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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"Sociedade Inversional e Sociedade In-Orgânica: Algumas Reflexões Pessoais Sobre o Capitalismo de Hoje"


Falando recentemente da "crise" instalada no seio do capitalismo de hoje---um estado, de facto, muito mais do que simplesmente uma crise [terá, penso eu, chegado provavelmente o momento de um Huntington ou de um Fukuyama quaisquer começaram a avançar novas expressões de garantida "eufonia" pública, mediática e pública, do tipo "esquina" ou "ângulo" civilizacionais porque é, na verdade, a meu ver para aí que se caminha, para uma "esquina" ou "ângulo", talvez "recto" da História do Ocidente...]; pois, falando, recentemente da tal "crise", dizia eu, por outras palavras, que toda ela assentava na própria essência des/estruturalmente disfuncional do modelo capitalista de 'ocupação económico-política e social da História'.

E lembrava o 'mito' fulcral de que o "capitalismo produz riqueza.

Ora, mais uma vez aqui o digo, a questão não é a de saber se o capitalismo produz riqureza: a questão é a de quanta produz e, sobretudo, de como a produz.

Primeiro ponto: o capitalismo criou duas sociedades numa e só com elas presentes, com elas "à vista" consegue prosperar.

Criou, desde logo, uma verdadeira "sociedade inversional", cuja natureza paradoxal se estendeu naturalmente à sua [à nossa!] percepção sistémica de História, à História suibjectiva que dele se forma e às representações tópicas, teóricas e para-teóricas, que dela como sociedade mental, criamos e veiculamos.

Nas "culturas", nos 'universos cultu[r]ais' e mentais, capitalistas está sempre o projecto político primário de ver criada [e mantida a todo o custo] 'uma sociedade para uma economia'; uma sociedade para servir uma economia e a "democracia", uma velha e nobilíssima utopia grega, teve de tornar-se... "naturalmente" um meio de manter a História firmemente presa a si mesma a fim de possibilitar a estabilidade material completamente artificial do modelo.

Aquele projecto básico do capitalismo envolve, na base e de facto, o desígnio de submeter por completo as leis da realidade [com as leis biológicas à cabeça] às leis completamente aleatórias e convencionais da "economia".

No plano político, aquilo que o capitalismo faz é, com recurso espúrio a designação nobre de "democracia" "eleger sucessivamente sociedades" para uma economia e uma estrutura política funcional possibilitante desta, em lugar de, como na ideia genuína de Democracia, serem elegeitos órgãos de representação política para as sociedades.

A "democracia capitalista" [de facto a expressão a usar deveria naturalmente ser "democracia funcional ou instrumental" capitalista] responde sempre perante a economia [eu costumo dizer ironicamente: "despacha politicamente com ela"] e afere, mesmo, para todos os efeitos, a sua "qualidade" supostamente "intrínseca", específica [estamos, de facto, a falar, neste caso, da sua "funcionalidade" própria...] pelo modo como garante a estabilidade global do modelo capitalista, i.e. a maneira como consegue garantir níveis social e politicamente toleráveias de "redistribuição social das sub-valias" geradas significadamente pela máquina produtiva do capitalismo em acção, chamando a este ponto preciso da arquitectura global do 'sistema', o Estado "social", na verdade um alter ego operativo do 'Estado nação' recuperado, ele próprio, para servi-lo---e possibilitá-lo.

Eu atrevo-me mesmo a dizer: não apenas "recuperado"---colonizado por ele.

O projecto de estabilidade institucional objectiva, material, garantido pelo modelo de 'democracia funcional' não considera intrinsecamente [e muito menos, determinantemente] a qualidade especificamente política da democracia.

Na verdade, a esta exige-se, na sua versão "funcional" que assegure social e politico-formalmente estabilidade independentemente do conteúdo político específico da sociedade: trata-se, tão somente, como digo, de manter a História persistentemente imobilizada e solidamente fixada ["screwed-up", diria um obsevador anglófono e "screw", em inglês, é uma palavra adequadíssima para usar neste contexto por razões de, sem dúvida!" ] a si mesma e, claro--é disso que verdadeiramente se trata!---à infra-estrutura económica sobre a qual a História assenta.

Por isso, quando se fala desta 'democracia funcional', manda o rigor que ela seja [outra marca evidente da "inversionalidade" ou "específico inversional"---e "disfuncional" do modelo] entendida como um capítulo estrutural da Economia---não da Política.

Está, assim, tudo, numa palavra, ao contrário ["upside down"] no modelo economocrata vigente: a sua ideia de 'democracia' consiste primariamente em encontrar uma 'arquitectura polititiforme' ancilar e operativa que consiga impedir, de forma socialmente tolerável [em alguns momentos, logra mesmo torná-la... "apetecível"] os movimentos---o movimento---da História; a sua ideia de 'política' consiste no programa de "pôr várias sociedades teoricamente à votação" conseguindo, porém, no limite, sempre a "eleição" daquela [sempre a mesma] que melhor se adapta---e mais eficazmente serve---a economia e não a de designar, a de conceber autonomamente, de forma efectivamente livre, portanto, um modelo específico de economia para uma sociedade situada conceptivamente no centro do sistema; a sua ideia tópica de 'propriedade' [a marca "inversional" básica de todo o modelo] passa por "des-essencializá-la significadamente" em termos filosóficos e teóricos [torcendo, por completo, o modo como funciona de facto a realidade] esvaziando-a do seu conteúdo ecológico natural, i.e. arrancando-a na condição natural de "variável" [ela sim, funcional ou funcionante, do seu habitat original que são obviamente os paradigmas naturais de estruturação espontânea da própria realidade] e reinserindo-a, em seguida, no centro das suas representações "teóricas" de natureza cultu[r]al e política [de natureza cultu[r]al] política] na condição espúria completamente arbitrária e disfuncional de "constante".


Segundo ponto: ao lado dessa e "por cima" desta, gerou toda uma "sociedade inorgânica", ou melhor, criou formas estratégicas de inorganicidade nuclear que servem instrumentalmente o seu projecto global de "sociedade inversional" confluindo centralmente para uma economia.

Quer isto dizer que o mito da "produção de riqueza" não passa, na realidade, em última [mas real] instância, disso mesmo---de um "mito" assente num modo intencionalmente redutor de descrever o funcionamento real do sistema .

Aquilo que o capitalismo produz, de facto, é... capital.

A produção contínua [sempre "significada"] de capital é o objectivo real, efectivo, no fundo: único, do capitalismo.

Tudo o mais [a começar pela riqueza 'social' gerada no prrocesso] são meros subprodutos [e instrumentos possibilitadores, não esqueçamos!] da operatividade global de todo o sistema.]

Ora, o processo de produção contínua de capital induza diversas diswfuncionalidades resultado da sua artificialidade intrínseca, específica, ínssita relativamente ao modo como funciona naturalmente a realidade.

Primeiro é que o conhecimento [a Ciência que codifica os modelos de percepção estável da realidade] à semelhança do que se passou na "política" com a "democracia", sofreram um forte pressão exógena e artificial que o desfigurou, por completo.

Melhor: que desfigurou por completo o seu papel nos mecanismos naturais, ecológicos, de re/produção de realidade.

Originalmente, o saber é usado pelos seres vivos em geral [e até pelos não-vivos: a experiência permite demonstrá-lo] para ser directamente reinvestido na própria re/produção ulterior de realidade.

A ecologia da cognicionalidade opera desse modo, é parte integrante do processo específico do que chamo, na falta de melhor termo, "Vitação" ou "Biose".

Sabem-nos as espécies animais como as vegetais e minerais.

