sábado, 23 de fevereiro de 2008

"Bons indícios. Tardios mas bons" ou "«Poder»: basta trocar duas letras à palavra e (o) "poder" fica imediatamente... «podre»"



Ponto um: o ponto um destas reflexões são inquestionavelmente as... "juntanças" espontâneas de professores ocorridas em Leiria e no Porto. Boas, sem dúvida, e por vários motivos: primeiro, porque são tomadas de consciência cada vez mais colectiva(s) e, portanto, tendencialmente cada vez mais orgânica(s) da situação que envolve hoje-por-hoje a Educação (não especificamente, não limitadamente, não corporativamente!) os professores: a Educação!) em Portugal.

Sempre me pareceu, aliás, que (um)a Ordem dos Professores era (É!) algo absolutamente essencial e incontornável. Não milagrosa mas, sem dúvida, tecnica (e civilizacionalmente!) essencial. Fenómenos como esses das tais "juntanças" que, no início, refiro, dão-me a esperança de que essa (a meu ver, básica aspiração dos sectores mais atentos da classe) possa ser, em breve, uma realidade.


E não há contradição nisto: a única possibilidade de uma Educação consistente e consciente, actuante, em Portugal ou na... Cochinchina, é um professorado operando de forma técnicamente independente e orgânica e, podendo, nessa condição constituir-se em parceiro social mas, sobretudo, em parceiro civilizacional.


Ou seja, exactamente o contrário do que tem sido a (não) política do poder no... poder!


O caminho para a Ordem passa, como disse (e volto a sublinhar) seguramente por aqui, por 'coisas' como as "juntanças" ocorridas no Porto e em Leiria.

A saber: por um movimento (a) espontâneo e (b) vindo naturalmente "de baixo".


Isto é: sentido colectivamente como uma necessidade natural.


Trata-se, na realidade, de reequacionar, alargando-a e tornando-a estruturalmente orgânica, através da sua reinserção ulteriormente reflectida e alargada no todo social, a noção anterior (in/essencialmente des-actualizada, em termos históricos, civilizacionais e políticos) de consciência de classe.


Ponto dois: É o questionamento implícito que as "juntanças" em causa obrigam a fazer da lei que regula, hoje-por-hoje, as manifestações da livre e democrática expressão do sentir cidadão.


Se, com efeito, de cada vez que a indignação colectiva ganhar expressão dinâmica e activa, o poder político tiver como única resposta, não a consideração democrática das situações em si e das respectivas causas mas a mera invocação mecânica (e estupidamente autoritária!) do formalismo jurídico envolvido (não foi cumprida a lei: chama-se a polícia para identificar---e eventualmente indiciar---cidadãos respeitáveis que se limitam a exercer, na sua forma mais natural, pura e idealmente informativa do ponto de vista da auscultação pelo próprio poder do sentir e do pensar cidadão, o direito natural à livre expressão do pensamento); se isso acontecer, dizia, de cada vez que a indignação cívica extravasar das formas institucionalmente toleradas (porque, de um modo ou de outro, controladas pelo próprio poder) é inevitável que a comunidade comece a questionar (e cada vez mais activamente!) a democraticidade e a justiça (isto é, a legitimidade democrática) da própria lei.


Ponto três: reporta-se à 'coincidência' temporal das duas "juntanças" espontâneas com uma outra de cidadãos contra o encerramento de serviços de saúde, salvo erro na Anadia.
Também aqui temos, sem dúvida, um excelente e saudável indício no que respeita à emergência inadiável entre nós de uma, se assim me posso exprimir: activa "consciência de classe cidadã" face aos descaminhos do exercício do poder dito democrático, sempre que eles ocorram.


Porquê?


Porque a questão da chamada "reforma" do Serviço Nacional de Saúde é algo que não pode obviamente dissociar-se, em termos políticos e de intervenção cívica (em termos da necessidade vital de vigilância e intervenção cívica correctora em tempo real do exercício do poder!) de todas as restantes questões que nos afectam, hoje-por-hoje, como indivíduos mas, sobretudo, como sociedade.


Quer dizer: a Cidadania não pode obviamente continuar a andar, fragmentada, inorgânica e, por conseguinte realmente inerte, a gritar (com cada um a clamar para seu lado), para poder ter justificadas aspirações a ser ouvida e acatada.

Como digo noutro ponto deste "Diário", é absolutamente vital agregar à acção reivindicativa clássica, chamemos-lhe assim, uma fortíssima componente "civil" como tal.

É vital que a Cidadania redesperte, desde logo, as velhas "comissões de" (de tudo!) como "sindicatos de cidadãos" actuando tão colectiva e tão organizadamente quanto possível---elas que foram a (efémera mas bem real!) glória do espírito (e da acção!) de Abril.


Ponto quatro: é um terreno 'difícil', melindroso, muito vulnerável a oportunismos, sem dúvida, mas não me custa admitir, em tese, que seja (cada vez mais) necessário ultrapassar, por um lado e de forma tentativa e simultaneamente "educada", chamemos-lhe assim, a noção tradicional de 'partido' político---mas não só: tão importante como isso é que se considere o alargamento natural de tal "ultrapassagem" ao conceito 'clássico' de sindicato.


Ou seja: é vital que "povoemos" de novo (não me ocorre outro termo senão o inglês "afresh": que povoemos "afresh" os sindicatos) mas, muito em particular, que esse "povoamento", também ele, ecoe na Cidadania como uma necessidade absolutamente natural e instintiva.


Ponto cinco: reporta-se ao "cancro democrático" das maiorias "absolutas". Não há "boas" maiorias absolutas. Aquilo que, por definição, distingue as modalidades democráticas de organização social das pura e simplesmente autocráticas é justamente a obrigação estrutural (e estruturalizada) de ter de se recorrer, em todos os casos, a uma componente básica, orgânica, inalienável e essencial de persuasão e, por conseguinte, de genuínas negociação e contratação social e política.


De se obter vencimento para as deliberações políticas envolvendo a colectividade com o recurso exclusivo à força ("presa à História", institucional e realmente "presa à História" pela própria lei!) dos argumentos, ou seja, pela bondade politicamente demonstrável dos argumentos e não, como nas maiorias absolutas acontece, com recurso exclusivo ao... "argumento" ou à... "bondade" indemonstrável (e indemonstrada) da força.


Aquilo que define, na essência, a democraticidade de um regime ou de um sistema político não é outra coisa senão, diria eu, a desalienação efectiva ideal da decisionalidade real, chamemos-lhe assim.


Isto é, nos impropriamente chamados regimes democráticos como o nosso (onde nos caem regularmente em cima maiorias "absolutas" como as de Cavaco, num passado ainda bem recente e a de Sócrates hoje) o "tempo decisional" fracturou-se, cindiu-se---alienou-se---já, com a complacência completamente anti-natural da própria lei e com a consequente e natural perversão do específico democrático básico que consiste na prática na cedência do poder político pela comunidade embora em teoria seja exclusivamente o EXERCÍCIO FUNCIONAL do mesmo poder que a cidadania cede.
Esse e mais nenhum.


O que acontece neste caso é a desintegração (a des-integração) da temporalicidade decisional efectiva em duas: uma activa, entregue ao poder; outra simplesmente reactiva e neutralizada pelo modo brutal como é deslocada no tempo, confiada à cidadania, o que significa que a democracia se alienou já na sua essência e se converteu, pois, naquilo que chamo uma mera "demomorfia" (usada instrumentalmente para "revestir" por fora---e "argumentar" em termos disfuncionalmente políticos---um modelo económico determinado que não se pretende que mude) ou "retrocracia" (que é o sistema político objectivo---não legal: objectivo---segundo o qual, o único efectivo 'poder' das sociedades consiste em desoptar ou desvotar políticos julgados muitas vezes (como hoje é já evidente que acontece) em tempo real incapazes de responderem aos anseios colectivos.


Uma democracia que só consegue 'olhar para trás' é, pois, uma retrocracia, não uma democracia.


O (in) essencial do 'pensamento retrocrático' fica expresso, para concluir, numa fórmula que poderia ser assim enunciada: se a democracia é o poder de as comunidades humanas escolherem tão livremente quanto possível o seu próprio futuro, a "retrocracia" é o "poder" de essas mesmas comunidades escolherem, da mesma forma genérica, o seu próprio passado e, na verdade, apenas ele.
Foi assim que foi "inventado" um primeiro-ministro chamado António Guterres (qualquer coisa era preferivel ao que estava...); e foi assim que foi engenhado um impensável Barroso e foi, ainda e sempre, assim que a História, politicamente doente, viria a parir o actual Sócrates (para fugir a um governo-chalaça que caíu, de repente, no colo de um País incrédulo).


Por absurdo. Pela negativa. Por des-voto. Anti-politicamente.


Para terminar mesmo citaria aqui uma outra fórmula que tem tanto de sarcástica como de, infelizmente, bem real.
Ei-la: num mundo de brutal desregulação política, de cega obsessão economocrata e economaníaca centrada na manutenção violenta da ocupação do poder político por forças que agem na prática como adversárias (senão mesmo como inimigas declaradas!) da sociedade no seu todo; num tempo assim definido e assim caracterizado (de pura selvajaria social sem possibilidade de controlo institucional efectivo pela comunidade) a palavra de ordem desta tem de ser cada vez mais e como parecem começar a indiciar as "juntanças" espontâneas de sectores diversos da comunidade nacional qualquer coisa como: pela unidade social e política dos cidadãos contra a hunidade anti-social e impolítica dos seus líderes de ocasião.


[A ilustrar esta reflexão um retrato de Átila, o padroeiro histórico da... Hunidade]














O Luís Pacheco é um dos meus Césares Monteiros preferidos...


