terça-feira, 31 de agosto de 2010

"«The Quatermass Experiment», de Val Guest [1955]"


A primeira coisa que impressiona no filme de Guest é, para além da evidente economia de meios técnicos utilizados [algo que "grita", a cada momento, "Televisão!" ao mesmo tempo que vai---num tom, aliás, em tudo semelhante---denunciando a "origem Hammer" do filme...] a, mau grado isso, extrema sobriedade e a assinalável eficácia global da narração.

É, de resto, esse um dos atributos mais notórios [e mais positivos!] que a Guest [e, muito em particular, ao argumentista Nigel Kneale] são mais comummente reconhecidos pela crítica e pelos historiadores: o modo como lograram renovar a teatralidade da linguagem televisiva [houve quem, a propósito do "genre" onde este "The Quatermass Experience" devia, por isso, supostamente ser integrado, tivesse utilizado a expressão "docudrama"] desde logo---um pouco "à Orson Wells" mas recorrendo a mecanismos de referenciação cultural subconsciente incomparavelmente mais subtis e apenas aparentemente "inocentes"---com, por exemplo, a "citação" das obras, à época ainda muito recentes, introduzidas pelo governo inglês na abadia de Westminster para a coroação da rainha Isabel, algo que trazia óbvia---e muito astuciosamente, repito---a problemática da "invasão" sobre a qual o filme gira para o centro do imaginário colectivo mais possivelmente inglês, jogando aí com terrores muito profundamente enraizados [a 5ª coluna, a blitz, os bombardeamentos sobre Londres como parte do projecto de invasão da Grâ-Bretanha nos anos 40 do século passado] muito aptos a "significarem" ulteriormente, de um modo ou de outro, todas as várias leituras que, como adiante se verá, do filme pudessem [e continuem a poder] ser feitas.

Apesar desta matriz inglesa muito clara, a produção recorreu a dois actores norte-americanos [Margia Dean, de resto, dobrada, no filme e Brian Donlevy] dos quais este último não seria exactamente bem-amado pela crítica [havia uma reputação de consumidor excessivo de álcool que a ele andava consistentemente associada] nem, aliás, pelo próprio argumentista que terá considerado a interpretação que Donlevy faz da personagem do professor Quatermass demasiado rígida, pouco flexível e pouco expressiva ["wooden" é um dos termos utilizados para descrever a sua actuação e especificamente o seu rosto].

Devo dizer que, pessoalmente, discordo das [no mínimo...] fortíssimas reservas de Kneale relativamente ao trabalho de Donlevy: entendo mesmo que, para além de ter sido [não apenas o filme como a série da BBC onde ele se origina e de que curiosamente restam apenas dois episódios] um marco nas "estórias de invasão" ["take-over tales"] e um antepassado ilustríssimo de filmes, hoje-por-hoje, de culto no "genre" como, por exemplo, "The Invasion of the Body-Snatchers" de Philip Kaufmann ou mesmo a famosíssima série "Alien", hoje-por-hoje incomparavelmente mais conhecidos, apreciados e citados]; discordando de Kneale, devo dizer, pois, que considero que há um outro interesse e uma outra originalidade possíveis no conteúdo, chamemos-lhe: latente, do filme de Guest e que se prende---justamente devido à forma cortante e intratável como Donlevy aborda a personagem de 'Quatermass'--- com o que parece ser a crítica a uma visão excessivamente tecnocrática e desumanizada da tecnologia, uma apocalíptica versão histórica da qual estava ainda tragicamente "fresca" na sociedade britânica [e não só...]---ela, 'versão', que havia, nas duas décadas imediatamente anteriores, conduzido o mundo a algumas das mais tenebrosas manifestações de selvajaria organizada, com recurso à técnica, culminando numa catástrofe literalmente à escala global, como foram o nazismo e a II Guerra Mundial com ele e, sobretudo, por ele trazidos...

É, no fundo, o velhíssimo mas sempre novo tema de Prometeu ou Ícaro retomado aqui num argumento onde tudo gira em torno de um cientista não exactamente louco, como é "da praxe", mas sem dúvida obsecado com os aspectos quase exclusivamente técnicos do seu ofício e, por conseguinte, em última instância, o "vilão" do filme---algo que a postura e, de um modo geral, a abordagem que Donlevy faz de Quatermass, nesse caso, serviria às mil maravilhas [1] .

E, se é verdade, que "The Invasion of the Body Snatchers" "é", como muita crítica tem por explícita ou implicitamente assegurado, "Rhinocéros" de Ionesco "explicado ao público de um cinema de bairro" e que "Rhinocéros", por sua vez, "nada mais é" do que uma sardónica "ópera bufa" teatral [um singularíssimo "zoopic", uma "fábula", na realidade] sobre o nazismo, parece-me, em certos momentos do filme, difícil não ver esse mesmo temário aqui plasmado pelo que os momentos finais do filme [esse famoso "Well, back the old drawing board!..." que aqui fica muito claro nas palavras finais de 'Quatermass'...] podem, afinal, ter uma outra leitura bem mais inquietante e mais, de resto, em consonância não só com o princípio envolvendo a ideia de dar continuidade à série [o que viria, de resto, a acontecer] mas, sobretudo, com um certo modo de acabar os filmes, especialmento os ditos "de terror" [Nigel Kneale não gostava do neologismo "sci-fi"...] deixando deliberadamente 'no ar' a sugestão-ameaça de um recomeço...

No que respeita aos efeitos especiais, o filme aparece, visto hoje, como comovedoramente rudimentar e cativantemente 'cru', no sentido anglo-saxónico do termo "crude": se a nave espacial das sequências iniciais é "pura televisão", o "monstro" [de facto, feito de luvas cobertas de pequenas plantas, accionadas pelo próprio Neale diante de uma ampliação fotográfica da catedral de Westminster] é francamente pouco convincente---e isto, para ser generoso...

Seja como for, a dinâmica narrativa de "The Quatermass..." é de tal forma envolvente e o tipo de problema que directa ou indirectamente suscita e traz à reflexão do espectador de tal maneira relevante que até isso acaba por passar para um plano, de alguma forma, secundário, relativizado, repito, pelo modo dinâmico, assinalaverlmente consistente e sempre muito sóbrio como a acção está construída, constituindo "The Quatermass Experiment", sem dúvida, um série B respeitabilíssimo que, se não envergonha quem o vê, não lança [longe disso!] tão pouco o opróbrio cinematográfico sobre quem o concebeu...

Era, suponho, Godard que dizia qualquer coisa como ser impossível amar um filme perfeito, privilégio reservado aos que o não são---o que sem dúvida qualifica, desde logo, "The Quatermass Experiment" [à frente de um número considerável de outros, aliás, às vezes, "com muito mais pano na carapuça" da fama] para tanto junto de muitos devotados cinéfilos como sem qualquer hesitação, rebuço ou reserva, admite humildemente ser, antes de mais e acima de tudo, o autor destas linhas...

NOTA

[1] A título de curiosidade [ou talvez não...] registe-se que Raymond Cartier, que colaborou com Kneale em diversas produções para além deste "The Quatermass Experiment" [incluindo uma adaptação de "Nineteen-Eighty Four" a partir da famosíssima obra de Orwell] era refugiado do nazismo, tendo emigrado ainda nos anos '30 para Inglaterra.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"North By Northwest: Kafka Grand Bazar..."

Hitchcock, o "Kafka das grandes superfícies" ou "Joseph K. matinée das seis"...

"Espólio" [Texto em construção]


Conheço bem o som da sombra
levedando
a árvore aberta do vento
vagueando
a velocidade de cada nome
tecendo vigílias
vigiando
a cólera do tempo
levantando a arquitectura empalidecida da tristeza
num único e poderoso remoínho de
espáduas e de
espantos
incubando

a artéria espessa da luz fremindo de beleza
e altitude
a língua pensando
bombeando a sua própria incocência
para a cabeça que estremece de sombra
e de memórias
molhando de branco e azul a tarde inteira que
quer ser jardim ou canteiro
e clama também a sua inocência

pouco mais

a península da desordem
gritando a ave lépida da infecundidade respondendo
a sombra como uma lepra massacrado continuamente a tarde
e o próprio sal girando na água onde lhe nascem os silvos
a matemática dos vícios
e o vento como uma espuma que sangrasse o seu próprio movimento
bastando à tarde para construir toda a ficção de uma existência
onde habitassem gnomos e vogais adormecidas
o soro ácido da luz
sublevada
rebentando contra a ópera cómica da criação velha rameira furiosamente engalanada


[Na imagem, tela de Francis Bacon]

domingo, 29 de agosto de 2010

"Paisagente" [Texto em construção]


Com as mãos parcialmente destruídas sondo incessantemente
a noite que se desfaz
em pequenos grãos de sombra que são fogos e memórias
cruzados
com a aurora de Junho, esse lugar sem lugar onde
começa agora lentamente a arder, elementar e fria,
a tempestade inútil
que é o dia

com as mãos em silêncio
observo igualmente mudo
também a voz que fermenta lentamente na garganta
as mãos que dilaceram quase líquidas uma a uma a memória
[a anémona suspensa da memória...]
a esfera do tronco disperso imaginado
repousando completamente imóvel no seu leito escuro
de gestos
e silêncios

Com os dedos anoitecidos exploro minuciosamente a abóbada insuportável
do dorso como as folhas
filtrando a luz que vem subindo rápida do sangue
sobre as mãos carcomidas pelos próprios gestos

que apodrecem
antes mesmo de nascerem e poderem florir

De um único golpe ou galope corrompido
abro os ventos ou as águas que a boca não im
pede a sede que a língua não produz
examino a página fria das pálpebras
onde se lê de uma vez só
a biografia inteira espessa e escassa impotente do olhar

da tábua vazia do peito colho
a flor da dúvida abro
na parede de névoa o furo obscuro
sintético do olhar

a lâmina do mar corta ao meio o céu
entalhado na arriba há muito estagnada

o sopro imóvel mineral
a asa estéril imensa aberta
do exausto litoral o íngreme a noite ser:
mas o litoral do corpo são o discurso e as palavras
afinal todo o ser

a espera, dizem-me, completamente branca do ver
o arco ou ficção o labirinto a intriga sem falhas do saber

é assim a terra mutilada pela própria respiração
duro lento imóvel insondável animal...
Devagar!
Devagar e sem demasiadas ilusões, pois,
que a visão das coisas em redor,
seja agora ou depois,
infecta sempre
fatalmente o próprio olhar!


