sábado, 31 de julho de 2010

"Um sítio em Lisboa"


O Bairro Alto!

A Lisboa que corajosamente resiste a tudo---até aos seus próprios habitantes!

A alma da cidade e a minha própria encontram-se aqui com a frequência que a vida, cega e implacável, vai permitindo.

Anda por aqui, a horas mortas [e às vivas---que são, no fundo, todas---também!] o espírito de Cesário, de Pessoa, de Pacheco, de Cesariny, de O' Neill conferindo um sopro de emocionada vitalidade à perfumada geometria interior da grande cidade branca de Tanner...

"Para que o não esqueçam..."


...as consciências ou deliberadamente o banalizem as... petrolíferas cumplicidades multinacionais, aqui se regista mais um acto de bárbara, cega e caracteristicamente indiscriminada retaliação do "democrático" [e muito "civilizado"!] estado de Israel sobre o "lager" internacionalmente conhacido por 'Faixa de Gaza' em resposta a um rockett alegadamente lançado pelos guerrilheiros do Hamas.

O acto em causa---mais um bombardeamento israelita---teve lugar no 'normal' cumprimento das respectivas políticas de "totaler Krieg" levadas a cabo por Israel na região, "política" essa de que era [trágico!] "exemplo" anterior o ataque de tropas especiais judaicas ao barco civil turco com alimentos para a população palesttiniana da sitiada Faixa de Gaza de que resultaram várias mortes entre a tripulação do navio humanitário.

Até quando continuará a consciência das nações civilizadas, designadamente daquelas que constituem a chamada 'União Europeia', a garantir pela inacção [que as torna cúmplices materiais da inominável barbárie israelita] a impunidade das "políticas" de criminoso sufoco militar e de subtil extermínio administrativo de um povo inteiro confinado pela força das armas às fronteiras de um estado-prisão à escala [inimaginavelmente] nacional?...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

"Três Coisinhas Que Me Vieram De Repente, Quase Por Acaso, ao Espírito..."


Primeira: um projecto, a escrita futura de "O Portugal Amerdaçado".
Subtítulo: "Breve ensaio sobre os restos morais da República na escória recente de Portugal"...

É uma história realista sobre a realidade política nacional que dedico, para começar, àquele que é indiscutivelmente um dos mais brilhantes e promissores humoristas portugueses do nosso tempo: José Pinto Monteiro.

Segunda, uma reflexão sobre o País: a agudização drástica da crise de valores no Portugal de hoje deve-se basicamente a duas causas: José e Sócrates...

Terceira: uma interrogação que é também uma aspiração pessoal e um sonho sentido: se até a Escandaliza Vai-se por que carga de água não hão-de ir todos os que em Portugal continuam impunemente a escandalizar?...


Pois...

"«Fim da História» ou «Vértice Civilizacional»: Breves Reflexões Pessoais Sobre a Crise Económica"


Começo por um texto de José Manuel Fernandes, no "Público": tem data de Março de 2010 [19.03.10] e intitula-se "Este PEC devia chamar-se DEC. De decadência".
O tema é o que o título tão directa [senão tão rebarbativamente] começa logo por enunciar: o chamado Plano de Estabilidade e crescimento da dita União Europeia.
Sobre este muitas coisas haveria a dizer em matéria de hesitações, arbitrariedades e dificilmente explicáveis contradições---e J.M. Fernandes [honra lhe seja feita!] diz algumas delas.
Não que é quase impossível a alguém com um mínimo de bom senso dizer.
Para mim, no texto do ex-director do "Público", mais uma vez, o problema não é a o diagnóstico: são a terapia---e a [suposta] "cura".
Mas já lá vamos, já lá vamos...
Para já fiquemo-nos por algumas [eloquentes] citações:.
Primeira: "O PEC é mau e perpetua a mentira em que temos vivido porque não enfrenta---se bem que também não ignore---o nosso principal problema: não somos capazes de crescer. O país está estagnado há uma década, bastando recordar que o PIB per ccapita em 2009 ter-se-á situado, a preços constantes, ao nível de 2001. No quinquénio de Sócrates, o crescimento médio do PIB quedou-se nos 0,1 por cento, isto é, em nada. O PEC, mesmo assim, prevê um crescimento médio de um por cento em 2010-2013, o que está no limite superior do optimismo, mas não deixa de ser anémico. Mais: com os cortes que o PEC prevê no consumo e no investimento público é duvidoso que mesmo esse valor pouco ambicioso possa ser alcançado, sobretudo porque a Europa toda está a querer colocar as contas públicas em ordem e dificilmente a procura externa para as nossas exportações compensará a dieta interna.
Segunda: "Na verdade, o PEC, por falta de ambição estratégica, consagra um ciclo vicioso: como o Estado não pode endividar-se mais, corta no consumo público e, no que toca ao investimento, este diminuirá".
Sobre o amadorismo, o voluntarismo e sob diversos aspectos a incompetência demonstrável [e demonstrada!] de Sócrates e Ca. Lda. estamos conversados.
Os factos---e os números---falam por si [e José Manuel Fernandes aponta alguns bem graves er bem preocupantes.
Sócrates é um piloto de cacilheiro que está perdido se o obrigarem a sair do conforto estático da linha recta que separa o Terreiro do Paço de Cacilhas--- precisando, já agora, sempre de ver ambos ao mesmo tempo... "para se orientar".
Os seus em regra inomináveis ministros não ajudam, claro, mas Sócrates como Santana Lopes não pode aspirar a mais---nem melhor: onde "o outro" tinha a improvável Seabra e mais toda uma coorte cujos nomes piedosamente já todos esquecemos tem ou teve "este" os Pinhos, as Rodrigues, os "Jamés", as escritoras pedo-pimba de rabo alçado, promessa fácil e risinho tolo.
O problema não é esse: o problema é obviamente mais fundo.
Que Sócrates não é homem para gerir dificuldades [resta saber se o faria de forma minimamente competente o ex-aluno da Independente a quem devemos algumas das mais criativas---e voláteis---autobiografias oficiais assim como alguns dos mais definitivos exemplares da arquitectura "bosta de mamute"]; que Sócrates, dizia, seria sempre o pior remédio contra os problemas é pacífico; a questão, porém, é: sê-lo-ia objectiva, materialmente alguém?
Continuando a citar José Manuel Fernandes.
Terceira citação: [...] como o Estado não pode endividar-se mais, corta no consumo e no investimento público e, no que toca ao investimento, este diminuirá para níveis historicamente baixos, o que traduz o abandono de qualquer estratégia keynesiana, tão defendida ainda há algumas semanas; como, mesmo assim, o nível da dívida já é muito elevado e o peso dos juros também, procede-se a privatizações para tentar, com receitas extraordinárias, travar a espiral de endividamento, mas esquecendo que alguns dos compromissos das parcerias público-privado só caem depois de 2013, quando já não haverá nada para vender; como, mesmo assim, o peso do Estado não diminui, aumentam-se os impostos e os encargos associados à criação de emprego, assim comprometendo uma retoma pelo lado da economia real".
Ora, para mim, desta análise [difícil de refutar nas suas linhas básicas] resulta difícil não se ser forçado admitir, ao menlos em tese, que se terá chegado [entre nós mas não só entre nós: "há por aí Grécias" em graus e para gostos variados, pelos vistos...] a um "cul-de-sac" estrutural em cujo contexto Sócrates não passa de uma piada de mau giosto mas sem verdadeiro peso ou relevância.
Há muito que venho, com efeito, defendendo que a chamada [ou chamável] "economocracia democapitalista pós-industrial" é uma espécie de aviãozinho completamente dependente que só consegue levantar voo e operar [sobreviver] se por perto andar [devidamente camuflado para se confundir o mais eficazmente possível com o próprio mar...] sempre o "porta-aviões Estado" para i-la reabastecendo e, assim mantendo, a ficção imediata da respectiva autonomia.
Ou seja: a função 'neo-burguesa' do "Estado [dito] Social" não é, na realidade, a generosa e solidária função de humanizar continuamente um sistema---o capitalista---des/estruturalmente des-igual [e socialmente disfuncional]; a função do referido modelo de Estado ou de "estaticidade prática" e até, de alguma forma "teórica" [Keynes tê-lo-á, afinal, em última mas real análise, "dito" de outro modo] para além de conservar através de diversos planos de "subsidiação funcional" o modelo económico-social políticamente tolerável e, portanto, objectivamente possível, desempenhava cumulativamente esse outro papel essencial de recapitalizar um mercado que o próprio modelo a funcional normalmente ciclicamente desequilibrava e comprometria.
Tão simples quanto isto: o Estado dito Social sempre esteve politicamente "ao lado do sistema", para o qual foi, durante décadas, um excelente [um capital e indispensável] investimento ou reinvestimento funcionante destinado, pois, a evitar a implosão social e política do próprio modelo, como tal.
Keyns não é senão o "reinvestimento teorético" neste duplo princípio funcional sobre o qual assentou "en fin de partie" a sobrevivência material do paradigma democapitalista ocidental que, com o uso funcional do Estado "roubou a História ao socialismo" [ao de Marx e do marxismo] e foi conseguindo, "tant bien que mal" conservar a respectiva "propriedade" ao longo de décadas.
O que está a suceder hoje são tão-somente contradições [objectualmente insanáveis mas também "fatais"] do próprio modelo de apropriação da realidade do democapitalismo industrial, primeiro, e pós-industrial-tecnológico, em seguida.
Este, com efeito, ao converter o conhecimento numa forma de, primeiro, propriedade [foi o seu argumento histórico e político básico para "comprar legalmente a História" à aristocracia, no final do século XVIII] e, depois, num capital [num proto-capital e/ou matéria-prima chave no processo de re/produção contínua de capital] operou um verdadeiro corte epistemológico nessa mesma História ao reduzir progressivamente [até ao limiar da disfuincionalidade, de facto] o papel estrutural e nuclear do capital variável [a tecnologia transformava-se automaticamente em capital fixo e era imediatamente investido na produção sem passar pelo Homem] o que vtrouxe como consequência inevitável a cisão teórica e prática da ideia de indivíduo ou cidadão.
Isto é, se a burguesia entrou na posse da herança histórica porque pôde argumentar que dispunha do poder de transformar a realidade em valor que a aristocracia perdera, os sectores não-possidentes, o proletariado, foram autorizados a entrar nela devisdo à única forma de propriedade de que dispinham e quie era essencial, indispensável, para fazer funcionar a economia e, por conseguinte, a própria História: a força de trabalho.
Esta comprou-lhe um lugar na História mas não foi a única coisa que o fez: ao lado desse papel crucial de produtor, existia uma segunda "função" dos indivíduos e da sociedade que era a de se converterem naturalmente em mercado, reciclando, desse modo, o investimento feito em salários e subsídios ditos "sociais", quando e onde passou a havê-los.
E passou a havê-los exactamente por isso: para operacionalizar continuamente o sistema, roubando-o ao mesmo termpo ao socialismo.
Ao integrar historicamente o saber na História na forma de propriedade privada e matéria-prima básica no processo de 're/produção significada' de capital, o sistema económico-político, roubando de passo "espaço funcionante" ao indivíduo produtor, "dissociou ou des-integrou teoreticamente", digamos assim, o conceito de "indivíduo", de cidadão, ao pretender aproveitá-lo continuamente como mercado, mas dispensando-o a montante como produtor.
O peso "desmesurado" do Estado de que fala Fernandes no seu artigo nasce sistemicamente daqui, desta necessidade angular de recuperar a ecologia do modelo, do modo de produção, posta continuamente em causa por ele próprio ao "voluir" naturalmente.
O mito de que o Estado social é "generoso" e paga com crescentes dificuldades a sua "desinteresasada generosidade" não passa disso mesmo: de um mito que apenas é possível conservar vivo na "cultura" do capitalismo moderno e pós-moderno porque este conseguiu já "comprar" no essencial as elites pensantes do sistema por si formado [entre as quais elites se encontra aliás, o autor do artyigo que comecei por citar, José Manuel Fernandes, o autor do artigo do "Público"].
O mito sobrevive à custa da incapacidade de grande parte das forças de Esquerda [encurraladas e mantidas "em respeito", "at bay", por uma Idade Mídia onde só os grandes grupos económico-financeiros voltaram a ter voz pública audível] para gerarem elas mesmas uma cultura consistente e extensiva assim como uma inteligência da realidade própria e verdadeiramente audível.
A velha ideia não-expressa de "cidadania funcional" que permitioa manter as sociedades, de uma forma geral, orgânicas ["funcionalmente orgânicas"] perdeu com todo este processo de "enclosing estratégico" dos bens, da propriedade, que vem, numa certa "forma significada", desde a Revolução Industrial inglesa; essa velha ideia geralmente não-expressa, dizia, perdeu naturalmente substância e fundamento.
Como eu costumo dizer: para o capitalismo passou a representar um luxo verdadeiramente incomportável possuir uma sociedade".
O problema é que sem sociedades não há mercado e, por conseguinte, deixa de haver sistema.
Este autêntico corte epistemológico introduzido pelo democapitalismo trecnológico na ideia de "indivíduo" está pressupoasta mas eloquentemente reflectido noutro texto que quero aqui citar, este outro, do "Expresso" de 26.06.10 [Cf. Henrique Raposo, "Fadas socialistas"] onde o autor se insurge, de forma veementemente escadalizada, contra a "loucura" do que chama o "princípio da proibição do retrocesso social".
Por que digo que no texto de H. Raposo se reflecte este "corte" de que atrás falo?
Porque ao admitir que as leis da própria natureza podem [e devem!] no limite submeter-se às leis circunstancialmente políticas do sistema, dependendo sempre a felicidade e o bem-estar económico, social, político, cultural, etc. dos indivíduos secundária e decorrencial ou instrumentalmente do do próprio sistema económico-financeiro como referência fixa da máquina social; ao admitir implicitamente tudo isto, dizia, o autor está, afinal, a dizer tudo o que há para dizer e saber sobre as bases conceptivas, filosóficas ou filosofantes, teoréricas, de episteme sobre o próprio sistema como tal.
Não se trata, já, pois, "apenas" de dividir ao meio o conceito de indivíduo, separando artificial, exógena e absurdamente o "produtor" do "comprador", bno contexto de uma visão da realidade que surpreende pelo absurdo: agora, está cumulativamente em causa obrigar o homem biológico a submeter-se ao homem político [ao "homem sistémico"] dizendo-lhe que só pode, por exemplo, alimentar-se ou vestir-se quando o sistema lho permitir que o mesmo é dizer: quando o próprio sistema, pela voz de um Direito próprio cada vez mais naturalmente exigente, se declarar a si próprio "alimentado" e "vestido".
"Os senhores reformados" exigem a "loucura" da "sacralidade das suas reformas", conhecendo nós o valor médio das "sagradas" reformas em causa?
A "matemática" nega-o e los governos mais não devem fazer do que conferir expressão política a uma matemática "de classe" que, pelos vistos, das leis da natureza percebe muito pouco...
Mas eu comecei por dizer que concordo com o diagnóstico [o de Fernandes e sob vários aspectos este de Raposo, no "Expresso", também].
Concordo, de facto.
O que refuto são a interpretação que a eles se segue---e as "curas" propostas.
A interpretação porque, da minha perspectiva sistémica e humanista pessoal o que está, efectivamente, em questão não são politicas ou soluções "assistémicas" de natureza descontextualmente política.
Em resultado do processo de proprietarização e de consequente capitalicização do conhecimento e da respectiva disfuncional "entrada significada", política, na História e na realidade em geral o que está em causa é o próprio modelo como tal.
É ele que não tem saída sem recuos radicais dificilmentre pensáveis [envolvendo a "des-industrialização estratégica" e/ou a "descientificização ou desautomação significada" de partes importantes de si e a reintegração do Homem na realidade produtiva em vez dos actuais esboços impossivelmente para-keynesianos de que fala---para excluir a respectiva possibilidade objectiva hoje, Fernandes no seu artigo---envolvendo injecções selectas de dinheiro através da subsidiação de um "não-proletariado" ou "desproletariado in/orgânico" [de modo a mantê-lo vivo na economia e... morto ou, pelos menos, adormecido na política] que o sistema está, pela sua própria natureza específica, fatalmente condenado a gerar.
A subsidiação comprou durante muito os dislates teoréticos como os sobressaltos materiais de um sistema in/essencialmente disfuncional e, por definição, disfuncionador.
A chamada União Europeia com os seus vários Sócrates, Barrosos e companhia não parece ter outra "solução" para a situação económico-financeira gerada para além de recorrer a uma contabilidade de merceeiro e a uma política ou políticas de sapateiro incapazes de, como nota Fernandes, ver um palmo adiante do nariz, confiada na falta de capacidade efectiva das esquerdas para explicarem com recurso aos respectivos intrumentos teóricos e analíticos o que realmentre--o que sistémica e civilizacionalmente---se está a passar?
Isso é evidente!A resposta de todas essas forças sistémicas de que José Manuel Fernandes ou Henrique Raposo são porta-vozes nunca ultrapassa o fechamento histérico ulterior [como nota Fernandes] ou o surrealismo existencial [quando não a irrsponsabilidade intelectual e o despudor puros e simples, no caso do "alegremente liberal" "Expresso"].
À sua maneira aparentemente distinta, porém, ignorando os verdadeiros fundamentos da "crise", o que ambos fazem é, no fundo, tentar "endireitar a sombra da vara"---e nem sequer muito reflectidamente e muito bem, aliás...