O Pacheco: eu conheci-o---como dizia "o outro"...
E conheci, mesmo. Numa "espécie de alfarrabista" da Almirante Reis.
O da D. Conceição.
Mulher do Faria.
Que, na altura, já era viúva do Faria (que vendia livros na Graça e onde comprei muitos que pertenceram ao meu tio Aníbal).
Falámos de livros.
Estive um montão de tempo a falar com ele sem sonhar quem era e, ao contrário do que reza a crónica "oficial", fiquei com a ideia de que era um tipo cordato, discreto e até tímido.
Ficámos de nos encontrar outras vezes por ali.
Mas atendendo ao que se passou com ele e ao que não tardará muito há-de inevitavelmente passar-se comigo, o mais certo agora é que só nos encontremos "lá".
Tenho a certeza de que havemos de voltar a falar de livros.

Mas o João César Monteiro é o meu Luís Pacheco preferido...




Deste "mangas" com muita graça (e muito talento!) contava-se uma anedota giríssima---cujo espírito gostaria de recuperar aqui como sendo o próprio ideal de um espírito para este "Diário".

Foi o caso de ele ter dito, um dia, que adorava que alguém se lembrasse de levá-lo a tribunal para ele ter finalmente oportunidade de dizer aquilo que sonhava há anos poder dizer.

Ou seja, dar-lhe a oportunidade de, quando o juíz ou a juíza proferisse o inevitável, "Levante-se o réu!" ele responder prontamente com uma fase longamente engatilhada que era nem mais nem menos do que esta: "Levante-se você, seu filho/a da puta!"

É, como disse, literalmente este o que gostaria que fosse, em última instância, o "espírito" deste "Diário"---o seu "génie", como dizia o Butor, num título célebre, a propósito de alguns dos melhores "lieus" por que passou.

Um juíz, por amor de Deus, é um tipo como os outros. E é um tipo que devia servir os outros, a comunidade que lhe paga o pão com manteiga e o café com leite do lanche!

Como os paga um professor ou a um polícia.

Ou a um desses "faitnéants" ou dessas putas que nos custam cada vez mais os olhos da cara e a que chamamos com desmedida ambição e optimismo: "os políticos...

São gajos e gajas que foram 'inventados' para servir---não para serem servidos.

Por nós todos como sociedade.

Mas, entamo-nos: não se trata aqui de desrespeitá-los ou de ser gratuitamente rude com eles.

Não!

Aquilo de que aqui se trata é de repor as coisas nos seus devidos lugares como pressuposto essencial de cidadania.

Aquilo de que aqui se trata é de ser "revolucionariamente indelicado" e "educadamente descortês".

Ou seja, de ser mal-educado como opção política e acto de civismo.

Como princípio.

Quem não tiver percebido isto, não terá percebido nada de Cinema (do do João César, com certeza!)

Mas (pior ainda!) não terá percebido nada de Cidadania.

E, para castigo, fica condenado a levar com Sócrates e Filipes Meneses o resto da vida!


E olhem que não é dizer pouco!...

"Los jueves, milagro" ou "Dá-lhes Falâncio!"...



"E, aos domingos, dávamos milagres"...


Podia ser esta a "tradução" do título de um velho filme espanhol ("Los jueves, milagro") devidamente "cruzada" com um excerto de um não menos "arqueológico" (em termos puramente temporais, ham? Que aquilo tinha até muita graça!) texto de humor, exemplarmente dito, aliás, pelo Solnado que, nele, "fazia de" bombeiro.


Ora, sucede que numa sociedade (e num tempo) laicos como tudo como aqueles em que temos o (muito debatível!) privilégio de ir vivendo, aos sábados não se dão (já?) milagres: vendem-se revistas presunçosas e "intelektualmente berrantes" para classes médias desocupadas e que só no papel (e só "de papel"...) conseguem atingir as "alturas" com que sonham, a reboque de umas quantas Cinhas, meia-dúzia de Mituxas e outras tantas Pimpinhas e ser, semanalmente (e conformemente!) à boleia de tal fauna, "classes altas", como elas...


Para a pós-modernidade (que é como quem diz: para a charrice e a piroseira da "coisa" ficarem completas e perfeitas) o sábado desta espécie "absolutamente midieval" de gente é à... sexta...


Não estou a brincar: a revista "Sábado" (que tem, pelo menos---honra lhe seja feita!---o mérito raro de ter conseguido escapar às perigosas investidas das sanhudas truculências gráficas do Sr. Tavares Filho e, ao mesmo tempo (dupla, assinalável proeza!) às esconsas "punhetas mediáticas de fim-de-semana" do Sr. Valente, sai mesmo à sexta e, se escapou àqueles perigos e ameaças de que falei, já não não teve idêntica sorte no que respeita à prática de se artilhar com obuses alternativos do tipo Rogeiro-5 ou Avillez-24 (para já não falar no míssil ar-ar-ar-ar Pacheco 27...) com os quais pretende assegurar para si o desígnio de manter definitivamente em respeito a "classe leitora".

Ah e nunca deixa de vir carregadinha de suculentos "bifes mediáticos" (sempre ajustadíssimos à realidade nacional de hoje!) do tipo "Roteiros de charme em Portugal" (Será que algum fica na linha de Sintra?...); "Há donos que têm medo dos seus cães" (ainda se fosse: "Há portugueses que têm medo dos seus socialistas"!... Agora, os cães: fazem lá eles mal a alguém!... ) ou ainda ("last but not least"...) "Há cinco cervejas com aromas especiais que---horror dos horrores!---não estão nas lojas"!!!
(E onde estarão elas, meu Deus??!!
Será que teremos mesmo de comprar "aquilo"---com Pacheco e tudo---para ficar a saber??!!
E como viver sem cerveja---e ainda para mais com aromas especiais??!!
Oh, sorte!).

Bom, mas eu esta semana comprei mesmo a revista. Vendia ("ao preço da chuva": um neuro, duzentos paus) um livro politicamente corectíssimo do Carré (o homem até nem escreve mal, ham? E até se safou muito bem quando se lhe acabou a mina do Bloco de Leste. Só por isso, já tenho alguma consideração por ele e pelas meninges dele...).
Bom, mas seja como for, pelo "neurozito" valia a pena.
Comprei.
Pois não é que logo na página 6 (ainda não tinha tido tempo de me recompor dos quase seiscentos paus que dei por aquilo tudo) sou detido por um artigo sapientíssimo (e imparcialíssimo!) de uma senhora que assina "Direcção" (será alcunha?...) e que logo ali, ainda não havia cinco minutos de 'jogo', se põe a embirrar com um dos fulanos que constam da gravura que reproduzo acima, o manguelas da esquerda.
(Pois, da esquerda. O homem está à esquerda, o que é que queriam que ele fizesse? É de esquerda, está à esquerda! Pronto! Esse ao menos é coerente...)
Bom, mas, pois, a tal senhora e o artigo dela: que o tipo da esquerda é mau como as cobras.
Que só fuma charuto.
Que arrota (na liberdade, se calhar, sei lá!).
Que dá traques à mesa (para aí da "Demokracy" dos outros, dos que lhe bloqueiam os medicamentos, lhe fumam os charutos à sorrelfa e se chamam "mundo civilizado").

E assim.

Ah e depois, há o PCP!...
Que é mau.
Que gosta dos tipos.
Que não devia gostar.
Que é o único que gosta.

Et al.

E não é que o PCP "tem" [ao que tudo indica] "uma lingua só sua" (língua essa que, na opinião da excelsa senhora que assina o artigo, "nada tem a ver com aquela que os outros portugueses usam entre si" e que a boa D. Direcção, claro, não tem dúvidas qual seja nem de que a fala ela própria---a mesma língua de que se serve para sabientemente lucubrar sobre questões tão obviamente vitais do ponto-de-vista do interesse nacional como a dos tais roteiros "de charme", dos cães que mordem na cerveja ou dos tais donos com aromas especiais de que vem a falar esta semana...)

Porque isto, francamente: ter uma língua só sua, não se faz a ninguém: falar, se querem, se têm mesmo que falar, é como "toda a gente", com a linguinha "de toda a gente", assim tipo bandeira do Scolari à janela; agora cá falar com uma a língua "só sua"!
Onde é que já se viu isto??!!

E mais: "os comunistas portugueses não têm uma única palavra para a miséria, para a omissão (?) que leva ao turismo sexual ou para os presos políticos"!

Tal tá a raça de gente ham?!...

É o tal mal de se falar com uma língua "só sua"! Começam a falar com uma língua "só sua" e acabam pensando por uma cabeça só sua!

Não pretendem, dizem "eles", intrometer-se nas "questões da vida interna e do povo cubano": Tartufos! Gimbrinhas! Marotos! Malacuecos!

é que eles se deviam meter, se fossem boa gente!

Mas não! Aquilo da "língua só sua" deu-lhes para começarem para aí a dizer tudo o que lhes vem à cabeça sobre voos da CIA, Guantánamos, Abu Ghraibs e "democratas" e "democracias" que jogam constituições europeias "aos dados" entre eles (como os outros à túnica de Jesus...) e outras coisas horrorosas como essas!
Como disse um humorista lá deles, com muita graça, um dia: "There oghter be a law!"
É! Devia mesmo haver uma lei contra quem fala uma "língua só sua" e pensa com uma cabeça própria!
Mas não desanimemos: o "Socas" não dorme! O "Socas" anda a tratar disso!...
Ainda havemos de ser um país como a Busholândia, um dia!
Com um Iraque, um Afeganistão e vinte a tal/trinta por cento de pobres só para nós e tudo!
Olá se havemos!
Dê-lhes a gente corda e ai não que não havemos!...
Como diz o Falâncio: Tirirititi...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Para que dúvidas não persistam...


Pois para que elas não persistem, aqui vai o documento "fatal" em maiorzinho!...

'Gente (políticos, editores de jornais "intelectualmente chiques", etc.) gira [é REALMENTE outra coisa!]'...


"Gente gira" são, neste caso, os políticos e editores dos tais jornais "intelectualmente chiques" ("I'll name no names, perish the thought!...") que governam (e, no outro caso , 'editam'... ) "por rankings".

