pura?) conveniência em que esta, a democracia, é forçada a entrar no primeiro ("is forced into the former") mas na qualidade meramente secundária e desessencializadamente ancilar, isto é, (in/essencialmente infixa) de "argumento legitimador" desprovido, por conseguinte e por definição, de vida teórica própria, se assim me posso exprimir.



A natureza artificial do capitalismo demonstra-se teoricamente, diria eu, pela constatação da falácia de composição que tem lugar quando ele tenta naturalmente (como fez com o grande capital económico-financeiro alemão e italiano, nas primeiras décadas do século XX) passar da economia à política e quase leva a própria base à implosão. Ou seja: quando se tenta, volto a dizer: naturalmente, transformar o capataz num líder político (num "Führer" ou num "Duce"); a Cidadania num operariado ou proletariado cívico, social mantendo o capital como o proprietário da "usina social e histórica" o resultado é (a História asim o demonstra) politicamente insustentável.

Politicamente insustentável sem recurso (lá está!) à instrumentalização correctora das alfaias institucionais da democracia (o Plebiscitário desta, a ficção da liberdade em diversas modalidades funcionais ou discretamente funcionalizada e por aí adiante). O resultado é a prisão definitiva da própria democracia, como acontece (para mim, obviamente!) hoje-por-hoje, no chamado "Ocidente democrático".

Neste, com efeito, a "democracia" (leia-se: o "revestimento politiforme" da infra-estrutura económica como tal) está, por definição, proibido de evoluir e dar, natural e sobretudo livremente, origem a novos paradimas espontâneos, autónomos, de organização social e política--o que representa obviamente a subversão total da própria Democracia.

Esta, com efeito, devia ser a porta de acesso a todas as mudanças a introduzir na História, agindo como único ou último ("ultimate", "ultimativa", como me parece possível dizer em português)determinante destas (da forma particular, específica a assumir por estas) o interesse colectivo livremente (quero dizer: de facto, livremente) expresso.

Isso e, em caso algum, como na realidade, sucede a obrigação completamente ilegítima e espúria de conservar o regime económico social e politicamente "justificado" e "legitimado" ao longo de uma História artificialmente "presa a si própria" e que, de resto, se pretende permaneça indefinidamente assim.

Segundo ente (des) ntendimento particular da relação entre a política e a economia, a "democracia" está "" (está na História e está na Política) com o objectivo básico, primário, real, único, de manter essa mesma História e essa mesma Política exactamente como se encontravam no momento preciso da "contratação" dos serviços da Democracia pela respectiva base económica estável, se assim me posso exprimir.

Um exemplo do que afirmo?

Dou dois, bem actuais:

1º exemplo: segundo o jornal "Público" de 26.09.08 "vários peritos que analisam comparticipações [do Estado nos medicamentos] colaboram com laboratórios farmacêuticos"

Trata-se uma notícia onde se refere uma entrevista dada por um (mau) ex-ministro da Saúde onde este (cujo comportamento político ia justamente no sentido oposto, de poupar o Estado que devia representar a tantas "despesas" quantas lhe fosse possível evitar que ele fizesse---e, por isso, aliás, se tornou tão impopular que foi impossível ao governo mantê-lo no cargo) afirma que a promiscuidade entre ofício público e interesse privado via comissões técnicas de avaliação neste domínio é tão forte que daí resulta "muita pressão para colocar os medicamentos sob comparticipação".

Ou seja, por outras palavras: quem tem poderes para condicionar essa comparticupação pode ser quem tem também interesse em que este ou aquele se vendam mais (sejam mais prescritos) para o que conta muito, obviamente, o facto de esse fármaco ser comparticipado.

Razão pela qual, aliás, o ex-ministro em causa chega a admitir (pasme-se!) o "recurso a peritos estrangeiros" (!).

Admissão que constitui, por sua vez e de facto, se outra não houvesse, fundamento mais do que bastante para justificar a sua queda: tudo quanto um homm escolhido para representar o interesse colectivo, numa área tão fulcral como a da saúde, é capaz de achar para atalhar este conúbio descandaloso entre interesse público e privado é o recurso a mediadores estrangeiros??!!

E se se aplicasse o extraordinário princípio aos juízes, aos médicos aos políticos (porque não?) e por aí fora?

Já se imaginou o que daí resltaria?
E o que isso pressupõe em termos não apenas de pura saloíce ("os estrangeiros são mais sérios do que os portugueses") ou de simples ignorância relativamente ao alcance da mão omnipresene das multinacionais---ignorância, aliás, bem bizarra num (ex) ministro com a respectiva tutela...

Na prática, o que subjaz a esta preocupante constatação é, ainda e sempre, a perversíssima tolerância implícita, pachorenta, para com as utilizações anti-sociais do Estado na condição apócrifa de utensílio de promoção institucional do negocismo privado (ou seja, o reconhecimento implícito, apenas preguiçosamente abordado, da figura completamente anti-social do "Estado broker" ou "Estado almocreve" substituindo pós-modernmente a do Estado nação ou Estado-consciência moderno).

2º exemplo: o uso feito agora pelo governo norte-americano e antes pelo sueco (ainda segundo o mesmo jornal) do erário público para salvar bancos privados.

Esta não é, segundo o jornal citdo, aliás, apenas a minha opinião. De acordo com a publicação, um ex-conselheiro de Ronald Reagan terá mesmo dito, textualmente (e cito) "São tácticas de terror para tentar fazer uma coisa que é do interesse privado, mas não é do público".

Mais: sempre segundo o jornal, o prémio Nobel Joseph Stiglitz terá mesmo afirmado (e volto a citar) que "estamos simplesmente a forçar os contribuintes a investimentos arriscados" e que "isso é monstruoso" (sic).

Quer dizer: quando são os prémios Nobel e os ministros do próprio Estado neo-liberal na sua expressão geopolítica máxima que vêm, com todas as letras, dizer-nos que têm razão todos quantos, como eu próprio, pensam que uma das caracteísticas mais perveras mas também mais patentes do Estado neo-liberal consiste (in!) justamente na possibilidade de utilizá-lo, ao que tudo indica sem verdadeira oposição ou sequer possibilidade efectiva e institucional dela, em escandaloso auxílio de uma economia que, a todo o momento, se gaba de passar "muito bem" sem o Estado que se há-de pensar?