[Imagem extraída com a a devida vénia de paperblog-dot-com]

quarta-feira, 28 de julho de 2010

"Atestado de menoridade judicial?..."


...ou admissão tácita de inexplicável subserviência a entrega do independentista e alegado membro da ETA detido em Portugal às autoridades espanholas a fim de ser julgado num país onde as alegações de tortura sobre detidos de natureza política são constantes e deviam, por isso, merecer alguma reflexão por parte de quem lhes coloca assim nas mãos prisioneiros, daí lavando, em seguidas, as suas próprias púdicas e imaculadas mãos... como Pilatos?

Em nome de um certo humanismo e de uma certa ideia de civilização a ele directamente associada [hoje-por-hoje, um e outro, completamente arcaicos e "démodés", convenho mas enfim...] eu, pessoalmente, tomo aqui frontalmente posição pública pelo repúdio, puro e simples!

"Homage to Catalonia..."


... de uma das autonomias mais íntegras, consistentes e culturalmente mais luminosas, a Catalunha, vêm coisas que nos fazem acreditar que, afinal, nem tudo está perdido numa pseudo-Europa economocrata e grosseiramente peseteira, que alguns só descansam no momento exacto em que a virem completamente refém "por decreto" dos grandes interesses económico-financeiros multinacionais e jurando forçadamente, a uma só voz---a dos Tratados de Lisboa e quejandos---por Bruxelas e Estrasburgo...

Falo concretamente da interdição das corridas de toiros naquela que, por isso mesmo, surge, hoje mais uma vez, como uma espécie de vanguarda cultural incontestável da "hispanidade inteligente" e responsável impondo-se, pela força dificilmente ignorável da Razão [e] da Cultura, àquela outra Espanha sempre ameaçadora e impendente "de charanga y pandereta, de cerrado y sacristia, de espíritu burlón y alma quieta" que sonha ainda, mau grado tudo e todos, "helar el corazón" a alguém ou alguma coisa...

Viva a Catalunha?
Viva ela, viva a Inteligência e viva [ao menos por uma vez...] a Civilização!

terça-feira, 27 de julho de 2010

"Moody blue"


[Imagem extraída com a devida vénia de gegerleigh-dot-blogspot-com]

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"One-Oh-Three?..."


Why-ever not?...

"Zeigeist"

Isadora Duncan e Gloria Swanson.

domingo, 25 de julho de 2010

"A Secret Code? You Betcha!..."


"«Ideologia e Constituição»", breves Reflexões Pessoais Sobre um Artigo de José Manuel Fernandes no «Público» de 23.07"


A edição de 23.07.10 do "Público" incluía um extenso texto de José Manuel Fernandes, antigo director do jornal, artigo esse cujo título, uma curiosíssima [e subtilmente provocatória] "citação" de Goebbels, me chamou naturalmente a atenção---como, de resto era, obviamente, pretensão de quem o escolheu.

Chama-se a peça em questão: "Quando ouço falar de mais liberdade, puxo logo da pistola".