Os "rankings" são uma coisa óptima para manter a História (e a Política!) "em repouso". Que é como quem diz:

"Comfortably snug".

"Blissfully at deaths's door" ...

Como eles, País e Política, devem, aliás, sempre estar para "não atrapalharem" os génios e as... génias que tão proficientemente vão "governando" o País!...

Por exemplo: um governo de... "hunidade" nacional como aquele que lá vamos ("tant bien que mal"), tendo que sofrer hoje-por-hoje, decide, "descartar", "desoptar", extinguir, pôr um ponto final, na classe dos músicos em Portugal.

Na possibilidade de em Portugal haver músicos e música nacional a curto prazo.

[Já agora: ouvem rádio? Então, prestem bem atenção---é o meu humilíssimo "conselho" ou sugestão mais ingente de hoje...--- ao que aí passou a estar oficiosamente configurado sob a epígrafe ou sob a designação carinhosa de "música nacional". Oiçam e depois digam-me, está bem?...

É uma... 'elite significada' cujos nomes vale a pena memorizar...]

Bom, mas dizia eu, então, que um dos "hunos" que encabeça a administração (em doses maciças!) de "neo-liberalidade" cada vez mais "social" a um País cronicamente cataléptico e obstinadamente atordoado decide, um dia, acabar de vez com a Música em Portugal, começando pelas respectiva "oficina" onde ela é construída: o Conservatório, enquanto individualidade institucional própria e específica.

Nessa (desgraçada!...) conformidade, vem um "huno" e decreta---e logo vem, por sua vez, um editorialista ou comentarista qualquer de nomeada (um "pezzo di novanta" mediático: a minha cadela diz, com graça: um "Cerrebelo Que Repousa" ou "Poluído da Lente" ou "da Mente" qualquer...) e coloca o "huno" em causa escandalizadamente ("ever SO indignantly! Intellectual 'chique' oblige"...) "em baixo" num "sobe-e-desce" qualquer que o jornal em causa se lembrou, um dia, de escogitar para "brincar às políticas e às opiniões" com os seusseriíssimos e (claro!) intelectualíssimos leitores.

Resultado final: o ensino da Música fica (senão definitivamente "arrumado" porque afinal de contas o diabo não há-de estar sempre atrás da porta e o País não há-de querer passar o resto da vida num tanque criogénico cívico e político qualquer, por muito fofo que à primeira vista lhe pareça--digo eu...); resultado real: o ensino da Música fica, pois, dizia, nesta desgraçada conformidade, gravemente comprometido para uma (facilmente previsível) série de anos até vir (das brumas do sufrágio universal...) qualquer pessoa (um ministro, por exemplo...) realmente inteligente e civilizado que reponha a ordem e volte a colocar o país no século respectivo mas, tirando isso, nada acontece.

O fulano que assinou o "ukass" em causa logo regressa, no dia ou na semana seguintes, ao "topo"; a vida continua (como naquele parágrafo do Jacinto Baptista sobre o "cinco de Outubro" onde ele escreve que, "enquanto na Rotunda se davam tiros, em Campolide um burguês ia pachorrentamente sachando na sua hortinha" ou coisa que o valha).

Enquanto, neste caso, meia dúzia de reformados num banco de jardim qualquer vão, não menos pacientemente que o "homem-das-hortaliças" da Revolução, pacientemente registando o "score" dos fulanos: "Olha: este subiu dois lugares na geral!"; "Oh coitado! Aquele desceu sete!"; "E esta, heim?! Aquele outro está a ganhar seis-a-zero a todos os restantes!"...

Para pasmaceira e inércia, temos de convir que não está mal!...

Para marasmo, é de luxo!

Afinal de tontas, perdão, de contas, amanhã é outro dia e coisa assim...

E o mesmo acontece nas Escolas ("Deixa cá ver em que lugar ficou a minha"), nos teatros, nos cinemas, etc. etc.

Tudo isto sempre como se a realidade viesse já "feita da fábrica" e a gente não lhe pudese sequer mexer por razões de... "copyright", por exemplo ("Esta realidade encontra-se protegida pelas leis que regulam o direito de autor: qualquer alteração, remontagem, corte, transacção, troca ou venda não autorizada de realidade entre vizinhos, amigos, etc. é considerada contrafacção e viciação da mesma e sujeita a pesadas penas monetárias"...)

É assim o País das Uvas.

É cada vez mais assim a... "Hunidade" destes espíritos... "santos".







terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A "questão monárquica" na 'ordem do dia' (4)


... ou a "República" cada vez mais 'tremida'...

Num texto anterior (globalmente inspirado pela leitura de um texto de Miguel Real publicado no "D.N." falei de uma figura histórica, económica e política a que chamei a "primeira burguesia". Não terá sido em rigor a primeira: será mesmo, para aí, a "quarta" ou "quinta".

O que interessa, todavia, deixar claramente expresso é que há (em, a meu ver, há mesmo!) uma "burguesia" económica que, em França, se junta ao "povo" para derrubar (eu diria, perfeitamente consciente do que digo: simbolica ou simbologicamente) a aristocracia, numa Revolução que seria um marco histórico determinante para a modernidade. Esta "burguesia!" começa, de facto, por ser revolucionária.

O que ela traz de revolucionador para a História, já noutro local vimos: é, basicamente, a tal necessidade de "saber utilizar a propriedade" para assegurar-se o "direito" histórico, social e político, a possui-la. Ela traz para a História a ideia da própria volubilidade democrátioca da proprietação, digamos assim. A ideia ou o princípio de que possuir não é uma constante mas, pelo contrário, uma essencial variável e que, portanto, a realidade é móvel e cumulativamente relativa---ou (permitam-me que diga aqui um palavrão:"relatival").

Esta primeira burguesia ainda não cortou, pois, de todo com a Inteligência Abstracta e com as concepções clássicas (não-utilitárias e, sobretudo, não-utilitaristas) de erudição. Este modo de relacionar-se epistemologicamente com a propriedade prova-o, a meu ver, à saciedade.

Tal como, para dar outro exemplo, o modo como pensadores como John Locke, por exemplo, vão à Biologia e/ou à Antropologia no sentido de argumentarem e fundamentarem teoreticamente a própria Democracia.

Mas, se há uma "primeira!" deve haver uma "segunda", uma "terceira" e por aí fora "burguesias".

E a verdade é que há!

Quando a propriedade histórica se encontra satisfatoriamente (satisfatoriamente, para ela, burguesia...) preenchida, esta inicia, de imediato, um movimento de regressão ou recuo totais relativamente ao modo como representa e deseja ver representada pelos seus "intelectuais", pelas suas "elites", a realidade nas suas diversas formas.

A Escola, por exemplo: a tal "primeira" burguesia quere-a aberta e realmente democratizada, digamos assim.

De facto, ela usa a Escola como uma porta para a propriedade, sabendo nós como ela percebeu já que o saber (leia-se: o saber transformar continuamente o real em 'valor') é o seu argumento chave para se "apoderar definitivamente da História" através da propriedade, digamos assim.

E vice versa, também...

Numa primeira fase, pois, ao menos na teoria ou nas teorias dos seus intelectuais, a Escola ou escolicidade burguesa(s) são, real ou potencialmente, modernas e não só modernas: são, também, real ou potencialmente, com muita frequência, democráticas.

Quando, porém, como disse, a "propriedade da propriedade" não pode sofrer mais divisões de fundo sem, do ponto-de-vista "burguês" desrazoar e fazer desfuncionar por completo todo o sistema, a burguesia (que é, então, já, cada vez mais "segunda") passa a usar a Escola, não (mais) para impartir connhecimento mas, pelo contrário, como um modo de manter as massas, a sociedade no seu todo, longe do conhecimento.

Este passa, então (naturalmente, do ponto de vista "burguês" típico) para as mãos dos privados, ou seja, dos detentores da propriedade que não querem, obviamente, continur as dividi-la e a partilhá-la.

Quanto à Escola pública passa, por seu turno, a recolher os saberes que, por não servirem já para a reprodução ulterior de "valor", são continuamente desactivados e "cedidos" a um sector público cada vez mais inorgânico e ancilar e cada vez mais obrigado a conter em vez de estimular os anseios colectivos.

E a funcionar como um muro que (vou dizer assim intencionalmente: "encloses") o verdadeiro saber (o que se torna sem dificuldade "valor" ou "capital" e que está, hoje-por-hoje, nas mãos das multinacionais e tem inclusive um Direito específico a protegê-lo) e, continuando a criar a ilusão geral de "democraticidade" opera, realmente, como uma instituição conservadora e (de mais de uma maneira) elitista, quanto maias não seja porque aceita apenas impartir conhecimento "autorizado" pelos verdadeiros proprietários do saber--- que são (os...) privados. É verdade que hoje mesmo este paradigma inactivo e, em larguíssima medida, inorgânico de escolicidade pública está posto em causa.

E está posto em causa porque aquela a que poderíamos chamar, seguindo a semântica que temos aqui vindo a propor, de "terceira" burguesia se revela cada vez mais obviamente incapaz de gerir "democraticamente" a integração do saber (e da tecnologia que dele resulta) na História.

Mas isso fica para outro dia...


A "questão monárquica" na 'ordem do dia' (3)


Terceira reflexão sobre o texto de Miguel Real:

Esta terceira reflexão incide de modo específico, sobre a afirmação nele feita de que, na opinião do seu autor, "a evolução da monarquia para a república era inevitável", tendo em conta a atmosfera política da Europa e mesmo fora desta, dos Estados (ditos) Unidos à época.

Pessoalmente, é esta também a minha opinião, sem dúvida. Esta transição institucional (que, em certos casos como o portugês, foi sangrenta e só com muita boa vontade se pode chamar 'transição'...) representa, em última instância, a consagração mais ou menos simbólica ou simbológica de um render-de-guarda social e político, de um render-da-guarda histórico e civilizacional, que foi tendo, praticamente desde a Idade Média, lugar a nível das camadas infrastruturais das sociedades do ocidente, a portuguesa incluída.