Quando são os próprios quem objectivamente nos revela toda a extensão do ludíbrio que consiste em desdenhar publicamente do Estado para mantê-lo, apesar diso, cuidadosamente guardado... no congelador e usá-lo logo a seguir a ter-se truculentamente defendido que o Estado "só atrapalha" e devia ser "funcionalmente reduzido à expressão mais simples ou até 'idealmente' nula, como não ver o gigantesco embuste teórico e prático que está configurado no desumano projecto economotópico neo-liberal?

Se gente desta o diz, como duvidar?

"Um monstruoso embuste"

Soren Kirkegaard

Um politicão profissional---desses que a nossa neo-liberal época gosta particularmente de eleger como símbolo da escandalosa teoria de equívocos e mesmo (im!) puras mistificações sobre que assenta---e que ela mesma configura) disse ou escreveu, um dia, qualquer coisa parecida com "o comunismo foi o maior embuste do século XX".

Ora, se o foi, é preciso, ainda assim, dizer que disputa, em qualquer caso, seguramente a "primazia" com o chamado "neo-liberalismo" ou "democapitalismo" de que a figura em causa foi um "teórico" acirrado e, logo que a História lhe depôs nas mãos o ensejo, um denodado (embora muito caracteristicamente frustre) praticante.

O neo-liberalismo, com efeito, assenta, como "teoria" ou difusa "ideologia" no princípio mais ou menos "utópico" (ou mais ou menos "distópico") de que a realidade, mesmo depois de ter sido funcionalmente "verticulada" pela interferência do filo-fenómeno da bio-conscienciação, possui, ainda assim, mecanismos e dinamias naturais de auto-correcção que é vital deixar actuar a fim de que ele conerve a respectiva "saúde epistemológica", se assim é possível dizer.

Não contesto que os possui. O que eu afirmo (a minha... tese) é que a emergência eventual ("eventual", em inglês, como sinónimo de "ulterior") do referido fenómeno da bio-filo-conscienciação (algo que veio, como é sabido, conferir ao real um 'terceiro olho' ou uma terceira dimensão formacional, é verdade, mas obtida à custa do "roubo", do "rapto", da "abducção", por parte de algo que pasou a operar como um espelho fixo virado para a realidade mas situando-se completamente fora da atemporalidade natural ou "instintivamente funcional" da "máquina" do próprio real (da qual passou a dar apenas e só imagens refractadas na tal "consciência" imóvel criticionalmente situada fora da realidade); o que eu defendo, dizia, é que a inteferência persistente, verticializada, deste "objecto criticional imóvel" que é a consciência" nos mecanismos de funcionamento primário e natural da realidade, não veiculando primariamente (ao contrário do que geralmente se crê!) mas sempre e só refractando secundária ou terciariamente esse mesmo real) veio destruir a possibilidade (por isso, de aí em diante, simplesmente utópica) de assentar toda a "máquina do sobreviver" apenas naquele cada vez mais teórico atributo auto-corrector do próprio real.
Fichte
A conclusão de que a "consciência" é o primeiro grande crime ecológico cometido na realidade (com a característica singular de ter sido cometido por ela mesma!...) leva a que, desde o "instante teórico" em que ela emergiu em diante, estejamos como espécie condenados à "consciência" (isto é, a "conscienciar" em vez de viver ou ser---em vez de "esser", como me parece mais apropriado dizer---persistentemente as nossas "ideias" e representações da realidade desta, nuclearmente separados já por inteiro, pois, dela pelo pensamento, pela possibilidade/necessidade de pensar.


Edmund Husserl

O fenómeno da filo-bio-conscienciação veio, pois, em tese (na minha tese, com certeza!) tornar o "esser" e o "pensar" o oposto um do outro, sendo que, num certo sentido muito preciso e como disse, enquanto espécie, nos condenámos a trocar o primeiro pelo segundo, isto é, a pensar que existimos em vez de naturalmente existirmos.

Ao contrário, pois, das restantes espécies e 'objectos' ou 'objectuações' constantes da realidade, as quais dispensam naturalmente a "verticialização" apócrifa (a refracção criticional e possibilitacional) dos respectivos paradigmas objectuais de 'existencialidade' (ficando, assim, livres para "esserem" sem obstáculos ou disfunções interferentes como a demasiada inteligência das coisas a que estão sujeitos os humanos), o "Homem" tem de esperar que a realidade " se converta em (apenas idealmente concêntricas!) desmaterializações criticionais sucessivas de si, cada vez mais distantes do instante original da própria "essência", isto é, que o real mude de estado físico dessessencializando-se em "consciência" para que, para ele, humano, a reralidade assim croticionalmente desfigurada, possa, por fim, "começar".

Claro que os economistas em geral (e, por maioria de razão, os oportunistas e os simplesmente medíocres...) não têm por costume (ou por escrúpulo) assentar as respectivas formulações teóricas em pressupostos de natureza filosófica ou mesmo apenas modestamente filosofante como aquele que atrás enuncio.

Seja como for, é evidente que o "ecossistema economia" tal como o concebem os pensadores geralmente "economocratas" arregimentados sob a designação de "neo-liberais" não passa de um mito que a "consciência" impede e des/estruturalmente impossibilita.

Por imperativos nucleares de natureza filosófica (a economia não é, geralmente, uma teoria da realidade mas, pelo contrário, uma tentativa de "legitimar" argumentativamente aspectos soltos, avulsos, extraídos irresponavelmente da realidade) é impossível (é teórica mas é, em qualquer caso, real e objectivamente impossível) que ela economia se auto-corrija espontaneamente. Fruto do trabalho da "consciência" (quando não do da in-consciência...) ela está condenada a ter de confiar nesta para ter qualquer "retrato" minimamente nítido de "saúde epistemológica". Esta, porém, não surge (NADA surge!) na "consciência" como um verdadeiro retrato.

De facto, aquilo que ela representa na verdade é a ideia que a "consciência" possui de um retrato---o que é bem diferente. A ideia de uma ideia---eis o que não pode, por definição (que é preciso conceder também resulta de uma refracção criticional teórica...); eis o que não pode, pois, dizia, ser realidade.

Jacques Derrida


[Observação final: no decurso destas brevíssimas reflexões optou-se sempre por distinguir entre "ser" (que não corresponde na semântica do texto a um termo "neutro" e desejavelmente "descritivo") mas a um expressão "argumentativa", a um ponto de vista puramente teórico ou teorético e, em qualquer caso, subjeccional sobre uma circunstância possível da "Vida" e a expressão "esser", termo que nos permitimos cunhar exactamente no sentido de recuperar a tal perspectiva idealmente não-inteferida pela subjeccionalidade daquela mesma possível circunstância.]

