quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"Amanhã Vou Falar de..."



... Lenny Bruce, Bob Fosse, Valerie Perrine e Dustin Hoffmann: de todos eles a propósito de um dos filmes mais inquietantemente fascinantes e mais arrebatadoramente amargos que alguma vez já vi---e vi-o (no "Quarteto", salvo erro, no meio daquela onda avassaladora de filmes que o 25 de Abril nos trouxe, Bertollucci e o "Último Tango..." de cambulhão com "Você Interessa-se Pela Coisa", a luminosa 'Trigologia do Prazer' e "Salò" de Pasolini de mistura com o "Western Porno" do... Sei-Lá-Eu-Como-É-Que-Se-Chamava-O-Tipo...

Bons tempos, esses!...

Tempos de aprendizagem e experiências mil!...
Quanto a "Lenny" de Fosse foi durante muito tempo o meu filme "de cabeceira" e a Perrine, definitivamente minha proposta para Maria Madalena...

"[Porque não Gosto de Electro/Choques (Sobretudo) Tecnológicos]: E na Arte..."

... põe-se um motorzinho para a fazer chegar mais depressa ao destino.

...ou ao Destino?...

[Na imagem: "E na Arte Pomos Um Motorzinho Para Chegar Mais Depressa Ao Destino..." colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado]

"Some People Are All Intellect!..."


[Na imagem" Brany 'Brainiac' Brady", colagem sobre papel republicada de http://umnaoalexandreonirico.blogspot.com e que aqui-e-agora res/surge como um irónico tributo a todos aqueles homens ditos 'de Estado' que, ainda ontem, estavam a comprar (a preços exorbitantes, como convém!) submarinos que, de outro modo, iriam talvez direitinhos para o lixo---submarinos que são, como é sabido, instrumentos absolutamente chave para a sustentabilidade do planeta assim como para resolver problemas essenciais como o desemprego, as pensões sociais e a subsistência agrícola do País---ou a traficar "outlets" com os ingleses e que, de repente, acordaram e se descobriram os ideais salvadores por que a Pátria adormecida esperava há que séculos, Cavaleiros da Ordem do Eu-Sei-Sempre-Tudo-E-Primeiro-Que-Os-Outros-Porque-Nosso-Senhor-É-Visita-Lá-De-Casa e/ou Comendadores da de "Vai-Te-Mas-É-Lixar-De-Vez-Oh-Vagabundo", gente que tanto pensa, tanto pensa que volta-e-meia tanto pensar lhe cai para os olhos e eles se esquecem de ver o que todo o resto do mundo, menos "genial", porém, já há-que-séculos viu ... ]

"«Esparsa»" de D. João Manuel"


Termino, por hoje (hoje foi dia de... "antologiar") com uma mui barrocamente camoneana reflexão (de D. João Manuel) sobre um certo "desconcerto [pessoal] do mundo" que é, sobretudo um "desconcerto do mundo pessoal".

Uma confissão: não adiro geralmente ao Barroco (quando muito ao rococó---a algum rococó austríaco ou alemão do sul, bávaro, por exemplo).

Mas, ainda assim, não demasiado...

Com excepção da Música (a música barroca é, para mim, definitivamente um "caso" àparte...) e de um ou outro poeta entre os quais incluo Camões (o lírico---que do Barroco nos soube quase sempre dar uma versão profundamente "existencializada" e, às vezes, mesmo franca---e sofridamente...---pré-"existencialista") e os metafísicos ingleses, com Donne (de quem já aqui falei e que é seu mais labiríntico e, a vários títlos, estimulante representante) à cabeça.

O poema de D. João Manuel que aqui incluo não fica muito longe (em meu entender, pelo menos) de algum Camões mais intelectualizadamente introspectivo, mais habilmente elíptico e também mais poeticamente reflexivo.

O ritmo global do poema é notável de fluidez---uma espécie de "fluidez espiral" assente num jogo cuidadosíssimo de sons "escuros" e sibilantes sugerindo a dorida e complexa, melancólica e labiríntica, subjectividade do próprio tema, tudo isso pontuado por "ângulos fónicos" vivos que agitam inesperadamente a própria "água do poema" por cuja superfície lançam "estratégicamente" círculos concêntricos de som que o são também de emoção e sempre intelectualizadíssima, muito 'pensada', dor.


ESPARSA


Se me atormenta a tristeza
Que tantos males ordena
É porque minha firmeza
É maior que minha pena.
E que me veja matar
Conforto devo de ter
Em ver tão viva ficar
A razão de assim não ser.


D. João Manuel [in "Poesia Portuguesa do Século XII a 1915", selecção de Cabral do Nascimento, Editorial Verbo, col. Livros RTP, Lisboa, 1972]


[Na imagem: "Everything in the Garden", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, republicada de "De um Não-Alexandre Onírico" in www.triplov.org]

"A Democracia Segundo Rimbaud/Cesariny"


Numa altura em que "os-mesmos-de-sempre" voltam à carga para tentar, ainda uma vez, persuadir-nos de que aquilo que fazem é não só democrático como a própria Democracia vale seguramente a pena re/ler esta belíssima reflexão poética do sempre cintilante Rimbaud sobre o tema.

Para mais, possuindo nós uma versão do não menos geralmente fulgurante Cesariny...


DEMOCRACIA


A bandeira reflecte a paisagem imunda
e a nossa gíria abafa o som do tambor
Nos centros, alimentaremos a mais cínica prostituição
Massacraremos as revoltas lógicas.

Às terras aromáticas e dóceis--ao serviço
das mais monstruosas explorações industriais ou militares.

Até mais ver, onde quer que seja.

Recrutas do próprio querer, teremos uma filosofia feroz;
inaptos para a ciência, esgotados para o conforto;
e que o mundo rebente.

Este o caminho!
Em frente! Marche!


Jean Arthur Rimbaud, Democracia (in Iluminações, trad. port. Mário Cesariny)



[Imagem extraída com a devida vénia de the400blows]


"Pessoas Como O Pessoa Não Podiam Faltar Aqui..."


[REFLEXÃO IDENTITÁRIA/A QUESTÃO HETERONÍMICA]



O BOM PORTUGUÊS É VÁRIAS PESSOAS


Não sei quem sou, que alma tenho.


Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.


Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.


Como o panteísta se sente árvore e até flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço [...]




[Eu] plural como o universo.




Fernando Pessoa



[Imagem extraída com a devida vénia de rosamuraro.zip.net]

"«Le Cancre/O Cábula», de Jacques Prévert"


Um maravilhoso instante de pura e poética rebeldia (a fazer lembrar Jean Vigo e o seu genial "Zero de Conduite" mas um Jean Vigo para cuja amargura algo da poesia do Cinema de um Renoir, de um Tati ou mesmo de um Albert Lamorisse tivesse já substantivamente perpassado) transformando o que era, na origem, inquietação e amargura num empolgante momento de libertação sensorial (e, por isso, de algum modo, mais extrema e mais subversiva---ou simplesmente mais pura, mais instintiva e total. Mais pura porque instintiva e, assim, 'total').


LE CANCRE
il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le coeur
il dit oui à ce qu' il aime
il dit non au professeur
il est debout on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.
Jacques Prévert, "Paroles"

[Na imagem: Fotogramas de "Zéro de Conduite" de Jean Vigo e "Le Balon Rouge" de Albert Lamorisse]

"Problemas Problemas e Cª."


O meu ("prévertiano") antologiado de hoje é relativamente pouco conhecido [tanto que dele não se acham imagens onde é quase impossível não acabar afogado nelas: aqui mesmo, na Net onde mesmo este modestíssimo e anonimíssimo "comentador" não deixa de ter uma ou duas...]

... O que, "all things considered", não chega (longe disso e, se calhar, até pelo contrário!...) aliás, a ser propriamente grave: menos conhecidos são Luísa Neto Jorge, Al Berto e, hoje-por-hoje, a própria Fiama (ou ainda, falando de "prévertianos" e "quasi-prévertianos", Luiz Pacheco ou Mário Henriques Leiria) e nem por isso são, qualquer deles, menos relevantes como intelectuais (sim! Intelectuais!) e como homens de Letras (Sim! Homens de Letras!).

Seja como for, acontece com ele (Mendes de Carvalho) na Poesia o que acontece, por outro "exemplo" ainda, classicamente, com a Comédia no Cinema ou no Teatro: mau grado os Chaplin, os Keaton (pai e filha...) os Renoir ou os Moniccelli, está condenada a ser, para todo o sempre, um género menor à espera do aval de uma certa consagração crítica que, sobretudo, para Chaplin já terá, de algum modo, começado a chegar e a estabelecer-se definitivamente.