Aparentemente, a "liberdade" que tende a fazer de um, julgo eu que, pacífico, sereno e responsável, pacato, ex-director de jornal, o feroz pistoleiro que o título tão sonora e tão determinadamente anuncia não é tanto a liberdade em si como a de contestar ou a de divergir do [legítimo, como é óbvio, embora não exclusivo] conceito de liberdade do próprio articulista, tal como fica claro da leitura do derradeiro parágrafo do texto.

Trata-se obviamente, neste ponto em concreto como em tudo o mais que, em termos reais, o artigo contém, de uma questão ideológica que não me proponho aqui debater, mesmo desta forma apenas indirecta, com José Manuel Fernandes [liberalismo vs. Estado orgânico ou Estado consciência, designações---e, sobretudo, conceituações subjacentes---que assumidamente prefiro ao, hoje-por-hoje, mais do que desacreditado termo 'Estado Social'].

Nesta matéria, José Manuel Fernandes tem as ideias que tem, eu tenho as minhas, cada um de nós defende as suas como sabe e pode e ponto final.

Creio, aliás, que são, as de Fernandes e as minhas, em matéria de paradigma estrutural [e civilizacional] de relacionalidade tópica entre a Economia e a Política de tal modo distintas e tão radicamente divergentes que nem vale a pena discutir muito porque o resultado final apenas pode ser a inconciliação e a discordância, puras e [se calhar nada...] simples.

A questão não é, pois, essa: a questão é, em meu entender, claramente a admissão inequívoca por parte do articulista de uma realidade que vem há muito sendo defendida pela Esquerda, i.e. pelo Partido Comunista e pelos sindicatos [com exclusão natural dos sempre "programaticamente ambíguos" "submarinos amarelos" da U.G.T.] a saber: que a originalmente generosa ideia/projecto de um Estado não apenas "funcionalmente democrático" [ou "demomórfico"] e instrumentalmente "solidário" mas verdadeiramente democrático e humanista expresso desde logo na figura política de um Estado institucionalizadamente social tem vindo, sobretudo desde o período de refluxo económico, social e político verdadeiramente sistémico que foi o "primeiro cavaquismo", a ser disfarçadamente desmontado e levado para o autêntico "armazém de equívocos e mitos políticos de todo o tipo" em que se foi gradualmente convertendo a República em Portugal, de '75 para cá.

Contra-argumentando [bem acaloradamente, aliás!] as aduções de António Arnaut [este, por seu turno, uma espécie de 'espectro errante' mais ou menos hamletiano do "pê-ésse que foi" ou do "pê-ésse" que muitos julgaram credulamente ter sido...] em matéria social, põe Fernandes, ponto por ponto, a nu as sucessivas "mutilações estratégicas" introduzidas progressivamente pela direita "lustrosa" do "pê-ésse-dê" no edifício do Estado Social que a pseudo-esquerda ou "esquerda funcional" do "pê-ésse" de Soares e Ca. Lda. não havia encontrado, nas várias vezes em que foi poder, condições objectivas e subjectivas para extinguir de vez, tendo-se, por isso, limitado a ir, como pôde, subtilmente e muito em surdina minando aquele.

Tem toda a razão Fernandes [como a tinha, aliás, antes tido a Esquerda marxista] quando aponta o dedo ao "tendencialmente gratuito" como constituindo uma versão astutamente soft [amplamente denunciada, aliás, insisto, pela Esquerda!] do não-expresso, porém claramente subjacente, "tendencialmente pago" a que a fórmula anterior [espantosamente hipócrita, matreiramente dissimulada e imperdoavelmente cobarde!] abria [escancarava!] sonsamente a porta; continua a ter razão quando aponta as chamadas "taxas moderadoras" na Saúde como constituindo, por sua vez, objectiva e tecnicamente, um pagamento "na hora" e tem-na, por fim, quando refere o momento verdadeiramente "angular" de implosão des/estrutural simbólica e nada inocente do princípio da universalidade que está contido [ou que está consagrado] no princípio de "ter em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos" quando se trate da prestação de "serviços" do Estado ainda, genérica [porém, cada vez menos fundadamente!], dito "Social".

Agora, o que se passa [e isto é claramente ideologia!] é que, em vez de utilizar o conhecimento desta realidade para corrigir, Fernandes [1] usa-o implicita e explicitamente para reivindicar a respectiva consagração final em... acta, fazendo dela, constatação [dela e de toda a série de maquinações legislativas e especificamente políticas que lhe foram continuamente subjazendo e que ele não ignora visto que as elenca e denuncia] admissão implícita das respectivas "legitimidade" e "bondade" sociais e políticas, não achando, todavia, aparentemente [2] que isto seja, apenas e só, na in/essência, ideologia e que, portanto, faça do texto constitucional onde, espero eu que não venha eventualmente a ser consagrado [3] um programa de governo habilmente «constitucionalizado» que é, no entanto, tara ou vício que ele não se coíbe expressamente de imputar à actual Constituição da República [ainda? Apesar de tudo?] em vigor...

A questão não é, pois, a de saber se há, "oui ou non", Estado Social em Portugal, hoje: a questão é a de, não sendo honestamente possível dizer que ainda há [só parecem, aliás, acreditar nisso os "pê-ésses" mas esses, como é sabido, se há aspecto em que se distingam não é decididamente pelo da honestidade intelectual e política dos respectivos posicionamentos de um modo geral, portanto não contam...]; a questão, dizia, é a de, sabendo isso, "que fazer?", como titularia Lenine, ou seja: aceitar a "fatalidade" e a suposta inevitabilidade histórica, social e política dos factos, dando-os por legitimados por uma qualquer versão monstruosamente política do usucapião imobiliário ou, exactamente ao contrário, investir o respectivo conhecimento num projecto político de ressaneamento e correcção do que apenas pode ser visto como um profundo desvio relativamente aos valores do humanismo e da solidariedade---correcção essa que permita, se assim me posso exprimir, repor a História no "lugar [e no Tempo, no "Tempo Civilizacional"] certos"...
"Lugar certo", disse eu?

Pois. Ideologicamente certo porque é disso---disso, de ideologia---que aqui se trata e não de qualquer História e/ou Política supostamente "naturais" para as quais tenda---lá está!!---natural [e ainda menos irreversivelmente] a realidade.
A História inventa-se: não se descobre---e isso é ideologia e é isso a ideologia.

Ora, ninguém diz que é mau ter uma ideologia; pelo contrário, é até um bem e um bem, aliás, bem raro entre nós, hoje-por-hoje.

Agora, não se pode é honestamente pretender que a realidade é uma... "rua de sentido único" i.e. uma entidade "unidimensional", como diria Marcuse que o mesmo é dizer: não se pode confundir uma ideologia com uma "ciência" [pode-se, é verdade, gerar a partir da ideologia, uma 'ciencialidade objectual' que presida à sua aplicação prática---económica, social e, claro, política---mas essa é claramente toda uma outra questão...] e muito menos se pode confundi-la, à ideologia, com uma inevitabilidade e/ou uma fatalidade históricas e políticas e uma espécie de "destino natural único e definitivo" para a História: até Fukuyama que teve, um dia, a veleidade de pensar ter descoberto um termo natural para esta última se viu, pouco tempo depois, obrigado a admitir publicamente ter-se precipitado---e redondamente equivocado...

É na prática o que dá confundir ideologia com um conhecimento exacto, arrumando-a, de forma completamente espúria, disfuncional e ilegítima, entre as ciências naturais e dando, de passo, de barato que as formulações ideológicas constituem per se [em especial se forem as nossas, claro...] retratos de corpo inteiro de uma realidade a partir daí, pois, ou proibida "por lei" de transformar-se ou---democraticamente mais grave ainda!---insusceptível de permitir formulações distintas, afinal, tão argumentáveis e, por isso, tão estrutural e intrinsecamente legítimas como a nossa própria...

Já agora: não seria altura de os defensores do Estado [e da "democracia"] funcionais; daquilo a que chamo o "Estado broker" ou "Estado... almocreve" atentarem séria, honestamente, naquilo que se passa com os famosos "cheques-dentista" sistematicamente recusados por estes últimos por incumprimento por parte do Estado: estão a imaginar o que que seria e como seria um sistema de Saúde [ou de Educação ou de Justiça] assente em bases semelhantes, como advoga o indescritível Passos Coelho?...

Até a globalmente "liberal" América, bem ou mal, já percebeu a inimaginável desumanidade estrutural que está na base, que está "nos genes", daquilo.

É caso para dizer que o Portugal dos Soares, dos Cavacos e dos respectivos "sidekicks" ou "miniaturas em plástico" [os Sócrates, os Passos Coelhos e quejandos] também uma vez por outra se encontra com "os outros lá de fora": só que tem é o azar de fazê-lo quase sempre quando estes vêm para cá e "nós" ainda estamos alegremente ["sans blague"...] a ir "para lá"...


[Na imagem: Francisco Lucientes Goya, "Qué Viene El Coco!"/"Vem Aí O Papão!", da série "Caprichos"]

quarta-feira, 21 de julho de 2010

"«Salomé», soneto de Mário de Sá Carneiro, esboço de abordagem crítica e analítica"


Comecemos pelo texto propriamente dito do soneto de Sá Carneiro, dado à estampa em 1913, no nº 3 do "Orpheu":


Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo.

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro!... A minh' Alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me...

Mordoura-se, a chorar---há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...

Mário de Sá-Carneiro


Todo o soneto vai gradualmente sugerindo uma espécie de movimento ou de curva; de progressiva [ou pendular?] infixidez sugerindo um percurso em direcção ao êxtase , por sua vez, denotador da culminância do próprio acto sexual de que ele pode, em meu entender, ser subtilmente visto como uma poetização/intelectualização figurada: registem-se, desde logo, expressões [e ideias ou sugestões] violentamente sensoriais como "o espasmo", "endoideceu", "upou-se em cor" [desmaterializou-se/liquefez-se/transmutou-se em pura impressão sensível].