O 'conhecimento' biológico [o acesso livre à propriedade "teórica" da realidade e a transformação ulterior desse conhecimento em "Biose"] é parte integrante do processo natural de existir: do que chamo "ser", nas espécies, em maior ou menor escala, conscienciadas ou "esser" nas outras espécies nas quais a mediação exterior de uma consciência fixa e auto-percepcional não intervém no processo, encontrando-se a produção de modelos operativos de "saber" a cargo da estrutura molecular não-consciencialmente diferenciada dos "indivíduos" e/ou das espécies.

Em todos estes casos, não existe verdadeira diferenciação entyre a propriedade em maior ou menor escala "teórica" da realidade e a própria "Vida" ou "Biose".

No modelo teórico sobre o qual assenta o capitalismo, porém, a alienação dos indivíduos começa logo aqui.

A propriedade das formas de acesso directo à realidade e os mecanismos de produção de representações teóricas possibilitantes dela privatizaram-se, i.e,. converteram-se num mero "produto" que se compra e vende e, a prazo, num verdadeiro proto-capital cujo ascesso fica vedado à maioria dos indivíduos.

Estes passam a ter de confiar de forma, em maior ou menor escala, implícita nos modelos de representação e utilização da realidade gerados "em privado" por grupos ou tipos selectos de indivíduos.

Estes, por seu turno, usam o conhecimento que geram para reter neles a "Vida" ea fim de poderem gerar "valor" "revendendo" continuamente a "Vida" [é disso que se trata!] aos restantes.

As classes detentoras dos meios de reprodução social de conhecimento convertem-se em mediadoras estruturais dos processos vitacionainais e a própria vida se converte num "produto". De facto, aquilo que fazem as classes detentoras daqueles "meios de produção" [de saber] é acumular [açambarcar] as formas essenciais para gerar "Vida" e revendê-la aos que delas estão separados pelos produtoa avulsos dessa produção.

A inorganocidade específica, própria, intrínseca, do sistema reside basicamente nisto, nesta alienação de algum modo voluntária [é de toda uma cultura de sujeição consentida que estamos realmente a falar] por parte das sociedades, da propriedade dos meios de acesso teórico directo à realidade e na criação de formas de "dependência sistémica"---de "rarefação significada e estratégica"---de onde é gerado, de facto, o "valor de mercado" das coisas.

Da Vida.

Se o pão nascesse realmente nas árvores [como pretendiam os marinheiros de Cook...] os padeiros faliriam [de facto, nunca teriam, como é óbvio, existido padeiros] e toda a indústria da panificação estaria ipso facto impossibilitada de "gerar riqueza em pão" e entrar naturalmente no 'sistema' económico global.

A menos que...

A menos que, como perceberam os homens 'de iniciativa' que "fizeram" a Revolução Industrial, todos os pomares de árvores-de-pão fossem sistematicamente "enclosed", um Direito próprio fosse criado para assegurá-lo e, a toda a volta, se gerassem formas possibilitantes, estratégicas, de rarefacção de "pães" como pressuposto de uma nova [e, com certeza, florescente!] indústria.

As pessoas podem passar sem muitas coisas; podem arranjar-se para viverem sem muitas delas mas sem... vida, seguramente ninguém consegue....viver.

No capitalismo teórico---no capitalismo como forma de perceber e representar a realidade---é, para terminar, preciso, a meu ver, criar, a partir de Marx, duas noções-chave para se perceber como opera, de facto, o sistema económico-político em que vivemos: as noções de "sub-" e de "ultra-valia", assim definidas---e explicadas: a "sub-valia" é a "riqueza teórica" global [volto a dizer: os subprodutos inertes da produção nuclear de capital que chegam genericamente à sociedade na forma de "coisas" ou "objectos" potencialmente transaccionáveis]; a "riqueza" teórica que se gera, em geral, nas sociedades capitalistas e que existe de forma transversal ou latente em circulação nelas.

De facto, os objectos não passam, nas sociedades capitalistas como tal, de pretextos para gerar ou produzir capital o que permite concluir que também as pessoas, o "mercado", o são.

De facto, as pessoas, neste quadro estruturalmente não humanista, não representam a meta, o objectivo, final da chamemos-lhe assim: "existência operativa da sociedade" no seu todo: elas não passam, de facto, de circunstâncias ou ensejos possibilitantes de um processo que as percorre e atravessa sem efectivamenteb ver, digamos assim.

Estão lá "porque são precisas"---o que explica muito do que está a acontecer na nossa sociedade ultra-tecnológica de hoje em que elas se tornaram semi-excedentárias, i.e. podem muitas delas ser dispensadas de existir como produtoras embora estejam, contraditoriamente proibidas de ausentar-se do sistema [como---ninguém sabe já, hoje!] enquanto "mercado".

Já a "ultra-valia", o conceito de "ultra-valia" deve aplicar-se ao próprio conhecimento utilizado para gerar continuamente capital: este que é propriedade---estr[e]itamente---privada de grandes aglomerados multinacionais é o que permite gerar produtos [a "sub-valia" objectivamente lateral ou secundária do processo] mas, enquanto isso for materialmente possível, enquanto novos produtos puderem ir sendo gerados a partir de um mesmo conhecimento ele permanece activo gerando, assim, ultra-valias em número xis.

Esta possibilidade que a tecnologia criou de se gerarem diversos produtos de um único conhecimento [um hardware informático sempre transformável noutro mais "evoluído"---que já estava, aliás, de algum nodo, contido, na realidade, no primeiro---e, depois, uma quantidade determinada de itens de sofware a ele agregável, por exemplo: um exemplo perfeitamente reconhecível e até objectivamente identificável por quem ler os jornais...] permite ao conhecimento exponenciar-se cirúrgica e contuinuamente e, desse modo, "ultra-valer" sem, em momento algum, deixar a propriedade de um mesmo proprietário enquanto for possível manter o processo em causa a operar.

Quando um saber é desactivado da sua capacidade original, primária, para gerar mais capital ou "ultra-valia" ele é cedido ao domínio público [a função da escola pública de hoje, não me canso de dizê-lo, segue sendo a de adquirir essa "produção em segunda-mão"---apetece-me não resistir a dizer: esses "subprodutos" ou essa... "sucata" da "indústria da produção de capital" e "reciclá-la" na forma de "quadros" técnicos de manutenção] completando-se assim um processo estruturalmente disfuncional cujo fim me parece muito difícil [um fim qualquer] antever a muito breve prazo...


[Na imagem: estrela piramidal de M.C. Escher]

sábado, 6 de fevereiro de 2010

«Chto Delat?»


Há muito que das mais diversas maneiras e nos mais variados locais venho defendendo a tese do que poderíamos chamar a "finitude teoricamente demonstrável" do Estado capitalista.

Que entendo eu por tão pomposa expressão?

Mau grado a "pompa" da designação, é algo de muito simples, na realidade.

O estado moderno---o estado-nação contendo no seu interior aquilo que durante muitos anos se chamou [sem grande cuidado ou rigor crítico e terminológico, aliás] o estado "social"---nascido com a consolidação gradual de um conjunto de filosofias globalmente triunfantes com a Revolução Francesa; o estado moderno, dizia, partiu sempre de um dogma [que Marx foi dos poucos a questionar e a atacar, como se sabe] envolvendo uma suposta "sacralidade" ou "condição absoluta" da propriedade.

Mais: o estado moderno fez-se em última análise, precisamente para assegurar essa "sacralidade" e essa "condição" supostamente "absoluta" da propriedade.

É verdade que, desde a Revolução até ao século XIX, a propriedade, perdida definitivamente pela aristocracia, permaneceu, em boa medida, aberta e livre.