Em termos de ainda maior latitude, a questão não é nova: estou a recordar-me, noutro escaninho da 'subcultura' pop, do "caso" do grande Hitch que apenas depois dos "Cahiers" e da respectiva "revisão" crítica exaustiva feita por Chabrol e Truffaut passou a dispor de um lugar próprio ao lado dos grandes e geralmente incontestados "Mestres", de Eisenstein e von Stroheim a Lang passando pelo (sob vários aspectos francamente mais questionável) Griffith.

É ainda o caso do "western" onde Ford é genial e Hawks considerável e, com frequência, imenso mas que só deixou de ser um género que anatemizava quantos o praticavam (e alguns, como Anthony Mann ou Delmer Daves---para já não falar de Fred Zinnemann e Nicholas Ray---com assinalável competência e mesmo inquestionável brilho) após uma longa 'travessia do deserto' que, para muitos---e a minha experiência recente no "Cine-clube na Biblioteca" provou-mo ainda não há muito à saciedade...---ainda não terminou)...

Mas, reparo agora que do próprio Mendes de Carvalho falei até aqui menos do que de uma série de tópicos que, não lhe sendo, pelas razões que citei, completamente estranhos, largamente, apesar disso, de algum modo, afinal, o transcendem.

Volto, por isso e sem mais delongas, a ele.

É, como disse, no texto que escolhi para hoje, claramente "prévertiano": na quase truculenta e, neste caso, visivelmente "mal-disposta" 'insubmissão semântica' manifestada, desde logo, na recusa firme a organizar-se demasiado, isto é, a submeter pela força o texto à obrigação "arquitectónica" de demonstrar e, sobretudo, de demonstrar-se ponto-por-ponto; na revolta (assumida!) contra uma certa elegância textual "bem-comportada" convencional ou convencionada onde alguma, como disse, aqui visivelmente "mal-encarada" mas sempre sanguineamente genuína espontaneidade (senão mesmo seminal vitalidade) pode muito bem correr o risco sério de perder-se; na surpreendente (na inquietante?) técnica envolvendo um contraditório "Verfremdungseffekt" obtido (o 'paradoxo' está exactamente aí!) não por imediatamente confesso "afastamento" da matéria a poetizar mas, precisamente ao contrário, por colagem quase integral ao quotidiano e à resposta infinitamente mais reflexa do que propriamente reflexiva que a este é dada---técnica que, tratando-se de poesia, gera a "educada dissonância" de onde sai, então, inteirinha, a crítica.

Mendes de Carvalho leva quase "à ruína e à perdição" a Senhora D. Poesia?

Digamos que, acima de tudo e antes de mais, a interpela, sonda, testa e... "faz falar".

Num certo sentido muito 'fresco' e curioso, a reflexividade nela vem por via do reflexo, Freud por via de Pavlov, (talvez) Marx por via do telejornal ou do grunhido chateado de quem o vê ao serão, depois de um dia inteiro de trabalho (e de ir buscar os putos à escola) nas "minas-de-sal" de uma repartição ou de um escritório-de-advogado qualquer...


Os problemas escolares
os problemas caseiros
os problemas primários
os problemas primeiros
os problemas de trânsito
os problemas transitórios
os problemas internos
os problemas externos
os problemas à vista
os problemas da vista
os problemas dos outros
os outros sem problemas
os problemas fronteiros
os problemas do lado
os problemas traseiros
os problemas locais
os problemas dos filhos
os problemas dos pais
os problemas de amor
o amor aos problemas
os problemas financeiros
os problemas políticos
os problemas reais
os problemas impingidos
os problemas da vida
os problemas da morte
os problemas por tudo
os problemas por nada
os problemas raciais
os problemas de merda
a merda dos problemas

Mendes de Carvalho, "Satírica"
[Imagem extraída com a devida vénia de goodtoknow.co.uk]

terça-feira, 29 de setembro de 2009

"Fariseus de Hoje"


Das recentes eleições guardo sobretudo três imagens.

De uma (da imensa amargura que me causa a aparentemente irreprimivel pulsão suicidária da sociedade portuguesa ainda uma vez demonstrada) deixo, imediatamente a seguir um registo---naturalmente amargo e sem (demasiada) esperança.

Das restantes duas falo agora, aqui---e são:

A "imagem auditiva" de Mira Amaral "discorrendo" publicamente sobre as virtudes políticas da líder do seu partido.

Não vou alargar-me em comentários. Digo apenas o seguinte: "aquilo" tem, no mínimo, uma qualidade: é Portugal (a ideia... "neo-portuguesa" de "Política) no seu mais vil e mais baixo---que é como quem diz: em todo o... "esplendor" da baixeza ética, cívica e política que parece ter-se instalado definitivamente entre nós.

Depois de ouvir um fulano falar assim de um seu correlegionário (ao qual não me ligam, de resto, quaisquer---mesmo remotos, entenda-se!---vestígios de identificação política e/ou empatia pessoal, é preciso sublinhar) fica-se esclarecido (quem ainda não estivesse ou se tivesse já esquecido do que foi o sinistro governo onde a criatura evolucionou em tempos de má memória)sobre o fulano, claro (mas o fulano é definitivamente aquilo que menos interessa) mas fica-se sobretudo elucidado sobre o modo como se faz hoje... "política" entre nós.

Como a fazem certos... fulanos que, porém, reclamam fazê-la por nós e em nosso nome!...


Enfim...


Outra imagem é-me fornecida por essa tenebrosa "sede do Largo do Rato" ("Ah! Se o mesmo dizer pudesse/Dos monstros do Largo do Rato!...) onde meia dúzia de idiotas úteis (?) se juntaram, após a publicação dos resultados eleitorais, para (imaginem bem!) comemorar a vitória do "pê-ésse" (a vitória deles, idiotas, ou sobre eles, ainda mais idiotas?...)


Pois foi o caso de, por birra ou puro desprezo, obtido o voto dos papalvos, o chefe "daquilo" (com pouca propensão para Senhora de Fátima ou de Lourdes...) ter resolvido (ou já o estaria antes, não sei...) não aparecer aos "fiéis" que por ali se atardaram, ainda assim, patéticos, grotescos, erráticos e ridículos, cada vez mais indescritivelmente atarantados, guinchando sempre tonterias e necedades à toa, enquanto da "fortaleza" indiferente e enfadada, se iam uma a uma apagando as luzes, num fim de (inexistente) "festa" penoso, lúgubre, charro, baixo, indigno, desesperadamente degradante.


Que humilhação mas que lição também!...


Que "perfeita" imagem de uma certa "pulhítica" nacional, insensível e rapinante, que das pessoas apenas pretende o uso imediato e que "às consciências disse sempre nada", parafraseando livremente um título, aliás belíssimo, de Mourão Ferreira!...


Na própria noite em que usou os votos daqueles e de outros patetas como eles para garantir que voltaria a sentar-se no poder, Senhor!!


Que belo "retrato"!
Um escouceia, outro cospe.


Um insulta, outro desconsidera---injuria e enxovalha com o seu imperdoável, imoral desprezo.


...E, no meio, uma multidão de tolos patéticos que ninguém ouve nem respeita, guincha sozinha numa praça deserta, escurecida, incapaz de perceber que a sua brevíssima utilidade cessou já e que é tempo de dar por encerrados os curtos "cinco minutos de importância" que os tiranos manipuladores, do alto da sua obscena insensibilidade e da sua sempre indecorosa arrogância, aceitaram conceder-lhes.




Conclusão: até eu que não votei (e em caso algum, votaria!) "pê-ésse" senti como uma súbita bofetada na cara, impossível de esquecer, o infernal arrojo dos tiranetes impudicamente saciados!...
Que vergonha, meu Deus!...




[Imagem ilustrativa extraída com a devida vénia de manoeldc.blogspot.com]

"A Place Called... Hope"



Regresso---ainda perplexo pelos resultados das recentes eleições...

Português por nascimento e por vocação, decididamente nunca hei-de ser capaz de perceber um país que invariavelmente parece fadado para enamorar-se perdidamente dos seus piores inimigos e captores assim como em triunfo e júbilo sempre impaciente por entregar-se a quantos implacavelmente vêem como corvos regularmente profaná-lo!...

[Decididamente, meu caro Portugal, é absolutamente indispensável que nos exilemos de ti para, na ausência de compreensão, por ti possamos voltar a sentir ao menos a réstea mesmo frágil e fugaz de um afecto...


...já não digo de um desejo...]


[Na imagem: "Traveller's Tales", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, republicado de http://umnaoalexandreonirico.blogspot.com/]

domingo, 20 de setembro de 2009

"Mudança de símbolos..."