[Na imagem: Francis Bacon, Study for a Landscape, after van Gogh, 1956.57]

"Silêncio a Frágil Estação"


Aqui regresso envolto em sombra ver a tarde repousando a dois incessantemente recomeçando sobre as searas
dormindo destra e descuidada sob a completa primavera
o silêncio ofuscante das dunas a ferver de cansaço
a esfera indefinida da distância com as mãos de sombra rodeando os joelhos
a coluna erecta do silêncio
as mãos de luz fulgindo no som metálico das aves a caminho do voo
a cinza intranquila dos cravos
infectando de
brilho e fogo a pesada luz de agosto.

a fadiga deslumbrante do verde enrolado em cada caule
a doença maci[ç]a da beleza cintilando de uma lenta alegria
que corrói a memória
os frágeis músculos da luz deixando vestígios de estrelas e areia ardida
no repouso vertical do arbusto dos teus braços
a ferida primaveril do horizonte

a tristeza adiada para outro dia
o dia
a etapa de ar e de silêncio
e o silêncio
ah o silêncio
a frágil estação!

[Imagem ilustrativa: "Landscape" de Levi van Veluw]

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

"Futebol: Moral ou Simples Lógica?"


Começo por uma espécie de declaração de interesses introdutória que vai operar como o pano de fundo contra o qual vão, por sua vez, surgir as restantes considerações e reflexões constantes das linhas que imediatamente se seguem e que é a seguinte: há um determinado tipo de discurso antropológico e [com boa vontade, é verdade...] filosófico envolvendo determinadas áreas da cultura pop como o futebol que sigo com particular atenção e interesse embora nem sempre concordantes, um e outra.

Por um lado, é meu entendimento que não é honestamente possível ignorar que uma parte considerável da Cultura dita 'nobre', 'respeitável'---da Cultura formal---consiste precisamente em "recuperações" ou "resgates" mais ou menos tardios, mais ou menos secundários [ou até terciários] de domínios importados da subcultura e que, a prazo, vêm a ser com toda a normalidade assimilados ao cânone cultural---académico, desde logo---como partes integrantes do mesmo.

É o caso da banda desenhada---mas não só dela.

São, de igual modo, os "casos" da fotografia, a "irmã-enfant terrible" [e até "bête noire"...] da pintura, do cinema [que o foi do teatro como o romance seria o da epopeia da qual operou, muito poucos o ignorarão, como uma espécie de "herdeiro degenerado" senão mesmo de "degenerescência" pura e simples...] e por aí adiante.

Por outro lado, não é menos verdade que [é outra ideia que está longe de ser exclusivamente minha...] existe umas permanente dinâmica inter-osmótica entre os extractos subcultu[r]ais de uma forma geral [muitas vezes, a "lumpen-culturalidade" de uma dada época] e a respectiva Cultura formal sendo, por exemplo, no limite, possível, se assim quisermos dizer, 'estudar' o existencialismo europeu do pós-guerra [vê-lo distintamente reflectido] em 'westerns' como "They Came To Cordura" de Rossen ou banda desenhada [a de Hugo Pratt] por exemplo, para apenas referir dois "casos" entre muitos possíveis.

O futebol [que já desempenhou, de resto, um papel relevante na Cultura do Ocidente [na forma de disciplina escolar utilizada para treinar o carácter nas public schools inglesas] é cada vez mais um tema que vem regularmente à tona da Cultura fornecendo, hoje, matéria académica a outro nível [e com outra perspectiva] francamente menos intrumental ou menos utensiliar e mais virada para a re/produção industrial da própria modalidade enquanto "objecto-em-si" e produto".

Lembrei-me de tudo isto ao ler, hoje, um pequeno texto de João Lopes no "D.N." ["Do futebol como teatro"] onde me parece, todavia, que a tal [re?] visão antropológica e para-filosófica da subcultura, neste caso, claramente se ultraspasou a si mesma---ou, utilizando umm linguagem estritamente futebolística: se fintou até a si própria.

Aborda o texto em causa uma questão que começa já a ser hoje-por-hoje velha---a da "justiça" nos resultados do futebol---e é preciso dizer que, mau grado a comparativa "velhce" do tema, não vem mal ao mundo se, sobre ele se elaborar, como faz o crítico, o tipo de comentário ou de reflexão a que ele se dedica no texto referido, desde que quem o faz tenha a preocupação consistente de manter sempre algum contacto da sua própria reflexão com o solo, isto é, com a realidade sobre a qual essa reflexão incide ou se exerce.

O que não me parece seguro que tenha acontecido desta vez, devo dizer.

Senão vejamos: o futebol hojé é uma indústria ou um ramo, uma área, de uma indústria perfeitamente aceite, estabelecida---institucionalizada, até---que é a do espectáculo.

Pressupõe investimentos poderosíssimos, pressupõe uma prospectiva [que é, naturalmente, muito peculiar porque na essência do jogo se encontra, efectivamente, a in-certeza que não é, todavia, exactamente a mesma coisa do que o arbitrário, o aleatório ou---poderíamos talvez dizer abstractizando ou conceptualizando um pouco mais: a "aleatoriedade" ou a "aleação" puras e simples] pressupõe portanto uma certa "cientiticidade" que permite "calcular" antecipadamente determinados graus ou níveis de risco e apostar neles.

Ou seja: na realidade, já não se trata de Desporto---trata-se, como digo, de uma indústria.

Sendo uma indústria possui naturalmente lógica---resultante da acção dos tais mecanismos de antecipação genérica do futuro [da prospectiva] de que falo atrás.

Por isso, se investe [não se "atira" dinheiro à rua: investe-se] e por isso existe naturalmente um referencial---e mais do que um referencial: uma medida] para avaliar o sucesso e obviamente o insucesso no desportismo profissional: o capital investido e o respectivo retorno [ou a falta dele].

Aquilo a que chamamos "justiça" forma-se, pois, em termos latos---digamos assim: macrofuncionais---daqui, do investimento: quem mais investiu, mais probabilidades tem obviamente de alcançar o sucesso que é como quem diz: de obter resultados... "justos".

Em termos digamos microfuncionais, circunstanciais, a "justiça" mede-se pela acção pontual, casuística, do resultado do investimento em causa---que são os jogadores e que é a sua acção no jogo propriamente dito e que é, em tese, directamente proporcional à qualidade dos mesmos a qual é, por sua vez, proporcional---de novo, em tese---ao capital neles investido.

Ou seja: no primeiro caso, se não houvesse um rapport genericamente estável; um rapport significado entre investimento e sucesso, não haveria naturalmente nem investimento nem mais do que isso, indústria: só existem um e outra porque existem também níveis latos, genéricos mas, ainda assim, em termos amplos, antecipáveis, de previsibilidade que começam logo a excluir, por definição, a aleatoriedade enquanto tal: é aliás essa "educada exclusão" do aleatório uma das componentes essenciais que marcam a passagem do Desporto para a indústria.

No segundo caso, é preciso dizer que, se não houvesse a possibilidade material de medir o sucesso na contratação de jogadores, aqui outra vez, não haveria indústria.

Tudo isto somado, resulta em que, quando uma equipa de alta competição entra em campo para "jogar", existem quadros de previsibilidade perfeitamente reconhecíveis, macro e micro, pelos quais se mede e se define, na realidade, a "justiça" na competição.

Pelos quais é perfeitamente possível medi-le, defini-la e até, volto a dizer: antecipá-la---antecipá-la não não em termos abstractamente morais mas em termos objectualmente causais.

E medi-la, sobretudo, para corrigi-la em face da informação que vai sendo prestada i.e. da articulação entre as expectativas lógicas e a realidade competitiva como tal.

A confusão surge, a meu ver, de se abordar um universo industrial com uma lógica de desporto puro [a "gloriosa incerteza" e tudo isso] que já não existe, pura e simplesmente.

E/ou de se falar de "justiça" quando o termo mais apropriado seria seguramente "lógica": porque a "justiça" [termo que continuamos já de forma espúria exógena e, por conseguinte, inadequada, a empregar quando passamos do Desporto para a indústria] é uma categoria ética, moral [moral-em-si] que não figura entre os móbeis operantes básicos ou primários da indústria onde não se moraliza: se analisa---isto é: se mede e, depois, se age.

Fala-se de "justiça" quando deveríamos falar de "previsibilidade", de "previsibilidade operativa" ou, por exemplo, de "lógica funcional"---ou mesmo "funcionante".

A própria essência da indústria consiste, como digo, num certo sentido preciso, em reduzir a margem de intervenção nas representações concretas de si constantes do espaço de im-previsibilidade que se encontrava no cerne do Desporto.

É verdade que a indústria pode também subsistir porque não se retirou [do futebol, pelo menos] todo o conteúdo em im-previsibilidade que indústria herdou do Desporto.

Mas existem "modalidades" [como o "catch", por exemplo máximo] onde isso já aconteceu por inteiro e a essência do género foi toda ela transferida já do "jogo" para o "espectáculo"---e aí, por isso, "há sempre justiça" nos resultados.