Não é menos verdade que essa perda da "propriedade histórica da propriedade" por parte da aristocracia forçou a que simbolicamente, a partir daí, a "propriedade da propriedade" tivesse de passar a ser 'politicamente justificada' e historicamente 'fundamentada' assim como é, de igual modo, verdade que, se uma nova classe a ela, "propriedade da propriedade" foi gradualmente podendo aceder, foi precisamente porque trouxe para a História, sobretudo no século XIX, o argumento supremo que envolvia, na base, uma outra forma, mais subtil e abstracta [mas não menos determinante: longe disso!] de "proprietação" que era a do Conhecimento.

A do Conhecimento capaz de funcionalizar e de agilizar ulteriormente, muito para além do que até aí se havia tornado possível, os mecanismos de apropriação e transformação sistemática da realidade em valor que a aristoc racia havia deixado de poder objectivamente assegurar.

Não é menos verdade, porém, que, uma vez ocupado na História o lugar da classe deposta e armada com a propriedade do conhecimento que lhe havia permitido assegurar-se do cobntrolo efectivo da História, afastados que foram deste, por um lado, a própria classe deposta e, por outro, os aliados materiais circunstanciais dessa deposição [o "povo", seu aliado na Revolução que retirou definitivamente o poder---a "propriedade da História"---à aristocracia] tosdo o esgforço, quer teórico [dos intelectuais burgueses, de uma maneira geral] quer práticos [a acção política da própria classe burguesa em muitos pontos e aspectos 'acabadinha de chegar' ao poder]

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"All I Really Want To Do..."


Não simpatizo intelectualmente lá muito [para não dizer simplesmente: não simpatizo rigorosamente nada e rejeito-as sem hesitar!] todas as generalizações e as tipificações por definição, abusivas com que uma certa subfilosofia comum adora 'substanciar' as suas invariavelmente fragéis e insubstantivas formulações.-

O tipo de "discurso analítico" que passa a "vida argumentativa e teórica" a dizera dizer: "os portugueses são", "os americanos gostam", etc. etc.

Fazem-me sempre lembrar aquela "semântica repulsivamente analfabruta" do discurso colonialiozante-tipo de há quarenta/cinquenta anos quando perorava do alto da sua erudução adquirida nas páginas do "Novidades" ou nas berças de uma província "interior e sem electricidade ou saneamento [também cultural ou sobretudo cultural...] básico" qualquer: "o preto é", "o branco pensa" e por aí fora num discurso tipificador a arruimador da realidade que era, afinal, a muralha de defesa argumentativa única da sociedade colonial para permanecer colonial quanto tempo fosse podendo e a deixassem...

Tenho, pois, razão, acho eu, para detestar qualquer discurso categorializxante e tipificador, sobretudo se emitido a partir da maior parte dos 'mídia pop' de hoje que é onde a tal interioridade física mas sobretudo mental e crítica faslha de saneamento básico se alojou nos tempos que correm.

É, por isso, com natural reserva de princípio que leio textos como o de Pedro Lomba no "Público" de ontem, 25, sobre "A América e a Europa".

Deu até concordo genericamente, reparem, com a análise histórica e antropológica---histórica e antroplogicamente sustentada---que Lomba faz da "América".

Concordo com aquela ideia de uns quantos europeus de [forçada] exportação vagamente reorganizados em país ou da absoluta inexistência mental e cultu(r)al habilmente pretextuada por uma constituição a que muitos se obstinam, contra toda a lógica, em chamar "país".

Isso é História, isso é [solidamente] antropológico.

Já discordo [e muito! E por completo!] daquela ideia têm uma "democracia" que não-sei-quê enquanto que uins tais "eutropeus" já possuem uma outra que não-sei-que-mais.

Que existe um "ethos americano" que "coiso, mas, exactamente ao contrário, não um europeu que... "coise", num sentido qualquer.

Essa do "ethos americano" e do "ethos zero" "europeu" que, pelo contrário, não "coisa" [nem sairá de cima?---pergunto eu] faz-me lembrar aquele soberbo poema do Dylan [quando o Dylan ainda era Dylan e não lhe tinha ainda dado para querer ser outra vez o Sr. Zimmermann] que eu já aqui recordei e que dizia qualquer coisa como: "I don' want to categorize you, simplify you or quality you".

É que o Dylan, nessa altura, sabia bem onde conduzem---a que "devious states of [human and political] mind" conduzem invariavelmente as "categorizations", "simplifications e qualifications"---sabia-o quando elas constituiam um património cultu(r)al e político da interioridade histórica, mental e física ainda sem jornais e televisões, muito antes, pois, de ela poder chegar às cabecinhas "livres" dos leitores de jornais e espectadores de televisão apanhados [ou "apanháveis"...] desprevenidos entre duas telenovelas e um concurso foleiro qualquer.

Entendamo-nos: o ethos de uma certa "americanidade" persistente e imperfeitamente reconvertida das suas origens genocidas e [forçadamente, convenho] assilvestradas é o "ethos" da pradaria convertido em "ethos".

É o "Buffalo Bill ao poder" erigido em ideologia de um vago Estado construído em labirinto, como o palácio do 'outro', para não entrar lá muita gente e, sobretudo, certa gente que roube as pistolas ao Buffalo ou meta o Custer onde ele devia há muito estar, apesar dos "esfotrços" do Fonda e até do Flynn para "branquear" a selvajaria sem nome e sem elevação---sem perdão!---que ele corporiza e configura.

A América "au jour le jour", como escrevia a Beauvoir, já tinha descoberto há muito no tal ethos supostamente assente num código por sua vez substanciado numa "cultura" [numa "cultura", "of all things"!] de "trabalho, responsabilidade individual" onde "a liberdade" não-sei-quê o fim da História de que chegou a falar o Fukuyama antes de fazer marcha atrás quando deu de caras com o Bush, o Iraque e esse "charabã", essa palinódia toda de iniquidades e abjecções "em fila indiana" ["Indiana"?! Oh!" Diabo!... "Native American", talvez...] atrás umas das outras à espera para entrarem finalmente em triunfo na História pela porta da frente desta e por fim com direito a serem recebidas como... chefes de estado, na linguagem chilra e sonsa dos clichés.

Com a terra roubada e a cobertura tranquilizante de um puritanismo de sentido único os "pioneers" fizeram um ethos de que ninguém ["et pour cause"...] os convence a largar mão!

De onde ninguém os arranca nem a tiro!

E têm boas razões para isso, como país que não são mas enfim: fingem, às vezes convincentemente ser.

O espírito Buffalo Bill dá-lhes força para mandarem uns índios abaixo e lhes ficarem com as terras.

Alguns, aliás, já traziam experiência da Europa de onde os correram por isso mesmo.

Já o puritanismo os abastece da culpa necessária para simularem uma humanidade que o reral raramente confirma e a existência de Reagans, Bushes e Bushes não ajuda nada a credibilizar.

"Acabar a História" e a percepção ou a consciência subjectiva e cultu(r)al dela, isto é, "fechar-lhe a porta à chave" do lado de dentro dela com os outros todos à porta ["Draussen Vor Dem Tur", como titulava um autor alemão conhecido dá um jeitão do caraças e um "ethos" giríssimo.

Sempre?

Para sempre?
Para sempre não mas enquanto a gente for podendo, é uma festa.

Enquanto há dinheiro, tudo são rosas---até o que o não é nem se parece, como dizia o meu avô.

Com dinheiro, parece!

Assim, como digo, é fácil acabar a História e ir por ela fora exibindo o "ethos": abrindo o sobretudo e exibindo o ethos às senhoras...

... que são os comentadores crédulos e generosos para com certas abjecções muito bem disfarçadas de "cultura"...

A Europa?

A Europa não tem um "ethos" como o dos Estasdos Unidos ['o meu "ethos" é maior que o teu e essas coisas todas']?

Errado!