"Ficção... científica"

"Spider" de David Cronenberg


Muita gente, ainda hoje (muitos leitores, seguramente alguns críticos) persiste teimosamente em relativizar, quanto mais não seja inconscientemente, a importância cultural e crítica da chamada "ficção científica".

Trata-se, indiscutivelmente, do meu ponto de vista pessoal, de um erro grosseiro de perspectiva crítica ou criticional, isto é, de uma deformação grave da visão analítica da nossa época, desde logo (é sempre, de um modo ou de outro, disso que, no limite, se trata) mas, também, no caso particular dos últimos, dos críticos, da sua própria identidade epistemológica e profissional, digamos assim.

De facto, que é, enquanto "temema cognicional" básico, elemental, puro, a ficção científica senão uma irmã gémea da própria Filosofia cujo objectivo real foi sempre, desde o início, antecipar e prever a própria realidade, exactamente como faz, sobretudo hoje, com os grandes autores, a dita ficção?

"Solaris" de Andrei Tarkovski

Com toda a franqueza e convicção sugiro que cada um pense seriamente neste facto sempre que se trate de menosprezar autores como Brian Aldiss ou Doris Lessing ou cineastas como Andrei Tarkovski ("Solaris") ou David Cronenberg ("ExistenZ" ma sobretudo "Spider" que é inquietantemente beckettiano e, como filme, simplesmente genial).

"ExistenZ" de David Cronenberg

São, todos eles (em especial "Spider", insisto) objectos narrativos espantosos que um bom professor de Filosofia não hesitaria em seleccionar como utensílio electivo de introdução às ontologias ditas "da existência", de Kirkegaard a Sartre.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

"Mais paixões"

Fotograma de "Guerra e Paz", filme de King Vidor: Mel Ferrer (Andrei Bolkonski), Audrey Hepburn (Natasha) e Henry Fonda (Pierre Bezhukov)

A adolescência é um "lugar de paixões", um "sítio de Deus".
Ou de deuses.
Os meus (os meus deuses) foram, a dado passo, além dos que noutros lugares evoco, o Mel Ferrer (o príncipe Andrei Bolkonski da "Guerra e Paz" do Vidor e essa imaterial Audrey Hepburn que, para mim, encarnava (se de "carne" se pode falar a propósito dela...) um ideal absoluto de mulher. Durante anos, odiei o Gassmann por tê-la "desencaminhado" no filme, numa altura em que "dar um mau passo", não só na Rússia czarista mas também por cá, no Portugal dos pequeninos salazarista, equivalia à morte moral absoluta, definitiva...
"Sedotta e abandonata" e coisas do género: o Intendente (ali tão perto!) estava cheio de existencialmente trágicos "aftermaths" de "casos" como o da Natasha e do Anatole...
Ah e também cheguei, confesso, a nutrir uma paixãozeca razoável pela Anita Ekberg que também entrava no filme e me fazia irresistivelmente lembrar uma prima minha chamada "Nela" que por diversas razões me fascinava...
O "Lys" aqui já desactivado como cinema

"Falando ainda de paixões..."

Falando de paixões: aqui estão duas das mais precoces e arraigadas. O "Rex" foi onde eu vi aquele que ficaria, durante muito tempo, a ser o meu "filme de cabeceira": "M..." de Fritz Lang. Nunca esquecerei a emoção que senti quando o vi, pela primeira vez, numa daquelas emocionantes matinés roubadas à velha "Luís de Camões" do Lino Lopes, do Fernandes Costa (juntamente com a Yvette Centeno o melhor professor que tive, ao longo de toda a minha vida de estudante!) e/ou da D. Bertha Mendes.
O "Rex" era um "Lys dos pobres". Seu "irmão" na proximidade, ficava já para além dessa fronteira invisível que se situava grosso modo, no "meridiano" da pastelaria "Paris" (que era, por seu turno, devido à situação "geográfica", já perto da zona maldita do Intendente, uma espécie de "Delta dos pobres" onde as "Senhoras" não se aventuravam sem fortes razões para tanto...)
Bons tempos...
O "outro" é o "Piolho", o único, o autêntico. (Havia quem chamasse "piolho" ao "Olympia" e ao "Arco Íris", um descuido do Éden permitira que aquele "anão" se instalasse à sua prestigiosa sombra e aí se mantivesse durante anos até se tornar numa... loja de alcatifas e tapetes mas "piolho", "piolho" era o velho "Salão Lisboa").
Pessoalmente, eu não era exactamente um "devoto" dele. Porque dele se despendia invariavelmente um cheiro atroz a suor e porque os "lanterninhas", os "arrumadores", tinham o hábito terrível de perguntar logo à entrada aos miúdos: "Tens dinheiro?"
Se não tivessemos (o que acontecia para aí seis vezes em cada... cinco), apagavam imediatamente as lanternas e deixavam-nos "entregues às feras", procurar um lugar vago, entre empurrões e pragas de quantos tínhamos de pisar para lá chegar...
A imagem que ilustra este pequeno texto evocativo é óptima porque mostra ainda o arco que existia ao lado (por baixo do qual passavam os eléctricos) e a cabine telefónico, junto à qual se vendiam livros ("Condores", "Mundos de Aventuras" e por aí fora) nuns tabuleiros improvisados, muito primitivos, por onde eu adorava passar horas a fio, contemplando fascinado a mercadoria (para mim absolutamente hipnótica!) que exibiam.
Às vezes, conseguia reunir cinco escudos e, então, comprava bilhete para o (não se lhe posso, em bom rigor chamar assim mas enfim...) para o cinema e destinava os quinze tostões que sobravam para "livros"... ´
Era uma festa nas raríssimas vezes em que isso acontecia (como daquela em que o meu Tio Jack me deu... cinco libras que haviam de dar para uma quantidade incrível de filmes e ainda uma boa mão-cheia de livros pelo meio!...)
Para a esquerda, havia um acesso à capela da Saúde e à Mouraria.
E uma esquadra de polícia que me metia, devo confessar, um medo danado! Sonhava (ao mesmo tempo que t(r)emia...) conhecer o seu interior que me parecia dever ser um antro tenebroso, uma caverna ou uma gruta sinistramente insondável, negra e literalmente sem fundo.
Ah e havia, também, uma pequena papelaria onde andei meses a fio a admirar (sem dinheiro para adquiri-lo...) um livro do Peter Cheyney (de que hoje, para me vingar, tenho não um mas DOIS exemplares... )

"Eu falei de paixões?..."