É minha opinião, com efeito, que a Revolução Francesa representou um ponto de viragem decisivo num processo de apropriação social e política da propriedade por parte de uma classe---a "burguesia"---que trouxe para a História, realmente, um elemento de modernidade absoluta, ainda hoje decisivo no nosso modo contemporâneo de perceber e representar as relações dos indivíduos (e das sociedades por eles formadas) com a História.

Aquilo que a 'nova' classe traz é a ideia de que, para se aceder à propriedade, é essencial "justificar técnica e politicamente" o "direito" a fazê-lo.

Mais: que a "justificação" política resulta do "argumento" técnico e acha nele um fundamento essencial, determinante. Os regimes políticos modernos todos sem excepção, consagram este princípio teórico básico 'oferecido', como disse, pela "burguesia" à História e às nossas representações modernas dela.

Ou seja, agora a propriedade não se pode apenas ter: é preciso justificar a respectiva posse.

Isto, numa primeira fase, digamos assim: aquela a que eu chamo de 'de preponderância ou de domínio básico da primeira burguesia'. A nossa concepção democrática ainda geralmente vigente de "Escola" (ou, como prefiro dizer, de "escolicidade") vem daqui ainda, isto é, do tempo em que a Educação era vista como um veículo efectivo, real, de democratização do saber o qual era, por seu turno, aquilo de que a burguesia e os burgueses necessitavam vitalmente para justificarem, no plano político, o seu "direito" a participarem na "partilha geral da propriedade", deixada historicamente "vaga" ou "devoluta" pela aristocracia.

...Aristocracia essa cuja capacidade para "explorar eficazmente a realidade" se achava, pois, globalmente perdida. Basta ler Pirandello ("Fu Matia Pascale", por exemplo) ou, por outro exemplo ainda, um livro interessantíssimo de Maria Edgeworth intitulado "Castle Reckrent" para se perceber imediatamente como os caseiros e capatazes, em Itália como na Irlanda, substituem, com toda a naturalidade, a nobreza arruinada (ou, no caso de Pirandello, a uma certa "aristicracia burguesia") completamente incapazes de competirem com ela, burguesia, no projecto de extrair ulteriormente riqueza e valor do real, através de um investimento básico, determinante e nuclear na técnica e, por conseguinte, no saber.

Voltando um pouco atrás, eu diria que o que separa basicamente o "antigo" do "novo" regime é a meu ver, exactamente o modo como cada um deles se relaciona teoricamente com a questão da "propriedade social e política da História": o "antigo" regime (cujo prolongamento natural é a direita política "moderna") acha que à propriedade chega tê-la.

Ou, por outras palavras, que a única forma de (não?) "legitimação" de que a "propriedade da propriedade" necessita é a propriedade (ou a proprietação da realidade) em si mesmas; que a propriedade se "legitima naturalmente" a si mesma pelo simples facto de existir e não (poder sequer) ser questionada como tal (à semelhança---lá está!---do que se passa, no plano das instituições políticas básicas, com a ideia clássica de "sacralidade do poder real").

Para o novo regime (embora de modo cada vez mais "apórico" e teórica e institucionalmente "labiríntico"...) não basta possuir: é preciso ganhar (pelo uso estratégico do conhecimento capaz de re/produzir ulteriormente realidade) o direito a possui-la, primeiro.

A ideia de sufrágio político representa um dos mais evidentes e cultu(r)almente mais relevantes modos de conferir expressão concreta a este princípio básico geral de modernidade social e política.

Ora, que mais evidente forma de "legitimar" a propriedade do poder do que "pô-lo a votos" regularmente?

Quer dizer: a república neste sentido (no sentido de que é preciso sempre argumentar e justificar o poder como forma de gerir a propriedade da História e da própria realidade, em geral) era, de facto, histórica e cultu(r)almente "inevitável".

Há excepções, como a Inglaterra, claro: mas não passam disso mesmo---de claríssimas excepções que, para reutilizar aqui, ainda uma vez, um cliché clássico, apenas confirmam a regra.

A "questão monárquica" na 'ordem do dia' (2)


Outra reflexão suscitada pelo texto abaixo citado de Miguel Real:

Escreve este, a dado passo: "(...) não estou seguro de que a I República tenha valido a pena e estou convicto de quie a prática do assassínio político (Sidónio Pais; a matança de Machado dos Santos e seus companheiros) e a permanente situação de bombismo anarco-sindicalista, nela imperante, derivaram em grande parte do eticamente infame e politicamente suicida assassínio de D. Carlos às mãos de extremistas da Carbonária em 1908".

Ora, eu pessoalmente não duvido de que uma cultura do assassínio político tivesse, a dada altura, apresentado, em diversos pontos do mundo, europeu e não só europeu, tendências históricas para se transformar em extensão 'natural' da intervenção política.

O que é preciso perceber é porquê.

E o porquê reside, a meu ver, por um laso no sólido fechamento das sociedades incapazes (em resultado da sua relação 'de episteme' com a Política de que falo no ponto anterior) de construirem pontes institucionais entre as massas e o poder. De facto, não apenas tais pontres não interessam ao poder como são, inclusivamente, o oposto daquilo que ele quer.

Ou seja: muito claramente (por definição) o poder não pretende ver-se questionado ao ponto de ter de arriscar-se ver mudar o essencial do modo (eu diria: descentral e socialmente injusto) como estão organizadas as relações centrais entre o económico e o político.

A relação in-orgânica, alienada e democraticamente disfuncional que o poder político mantém com as massas (as eleições são, ainda hoje, em úlima instância, vistas claramente por ele como um modo, digamos: cordial e, claro... "democrático", de manter a cidadania confortavelmnte afastada do risco de, de facto, agir politicamente...); essa relação inorgânica e estruturalmente disfuncional , dizia, não é um acidente histórico, social e político.

Pelo contrário: é uma condição, um pressuposto essencial do próprio modelo político!

É, aliás, por isso que, ainda hoje, vemos um primeiro-ministro e um presidente democráticos da República convirem para declarar, aliás com com toda a naturalidade, que não "podemos, como país, arriscar-nos a ver a tal constituição-europeia-com-outro-nome rejeitada em referendum" ou qualquer coisa do mesmo género.

Ou seja, por outras palavras, que a democracia é um risco que não podemos, em caso algum, correr,...

É por isso, também, que temos hoje, em vez de Democracia real, uma "demomorfia instrumental" ou "retrocracia" que nos permite des-votar ciclicamente maus representantes (?) da vontade (??) popular (daí o termo "retrocracia"...) e nos confere, como comunidade, o "direito de escolhermos livremente o nosso próprio... passado", numa paródia amarga da clássica definição de Democracia como a livre escolha do futuro individual e colectivo das sociedades humanas (e daí a expressão "demomorfia"---porque se trata realmente de investir na forma da Democracia para, realmente, negá-la---e "instrumental" porque ela, essa forma geral avulsa e descontextual da Democracia, é na realidade usada como mera alfaia ou instrumento politiforme da infraestrutura económica relativamente à qual o revestimento político da economia deve, essa sim, precisa (ou imprecisamente) tudo fazer, no seu âmbito específico de intervenção, para evitar que mude).

É, de igual modo, por isso, que não existem, ainda hoje, entre nós, numa República com várias décadas de existência, instrumentos verdadeiramente eficazes de controlo e fiscalização democrática em tempo real, persistindo, de forma persistente e contumaz, a figura de um regime de cedência cíclica do poder, em lugar de um outro de cedência igualmente cíclica mas apenas funcional do EXERCÍCIO do poder que é aquilo que permite distinguir realmente a Democracia das formas comuns de "autocracia plebiscitária" que invariavelmente se pretende que confundamos com ela.

É, pois, por isso que não existe entre nós um Tribunal de Execução Política, concebido à imagem do Tribunal de Contas e do próprio Tribunal Constitucional, com poderes efectivamente tribunalícios, onde devessem ser obrigatoriamente depositados os programas políticos dos candidatos a cargos de representação política de modo a serem objecto des penas políticas formais (suspensão temporária ou, eventualmente, definitiva de se voltarem a candidatar) os habituais embusteiros e trapaceiros da cidadania para quem, como ainda há pouco escrevia (e verberava com justíssima indignação António Barreto no "Público") a "cultura" da mentira (também eleitoral) se converteu já (como o assassínio político, noutros tempos...) num instrumento "natural" de intervenção... cívica e política.

Concluindo, pois, este ponto, o que é vital é perceber por que razão as sociedades podem tornar-se politicamente violentas.

E é, a meu ver, vital percebê-lo porque, se conseguirmos minimamente fazê-lo, passa a ser-nos possível compreender toda uma vasta fenomenologia transtemporal e trans-histórica que inclui a Primeira República e o período que imediatamente a antecedeu, no período a que se refere Miguel Real, é verdade, mas, também e de algum modo sobretudo, por exemplo as mais diversas formas de violência religiosa/fundamentalista moderna, um dos mais tenebrosos papões do nosso tempo mas, de igual modo, uma das mais comuns mistificações desse mesmo tempo.


A "questão monárquica" na 'ordem do dia' (1)


Detenho-me, quase por acidente (trata-se de um texto do "D.N", jornal que só por acaso folheio), num texto de Miguel Real ("Regicídio, o Pecado Original da República") inserto na edição do dia 2 de Fevereiro.

Do texto, extraio algumas ideias curiosa que me fornecem o ensejo para meia-dúzia de reflexões pessoais.

Primeira: a ideia de que "é (...) profunda convicção" do autor que "casdo tivesse sobrevivido, adaptada ao tempo europeu" a monarquia "teria igualmente promulgado as leis mais importantes da República (lei da separação Igreja/Estado; lei da laicidade do ensino; da reforma da universidade; lei do divórcio; lei do registo civil; nacionalização de algumas propriedades da Igreja... )".