Para terminar não resisto a um trocadilho dito em estilo "stand-up comedy".

É o seguinte: dantes para simbolizar a Justiça, recorria-se topicamente à imagem de uma mulher vendada; tendo, todavia, presente o conjunto de "alterações significadas" nela feitas, durante o seu lamentável mandato, pelos "pê-ésses", vai inevitavelmente ser necessário rever, a muito breve trecho, por completo, a simbologia respectiva.

O grande problema é:

COMO REPRESENTAR UMA MULHER AGORA NÃO JÁ VENDADA MA$... VENDIDA???!!!...


[Imagem ilustrativa extraída com a devida vénia de norte-caustico.blogspot.com]

"Onde, Pelas Várias Estações" de Fima Hasse Pais Brandão

Hoje, ainda, após Meléagro, um poema da Fiama---da Fiama Hasse Pais Brandão.

Escolhi um texto da Fiama (que foi uma das mais interessantes poetisas contemporâneas em Portugal, juntamente com uma Luiza Neto Jorge, por exemplo) porque é de facto uma das vozes mais interessantes e ousadas da moderna Poesia portuguesa que, na década de '70 protagonizou, na sociedade portuguesa, juntamente com Gastão Cruz ou Ruy Belo, por exemplo (tudo gente "de Letras" e meus contemporâneos) ou ainda Teresa Horta uma pequena revolução no gosto leitor.

Numa sociedade onde a Poesia é, cada vez mais (mais ainda!) um hábito (e, sobretudo, um gosto) quase residual, sabe bem relembrar estes e outros nomes (com o grande, o visionário, o 'beckettiano' Herberto Helder à cabeça) e o contributo que todos eles, de um modo ou de outro, deram para uma contemporaneidade inovadora, refinada e esclarecida, num Portugal onde o conformismo, o convencionalismo e a mediania (quando não, a franca mediocridade) eram (e, ao que tudo, infelizmente, indica, não deixaram de ser...) regra geral.


Na Poesia e fora dela...


Uma cidade eleva-se em brancura; sitia, em pureza
[
o horizonte
Luz de rigor.
Geometria dúctil.
Veias de mármore, cal no sangue, branca se estende

[
na sombra das pálpebras.
Jogo de asfixia luminoso, praças, ruas e árvores para

[
aprender a respirar e a morrer.
Uma cidade liberta na tarde, aconchegada no uso, predra

[
gasta ornamental, sitiada de azulejos.
O que se ama é sempre fresco como a rosa---rumor
[
calmo no sangue, veia abrindo tranquila.
Na cidade se exalta o que, em luz e dureza, adia a morte.


[Na imagem: "Em Busca de Deus", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, republicada de http://umnaoalexandreonirico.blogspot.com/ ]

"«Epigrama» de Meléagro"


Prossegue, hoje, a "antologia" com um novo nome proveniente de um novo universo cultural: a Grécia Antiga.

O poema que insiro aqui é um epigrama de Meléagro, poeta nascido na Síria, em Gádaros, por volta de 140 a.C. e autor de uma obra intitulada "Coroa" onde recolheu textos seus e de diversos outros autores que o antecederam.

O que me leva a incluir este seu epigrama nos poemas "da minha vida" é, para além, obviamente, da delicada subjectividade que sobressai do próprio texto enquanto reflexão poética pura, válida em si mesma, sobre a vulnerabilidade humana; sobre a insegurança e o temor da perda, neste caso, por parte de um amante receoso e inseguro; para além disso, dizia, levou-me a inclui-lo o contributo que ele dá para a percepção dos aspectos mais instrinsecamente humanos---o carácter eterno da psique humana, no fundo---por detrás da distância temporal, geográfica, física mas, sobretudo, étnica e cultu(r)al---uma implícita lição de Humanismo, começada a dar a centenas de anos de distância.

Há (espantosamente---ou talvez não...) com efeito, alguma coisa de, por exemplo, Ungaretti ou Eugénio [de Andrade] na melancólica, delicadamente ensimesmada meditação poética que é este notável epigrama.


Tu dormes, Zenófila, jovem flor.
Ah! Pudesse eu,
como o Sono (mas sem asas) descer sobre tuas pálpebras
para que ele---a cujo sortilégio nem o próprio Zeus resiste!
---te não visitasse
e pudesse, desse modo, seguir eu sendo o único a gozar de teus encantos!

Meléagro


[Na imagem: "Vénus" por William-Adolphe Bouguereau, 1825-1905]

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"«Por Quem Os Sinos Dobram», «Meditação XVII» de John Donne (1572-1631) [excerto, versão/quasi-glosa]"


"Homem algum é uma ilha, só, completa em si mesma e totalmente isolada do que a cerca.

Todo o homem partilha necessariamente com os restantes homens da Totalidade, como a ilha que, do mesmo modo necessário e igualmente indeclinável, a divide com todos os continentes.

Basta que um só grão da terra que a compõe seja levado pelo mar para que a Europa fique, de imediato, mais pobre como se, não o grão de terra, mas uma montanha inteira ou a morada do amigo de um de nós ou a nossa própria o tivessem sido.

A morte de um único ser humano deixa-me fatalmente mais pobre porque eu e ele temos a ligar-nos essa íntima condição comum de humanos que indissoluvelmente nos vincula um ao outro---e a mim, a mim próprio, de modo particular.

É por isso que, ouvindo tu o sino que dobra na morte de alguém que não conheces, nunca deves questionar-te por quem dobra ele: é sempre, seja qual for o caso, por TI que ele dobra".


[Na imagem: John Donne (1572-1631)]

"Um Erro... Errado"


Sempre exemplarmente culto o "D.N." de ontem, dia 17, trazia uma (interessantíssima!) entrevista com uma senhora qualquer que, diz o jornal, é secretária ou assessora ou lá o que é desse grande diplomata e homem de Estado que é Durão Barroso, entrevista essa onde a boa senhora, encantada com Bruxelas e com o próprio Barroso (que senso de humor tem a criatura segundo ela! E que delicadeza de maneiras! E que espírito de missão! Imaginem a coragem que é precisa para oferecer flores àquele objecto sem graça que alguns dizem---sem explicar, aliás, a verdadeira natureza da coisa---ser um "Merkel"---e que raio será, meu Deus um "Merkel" desses de que tanto se fala hoje??!!...); entrevista essa, dizia eu, então, onde a boa senhora revela que, "par dessus le marché", a personagem, além de assessorar ela mesma cimeiras assassinas nas horas vagas e de falar inglês como um autoclismo acabado de descarregar também gosta de Arte designadamente, parece, da de Talma, do Teatro: informa-se sempre antes de chegar a Bruxelas da programação próxima et al...

E, especifica ainda a senhora, vai sempre ao Teatro de La... Monet.

Por acaso, que eu saiba (e vivi lá uns tempinhos ainda bons!...) não há nenhum Teatro de "La Monet" na capital belga.

É claro que para o "D.N." tanto faz: talvez um dia quando se inventarem a Internet e o escrúpulo profissional pasra os jornalistas, alguém se lembre de, quando for entrevistar outro alguém e não souber escrever uma coisa qualquer, consultar a primeira por exigência estrita do segundo...

Agora, porém, é, com certeza, pedir demais aos senhores do "D.N." que se documentem para não dizerem asneiras, antes de passarem ao papel aquilo que julgam ter ouvido...

Aliás, eu creio que para mal escrito, o nome do teatro belga está mesmo muito mal escrito: é que tratando-se de Barroso e daquela "Europa" toda que o cerca, o nome do teatro, para estar mal mas... bem devia ser Teatro de La... MONEY...

...Será necessário explicar por quê?...


[Na imagem: o Teatro de la MONNAIE, em Bruxelas]

"Fogo Cruzado---E Eu No Meio!..."


Hoje, ao comprar, logo de manhã o jornal, vi-me inesperadamente apanhado no meio de um intenso fogo cruzado que me causou, como se compreende, a mais profunda perplexidade e uma não menos profunda e naturalíssima inquietação.

Foi o caso de o "Diário de Notícias" ter vindo a público "denunciar" um (aliás, bizarríssimo!) complot com origem na própria sede da Presidência da República (!) visando atingir (no mínimo com suspeitas) o primeiro-ministro.

Terá sido, aliás, deste que terão saído as suspeitas em causa as quais envolveriam na (in?...) essência, um alegado propósito da parte de José Sócrates de escutar clandestinamente o P.R.

Ora, eu, para começar, tenho, pessoalmente, das conversas de Cavaco, públicas ou privadas, a pior das impressões em matéria de um possível interesse que eventualmente tenham as mesmas seja para quem for.

