sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"A mar te"


descalcei-me na noite
para sentir o pulsar da terra
fechei os olhos devagar
e acordei

do outro lado do espelho


Esta 'coisa'... textualmente fulgurante e poeticamente total, que acabo de deixar registada saíu da pena de uma poetisa portuguesa contemporânea [não digo: 'viva' porque vivos estão todos os poetas, independentemente do tempo em que possam ter existido e escrito, se o que viveram---e escreveram---valeu efectivamente a pena] directamente para os nossos sentidos---caso estes se tenham conservado atentos e abertos a sinais desta natureza menos imediata e... comum.

O poema não tem nome---a Poetisa sim, chama-se Helena Maria de Jesus Águas e usou durante muito tempo o nome artístico de "Lena d'Água".

Fica registado num livrinho francamente considerável e meritório intitulado "A mar te".

Se puderem achá-lo numa livraria qualquer [editou-o a Ulmeiro em 1984, com uma capa de António Pimentel sobre um quadro de Costa Maya] permito-me humildemente sugerir que o leiam de uma ponta a outra, quanto o tempo [nem é preciso muito: são apenas 45 páginas...] o permitir.

Há lá outros emocionantes 'instantes textuais' de igual eloquente, contida concisão---e brilho poético "em plena florescência".

Quem diria, não é?...


"Sacrée Lena!"
[Imagem "gentilmente cedida" por gutenberg.com]

6 comentários:

Ava Santos disse...

Lena d´agua, meu Deus que saudades!
Estava no inicio da minha adolescência quando explodiu o boom do rock/pop português, e todos aqueles grupos e cantores que apareceram no inicio dos anos 80 para inquietar as nossas já inquietas mentes. A Lena era uma das minhas favoritas, ainda hoje me arrepio quando me lembro de ouvir aquele "...sempre que o amor me quiser..."

Quando ao livro não sabia que ela tinha editado algum, mas adorei sabe-lo e adorei que o amigo tivesse feito referencia a uma dos meus ídolos de miúda.

um beijo Ava.

Carlos Machado Acabado disse...

... ídolo que, por coincidência, foi, também, um pouco meu, Ava, fique sabendo!
Aliás, como o pai dela, o "Zé" Águas, um "enorme" jogador de futebol, já falecido, pai do Rui Águas e da 'Lena'.
Quando eu era miúdo [há quantos séculos foi isso, Carlos, há quantos séculos?...] fui uma vez com o meu pai, que era veterinário, ao "Lar do Jogador" do Benfica.
O meu pai foi lá em serviço [eles tinham lá criação para consumo interno e tinham adoecido uns frangos ou coelhos, não me recordo] e, quando lá cheguei, quis ver o Zé Águas, o meu ídolo.
Um funcionário levou-me aos quartos dos jogadores; eu, pelo caminho, mal podia acreditar na minha sorte [ia ver o "Zé" Águas em pessoa, ao pé de mim!] mas [qual não é a minha desilusão!] chegámos lá e de jogadores... nem sombra: estavam em estágio fora!
O pobre do empregado tristíssimo levou-me a ver as instalações [eu queria lá saber das instalações!] e conhecer UM ÚNICO jogador, um desconhecido qualquer, recém-chegado ao Clube, que não tinha seguido com os outros por estar lesionado ou coisa que o valha]
Nunca mais me esqueci do desapontamento causado por esse dia em que estive QUASE a ver o "Zé" Águas em pessoa, perto de mim e... não vi.
Não me esqueci disso nem do nome do desconhecido: era o Chipenda que viria a ser também ele famoso mas por outros motivos menos futebolísticos e mais políticos...
Já a 'Lena' era a menina [felizmente!] mal-comportada dos dois irmãos.
Fez os seus "4oo coups" em {mais] jovem e, pelo meio, criou alguns sucessos que são outras tantas referências na música ligeira portuguesa dos anos '80 e '90.
E não conheço ninguémn que tão bem entendesse e sentisse a música do Variações como ela.
O "Estou Além" dela é uma coisav de arrepiar!
Beijinho!
Carlos

Ezul disse...

Grande, agradável surpresa, até porque nunca fui grande fã da cantora. Registei o título do livro e pretendo, assim que for possível, adquirir e ler essa obra.
:)

Carlos Machado Acabado disse...

É um livrinho pequenino, muito simpático e poeticamente nada ignorável que talvez seja ainda relativamente fácil de achar, talvez numa qualquer feira do livro ou alfarrabista.

Ana disse...

Não sabia que a Lena d'Água tinha escrito um livro de poemas. Será que ainda se consegue encontrá-lo ?

O poema que deixas para nós é um estímulo a ler mais!
Obrigada, Carlos!

Helena disse...

uma emoção e um grande sorriso ao fim de vinte e seis anos :)))

o livro está aqui, mas pode encontrar-se na livrarte, na av do uruguai em benfica

obrigada, carlos