Scilla Gabel

Noutro lugar, falo de algumas 'paixões' cinematográficas de infância. De todas, uma avulta, arrebatadora e inexplicável como todas as paxões: a que nutri durante anos por uma dupla praticamente anónima da Loren (quem é que já ouviu falar no nome "Scilla Gabel"?!) que se tinha precisamente esse nome improvável: Scilla Gabel.
Durante anos, antes do 'nascimento' da Net perguntei em diversas ocasiões a mim próprio se existiria mesmo uma Scilla Gabel. Quando apareceu a Net, das primeiras coisas que fiz foi, em homenagem a essas dificilmente confessáveis (tanto quanto dificilmente explicáveis) arrebatamentos e emoções de adolescência, procurar o nome e a efígie dela aí.
Seria, de facto, como eu a imaginara? Que tipo de impressão me causaria re/vê-la tantos anos e tantas ilusões perdidas depois?
Quando a vi, claro que lhe menti dizendo-lhe que estava praticamente na mesma que é aquilo que a gente diz às pessoas que reencontra, depiois de muita idade!) ter passado por elas, deixando exactamente as mesmas marcas, interiores e exteriores, que deixou em nós...
Mas, tirando isso, gostei de a ver...
Da velha "chama" juvenil continuamente reactivada na escuridão ritual do velho "Olympia" ou do não menos velho "Salão Lisboa", o inefável "Piolho" ("chama" essa, entretanto, quase completamente consumida: nesse entretanto, apaixonei-me sucessivamente pela Silvana Mangano, pela Ingrid Bergman e ultimamente pela Nicole Kidmann...) ficou, ainda assim, uma cálida memória que, hoje, aqui, comovidamente evoco---e, sobretudo, homenageio.


Ingrid Bergman como Joana de Arc

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"O grande Volonté"

Gian Maria Volonté
O Grande Volonté!...
Quando me falam em Cinema (em Cinema italiano, sobretudo) além do Mastroianni, do Tótó, da Loren (eu "era" da Loren "contra" a Lollobrigida mas a minha secreta paixão, nestes territórios erótico-mediterrânicos era a Mangano: que rosto fabuloso! Para mim, era a Ingrid Bergman italiana: não precisava 'representar', o rosto dela dizia "tudo", o resto era já desnecessário!), do Gassman (grande actor cómico fez dele o Monniccelli!) e do Ferreri (o desigual, delirante Ferreri de que gosto muito, entre outras coisas, de um notável "I Love You!"), há um nome que me vem, de imediato, à ideia: o do grande Volonté!
Com ele, comecei em '74, a ver, por fim, Cinema em Portugal! Vi tudo menos o "MOnstro na Primeira Página". E que pena eu tive! Na noite em que ia passar no "Stadium" em Algés, eu e a Mia éramos os únicos espectadores!... O filme, claro, não passou.
No Volonté não sei que mais admirar depois daquele fabuloso "Vanzetti" que ele fez e que passou, em Lisboa, também no "Stadium".
Hei-de voltar a falar dele com o pormenor e a atenção que merece!
Para já, hoje, dele (e dessa fabulosa Mangano!) fica aqui, com um comovido sentimento de perda, a efígie característica, única, inconfundível de ambos em duas fotografias em que, curiosamente, Volonté faz lembrar o rosto de um outro excelente actor (recentemente falecido): Anthony Franciosa...


Silvana Mangano

"A (In) Cultura da Avaliação dos Funcionários"


Aristóteles

O "Diário de Notícias" de 22.09.08 insere um texto intitulado "Rui Teixeira escapa a processo por erro grosseiro" a partir de uma breve análise e reflexão sobre cujo conteúdo é possível ter uma ideia razoavelmente nítida (pelo que lá diz como, sobretudo, por aquilo que não diz, i.e., por quanto está "activamente ausente" do que diz) da visão ou do entendimento vigentes em Portugal, hoje, relativamente à magna questão da representatividade política em Democracia.

À questão do fundamento e da substância específica da dita representatividade.

Sobre o modo como, enquanto cultura, não somos, de todo, capazes de distinguir entre negociação/contratação útil do exercício funcional do poder político e a cedência, pura e simples, do próprio poder político, disso falamos com mais detalhe e com outra amplitude noutro lado.

Aqui, trata-se, sobretudo, de discorrer sobre um aspecto particular desse equívoco verdadeiramente sistémico que faz do nosso regime político vigente muito mais um subtilísimo "despotismo (supostamente, pelo menos...) esclarecido" recauchutado e "demoformalmente decorado" do que propriamente uma genuína Democracia.

Ora, volto a dizer, aquilo que constitui o objecto mesmo da contratação social que é base distintiva do paradigma democrático é o exercício funcional do poder, não o próprio poder.

O que isto significa na prática é que a avaliação cuidada da acção dos agentes da representatividade faz parte integrante, intrínseca, indissociável do exercício da Cidadania autenticamente democrática de tal modo que pode (e deve!) dizer-se que só há democtracia ou só há, pelo menos, possibilidade efectiva e objectiva de haver democracia quando tal avaliação tiver achado suporte e expressão institucional tessitária no corpus dos dispositivos democráticos mais básicos e essenciais.

A vigilância democrática (de que a avaliação, igualmente democrática, é uma das componentes fundamentais) permite impedir, por exemplo e desde logo, o expedinte vulgar, escandalosamente ilegítimo e comum, de "insinuar" disfarçadamente, de forma cíclica, nas práticas comuns da própria democracia todo um conjunto variado de "instantes correctores" espúrios regulares, originários de concepções e/ou sistemas não-democráticos da política, com o objectivo de manter actuante aquilo que, continuando embora a ser chamado, por pura (ou impura!) "inércia crítica e analítica", "democracia" representa, afinal, já, na prática, apenas uma forma completamente apócrifa e contrafeita dela.

Estão neste caso, muito clara (e também muito perversamente!) as chamadas maiorias "absolutas", por exemplo que nada mais são em si mesmas do que uma espécie de extensão ulteriormente (dis!) funcional e ulteriormente perversa do "direito" já reconhecido na maioria das "democracias" ocidentais, a quem exerce nelas o poder...poder fazê-lo de uma forma que escapa, ainda mais indesejavelmente do que é comum, à possibilidade efectiva de fiscalização democrática em tempo real por parte da Cidadania assim como de avaliação adequada, porque proporcional e, por conseguinte, justa daquela forma específica de exercê-lo.