Com a maior das franquezas (e isto é falando mesmo com o coração nas mãos, ham?!...) não consigo imaginar uma única, saída daquela institucional (e pessoal!) boca que se possa, mesmo com toda a boa vontade deste mundo, antever minimamente original e susceptível de ser classificada de (mesmo apenas remotamente!) seja de que modo for, genuinamente 'estimulante'.

Mas talvez Sócrates cuja formação académica é... o que é e cujo nível intelectual e em termos gerais, cultural estará previsivelmente em consonância com (ou "refém"?) disso que a sua formação académica é; talvez Sócrates, dizia, tendo em vista esse traço distintivo da sua pessoa, tenha delas, das ideias do seu... rival de Belém, uma perspectiva substancial ou mesmo até (quem sabe?) substantivamente diferente.

Enfim... não sei mas deixa-me, insisto, em qualquer caso, perplexo a ideia de que alguém possa pagar (ou mobilizar serviços mais ou menos... secretos---esse é outro aspecto 'complicado', altamente brumoso da questão mas enfim...) para escutar Cavaco---Cavaco "of all people"!

Mas pronto, cada qual tem os rivais que merece e é normal que os procure (até por mero instinto animal, digamos assim) "entre os seus".

Não é isso que me "chateia".

Pode surpreender-me o facto de parte (ou a totalidade, não se percebe muito bem lendo o "Notícias"---, também, o que é que se fica a perceber e, de um modo geral, a saber muito bem, lendo o "Notícias", não é?...); pode surpreender-me, dizia---e efectivamente surpreende!---que uma coisa tão "secreta" como essa de escutar Cavaco e a sua gente mais chegada seja feito "em segredo"... sentando um fulano do M.A.I. (um "agente secreto" falhado, diz o jornal) à mesa do Presidente, no meio de um mar de gente que poderia (se não tivesse nada mais interessante para fazer, claro) ouvir exactamente o mesmo que o tal "agente-secreto-que-o-não-é"!!

Enfim...

Não! Não é, repito, isso que me "chateia".

Volto a dizer: cada um define-se por aquilo (e por quem) que escuta e pronto.
Não! O que me incomoda, sim (e muito!) é que me queiram tomar por parvo e que me obriguem ainda por cima a ter de pagar para sê-lo!

Quer dizer: ao dar o euro-e-meio que a "coisa" custa à sexta (que é quando sai aquela revista mixuruca e cafona, aquela "!Hola! dos pobres" ou "das hortas" com que eles nos começam, logo à sexta, a amargar o fim-de-semana mas que ainda é dos poucos sítios onde se pode, "pelo meio da confusão", ficar a saber com algum pormenor o que vai dar na televisão, durante a semana); ao dar, dizia, o euro-e-meio que custa aquela "coisa" toda, jornal incluído, uma pessoa, no caso do "Notícias", espera (claro!) que o tentem manipular como puderem (afinal, é para isso que o jornal serve, não? Não me lembro de tê-lo visto fazer muito mais do que isso desde o tempo em que Salazar e Caetano se elegeram a si mesmos e sempre para nos tramar a vida) agora assim tanto???!!

Entre estes e o "Público" (um importante "asset"do grupo "Sonae", de Belmiro de Azevedo: uma "saída para o mar" do grupo...) parece, com efeito, ter-se definitivamente perdido por completo o sentido da mais elementar idoneidade ética e deontológica!

A "estória" destas alegadas escutas "cheira" a esturro a dez léguas de distância: ninguém ignora que entre o "Público" e Sócrates "there's no love lost", como diria um inglês.

Que é como quem diz: o jornal gosta tanto do primeiro-ministro como eu ou como (sei lá!) um muçulmano fiel gosta de toucinho, isto é: nada!

Nem só um bocadinho!

Agora, que um, o "Público" resolva entrar na campanha eleitoral, de um modo completamente inadmissível, "pela porta dos fundos", fazendo fretes camuflados a Cavaco e ao P.S.D. e que outro decida contrapor, "expondo", diz ele, a manobra a meia-dúzia-de-dias das eleições na tentativa evidente de "fazer montinho" para Sócrates parece-me, com toda a franqueza, tanto abusar da credulidade e da boa fé de quem compra jornais (e entrar já decididamente por caminhos, no mínimo, altamente contestáveis, em termos, como disse, éticos e deontológicos) como faz o próprio P.R. (a serem autênticos os documentos publicados pelo D.N.) que para fazer um coisa que parece ser exactamente a mesma, usa aquilo a que os fascistas chamavam, com a hipócrita pompa com que nunca deixavam de tratar em público as diversas componentes do "seu" Estado privado: "a mais alta magistrtura da Nação".

O que choca e horroriza é, numa palavra, ter a "democracia" portuguesa chegado a um nível de degradação destes.

Até aqui, podia-se ser o mais incompetente e mesmo genericamente o menos credível e até, sob diversos aspectos, o menos respeitável dos "políticos" (ser, por exemplo e desde logo, um autêntico desastre na condução dos assuntos de Estado) que, uma vez, superado com êxito esse "obstáculo", se ficava automaticamente limpinho de mácula e pronto para assumir um cargo "de luxo" na Europa, como "prémio", a fazer fretes já a outro nível mais... "suculento" e proveitoso (à "oligarquia eurovegetativa", por exemplo ou a fingir ter alguma relevância na implementação de, aliás inexistentes, políticas de assistência e apoio aos refugiados de todo o mundo, por exemplo, epito).

Até aqui, havia, com efeito, essa prática de redenção da pura mediocridade e do mais gritante e repulsivo oportunismo através do baptismo miraculoso de um supercargo qualquer à porta do qual todo o mal anterior ficava mais ou menos providencial e milagrosamente retido.

A fronteira ética e política que parece agora poder ter sido franqueada é possivelmente a única que faltava: aquela que separava ainda, apesar de tudo, esses cargos mais ou menos purificadores e redentores, em matéria ética e cívica dos jogos de baixa política que são, previsivelmente, aliás, insisto, a gota de água faltava no sentido de conduzir ao descrédito final total da vida pública entre nós.

"Breve Introdução a «Chanson Dans Le Sang» de Jacques Prévert"


Dou hoje continuidade à minha muito pessoal antologia de Poesia (aos "Poemas da minha vida", para utilizar o cliché) com um texto de Prévert, o grande Prévert, "Jean Renoir da Poesia" e/ou "Alexandre O' Neill da Rive Gauche"...

Sempre pensei que existiam, com efeito, algumas substantivas analogias entre a Poesia de Prévert e de O' Neill e o Cinema de Renoir---um Cinema e uma Poesia (quase) literalmente "crepitantes", concepcionalmente irrequietos, permanentemente ávidos de movimento e acção (característica 'acção textual', nos casos de Prévert e de O' Neill), voluptuosamente inquietos, repletos de uma seminal (não-raro quase explicitamente sensual mas sempre imensamente cordial) vitalidade---algo, um fluxo, uma corrente, uma intensa e jovial pungência que os percorre intimamente como uma seiva ou um sangue, sempre vivos e, num certo sentido, sobretudo, vivificantes.
Há, designadamente a nível da concepção ou do "desenho" textual puramente enquanto tal, algumas outras possíveis similitudes, com Carlos de Oliveira, por exemplo, cujas textualidades iam também muito no sentido de uma certa "abertura persistente do próprio texto como tal para vazio" que reencontramos---que eu, pelo menos, reencontro---comummente em Prévert e, também, de resto, noutro Poeta de quem já aqui falei (e que já aqui antologiei) e que é o 'nosso' Zeca.

Mas o Zeca é incomparavelmente "mais prévertiano" do que Carlos de Oliveira---porque o é, se quisermos (como dizer?) "de dentro da própria ideia e do espírito (do "génie", diria Butor de alguns lugares) de poema" assim como das próprias "coisas" que põe "lá dentro", também dessas, digamos assim.

Na verdade, tanto o Zeca como Prévert e o próprio O'Neill parecem assentar sempre, em última análise, todo o edifício global do texto (de certos textos, pelo menos: de muitos deles) numa espécie de "labirinto fónico e, sobretudo, rítmico" premeditadamente descentral e mesmo ostensivamente descentrado, "cheio de esquinas e ângulos", sempre em busca da vertigem total ou quase total---aquela vertigem que torna a leitura uma espécie de sempiterno "jogo de perícia impressional e conceptual" ou de "corrida de obstáculos textuais" em direcção não apenas ao sentido (como em certos casos e sob um certo ponto de vista, sobretudo) aos próprios sentidos, fazendo da leitura de qualquer deles uma experiência absolutamente fascinante para o amante de "emoções poéticas fortes" que, indisputavelmente, sou.

