quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

"«Ginger e Fred» ou «A Realidade É Nossa»!!"


Primeiro, na "versão" genuína; logo a seguir, na desconstrução/reconstrução felliniana: as representações da Cultura são um património, de um modo ou de outro, natural no exacto sentido em que a inteligência [incluindo, obviamente essa forma, a seu modo, suprema de inteligência que é a inteligência individual---e colectiva---da realidade] é, ela mesma, natural.

O próprio Fellini o disse de outra maneira:


"Não me lembro bem quem é que disse que, da mesma maneira que o indivíduo através dos sonhos exprime a parte de si próprio mais secreta, misteriosa, inexplorada, que corresponde ao subconsciente, assim também a colectividade, a humanidade, faria a mesma coisa através da criação dos artistas. A produção artística não seria mais do que a actividade onírica da humanidade; o pintor, o poeta, o romancista e até o realizador corresponderiam a essa função de elaborar, organizar com o próprio talento os conteúdos do subconsciente colectivo, exprimindo-os, revelando-os na página, na tela ou no écran."
[Cf. Giovanni Grazzini, "Fellini por Fellini", ed. port. Publicações D. Quixote, Lisboa, 1985].


Não se trata, todavia, de um qualquer processo... mediúnico---longe disso!...

É, exactamente ao contrário, um laborioso processo de reencaixe e recontextuação crítica contínua, ampla mas, de algu modo, cirúrgica [ainda quando parece, no imediato, ser apenas instintiva e simplesmente torrencial ou até caótica, completamente descentral] dos objectos e da própria máquina do real como tal---de largos segmentos ou sequências dela, em todo o caso---quer o artista toma e re-produz [não, simplesmente, reproduz] e, re-produzindo-a, lega aos seus contemporâneos e sucessores.
Decorre, aliás, directamente do modo como Fellini vê a criação artística: que direito [e que Direito!] podem reclamar fundamentadamente o... "direito" a legitimar, em termos formais---formalmente jurídicos---o divórco entre a realidade e a sua própria consciência?
Entre a realidade e os seus "sonhos críticos e estéticos"; entre o real e essas "secreções oníricas" estruturalmente suas que são, nesse caso, as obras de Arte?
Constitui a institucionalização generalizada da esquizofrenia, da neurose cultu(r)al e estética, um dos direitos "legítimos" do poder político, através do seu Direito próprio?

Outro ângulo ou outro ponto de reflexão: o real é uma máquina?

Claro! Uma máquina cujo funcionamento e, sobretudo, cuja função última, efectiva, é nosso estrito dever individual, cultu(r)al e até ontológico e metafísico [se isso existe; se uma 'ontologia' e uma 'metafísica' existem, de facto, fora do universo estreito e limitado, a seu modo, rasteiro mesmo, da ficcção...] nunca estarmos completamente seguros.


Acho eu...

1 comentário:

Gonçalo Eusébio disse...

Amigo Carlos:

Hoje nos meus "Números" faço uma homenagem a alguém muito especial...