Ainda que não seja eu próprio historiador como o autor, devo (atrever-me a) dizer que não me restam muitas dúvidas da razão que a este, com outro cabedal de conhecimentos nesta área, assiste, no que se refere a este ponto em concreto.

Penso mesmo que terá sido (é!) esse um dos grandes "pecados" (não sei é se originais: creio que não...) da "República" ou das repúblicas 'dappertutto': o de ter(em) acabado, de modo mais ou menos melancólica e "fatal", fazendo exactamente as mesmas coisas que uma monarquia faria.

Porquê? Devido exactamente a quê?

Pois, a meu ver, devido, desde logo, ao modo, digamos: "significado", como estão invariavelmente (des)estruturadas as sociedades ditas "ocidentais", i.e., rigorosamente "ao contrário" do que seria desejável e natural, com a Política invariavelmente usada na condição ancilar, apócrifa e espúria, de mero "argumento" ou de simples "instrumento indutor e propiciador", ou seja, de simples "revestimento politiforme" (des) estruturalmente funcional" do modelo económico-financeiro-político (o do chamado "capitalismo industrial") encontrado no século XIX e que a "política" está obrigada a "justificar" e a "legitimar social e até cultu(r)almente", sendo essa, aliás, a "missão" histórica que lhe está, básica e primária (que é como quem diz: realmente) cometida.

Dito de outro modo, ainda: achado o paradigma, a "política" foi forçada interiormente a sofrer uma "rotação" completa do seu "património" (mais do que teórico: epistemológico) que fez dela o instrumento destinado, não a mudar as sociedades do tal "Ocidente" sempre que tal, em tese, se impuser e for do interese dos indivíduos como tal, mas, pelo contrário a "explicar" histórica, social, cultu(r)al, política e até civilizacionalmente, por que (supostamente "essencial"!) razão as sociedades "ocidentais" NÃO mudam nem devem, em caso algum, mudar. Achado, piois, o paradigma neo-burguês de exploração económica, a "política" foi chamada a "prender firmemente" a História à Economia mas, sobretudo e mais perverso ainda, a "prender firmemente" essa mesma História a um determinado paradigma económico particular e específico.

Ao poder dito 'político' está entregue a 'missão' real, última (como costumo dizer, recorrendo a um anglicismo que garante, a meu ver, o rigor máximo da expresão: "ultimativa"---em inglês, "ultimate") de zelar para que o modelo inversional que constitui, logo a partir do plano teórico ou teorético, a base mesma da organização das sociedades "ocidentais" se concretize fielmente em cada tempo e em cada História.

Independentemente de se tratar, em termos político-formais (e sublinho, aqui, de um modo muito particular, o termo 'formais'!...) de uma monarquia ou de uma república.

[Na imagem: o rei D. Carlos, numa fotografia original de Octávio Bobone que adquiri, em tempos, na Feira da Ladra de Lisboa]




domingo, 17 de fevereiro de 2008

Eu falei nela, não falei?...


Eu falei na minha Tia Graziela, não falei? Pois, aqui fica uma imagem dela ainda muito nova, na Caparica, com a minha Avó, a minha irmã Rosa Maria e eu próprio.
A propósito da minha Tia, quero ainda recordar uma vez em que, já não sei exactamente porquê, houve um grande "drama" lá em casa, envolvendo-me a mim directamente (imagino que foi de uma vez em que me deram uma fisga e eu me lembrei de "disparar" em todas as direcções por cima do telhado da casa da Rua Palmira tendo acertado em cheio na montra da mercearia do Sr. Teles na qual parti um vidro...)
A minha Mãe ficou zangadíssima, castigou-me et al.
Pois, a minha Tia veio falar comigo, teve uma longa conversa ("de adulto"!...) comigo, explicando-me que o castigo era justíssimo, que a minha Mãe tinha toda a razão para mo aplicar, que eu tinha, claro, de o cumprir (já não me lembro ao certo qual era, para além de ter de ficar fechado umas horas no quarto) e que, se eu reconhecesse a razão que assistia aos meus Pais para me castigarem, se a reconhecesse honesta e conscientemente, no fim de semana iríamos ao "Império" ver "o tal filme" que eu sonhava há muito ver e que era "A Desaparecida" do Ford.
A minha Tia explicou-me que não se tratava de aligeirar o castigo nem muito menos de pô-lo em causa mas que as pessoas, depois de terem pago pelos seus erros, voltam a ter direito a gozar dos mesmíssimos direitos e regalias que tinham antes exactamente porque tinham pago as suas faltas e isso devolvia-lhes em toda a extensão os tais direitos que todos nós temos enquanto pessoas ou, especificamente, enquanto pais e filhos e por aí adiante.
Nunca me esqueci nem do "episódio" nem do filme---e muito menos da lição...
Aliás, eu aprendi muito sobre cidadania com esta minha Tia e com o marido, o meu Tio Jack que, em muitos aspectos era um daqueles ingleses "à antiga" mas no melhor sentido, no sentido da "gentlemanhood" ou dos 'princípios'.
Este meu Tio, sempre que estava em Portugal (o meu Tio Jack era diplomata e vinha a Portugal entre comissões de serviço) dava-me cinco escudos (!!) por dia para "bonecos da bola". Quando os miúdos ficavam felicíssimos se tivessem cinco tostões para comprá-los ter cinco ESCUDOS por dia, era uma coisa autenticamente 'do outro mundo'!...
Pois, um dia, o dono da leitaria onde comprávamos habitualmente os rebuçados com os bonecos vendeu-me um boneco a menos (eram tantos que eu só dei por isso em casa...) e ingenuamente contei ao meu Tio.
Para meu grande desapontamento, no dia seguinte, o Tio Jack (cujo verdadeiro nome era Wilfred e que falava pouco português além de ser---como eu---de uma timidez quase doentia) não parou diante da leitaria para comprar os bonecos.
Eu, claro, não disse nada mas caíu-me o coração aos quando percebi que não íamos entrar.
O meu Tio passou, pois, à frente da loja, andámos pela Rua Maria Andrade, pela Rua do Forno do Tijolo, pela Damasceno Monteiro (o meu Tio passeava todos os dias a pé comigo e com a minha prima Bella uma boa hora ou duas, sempre em silêncio mas sempre com o seu espantoso sorriso de Danny Kaye...) e (qual não é o meu espanto---e a minha alegria!...) quando o vejo parar, sim, mas diante de uma leitaria completamente desconhecida, já no Largo da Graça, dando-me os cinco escudos com a sua frase habitual: "That's for you for your 'bonecos da bola' " (que ele pronunciava, com o seu permanente sorriso tímido, 'banácauze da bâula"...)
Já em casa, eu observei-lhe a medo: "Hoje não parámos no sítio do costume..."
E ele: "No, we didn't. The first man was not honest..."
E eu, na minha candura: "Era só um boneco da bola... Entre tantos..."
Nunca me esqueci da resposta do meu Tio Wilfred: "No, Cató. It's not just a 'banécau'... It is the principle..."
Quantas vezes, desde esse dia, repeti eu já, nas mais diversas circunstâncias, esa mesma frase: "It's the principle"!...
Grande Tio Jack! Que descanse em paz onde quer que esteja com a sua "Grazy"---defendendo, com certeza, ambos um 'princípio' qualquer: ele, sorrindo e abanando continuamente a cabeça de cabelo completamente branco, como sempre (o cabelo embranqueceu-lhe todo, em meia-dúzia de dias, em Dunkerk, na guerra); ela repreendendo-o, (também como sempre!) com a sua ilimitada e ruidosa energia de meridional...