As maiorias absolutas, não hesito em dizê-lo, representam um perversíssimo "cavalo-de-Tróia" do autoritarismo puro e simples (inexplicavelmente aceite, de forma pacífica, por todas as democracias parlamentares que conheço como parte integrante do seu utensiliário jurídico-político e institucional essencial!) embebido no coração dessas mesmas democracias na medida em que configuram a espúria concessão implícita de um aval completamente ilegítimo ao assentamento de todo o conjunto da acção política a desenvolver numa comunidade na "razão" da força em detrimento daquilo que permite exactamente distinguir, na essência, uma democracia de um regime autoritário: a consagração da necessidade nuclear, essencial, imprescindível, de fazer vencimento exclusiva e obrigatoriamente pela bondade dos argumentos, formalmente reconhecida em sede parlamentar e colocada, assim, por exigência da própria Lei, no centro mesmo dos mecanismos decisórios de natureza política na qualidade de condição e pressuposto incontornável de decisionalidade.

John Locke

Ora, aquilo que está, de facto, a requerer quem pede uma maioria absoluta é (in!) justamente que se dispense o poder político e o respectivo exercício em concreto de obecederem à referida necessidade nuclear de fazer vencimento pela força da bondade da argumentação que esse mesmo poder pode, que ele é capaz, que lhe é possível, trazer ao conhecimento da atenção e do discernimento da Cidadania a fim de que esta reconheça no momento democráticamente justo como pressuposto indispensável para que passe à prática (tempo esse que é antes de as decisões estarem tomadas e passarem à prática) o respectivo benefício para o bem colectivo.

Ou seja: não há de facto (de facto e também já agora, de direito!...) compatibilização, teórica ou prática, possível entre Democracia e maiorias absolutas.

Não há como vigiar e avaliar activamente, de forma democrática, uma "democracia" que assenta na figura democraticamente aberrante da maioria absoluta.

Porque desoptar um político ou um partido no fim de um mandato não significa realmente avaliá-los nem, como facilmente se compreende, envolve qualquer forma de vigilância activa sobre qualquer um deles.

Um exemplo limite (porque envolve a acção de uma superpotência, a independência de um país sobrerano e a morte regular de milhares e milhares de pessoas, entre muitas outras malfeitorias e iniquidades): no caso limite dos Estados Unidos e da guerra que conduzem actualmente no Iraque, por exemplo, ver (com civilizado alívio, embora!) chegado ao fim o tenebroso período do "bushismo" que a desencadeou decididamente não basta: não é ética nem politicamente legítimo que uma democracia se declare completamente ilibada de derivas autocráticas anteriores cometidas em seu nome pelo simples facto de desoptar ou desvotar, no fim ordinário de um ciclo político um agente político ou um governo indignos.


António Gramsci

Na realidade, as Democracias que não avaliam e não punem (i.e. as que não dispõem de dispositivos institucionais claros para punir e que são infelizmente a esmagadora maioria!) os políticos indignos avalizam, na prática, implícita mas real, objectivamente, as referidas derivas e ficarão para sempre suspeitas de com eles terem, de algum modo, beneficiado.

De, assim, mais ou menos episodicamente contaminada a própria genuinidade senão da letra (que é tantas vezes permissiva) seguramente do espírito democrático nelas supostamente vigente, alguém ter dessa contaminação, com o beneplácito implícito dela, impunemente beneficiado.

E isto não diz respeito respeito apenas aos casos limite como os da brutal guerra levada a cabo no Iraque pela presidência norte-americana ainda em vigência: é extensiva a qualquer acto ou conjunto de actos políticos deliberados durante as fases de "suspensão democrática efectiva" que são as m,aiorias absolutas. Incluindo, por exemplo, a extraordinária... "cruzada" conduzida actualmente pelo poder político em exercício entre nós, contra aquilo que ele próprio designa pelos "interesses".

O governo dito "socialista" chegou, com efeito, ao poder com o objectivo determinado de reduzir drasticamente e, como hoje é impossível não ver, a qualquer preço pré-determinados valores de despesa pública. Um tal projecto in/essencialmente técnico e de cariz friamente "economocrata" (que ninguém do governo alguma vez confessou, aliás, abertamente durante a campanha eleitoral assim como subtraíu à Cidadania em geral a informação leal das consequências inevitáveis do seu modo particular de conceber a "economia do Estado social"); um tal projecto, dizia, passava inevitavelmente pela desarticulação substancial senão mesmo substantiva do próprio Estado social---o que deixava obviamente perceber ir despertar a indignação e a revolta, quer de uma ampla gama de profissionais das áreas da Saúde, da Educação ou da Justiça, quer, por maioria de razão, das populações afectadas pela cegueira economaníaca "socialista". o poder político sabia que, se confessasse honestamente a todos os interesados, à Cidadania, aos por ele... "representados" as medidas que o seu próprio projecto pressupunha não teria qualquer hipótese de ser eleito exactamente porque esse "projecto" não podia com certeza ser encarado por aqueles quem gravemente afectava como bom ou sequer como minimamente "argumentável".

A "solução"? A "solução" foi pedir a maioria absoluta!

Georgy Lukacs


Com ela contornava o poder político (com a óbvia deslealdade que facilmente se reconhece, aliás!) a mais que previsível revolta, a compreensível indignação, os naturalíssimos protestos das populações lesadas!

As maiorias absolutas (que são um meio conveniente, habilidoso, subtil, de "dar a volta por cima" com o beneplácito da Lei à questão do des/controlo nuclear da acção política) não visam, de facto, eu sempre o disse, outra coisa senão a possibilidade de opção aberta ao poder por formas mais ou menos regulares de interrupção "estratégica" da democracia quando esse mesmo poder político é detentor de um projecto demasiado unilateral e "significado" de sociedade, no contexto da luta social, económica e política entre os cidadãos ou, melhor dizendo, entre os grupos ou classes de cidadãos.

Com uma maioria dessas visa-se, na realidade, no que não pode em justiça deixar de ser entendido como uma grotesca 'paródia' de Democracia, eleger não um governo com um programa para servir uma Cidadania ou uma sociedade mas na realidade, completamente ao contrário, eleger... uma sociedade a fim de servir um projecto político pré-existente.

O "Diário de Notícias" ao publicar a notícia acima começada por referir relativamente à avaliação (assim como à consequente responsabilização, é bom não esquercer!) dos juízes volta a trazer à colação (se calhar sem propriamente o desejar mas enfim!..) o problema essencial da responsabilidade em Democracia: os juízes (como os médicos ou os professores) devem ser avaliados no contexto da respectiva acção profissional?

Com certeza!