A Europa [não a das aspas, cozinhada em laboratório; não essa Europa "de síntese" dos Blairs, dos Barrosos e dessa "tropa fandanga" entravatada toda; desses "Doktor Caligari" que, dos seus "Kabinette" guardados a sete chaves, nos cortam a Europa toda aos bocados fingindo uni-la e a metem, depois, em latas como as de sardinha, para exportação]; a Europa, não a a indústria que a usa como matéria prima de neo-imperialismo refundado possui um ethos, sim senhor!

Ou possuía, até há pouco!

Era a diversidade cultural e era a longa História que havia dialectizado e, de algum modo, civilizado uma não menos longa tradição de exacções e abjecções que aqui acabaram por se ir educando e genericamente cultuivando e na "América" acharam terreno fértil patra, exactamente ao invés, se consolidarem e confirmarem na luta pelas terras dos índios e, logo a seguir, pelas dos que as vinham roubado aos índios que passaram a disputá-las, naturalmente, entre si...

A democracia europeias vinha de Aristóteles e de Platão na forma abstracta de um consciência e de uma ética que a Grécia, quando... "teve de se ir embora dela", entregou à História para que esta a convertesse, então, numa civilização, num ideal político e, claro, num ethos.

E ela esteve, aqui e ali, quase a consegui-lo, aliás.

Só falhou por pouco.

Num certo sentido, conseguiu-o mesmo, não falhou: na formação de uma consciência de "educada e estratégica, organizada" senão mesmo "orgânica"] persistente dissenção ou "dissensionalidade" [lembram-se dos Zolas e dos Dreyffus? Dos Sartres e das "questions algériennes"? Pois, aí têm! É isso! É esse o ethos europeu onde a Europa sem aspas , a Europa boa, a Europa, apesar de tudo---dos Blairs, dos Barrosos, agora até dos Sócrates e dos Sarkozys---viva tem ido [agora, se calhar, já perdeu em grande parte o jeito mas enfim...] consistentemente buscar energias para se revitalizar continuamente e mesmo reinventar regularmente "malgré tout", "malgré", às vezes, "elle même"...

Mas é justamente esse fermento de "educada dissenção" que ela aprendeu---que as suas elites, as verdadeiras, as fecundas, as dos Zolas e dos Sartres aprenderam---a interiorizar e a reprojectar conmtínua e, sobretudo, pluralmente sobre o conjunto da europeicidade a toda a volta, na forma de uma não menos educada insatisfação cultu(r)al e civilizacional orgânica, ínsita, aberta permanentemente à mudança e ao futuro que, ao menos na forma de uma [nada hegeliana, não confundam] Ideia a Europa tem por ethos e eu espero ardentemente como europeu que ela nunca perca nem ceda a deixar que se funda e uniformize, homogenize, num ethos de sinal único onde a História fique eternamente agarrada e condenada a não mais se mexer...


[Na imagem, edifício de Filip Dujardin, arq. belga, extraído de bozar.be]

sábado, 23 de janeiro de 2010

Texto em construção

Tornou-se já um lugar-comum verdadeiramente incontornável e até um pouco maçador pela constante repetição deparar na imprensa com referências [que são praticamente diárias] à "crise" aguda, profunda, das economias ditas, em geral, eufemisticamente "ocidentais".
Para os mídia do "Ocidente", a "crise" em causa é basicamente uma crise de competitividade do próprio sistema tecnocapitalista como todo---uma crise no imediato induzida pela desmesurada e descontrolada "financeirarização" da economia---tratando-se de uma situação que poderá supostamente ser "resolvida", pois, com o aumento substantivo daquela competitividade, por sua vez alcançado com medidas mais ou menos "estratégicas" e sistémicas [investimento na Educação e quejandos---todos conhecemos o discurso oficial dos advogados do 'regime'...] a meias com outras "de emergência" que alegadamente manteriam o sistema "a respirar" até que as primeiras, as tais miríficas medidas "de fundo" viessem a prazo resgatá-lo "definitivamente".
Todos os dias, repito, ouvimos este discurso com pequenmas alterações de conveniência---e/ou 'estilo'.
Vêm, ainda, os tais "advogados" do sistema massacrar-nos reiteradamente os ouvidos e o espírito com elogios [e incitamentos formais] à contenção na despesa envolvida com o funcionamento global do sistema [resumidamente referida apenas como "despesa"] e, cumulativamente [é o tal motivo que envolve a competitividade e o seu aumento] a outros incitamentos ao aumento da "receita".
Ora, primeiro do que tudo há que perceber muito claramente uma coisa: quando falamos de "despesa" aquilo de que efectivamente estamos a falar é das despesas com o funcionamento do próprio sistema, i.e. dos fundos "estrategicamente" investidos no próprio sistema a fim de que ele não mude.
Dos 'custos da conservação', do "preço" a pagar pelo conjunto da sociedade coma manutenção primariamente imutável do sistema.
Apenas a "fé" dos que o defendem permite sustentar e fundamentar na base este posicionamento teórico e especificamente ideológico: a fé de que o sistema possui meios para regenerar-se continuamente---desiderato no contexto do qual a utilização verdadeiramente sistémica do Estado [impropriamente] chamado "Social" desempenha, por sua vez, um papel primordial.
Crucial.
De facto, como adiante veremos com mais pormenor, com este conceito de "Estado Social" passa-se algo de singular---e característico, geralmente ignorado por quantos reflectem ou dizem reflectir sobre o funcionamento do próprio sistema como tal e que é a sua utilização, volto a dizer: sistémica mas também disfuncional, alienada---secundária e alienada---como ferramenta do próprio sistema, como um dispositivo de segurança deste e não, como muitos se obstinam, porém, candidamente em pensar como um meio de huimanizá-lo e de proteger "generosamente" as suas vítimas.
Este ponto é muito importante porque permite evidenciar os dispositivos e expedientes astuciosos que o sistema utiliza para "se agarrar" firmemente à História fingindo mudar e evoluir com ela e como ele utiliza, justamente, em seu proveito aquilo que, na origem, constituía um projecto de civilização politicamente autónomo [i.e. não estruturalmente refém de um sistema económico e da necessidade primária de "argumentá-lo" e "justificá-lo" em todos os casos, sendo, pois, utilizado o projecto de civilização em causa e as instituições que permitiam dar-lhe corpo não já como uma via teórica aberta e livre para a mudança da própria História a novas formas e modelos de si mesma basicamente orientados para o bem estar das sociedades mas, exactamente ao invés, como um meio de evitar que a História---com o referido modelo económico político imutável no seu interior mude]

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Comentadores e Comendadores: a propósito de uma polémica recente envolvendo dois deles" [Texto em construção]


Colaborador mais ou menos regular das edições da antiga Editorial "Caminho", nviei recentemente para a prestigiada revista "Vértice" [que, sempre muito delicadamente entendeu não publicá-lo argumentando com a natureza demasiado temporal do assunto] um texto que eu acabaria por republicar aqui no "Quisto" envolvendo a figura do chamado "comentador político" nos "mídia" designadamente na televisão.

Argumentava eu [e continuo, aliás, a manter inalterado esse ponto de vista e esse posicionamento teórico de base] com o que entendo ser uma de várias perversidades ínsitas, ao menos de forma latente e potencial, ao dito "comentário"---a principal das quais é essa ideia implícita de que a informação deve vir de origem interiormente "significada" e, nessa forma chamemos-lhe "direccionada" chegar ao respectivo destinastário.