Voltando, porém, ao futebol: se uma equipa com um plantel caríssimo joga bem mas perde porque não marcou na proporção do bem que jogou, não sei se há "justiça" ou "injustiça" noisso, agora ilógica e falha grave da prospectiva num plano macro-funcional e/ou disfuncionação das "pequenas lógicas micro-situacionais", inadequação pontual entre causa e efeito no âmbito estritamente micro-funcional, isso houve seguramente.

Se uma equipa joga muito bem mas não marca---tendo, porém, feito um investimento igualmente elevado, significativo---ou teve, pois, numa palavra, infortúnio e interveio o tal grau de imprevisibilidade que não se removeu totalmente [antes se reintegrou, se reincorporou organicamente] na modalidade quando ela passou a ser um "produto" industrial [im-previsibilidade, insisto, confundida com "injustiça", num plano ético que, de facto, já deixou há muito de estar em causa] ou, pura e simplesmente contratou maus profissionais no sector da concretização e vai, com certeza, corrigir ou tentar corrigir essa componente no futuro: é para isso que serve---e sublinho a palavra "serve"!---na competição, aquilo a que nos obstinamos em descrever pela expressão moral "injustiça".

Vai tentar corrigi-la porque percebeu que o que aconteceu é i-lógico, rompe com a "educada previsibilidade" sobre a qual assenta qualquer plano investimental e, por conseguinte, qualquer negócio ou indústria.

O que eu quero dizer é que hoje, o futebol profissional possui graus que são, sobretudo, "feedback industrial" de risco.

Dizer hoje que "em futebol tudo é possível" é apenas muito excepcional, muito extra-ordinaria [e até, num certo sentido causal objectivo] disfuncionalmente verdade.

Nenhum produtor cinematográfico ou accionista de empresa diz que tanto pode vender como não vender aquilo que produz ou que fabrica e que, nessa matéria, aproblematicamente, "tudo é possível".

Ele vai fazer tudo, sim, para que tal seja o menos possível... possível.

Mas isso só é... possível, pela tal quantidade genericamente mensurável de "lógica" que existe organicamente na actividade.

É engraçado, é [passe o pleonasmo] um jogo intelectual ainda hoje, apesar de tudo, interessante, cativante, jogar com as palavras e as ideias: "justiça", "não se pode medir" etc. etc.

A minha ideia, perante tudo aquilo que disse, é todavia, que neste caso não passa, na realidade, disso: de um mero jogo---jogo analítico, jogo intelectual---envolvendo um considerável grau de inadequação à realidade ou, como poderíamos daquela perspectiva estritamente moral dizer: uma, demonstrável dose de... 'injustiça'...


[Imagem ilustrativa, Pintura de Francisco Rebolo, 1936, extraído com a devida vénia de Todos Somos Portugal]

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Um Partido Novo ou um Partido Renovado?..."


Será verdade o que me dizem que, depois do curso da Independente, das casas-bosta-de-mamute na Beira, do Freeport, do Face Oculta e do que mais se verá, o "pê-ésse" vai mudar o nome oficial para Partido, não Trabalhista como o "mano" inglês mas muito mais adequadamente para Partido TRAPALHISTA...
Juram-me a pés juntos que sim e eu, confesso, pensando bem, não sei por quê mas até acredito cada vez mais...

[Imagem Picasa, da Net]

"Maria Dulce, 1936-2010"


Foi uma revelação quando em 1950, com treze anos, Lopes Ribeiro a escolheu para o papel de 'D. Maria de Noronha', na versão cinematográfica do "Frei Luís de Sousa" com Maria Sampaio, João Vilaret e Raul de Carvalho, entre outros.

A esse papel seguiu-se uma carreira dividida entre Portugal e Espanha, onde entre 1950 e 1957 interpretou vários filmes.

Em '58 faz do perecível Henrique de Campos aproveitando a 'boleia' da popularidade do ciclista Alves Barbosa, "O Homem do Dia" um filme igualmente perecível como, no fundo, perecíveis---característicos produtos de época de "uma certa Espanha" franquista "de cerrado y sacristía", como lhe chamou Machado,"hispanopics" hoje completamente esquecidos, na sua maioria; como igualmente perecíveis, dizia, haviam sido os que rodou em Espanha.

Protagonizou com Artur Semedo a primeira série televisiva portuguesa [a "Lena e o Carlos"] exibida em directo e, em larga medida, improvisada pelos dois actores em cena, muito popular quando passou ainda a preto-e-branco da televisão portuguesa e em 1959 abalançou-se a co-produzir "A Luz Vem do Alto", outra vez sob a direcção de Henrique Campos, investindo [confessadamente sem grande retorno comercial] no filme os lucros do seu trabalho de actriz no país vizinho.

Na década de '80 re/inicia uma carreira na televisão, nas famigeradas telenovelas portuguesas, nunca tendo, porém, abandonado definitivamente os palcos [o seu último papel foi em "Hedda Gabler" de Ibsen]---teatro onde, à altura do falecimento, ensaiava "Sabina Freire" de Teixeira Gomes.


[Na imagem: Maria Dulce como 'D. Maria de Noronha' no "Frei Luís de Sousa" de Lopes Ribeiro, foto extraída da capa da "Flama" de 14.07.50]

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"Patricia Neal, 1926-2010"


Um jornal norte-americano chamou-lhe qualquer coisa como a "paladina" ou a "advogada", a "campeã da vida" ["pro-life advocate"] no que pode ser visto, para além obviamente de uma referência directa ao papel desempenhado pela actriz na defesa de causas concretas nesta área, como uma espécie de alusão mais ou menos indirecta às várias vezes em que teve de se defrontar com a morte ou a ameaça muito próxima dela.

A sua, na forma de que quase-morte prematura aos 37 anos e a da filha mais velha, fruto do casamento com o escritor Roald Dahl, falecida aos sete, depois de um outro filho de ambos ter sido atropelado num acidente que o deixou com sequelas para toda a vida.

Em '65, sofreu ela própria uma sequência de AVCs que a deixaram temporariamente paralisada e sem fala.

Durante as filmagens de "The Fountainhead", protagonizaria com Gary Cooper uma relação amorosa que deu brado na puritana Hollywood e que a levaria a confrontar-se [para além da possibilidade de um fim prematuro da sua própria carreira] ainda uma vez com a tragédia pessoal e a morte na pessoa de um filho que teria tido com Cooper, caso tivesse chegado a nascer.

Na autobiografia, "As I Am", Neal declara-se profundamente arrependida da decisão à época tomada de abortar [algo que, disse, a perseguiria toda a vida] e escreveu que, se tivesse podido voltar a viver o romance com 'Coop' não teria cedido às pressões do actor para que abortasse.

Em termos estritamente cinematográficos, teve um Óscar pelo seu papel em "Hud" [exibido em Portugal com o título de "O Mais Selvagem Entre Mil"] de Martin Ritt com Paul Newman e receberia ainda uma nomeação para outro, em '68, pelo papel que desempenhou em "The Subject Was Roses" do pouco conhecido Ulu Grosbard.

Esteve, entre diversos outros hoje mais ou menos esquecidos, no elenco de filmes que são, de um modo ou de outro, verdadeiros clássicos, obras de referência ou até mesmo uma 'de culto' como "The Day The Earth Stood Still" de 1951, dirigido por Robert Wise; "A Face in the Crowd" de Kazan [baseado no romance de Budd Schulberg] em '57, "Breakfast At Tiffany's" de Blake Edwards, a partir da obra homónima de Truman Capote ou o já citado "Hud" de Ritt, um dos renovadores de Hollywood, filme que lhe valeu o Óscar.

Era uma actriz discreta com uma técnica poderosamente contida, nunca óbvia nem impositiva que valia, sobretudo, pelo que o seu belo rosto e o seu olhar particularmente impressivo eram capazes de sugerir.

Faleceu com 84 anos, na sua redidência em Edgartown, Massachussetts, de cancro no pulmão.

" Lugar Azul"


Da terra tinha a alma o tempo a fantasia
o ácido cimento do sono endurecido
a água a rútila
cicatriz do silêncio interrompido
da fome oculta o desesperado não sentido

a pele inútil do ar meio consumido
a indefinida terra a límpida agonia
da margem ou do rio apenas pressentido;
da lonjura o vento esmagado transmitido
entre o vapor da voz que envelhecido
da abóboda sangrenta da respiração vem agora corrompido

da fala o crepúsculo o labirinto flectido
da luz a glande febril a cutilada
do branco invertido
o delírio visual das aves todo erguido
na cúpula do dia já perdido; errante a sombra construía
o vício da luz toda na tardia
circunstância desordenada da falésia
que de pura perspectiva e vento em chamas
já se abria.

trovoada de branco e de morrer à luz do mar
pássaros embriaguez espacial febre de imenso
a luz é a respiração da tarde o isolado sopro do dia
ruindo em silêncio sobre as pedras em descanso.

as armas da ideia o resto rasto do sentir do querer
a casa deserta da voz sem memória



o dia flébil, pungente, lacerado, carcomido

ou apenas todo o sono todo o pó
mas invertido?...


[Na imagem: Cliffs in Britain de William Morris]

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"«La Fenêtre Impossible ou Ciel Improvisé, Une Fable Bien Durable Pour Ezul», trans-idiomatização/glosa"


Certa manhã um quase-mês,
semi-imaginário
com seu riacho de falsos dias por libertar
secante e vário
na cintura esmagadora
se pôs subitamente a uivar

Um pouco apartado, de primaveris cinzas um ano
com seu cansaço ou estio de belos meses estilhaçados
em redor do pescoço semilouco ardido
e logo em seguida saqueado
pela própria incessante inocência
trespassado
do edifício insuportável do próprio ar ou
da amarga desesperança envenenado
no próprio sangue ou sangues oculto barricado
veio junto da sólida labareda das aves
perfurado
meio furtivo e só então clamou, angustiado:

por que razão oh deus por que motivo?