Esta "Chanson Dans Le Sang" (que a Joan Baez diz, com a sua prodigiosa voz de "cristal finíssimo" numa versão inglesa de que não achei, de resto, traço na Net) é, para mim, um momento poeticamente absolutamente notável na Obra do Poeta e isto por mais de um motivo---sendo que um desses motivos, possivelmente o mais relevante, é o modo extremamente consistente e eficaz como Prévert "cola" a pulsão para a desintegração (que não exactamente des-integração: são coisas distintas...) e para a anarquia ou, em termos estritamente poéticos, textuais, para a abstracção que lhe é mais ou menos natural e instintiva à vontade clara de intervir socialmente.

A mim, pessoalmente, faz-me, nesse aspecto, lembrar um outro Artista, visionário e excessivo (um "jovem deus" e outro espírito caracteristicamente "descentral" da mesma... "família cosmovisional" destes que citei) e que é Jean Vigo para quem a "vanguarda" (ao contrário do que se passa com um René Clair, por exemplo) muito mais do que um exercício predominantemente formal (libertador pela Forma---e da Forma) estimulante e inovador embora, permanece sempre, no limite, um acto de lucidez e aguda, permanente, esclarecida vigília.

[Na imagem: Jacques Prévert par Robert Doisneau]

"Chanson Dans Le Sang" de Jacques Prévert


Chanson dans le sang

Il y a de grandes flaques de sang sur le monde
où s'en va-t-il tout ce sang répandu
Est-ce la terre qui le boit et qui se saoule
drôle de saoulographie alors
si sage... si monotone...
Non la terre ne se saoule pas
la terre ne tourne pas de travers
elle pousse régulièrement sa petite voiture ses quatre saisons
la pluie... la neige...
le grêle... le beau temps...
jamais elle n'est ivre
c'est à peine si elle se permet de temps en temps
un malheureux petit volcan
Elle tourne la terre
elle tourne avec ses arbres... ses jardins... ses maisons...
elle tourne avec ses grandes flaques de sang
et toutes les choses vivantes tournent avec elle et saignent...
Elle elle s'en fout
la terre
elle tourne et toutes les choses vivantes se mettent à hurler
elle s'en fout
elle tourne
elle n'arrête pas de tourner
et le sang n'arrête pas de couler...
Où s'en va-t-il tout ce sang répandu
le sang des meurtres... le sang des guerres...
le sang de la misère...
et le sang des hommes torturés dans les prisons...
le sang des enfants torturés tranquillement par leur papa et leur maman...
et le sang des hommes qui saignent de la tête
dans les cabanons...
et le sang du couvreur
quand le couvreur glisse et tombe du toit
Et le sang qui arrive et qui coule à grands flots
avec le nouveau-né... avec l'enfant nouveau...
la mère qui crie... l'enfant pleure...
le sang coule... la terre tourne
la terre n'arrête pas de tourner
le sang n'arrête pas de couler
Où s'en va-t-il tout ce sang répandu
le sang des matraqués... des humiliés...
des suicidés... des fusillés... des condamnés...
et le sang de ceux qui meurent comme ça... par accident.
Dans la rue passe un vivant
avec tout son sang dedans
soudain le voilà mort
et tout son sang est dehors
et les autres vivants font disparaître le sang
ils emportent le corps
mais il est têtu le sang
et là où était le mort
beaucoup plus tard tout noir
un peu de sang s'étale encore...
sang coagulé
rouille de la vie rouille des corps
sang caillé comme le lait
comme le lait quand il tourne
quand il tourne comme la terre
comme la terre qui tourne
avec son lait... avec ses vaches...
avec ses vivants... avec ses morts...
la terre qui tourne avec ses arbres... ses vivants... ses maisons...
la terre qui tourne avec les mariages...
les enterrements...
les coquillages...
les régiments...
la terre qui tourne et qui tourne et qui tourne
avec ses grands ruisseaux de sang.


[Na imagem: Jacques Prévert par lui-même]

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

"Dois Autores"

Álvaro do Carvalhal
António Patrício

Termino a "escrita", por hoje, tributando uma homenagem pessoalíssima a dois Autores supostamente "menores" que particularmente admiro: Álvaro do Carvalhal (um dos poucos cultores do fantástico, entre nós, autor de, entre outras, uma novelette absolutamente notável de originalidade e fôlego narrativo "in the bud" mas já perfeitamentre reconhecível intitulada "Os Canibais", poderosa sátira de costumes que Manoel de Oliveira adaptou, como se sabe, ao cinema, a "cinópera") e António Patrício (dramaturgo e poeta da decadência a quem Listopad chamou, um dia, qualquer coisa parecida com 'uma espécie de Beckett avant-la-lettre').

Para quem os não conhece ou conhece menos bem, fica aqui uma sugestão de leitura que vai, seguramente, constituir para alguns uma (dupla) e fascinante revelação.

"A Mão Entre o Crepitar"


Vou talvez a muitos surpreender quando revelar a identidade do autor deste poema.

Autor em vida sempre (como dizer?) "benevolentemente injustiçado" a cujo nome (e a cuja memória, depois) se colaria---ao que tudo indica, definitivamente---a etiqueta de "cantor de intervenção" e mero "letrista", continuou até hoje a sê-lo (injustiçado, quero eu dizer) na morte, na morte física---circunstância durante a qual a etiqueta se tem ainda e sempre recusado obstinadamente, como disse, a cair.
E no entanto...

... E, no entanto, José Afonso, o "Zeca"---é dele que falo---foi também um originalíssimo Poeta (Poeta-poeta, quero eu dizer) que falta (e urge) re/descobrir.

Se há coisa que a mim, pessoalmente me fascine na Obra do Zeca (que já tive, aliás, oportunidade de explorar criticamente noutro lugar) é essa espantosa propensão ou vocação inata para a "surrealidade" e para o fantástico (uma característica, aliás, como é sabido, comparativamente muito rara, na literatura portuguesa) que marca praticamente toda a sua Obra, incluindo, aliás, muitas das suas mais conhecidas... letras, onde o impulso para afrontar, questionar e mesmo integralmente desconstruir o mundo logo a partir da sua 'imagem ou reflexo verbal' (e até conceptual) mais de epiderme, mais convencional e comum é, muitas vezes, nos seus melhores momentos de criatividade (de que me permito referir, de modo particular, um, para mim, absolutamente definitivo "O Cavaleiro e o Anjo") poeticamente arrebatador e, de um modo mais lato, mais amplo, (sempre) "textualmente empolgante".

Dividido entre um projecto de intervenção imediata (que lhe era, aliás, insistentemente exigido e que a dado passo, o fez refém voluntário de si) e a "vocação" poética "pura", José Afonso, consegue, nos seus mais bem sucedidos textos, momentos de resplandecente síntese onde ressurge, "lavado mas nunca, em caso algum, traído", todo um património ou acervo, em larga medida, identitário português de surrealismo popular através de cuja cuidada "recuperação", José Afonso faz na Poesia, na Textualidade Verbal que é a sua matéria-prima e a sua "oficina", o que Godard ou Straub e, noutro sentido (e de outro modo) Brecht, todos eles, às suas distintas maneiras, conhecidos (e talentosos) revolucionários, fizeram respectivamente no Cinema, os dois primeiros e no Teatro, o terceiro: "abrir de alto abaixo o respectivo medium" diante dos nossos olhares "assim triunfalmente desinquietados e não-raro, extasiados", obrigando-o a falar---exuberantemente---das coisas em redor, através do expediente estratégico de começar logo por levá-lo a "falar", "in the first place", abundantemente de si.

O registo textual de José Afonso é, com efeito, sempre inquietantemente descentral e estimulantemente inesperado e imprevísivel, sempre saltitando, incansável e falsamente volúvel, ilusoriamente descuidado, às vezes, quase febril, entre o texto e o meta-texto, entre a ideia e o 'fantasma crítico' da ideia, entre o conceito e a impressão, sempre "olhando com as palavras", as sonoridades (as sonoridades!) e as respectivas possíveis sugestões (como num quadro de Cézane, Picasso, Amadeo ou Braque) o mundo de vários ângulos ao mesmo tempo.
Poeta profundamente culto soube sempre fazer da aparente 'inocência' ou mesmo aberta 'adolescência textual' uma forma agudíssima de esclarecimento e percepção e da própria limpidez geral com que concebe topicamente o texto uma verdadeira 'ciência' e até (quase invariavelmente, aliás) acima de tudo, uma ética.