Um cantinho para a Mãe

Um cantinho para Ela, pois!...
A minha Mãe era única---como todas, aliás!...
Só que a minha era única de um modo especial, absolutamente irrepetível.
De um modo---lá está!---único.
Dela herdei uma certa pulsão instante e persistente para a seriedade, o pendor dramático particular que me leva, volta-não-volta, a ser a única de uma quantidade enorme de pessoas a ver o terrível em tudo...
[Há uma personagem fabulosa do Arkadi Avertchenko de que me lembro sempre que penso (e penso muito!...) na minha Mãe.]
Para Ela, como para ele, a Vida era para levar (mesmo!) a sério!
Felizmente, como sou Aquário e um pouco (ou, pelo contrário, um muito?...) louco, os meus sérios não chegam a durar quase nada...
Não duram tanto como os dela, em todo o caso...
Eu adorava a minha Tia Graziela (que era irmã da minha Mãe) porque elas eram entre si o complemento, no fundo, ideal e perfeito uma da outra e, às vezes, eu tinha ambas ao mesmo tempo para me darem à vez os dois lados da vida e da realidade em geral. A minha Tia (que faleceu em Inglaterra, há pouco tempo; que viveu a "blitz" toda em Londres; que teve um filho deficiente profundo---Charles, como eu---e o viu morrer após uma longa agonia, passada quase toda debaixo dos bombardeamentos alemães, entre a casa e o abrigo anti-aéreo, durante a Batalha de Inglaterra; que era assumidamente uma mulher do Sul, uma mediterrânica pequenina e alegre, alentejana dos cinco costados que se viu subitamente exilada na permamente névoa londrina; que viu o primeiro marido, também inglês, o Booth, desaparecer misteriosamente após a guerra, sem que alguma vez se chegasse a saber ao certo que fim teve; diziam uns que era espião inglês, outros que o era dos soviéticos e que fugiu para a U.R.S.S. ou foi preso e morto pela PIDE, ao certo nunca se soube); pois, a minha Tia tinha um riso fabuloso, de vidro ou de cristal, um "riso de erva tenra e de terra húmida" que nunca perdeu, nem quando a doença a atacou traiçoeiramente pelas costas, num país que era, oficialmente, o dela mas que ela nunca aceitou completamente---um riso que às vezes me parece ainda hoje escutar quando penso nela, já viúva do meu Tio Jack, falando seu inglês feito de "erres" e de infindáveis sílabas finais tão opulentas, tão doces, tão... esféricas ou tão cilíndricas e tão alentejanas como ela...
Onde e quando a minha Mãe dramatizava, a minha Tia vinha por trás e resolvia tudo com o seu riso "de prata lavrada" e aquela característica determinação de "velhinha inglesa" típica que nos levava, à minha prima Bella Catalina e a mim, a brincar com ela chamando-lhe "a nossa Miss Marple"...
Mas a minha Mãe não 'era' apenas drama: recordo-me de, um dia, ter chegado a casa para as férias do Natal e julgar ter pousado a pasta da escola, à porta antes de entrar. Estava firmemente persuadido de tê-la trazido da escola e esquecido ali. De início, foi uma tragédia: o meu Pai que era médico-veterinário, era um quadro médio do fascismo (na Junta Nacional dos Produtos Pecuários), vivíamos com dificuldades óbvias (embora seja justo dizer que, em termos comparativos, éramos autenticamente privilegiados) e perder uma pasta, livros da escola, lápis, canetas e tudo o mais era realmente "complicado"...
Pois, como disse, inicialmente a minha Mãe ficou zangadíssima, verberou a minha distracção, chorou (e fez-me chorar a mim...) mas com a sua fabulosa intuição e a sua imensa, infinita sensibilidade, acabou conseguindo fazer do que a mim, pessoalmente, se me afigurava uma tragédia iabsolutamente irreparável, um inesquecível ensejo para nos tornar ainda mais cúmplices um do outro e para eu perceber o quanto podia custar à mulher de um pequeno quadro do fascismo "governar", como ela dizia, uma família inteira...
Por acaso, distraído como sou, tinha deixado a pasta no colégio (o "Académico", da Rua Álvaro Coutinho que eles, os meus Pais, se viam "em palpos de aranha" para pagar...) e, assim, para além do maravilhoso ensejo que o incidente nos deu de nos aproximarmos mais ainda, tive a grata surpresa de ver o "drama" resolver-se por si só e a lição de que devia ter mais cuidado com as coisas "que tantas coisas temos de deixar para trás para as podermos comprar" saldar-se, afinal, por um preço bem menor do que havia inicialmente temido...
A minha Mãe tinha uns olhos imensamente fundos e tristes que nos liam dentro.
Ainda hoje, olho para o retrato prodigiosamente triste e sério daquela mulher extraordinária que não teve dúvidas em casar com um negro no Portugal provinciano e acanhado da década dos anos 40 e sinto uma incrível dificuldade para perdoar à Vida o não ter sabido conservar consigo (e connosco!) aquela que era o ser mais belo e mais imenso de um universo que não sabe o que perdeu levando-ma quando, com quinze anos, eu tinha ainda tantas coisas para lhe mostrar e lhe dizer!...

A minha "catalónica" paixão...


A minha 'catalónica' (melhor dizendo: a minha "gaudiesca") paixão ter-se-á definitivamente consolidado quando, no início da década de '70, eu e a Hermínia "demos o salto" para a Bélgica com (impensável!...) escala em Barcelona.
Ainda hoje estou para saber que bicho me terá mordido para conceber uma viagem daquelas de Sta. Cruz de Benfica ou da Buraca ou lá onde era aquilo onde então morávamos então a Ixelles, em plena "agglomération bruxelloise", dividindo-a em etapas que contemplavam uma escala em Madrid e uma segunda (verdadeiramente extraordinária, como disse!) em Barcelona, antes de tentarmos o "assalto" à fronteira...
Seja como for, foi assim que as coisas se passaram: viajámos uma noite inteira de Badajoz a Madrid-Chamartin ou a Madrid-Atocha, já não me lembro e outra, a seguir, daí a Barcelona.
O pior é que eu não tinha papéis (deixei caducar o B.I. e não me dei ao trabalho de renová-lo) e se fosse apanhado pela polícia, era regresso certo a Portugal, entrega à P.M. e o resto que não é difícil adivinhar...
Até porque, quando saímos (mais de uma semana depois do dia em que devia apresentar-me em Mafra), eu já tinha provavelmente um mandato de captura emitido pelo exército...
Assim, era vital não 'dar nas vistas' onde quer que chegasse não fosse algum guarda civil mais astuto pedir-me os papéis---que não tinha.
Ora, em Barcelona, onde chegámos ao fim do dia, a ideia de irmos para um hotel ou pensão estava fora de questão por esse mesmo motivo. O resultado foi uma noite inteirinha (!!) a andar de um lado para o outro, procurando sempre cinemas (de onde saísse gente no meio da qual pudéssemos passar despercebidos...); cafés com esplanadas onde era possível passar umas horas a tomar café (embora fosse em Janeiro e a dada altura se pusesse um frio de rachar e nas esplanadas só os imensamente tolos como nós imaginassem poder passar despercebidos...) e por aí fora.
O pior foi quando os cinemas e os cafés fecharam e as ruas ficaram desertas...
Andámos, andámos e andámos.
Eu creio que até chegámos a adormecer enquanto andávamos porque a dado passo já nem me lembro de fazer qualquer esforço para andar, as pernas mexiam-se sozinhas e eu em cima delas devia simplesmente segui-las, sempre a oscilar...
Entre para aí as três e as cinco da manhã foram as pernas que tomaram conta do "passeio" e lhe decidiram, como num pesadelo interminável, a rota.
Sucede que quando... acordámos, lá pelas cinco nos achámos, de repente, diante da fabulosa "Pedrera" gaudiana. Estávamos tão inimaginavelmente cansados que quando sugeri à Hermínia que se colasse o mais possível à parede e olhasse para cima para ver a fabulosa fachada "mexer-se" e "ondular", fomos ambos atacados de um "mareo" tão forte que instintivamente nos acocorámos ambos, como se estivéssemos combinados, junto à parede para não vomitarmos!...
Entretanto, claro, já há muito "perdoei" ao génio do Gaudì (que "conheci" nas aulas de História de Arte, dadas em Letras pelo Pais de Sousa, um tipo gélido e imensamente germânico que dava, à época, a cadeira...) e, com o tempo, a paixão que pela sua espantosamente inquietante Obra nutria, reforçou-se mesmo com o conhecimento directo que fui travando com ela de Astorga (onde foi, aliás, tirada a foto acima) até, claro, Barcelona e arredores, da orgânica Batllò a essa "lunar" Sagrada Família e desta ao prodigiosamente visceroso Parc Güell.
Mais: com a idade e a distância no tempo, a paixão misturou-se de forma literalmente indissolúvel com a nostalgia (assim como com outras paixões como a que me despertam, por exemplo, Gris e Miró) e constitui, hoje-por-hoje, algo que coloco (quase?) exactamente a par do deleitosíssimo fascínio que não consigo (nem quero, claro!) deixar de sentir por um Tati (e pelo seu Paris que foi e é também o de Prévert, o de Clair, o de Renoir e o meu próprio) ou por um Buñuel (cujo Paris não é, de resto, nada de "se deitar fora" também, longe disso)...

Eu em Santiago de Compostela

Mau grado as minhas irrecusáveis e bem conhecidas (bem conhecidas de mim próprio, entenda-se...) 'pulsões profanatórias' (que me levam, por exemplo, a gostar de Buñuel, de Cronenberg, de Ferreri/Bukowski---os "Contos da Loucura Normal"---ou de Lynch/Burroughs, por exemplo---não de Henry Miller, Miller era excessivamente americano, isto é, esquemático, suposto e linear---blenorrágico---para o meu gosto...); mas mau grado as tais pulsões, dizia, possuo, paradoxalmente, uma costela extáctica e (talvez?) instintivamente adorativa que me leva a ceder a fraquezas como esta de viajar até Santiago e (mais grave ainda!) de sonhar (com cada vez menos convicção mas enfim...) "fazer" um dia "o Caminho".
Mas não um Caminho qualquer: o Caminho francês, percorrendo as "est(r)elas" todas de Lizarra às diversas Estrellas e por aí fora.
Ora, o que há de curioso com este tipo de pulsão é que elas, as pulsões deste tipo num... tipo como eu, em geral não têm qualquer sentido específico reconhecível, se assim posso dizer. Isto é, a gente tem-nas mas não as consegue, em última instância, integrar no todo remotamente "orgânico" que é suposto sermos.
Ou melhor, talvez seja possível mas apenas por absurdo; e talvez seja possível porque elas são capazes de fornecer, afinal, bem vistas as coisas, ao tal todo hipotético que gostaríamos de ser o cimento da contradição de que tipos como eu necessitam como do pão para a boca para se conservarem minimamente íntegros e (não sei se é possível dizer assim:) íntegros e razoavelmente unânimes...
Íntegros e razoavelmente unânimes consigo mesmos.
Whatever that means...
"Consigo", quero eu dizer: whatever "self" means e assim.
A contradição, o paradoxo despertam-nos, espicaçam-nos, impelem-nos a questionar-nos: questionam-nos. Um tipo até é capaz de fingir crer que existe se o espicaçam, não é?
O chato é quando um fulano é "todo ele", por assim dizer: o mesmo de manhã à noite.
Sem intervalos.
Sem frinchas.
Não! Como dizia o "outro", a constância é um erro que não cometo e a identidade vício a que não me posso permitir...
Aqui estou eu, pois, no Obradoiro, feito peregrino de uma coisa em que não creio, sem sequer fingir com muita arte fazê-lo.
Imagine-se que até as mãos no buraco à entrada meti!
Ah! A "máquina do Eu" é uma coisa bem estranha e complexa, ai isso é!...

Mas comprei livros num ferro-velho à saída, pronto!...






Ridendo ou a beleza da inteligência ...