Mas se, no caso de todos esses profissionais é... "com certeza", como admitir que não tenha necessária, obrigatória, impreterivelmente se sê-lo (e ainda mais... "com certeza"!) no caso dos cidadãos a quem compete gerir socialmente, de forma global, nacional, a respectiva actividade??!!

domingo, 21 de setembro de 2008

Um Pouco Mais de "Pós-Modernidade e Neo-modernidade" em matéria política"


Quando, na "entrada" imediatamente a seguir, falo (por outras palavras) na necessidade, a meu ver, verdadeiramente essencial, de agregar, de forma estável e, sobretudo, orgânica, mecanismos institucionais de ajustamento e correcção da Democracia em tempo real às formas desta já existentes, quero referir-me muito especificamente a uma coisa que considero absolutamente fundamental: a necessidade de adicionar, como atrás volto a insistir, às ferramentas ou utensílios democráticos típicos já existentes, uma Autoridade de Verificação e Controlo Democráticos com poderes tribunalícios comparáveis, por exemplo, aos do Tribunal de Contas ou mesmo aos dos tribunais fiscais), poderes esses cuja natureza básica, de resto, abordo muito levemente embora, no próprio texto.

Desenvolvendo, porém, agora, aqui, a ideia aí esboçada: para que numa democracia não se instale estável e (como dizer?) também "confortavelmente", sob a forma de uma prática tacitamente aceite por todos, a autêntica chicana, configurada v.g. nas famigeradas "promessas" eleitorais (que ninguém, no fundo, acredita que vão ser cumpridas por quem que seja mas que são sempre, paradoxalmnte, uma---aliás, desonestíssima!---"arma" na ela mesma geralmente desonesta luta pelo acesso ao poder...); para que, dizia, tal prática eticamente intolerável não se "institucionalize", seria (a meu ver, pelo menos) absolutamente essencial que uma das regras básicas do próprio sistema democrático como tal fosse a obrigatoriedade absoluta da deposição, prévia, num órgão próprio de verificação formal dos mesmos, do texto integral do programa de cada candidato a cargo eleitoral assim como uma descrição detalhada, tecnicamente fundamentada, das vias previstas pelos candidatos para passá-las à prática.

Não basta, com efeito (é imoral, aliás! É pura e simplesmente desonesto!) prometer que se vão, a um tempo, baixar impostos, aumentar salários e criar postos de trabalho. Muitos autênticos vigaristas e trapceiros "encartados" apressadamente disfarçados de políticos têm, é verdade, logrado ser eleitos para cargos importantíssimos por esse (moralmente discutível) meio, todos o sabemos. A questão não é, pois, essa: a questão consiste precisamente em criar as condições mínimas institucionais que permitam impedir que tal aconteça.

De acordo cpom o que proponho, cada candidato a um cargo público de representação política devia estar obrigado a explicar aos técnicos da Autoridade quais as medidas por ele concebidas para lidar com uma determinada situação do foro público em concreto, assim como os cálucluos por ele feitos para a consecução do propósito em causa.

Vivemos numa sociedade em que há "ene" cidadãos aos quais, por razões que se prendem com um consabido défice de conhecimentos, é fácil persuadir que se podem baixar impostos, aumentar salários e criar "xis" postos de trabalho, por... obra e graça do Divino Espírito Santo (basta intercalar nas promessas sonoramente avançadas meia-dúzia de frases arrancadas ao sempre eufónico "mumbo jumbo" económico para o efeito ser muitas vezes persuasivo e "fulminante" junto de uma população cujo défice cultural é, como disse, amplamente conhecido...).

Ora, a Democracia não consiste na cedência regular do poder senão que na da cedência, igualmente regular, do EXERCÍCIO instrumental desse mesmo poder, que é uma coisa muito mas muito diferente. A obrigatoriedade da deposição do programa político acompabnhado dos respectivos "cálculos" se, por um lado, vincula um político ao respectivo cumprimento, permite, por outro, limitar rigorosamente o âmbito do poder ou poderes cedidos.


Alexis de Tocqueville

Ou seja: um político assim eleito apenas tem legitimidade para pôr em prática as medidas com as quais formalmente se comprometeu (e só essas!) das quais teve, como é da mais elementar honestidade democrática, naturalmente de dar ao eleitorado prévio e detalhado conhecimento.


A velha "estória" de se ser eleito sem, na prática, se ficar vinculado rigorosamente a coisa alguma (e o facto de o próprio sistema político permitir que um tal escândalo subsista enquistado no conjunto de práticas comuns do regime!) ficaria, desse modo, por inteiro impossibilitada.

Mais: aquilo que proponho aqui passa ulteriormente por uma cuidada redefinição do artigo número 20 da Constituição, designadamente no que se refere aos pressupostos essenciais para a suspenção de um cargo de representação pública: um político não deve, em nome da mais elementar transparência e ética políticas, estar a coberto de sanções específicas que podem (porque não?) ir até à própria suspensão temporária, mais ou menos prolongada, do direito a desempenhar cargos públicos em caso de incumprimento doloso (ou simplesmente por incompetência) dos seus deveres respectivos de representação.

Um político é um "public servant", um servidor público: não é um enviado de Deus à terra com poderes milagrosos a fim de resolver tão providencial quanto miraculosamente os problemas da coisa comum.

Quanto aos cidadãos não têm obviamente obrigação de perceber de economia ou de finanças mas têm, com certeza, o direito de ver a confiança que são forçados a depositar no cidadão A ou B que reclama a propriedade do conhecimento que a eles lhes lhes falta, suportada em instituições credíveis e actuantes, capazes de reporem a verdade e refazerem a justiça ameaçada em caso de voluntário ou involuntário incumprimento por parte do político ou políticos em causa.

Não há Democracia sem vigilância mas sem vigilância, entendamo-nos, em tempo real ou tão real quanto possível. Várias vezes o tenho repetido: não se vota para trás. A Democracia é o poder de escolher livremente o nosso futuro colectivo, não o (absurdo) "poder" de escolher livremente o nosso... passado colectivo.

Desoptar ou des-votar (n)um político não é um comportamento que releve da DEmocracia mas da.. "retrocracia" ou "demomorfia" completamente "inerte", desenvolvendo-se ao longo de um "tempo político im/puramente simbólico" que contrasta com a "temporalidade activa", "efectiva", reservada em exclusivo aos políticos que, no contexto do actual sistema, só nos resta mandar ciclicamente "para casa" (quando não para pingues e chorudos cargos privados, cujo acesso foi cuidadosamente preparado em pleno desempenho dos cargos públicos...)---os políticos que faltaram ao respeito devido ao respectivos cargos que é como quem diz à Cidadania que se comprometeram a servir.