[Na imagem: Piet Mondrian, "Evolution/Evolutie", tríptico]

"Gene Kelly"


Revendo recentemente no insubstituível ARTE um tributo a Stravinski e à sua colaboração com Diaguilev, designadamente no revolucionário "Pássaro de Fogo" [na versão do Marinski, com a coreografia original de Nijinski reconstituída a partir da documentação existente] tive ocasião de reavaliar o que já era, de resto, a minha própria enorme admiração pelo [nem sempre suficientemente valorizado] trabalho de Kelly, como bailarino e, num certo sentido, sobretudo, como coreógrafo.

Muito menos clássico ou, pelo menos, não tão canónico ou tão ortodoxo como Fred Astaire [a imediata referência---"the ultimate reference"...---da dança no cinema] Kelly foi, a meu ver, muito mais longe e, sobretudo, muito mais fundo na concepção de dança e da sua possível---questionadora e não-raro, abertamente subversora---relação com o real.

Há no cerne da sua visão da dança uma, por vezes, cáustica ironia e uma permanente inquietação [a angústia existencial e até, em mais de um sentido, ontológica...] magicamente sublimada em orgástica festividade, em ritual celebratório triunfalmente "primitivo"] que vêm, em meu entender, precisamente daqui, das rupturas introduzidas por Stravinski e Diaguilev/Nijinski na dança do século XX, tradição que Kelly "apanha" muito bem e que retransporta, com uma argúcia e uma inteligência visual, por vezes prodigiosamente triunfal e contagiante para a realidade pop do seu tempo.

... Que, todavia, o não acompanharia até ao fim tendo o seu "Hello, Dolly" marcado o término de uma carreira notabilíssima marcada por momentos absolutamente geniais e cinematograficamente definitivos de onde sobressaem, entre outros, as participações nos inesquecíveis "Singing in the Rain" [co-dirigdo com Stanley Donan] ou "An American in Paris", de Minelli, com Cole Porter 'a fazer de' Stravinski.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"La Fenêtre Impossible ou Ciel Improvisé: Une Fable Bien Durable Pour Ezul"


Un beau matin un mois
à demi imaginé
avec touts ses faux jours
absents
devant

se mit à hurler


Écartée et nue une année
avec ses plus beaux mois brisés
autour du cou
son regard fou
ravagé
percé de sa propre innocence
obstiné et mou
fit "ah!" et
se demanda

pourquoi ?


[Na imagem: Sonia Delaunnay, "Bal Bullier"]

domingo, 22 de agosto de 2010

"Adeus, Vitórias, Bem Vindo, Roberto!"


Não!

Estou tão "lixado" que não resisto a mais esta: reproduzir, aqui, do 'mano' mais novo do "Quisto", o "Zanzibar" esta notícia alusiva à derrrota do Benfica na Madeira e ao generoso contributo do jogador [?] que a imagem retrata para o sucesso em causa!

Aqui vai ela [com um ranger de dentes expressivo...]

É este o rosto [e o estilo] de Roberto Jiménez, o grande guarda-redes espanhol, que o Benfica foi bnuscar à 2ª divisão do país vizinho para se suicidar competitivamente com o estilo [a despesa!] e o "salero" que a imagem documenta.
Digam lá se a jovem e promissora estrelinha espanhola não parece mesmo estar a dizer adeus ao projecto de revalidação do título de Campeão Nacional alcançado pelo Benfica a época passada com o coxo do Quim na baliza...

[Imagem ilustrativa "gentilmente cedida" por "A Bola" online]

"Good Student, Lousy Marks"


Do "Público" de 20.08.10, extraio uma citação sobre a qual vale seguramente a pena que todos reflictamos um pouco.

Retiro-a do texto assinado por Ana Rita Faria [publicado com um título que, só por si, dá logo já pensar: "PIB per capita português ocupará em 2015 o pior lugar no ranking desde a adesão à UE"].

Depois de discorrer sobre uma prevista quebra do PIB nacional para economias como a do Egipto, da Malásia, das Filipinas, da Nigéria ou da Rep. Checa no ano de 2015, escreve a autora, a dado passo:

"À semelhança de outras nações de Leste, a República Checa tem sido responsável por boa parte da deslocação do investimento directo estrangeiro de vários países europeus, entre os quais Portugal, que apresentam custos de mão de obra superiores".

Pergunto eu:

Qual será a conclusão [ou a lição?] a extrair de tudo isto?

Que, em Portugal, ainda de ganha... demais?

Que devíamos, portanto, ganhar ainda menos?...

Que foi para ganhar menos que "entrámos" na "Europa"?

Que o "desenvolvimento" até aqui alcançado nesta o foi, afinal, à custa de uma "geo-política" de salários baixos, muito mais do que uma de alta produtividade?

Juntando, todas as perguntas numa única: sinceramente, a mim parece-me que valeria a pena que tirássemos todos um bocadinho do nosso precioso tempo de férias para reflectir nem que fosse um minutinho só sobre todas estas questões?...

E vocês? Que é que acham?...

[Imagem "gentilmente cedida" por patrickdion-dot-com]

"Uma «Sar... quística» Sugestão para Luís Filipe Vieira e Rui Costa..."


Com a febre de visitas gratuitas ao Estádio da Luz que se seguiu ao triunfo no Campeonato passado assegurado pela equipa de futebol do Benfica, tornou-se não só imperativa como até urgente a melhoria na sinalética do próprio Estádio a fim de garantir o sucesso da louvável iniciativa da dinâmica gestão encarnada junto dos mais distraídos e falhos de sentido de orientação, até como consequência da magnitude, realmente esmagadora, do local.

Assim sendo, como bom benfiquista, lembrou-se o "Quisto", sempre disponível para "meter a colherada" tratando-se de ajudar o próximo [para mais, se o próximo for o Clube do respectivo coração...] de avançar com esta sugestão destinada a identificar e localizar mais rápida e mais eficacazmente, o caminho para a baliza do Glorioso, defendida, como é sabido, ultimamente, com o sucesso que se re/conhece, por esse promissor atleta que é a jovem estrela espanhola Roberto Jiménez...

Assim ninguém se perde na imensa catedral, os papás voltam para casa com o mesmo número de filhos com que entraram [a medida não abarca sobras, digo, sogras porque o Benfica é um clube de futebol, não a Santa Casa e os imperativos de caridade que norteiam as I.P.S.S. não se aplicam, como é sabido, ainda às S.A.D.s] homenageia-se um magnífica atleta e invejado activo do Clube e todos saimos a ganhar, futebol português incluído.

Então? Quem é amigo, quem é?...

[Imagem ilustrativa "cruelmente cedida" por fugly-dot-com]

sábado, 21 de agosto de 2010

"É de Péssimo Gosto..."

... eu sei mas não resisto!

Aliás, só um gigantesco esforço de auto-contenção e auto-disciplina me impede de desatar já aqui a desconversar---e, de preferência, em bom vernáculo, apenas interrompido por dois bons berros a quem for na altura a passar!

Fico-me por uma frase/ideia que diz, seguramente, tudo sobre a imensa frustração e a enorme vontade de "partir coisas" que se apoderou de mim neste preciso instante em que soube que o Benfica averbou a quarta derrota consecutiva, desta vez na Madeira, confirmando uma dinâmica de insucesso que tem consistentemente vindo a afirmar-se ultimamente na equipa de futebol e comprometido seriamente os objectivos do Clube re/anunciados ainda não há muito com trombetas como sendo de "vencer o campeonato e chegar longe na 'Champions'.

Observando, com efeito, o modo como a equipa vem perdendo jogo atrás de jogo desde que a competição a sério se reiniciou, é cada vez mais, caso para dizer

O BENFICA BICAMPEÃO?
COM RESULTADOS DESTES?!
"TÁ BÊM, DÊXA!"

[Ou, como diria o meu tio 'Jack' se fosse vivo---e estivesse tão chateado lá com o Nottingham dele como eu próprio estou neste preciso momento com o inesperado "encolhas" do "meu" Glorioso]:

IN A PIG'S EYE!!!...
[Imagem ilustrativa "gentilmente cedida" por Plastic and Plush Shop ]

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

"Do Marketing em Política Ao Marketing Como Política" [Incompl./por rever]


Nem de propósito, 24 horas apenas após a redacção da entrada imediatamente abaixo, o "Diário de Notícias" publicava um texto de Stephanie Babst [Cf. "A NATO não precisa de uma marca mas de um apoio contínuo do público" in "Diário de Notícias" de 18.08.10] onde a autora, adjunta do secretário-geral da organização, discorre amplamente sobre a necessidade de "vender" esta última às populações dos países que a compõem.

E comecei por dizer "nem de propósito" porque a simples leitura, mesmo apressada, do texto de Babst, põe mais uma vez em relevo a importância verdadeiramente crucial que possui hoje o "marketing" na implementação e consolidação das políticas dos Estados assim como na radicação material, concreta, das próprias instituições dos mesmos.

Dito de outro modo [e isto é que é verdadeiramente signigficativo e são as implicações e decorrências disto que é vital que percebamos, hoje mais do que nunca] como é, afinal, mais ou menos confessadamente, muito mais através desse mesmo "marketing" do que propriamente pelo debate exaustivo, sério, verdadeiramente participado e realmente aberto, que as primeiras, as políticas, antecipadamente definidas nas cúpulas dos aparelhos políticos dos Estados e das alianças entre elas constituídas, são levadas à prática e as segundas acham o seu caminho estável e característico para a arquitectura institucional das nações.

Bastava, aliás, considerar o modo como a ideia ou o modelo de uma "Europa" nos foram, a todos nós, cidadãos e sociedades dos países por ela abrangidos e nela incluídos, "vendidas" para perceber como hoje, comprovando a nossa tese já aqui por diversas vezes expendida e demonstrada, de que existe uma tara inversional nuncear nas sociedades "demoformais" do Ocidente de hoje consistindo basicamente na inversão radical do papel da economia e da política na estrutura tessitária daquelas sociedades.