Eis uma espécie de re-sátira política onde o espírito e a técnica da colagem se revelam particularmente úteis no sentido da obtenção de significado adicional do que (em muitas circunstâncias, como é claramente o caso presente) na origem já era ironia e crítica.
A cara é de um funcionário público conhecido, reconstruída em pasta ou papier mâché ou qualquer coisa do género para um Carnaval qualquer, desses muitos que proliferam por todo o país numa certa época do ano---funcionando como uma espécie de eco pobretanas e não-raro confrangedoramente boçal, do que o subdesenvolvimento e a pura imbecilidade (operando como uma espécie de devastador ou mortal afrodisíaco...) fazem, apesar de tudo com outra imediata grandeza , no Brasil ou no Haiti...
O fato, porém (que podia ser o de um qualquer Don Corleone do filme de Coppola e/ou do livro de Mario Puzo) assim como o rosto (surgindo aqui, para além de subtilmente desproporcionado, como se feito de barro ou lama) trazem para a ironia original uma mais-valia de sarcasmo agreste e selvagem (assassino...) que a menção à "beleza", do lado esquerdo da imagem potencia ainda mais.
A colagem é isto, na sua essência: a multiplicação e o cruzamento dinâmico de registos mais ou menos subliminares, interpotenciando-se até ao limite teórico (im?) possível.
A colagem é (repito aqui o que escrevi algures) "o real comentando-se a si próprio", uma espécie de subtilíssima e letal inteligência, ínsita e final---ou definitiva!---da Estética.

O Jogador de Xadrez


É o meu 'papel colado' mais recente.
Por detrás dele (descubro-o a posteriori) a mesma sugestão implícita de sempre: a máscara ou máscaras do real , o mistério, a resistência da matéria ao olhar, a "timidez ôntica" do(s) ser(es) em geral, a impossibilidade última (ou 'ultimativa', "ultimate") de conhecer: um "Deus" impenetrável jogando xadrez com o(s) destino(s) de todos nós?...
[Não sei porquê, sou surpreendido por "qualquer coisa" de, a um tempo, hitchcockiano e orson-wellsiano, nesta imagem. Não sei porquê, repito, sempre que olho para ela, vêm-me invariavelmente ao espírito dois filmes, um de Hitch e outro de Wells, em especial: "Mentira" de Hitch---talvez por aquela "coisa" do jogo de xadrez e do preto e branco; da sugestão de universo lúdico e simultaneamente de sombrio e ameaçador---de pesadelo; e "O Estrangeiro" de Wells---mas este último, por muito que tente, não consigo entender por que exacto motivo ou razão, embora admita que a máscara me sugere, a mim pessoalmente, o rosto sempre um pouco artificial ou teatralmente severo de Wells jovem]

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Por hoje é tudo...


Termino por hoje, republicando (agora que aprendi a ampliar imagens para este "Diário") uma colagem minha de que gosto especialmente: "Mask", a minha "resposta" aos pesadelos plásticos de um artista que aprecio de um modo muito particular, H.R. Giger, que é, diria eu, uma espécie de equivalente (ou, pelo menos, parente) visual de Beckett e um exemplificador no seu campo particular de expressão daquilo que, a propósito justamente do criador de Godor designo por "transrealismo fenomenológico" ou "disrealismo ontológico", dois termos (e, sobretudo, dois conceitos) a que seguramentye regressarei neste "Diário".

Bruxelas e a STIB

Meu Deus! As horas que eu passei aos comandos de uma "coisa" destas!...
Este exemplar estará a passar na Porte de Schkaerbeek e é uma "sete mil e quinhentos".
Por muito que, na altura, me tenha custado conduzir estes "objectos" (terei, já agora, por curiosidade, conduzido exactamente este?...), não consigo olhar para um deles sem sentir imediatamente uma tremenda nostalgia---não exactamente deles mas do tempo em que os guiei e de algumas das circunstâncias que rodearam o tê-los guiado.
É como quando ouço, ainda hoje, nomes como Montparnasse, Pernety, Porte de Vanves ou Impasse Dombasle em Paris e me vêem, de imediato, à lembrança (aliás, com uma emoção indescritível; literalmente com um arrepio de comovida excitação!) os meus quasi-adolescentes deslumbramentos de portuguesinho saído "de fresco" da indescritivelmente campónia Lisboínha do salazar-marcelismo que, de súbito, se sente, por instantes, dono de si mesmo à sombra da Torre Eiffell e de uma série absolutamente deslumbrante de outras coisas que, de um dia para o outro, passaram da completa neutralidade do papel onde estavam escritas para a emocionante realidade do dia-a-dia!
Isso, em França; já de Bruxelas, guardo uma memória bem mais baça e descolorida, mais solene e com raríssimos instantes de verdadeira excitação.
É a memória dos solenes e invariavelmente rústicos "controleiros" flamengos ou dos astutos francófonos fatalmente situados "in high places", dando ordens.
...Das trafulhices dos Coumonds (que me convenceram de que ia ser tradutor/intérprete no 'Mayfair', onde, afinal, me esperavam como... paquete e auxiliar do porteiro!...)
...Das madrugadas gélidas no celebérrimo edifício da C.E.E. junto ao Cinquentenário, junto das Fatmas e das companheiras marroquinas, esfregando o chão do piso não-sei-quantos com um líquido amarelo qualquer que ainda hoje estou para saber o que era...
...Dos terrores do Moreira, apavorado por umas visitas portuguesas terem feito barulho na rua depois das 10 da noite (!)
...Das noites "lunares" naquele indescritível deserto que era a Porte de Namur a essa hora...
...Dos sinistros 'bistrots' nocturnos de Bruxelas que eram a (tenebrosa!) antítese dos parisienses.
...Das lágrimas incontidas na casa de banho da Liliane quando topei com as vistas do Tejo na parede
Apenas coisas más, então?
Não diria tanto mas ainda hoje tenho presente o espantoso, imenso alívio que senti quando voltei...

A propósito d' "A Boba" de Maria Estela Guedes


Começo por uma (franquíssima!) admissão: não resisto a uma boa, bem concebida, bem estruturada e, sobretudo, bem dirigida transgressão!
Grandes, belíssimas, provavelmente insuperáveis trangressões (ou mesmo "educadíssimas, disciplinadíssimas profanações"!) são, por exemplo, "Belle de Jour" ou "Tristana" de Buñuel, indiscutivelmente dois dos meus filmes "de cabeceira".
Incomparavelmente menos bem conseguida mas, ainda assim, interessante é "Malpertuis" de Harry Kümel, uma fábula sobre a morte dos deuses mas, sobretudo, sobre a desgraça histórica, social, cultu(r)al e política que foi a "tomada integral do poder" pela burguesia, no Ocidente.
É preciso dizer que (do meu ponto de vista pessoal, pelo menos) essa "prise" burguesa "du pouvoir" (que começou, de resto, por constituir um fenómeno económica, social, política e até, noutro plano, epistemologicamente revolucionário) em breve se degradaria e inflectiria drasticamente (uma vez, "caçada" pela "camada" superior da nova classe a "propriedade da propriedade" histórica e política à aristocracia deposta...) culminando todo o processo nesse momento absolutamente chave no trajecto global para a imposição formal da nova ordem que foram o fascismo em Itália e o nazismo, na Alemanha.
Quando, com efeito, efectiva mas também simbolicamente, o rei de Itália chama Mussolini a chefiar o governo ou, na Alemanha, von Hindenburg entrega a um Hitler já com parte da sua truculenta aura inicial meio desgastada o poder, aquilo que ambos (sobretudo, o primeiro, por razões óbvias) estão, de facto, a fazer é a assinar a rendição, como disse, simbólica final, da velha ordem aristocrática e a a homologar ou a consagrar (a com-sagrar...) a respectiva substitução formal por aquela classe que, resolvidos alguns conflitos e contradições internos com os respectivos aliados de ocasião---o povo) emergira triunfante da Revolução Francesa.
O nazismo e o fascismo foram, a meu ver, a tentativa natural por parte da classe vencedora de, uma vez imposto na base o "paradigma producional" capitalista industrial, encontrar, na superestrutura institucional, o preciso e exacto correspondente político que fizesse todo o sistema assim constituído funcionar sem 'intervalos' ou 'interrupções': sem soluções de continuidade institucional mas também cultu(r)al além de, claro, política.
Fritz Lang em "M...", outro filme absolutamente definitivo ao lado dos que já citei, discorre, com uma eloquência verdadeiramente prodigiosa, sobre os efeitos práticos, objectivos, objectuais e materiais, dessa tentativa, reportando-os tão contínua quanto dolorosamente ao quotidiano concreto dos indivíduos.
Quanto à "democracia" moderna, ela mais não é, por outro lado, na realidade, do que a admissão por parte do sistema da sua própria impossibilidade estrutural (em si mesmo, o capitalismo é uma "perfeita" e "perfeitamente paradigmática" 'falácia de composição': um exemplo "perfeito", se os há, da figura em causa!); impossibilidade (des) estrutural essa que o leva, ao capitalismo político, a ter continuamente de recorrer ao "enxerto" sobre si mesmo de "quantidades significadas" de "ar" (instrumentalmente!) político (ou, se assim se preferir dizer: de formas funcionais "estratégicas" de "liberdade" trazidas de fora de si) a fim de seguir possibilitando-se continuamente no concreto da própria História e da Política modernas.
Ou seja, ela emerge na História quando o sistema percebe que o projecto inicial de "fechar" a política por completo "em cima da" economia e especificamente do modelo económico capitalista industrial típico, eliminando por completo os espaços e as frinchas entre o económico-financeiro e o político apenas serviria para pôr generalizadamente em evidência a tal impossibilidade (des) estrutural de que atrás falava.
É por isso que, no "ocidente" pós-fascista, no mundo pós-'45, "economia" e "democracia" apenas raramente se encontram--e mais raramente ainda coincidem realmente: em regra, permanecem sempre impendentemente alheias ou alienadas entre si---exactamente porque o sistema não é orgânico mas são im/puramente instrumentais e funcionais os paradigmas mais estáveis e típicos de relacionalidade entre ambas.
É por isso também que o papel da Arte e dos Artistas na organização da dissensão insurreição se é, em qualquer caso, sempre desejável e necessária, o é ainda mais neste nosso inorgânico tempo de economocracia ainda e sempre (mal) disfarçada de "política".
E é por isso que eu admiro e cultivo (ou tento consistentemente cultivar!) a discrepância e a dissidência como modo ou modos (dialécticos e sempre premeditados) de vida, por assim dizer.
"A Boba" de Maria Estela Guedes (com quem compartilho, além do mais, uma espécie de visceral interesse pela beckettianíssima obra de Herberto Helder, indiscutivelmente o maior poeta português vivo) cativou-me, dentro deste espírito de "educada transgressão" porque traz para o Teatro, de uma vez só, inteligência e bom gosto literário, dissídio e qualidade, Groucho Marx e Ralph Ellison, misturando ambos numa "coisa narrativa" extremamente excitante e sempre provocatória.
Traz Ralph Ellison, o grande escritor negro, na tragédia da dilacerante "objectuicidade" e trágica "invisibilidade" sexual da Mulher 'boba' como metáfora da des-integração existencial total: de Ellison o fenómeno "vem" (como dizer?) significadamente "transgenitalizado" ("Women are the niggers of the world", dizia Lennon) para a obra de Estela Guedes; já de Groucho vem o sarcasmo arrasador, a dor e o ressentimento (o explosivo potencial neurótico?) sob a forma caprichosa e cintilante do mais brutal escárnio assim como da mais revolucionária zombaria.