Há claramente em todas estas expressões e nas sugestões por elas veiculadas uma como que "subjectivização" consistente mas também, noutro plano, de algum modo, mais concreto, uma demonstrável "des-solidificação" tendencial dos objectos, i.e. uma perda consistente da respectiva forma e/ou em geral dos atributos físicos, materiais, objectivos ou imediatamente objectuais desses mesmos objectos---a "luz" [v. 1] convertendo-se em "medo" [ibid.] a "carne" [v. 3] em "álcool" [ibid.] a "lua" [v. 2] em "alma" [ibid.]---sugerindo a supressão momentânea da Razão substituída pela emergência vibrante, pulsátil, da acção muito poderosa dos sentidos ou, [lá está!] paralelamente, a transformação do corpo nos respectivos atributos sensoriais ou, se assim quisermos, ainda de outro modo, dizer: a como que metamorfose de todos os corpos [de todo o corpo?] enquanto tal em algo de "significadamente insólido" [O climax sexual? O sémen? Ideia potenciada, neste último caso, em meu entender, pela sugestão visual do brancura lunar---não por acaso, como mais adiante veremos, "manchada", "maculada" pela ideia sempre latente, obsessiva, de Morte...---mas, muito em especial, da do "alabastro" (v.7)]
Muito poderosa esta sugestão de "liquidificação": cf. "álcool" [remetendo, por seu turno, hipoteticamente para a «embriaguez»: o próprio climax sexual?], "alastra-se" "resvala", "golfa-me".

[Note-se como o soneto, desde a primeira quadra, deixa bem clara a indefinição ou mesmo a completa fusão não apenas dos seres em geral entre si, como vimos imediatamente atrás, mas também das fronteiras entre o eu e o real exterior: com efeito, primeiro o poema "sai desse mesmo eu para o exterior" através do jogo que o autor estabelece com a "insónia" e a "sua cor" ou a sua "coisificação/cromatização": "insónia" em si mesma um conceito, uma abstracção e, por conseguinte, algo de estruturalmente insubstantivo e abstracto ganhando cor no espaço, ao ficar ou ao projectar-se concretizada no espaço, ficando "roxa".

Está aqui, em meu entender, muito claramente expressa a vontade de conhecer ou o projecto pessoal de... "cognicionar", i.e., de achar um lugar para o eu no conhecimento das coisas e por conseguinte no contexcto global e orgânico delas, através da sensorialização ou o que poderia talvez designar-se por "imediatização experienciante" das abstracções enquanto taldo.
Se, todavia, o soneto começa por expandir-se para o exterior do modo que acabámos de ver, a verdade é que completando um ciclo no quarto verso, ele "regressa ao interior de si próprio" como fica bem claro na ideia de "a carne" convertida em "álcool" (sugestão de "embriaguez" ou de "arrebatamento" e "prazer" "se alastrar" para o eu num "espasmo de segredo": "secreto", "proibido"?]

A própria "infixidez" e "descontinuicidade ontológicas" como tal, claramente expressas ao longo do poema através de transposições/rupturas sinestesiais ou para-sinestesializadas frequentes ["insónia roxa", "carne=álcool", "aroma > cor", "luz" virgulada---i.e. espasmódica? Ritmicamente descontinuada e imediatamente a seguir retomada?] opera ou pode operar como uma espécie de sugestão fortemente subjectivizada e não menos poderosamente intelectualizada do espasmo---espasmo físicom, erótico mas também "espasmo ôntico" envolvendo o compromisso dramático de todo o ser do próprio eu poético"---onde se fundem o prazer e a dúvida, a inquietação, o questionamento, a aguda posta-em-causa do mesmo [cf. o "medo" de que fala o primeiro verso, o "frio" de que fala o sétimo] numa espécie de linha discursiva aparentemente estabilizada que vai, todavia, no verso 6 sofrer uma viragem radical ou brusca inflexão descencional ["upou-se em cor" e "quebrou"] a partir da qual se inicia a "segunda parte" do soneto.

Nesta quanto era antes experiência ou experienciação sensorial converte-se, por sua vez, em problematização e questionamento.

Consideremos, por exemplo, a expressão "projectar estátuas": através desta vemos como o movimento é percebido como uma espécie de decomposição ou intelectualização profundamente esquemática [e também dramática] de si que indica claramente a incapacidade ou ausdência de vontade de senti-lo primária e naturalmente em si, preferindo-se a essa imediada experiência uma "decomposição racionalizante" que sugere o afastamento e a racionalização ou "aporização" onde a impossibilidade de ser dá origem à reflexão e esta surge também, muito... hamletianamente, como impossibilidade de ser e/ou impotência sublimada num discurso autónomo que funciona de algum modo como um objecto em si próprio e mesmo como o verdadeiro objecto de si próprio.

"Alastra-se para mim" associado à reflexivização tópica dos verbos no poema ["virgular-se" (v. 1), "upou-se" (v. 6) "morrer-me" (v. 11), "mordoura-se" (v. 12)] sugere ou indicia, para além da ideia de que tudo ali existe e actua para si e de forma independentemente, a atitude passiva.
De facto o Eu não intervém, não cria, não determina cursos de acção ou de intervenção no real e na respectiva transformação: cada coisa cria o seu próprio movimento e estabelece cursos de actuação autónomos, não decorrentes de uma única vontade que organize [ou organicize] o todo.

A própria referência a Íris, a um "chamar em Íris" [v.9] pode cumulativamente potenciar a sugestão de persistente des-substancialização ou des-materialização constante de todo o poema, indiciando sempre o mesmo registo de tensão entre a sexualidade e a respectiva recusa senão mesmo simbólica [auto] punição se tiveremos em conta a relação que existe, na mitologia de onde provém essa filha de Taumante e de Electra, entre, por um lado, a virgindade desta e, por outro, o rapport estável entre a sua personagem mitológica e o vento mas também com o mundo dos mortos, o Hades.

Atente-se, por exemplo, no modo como algumas expressões do texto podem operar como [para reutilizar aqui uma ideia lacaniana] verdadeiros "nós", "ângulos", "vértices", ou mesmo mais subtil e subjectivamente "verticiações" semiológicas de onde irradiam inúmeras "cintilações sémicas" particularmente fecundas em termos das caleidoscópicas sugestões [ou "sugestionações"] que criam e que difundem por todo o poema.

"Luz morta de luar", por exemplo.

A expressão pode, de facto, a meu ver, ler-se de, pelo menos, duas maneiras perfeitamente distintas ainda que não necessariamente contraditórias: podemos, com efeito, lê-la vendo naquele "morta" um adjectivo [podendo, nesse caso, a frase ser por nós mentalmente reorganizada do modo que se segue: "luz de luar, morta"---e esta seria a abordagem imediatamente "denotativa" ou "denotacional" do fragmento] mas há uma outra hipótese alternativa, incomparavelmente mais... baudelaireana e mais 'simbolista' que seria imaginar [?] que "morta" funcionasse com um carácter muito mais próximo da sua "vocação verbal" original, chamemos-lhe assim, daí resultando que a ideia fosse agora a da luz da lua que tivesse por "excesso de si" morrido sufocada em e por si mesma, como se de um verdadeiro suicídio [sui+cídio] se tratasse---o que naturalmente não apenas revelaria toda a extensão da trágica fatalidade e do absurdo de uma situação ["algo que fornece naturalmente luz morre por fazê-lo] como permitiria perceber de uma forma particularmente aguda e crítica todo o carácter de "paroxística im-possibilidade" de todo o poema: uma luz que morre assassinada por aquilo que está de algum modo "condenada" a produzir, pelos seus próprios... filhos.

O uso 'significado' da personificação ["o aroma endoideceu"] surge nesta [i?] lógica de representação do real como [a] algo que é primariamente impressão sensorial pura: experienciação mais do que razão e [b] qualquer coisa que não se encaixa de forma orgânica num todo 'ontologicamente geométrico' e que manifestamente não admite colocar-se sob as alçada 'organizante' da consciência, antes flui descontínuo em sucessivas anisotropias dotadas de vida e vontade próprias que se esgotam sempre na experiência pura "extática" mas também paroxística, de si.

Sobre esta visão estruturalmente descontínua e desconstrucional da realidade, anote-se ainda o uso extensivo das reticências apontando, primariamente, para as contínuas cesuras que permitem redesenhá-lo na consciência mas também [e até, de algum modo, sobretudo] a dúvida, a hesitação, a incerteza a que um filósofo chamaria possivelmente a "relativismo gnoseológico" ou talvez mesmo "fenomenologismo experiencial" puro.

Curiosa [e, em tese, nada gratuita, do meu ponto de vista] a identificação do ritual sedutório com a ideia de Morte [primeiro terceto].
"Morrer-me": o reconhecimento encriptado [note-se a infidez da própria linguagem em geral conferindo fundamento necessário à neologização intensiva e extensiva do poema] da ligação ambígua [e disfuncional] do eu com o real: a "morte" do eu poético de que fala o primeiro terceto é um suicídio---ou, pelo menos um facto de natureza intrinsecamente endógena ["morte" causada, de um modo ou de outro, por algo que está no próprio sujeito]---ou um verdadeiro "assassinato" cometido por entidade ou entidades vindas do exterior, de Salomé: "ela quer..." ou "timbres, elmos, punhais", o amor visto como uma forma metaforizada de violência e (auto?) agressão?]

Há sempre, muito subtilmente, na relação que [verdadeiramente não?] se estabelece entre o eu poético e Salomé uma espécie de sugestão latente de masoquismo ["arder na boca imperial"] algo que Cesário, por outro exemplo, denota de forma perfeitamente reconhecível em alguns dos seus poemas mais conhecidos] associado directamente à passividade daquele mesmo eu poético para quem "amar é castigar-se" como "produzir luz pode ser morrer exactamente por produzir luz", como é admissível que possa ser o caso da "lua", na primeira quadra.
Muito relevante, do meu ponto de vista pessoal tendo em vista o conteudo referencial do "complexo de Salomé" é a "translação ôntica" que subjaz à relação do Eu poético com a figura feminina: de facto existe uma espécie de "trânsito ôntico permanente" entre ambos, i.e. entre o ser e o ter cuja 'ângulo possibilitante', chamemos-lhe assim, se situa no matiz "ser tido" ou "ser possuído" em lugar de "possuir" e que, a meu ver, remete para a homossexualidade do próprio Poeta, assumindo aqui a forma de indefinição ou mesmo "crise" da respectiva identidade sexual.

Em termos do eu poético o que, na realidade, acontece é que este, no poema, é muito mais tido do que realmente tem abrindo desse modo 'caminho percepcional e representacional' para o tornar-se e, desse modo, para o próprio ser.

