sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Consulta", soneto de Antero de Quental"


Continua a minha aparentemente insanável dificuldade para organizar e dar um sentido preciso, definido, às emoções após a inominável catástrofe que ocorreu há dois dias no Haiti.
Talvez apenas textos
[e um discurso] como aqueles que se seguem possam, com alguma possibilidade de êxito, definir o rumo exacto daquelas e definir para elas um sentido último, claro e minimamente consistente...


CONSULTA

[A Alberto Sampaio]


Chamei em volta do meu frio leito
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito...

E disse-lhes:--No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito...

Mas elas perturbaram-se--coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena...

E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: --Não, não valia a pena!

ANTERO DE QUENTAL

3 comentários:

Ava disse...

Por mais que procuramos racionalizar e dar sentido a todos os acontecimentos catastróficos que acontencem á nossa volta, por uma necessidade institiva do nosso proprio ser, a verdade, é que nos é humanamente impossível de o conseguir. Mas isso não impede de que estejamos solidários com o sofrimento humana. Sendo também a Solidariedade já por si, um bem em extinção, no meio de um mundo frio, egoísta, calculista e insensível, em que se tornou a nossa sociedade.

Quanto ao soneto de Antero de Quental, que não conhecia, só tenho a dizer que além de ter gostado me tocou também.

Desejo-lhe um bom domingo.

Carlos Machado Acabado disse...

Ava:
Viu o filme do Rohmer, o primeiro, essa coisa arrebatadora e deslumbrante que se chama "Ma Nuit Chez Maud"?
É, num certo sentido 'metafórico', pessoal e íntimo, a [sublime] ilustração narrativa e plástica da sua própria perspectiva sobre a Vida...
A exposição das linhas mestras de um "educado e esperançoso" sempre "lucidamente suspeitoso relativismo" que nos mantém, afinal, a todos presos ao "lado de cá" do sentido---um lado ou uma 'fronteira epistemológica' que o Antero, por exemplo, a dada altura, franqueou---com os trágicos resultados pessoais que se conhecem.
Essa é, aliás, uma das razões pelas quais eu admiro o Rohmer: pela ressituação subtil que faz da questão crucial da necessidade humana de acreditar em alguma coisa e de ir continuamente alimentando os próprios mecanismos subjectivos, interiores, íntimos que presidem ao desejo material de sobrevivência precisamente onde a Ava os coloca: numa espécie de "educado e esclarecido pessimismo" que pode, todavia, sder visto exactamente ou contrário [ou talvez não...] também como uma espécie de "esperança céptica e tentativa", "invertida", que se substitui, no fundo, com alguma possibnilidade de êxito existencial a um sentido último e intrínseco para as coisas que, por completo, se perdeu.
É curiosa a coincidência entre o que escreveu e o filme que passou ontem na "2"...
Um óptimo domingo para si, também.

Carlos

Ava disse...

Tenho pena de não ter visto o filme, não o conhecendo e não o tendo visto não posso comentá-lo! No entanto, reconheço nas suas palavras aquilo que eu pretendia dizer nas minhas.

Mas quanto ao filme, vou tentar encontrá-lo para o ver e tirar as minhas ilações.