Até que me provem o contrário [e acho difícil que tal seja possível mas enfim] este princípio implícito no dito "comentário" tal como ér praticado entre nós, designadamente pela RTP, a televisão pública, de que cada notícia possui uma espécie de "significado" ou de "significação" prévias, últimas ["ultimativas", "ultimate", em inglês] e intrínsecas, no fundo, independentes da possibilidade de os indivíduos formularem livremente juízos sobre a realidade [ou direccionando e, desse modo, no mínimo tendencialmente restringindo] essa liberdade enquanto valor básico de cognicionalidade idealmente transmissível à consciência cidadã nas múltiplas formas que esta objectivamente assume, devendo os sujeitos da "notícia" e, em geral, da "informação" ser, neste qu7adro, na perática, de um modo ou de outro, sempre, por esta via, chamados a pronunciar-se não, de facto, objectiva e autonomamente sobre ela mas sobre ela e esse "significado... significado" que, na origem, lhe é "colado" atenta de forma perversa [objectivamente perversa, ao menos, repito] contra o princípio abstracto da liberdade intelectual dos indivíduos e não contribui, por isso [pelo contrário!] para comunicar à cidadania enquanto prática em si princíos teóricos abstractos de rigor e independência cognicional básica que norteiam o pensamento científico legítimo.

Algo que se me afigura, pois, especialmente grave, como posicionamento teórico ou epistemológico de base, volto a dizer, numa sociedade que se pretende precisamente "do Conhecimento".

Ligado a esta "perversidade objectual" do "comentário" como sucedâneo da do debate não-significado e não-mediado---não-capturado à partida---existe essa outra que está configurada na ideia tácita de que o conhecimento, para além de ter um significado opriginal que pode estar situado ao menos de modo objectivo para além da própria possibilidade de cada um aceder directamente ao real e a partir dessa leitura directa dos sinais que ele emite formular os seus próprios juízos e definir, assim, o seu próprio modelo ou inteligência autónomos um e outra da realidade; ligado as esta disfunção de episteme a que chamei "perversidade objectual" latente neste paradigma de "informacionalidade significada" em vez de "significável", dizia, existe um outro que é o de que o número de juízos que se podem formulçar sobre o real se achar também objectualmenten pré-definido, originalmente quantificasdo---e, por conseguinte, limitado.

Num modelo de "informação significada", eu sou levado a formular os meus juízos sobre o real de forma chamemos-lhe "materialmente oblíqua" não construindo a minha inteligência do real prpropriamente sobre ele mas reportando-a e fundamentando-a num conjunto de juízoa já existentes que, ao menos de modo potencial, constituem fronteiras possíveis à [e, sobretudo, da] liberdade cognicional dos indivíduos.

O perigo é o de eu não estar já, no contexto do paradigma de "informação" ou de "informacionalidade comentada", a produzir juízos efectivamente sobre o real mas sobre outros juízos previamente "plantados" no percurso material da minha liberdade de pensar e determinar, de forma autónoma e inteleccionalmente livre, representações críticas do real que objectivamente direccionam e "significam", desse modo, o conteúdo estrutural das minhas próprias representações e, num âmbito mais lato, do meu próprio modo de ver e de conhecer ou de 'cognicionar' o real ---o qual modo fica, assim, de algum modo objectivamente demonstrável, refém deles.

O próprio [e artificialíssimo!] "debate" [de que se faz mais recente eco o "Público" de 21.01.10] através de um texto do director de informação da televisão pública] em torno da ideias de determinar quem é verdadeiramente responsável pela término de, pelo menos, um desses programas ditos "de comentário político" serve para multiplicar esse efeito originalmente deformante que eu entendo estar sempre perigosamente em potência do modelo.

De facto, a questão... em questão não é a de saber se, terminado o programa onde um cidadão vinculado a um determinado partido e a uma determinada área do espectro político nacional, o 'respeito pela democracia' a que se encontra obrigada, em princípio mas, sobretudo, por princípio, uma televisão pública exigira ipso facto que terminasse outro programa a que se encontra associado o nome e a presença, a figura, de um segundo "comentador" [representando?] um ponto ou segmento distinto do referido espectro.

A questão remonta muito clara e muito determinadamente à própria ideia de que apenas duas daquelas áreas ou segmentos tenham acesso ao "comentário" político numa televisão paga pelo conjunto da população nacional.

O que mostra, repito, a diversidade de modos como pode ser feita a "significação" ou, como poderíamos, talvez, mais pomposamente chamar-lhe, a "ressignificação disfuncionadamente estratégica" da opinião numa sociedade que, mau grado tudo isto---todos estes "desvios" e estes mecanismos mais ou menos subtis de direccionação dessa mesma opinião---teima em chamar-se a si mesma, com toda a naturalidade, implícita e explicitamente democrática.

Eu notaria, aliás, que, quando falo em "subtileza" relativamente àqueles mecanismos factuais de direrccionação, estou seguramente a ser não só optimista como, sobretudo, generoso.

Há, com efeito, escassa subtileza num modelo de condicionamento objectual estr[e]itamente dual da opinião que admite que, pelo facto de ter saído um dos comentadores acima referidos, dever "democraticamente", sair ipso facto o outro.

Se, com efeito, eles enquanto "comentadores" se representam a si apenas mesmos e não a áreas ou até mesmo especificamente partidos políticos, que relação pode, em bom rigor e em boa fé, ter a saída de um com a do outro?

Por que há de ea primeira implicar "democraticamente" a segunda?

É fácil perceber a, no mínimo, possibilidade de à opinião dita pública chegar por aquela via e com aquela "disposição selecta e significada" dos termos da equação proposta, a "mensagem" tacitamente já direccionada de que a "democracia em Portugal está toda ali", naquele segmento duplo do espectro.

Algo que vem, aliás, ao encontro da velha [e absurdíssima! Falsíssima! Manipulatória!] "tese" de que, em Portuighal, existem partidos "de poder" e partidos naturalmente... "vocacionados para a oposição" a esse mesmo [desse modo supostamente inamovível e até mesmo "natural"] poder.

A perspectiva de consistente "fechamento democrático" prevalecente, de forma ao menos implícita, pressuposta em ambas as ideias parece-me a mim evidente.

Parece-me evidente e parece-me, mais do que isso, exactamente a mesma que preside, ao longo de todo o percurso onde ela adequadamente se integra, a tal ideia da "informacionalidade significada" como modelo referencial de comunicação mediática onde, por seu turno, tem lugar verdadeiramente "de honra", o tal tão falado "comentário político", chamado por alguns "independente".


[Imagem extraída, com a devida vénia, de cinemastrikesback.com]

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

"Sobre O Conceito De Negritude, A Propósito do Caso Haitinano" [Texto e tradução não revistos]


A recente tragédia haitiana---afinal, a ponta sangrenta de um iceberg de abjecção e crónica[s] miséria[s]---empurrou-me, de forma natural e quase irresistível, para uma das babilónicas estantes da minha, também ela em geral caótica, biblioteca pessoal, especificamente para uma secção que intitulei tão lacónica quanto, imagino eu, esclarecedoramente "África"---uma secção onde estão, claro, Paul Nizan ["Aden-Arabie" com um longo prefácio do universal Sartre]; Franz Fanon, Amilcar Cabral, o 'Che', duas obras de que gosto particularmente e que me foram indicadas pelo Rogério de Carvalho, à época meu colega na "Anselmo", em Almada: "La Folie Colonisée" e "Oedipe Africain" assim como, entre inúmeros outros cujos nomes não pararia de citar---Leopold Senghor.

De Senghor, um dos teóricos mais conhecidos mas, também, mais polémicos e não-raro, mais equívocos e discutíveis da "negritude" [enquadrado aqui por um texto de Stanislas Adotevi, de "Négritude et Négrologues", publicado na inigualável colecção 10/18] reproduzo aqui um texto onde são perfeitamente identificáveis---onde são, diria eu, quase materialmente "visíveis"---os efeitos dilacerantes da 'tragédia colonial', pano de fundo do caos social, histórico e político que opera, afinal, como pano de fundo e, ao mesmo tempo, factor exponencialmente multiplicador de tudo quanto seja tragédia natural, como a recentemente ocorrida no Haiti.