Aquilo a que chamamos Política [e políticas] com efeito, não passa, hoje-por-hoje, na realidade, de, como tantas vezes tenho dito, um mero "revestimento politiforme" insubstantivo e móvel, destinado, não a responder sem pré-juízos e pré-condições artificial e/ou significadamente impostas na prática às pessoas e às sociedades por elas formadas, mas a responder, sim à necessidade apócrifa de legitimar formalmente [cá aparece outra vez a tal ideia de "marketing"!] uma infra-estrutura económico-financeira que se pretende inalterável e inalterada.

É a ideia da "politica ancilla economiae" que visa, na prática, amarrar a Política não apenas à ecomomia---a um determinado modelo económico-financeiro muito preciso e determinando relações de produição quer "devem" conservar-se imóveis---como seu instrumento de "legitimação" mas à própria História, impedindo esta de crescer e de 'deslocar-se' livremente em si mesma, como seria natural se tudo se passasse, também naturalmente, ao contrário.

Isto é, se tivéssemos uma "economia ancillae politicae" e à política estivesse reservado o papel natural de conduzir incondicionadamente a economia até às pessoas sempre de acordo com as necessidades específicas e também legítimas destas e das sociedades por elas formadas.

Por outras palavras ainda: se não houvesse uma falsa [porque espuriamente dependente] 'política' funcionando como instrumento de implementação mas, também, de [lá voltamos nós ao mesmo!] "marketing" de uma economia cujo papel ou função histórica real é [re] produzir apenas e somente capital.

E é porque se trata de produzir capital e de produzi-lo nas exactas condições em que ele é produzido e socialmente redistribuído [sendo que a feitura de produtos, por exemplo, representa, na realidade, só o meio e a pretextuação de que todo o sistema assim formado se serve para produzir esse mesmo capital] que as políticas "têm de ser" sempre "indexadas" a esse propósito real e final, entrando na sociedade vindas [como dizer?] "de cima" e não resultando de facto da expressão incondicionada da vontade autónoma das sociedades.

Ora, a função da aparelhagem "demoformal" é exactamente criar a ilusão de que o que se passa é o inverso do que acabo de referir e que a sociedade histórica, social, económica e política está "na ordem certa" quando, de facto, não está.

Está ao contrário.

Está invertido o papel determinante dos elementos estruturais que a conmpõem, como vimos.

O "marketing" político nas suas várias formas [Babst enuncia apenas uma] não se limita, pois, às que se tornam imediatamente reconhecíveis.

De facto, toda a política "secundariamente legitimadora" do sistema eleitoral nas sociedades ocidentais de hoje é, naquele sentido formal e muito supostamente legitimador, puro [ou impuro] "marketing" na medida em que visa criar nas sociedades onde as decisões em matéria de estrutura básica do modelo ou sistema se encontram há muito tomadas, a ilusão que foram elas, sociedades, quem livremente escolheu um conjunto de relações de produção que estão há muito decididas e definidas no vértice activo, realmente determinante, do sistema que, como disse, nem sequer é político ou está na política.

Há, pois, nas sociedades ocidentais demoformais de hoje de facto dois níveis de markering político: um é, como acabo de dizer, estrutural, nuclear: encontra-se no próprio centro ou cerne dos mecanismos decisionais; o outro, acha-se mais à superfície e é aquele que Babst refere---o único que o sistema reconhece porque reconhecer o outro seria denunciar a falácia demoformal no seu todo ou na sua in/essência---quando diz, por exemplo a propósito da organização de cujo secretário-geral é adjunta: "A NATO fez um longo caminho para uma nova abordagem das políticas de comunicação. Melhorámos os esforços para entender as percepções do público e os estereótipos. Analisámos os motivos. Começámos a fazer as nossas próprias sondagens. Estamos a fazer um esforço especial para chegar às novas gerações, através de redes de estudantes, de cursos de Verão, de bolsas, organizando seminários e workshops".

E acrescenta:

Fizemos uma revisão das nossas capacidades tecnológicas. A sede, em Bruxelas, organiza discussões online sobre o novo conceito estratégico da NATO, sobre o Afeganistão e ainda outros assuntos. No que toca ao uso de novas ferramentas, o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, leva grande avanço. Ele gere as suas páginas no Facebook e no Twitter e responde às questões e aos comentários no "Canto do Secretário-Geral"".

..................................................................................

O propósito essencial deste artigo é remeter o leitor para a comparação da enorme sofisticação destes mecanismos de subtil direccionação e fortíssimo condicionamento a posteriori da opinião com quanto dissemos na entrada anterior sobre a necessidade urgente de revisão integral das políticas de comunicação da Esquerda, hoje-por-hoje, ainda na pré-história de toda esta especialização, mobilização de meios e requinte... laboratorial e institucional.


[Imagem extraída com a devida vénia de TakeOverWorld-dot-com]

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"Idade Mídia" [Ainda incompleto e por rever]


Numa altura em que os jornais e a televisão [sobretudo, esta...] se enchem de circunspectíssimas referências a uma tal "festa" dita já mais ou menos familiarmente "do Pontal" associada, como se sabe, aos rituais masturbatórios regulares, cíclicos, estivais do famigerado "pê-ésse-dê", vale a pena voltar, mesmo apenas muito rapidamente, a reflectir sobre as formas moderníssimas [eu chamo-lhes de preferência inorgânicas, pretextuais e "pós-modernas"...] de "reinvenção controlada do real" que definem, no fundo ou na in/essência, a "Idade Mídia", no mundo ocidental.

A tal "festa" é basicamente 'teatro': uma encenação cuidadosamente estudada para produzir aquele "efeito" de trompe l'oeil reflexivo que, entre nós, passa facilmente por "política".

Nada "daquilo", porém, é bom que se diga, se reveste da mínima relevância efectiva, nacional; nada "daquilo" é outra coisa que não uma série mais ou menos espalhafatosa e indescritivelmente campónia de "rituais de acasalamento de interesses" pura ou impuramente paroquiais e/ou meramente conventuais; nada "daquilo" ultrapassa o nível das meras "fachadas de Potenkine" ideológicas ou até intelectuais, podendo, com boa vontade, ser visto, na melhor das hipóteses, como um exibir de músculos suados e ensebados como naqueles ginásios pedantes mas, no fundo, rascas onde a pequena burguesia suburbanóide vai alimentar a imensa vaidade [e a inenarrável saloíce, meticulosamente aprendida nas inomináveis páginas da impensável "Caras" ou da indescritível "Lux"---daí eu ter atrás falado de singulares "rituais de acasalamento": aqueles fulanos estão ali, de facto, para "sacar" as fêmeas que lhes interessam para acasalar politicamente no imediato---e quando digo "fêmeas para acasalamento" falo, obviamente, do "bom povo" que, todos os anos, desce em esgotante e grunha peregrinação ao "Allgarve" para se acotovelar labregamente numa Côte d' Azur com batatas e grelos e a metade do preço da outra, da verdadeira---e, de caminho, se embasbacar a ver os "craques" da tanga política passar a caminho do masturbódromo algarvio, em álacre cortejo de vaidades e vazios.

A verdade, porém, é que a "coisa" faz capas, a "coisa" abre noticiários e até suscita exegeses e hermenêuticas sortidas como se efectivamente existisse e tivesse alguma coisa para dizer às televisões e às suas dóceis pessoas.

"Aquilo" é, numa palavra, a tentativa de fazer política-telenovela da TVI com actores não-profissionais, um "Fátima Lopes" ou "Júlia Pinheiro" a fingir que é política.

Pois mas está lá, afirmou-se, tornou-se uma marca que vende.

Que vende porque a direita morre de inveja do "Avante" e viu, na disponibilidade da Idade Mídia para se "pôr intelectual e politicamente a jeito" dos grandes interesses económicos e financeiros dos quais é, afinal, parte integrante uma maneira de matar dois coelhos com uma única e sonora bordoada: responde ao "Avante" com uma "coisa" que, sendo uma espécie de "sidekick" patusco, do grande fenómeno cultural e de massas que é o "Avante" é, em certos momentos, quase tão falada como ele [nos mídia é-o infinitamente mais "et pour cause"...] ao mesmo tempo que cria a ilusão de que o respectivo suporte grupal [muito remota e apenass muito pretextualmente 'partidário': o tal "pê-ésse-dê" que promove anualmente, julgo, "coisa"] tem não só alguma coisa para dizer, como está pronto para fazê-la.

Porque é assim que se vive e se aborda [se aborta?] topicamente a realidade na Pós-modernidade: inventando-a, criando-a, mediatizando-a.

Convertendo-a em "produto" que se vende---e se consome.

Como as viajens estivais ["estivais" de "estiva"...] dos incuráveis maloios suburbanitas de Telheiras ou da Quinta do Lambert que não têm onde cair mortos mas que ninguém lhes tire a Rivierazinha Maya ou o "resort" em Fortaleza ou os jeeps onde os falsos agricultores nascidos da trapalhona "europeização" cavaquista dos anos '80 estoiram alegremente os subsídios de Bruxelas...

É isto que a Esquerda portuguesa parece não ter ainda metido na cabeça: que quem não tem a televisão do seu lado hoje, pura e simplesmente não existe.

Não há volta a dar a isto: podem-se ter as mais puras e generosas das intenções, a ideologia mais estimulante, o património histórico e humano mais rico de experiências e vivências que, perante uma TVI a abrir noticiários com meninas acabadinhas de sair da modista ou do cabeleireiro ou cavalheiros de ponto em branco sempre com um Marcelo Rebelo de Sousa qualquer a tiracolo e um Sousa Tavares de reserva a sair do bolso do colete para as faltas, tudo isso se apaga, tudo isso se anula, tudo isso desaparece.

É a Idade Mídia, estúpido!

É tonta, é superficial e é vulgar?