Seria, em qualquer caso, de facto, difícil escolher um melhor e mais esclarecedor exemplo da dialéctica entre o desejar e o devir que, em meu entender, substancia na base, na respectiva essência---constituindo mesmo aquilo que, em última análise, o explica---o possível "complexo de Salomé".

Essa infixidez permanente e profundamente des/estruturante entre o eu e a alteridade de onde emerge a "crise ôntica" aqui claramente presente e que por via de regra não se traduz em acção sendo antes uma tentastiva, um projecto, de lidar com a impotência e a impossibilidade de estabelecer modelos organizados de acção a fim de superá-la efectivamente preferindo declaradamente a contemplação e a projecção da própria crise directamente em "experiência" ou "experienciação-em-si"---uma experiência que, neste caso, assume forma verbal marcadamente subversora e mesmo, logo a partir do plano imediatamente textual [ou textuante], abertamente subversiva.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Debate sobre o ACORDO ORTOGRÁFICO da Língua Portuguesa— 1990


Republicado de http://www.triplov.org/

Por princípio, sou contra a sobrevalorização e o uso (mesmo apenas remotamente...) excessivo da 'normalização' e da 'normatividade'.

É uma questão pessoal mas não o é arbitrariamente: é, sobretudo, uma posição lógica, ideo-lógica, e até abertamente política.

Em linguística, como nas restantes áreas do pensar e do (com) viver.

Claro que uma língua é básica (embora, em caso algum, primariamente...) um instrumento de (suposta?) comunicação - e que, por isso, as respectivas "chaves" devem sempre (poder?) constituir um património estavelmente comum (uma... 'comum-idade') genericamente reconhecível de todos os pontos e lugares desse mesmo "Comum", se assim me posso exprimir.

Entendo, porém, que a época das demasiado rígidas formas de 'centralização' e 'normatividade' linguística (correspondente esta última, nessa forma ou com esse estatuto, a um período cultu(r)al e especificamente político abstractamente definível pela persistência duradoura de um "estado sólido" ou mesmo de uma "coagulação epistemológica"---absolutos e totais senão mesmo totalitários---generalizados); pessoalmente entendo, dizia, que a rígida 'normatividade' não se compagina com o tempo "genericamente demomórfico" ("democracy" "is a word I rarely use without thinking", como dizia o Donovan a propósito da palavra "liberdade"...) que vivemos.

Ora, é a partir deste princípio básico que abordo, aqui como em todos os lugares e casos, a "questão" do 'Acordo'.

Não propriamente a do Acordo-em-si mas a da questão teórica prévia de um "acordo" nesta matéria.

A ideia de que a comunicação melhora drasticamente se começarmos por considerar para um 'projecto comum de falar' a uniformização de um conjunto de formas puramente exteriorese inorgânicas, i.e. não-estruturais, do aparelho comunicacional em si parece-me, devo confessar, uma ideia falível, inútil e des/estruturalmente muito redutora.

Os universos linguísticos configuram ecossistemas autónomos que "respondem" directamente perante o respectivo enquadramento físico e mental, objectivo/subjectivo, próprio e é exactamente essa interactividade contínua com o meio que determina o perfil natural e necessário (permitam-me o neologismo: "necessitário") de qualquer "boa" "evolução" mental e, obviamente, linguística.

Fixar na periferia do essencial (e à periferia do essencial!) da "idiomaticidade" as bases da "correcção" e da "in-correcção", ou seja, do "Bem" e do "Mal" em linguística parece-me um mau princípio que tem "tudo a ver" com aquela ideia básica da língua como simples forma ou "formaticidade funcionante" (e, pior ainda: como entidade autonomamente determinante!) e não como parte integrante e essencial de um pensar (que é aquilo que, a meu ver, ela deve, em todos os casos, permanecer).

Pessoalmente, sempre defendi, por exemplo, que, ao lado (ou por cima: acima) de um sistema meramente formal ou insubstantivamente 'técnico' de "correcções" e "in-correcções" da língua, deve considerar-se, sim, na base de tudo, a prevalência de um outro, estrutural, de "correcção funcional", determinado pela necessidade de "significar o real" assim como as nossas imagens comuns dele---um critério e uma atitude que ignoram a tal normatividade que comecei por pôr em causa.

Por muito heterodoxo que possa parecer à primeira vista (para mais em alguém que fez e faz do ensino de algumas línguas vivas, entre as quais a sua própria---aquela que está, de momento, a ser... "acordada") a verdade parece-me, com efeito, ser que, a partir de uma base operante ou operativa estável dada (que já está, há muito, aliás, encontrada: é o português ou são os diversos portugueses, seja lá o que for que isso signifique...) a noção de "evolução" deve ser sempre basicamente abordada daquela perspectiva "funcional" que foi, por exemplo, "politicamente roubada" durante décadas ao idioma basco pelo franquismo assim como, pelo salazarismo, ao português, através do recurso a uma concepção absurdamente "moral" do uso e da própria... propriedade das respectivas línguas).

Tomando como referência básica o português ou portugueses já existentes (eu diria: funcionalmente 'consagrados') está "certo" (e/ou é "Bom") aquilo que contribuir para a extensão ("furthering") e para o enriquecimento da capacidadede a língua não se significar mas de ela significar 'tout court'.
Aquilo que faz, em termos básicos, do português, genericamente considerado, uma idiomaticidade globalmente única e una não são as ferramentas incidentais avulsas, i.e. a "alfaia instrumental" (as palavras enquanto formas passivas e inertes, anteriores e exteriores ao respectivo funcionamento efectivo no contexto de um todo que por completo as transcende e lhes confere o sopro da 'vida conceptual e linguística') mas o modo como a própria língua respira autonomamente por elas, os paradigmas de expressivicidade que com elas se vão formando: as "figuras", as metáforas, as construções, o sistema.

Ora, essas não podem ser "acordadas" senão na relação com o meio.

Aí, não há "acordo" que opere---a menos que, por "acordo" se considere (quanto mais não seja de forma implícita...) uma prisão (talvez domiciliária...) para a língua mas, sobretudo, para o pensamento que com ela (nesse caso limite, não) se pode com ela fazer.

"Normalizar" a idiomaticidade a partir da forma avulsa é como tentar "endireitar" a sombra da vara famosa do não menos célebre lugar-comum.

É, como titulava um Autor clássico alemão, "escrever na água".

Porque em "inglês" se escreve "colour" e em... "americano" "color", há crise no universo linguístico anglo-saxónico?

Porque "realize" e "energize" também podem escrever-se "realise" e "energise", morre alguém linguisticamente por isso?

Rompe-se a unidade do universo linguístico e/ou cultu(r)al anglo-saxónico?...

Eu iria mesmo ao ponto de recusar por completo que haja "certo" e "errado" em língua e em linguística.

Que em qualquer delas exista um verdadeiro "certo" e um estrutural "errado".

Há sim, um "funcionante" e um "não-funcionante". Há, sim, "paradigmas de sucesso representativo" ou "representacional" e paradigmas ('naturalmente caducáveis') de in-sucesso.

São, aliás, aqueles, os "de sucesso", que vão, nas línguas como na Natureza, fixando autonóma e estruturalmente às diversas línguas a ilusão operativa, ou a 'ficção funcionante', de "certo" e "errado".

Ou seja: a transcendência em linguística pura e simplesmente não existe e não pode, por conseguinte, possuir (nem no plano técnico nem, a montante, no epistemológico) qualquer modo de expressão determinacional, directa ou indirecta.
Ah e as línguas também não "evoluem": "voluem".
Sofrem "mutações".

Mas essas "mutações", insisto, são naturalmente determinadas e ditadas, volto a dizer, pela necessidade ecológica intrínseca, não por imperativos de ordem... "moral" exógena, digamos assim.

Durante décadas, a linguística portuguesa (Cândido de Figueiredo será o paradigma "simbólico" ou "simbológico" máximo do processo) foi um "arianismo idiomático disfarçado" que se auto-mutilou e auto-sacrificou consustentemente a um "ideal de pureza" que a castrou e esterilizou. Que bloqueou a bio-diversidade linguística e, mais grave ainda, conceptiva ou conceptual.

Conceptuante.

Cognitiva.

Procurava-se, era evidente, que (também!) a "propriedade da língua" permanecesse fora do alcance do cidadão (ou do súbdito?...) médio.

Visava-se que este a "usasse" mas sempre sob a tutela rígida do poder disfarçado de... linguista.
Ora, a língua (como Laing e Reich diziam e faziam para a Psiquiatria) deve ser feita e des-feita por todos.

Sem normas?

Não, claro. Mas com aquelas que o próprio uso consciente e "educado" de si determina de modo natural e necessário.

É um processo estrutural/estruturante completamente distinto, em si mesmo, do "acordar politicamente" "segmentos inertes da própria idiomaticidade como tal".

Enquanto professor, sempre parti da ideia de que é essencial conhecer as regras mas para des-construí-las autonomamente como parte integrante do processo intelectual nobre global de continuar a tarefa cultu(r)al de construí-las a partir da própria experiência ou experienciaçãodo real.

"Igualizar" meia dúzia de "fórmulas" é apenas uma ínfima e, no fundo, in-significante parte do processo.


"Reforme-se" ou "acorde-se!" a língua sim mas a partir da sua essência, não da sua pura ou impura circunstãncia formal.

Nesta pode, ocasionalmente, "dar-se um jeito" no sentido da aproximação incidental.

Não virá daí mal ao mundo, suponho.


Mas não se espere em boa verdade que venha "salvação", "non plus"...

"O Guignol"


Inquietou-me mais do que me surpreendeu o texto de Pedro Lomba, hoje, no "Público" ["A política de emergência"] onde se 'exuma' uma peregrina ideia desse sabidíssimo, eterno 'homenzinho político' que é Paulo Portas envolvendo a exigência da demissão dos [aliás, muito indigestos e cada vez mais intragáveis] Sócrates e companhia limitada e a consequente formação de um governo [mais um "de salvação nacional"?] PS-PSD-CDS.

Ao que parece, o "argumento" primário [em si mesmo, muito... primário, aliás!] da "coisa" [que Pedro Lomba, na crónica em causa, repesca ou, como disse, "exuma" praticamente intacto] é a velha-e-relha peça do argumentário situacionista democapitalista que pretende que "circunstâncias extraordinárias justificam [e mais do que justificam: «exigem» e «legitimam»!] soluções igualmente extraordinárias".