A importância deste movimento da negritude foi, sobretudo [tratando-se, embora de um movimento---poderá dizer-se que o foi realmente, na verdadeira acepção da palavra?---que, além de nunca ter possuído propriamente uma base teórica e ideológica estável comum a todos quantos geralmente entendemos como tendo estado a ele associados, nunca terá passado efectivamente do plano restrito das elites, sem verdadeira implantação generalizada e especificamente, popular, pois, entre as massas africanas embora teorizações como a de Fanon sonbre a luta armada tivessem inspirado a acção dos movimentos independentistas em vários países africanos]; a importância concreta deste 'movimento' [que, insisto, mais do que um movimento propriamente dito terá sido, sobretudo, um posicionamento, um ponto de vista especificamente negro sobre a 'condição negra': o despertar de uma ou melhor: de várias 'consciências negras' temporalmente simultâneas sobre a "negritude"] foi, pois, dizia eu, sobretudo simbólica e genericamente estimulante da auto-reflexão negra sobre si própria algo que o colonialismo nunca havia até ao momento permitido que se formasse.

Na verdade, o que com ele surgia era uma intelligentsia africana composta por homens , muitos deles educados na Europa e que representavam, como recorda Adotevi, uma espécie de despertar [volto a dizer, sobretudo simbólico em consequência do grande fosso cultural que, na sociedade africana onde teve lugar, separava as elites das massas] de uma consciência local africana do colonialismo.

Na formação desta radica, afinal, a única esperança consistente para a superação das diversas formas, objectivas e subjectivas, que assume a dependência [neo] colonial, formal ou simplesmente 'objectual', de direito [?] como, de igual modo, de facto.

A tragédia haitina evidencia, precisamente, com dramática e desoladora eloquência, o modo como a ausência consistente desta consciência essencial de si; dessa 'inteligência precisa da realidade' [étnica, cultu(r)al, económica, social, política, civilizacional, etc.] de que o movimento da negritude terá sido o precursor constitui o "caldo de cultura" tragicamente "ideal" para a consolidação da dependência objectiva, concreta; para a dependência de facto, ainda quando, em termos estritamente formais, se é um país independente.

No caso haitinano este dependência irá ao que tudo indica assumir a breve trecho formas para as quais a ajuda norte-americana prestada no contexto do catastrófico terramoto ainda bem recente terá constituido a porta de entrada pretextual azada.

Dos temas básicos do novimento da 'negritude' [particularmente interessantes de rever aqui, tendo em vista a sua essencioal aplicabilidade, mutatis mutandis, em casos como o haitinanoo], regressando um pouco a ele, fala Adotevi nestes termos:


"Primeiro, os temas. Em primeiro lugar, o orgulho pelo facto de se pertencer à tradição da civilização africana, de possuir valores que distinguem o mundo negro do universo dos brancos. Este posicionamento apela, no domínio da produção artística, à libertação dos modelos europeuse e à expressão de uma firme profissão de fé no destino de África.

Assim formulada, a negritude marca o nascimento de uma nova literatura africana.

Mas não há apenas isto. Há também os méritos. Mergulhando, com uma precisão de autênticos investigadores, num domínio que toda a gente sabia ser o de uma premente mistura de humilhação, de opressão e de ódio, os nossos poetas como Césaire e Damas, fizeram chegar até aos olhos da boa consciência europeia a visão das grilhetas da escravatura. As paslavras começaram a chegar. Entrechocando-se, reproduzindo a violenta miséria das colónias".


Sobre esta fala agora Aimé Césaire:


"Au bout du petit matin, on ne sait où dépêcher ses rêves avortés, le fleuve de vie déséspérément torpide dans son lit, sans turgescence ni dépression, incertain de fluer, lamentablement vide la lourde imparcialité de l'ennui, répartissant l'ombre sus toutes choses égales, l'air stagnant sans une trouée d'oiseau clair [...]

Au bout du petit matin, une autre petite maison qui sent tres mauvais dans une rue très étroite, una maison minuscule qui abrite en ses entrailles de bois pourri des dizaines de rats et la turbulence de mes six frères et soueurs, une petite maison cruelle dont l'intransigeance affole nos fins de mois et mon père fantasque grigoté d'une seule misère, je n'ai jammais su laquelle, qu'une imprevisible sorcellerie assouopit en mélancolique tendresse ou exalte en hautes flammes de colère; et ma mère dont les jambes pour notre faim inlassable pédalent, pédalent le jour, de nuit."


[Manhã cedo começa a atormentar-nos o problema do destino a dar aos sonhos gorados---o rio da existência desesperadamente imóvel no seu leito, sem relevos nem depressões, fluindo incerto na pesada neutralidade do tédio, vertendo sombras sobre tudo quanto existe, o ar estagnado completamente nu do voo das aves.

Manhã cedo, uma outra casa, minúscula e rasgada pelo odor das coisas putrescentes, erguendo-se na ruela estreita---casa anã que em cujas entranhas completamente corrompidas pela podridão erram os ratos às dezenas e onde fervilham em turbulência as passadas ágeis e lestas dos meus seis irmãos e irmãs; casa cruel cuja fera intransigência persegue cada fim dos nossos meses; e o meu pai, o meu pai refém indefeso de uma única miséria---nunca soube exactamente qual; o meu pai que, presa de imprevisível sortilégio, hesita entre a melancólica ternura e a chama irreprimível da cólera---e a minha mãe cujas pernas para a nossa fome, infatigável e feroz, pedalam, pedalam, dia e noite...]


[Na imagem: retrato de Aimé Césaire]

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

"Da democracia e da mera «demomorfia instrumental»---algumas reflexões pessoais a partir de um escrito de V. Moreira no «Público»"

Um artigo de Vital Moreira no "Público" [numa edição, a de 21.08.09, saída directamente do meu 'bem-nutrido' arquivo pessoal de recortes e 'lugares selectos' da imprensa nacional] intitulado "Equações eleitoriais" fornece-me o ensejo imediato para regressar aqui à velha [e nunca resolvida!] 'questão' da qualidade da democracia entre nós.

Diz Moreira, a dada altura entre diversas outras coisas que são, basicamente, constatações de evidências várias, que no caso português [e começo a citar] "embora seja possível a formação inicial de governos minoritários, a sua sustentabilidade é escassa, desde logo porque podem ser derrotados nas suas propostas legislativas e orçamentais por coligações negativas dos partridos da oposição".

E acrescenta: "Mesmo que possam chegar ao fim da legislatura---e isso só sucedeu uma vez (primeiro governo de Guterres, 1995-1999)--, [sic] trata-se de governos enfraquecidos, sempre na iminência de serem obrigados a executar políticas aprovadas pelas oposição contra si".

Ora, vale a pena, penso eu, a todos quantos aos problemas da vida da Cidade atribuem a mesma crucial importância que lhes atribui o autor destas linhas, reflectir um pouco sobre um conjunto de aspectos e questões levantados pelo texto ou susceptíveis o serem a partir dele.

Para começar: um dos maiores problemas da democracia portuguesa actual é, do ponto de vista do signatário, sem dúvida, o modo como ela concebe [e como expressa institucionalmente] a ligação entre poder representativo e respectivos representados ao longo de cada ciclo eleitoral.

Já por mais de uma vez, aliás, aqui tiva ensejo de repeti-lo: o que, fundamentalmente, define a essência da democracia é a circunstância de aquilo que é negociado e contratado entre a base e o topo da arquitectura democrática ser o exercício institucional e funcional do poder---em caso algum o próprio poder.