Só assim, insisto, será possível acreditar na possibilidade de uma Democracia em... Democracia.

"Pós-modernidade" e "neo-modernidade"


Sendo, embora, particularmente difícil de precisar, o conceito de "pós-modernidade" (ou, como prefiro designá-la "neo-modernidade") contém, a meu ver, alguns aspectos mais ou menos estáveis e característos que são já, hoje, passíveis de identificação, de consideração específica e, sobretudo, de análise tendo em vista a precisão possível do conceito em causa.

Um desses aspectos (que é seguramente dos mais perigosos e, por esse motivo, mais indesejáveis) consiste, diria eu, na incapacidade persistente e, pior ainda, (des!) estrutural de as sociedades que compõem globalmente a "neo-modernidade" gerarem, a partir do seu próprio interior, da dinâmica ou das dinamias do seu "desenvolvimento" contínuo, massa crítica ou opinião (chamemos-lhe:) 'independente', capaz de, por seu turno, se concretizar numa qualquer forma de ideologia capaz da tarefa absolutamente essencial de realmente pensá-la.

De organizá-la dialecticamente em pensamento ou consciência minimamente reconhecível e geralmente aceite de si.

Capaz de se concretizar num olhar ideológico (ou mesmo apenas e muito menos formalmente, para-ideológico) susceptível de poder, por seu turno, vir a dar, como dissemos, origem a uma qualquer forma de "consciência" estável de si, nos termos daquela que foi a acção típica das "intelligentsias" tradicionais no "Ocidente".

Tradicionalmente, com efeito, as sociedades do tal "Ocidente" foram sempre, de um modo ou de outro (em meu entender, pelo menos) capazes de gerar vanguardas e/ou, por vezes, apenas formas de "contra-cultura significada" que, pela sua natureza interpelante e interactiva com o próprio núcleo característico do sistema ou da ordem podiam facilmente funcionar como a tal "consciência ínsita" ("inset consciousness") do próprio sistema de ordem, formal ou informalmente, 'estabelecido'.

Instituído.

Aconteceu assim, por exemplo, com uma certa poesia decadentista e marginal latina e continuou, de um modo ou de outro, a acontecer com globalmente ininterrupta regularidade, até ainda não há muito, com Émile Zola (basta recordar o "caso" "J'Accuse"), os surrealistas ou Sartre.

Cada um à sua maneira, com efeito, todos eles interpelaram aspectos relevantes, essenciais e também essenciantes (a intervenção simetrizadora das vanguardas demonsttra essa sua natureza dialecticamente essenciante enttretanto perdida: é a minha tese) da 'ordem estabelecida' e envolveram, em maior ou menor escala, as massas" na dissecação e na crítica dessa mesma ordem, alcançando aqui e ali mudanças de sinal histórico, social, político, civilizacional, etc. sem dúvida, importantes.

O meu ponto de vista é que a pós-.modernidade (e isso define-a, em meu entender, de modo perfeitamente reconhecível) "devorou", "engoliu" as respectivas elites, convetendo-as de "consciência" objectual do sistema em "justificação" formal desse mesmo sistema.

Em lugar de Zolas, Bretons e Sartres, temos hoje comentadores televisivos cuja acção política (a qual não pode, obviamente, da teoria de tácticas/estratégias partidárias e mesmo pessoais) é pelo próprio sistema usada, não para interpelar-se mas, pelo contrário, para "demonstrar-se" e conservar-se e para perpetuar-se. Para justificar-se e legitimar-se no plano meramente político-formal: se existe quem pareça pensar o sistema, então, o sistema deve admissivelmente pensar-se, isto é, provavelmente e ao que tudo indica, pensa.

Na realidade, o que sucede é que a sociedade "mediática" permitiu amputar democraticamenre o sistema da sua própria consciência.

Do mesmo modo como procedeu, por exemplo, para a "democracia": tradicionalmente a Democracia funcionou sempre como um capítulo da Política e, ao menos no plano dos desígnios teóricos e até utópicos, uma propriedade colectiva e independente dos povos.

Na "neo-modernidade" a "democracia" (re/convertida em im/pura "demomorfia instrumental"), engolida que foi, como atrás vimos acontecer com a própria consciência autónoma das sociedades em geral, foi chamada à tarefa falsamente "orgânica" e disfuncionalmente "integrada" de legitimar a sua própria base infrastrutural económica.

Na verdade, ela deixou de operar como um capítulo autónomo da Política para passar a funcionar, de facto senão de direito, como um capítulo im/puramente funcional e/ou meramente instrumental da Economia, destinado a justificar e a legitimar politicamente esta última com uma certa forma e um certo conteúdo precisos que o respectivo "revestimento demomórfico" amiude confundido com "Política" deve justamentre evitar que se altere.
Isto é: ao contrário daquilo que acontecia com a Democracia "antes de ser completamente engolida pela economia", ela é agora, para o sistema que a devorou, precisamente aquilo que prende o modelo económico infrastrutural à História, i.e., aquilo que deve evitar que o paradigma relacional solidamente estabelecido entre a "economia" e a História possa alterar-se.

Ou seja, ainda: por monstruoso e politicamente abominável que possa parecer, a "apropriação" tipicamente neo-moderna ("pós-ideológica") ocorrida entre a Economia (entidade apropriadora) e a Política (o elemento apropriado, passivo) conferiu à Democracia o papel histórica, política, e até civilizacionalmente aberrante (e opressor!) que outrora (no início, nas primeiras décadas do século XX, desde logo) esteve formalmente entregue à politicamente "musculada" e expressamente admitida, acção dos regimes políticos formalmente totalitários!

Para a neo-modernidade economocrata o revestimento político instrumentalmente "democrático" de que se serve não possui, de facto (nem, já agora, realmente de direito!), com o disse, qualquer independência efectiva relativamente à sua base económica: está-lhe, como também disse, desde logo, vedada possibilidade de alterar significativamente a História. Na verdade, o seu papel neo-moderno, como parte integrante e ancilar, estr(e)itamnte funcional, do paradigma economocêntrico e ecomomocrata em vigor, é monstruosamente conservador e mesmo abertamente reaccionário.