Extraordinárias, diria eu, nos vários sentidos do termo um dos quais inclui obviamente a acepção mais ou menos lateral de "bizarro", "singular" ou mesmo... "que não lembraria ao diabo himself" que é aquela que, em meu entender, melhor se aplica no "caso" em... causa...

Claro que Portas vale o que vale e as [chamemos-lhes] ideias com que regularmente vem à colação pôr-se em biquinhos de pés para... chegar à política, geralmente... nem isso.
Aliás, eu penso sinceramente que hoje já pouca gente [tirando a população de uns quantos lares da terceira idade do interior do Portugal Profundo] já ninguém tem pachorra para Portas nem para as ideias dele...

Hoje-por-hoje, Portas é assim uma espécie de virus, no fundo, benigno [a sua evidente in-significância pessoal e política a isso o obriga] que veio, um pouco ao acaso ou aos baldões da fortuna [da nossa desfortuna colectiva] parar ao computador da política e que os respectivos usuários [não confundir com "eleitorado" e muito menos com "Cidadania"...] deixam lá ficar exactamente porque, no fundo, até tem graça a gente dizer aos nossos amigos que o nosso computador tem um virus qualquer e, de qualquer modo, sempre dá um motivo de conversa com esses mesmos amigos quando todos os assuntos verdadeiramente importantes e sérios se esgotaram já.

Não é, pois, Portas e o seu astuto projecto virtual de "neo-governo de salvação nacional", nem sequer é Passos Coelho a quem a "coisa" já faz marketing [a quem ela faz, como se diz para os petiscos de casa de pasto, "boca para o verdadeiro jantar"...]; a quem ela dá, para já, algum jeito enquanto a Taluda do governo a sós não lhe cair de vez no colo ou, ainda menos, o esgotadíssimo Sócrates que estão realmente em causa aqui.

Passos há-de ter o "seu" governo, Sócrates [mai-la sua corte de incompetentes profissionais] hão-de, por sua vez, ver o deles cair finalmente de podre não faltará já muito e Portas há-de andar por cá, a cheirar, aqui-e-ali, onde quer que haja carniça ou perspectiva mesmo remota dela, até que "a terra trema" ou coisa que o valha---e as duas primeiras ao que tudo indica muito em breve...

Não!

O que está aqui, para mim, em causa nem sequer é o texto de Pedro Lomba [aqui entre nós que ninguém nos ouve, eu quero lá saber do Pedro Lomba e mais dos artigos dele mas enfim!] mas são, de facto, duas coisas que, se observadas com a atenção e o cuidado que justificam, dizem bem do "regime" que temos hoje-por-hoje entre nós, desajeitadamente mascarado de Democracia.

Primeiro essa ideia fantástica que está implícita nas coisas todas que citei de que a "democracia é um sistema magnífico para gerir a normalidade do próprio 'regime' mas que, logo que as coisas se complicam a sério, deixa de ser aplicável e tem de ser camufladamente ou não suspenso: 'estrategicamente suspenso'".

Disse-o com aquele... jeitinho, aquela "esclarecida doçura" e aquela branda [e l(eg)uminosa!] subtileza de raciocínios e argumentos que invariavelmente caracterizaram cada um dos vários consulados "de chumbo" M. Ferreira Leite [na Educação, nas Finanças, 'you name it'...] quando se referiu à "necessidade" de "meter na gaveta" a democracia até aquela que é a casa cívica e política de todos nós, o País Público, ser posto em ordem mínima pelo... contrário da própria Democracia que é o despotismo [supostamente) "esclarecido" trazido por um iluminado qualquer"---e dizem-no regularmente os periodistas e editorialistas "do regime" quando advogam a "urgência" de mais uma das tenebrosas maiorias "absolutas" [essa versão soft, tipo "autocracia plebiscitável" ou "absolutismo referendário", da ditadura impura e simples, entidades sem as quais, para esses iluminados de carreira não há, afinal... democracia].

É uma ideia [é isto uma ideia? Boa pergunta!...] que arrepia---esta de que a democracia [tem, como a Cinderela...] uma "irmã feia mas útil" que a ajuda na sombra, sem dar o rosto, assim como quem dissesse: "Está bem, pronto! Ter uma democracia é óptimo, dá um sainete incrível dizer 'lá fora' que a temos---e até mostrá-la em vernissages políticas 'de luxo' "à la page" como aquelas inomináveis "séances" do Parlamento dito Europeu...---mas, depois, temos mesmo de "trabalhar" e para tanto de mandar as crianças para a cama a fim de que os adultos o possam fazer sem serem incomodados e/ou interrompidos"!

Espantosa ideia [para não lhe chamar outra coisa pior...] sem dúvida, pois, esta que pretende que a única forma de «inteligência política e até histórica» realmente "salvadora", eficaz ou até simplesmente possível "vem de cima", "hermeticamente fechada" em 'frasquinhos de esclarecimento providencial' chamados "políticos" que são, na curiosíssima «visão» que, da vida pública, da vida colectiva dos povos e das sociedades, da inteligência [e da autonomia intelectual, dos direitos básicos, das pessoas, também, 'last but not least'!] possuem todos estes "teóricos profissionais" para quem, na "coisa pública", "en cas de malheur" [leia-se: "en cas de... Sócrates", neste "cas"] só resta às sociedades esperarem que os "adultos" façam finalmente, um dia, "o seu trabalho" e para quem "os povos só atrapalham" embora fique mal, como outrora era possível aos ditadores «genuínos» fazê-lo, admiti-lo aberta e/ou publicamente...

A mim, 'horroriza-me intelectualmente', insisto, esta visão expressa ou implícita da i/lógica de movimento da História---e da Política "dentro dela".

Esta que diz que "pode perfeitamente haver, no fundo, História sem povos [com povos indiscriminados, em que a identidade cívica e mental desses mesmos povos pode ser arbitrariamente substituída por outros, completamente iguais na sua fatal in/essência] mas, em caso algum, sem líderes iluminados" e que [é a segunda coisa a que comecei por aludir; a segunda, "fantástica", ideia que me propus trazer hoje aqui à colação, como diria aquele impagável "objecto mental e político" que é Ângelo Correia] essa coisa de os povos estarem proibidos de "mexer na Política e na História para não as estragarem" que é, todavia, para mim, vou já adiantando, a única real hipótese de evitar que "elas se definitivamente estraguem ", que elas "azedem e apodreçam" entregues a Sócrates, Passos, Portas e quejandos.

Porque a partidocracia é isso mesmo e é ela que contamina e infecta mortalmente a nossa vida pública há muito.

Ora a partidocracia combate-se---e idealmente evita-se!---recorrendo a sistemas de administração e gestão das formas concretas de vida pública em que sejam uma realidade [e um pressuposto básico] de qualquer daquelas entidades a atenção e a activa vigilância sociais, devidamente institucionalizadas, uma e outra, em dispositivos de intervenção política em tempo real que façam com que o poder político i.e. o verdadeiro poder, nunca mude de mãos no processo de "contratar social e políticamente", confundido, de forma acidental ou premeditada, com o respectivo, simples, exercício instrumental que é o que passa, nas verdadeiras democracias onde quer que elas se encontrem, de facto, das mãos das sociedades para as dos respectivos 'representantes políticos'.

A diferença clara entre "poder" e "exercício objectual ou instrumental do poder": eis aquilo que substancia e fundamenta a verdadeira democracia constituindo o autêntico "específico democrático", a "pedra democrática filosofial" que todos fingem procurar mas poucos desejam realmente encontrar.

Que um tal Passos e meia dúzia de espertalhões profissionais habilmente disfarçados de "socialistas" [com ou sem esse "contrapeso falante" que é Portas] se ponham de acordo para "endireitarem o país" que ajudaram "à-vez-à-vez" todos eles, de um modo ou de outro, a... "entortar" eis o que a mim não me podia ser mais indiferente e alheio!

Eu quero lá saber do indigesto Passos Coelho e das suas inomináveis "propostas" tão pomposas quanto matreiras, concebidas para acabar o que Sócrates começou!

Quero lá saber dos "pê-ésses" e dos seus "joguinhos de sobrevivência" pessoal e sectorial que passam, se for preciso, por cortar a cabeça ao próprio "chefe" durante o longo sono deste se tal for exigido a fim de manter a "barraca dos seus interesses próprios" aberta ao público e a funcionar!

Quero lá saber de Portas ou da carreira pessoal de Cavaco [que também aqui, muito clara e muito mal-disfarçadamente se joga, connosco pelo meio, "comme enjeu" e como diria um francês].

A História não é Cavaco, nem é Alegre, nem é Passos Coelho, nem é outro qualquer do mesmo talante: a História não é um 'activo nominal' nem um morgadio que circule apenas entre auto-designados "morgados" ou grão-vizires e classe sacerdotal exclusiva.

A História são os povos, as sociedades, as pessoas---conscientes todas essas coisas dos seus legítimos interesses colectivos e das formas de assegurá-los no concreto.

Ou seja: são os políticos que servem as sociedades e não as sociedades que servem os políticos.

São as sociedades quem legitima os políticos e não absurda e monstruosamente o contrário.

A História e a Política não podem ser um Guignol em que uns puxam fios e a sociedade mexe e outros se acham sempre na fatal condição de terem de esperar que os titeriteiros "de serviço" agitem os dedos para que elas possam legitimamente aspirar a agitar-se também.

basta de Guignol e de lógica ou ilógica de Guignol!

Se querem ser "providenciais" e assumir o pomposo estatuto de "categorias de um pensar e de um agir políticos eternamente situados para além da vontade legítima dos povos e da própria História"---que diabo!---ao menos façam como o Salazar: assumam-no e admitam-no... lealmente que é para a gente saber com que é que conta!

Da Ópera ao Guignol vai, afinal, parafraseando a canção, o "passo de um [a]não"...