O poder negoceia-se---e cede-se: é materialmente cedido pelas massas aos agentes políticos efectivos---nas autocracias plebiscitárias, nunca nas verdadeiras democracias [seja lá o que for que isso, concreta muito e muito circunstanciadamente signifique---mas essa é outra questão que não vem agora aqui especificamente ao caso].

Ou seja: as democracias são tanto melhores i.e. estão tanto mais próximas de uma possível idealidade democrática teórica e prática quanto mais organicamente ligadas se conservarem ao longo de todo o processo de exercício do poder representativo ligadas entre si, de facto como de direito, a base e o topo da cadeia funcional democrática.

Ou seja, dito de outro modo, ainda: sendo, por razões óbvias, impossível de realizar, no modelo representativo, o tipo de mecânica decisional mais ou menos instantânea próprios da democracia directa---a democracia em tempo real---é, no entanto, desejável [e objectivamente possível!] que a temporicidade, no contexto do funcionamento da democracia representativa, se mantenha tão coesa e orgânica quanto possível, devendo, para tanto, os diversos institutos jurídico-políticos de natureza institucional do sistema estar concebidos de modo a evitar, sempre, que aquela temporicidade, na prática, se desdobre ou se des-integre num paradigma indesejavelmente dual e disfuncionado constituído por um "tempo decisional" [centrado nas mãos do 'poder' e] operando objectivamente como algo de completamente independente em relação um segundo tempo, simples e inertemente "crítico" ou mesmo até apenas "opinativo" e "moral", reservado este ou estes às 'massas' populares, isto é, à cidadania.

Ora, este "tempo crítico", numa democracia genuína, nunca pode permanecer inerte: na verdade, é ele que permite medir, aí sim, em tempo real, a "temperatura democrática" do sistema e atestar assim da respectiva "saúde funcional" sendo que é precisamente por isso que o conjunto de informações que ele fornece deve idealmente ser, de forma contínua e organizada, identificado por mecanismos internos do sistema e por este tão imediatamente quanto possível reinvestido no curso posterior da vida democtrática.

Não sendo possível, repito, a figura do 'tempo único', indissociado ou "tempo real" na democracia representativa é, porém, essencial para a saúde epistermológica desta que essse reinvestimento orgânico do tempo crítico" na vida democrática se faça a fim de evitar a 'deriva esquizofrénica' que as maiorias absolutas configuram e que transforma a democracia numa mera "demomorfia instrumental" sem conteúdo, cívico e político, próprio.

O que isto quer dizer por outras palavras é que, nos bons sistemas democráticos, o poder funcional está obrigado, por definição e consequentemente por imperativo institucional, a responder a todo o momento perante a cidadania---i.e. os respectivos representado---e nunca apenas e/ou realmente perante si próprio.

Como acontece, igualmente por definição, volto a dizer, nas maiorias absolutas: as tais que Vital Moreira define a contrario por regimes "fortalecidos", talvez ["enfraquecido" vs. "fortalecido"] ou outra coisa qualquer do mesmo género.

Ao contrário do que deixa dito no seu artigo V. Moreira, o grande problema da democracia não reside no facto de as propostas do poder serem, na sua própria expressão, "derrotadas" pelas oposições.

Estas estão lá, de algum modo, também para isso---i.e. para contraporem propostas às do próprio poder---e não representa democraticamente dano ou disfunção alguma [precisamente, ao contrário!] que as do poder sejam eventualmente "derrotadas", como ele diz.

O grande problema é [i] se o são em resultado de mero jogo de interesses tácticos dos partidos e/ou [ii] se o são por outras piores.

Ora, precisamente isto evita-se se, na arquitectura institucional democrática séria, genuína, efectiva, estiverem contempladas as formas de reinvestir no exercício da democracia o "tempo crítico" que [digamos assim:] "vem da cidadania e representa a voz desta, em tempo real.

Sucede que isso falta objectiva, sistemática e, sobretudo, sistemicamente entre nós.

Falta a expressão institucional da voz das maiorias em tempo real por falta de interlocutores orgânicos do próprio poder expressamente consagrados nos institutos da do sistema.

Aqueles podiam, como tantas vezes tenho dito, estar nas "comissões" que o 25 de Abril trouxe para a vida política nacional de forma embrionária e o 25 de Novembro voltou objectivamente a retirar desta e que poderiam e a meu ver, deveriam fazer-se eco, constituir-se em porta-voz da cidadania, operando então como os tais interlocutores orgânicos ou sistémicos do poder de que o sistema político em Portugal, em meu entender, manifestamente carece.

Em qualquer caso, é sintomático [e eu queria sublinhá-lo aqui, por isso, de modo muito especial] o modo como Moreira concebe o exercício do confronto orgânico de ideias no seio do poder democrático: como um combate com "vencedores e "derrotados"---que ele, de resto, até pode ser---só que para o autor do artigo [e isso mostra o modo como implicitamente de dentro do poder se pensa toda a mecânica representativa como tal] tanto vencedores como "derrotados" estão confinados ao estrito e estreito âmbito das forças parlamentares partidárias, como tal.

Como se todo o exercício do poder se esgotasse ali e se medisse pela informação dali proveniente sem ter de passar pelo crivo determinante da vox populi fornecendo idealmente o 'feedback' ressituador, revitalizador---e, sobretudo, definidor ou redefinidor de cursos precisos dentro da mecânica democrática.

É precisamente este fechamento, esta falta sistémica de 'arejamento cívico e político'; esta persistente [e consistente!] 'claustrofobia institucional' que muito hábil e muito subtilmente se mascara de funcionamento 'normal' da democracia aquilo que, em meu entender, faz disfuncionar na base] todo o sistema e o descaracteriza por completo mesmo não parecendo, exteriormente, fazê-lo.

Digamo-lo muito claramente: o poder não pertence a quem o desempenha funcionalmente por representação: a "derrota" circunstancial de uma ou várias propostas vindas da área do poder significa, de facto e de direito, apenas e só isso mesmo: uma derrota da capacidade das pessoas que estão no poder e que o pensam para dar resposta àquilo que a comunidade entende serem as suas aspirações e legítimos desejos.

Não representam, a não ser para o próprio poder e para quem o representa, necessariamente uma derrota.

Só quem concebe implicitamente o poder como "coisa sua" pode pensar o contrário.

Aliás [e é precisamente isso que não entendem ou fingem não entender] quantos preconizam constantemente a formação das tais maiorias 'absolutas' a democracia é-o precisamente quando e porque no núcleo mesmo dos seus mecanismos básicos de decisionalidsde política se encontra a necessidade inalienável de vencer pela bondade dos argumentos como essencialidade decisional nuclear e não pelo mero peso do número.

Volto a dizer: se os argumentos forem bons, as propostas só podem, em tese passar.

Agora o que é fundamental é que toda a cidadanias disponha de meios para conhecer o conteúdo das propostas assim como de instrumentos concretos que lhe permitam aferir realmente e em tempo real da sua qualidade e expressar as suas posições ao poder que, ao tomar as suas deliberações, já sabe exactamente como pensa a maioria sobre a qual vão necessariamente incidir os efeitos delas.

Ou seja: é vital para a democracia que as deliberações envolvendo os interesses de todos não resultem de mecanismos decisionais impostos pelo número e/ou aferidos exclusivamente no estrito círculo do poder, deixando à cidadania a única prerrogativa da "crítica" ou da "opinião" disfuncionalmente utilizada como sucedâneo completamente inerte do poder e após o poderr se ter exercido.