A mão entre o crepitar
De prata em forma de cunha
Fez o formato da cara
Mas não são bolas de pão
São pedacinhos de queijo
Que as ratas buscam e cheiram
Na minha imaginação
Não lhes peçam mais casulos
Com esse olhar de cereja
Sejamos bichos avaros
Deitemos fora o cotão
Dos pedacinhos de queijo
Nascem bolas de sabão.


[Na imagem: José Afonso por Vasco]

"«Nostalgia no Jardim do Harém» de Tran Thanh Tong [Vietname]"


Agora, aqui, um ilustre nome asiático: Tran Thanh Tong.
À semelhança de, por exemplo, alguns príncipes arábico-andaluzes que foram também notabilíssimos poetas, Tran Thanh Tong foi, ele próprio rei.

Nascido no século XIII, em 1240, no que é hoje o Vietname, rei e filho de rei compôs diversas obras que, todavia, se perderam, delas tendo apenas sobrevivido alguns poemas dispersos, entre os quais aquele cuja versão livre o "Quisto" entendeu, desta feita, inserir, dando prossecução ao projecto de divulgar e homenagear os "Poetas da Vida" do seu criador.

A presente versão foi elaborada a partir de uma tradução francesa incluída numa "Anthologie de la Littérature Vietnamienne", tomo I, "Des Origines Au XVIIe Siècle", Éditions en Langues Ètrangères", editada em Hanoi em 1972.


Uma fina poeira recobre as portas desertas, a frágil bruma aquieta e amortalha os caminhos em redor;
Em pleno dia tudo está mergulhado num íntimo silêncio que os passos não perturbam;
Mil cores de fogo vivo resplandecem em vão:

Ah! Para quem florirá realmente a Primavera?...

[Na Imagem: pintura chinesa sobre seda, retirado com a devida vénia de monicadegodoi.com.br]

"Todavia" de Zoltan Zelk


Desta vez, um autor europeu: um húngaro, Zoltan Zelk, nascido em 1909 e falecido em 1981.

O poema que aqui se (re) antologia intitula-se "Todavia" e tem tradução portuguesa de José Blanc de Portugal que não é, porém, a que aqui apresento.

A versão que aqui apresento foi reconstruída, com alguma poética liberdade, a partir da tradução---literal, diz o tradutor---portuguesa constante da antologia 'Poetas Húngaros' editada em 1983 pela Morais Editores .


E todavia todavia todavia
e todavia não não todavia

o vento apaga o círio
mas acende no mesmo único gesto
a labareda do poema

e assim:


todavia todavia todavia!

"Erratum"

Mea culpa! Mea culpa!

Citando de cor, atribuí, de forma dificilmente explicável e absolutamente imperdoável, a Otto René Castillo, grande poeta guatemalteco, um poema que, na realidade, é da autoria do não menos talentoso e importante, Julio Fausto Aguilera, outro compatriota de Miguel Angel Asturias, o Nobel de 67.

Nascido em Jalapa em 1929 teve (como René Castillo, aliás) forte intervenção cívica e política (Castillo foi inclusive abatido no contexto da sua militância guerrilheira) e foi, como o poema reproduzido eloquentemente demonstra, um soberbo Poeta que vale seguramente a pena descobrir melhor.

Porque me repugna fazer batota e recusar a responsabilidade dos erros que cometo (e este é, volto a dizer, verdadeiramente imperdoável!) não quis alterar a redacção desta 'entrada' do "Quisto", preferindo remeter os Amigos que aqui queiram ter a generosidade de me vir 'visitar' e a quem apresento as minhas mais compungidas desculpas pela maldade cometida) para a que imediatamente a antecede onde a injustiça cometida não apenas com Fausto Aguilera mas de igual modo com o próprio René Castillo (cuja Obra de Poeta dispensa obviamente "ofertas" desta mais do que duvidosa e ilegítima natureza, valendo por si própria) é, tardiamente embora, devidamente corrigida a e verdade da autoria daquele soberbo "En El Desierto" por mim escolhido para abrir um espaço antológico específico futuro no "Quisto", adequadamente reposta.

[Na imagem: Retrato de Julio Fausto Aguilera pelo pintor Chepe Maldonado]

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"En El Desierto" [Ver a propósito, 'entrada' anterior]


[Existe na RDP uma rubrica matinal que, ocasionalmente, oiço intitulada "As Canções da Minha Vida".

É um programa como qualquer outro que oiço muitas vezes, em larga medida, 'por dever de ofício' uma vez que não tem os negregados anúncios da praxe a interromper obscenamente a programação e a destruir impiedosamente mesmo a mais remota hipótese de discurso minimamente consequente e adulto, hoje-por-hoje, aliás, uma verdadeira raridade senão, na maioria das rádios, uma pura e simples... saudade.

Seja como for, lembrei-me de "copiar" a ideia (eles, RDP, copiaram-me, em tempos, o título de uma colagem que expus publicamente na Bienal de Artes Plásticas do Avante, agora é a minha vez de plagiá-los a eles numa coisa que, de resto, nem sequer é propriamente original mas enfim...---reportando-a, em qualquer caso, todavia, à Poesia: aos meus "lugares selectos textuais" particulares].

Assim sendo, começo hoje mesmo com este espantoso texto de um poeta da Guatemala, chamado Otto René Castillo (1934-1967) extraído de uma Antologia de Poesia latino-americana e que tem a inestimável, a imensa qualidade de, sob forma poética---aliás, textualmente 'luminosa'!---avançar todo um projecto implícito de intervenção cívica e, claro, política (potencialmente política, ao menos, quase 'luminosamente', volto a dizer, anarquista no melhor sentido da palavra); tudo isso sem sacrificar minimamente (bem pelo contrário, aliás!) a fabulosa concisão e a brilhantíssima mestria global na construção do soberbo edifício textual final.

... Que é, de facto, literalmente de antologia.]


Tu agua,
Ligea,
no tiene propietarios
ni señores!

Si dueño tiene
tu agua,
es, solo el que se ahoga de sed

en el desierto.

[Do livro "Mi Buena Amiga Muerte y Otros Poemas"]

"Esta É Para O Meu Amigo João Luís N."


... que localiza numa 'geografia pessoal dos afectos' muito sua (mas de que, até por razões 'de sangue' e de cultura familiar, partilho incondicionalmente) o Paraíso no Alentejo.

Sê-lo-á, de facto?

Bem... ao certo, ao certo, não sei---agora que, perante imagens como a que reproduzo aqui hoje do Paço dos Alcaides, em Montemor-o-Novo, retirada, com a devida vénia, da Net, parece, ai, isso parece!...

Um abraço ao João Luís com os votos de óptimo trabalho extensivo a todo o 9º grupo---e muito em particular aos... heróicos resistentes do "meu tempo".

"Carlos Gomes 'dixit'---subsídios antológicos para uma antropologia do Desporto português a partir da autobiografia do ex-guarda-redes Carlos Gomes"

Já aqui falei, por diversas vezes, no Carlos Gomes.

Admirei-o como futebolista e confesso que, algumas vezes, o invejei como indivíduo.

Tinha por ele (e reforcei, de resto, esse sentimento lendo o seu "O Jogo da Vida") o fascínio (e a inveja!) que há, em geral, pelas crianças---e pelos loucos...

Porque o Carlos Gomes era (confessadamente) louco: dizia o que, no (hoje em larga medida "reinventado") regime fascista português, poucos mais tinham coragem de dizer e fazia aquilo que eram ainda mais raros os que ousavam sequer imaginar...

Carlos Gomes foi excessivo em tudo: no génio, no temperamento, na loucura.

Depois de retirado, disse, além disso, algumas das verdades que tinham, apesar de tudo, ficado por dizer e que vale a pena recordar e, sobretudo, re/transmitir a quantos não viveram esse tenebroso período da História nacional que foi o salazarismo que, hoje, volto a dizer, alguns por má fé, outros por ignorância e (im) pura estupidez, se obstinam em "recuperar" branqueando e ousando mesmo repropor à admiração de alguns... "ingénuos de carreira" que "por aí" circulam visivelmente ansiosos por serem (in?) justamente iludidos...

No sentido de refrescar algumas memórias mais embotadas (voluntariamente ou não...) e de ajudar a esclarecer umas quantas consciências mais... 'verdes' e, por isso, fáceis de iludir, proponho-me, hoje, aqui, oferecer a todos uma necessariamente breve antologia de "fragmentos escolhidos" do livro do Carlos Gomes, o já citado "O Jogo da Vida", publicado sem data, na colecção "Peregrinações", pela editora "Regra do Jogo".

Comecemos pela caracterização sociológica básica do clube onde o grande guarda-redes jogou em Portugal, após ter saído do Barreirense: o Sporting.