Que pode ser ou [a] não o próprio Portas...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

"Público e Privado" [Notas, apenas]

Abordo hoje, aqui, um texto de José Manuel Fernandes, ex-director do "Público", dado à estampa nesse mesmo jornal a 16.07.10.
Faço-o fundamentalmente por dois motivos, de resto, estreitamente ligados entre si: primeiro, porque nele estão, expressa e até implicitamente, consagrados alguns equívocos de natureza política extremamente comuns envolvendo o cada vez mais impropriasmente chamado Estado Social os quais, por isso mesmo, por assentarem num conjunto de equívocos particularmente graves e notórios, urge trazer a debate e pôr a nu; depois, porque, exactamente pelo facto de o texto se fazer eco [e vibrante "advogado", aliás!] de alguns deles, aparece-nos como constituindo um excelente ponto de partida para o necessário debate que refiro no ponto anterior.
Vejamos, então:
O primeiro equívoco do texto começa logo por consistir na admissão implícita feita pelo artigo de que o errático e invulgarmente inepto actual poder político em Portugal, hipocritamente auto-designado de "socialista", representa o tal "Estado Social" assim como no dar pacificamente de barato que ele não só, pois, o advoga como, na respectiva prática política em concreto, o defende e pratica.
Ora, de facto, no mínimo dos mínimos, falta provar que o que temos hoje em Portugal seja um Estado social.
Sucede que, a realidade, não temos.
Temos [ou tivemos até há pouco: hoje, provavelmente, com o pretexto da "crise", já nem isso realmente teremos] um Estado, um modelo de estado que

-foi já praticamente, no seu todo, recuperado da socialmente generosa função original que o marcava de integrar e manter íntegra e económica e socialmente orgânica a sociedade onde fosse implantado a fim de operar instrumentalmente como recapitalizador sistémico dos mercados que o próprio modo de produção ia desgastando e regularmente, na prática, inviabilizando através da sua política tópica de "desigualitarização sistémica" ou melhor dizendo: "assistémica".
Este representa, de facto, um papel verdadeiramente fulcral não apenas no 'desenvolvimento' objectual senão que na própria possibilitação material contínua do capitalismo enquanto tal.
De facto, um dos mitos que ele propala como "justificação" para a "desigualitarização estratégica" ou "sistémica" sobre a qual assenta é que "cria riqueza".
A burguesia chegou, aliás, historicamente ao poder com este "argumento" de que, possuindo ela os "meios de produção social de conhecimento", sabia como nenhuma outra classe económica, social e política, transformar a realidade-em-si em "valor".
Ora, esta é apenas parte da verdade:
Ou seja: ela possuía efectivamente esses meios mas
a] "esqueceu-se" de falar sobre o modo como ia redistribui-los, uma vez produzidos;
e
b] "esqueceu-se", sobretudo, de dizer que a "produção" do que ela chama significadamente "valor" consome, segundo o seu próprio modo particular, tópico, de produzi-lo, doses maciças [entre as classes não-possidentes desses mesmos meios] de «ausência ou carência significada e estratégica» dele, isto é, daquilo a que chamo "carencialidade possibilitante", ou seja, dito de outro modo ainda, sem a implantação e a generalização políticas e político-jurídicas de valores de "carenciação funcionante" sem a qual é impossível que o conhecimento, na forma de técnica e tecnologia, gere segundo o programa ou projecto capitalista, "valor".
primária
-um Estado bombeiro ou funcionalmente social [válvula de segurança social e política do próprio sistema e dispositivo contínua---de facto, sistemicamente---poassibilitador do próprio paradigma económico-financeiro que sem essa "almofada de segurança" teeria já há muito previsivelmente implodido];
-um Estado justificador do modelo económico-financeiro infra-estrutural: papel ancilar da democracia formal [ou caridade institucionalizada, caridade significada ou dirigida]
-um Estado agência de empregos para as clientelas políticas médias, altas e até baixas.

Aliás, ao contrário do que J.M.F. defende sabe-se perfeitamente o que é, nas suas linhas gerais, o neo-liberalismo: é o capitalismo total ou economocracia, dele se podendo dar uma definição teórica sum´+aria porém essencialmente esclarecedora.
É a "sociedade inversional": o sistema económico-financeiro instrumentalmente político ou 'politiforme' em cujo seio se operou uma inversão de referências estruturais e estruturantes sistémicas, ou seja, aquele em que os papeis relativos da economia e da Política foram objecto de uma inversão/subversão total de papéis e relevâncias relativas.
Na realidade, para o neo-liberalismo [e isso bassta na essência para perceber-lhe as linhas básicas determinantes] numa sociedade a infra-estrutura económica capitalista constitui a constante de que a falsa] política intervém como variável [como "variável funcionante ou possibilitadora"].
Tudo o mais que o neo-liberalismo estavelmente é ou aparenta ser decorre dessa inversão/subversão nuclear.

2º falta provar como se pode garantir que há verdadeira concorrêncioa entre o público e o privado.
A ideia é estimular reciprocamente ambos os sectores, i.e. utilizar um como acicate estrutural do outro.
A verdade, porém, é que aquilo que a observação e o próprio senso comum permitem dizer é que, não sendo on próprio Estado socialmente neutro, a tendência é para as forças sociais e económicas que controlam globalmente o privado, sejam quem faça realmente eleger o Estado e, depois, o use naturalmente na forma significada de Estado "broker", recorrendo ao argumento autenticamente fatal de que a economia [leia-se: a economia privada] é o motor de toda a sociedade e da própria História.
Aliás, o próprio J.M.F. admite implicitamente a subsidiaridade de facto do Estado relativamente à economia privada

"Da Igualdade vs. A Questão da Formação de Elites em Democracia e do Papel da Educação Relativamente a Ambas"


Começo por um texto de José Vítor Malheiros no "Público".

Um texto interessante, aliás, com data de publicação de 13.07.10 intitulado "As elites, as massas, a excelência e a necessidade de democracia" onde é---breve e até, de algum modo, marginalmente, embora---retomado um antigo 'mito' [senão mesmo o aberto dissídio ideológico e político, uma das linhas-chave de fronteira] entre a Esquerda e a direita em matéria de acesso, no caso específico abordado no artigo: de acesso à Educação mas, na realidade [a Educação é apenas um deles] aos diversos 'serviços' propostos pelo [e constantes do] chamado 'Estado social' moderno.

É preciso dizer que, ao falarmos de 'acesso aos serviços do Estado social moderno' aquilo de que estamos realmente a falar é da própria essência do Estado democrático moderno como "redistribuidor angular" de justiça social, económica e, claro, política---i.e. em termos mais amplos, de 'definição' teórica, conceptual: do Estado social como "vértice operante e estratégico estável de res/socialização" e, por conseguinte, de "societação" e de civilização [ou de "civilizacionação"] por um lado e de um grave equívoco em matéria ideológica e especificamente política, por outro: aquele que envolve a "confusão" comum entre oportunismo táctico e/ou mero "democratismo funcional" [de que Bernstein---os vários Bersnteins e até Kerenkis que por aí pululam---são o a referência "arquetipal" histórica, tristemente 'perfeita'] e genuína condição ou posicionamento intelectual e, obviamente, ideológico e político de Esquerda e/ou Democracia tout court, por outro.

Quando José Vítor Malheiros fala, por exemplo, de uma "esquerda" que, segundo ele, se "envergonharia" de patrocinar a emergência de 'elites' nas sociedades onde existem e actuam as Esquerdas não se percebe [não fica claro---ainda que a culpa não seja do articulista, como é evidente: trata-se precisamente de um velho equívoco "útil" e até "estratégico" dos bernsteinianos, que permeia para o pensar e epi-pensar social, em geral] se aquilo de que estamos a falar é mesmo a Esquerda, a Esquerda séria e intelectual/epistemologicamente idónea [embora, reconheçamo-lo lealmente, a latitude efectiva do conceito tenha já, em si, muito 'que se lhe diga' mas enfim...] se dessa espécie de... "coisa" 'desportivamente mental' e 'pretextual, astutamente epi-ideológica ou para-ideológica' que, ainda não há muito, São José Lopes, verberava noutra edição do mesmo jornal, a propósito de um espectáculo recente de 'circo político verbal' chamado comummente 'jornadas parlamentares' do partido no poder, onde estão, aliás, sedeados, alguns dos piores e mais funestos "Bernsteins" da cepa indígena, como se sabe.

Porque efectivamente a Esquerda séria, a Esquerda-com-maiúscula e dignidade epistemológica, ideológica e política própria não tem vergonha [não tem qualquer, mesmo remota, razão para tê-la!] de suscitar e mesmo de induzir a emergência de elites ou do que chamo 'vanguardas dialectizantes' nas sociedades onde existe---e opera.

Pelo contrário: as sociedades humanas só existem realmente através da contínua provocação-estimulação e, de um modo mais geral, das "rupturas funcionantes"; dos espaços de "conscienciação estratégica activa" introduzidos no seu tecido pelas vanguardas ou elites orgânicas geradas nas suas instituições e exactamente por ela, Esquerda, cometidas a essas tarefas de re-vitalização contínua e, sobretudo, orgânica das sociedades e da própria História, como tal.

O problema, em meu entender, não tem que ver com a existência de elites mas com [a] o modo como elas se formam na sociedade, por um lado e [b] com a maneira como elas se relacionam organicamente [ou: como elas se relacionam organicamente ou não] com o conjunto da sociedade onde se integram [ou não...] e, no limite, com a própria História.

No plano estrita [mas não estreitamente...] académico e escolar onde o situava José Vítor Malheiros, o equívoco relaciona-se directamente com a noção [muito natural e muito amplamente manipulada pela direita que é, essa sim, por vocação 'elitista'] de "igualdade" ou "igualitarismo".
Um conceito ou uma "conceituação" que a direita gosta de arrancar do seu contexto e do momento exacto em que a ideação "igualdade" se situa no contexto do pensar de Esquerda, em geral---[não] admitindo nós aqui, longe disso, que haja apenas um...---colocando-o, ela direita, por 'espertalhonas' razões "tácticas" suas, "um pouco mais à frente", de modo a parecer que é seu papel histórico, disfuncionar o conjunto das instituições e até da própria História como tal.

Ora, a igualdade para a Esquerda---para "a minha" Esquerda que é a marxista, sem dúvida---não representa---não é!---exacta e até fatalmente um axioma e uma forma de metafísica re/introduzida à força na História mas, exactamente ao contrário, um instrumento dinâmico, dialéctico, de justiça e/ou de "justiciação" económica, social e política, situado no "início da História" de modo a poder esta eficazmente tornar-se a si mesma social e políticamente possível como efeito ou como resultado [não intrusão e contaminação espúria] de todo um processo que é complexo mas que é, sobretudo, racional, humano democrático e justo.