Claro que é!

É mistificadora e embusteira, fazendo de autênticos charlatães, incompetentes de gema e alguns inqualificáveis burlões, heróis imaculados e virginais salvadores da pátria ?

Todos sabemos que sim: basta olhar à volta para confirmá-lo.

Mas é exactamente porque assim é e porque, nas mãos erradas, a Idade Mídia dá, nos nossos dias, preocupante [e inteira!] razão ao Bardo quando falava de uma "era em que os reis são bufões e os bufões são reis" que é preciso investir nela, fazer dela uma verdadeira prioridade estratégica, elegê-la como arena política impondo a si mesmo como projecto chegar lá para redimi-la da facilidade com que subverte, adormece, condiciona e manipula sociedades inteiras.

Não nos iludamos: o tempo dos cartazes "já lá vai" e o dos comícios acompanhou-o.

Hoje, as elites não estão nas editoras nem sequer já nas redacções de jornais como o "Notícias da Amadora" ou o "Comércio do Funchal" que, não por acaso, há muito fecharam.

O que há está "na televisão, a seguir ao telejornal" e é pela televisão que chega onde chega mesmo quando onde chega é sobretudo às cidades e à classe média---a uma certa classe média [ou... classe mídia?] cada vez mais pauperizada e devolvida objectivamente às origens [sub] proletárias anteriores à II Guerra Mundial e por isso potencial aliada das Esquerdas europeias.

É porque assim é que é preciso alargar a base social e sociológica da "teleespectação" ganhando para ela sectores que o sistema abandona na sua louca caminhada para... "lado nenhum histórico civilizacional e político" e fazer da Idade Mídia aquilo que essa mesma Esquerda fez com tanta lucidez das colectividades populares antes de 74: um campo de batalha substituindo a algarviada pseudo-política que hoje aí tem assento nem mais nem menos do que pela Revolução adaptada à "nova História" que nos rodeia a todos como Tempo e Modo civilizacional e político.

terça-feira, 17 de agosto de 2010


Dirão alguns que é uma questão menor perante um país geográfico, económico e ambiental que vê desfazer-se em cinza a cada dia que passa parte crescente e significativa---mais já do que "apenas" crescente e significativa: alarmante!---do seu território e um Portugal político apanhado desamparado por uma "crise" global, encalhado entre uma direita "social" no poder, pródiga em escândalos, inépcias e cumplicidades [senão pior...] de toda a espécie com baixezas e "casos" sucessivos, manifestamente incapaz de superar a barreira a si mesma imposta pela desoladora mediocridade e falta de dimensão intelectual, técnica e política da maior parte dos seus membros no governo e uma direita [ainda mais...] "liberal", pomposa, cruel e tonta que espreita, ávida, o instante do inevitável esgotamento final da anterior; dirão alguns, então, que, perante isto, soa quase a heresia apontar meros erros "de gramática" no discurso dos jornalistas.

Para mais daquele que é seguramente, com todas limitações de independência intelectual e política que inevitável e também demonstravelmente lhe advêm das suas ligações estruturais ao universo da alta finança através da respectiva pertença a um grupo económico conhecido e poderoso, a SONAE; para mais, dizia, nos daquele que é mau grado isso o único jornal verdadeiramente interessante e realmente importante em Portugal, hoje: o "Público".

Pessoalmente, reconhecendo embora, a disparidade de relevâncias entre tudo quanto atrás digo sobre a situação administrativa, ambiental e política do Portugal de hoje e os erros em causa, entendo que não se pode ainda assim desvalorizar aquilo que no discurso de muitos jornalistas, sdobretudo jovens, de hoje reflecte a persistente má qualidade do ensino em Portugal e é, inclusive, um sinal, um sintoma, uma marca multiplicadora do mesmo---algo que a democracia formal, sempre entregue a "pê-ésses" e "pê-pê-dês" de discutível qualidade pedagógica nunca se mostrou já nem digo capaz mas até simplesmente disposta a tentar atalhar.

É dessa perspectiva sintomática e tópica que trago hoje aqui dois "casos" extraídos ao acasdo da leitura da edição de hoje do jornal de Belmiro de Azevedo.

Um deles, configura uma repetição por outra mão de erro anterior que cito noutro ponto deste "Diário" e que me parece especialmente relevante porque reflecte, de forma clara, um modelo global de ensino, uma Pedagogia e uma Didáctica, insubstantivamente funcionais e orais ou oralizadas [no caso das línguas estrangeiras vivas, sobretudo, fortemente visualizadas] e, por conseguinte, pouco lidas e pensadas [reflexas muito mais do que orgânicas e reflexivas].

A falta de leitura, de leitura individual, pensada envolvendo um padrão consistente de apreensão de conteúdos, imediatos ou mediatos, obedecendo a um tempo [e, de um modo global, a todo um paradigma] cognicional próprio, de inteira e consciente gestão por parte do sujeito de cognicionalidade como tal---como verdadeiro sujeito e não mero... "objeito" das suas próprias práticas cognicionais] marca, aliás, em tese [juntamente com uma valoração verdadeiramente obsessiva e extensiva do lúdico] o modelo de estudo de todo o curriculo escolar básico e médio em Portugal, de há muito para cá.

De um "muito" que vai, de resto, para além da fronteira que foi o "ano charneira" de 1974, entenda-se...

Bom e posto isto, falemos, então, dos tais erros, a começar por este onde, contendo eu, a falta de leitura é evidente e explica em tese só por si o próprio erro.

Trata-se de algo contido na frase [extraída do texto "Apedrejamento mortal de jovens "adúlteros" confirma expansão dos taliban para Norte" da autoria de Ana Fonseca Pereira]:

"Por outro lado, com as forças estrangeiras a anunciarem planos de retirada, cresce a pressão sob [sublinhado meu] o Presidente Hamid Karzai para negociar uma "reconciliação" com os taliban."

O erro é evidente: a pressão é "sobre" e não "sob" o presidente.

O que explica a confusão da autora [o erro surge geralmente na forma inversa] é em tese a falta de coincidência operativa, durante o processo de aquisição/consolidação de linguagem entre o olhar, o pensamento e a atenção útil componentes inter-indissociáveis do processo de aquisição orgânica de conhecimento presentes idealmente na leitura individual.

Aí, eu vejo, penso e processo/registo em simultâneo o que confere à aprendização assim realizada a natureza idealmente orgânica que [exceptuando obviamente os casos marginais de dislexia ou qualquer outra perturbação estrutural nos mecanismos de organização do discurso] torna os "erros" úteis no sentido e na medida exactos em que a respectiva correcção pontual é ulteriormente reinverstível na própria orgânica nuclear e operativa de construção da aptidão discursional no seu todo, não constituindo, como sucede com as didácticas simplesmente "funcionais", meros reajustamentos de "desenho" ou circunstância na camada exterior do próprio discurso como tal e enquanto tal.

Ou seja: um aluno do "funcional" não erra, efectivamente---desencontra-se apenas, na in/essência, da geometria [da "geometricidade"] ou da mera geografia [da "geograficidade"] da textualidade a que o suposto erro se reporta.

Só quem da língua possui uma perspectiva orgânica e verdadeiramente motora, verdadeiramente dialéctica, "tem legitimamente direito ao erro", isto é, possui legitimidade para reivindicar o 'privilégio cognitivo' ou cognicional do erro.

Num ensino básica ou primariamente in-orgânico, a troca de "sobre" por "sob", por exemplo, oltando ao caso aqui proposto e que ilustra em tese bem a diferença entre os dois paradigmas de cognicionalização atrás referidos, configura, na in/essência, não rigorosamente um "erro" [que é, em si mesmo, uma coisa 'boa' porque aponta dialecticamente para a sua própria superação e para a ideal reconfirmação ulterior da identidade operativa assim como da da eficácia global de todo o processo de cognicionalização do real] mas uma mera perturbação de circunstância na «dinâmica melódica» puramente reflexa do discurso escrito, contaminado aqui claramente pela sua origem "oral" ou "oralizante", não reflexional.

Também o outro erro a que faço atrás alusão tem que ver com uma abordagem chamenmos-lhe "gestaltizante" e "gestaltizada" dos processos de cognicionalização e interiorização do Conhecimento.

Diz, a dado ponto do seu artigo: "Lopes da Mota cumpre castigo por pressões no caso Freeport", António Arnaldo Mesquita, o respectivo autor:

"Além da consumação daquele crime, Lopes da Mota terá ainda alertado os dois procuradores para o facto de a questão de o alegado crime de corrupção ser para acto lícito ou ilícito [?], o que não era inóquo [sic] para a contagem do prazo de prescrição".

Dando de barato que "inócuo" está obviamente mal escrito, a questão aqui [como, noutro exemplo que noutro ponto do "Quisto" adianto de "contaminação eufónica", aí entre "diabrura" e "diatribe"] prende-se com "a inércia aliteracional" que tende naturalmente a marcar a aquisição oralizante de discurso linguístico.

A qual, aliás, tem como "report" inevitável uma des-especialização consistente do próprio discurso, sujeito, assim, a constantes "perfusões sémicas" de natureza muitas vezses gratuita e, obviamente, a uma inaptidão gradual para a especificidade e para o rigor conceptivo do discurso e intelectual do próprio falante para quem passa a ser "a mesma coisa" dizer, por exemplo---caso extremamente comum!---"climático" ou "climatérico", não lhe surgindo como imperativo de rigorização e especificação necessária do discurso, o distinguir entre o que pertence, por um lado, ao clima---"climático"---e por outro, ao âmbito específico da "meno-" e da "andropausa": "climatérico".

Este "chegar lá perto pelo som" é, de facto, típico e tópico dos discursos "gestaltizados" e reflexos particularmente comuns no conjunto dos paradigmas de educatividade pós-modernos, fortemente marcados pela supressão tendencial da reflexão desvalorizada pelas i/lógicas contaminantes do jogo e da função como grandes referências não apoenas linguísticas, aliás, mas, de um modo mais amplo, existenciais e, num certo sentido, sobretudo, existenciantes .