Ora, eu já aqui disse no "Quisto" alguma coisa sobre o meu "benfiquismo".

Disse (e repito-o agora) que me tornei (ou nasci?...) benfiquista por cultura familiar, é verdade, mas também por "imperativo de (quase) consciência", digamos assim.

Num certo sentido, tornei-me (ou, volto a questionar: terei já nascido?...) benfiquista pelas mesmas básicas e, em larga medida: instintivas razões de temperamento e maneira-de-ser pelas quais o outro Carlos António, o Gomes (obviamente!) nunca perdoou ao Sporting onde jogou e atingiu o estrelato exactamente a "imagem sociológica" persistente que tinha à época e que, de resto, o clube de Alvalade se encarregava ele próprio de substanciar numa prática regular de estreitíssima cumplicidade (ou devo dizer: de promíscua colagem?) ao poder político de então, prática essa de que, segundo confessa no livro, o próprio Carlos teve bastas razões para testemunhar, sofrendo-a mais de uma vez na pele.
É curioso, aliás, a este propósito, que se diga com alguma frequência (e muito desconhecimento da realidade, também!...) que o Benfica foi o... "salazarismo desportivo".

Claro que o salazarismo se serviu do futebol e naturalmente da sua imagem tópica entre nós que é o Benfica para mais eficazmente tentar entrar no espírito de uma larga camada da população; mas isso aconteceu exactamente porque o Benfica estava naturalmente identificado com essas camadas que eram em regra as mais desfavorecidas da sociedade portuguesa---o incipiente proletariado urbano e a grande massa do proletariado rural de então---e era deles, em mais de um sentido, a expressão institucional mais imediata e espontânea.

Foi porque o Benfica era sociologicamente isso que o 'regime' tentou usá-lo para "chegar ao povo" onde lhe foi sendo, aliás (e o livro do Carlos Gomes testemunha e documenta essa crescente dificuldade, vivida, de resto, por dentro) cada vez mais difícil entrar... sozinho.

Vejamos algumas passagens do livro sobre esta matéria:

Carlos Gomes descreve e caracteriza assim o Barreiro do seu tempo (de uma forma que é também, de mais de uma maneira, uma descrição e uma caracterização do Portugal do salazarismo):

"Os seus habitantes eram em esmagadora maioria anti-regime, coisa que naquela época se pagava muito caro. Para os fascistas os barreirenses eram motivo de especial interesse sendo considerados como malucos, comunistas ou... presidiários.

[...]

A C.U.F. empregava milhares de barreirenses e tinha---pois não!---a sua própria polícia. Só aqueles que aceitavam denunciar tudo quanto viam e ouiviam e os seus quadros superiotres viviam desafogadamente. Os outros, tinham uma uma situação económica e social catastrófica. A C.U.F. fomentou ódio e criou comunistas.

Outras particularidades barreirenses eram a elevada taxa de tuberculose, a vila sempre cercada de militares duros e o nela ter nascido, paradoxalmente, um dos mais famosos chefes da PIDE.

Foi neste ambiente que fui crescendo e via como em mim aumentava o ódio pelos «senhores importantes» e pela sua triste e porca palhaçada. Ver como aquela gente boa e trabalhadora tinha de se dobrar em vénias quando passava algum «senhorito» era inaguentável. Pobre do trabalhador que não quisesse cumprimentar respeitosamente aqueles fantoches! Era trabalhador... desempregado" [op. cit. págs. 13-14].

Transcrevi este longo parágrafo para enquadrar o que se segue onde se começa especificamente a falar da tal imagem sociológica que é o tema básico desta 'entrada'.

Escreve Carlos Gomes:

"Tinha catorze anos quando começou a época dos desafios silenciosos. Época de enorme agitação social, a «malta» esperava os domingos com impaciência, sobretudo se vinha o Sporting. Era hora e meia desabafando das injustiças semanais" (op. cit. pág. 14, sublinhado meu).

E acrescenta:

"O ambiente chegou a ser tal que o regime decidiu que ninguém poderia gritar durante o decorrer dos desafios. Cada vez que havia um jogo, um destacamento da Guarda Republicana instalava-se dentro do estádio, enquadrando o rectângulo de jogo com as metralhadoras nas mãos e de frente para o público. Pobre de quem abrisse a boca. Jamais esquecerei aqueles desafios silenciosos... [Ibid. loc. cit.]"

E mais adiante ainda [pág. 21] revela:

"Entretanto tinha falecido o «meu» primeiro presidente e tinha sido eleito, por aclamação, um dos poderosos do regime---Góis Mota---que ostentava, entre outros, o cargo de Procurador-Geral da República. Também nas horas livres era um dos grandes da Legião Portuguesa, comandava aquela polícia paralela à PIDE, sendo conhecido nestes serviços como «O General» [sublinhado meu].

E mais adiante (ibid. pág. 43):

"[...] a equipa [do Sporting] ia só em segundo lugar e para os patrões sportinguistas (refiro-me aos dirigentes e nunca aos sócios) o facto de um clube popular como o Benfica ir à cabeça era insultuoso para tanto poderio burocrático" [sublinhado meu].

Descrevendo, por exemplo, a sede do Granada, clube para onde se transferiu do Sporting, (d)escreve Carlos Gomes (op.cit.pág. 50), evidenciando implicitamente o luxo a que andava à época associado o clube de Alvalade, reflexo precisamente da sua estreita ligação ao regime político da ditadura:

"Acostumado ao luxo do local sportinguista, com os seus restaurantes, sala de cinema, ginásio, barbearia, serviços médicos, etc. etc. [...]"

Era, porém, apesar do que tudo o que no livro o seu autor reporta sobre quanto aqui já reproduzi, era a Carlos Gomes difícil ser mais claro do que na página 55: "ainda que a PIDE já metesse o nariz em território espanhol [...] o Sporting e o Governo português (que era quase o mesmo) [...] (sublinhado meu)".
A ideia de uma estreita relação do Sporting com o poder é reforçada por uma série de citações avulsas onde ela, ainda que implícita, fica amplamente sugerida.

Por exemplo, na página 63:

"Os negócios corriam bem, quer na leitaria, quer no estúdio fotográfico. [...] Apenas a garagem andava mal, pois (olha por donde!) o proprietário do edifício era um vice-presidente do Sporting que, ao saber que eu tinha pedido à Câmara Municipal a autorização para colocar umas bombas de gasolina, opôs-se.

A Câmara acabou por me comunicar que as não podia instalar, porque entre a porta da garagem e a estrada não havia bastante espaço. Quando meu pai, comigo já ausente, trespassou a garagem, viu com assombro como em poucas semanas a Câmara tinha alargado milagrosamente o passeio e autorizava a instalação de duas belas bombas... [...]".

Este pequeno acervo de citações ajuda a perceber a estreita ligação das cúpulas sportinguistas da época e, obviamente, da própria instituição Sporting Clube de Portugal, com o poder da ditadura.

Ora, este aspecto é importante por, desde logo, duas razões: a primeira (que é de natureza pessoal e clubista) é que ele fornece um contributo documental significativo, relevante, para ajudar a reperspectivar o mito de que o Benfica era o 'clube do regime' mas, de uma perspectiva mais lata e, sobretudo, mais objectiva a sua relevância advém-lhe do facto de ajudar a enquadrar e, por conseguinte, a compreender melhor todo o processo de decadência do próprio Sporting, iniciada em '74 com a queda do fascismo.

Desta, falo com mais pormenor noutro lugar, enquadrando-a numa análise global do fenómeno desportivo em Portugal.

Aqui, ficou, sobretudo, um (curto embora) património documental e, com ele, ainda uma vez, a homenagem àquele que foi, dos que vi actuar, o mais louco mas também o mais genial dos garda-redes portugueses, com todos os seus escessos e loucura um gritante 'corpo estranho' num país e num tempo em que não apenas "toda a nudez" como no título célebre de Arnaldo Gabor, mas toda a loucura para não dizer já toda a "diferença" era (impiedosamente) "punida".


[Imagem extraída com vénia de cadernetasecromos.blogspot.com]

"Talvez, afinal... (breves reflexões pessoais sobre Democracia a partir de uma notícia do "Monde")"


O "Monde" de 12.09.09 publica uma notícia com origem no martirizado Iraque envolvendo (e como podia ser de outro modo?...) o petróleo e, desta vez, para variar, não os E.U.A. nem a Grã-Bretanha, a Rússia e/ou a França mas a "emergente" China.