Do capitalismo enquanto gigantesco embuste global: um (para não variar: mau!) exemplo


Não gostaria, com toda a sinceridade, de fazer desta "entrada" no "Diário" aqui presente, um panfleto---longe disso.
A verdade, porém, é que é praticamente impossível não constatar, hoje-por-hoje, o modo como um número, no mínimo, muito considerável de ficções e de mitos largamente difundidos em matéria de História (e de Política!) contemporâneas envolve directamente o capitalismo: o capitalismo em sentido lato, o capitalismo como... "cultura" ou "residuação cultu(r)al inerte" de si mesmo, digamos assim.
Uma dessas ficções ou embustes prende-se, de modo estrutural, com a proposta de "dispensa técnica natural do Estado" propugnada, no plano (chamemos-lhe: pura---ou im-puramente?---"teórico") pela, poderíamos dizer: "esmagadora... totalidade" dos ideólogos do capitalismo hard core, muito em particular pelos da respectiva "versão" neo-liberal radical pós-moderna, correntemente em vigência entre nós em modelo "neo-reformador" e "social".
Sobre este aspecto particularmente falacioso e sofístico da Teórica da "civilização capitalista" envolvendo as (más) relações entre a "economia" e o Estado me debruço noutro ponto, pelo que me dispenso aqui de abordar esse aspecto (aliás, essencial) da questão.
Ocupo-me, agora, aqui, isso sim, de um aspecto distinto da questão, envolvendo esse tão estúpida quanto falaz ficção da "auto-suficiência absoluta da economia", uma "ideia tão cara (e tão... central, tão "de in/essência"!) relativamente àquela Teórica, em geral.
Fornece-me o ensejo imediato para essa reflexão a recente contratação por um clube desportivo (por acaso, o "meu"...) de um novo profissional para o respectivo plantel futebolístico, o avançado Ariza Makukula.
Supostamente, o essencial da Prática como da Teórica capitalistas assenta na livre troca ou na livre contratação entre não menos livres partes. No limite, advogam os ideólogos da "coisa", um Estado só serve para ajudar a consumar ou a consbstanciar este princípio nuclear e (quase?) autónomo, (quase?) auto-suficiente. Quanto à referida contratação sobre a qual tudo deve assentar, ela é (e permanece idealmente, ao longo de todo o processo) livre porque livrementre assumida e praticada, digamos assim.
Ou seja, dela todos "beneficiam" ou se sentem beneficiados no sentido exacto ao menos em que ninguém é compelido a contratar---ou a contratar-se.
Quando, porém, observamos o que se passa no futebol dito profissional, a falsidade de tudo isto fica imediatamente evidente.
Durante décadas de "economia" facista, vigorou entre nós uma figura legal caracteristicamente iníqua e desigual correntemente chamada "lei da opção" que conferia literalmener a "propriedade" dos jogadores aos clubes.
Após o 25 de Abril uma das primeiríssimas medidas tomadas pelo poder revolucionário foi a de acabar de vez com tão brutal mascarada jurídico-contratual, substituindo-a pelo princípio das livre contratação entre partes, sendo o princípio teórico subentendido o de que, se era preciso "ser capitalista" ao menos que se fosse com um mínimo de (efectivas) liberdade e justiça.
Não tardou muito, porém, até que a "restauração contrarrevolucionária" triunfante em Novembro de '75 pudesse reinventar formas ulteriores de sobre-exploração da mão-de-obra competitiva, engendrando uma leghislação transnacional de "protecção à formação" que lhe permitia gerar contínuas ultra-valias, ultra-valias "em cascata" através do expediente ("legalíssimo!) de sobre-contratualizar os serviços prestados pelos profissionais.
Recorda-nos agora, com efeito, o Diário de Notícias que as verbas da transferência de Ariza Makukula para o Sport Lisboa e Benfica vão gerar uma "cascata retroactiva" de benefícios que se estendem a todo o conjunto de clubes que... "formaram" o jogador.
A (eu diria:) a pouca vergonha da re/venda múltipla a retalho de um ser humano vai ao ponto de as verbas geradas na escandalosa manigância que é o reembolso de... coisa nenhuma prestado aos clubes "formadores" se estenderem além fronteiras (até França e Espanha) envolvendo inclusive um tal Brito Sport Clube (?) que não haverá nove pessoas... e meia em dez que sonhem sequer o que tal seja...
Quer dizer: em condições de lisura e honestidade contratual, um jogador rende aquilo que cada estádio de evolução do respectivo património pessoal técnico-competitivo permite, recebendo dele cada clube os benefícios competitivos que cada um dios estádios da referida evolução é capaz. Um clube "forma" um jogador? Pois, mas forma-o para quê? Para que o jogador jogue por esse clube. Para isso, treina-o o põe-no a jogar quando acha que ele está em condições de fazê-lo. E paga-lhe o que consideram ambos. jogador e clube, que o rendimento do jogador em causa merece. Durante um eterimnado período de tempo, o clube em causa pode permitir-se adquirir o "produto" competitivo em causa. A referida "formação" é apenas o conjunto de dispositivos técnicos de quie o clube se serve para utilizar convenientemente o jogador.
Utiliza esse conjunto de técnicas específicas (em treinos, etc.) em (natural) benefício dos seus próprios objectivos competitivos, nem mais, nem menos.
A isto não pode chamar-se legitimamente "formação", diria eu.
Pode (e deve!) sim, chamar-se-lhe, sim, a natural rentabilização de um activo competitivo a uma deteriminada escala. Um clube não é o Estado---que deve, esse sim, fornecer um serviço educacional. Um clube não "forma": valoriza, como disse, um activo.
A partir de um certo nível ou grau de crescimento técnico de um jogador, o rendimento do mesmo atinge em determinados casos um tal ponto que dita, por sua vez, um "valor de mercado" que passa a situar já fora do alcance das possibilidades económico-financeiras do clube em causa.
E naturalmente entram em cena outros intervenientes mais poderosos. É o "mercado".
O primeiro clube "formou"? Não! Comprou ou contratou o único "produto competitivo" a que podia aspirar, enquanto pôde aspirar a ele.
Pagou por ele o preço que podia pagar e teve o retorno competitivo que o "produto" em causa podia fornecer na altura.
Ou seja, trocaram-se serviços teórica ou convencionalmente equivalentes entre si por um preço entendido como "certo" e "justo" pelas partes em presença como sendo o "valor" dos mesmos serviços.
Cumprido, porém, o ciclo deve iniciar-se outro, o seguinte, com novos intervenientes de um dos lados, dado que o "produto" ou "serviço" em causa é agora entendido de forma objectiva como sendo outro substantivamente distinto.
Enquanto... "formou", o... "formador" não deixou de ter o retorno "justo" do seu investimento na preparação do jogador. Conservar sobre o jogador/produto em causa qualquer poder sobre- ou meta- ou ultra-contratual é imoral, ilegítimo e jurídico-democraticamente insustentável. Um profissional não é um caça níqueis imoralmente permanente: é alguém que "vende" um serviço por um preço. Prestado o serviço em causa, a relação contratual livremente assumida deve de imediato cessar de gerar lucros numa direcção e num sentido que se acham real e integralmente cuumpridos---e pagos.
O clube "formou" e tem, por isso, legítimo direito a uma compensação?
Então e nos casos em que a evolução do jogador em causa não deu para tornar o referido jogador numa "mina de ouro": deve o jogador em causa exigir legitimamenter ser ressarcido do fracasso da "formação" em causa, alegando, desde logo, que o formador "falhou" e não cumpriu a sua parte do acordo?
Uma Direito democrático não pode apenas valorizar positivamente a figura real ou não da formação concebendo ou aceitando um valor autónomo, tipificado, para ela: tem de simetricamente valorizar negativamente a não-formação, estipulando, para ser realmente justo, valores negativos, valores de indemnização para os casos em que o processo não siga o referido percurso triunfante ou ascensional.
O embuste de que falo no título reside exactamente aí.
(Uma nota final para a fotografia que encima esta "entrada" e que é, realmente, notável. De autor---para mim---desconhecido, a ela presto, quanto mais não sejka através do recurso de republicá-la aqui, as minhas tão sinceras quanto vibrantes homenagens).