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[Imagem extraída com a devida vénia de utas-dot-com]

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"«Domingo À Tarde», de António Macedo"


Um filme do desigualíssimo mas quase sempre, de um modo ou de outro, estimulante António Macedo.

Francamente interessante a mais de um título, o filme de Macedo [que possui a originalidade de pretender apresentar-se, antes de mais, como uma espécie de ilustração encriptada das ideias esotéricas do seu autor---propósito para o qual "inventa" e "enxerta" na "estória" original imaginada por Namora, um "segundo" filme de sua exclusiva responsabilidade que se propõe precisamente constituir uma espécie de contextualização doutrinária da narrativa-base] resulta, porém, do meu ponto de vista sobretudo importante, em termos históricos e cultu[r]ais mais latos, por constituir, juntamente com "Verdes Anos" de Paulo Rocha, por exemplo, um documento extremamente relevante da década portuguesa de '60, uma altura histórica, cultu[r]al e até [pasme-se!] política em que começa a ser difícil à ditadura manter o país isolado dos ventos de agitação e de mudança que vêm "de fora" [que vêm de uma África que começa a drenar substantivamente o País de energias e até de simpatias, internas e externas e inicia o gradual bloqueio do que à época se designava cautelosa---e cautelarmente...---por "o regime" mas que vêm, de igual modo, da Europa e que hão-de conduzir, por exemplo, ao Maio francês e às sucessivas repercussões que este viria a ter um pouco por todo o mundo]

O grande mérito de um Macedo ainda muito jovem e imbuído de lições cinematográficas várias [e fecundíssimas!] foi, a meu ver, o de ter, afinal, com ou sem propósitos de afirmação esotérica, sabido [como Rocha em "Verdes Anos" e, por isso, os citei juntos] traduzir em Cinema, em Cinema com maiúscula, aquilo que era à época a percepção que uma certa burguesia urbana intelectual [universitária, desde logo] tem de si mesma e do País.

De si mesma no País.

Baseando-se na obra homónima de Fernando Namora, o filme conta a "estória" de um amor impossível e trágico condenado à partida pela sombra imperndente e inevitável da Morte.

Visto no contexto histórico em que foi produzido, o filme [sobre o qual paira uma atmosfera opressiva e desesperada de "Fim", como no título famoso de António Patrício cujo nome e cuja Obra não cito aqui por acaso embora seja mais ou menos evidente ou, pelo menos, demonstrável que o propósito real de Macedo é o de discorrer de forma críptica sobre o que a sua perspectiva esotérica de abordagem do real entende serem os limites da possibilidade humana de conhecer] parece surgir como uma espécie de metáfora de uma sociedade tragicamente impotente para "curar" a realidade social e política que agoniza vítima de uma anemia justamente incurável que lhe cerceia os horizontes, lhe veda o acesso ao futuro, atirado tragicamente para esse "domingo à tarde" que nunca há-de chegar, esse simbólico "jour où l'on arrive jammais", porque a morte, o tal "fim" de que Patrício falava no seu drama ou um "fim" com evidentes analogias estruturais com ele, se interporá fatalmente.

Para além de alguns desplantes formais que, vistos de hoje, resultam quase ingénuos e, se calhar, não absolutamente necessários [ao contrário, o pormenor simbólico da língua "estranha" falada pelo "Impostor" e pelos outros personagens do "segundo" filme---que mais não é do que português reproduzido ao contrário---é originalissímo...], o filme joga muito bem com a frieza labiríntica e a secura claustrofóbica do hospital [um "não-lugar" ecoando a neutralidade da relação das personagens com o próprio real e uma referência tópica de absurdos no sentido preciso em que, existindo óbvia e primariamente para curar, revela afinal, a cada passo---reflectida verticialmente na figura desesperada de 'Jorge'---toda a sua trágica [e, admissivelmente metafórica] impotência a que Macedo atribui, aliás, um "significado esotérico" muito próprio.
.
É [tendo sempre presente aquela dupla linha de leitura que a obra, em tese ao menos, permite] um filme ele próprio seco e profundamente desencantado, lento e narrativamente "pantanoso", assumidamente "circular" e "viscoso", quase sem música onde a angustiante cisão do País em, por um lado, uma elite intelectual urbana completamente isolada e impossibilitada de intervir para corrigir aquilo de que tem, como na própria "estória" original de 'Jorge' e 'Clarisse', porém, um diagnóstico mais ou menos claro e definitivo---consensual até, em muitos aspectos---e, por outro, um povo atrasado, naufragado entre as suas inúmeras limitações de visão histórica, de consciência social e política; um povo de estranhos, de quase oníricamente improváveis mujiks que parece saído do cinema social e politicamente surrealizante de Fellini e cujo destino parece ser o de sofrer sem sequer se dar conta dos fundamentos efectivos do seu próprio sofrimento.

O filme de Macedo "é" [e vale] sobretudo, [pel]a lucidez de um estilo, i.e. desse registo que o realizador foi capaz de encontrar e genericamente manter para "dar" esse País escuro, encalhado e dividido, esquizofrénico, forçosamente lento e até um pouco louco que, por vezes [como 'Clarisse'] parece procurar a vertigem desesperada do suicídio como única saída.

Um país no qual a tecnologia agride tanto quanto o desespero; um país "tête contre les murs" que começa gradualmente [e, como é natural, "por cima"] a dar-se aguda e tragicamente conta do "fim".

"De Momento, É O Que O Há..."


Quer o quê?
Um guarda-redes de grande categoria mesmo caríssimo que valha pontos?
Para entrega imediata, em caríssimo, só temos Robertos: serve?...

[Imagem gentilmente cedida por anseios da alma-e etc.]

"..."


[Imagem ilustrativa "gentilmente cedida para o efeito" por kromus-dot-blogspot-dot-com]

"Já Viram o meu Azar??!!"

Bolas, pá, já é azar!
Eu que até, nem em miúdo, achava graça aos robertos!...


[Imagem ilustrativa "gentilmente cedidas" por juizdemeiatijela-dot-blogspot-dot-com]

"A Realidade Alçada"


Já imaginaram, por exemplo, uma ministra da saúde [quando, um dia, houver em Portugal ministros e saúde, claro...] a declarar com o ar mais sério deste mundo que a "doença e a morte não têm contribuído para a qualidade do sistema de saúde em Portugal" e que, por isso, o governo a que pertence vai propor à assembleia da república a ilegalização definitiva de uma e outra?

Que "a realidade é ilegal" e que o "lobby" ou a "corporação" por ela liderados devem ser "metidos na ordem com a necessária firmeza", em nome das «boas práticas epistemológicas, cosmovisionais e de consciência» e «especificamente cívicas e políticas»?

Que o País não pode ser abandonado ao arbítrio de "uma qualquer realidade que ninguém sabe quem é e o que pretende verdadeiramente dos povos da História" e que, "quando a ficção e os factos se contradisserem consistentemente entre si, a quem deve ser reconhecida razão é à ficção porque "é muito mais vistosa" e estimulante e até dizem que abre o apetite às crianças franzinas que se recusam a comer a Blédine de maçã dizendo que sabe a uma coisa feia que que eu agora não digo mas todos sabem que geralmente é castanha, mole e cheira mal?

AINDA não imaginaram?!

Pois bem: não desanimem, ham?

Não desesperem que Roma e Pavia não-se-fizeram-num-dia, que com boa vontade [e a gente certa...] tudo se consegue e que, de qualquer modo, daqui até às próximas eleições com o Vital Moreira no caso e o Lacão na jogada não hão-de faltar ocasiões para que a catástrofe seja perfeita e total e para que a m. cumpra finalmente o seu [patriótico e bem português, heim!...] dever...

[Imagem "Berry", da Net]

sábado, 14 de agosto de 2010

"Olha que Dois!..."


E que poderá o "cavalheiro" da esquerda estar a sussurrar ao ouvido da Nokas?...

"Murphy"

A tribute to Samuel Beckett

"Zeitgeist, affiche pour un filme qui n' existe pas..."


Colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado

"The Cariboo Trail"


Texto a inserir

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Happyland-II"


Inédito, colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado

"Under Western Eyes-I"

Inédito, colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado

"Under Western Eyes-II"


Inédito, colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

"The Are Moments in Life..."


... when you actually come to realize what Beckett is all about...

[Na imagem: Fiona Shaw as 'Winnie' in Samuel Beckett's "Happy Days" an experience in disintegration, mineralization and dissolution]

"O Sistema na Encruzilhada: Alguns Aspectos da Crise do Capitalismo Contemporâneo" [Incompl./por rever]


Uma ideia [não sei se é legítimo que diga: uma "tese"] que venho defendendo, há muito, assenta na ideia de que, para o capitalismo de hoje, a "solidariedade", interna e externa, e, de um modo lato, a "generosidade", colocadas exactamente onde o socialismo coloca o internacionalismo, se tornaram paradoxalmente essenciais tendo em conta a respectiva sobrevivência material.

A sobrevivência material de um modo de produção, precisamente ao contrário do socialismo, nuclearmente assente na concorrência e no interesse...

A verdade, porém, é que, vivendo primária e in/essencialmente, da «desigualicidade estratégica» que introduz a montante de si [e como «pressuposto funcionante» de si!] nas sociedades onde impera, i.e. assentando toda a sua lógica e a sua possibilidade nas desigualdades des/estruturais que gera e de onde retira, de facto, a sua própria ideia de "valor", o capitalismo apenas pode subsistir se dentro desse quadro primário de "desigualdade estratégica" que gera a fim de extrair "valor" de tudo, conseguir manter [é esse, de resto, o papel histórico do Estado dito "social"!] valores de estase [ou seja uma ecologia económica, social e política] determinados e precisos.