China que lançada, como se sabe, numa verdadeira corrida pelo crescimento económico global "chegou", pelos vistos, agora (concretamente no ano passado, diz o jornal) ao Médio Oriente pronta para competir também aí com as outras geopotências que já lá "estavam" pelo alimento electivo do modelo de "crescimento" global em vigor que é obviamente o petróleo.

Através de uma China National Petroleum Company, diz o "Monde" (cf. "Le Monde", Timothy Williams, "Deal With China Stirs Anger in Iraqi Oil Fields") a República Popular chinesa instalou-se, com efeito, na província de Wasit onde sempre segundo o jornal a sua visão alegadamente demasiado unilateral do respectivo modo de exploração "provocou uma onda de descontentamento".

De acordo com a notícia, Mahmoud Abdul Ridha, o chefe do Conselho Provincial de Wasit o problema é que esse modelo faz com que (e passo a citar) "não recebamos nada directamente da companhia chinesa. Há uma crise de emprego. Precisamos de estradas, escolas, estações de tratamento de águas.

Precisamos de tudo!"

Na sequência destas queixas, refere ainda o "Monde", começaram a ter lugar acções de retaliação ("sabotagem e acções de intimidação dos funcionários respectivos") contra a empresa chinesa.

Enquanto lia isto, algmas reflexões me iam acudindo irresistivelmente ao espírito.

A primeira delas diz naturalmente respeito a um fenómeno económico e social que ocorreu em Inglaterra, nos séculos XVIII e, muito em particular no XIX, quando teve início o processo de reconversão económica profunda que ficaria conhecido na História como a Revolução Industrial: o "machine breaking".

O "machine breaking" é a expressão social imediata do modo como a Revolução técnica e, sobretudo, económica teve lugar: segundo padrões de distribuição drasticamente desigual dos custos económicos, sociais e políticos da própria Revolução.

Começa aí, aliás, a meu ver, a 'Modernidade' tal como a conhecemos hoje através, sobretudo, da respectiva mutação histórica, económica, social, política e genericamente 'civilizacional' em pós-modernidade.

Inicia-se aí, com efeito, um modelo cada vez mais tópico e específico de agregação estrutural do Conhecimento à Economia que vai fazer com que a prazo e como tantas vezes tenho repetido o próprio Conhecimento se tenha tornado, primeiro, num produto, numa matéria-prima essencial no contexto do processo de produção social de capital e, em seguida, de certa forma, ele mesmo, no próprio capital.

Consequência inevitável deste processo de agregação ou indexação estrutural do conhecimento à produção social de capital foi a implementação de um modelo estrutural e necessariamente desigual de Modernidade que fez no plano abstracto do Conhecimento o que antes tinha feito no âmbito particular da propriedade material: um modelo de "knowlegde enclosure-ing" caracterizado por se basear, de forma necessária, em paradigmas de produção global que pressupõem a produção prévia estratégica e nuclear não só de "des-propriedade estratégica" como, mais do que isso e antes disso, de agnosia ou "ignorância significada" como componente social essencial do processo posterior de produção de riqueza final.

Ou seja: para que o modelo de "desenvolvimento" baseado na transformação industrial do saber-propriedade em produtos comece a gerar alguma forma social ou "socializável") de riqueza (na forma de salários, desde logo), ele tem necessariamente de, primeiro, produzir quantidades "estratégicas" proporcionais (e "proporcionantes") de escassez: escassez quer de riqueza privada (se, com efeito, toda a gente tiver meios próprios de subsistência, não precisa de sujeitar-se a trabalhar para outrem e durante os primeiros estádios do capitalismo industrial a mão-de-obra desempenha, de facto, um papel literalmente essencial e, por isso, insusceptível de ser dispensado---pelo que o processo de "enclosing" das terras agrícolas e da consequente pauperização global da sociedade inglesa foi vital para a implementação do modo de produção industrial); quer dos próprios bens sobre cuja produção e venda assenta toda a mecânica particular e específica do capitalisno industrial e pós-industrial (e, por isso, aquele, à medida que crescia a sua dependência estratégica da integração de Conhecimento, reforçou ulteriormente o processo de "abstractivização propiciadora" ou "enclosing" da propriedade privada conforme teve lugar segundo o modelo original das "enclosures", através da criação de um Direito próprio que "vedava" ou "enclosed" agora a própria criação intelectual vista como disse, já sem disfarces como propriedade e como capital).

Mas não só: isto é, não foi apenas necessário ao capitalismo industrial para que o modelo por ele configurado pudesse triunfar integrar, assim, nuclearmente na mecânica intrínseca do próprio processo produtivo como tal, a produção prévia, a produção propiciante "estratégica", de escassez material: exactamente porque ele se viu forçado, a dado passo, para poder competir com sucesso consigo próprio de transformar ou "mutar" o Conhecimento em capital teve, de igual modo, de gerar ou produzir previamente e em idêntica condição de pressuposto (in) essencial aquela "agnosia significada" a que atrás faço também referência.

O que significa, em síntese, que a produção de des-igualdade é um pressuposto verdadeiramente estratégico e, além disso, múltiplo do próprio modelo de "desenvolvimento" escolhido historicamente pelo "Ocidente" para protagonizar, digamos assim, pelo seu lado, a própria Modernidade.

Ora, aquilo que, no fundo, está a acontecer no Iraque com a ocupação económica estrangeira (e não apenas, como é evidente, chinesa) é, afinal, a prova de que há certas coisas básicas, (em mais de um sentido:) primárias e, a seu modo "essenciais", que não podem pura e simplesmente mudar enquanto não mudar o próprio modo de produção capitalista como tal, quer estejamos a falar do capitalismo assumida (politicamente) privado "ocidental", quer da variante "de Estado" ("state-centered") protagonizada pelo modelo chinês.

O que é interessante no artigo do "Monde" é que, à semelhança daquilo que aconteceu (fugazmente, embora) em Portugal, em Abril de 1974, ou seja, o aparecimento de um modelo original de socialismo (ou, mais genericamente, de... "socialicidade") que (ironicamente) ios chamados "socialistas" deram um contributo relevante para que não triunfasse, também a estrutural desigualdade indissociável, como atrás vimos, do próprio modo de produção capitalista parece ter acordado nas populações locais um descontentamento que começa, aparentemente, a organizar-se.

E a organizar-se como?

Diz o "Monde" que um movimento de defesa dos direitos sociais iraquianos começou já a exigir que, "pelo menos, um dólar" por cada barril exportado fique obrigatoriamente no Iraque a fim de seja ulteriormente reinvestido a nível local "no tratamento de águas, nos serviços de saúde, na criação e manutenção da rede escolar, na pavimentação de estradas e em várias outras necessidasdes da província".

Isto, note-se contra a vontade do próprio governo iraquiano que "tem rejeitado até ao momento as exigências das populações locais [que, todavia] começam a sentir que alguma coisa nova é possível" [sublinhado meu].

Já, aliás, uma coisa nova (e social, políticamente auspiciosa, organizacionalmente óptima) esta de a percepção da própria possibilidade material de mudar a História e mais: de mudá-la num sentido preciso, definido pela base da própria comunidade---i.e. pela comunidade enquanto tal e como tal---se ter formado de forma autónoma relativamente ao poder instituído.

É que este modo de a consciência das coisas (a inteligência da realidade) se formar é o modo típico e ideal da verdadeira democraticidade: a que sobe espontânea e, a seu modo, autonomamente da base até gerar, determinar e instituir formas adequadas, necessárias, de poder formal e não a que (como sucede topicamente no que chamo 'paradigma demomórfico' ou "demomorfia instrumental" ocidental) a que 'desce' do vértice para a base, impondo aquele continuamente a esta a visão (e o interesse ou interesses) situados no topo.

Concluo dizendo: se, afinal (é impossível não constatá-lo hoje!) Portugal "perdeu o 25 de Abril" para um "24 reformado" porque não foi capaz de resistir à pressão para que não levasse por diante a consolidação da sua própria 'via original para o Socialismo' (com maiúscula) como, então, se dizia---e isso re/criou, de um modo geral, na sociedade portuguesa a impressão sufocante e desencorajadora de que talvez, afinal, fosse esta, a que "pê-ésses" e "pê-pê-dês" lhe conseguiram por fim impor, a "forma natural da História" como não se cansaram de lhe repetir eses mesmos que lha impuseram; talvez, afinal, dizia, se olhando para "ocidente", o resultado foi esse que à maioria de nós fez, como disse, "perder momentaneamente a História" para "os outros"; talvez, afinal, olhando, desta feita, para o lado oposto, possamos, bem vistas as coisas, recuperá-la.

Talvez possamos, no mínimo, rever essa impressão, para muitos sólida senão mesmo inelutável, de que a perda em causa foi definitiva...



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