Para a Esquerda, a igualdade é, com efeito, um conceito estrutural e estruturadamente dialéctico e como tal não oprime nem reprime não apenas as sociedades e as pessoas dentro dela como, no limite, a própria História: não funciona, ao invés do que pretende malevolamente a direita co, como digo, deslocá-la camufladamente de lugar para se parecer com um inimigo da própria História, como um modo de opressão e de repressão apócrifos desta.

É exactamente o contrário disso que sucede, repito.
No plano escolar, especificamente, não se trata de "igualitarizar" forçadamente rendimentos e modos pessoais ou até colectivos de atingi-los: trata-se, isso sim, de descondicionar económica, social e politicamente o acesso àqueles [rendimentos e modos de alcançá-los] devendo, uma vez criado esse quadro, devidamente institucionalizado, de condições prévias de democraticidade ínsita e orgânica, a emergência de elites [das mais diversas elites ou vanguardas que as sociedades são capazes de gerar e de produzir---é preciso dizer que 'gerar' e 'produzir' não são exactamente a mesma coisa mas enfim] processar-se sem interferência [sem "opressão" e sem "repressão"] espúria do "político" no "técnico" ou do "político" sobre o "técnico".

Não se trata, pois, de "decretar" forçada e até, no limite, forçosamente a igualdade em todos os estádios do processo mas muito claramente de possibilitar e fundamentar estrategicamente a igualdade, algo que está, de resto, na própria essência ou nos próprios "genes", na estrutura-património "de episteme", do Estado Social Democrático moderno.

Numa Educação democrática ninguém é, insisto, "obrigado por lei a ser igual": a biodiversidade e a própria realidade como tal possuem leis que as leis políticas não podem, sem grave deturpação da saúde epistemológica das sociedades e até das civilizações, interferir de forma tão gratuita quanto de facto anticientífica.

Numa Educação democrática, aquilo que todos têm é o direito a aceder, por via institucional, à própria igualdade---a toda a igualdade de que, em si mesmo, cada um é capaz de atingir.
Por isso, a verdadeira meritocracia e até, idealmente a "sociedade gnoseotópica" a que ela, de forma [igualmente ideal e/ou "horizontal", i.e. como "horizonte de societação e de historicização", chamemos-lhe assim, pelo menos] conduz são democráticas e são de Esquerda.

Concluindo: não vejo por que dificilmente explicável "razão", a Esquerda, que assim pensa, devesse "envergonhar-se" de gerar vanguardas e elites: não é verdade que o faça.
Se o fizer democraticamente e de modo democraticamente estratégico na forma de um processo em que a igualdade é pressuposto e não corpo estranho na relação dos indivíduos e das sociedades por eles formadas com o conjunto da realidade, só têm é de orgulhar-se disso e considerar o seu papel dinamizador e fomentador da "justiciação orgânica" das sociedades humanas e da própria História em geral como estando a ser normalmente cumprido.

"Normalmente" quer dizer: "com toda a normalidade".

A questão, insisto, não é essa, não está aí.

Está, sim, muito clara [e também, muito gravemente!] na confusão que se encontra mais ou menos generalizadamente estabelecida entre uma Esquerda séria e idónea e uma sonsa e astuta "esquerda funcional" que, da História apenas pretende que se mantenha rigidamente imóvel, acorrentada a um modo de produção de que ela "deve", sempre, ser vista como funcionando na condição de "revestimento politiforme" eternamente in-substantivo e eternamente móvel---como um dispositivo de "justificação" e "legitimação" instrumentalmente "político" de um paradigma infra-estrutural económico e economocrata subjacente a todas as áreas e sectores que compõem o social e a verdadeira direita de que tal suposta esquerda é "filial", dócil [e "útil"!] instrumento ou alfaia e mero "broker"...


[Imagem extraída com a devida vénia de simonbrader-dot-blogspot-dot-com]

quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Algumas Reflexxões Sobre O Mito e a sua Necessidade"


Num projecto que alimento há algum tempo e que se prende com a minha ideia ou a minha tese de que é [teórica ou teoreticamente, ao menos] possível especular sobre a possibilidade de se encontrarem correspondências [admito em hipótese que seja mesmo possível encontrar sistemas ou teorias de correspondências] estáveis entre a maioria, senão a totalidade, das representações humanas de natureza abstractamente cultural e mesmo cultual e o mundo físico; i.e. de que a cultura, de um modo geral, possui toda ela um "chão" ou limite material que constitui a respectiva explicação e fundamento e de que ela constitua uma espécie de estado gasoso esquecidio das suas origens materiais e/ou físicas; no projecto em causa, dizia, integra-se a minha hipótese de que o motivo extremamente corrente da 'idade de ouro' comum a diversas culturas constitua a expressão de um saber de natureza insitamente genética, atómica, molecular sedeado na própria estrutura física dos indivíduos, operando estavelmente, para além da própria 'consciência' destes, como um eco estável da própria desintegração fundamental que está na base das mais diversas formas do que designamos vulgarmente por 'realidade'.

Isto é, que, por exemplo, aquilo a que chamamos a "idade" possa representar o eco material---a expressão "fractal", um "report" microcósmico...---da desintegração objectual da realidade em geral, iniciada com o big bang.

A minha hipótese é que haja nos seres em geral a capacidade, como atrás avanço, atómica "Significada", para exprimirem de acordo com a respectiva aptidão para se exprimirem fenomenicamente a dor que está na origem do próprio universo material, o qual, tal como eu o vejo, muito mais do que uma entidade que "cresce" e se "desenvolve" ou, de um modo ou de outro, "evolui", como, em geral, pensam as filosofias e a maioria [pelo menos...] das religiões na realidade se "des-integra" e "des-constrói" a partir de um "passado astronómico teórico", o "big bang", que funciona, de facto, como "o único futuro de que a realidade é capaz".

A minha hipótese é que, a partir do instante teórico da emergência do universo se inicia um processo de expansionação ou desintegração contínua do mesmo da qual, se observássemos crítica e analiticamente o processo da forma adequada, deveria derivar a conclusão natural [eu diria: mesmo inevitável] de que tudo está, afinal, ao contrário na nossa percepção comum e, em geral, na nossa ideia de realidade.

Deveríamos, por exemplo, concluir que o universo se afasta continuamente de si e, ao fazê-lo, vai perdendo, não menos continuamente, a memória não completamente física mas, com certeza, mental, 'consciencial' do respectivo fundamento ou fundamentos reais.

Vai seguramente perdendo a capacidade para evocá-la consciencialmente i.e. para traduzir em percepcionalidade ou percepcionação consciente adequada algo que o corpo como tal ainda "sabe" ou de que ele ainda "se lembra"---e que exprime, desde logo, de forma muito clara, através da idade na qual eu vejo a expressão ou o eco "fractais" da des-integração do próprio universo e da realidade em sentido amplo, lato]

A idade é, do meu ponto de vista, a expressão individual, fractal, da dissipação do próprio real no seu todo.

Algures na estrutura somática dos indivíduos [é essa estrutura somática que faz a ponte real entre o indivíduo e a própria realidade como todo, não a "consciência" que foi nele "implantada" a posteriori e que, afinal, o separa da própria lógica constitucional e composicional da realidade genericamente considerada]; algures na estrutura somática dos indivíduos, dizia, existe, em tese, a informação que envolve um processo de ruptura global comum a todos os seres e "esseres" que compõem a 'realidade', iniciado no instante teórico do nascimento do real, a partir do qual se inicia a dissipação contínua e irreversível desse mesmo real.

A minha tese diz que a "cultura" dos indivíduos está obrigada pela própria estrutura somática dos mesmos enquanto parte intrínseca da realidade comum a expressar-se de uma determinada maneira e não de outra e que a persistência do motivo da idade do ouro ou do paraíso perdido nas múltiplas formas e variantes que ele assume está longe de constituir um acidente, sendo que, exactamente ao invés, configura uma necessidade.

De facto, a realidade---toda a realidade---é ruptura e "dor".

O "Nada hipotético" que a precede é violentado pela emergência da matéria; o nascimento do real [continuamente repetido nos inúmeros nascimentos, inclusive humanos, que povoam a fenomenicidade desse mesmo real] teve de ser subvertido e admissivelmente destruído para que a matéria pudesse formar-se.

A origem do real é inimaginavelmente violenta, demonstravelmente traumática.

A própria expansão/dissipação do real é sentida de múltiplas maneiras por muitas formas de matéria [e a partir de dado momento da própria "consciência", também, desde logo na forma da percepção de uma perda de "senmtido" para o próprio real] como "dor" sendo que a estrutura global do universo procura, como é sabido, atenuá-la e conservar-se orgânica, renucleando e/ou ecoando-se a si mesma nas diversas «anisotropias funcionantes» que a dissipação global acarreta e implica.

É natural que, privada do seu fundamento material, da respectiva "explicação" e fundamento, a consciência, através do seu «pendor» mais persistente e mais tópica, mais «significadamente mitificador» [no qual eu vejo concretamente um discurso lógico e, repito, necessário que perdeu, todavia, a sua própria chave ou o seu 'centro'] se ache compelida a dar voz a esse espécie de "ânsia atómica" ou de "nostalgia ou saudade molecular" de organicidade e coesão que, no plano concreto, encontram o seu verdadeiro possível objecto e a sua "sede" nos próprios momentos anteriores ao 'nascimento' da matéria quando a amatericidade hipotética anteriormente [in?] existente deu lugar a àquela ou se rompeu para possibilitar a emergência dela.

Em resumo: eu vejo na Cultura uma espécie de saber incompletamente "descentrado" e "gravitacional" em termos do seu próprio verdadeiro sentido [que se encontra fora de si, na própria natureza ou estrutura necessária da realidade, como disse---é essa, pelo menos, a minha tese] ou, para utilizar uma linguagem freudiana: eu vejo na Cultura um conteúdo imediato [que é o mito ou fábula em si e um conteúdo latente que é o que faz dela um verdadeiro saber cuja chave se acha para além da consciência, insisto, naquilo que em nós existe que verdadeiramente nos liga ao real como todo.


[Na imagem: Rrné Magritte, "Resistência e Liberdade"]