A partir de determinados valores de ruptura dessa "ecologia" [isto é, a partir de deternminado nível de «disfuncionalidade possibilitante» introduzido nas sociedades e nas classes sociais onde se instala e onde opera o sistema torna-se objectivamente insustentável e bloqueia.

Onde há capitalismo, há necessariamente aproveitamento de matérias-primas alheias.

Então, há também a necessidade de impedir que localmente, nas sociedades e nos países de onde provêm essas matérias-primas, se desenvolvam indústrias que possam naturalmente utilizá-las retirando-as da exportação e, por conseguinte, impedindo que cheguem aos países importadores onde vão alimentar a produção de "valor".

Mas não só: é vital [e para isso volta a servir o Estado na forma de exércitos e alianças militares, no duplo sentido da palavra "aliança"...] que também outras potências acedam às mesmas matérias-primas---pelo menos, em iguais condições de aquisição.

É isso que explica as guerras como a que decorre mais ou menos em permanência no Afeganistão, por exemplo e as invasões como a do Iraque, circunstâncias que devastam os países em questão, impedindo-os de estabilizar e de se desenvolverem mesmo somente de acordo com os padrões de desigualdade estável e des/estrutural do próprio capitalismo.

Só que essas políticas de esvaziamento sistémico local, em sentido lato, possuem, por vezes, lógicas e dinâmicas próprias que o próprio sistema não prevê e sobretudo não controla por inteiro---e as guerras em questão acabam por se transformar em sugadouros de capital que obrigam os países que as fazem a ter de, por outro lado, fazer concessões [como os E.U.A. à China e à Rússia e aos respectivos interesses geo-económicos e geo-políticos] com que não contavam e que vão, por sua vez, pôr política e geo-politicamente em causa os interesses da potência que desencadeou todo o processo.

Surge, então, a necessidade de "agir civilizadamente", isto é, de a potência ou potências militaristas se comportarem como verdadeiros Estados tolerantes, "solidários" e "pacíficos", senão mesmo ocasionalmente... "pacifistas".

O pacifismo e a tolerância surgem, assim, como uma necessidade secundária ou até mesmo terciária puramente instrumental de recuperar equilíbrios estratégicos, internos e externos, que a lógica inicial tinha acabado por romper.

A História recente da Europa fornece um óptimo-péssimo exemplo de tudo isto com Hitler e o nazismo cujas políticas expansionistas de pilhagem de matérias-primas e conquista de colónias que correspondiam obviamente, numa primeira fase, aos interesses vorazes do grande capital alemão que apoiava Hitler acabariam por dar origem ao quadro de democracia funcional para cujo seio o grande capital financeiro alemão, mesmo ainda antes do final da guerra, transferiu o seu apoio ou o seu investimento político quando perceberu que apenas "democratizando-se" e tornando-se "pacífico" lograria conservar a sua posição e o seu estatuto de verdadeiro e efectivo poder na Alemanha e fora dela até onde chegavam os seus interesses e a sua influência.

É por isto que é possível [e que é correcto!] dizer que a paz "deu um jeitão" ao poderoso capitalismo germânico na sua estratégia de sobrevivência a qualquer preço relativamente ao final da guerra e à queda de Hitler do mesmo modo que a "solidariedade internacional" inevitavelmente vai dar a uma "Europa" que começa a revelar-se dificilmente capaz de lidar com os movimentos migratórios que resultam, em última análise, de políticas de esvaziamento económico sistémico e "estratégico", destinadas a abrir caminho [e a manter aberto o caminho] aos fluxos constantes de matérias-primas da periferia para o centro do próprio modo de produção.

Ou seja: começam aparentemente a entrar em ruptura os valores ecológicos de rarefacção e desigualdade sistémica que o próprio capitalismo teve de criar e cultivar a fim de poder prosperar ou até mesmo simplesmente funcionar.

É claro que há os Berlusconis, os Finis, as extremas-direitas xenófobas que apenas querem ou dizem querer devolver os imigrantes [e às vezes não só: às vezes, com a água do banho, vai também o menino que é como quem diz com os verdadeiros imigrantes vão também muitos que o não são, apenas vêm de outras etnias que não as que o racismo, regendo-se por padrões arbitrários de cor ou fisionomia, "permite"...] para os países de onde provieram e onde não existem indústrias capazes de fixá-los ou até simplesmente alimentá-los.

Mas esses, de facto, não contam precisamente porque as análises que fazem da realidade social, económica, geo-económica, histórica, etc. se caracterizam pela superficialidade e, de um modo mais lato, pela total incapacidade para perceber o mundo em redor e antecipar as respectivas formas e modos, a prazo.

Também internamente, pois, a necessidade de "ser social" se impõe como pressuposto e condição de sobrevivência do próprio capitalismo: há, aliás, como é sabido, partidos que, simulando astuciosamente agirem "à esquerda do regime", jogam tudo ou quase tudo em termos daquela sobrevivência na defesa do que afirmam ser a "generosidade e/ou o empenhamento social solidário" cujo suporte ou suportes institucionais [o tal Estado Social] na prática, porém, desmantelam gradualmente, por inteiro.

O grande problema do regime [um problema que eu, pessoalmente, considero objectivamente insolúvel e, por isso, me permito avançar a tese de que, como sociedade histórica, nos acharmos perante, não um fim da História mas seguramernte em face de um verdadeiro---e, em tese, decisivo---"vértice civilizacional" que nos vai obrigar a rever praticamente tudo dentro da História e dos nossos modos de protagonizá-la a partir da Economia e da Política]; o grande problema do regime consiste, dizia, em seguir alimentando o Estado funcional [dito erradamente "social"] nos tempos que correm e com a «disfuncionalidade sistémica» do próprio regime a romper já o «equilíbrio funcionante» até há pouco existente entre o capital constante [i.e. a quantidade de conhecimento transformado em tecnologia usada na produção contínua de capital] e o capital variável [ou seja, a mão de obra que deveria por sua vez converter-se ulteriormente em mercado e que desactivada não pode fazê-lo sem uma mudança drástica no modelo "social"] no interior mesmo do próprio modo de produção.

É isso, aliás, que nos diz um texto do "Público" de 28.08.09, escrito por Carlos Fiolhais ["Portugal Desigual"] onde são citados valores numéricos que ajudam a perceber e a quantificar, no fundo, tudo quanto tenho vindo a dizer.

Escreve o autor por exemplo, citando uma obra inglesa ["The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better"] da autoria de Richard Wilkinson e Kate Pickett que "chamam a atenção para o facto de se nos países onde há maior desigualdade de rendimentos que há também maiores problemas sociais e de saúde, designadamente maiores taxas de criminalidade, de obesidade, de doenças mentais, de gravidez na adolescência, de insucesso escolar, etc. : os vários indicadores relativos à incidência deste tipo de maleitas estão bem corelacionados com a desigualdade social. Claro que correlação não implica uma relação de causa-efeito, mas Wilkinson e Pickett dizem-nos que essa desigualdade coloca um país sob grande tensão, gerando dificuldades acrescidas para todos: não são só os pobres, que sofrem sempre com o seu estado de marginalidade social, mas é também o resto da população de um país---classe média e ricos---que fica pior. Como resume o subtítulo: Sociedades igualitárias funcionam quase sempre melhor".

Citei o artigo de Carlos Fiolhais porque se trata de um autor insuspeito de ser comunista e estar, por isso, sistematicamente, "contra" o regime económico-financeiro e político em que vivemos.

De facto, aquilo que eu penso sobre esta matéria das desigualdades é berm maias grave ainda: por um lado, penso, como já por diversas vezes, afirmei que é uma questão sistémica e portanto que a geração de "dificuldades" como diz o artigo não depende, em última instância, da boa ou má vontade de quem protagoniza e de quem gere o próprio sistema: depende sim de factores endógenos cíclicos que o Estado dito "Social" e a que eu chamo por razões que julgo em si mesmas claras, «o Estado instrumental» foi conseguindo até há pouco mais colmatar do que propriamente controlar.

Mas, mais grave ainda do que isso, divirjo do artigo em quantidade, digamos assim, também no ponto em que considero que o problema vai muito mais além da obesidade ou do crescimento das taxas de criminalidade.

De facto, o problema é o da esquizofrenia assistémica do próprio modelo a qual eclode a partir de um certo valor teórico de inserção de tecnologia no próprio modo de produção, valor-charneira esse que, uma vez atingido, induz a desecologização atrás referida i.e. leva à ruptura da estase capital variável-capital constante, introduzindo um autêntico «corte epistemológico» na ideia cultu[r]al e política teórica mas também prática de "indivíduo", de "pessoa" e/ou "cidadão" que o sistema deixa de ser capaz de reintegrar continuamente enquanto produtor, necesitando, todavia dele, "mais à frente", como mercado.

Ora, se o Estado deixa, por sua vez, através da redução drástica do investimento no social, de ser capaz de capitalizar todo o modelo, a consequência apenas pode ser a falência dos diversos deste e a respectiva "morte".

É verdade que o caminho para a dilação desta só pode ser o da reinvenlção e da repossibilitação das formas de "generosidade sistémica" que permitiram ao modelo ir-se sobrevivendo.

O problema para o sistema é que isso, daqui em diante, só é já, em tese, possível com aquilo que, em meu entender, "já é Esquerda": verdadeira Esquerda: a reconsideração nuclear do papel económico e político da propriedade.

Ou seja: a "generosidade funcional" pode adiar a falência do sistema e, com ele, de "uma certa imagem da História" e de todo um quadro civilizacional em si, até mas apenas a verdadeira solidariedade que é estrutural e não funcional; que é política e não apenas ou não realmente económica pode salvar a História de se afundar com a economia "que contém".


[Na imagem:Specimen extraído com a devida vénia de graphicnovelart-dot-com]