É por isso que eu digo, por exemplo, que o reconhecimento do direito à livre expressão do pensamento não constitui (longe disso!) por si só e em si mesmo, ao contrário daquilo que muita gente parece pensar um pressuposto sequer minimamente relevante de democraticidade. Embora ouçamos, com efeito, constantemente dizer que, "hoje, ao menos, os crimes e os abusos, económicos, políticos, etc. não ficam escondidos" e que, por exemplo, a imprensa desempenha, hoje, o papel "democraticamente essencial" de "ajudar" a democracia a consolidar-se, denunciando muitos desses crimes e abusos, a inexistência (gritante!) de mecanismos correctores efectivos que permitissem transformar realmente aquilo que, na realidade, não passa de um direito, em larguíssima medida "simbólico" e in/essencialmente "moral", num verdadeiro instrumento activo de prática democrática persiste e não deixa que a democracia passe de um vago e infixo projecto abstracto, como lhe chamei, in/essencialmente "moral", a autêntica Democracia.

Na verdade, o 'direito' em causa, desligado deste dispositivo ou conjunto de dispositivos realmente correctores das disfunções pode até configurar, no limite, um modo extremamente perverso de um sistema ser realmente anti-democrático, na medida em que a possibilidade de falar e de ver falados nos jornais, por exemplo, os referidos abusos pode contribuir para criar a ilusão, na realidade, ausente de Democracia.

Seria a existência dos referidos dispositivos correctores, tal como os descrevo noutro lugar, que impediria o espectáculo verdadedeiramente escandaloso da "demomorfia oscilatória" presene nos sistemas políticos objectivamente duais, bi-partidários, do "Ocidente".

Ainda há pouco eu lia um texto, aliás particularmente discutível em termos da (a) moralidade (política, desde logo, mas não apenas dessa forma de a/moralidade) que lhe subjaz, da autoria de Teresa de Sousa, inserto no "Público" de 11 de Setembro de 2008 ("Do 9/11 ao 8/8 ou como gerir o (relativo) declínio americano") onde se fazia uma espécie de breve balanço do verdadeiramente recente bushismo, agora (felizmente!) perto do fim de um tenebrosa vigência que parece nunca mais acabar. No texto em causa se relatam os contínuos desmandos de um mandato caraterizado pela brutalidade política, económica, jurídica, democrática, etc. mais extrema e repugnante.

Aí, também, se afirma ou se recorda como "a América" acabou por se ver compelida a moderar a sua, como é sabido muitas vezes sangrenta, "teoria do domínio" e da unilateralidade geopolítica, via que, imagina-se, deverá prosseguir, sobretudo se Obama for eleito como próximo presidente.

Na verdade, o que o texto de T. Sousa diz (e por isso lhe questionei e questiono o substracto, a substância, os fundamentos éticos ou ético-políticos) é que um "político" medíocre e desprovido de verdadeira idoneidade democrática como Bush pode ser eleito, subverter na prática por completo todo o sistema demoformal a que (também) nos Estados Unidos chamam "democrático"; fazer do país que governa um verdadeiro Estado objectivamene pária em termos do (criminoso, despudorado, continuado des) respeito pelas regras mais elementares do modelo democrático e dos acordos e convenções internacionais; obter determinados resultados precisos, específicos com esse seu bárbaro e imoral comportamento "político", sair, entregar a outrem a gestão dos destinos do país sem que os resultados políticos e geopolíticos obtidos através da barbárie sejam devidamente ressarcisos, pir um lado e evitados futuramente, por outro.

Esta é, de resto, diria eu, uma das "chaves" do funcionamento essencialmente anti-democrático (instrumentalmente demomórfico) do "regime".

Ou seja: o recurso cíclico, "estratégico", por parte do que chamo "demomorfia instrumental" ao reverso da própria Democracia não consttui, de facto (e, pior ainda: de direito!) um acidente no funcionamento 'normal' dessas mesmas demomorfias.

Pelo contrário! É essa a (i) lógica mesma, a prática normal, do modelo demomórfico como tal---modelo esse que, exactamente porque não opera como uma teoria genuína da realidade destinada a guiar e a estruturar previamente o nosso "uso" ou o nosso "consumo" político e civilizacional dela mas, de facto (e, volto a dizer: pior ainda de direito!), como mero revestimento exterior im/puramente funcional que se "atrela" ao carro da economia" com o único propósito de "decorá-lo politicamente", a única maneira que o "sistema inversional" formado por uma economia "com uma política instrumentalmente móvel a toda a volta", cumprimdo contínuas órbitas em seu redor tem de absorver os inevitáveis choques que a sua naureza des/estruturalmente disfuncional está condenada a gerar é essa de recorrer ciclica (e/Ou "estrategicamente"!) ao oposto de si a fim de (como dizer?) ir-se "tant bien que mal" equilibrando sobre a própria História, se assim me posso exprimir.

Não foi só o tandem ou "sistema", o citado ciclo, Bush/Clinton, por exemplo: foram, entre nós os ciclos duais Cavaco Silva/Guterres ou Durão Barroso e Santana Lopes/Sócrates como há-de previsivelmente ser o que vai, ao que tudo indica, ser formado por esse mesmo Sócrates e qualquer outro ou outra a que o "regime" se veja obrigado a recorrer a fim de gerir, então, mais... "democraticamente" os sucessivos abusos e gravosos desmandos sociais úteis cuja prossecução entregou a esse mesmo Sócrates, logo que a maioria absoluta por ele arrancada à sociedade portuguesa que o elegeu lhe permitiu "contornar democraticamente" as regras essenciais da própria Democracia, a começar pela que diz que, ao contrário do que sucede nas ditaduras formais, nas democracias a "razão da força" deve, em todos os casos, ceder o passo à força da própria razão, pelo que as maiorias não só não têm de como não devem ser absolutas para permanecerem, em todos os seus posicionamentos e decisões, efectivamente democráticas.

Se, entre nós como nos Estados Unidos, houvesse em vigência uma Democracia verdadeira, autonomamente política e não, como disse, apenas instrumentalmente demomórfica (o que significa: se houvesse em efectivo funcionamento, num caso como noutro, uma Autoridade Fomal de Controlo Democrático, com poderes tribunalícios efectivos, a fim de fiscalizar o estrito controlo dos programas políticos e para sancionar efectivamente os prevaricadores, nunca o bushismo, o cavaquismo ou o socratismo poderiam ficar a rir-se por terem ferido gravemente a democracia a coberto de falhas gritantes existentes nela--e mais: ninguém, sector económico, social, político poderia congratular-se por tal ter na realidade acontecido, antes de a democracia voltar a adquirir, obtidos certos resultados "úteis" da sua "subtil, educada elisão", os traços que mais vulgar e mais caracteristicamente a distinguem.

Georgy Lucács