É, de resto, precisamente esse "após" sistemicamente "encravado" ["planted"] no próprio seio do exercício democrático como tal [deixando ao eleitorado, exactamente em consequência da des-integração dos tempos da democracia, o mero poder; o não-poder meramente "moral" de... des-votar ou des-eleger a posteriori governos e pessoas em vez de começar naturalmente por votar nus e noutras e elegê-los a todos]; é, de resto, dizia, esse modo de conceber o exercício da democracia como a escolha não do futuro mas, sem qualquer ironia, do passado 'ideal' que aproxima o que, em teoria, é ainda uma democracia da tal 'demomorfia instrumental plebiscitária' ou mesmo de um "autoritarismo formalmente consentido" de que atrás falo.

O texto de V. Moreira ajuda a perceber como o tipo de ideário que subjaz a este argumenta e, desse modo, se identifica a si mesmo---e, em última análise, auto-define.


[Na imagem: gravura satírica da época da Revolução Francesa, extraída com vénia de ocontodassombras.com]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

"Ainda a «questão» do casamento homossexual como problema cultural e cultual"


Regresso, ainda uma vez, à singularíssima "ordem do dia" nacional---o casamento homossexual---escogitada pelo poder político vigente para 'varrer para baixo do tapete' no imediato questões que, de outro modo, poderiam muito bem [ou muito mal mas enfim!...] "explodir-lhe", em qualquer altura, nas mãos.

Escogitada pelo poder político, como disse, para, enquanto lhe for possível, ir "enchendo uns quantos chouriços... argumentativos" mas também [e parece-me, sinceramente, que não seria mau que começássemos todos, como sociedade, a considerar também este outro lado mais imediatamente oculto da "questão"]; mas também, dizia, gostosamente aproveitada por uma certa hierarquia institucional católica [genericamente imóvel---de facto, completamente encalhada!---no tempo, manifestamente incapaz de evoluir e de lidar com as inúmeras complexidades do que chamamos globalmente "a vida moderna" [sobretudo, política---aí, então... longe vá o agoiro!...] e, por isso, sob diversos aspectos, em franco declínio] [o "Correio da Manhã" de hoje, por exemplo, inclui uma notícia onde se fala, logo em título, de das "ordenações" que, diz o "jornal cairam vinte por cento" só este ano] para tentar uma espécie de "contagem de espingardas" particular, de toque a reunir muito oportunamente fornecido pelo poder político e, por fim, para um sonhado "re-boost" quantitativo das suas depauperadíssimas hostes.

Detenhamo-nos, então, por uns momentos sobre este último ponto.

E para começar por dizer o seguinte: o problema da igreja institucional é claramente de natureza estrutural.

Como "teoria da realidade", ela enquanto ideário corresponde a um momento ou conjunto de sucessivos desses "momentos" históricos mas, sobretudo, especificamente científicos em que a sua base epistemológica fixa---o "conhecimento" bíblico---fornecia precisamente [em muitos casos---por demais conhecidos, aliás: Galileu e por aí adiante...---pela força mas enfim...] o único paradigma de organização teórica da realidade admitido---e autorizado.

Como teoria da realidade, ela foi ultrapassada naturalmente pela própria realidade sobre a qual se obstina ainda hoje em teorizar---coisa que ela, pelos vistos, nunca conseguiu de todo perceber.

Não percebeu, por exemplo e muito concretamente , que a única via que se lhe abria quando a própria evolução natural do Conhecimento humano [e especificamente dos modos humanos de Conhecer!] era a de ela própria evoluir de um domínio epistemológico onde de direito já de todo não cabia para um âmbito mais genérica ou, num certo sentido, filosófico, mais abstractamente ético onde existia um conjunto de representações e formulações particulares que àquele Conhecimento caído em desuso andavam mais ou menos directamente associados e que podiam ser beneficamente recuperados por [e/ou especificamente para] uso de uma sociedade cuja falha maior [uma delas, em todo o caso] consistia precisamente em, tendo-se reforçado científica e tecnicamente, ter-se, de modo inversamente proporcional, esvaziado em termos éticos e humanísticos.

Uma sociedade que se tinha "dissociado" ou "des-integrado" i.e. que se tinha tornado já "identitariamente inorgânica e epistemologicamente esquizofrénica" no preciso sentido em que tinha aprendido comparativamente depressa a "fazer coisas" mas a fazê-las independentemente dos seus usos especificamente sociais ou até imediatamente humanos e humanísticos.

Uma sociedade que tinha transformado numa cultura em si esse mesmo projecto tópico de arrancar a "Ciência" à "História" e de---lá está!---dissociar por completo ambas entre si passando, na prática, a concebê-las como entidades completamente inter-autónomas, entregando [era aí que iria, afinal, desembocar a sua ideia tópica teórica de "Estado", aliás!] a gestão da primeira daquelas componentes do seu património orgânico próprio à iniciativa privada enquanto que a gestão da segunda era por sua vez, cometida ao "Estado" no qual ela via basicamente, porém, apenas, por um lado, um "broker" ou "corretor institucional" daquela iniciativa mesma privada e, por outro, uma espécie de dispositivo móvel "de segurança" [ao qual ela chamou, como se sabe---muito ambiciosamente, de resto---o "seu" Estado "Social"] destinado a atenuar e a ir corrigindo, de forma, todavia, apenas primariamente "sintomática"---e só muito breve e muito localizadamente, de facto, "orgânica"---as disfunções inevitavelmente geradas pelo modo des/estruturalmente 'desigual' de funcionar daquela enquanto sistema em si.

Tirando, com efeito, em países como a Inglaterra ou a França, o imediato pós-guerra não me parece que, na esmagadora maioria dos casos o Estado dito "social" tenha sido outra coisa que não aquilo a que chamo um mero "revestimento politiforme móvel e funcional" do núcleo ou infra-estrutura económico-financeira dos diversos regimes ocidentais.

Diversas vezes, também, tenho chamado a atenção para o papel [des] estruturalmente conservador [teórica mas também objectivamente reaccionário mesmo, no limite] do Estado dito "social" assim entendido como uma "peça-chave" do modelo económico-financeiro [e instrumentalmente político] achado pelos regimes pós-autoritários [pós-fascistas] ocidentais para fazerem face ao fracasso sistémico dos autoritarismos dos anos '20 e '30 para gerirem a sua própria sobrevivência enquanto modo de produção.

A verdade é que o Estado assim concebido, operou, na realidade, na prática, não como um aliado das classes trabalhadoras [na medida em que não previa transformações políticas reais do modelo económico-político mas, exactamente ao contrário, tornar esse modelo social, política e, em geral, histórica, social e politicamente "habitável"] mas, exactamente ao contrário, repito, como um aliado daqueles que se situavam económica, social e politicamente acima dessas mesmas classes, i.e. dos detentores da propriedade [e] do capital e tendo como meta histórica precisamente que a realidade não se alterasse no essencial.

Ora, neste contexto de fixação externa da História---da sua conversão prática [e, também, em muitos casos, teórica, já agora...] em refém da própria infra-estrutura económico-financeira das sociedades ocidentais---seria extremamente importante que a igreja católica tivesse sabido perceber o campo de intervenção moral que o próprio sistema, com a sua "vocação inata" [de estrutura, de episteme] para gerar desigualdades de toda a ordem, lhe oferecia.

Isto é, que ela tivesse sabido entender em que exactos sentido e direcção se orientava a sua própria possibilidade de evoluir.

É Voltaire quem tem, a dado passo, sobre o cristianismo do seu tempo, uma reflexão extraordinária envolvendo a ideia de que [a responsabilidade da formulação é minha, a ideia geral é que é do criador do "Candide"] perante as desigualdades existentes Deus tinha uma espécie de [permitam-me a expressão] 'obrigação moral' de existir ou de 'se criar a si próprio' a fim de estimular a humanidade a ser um pouco mais... tolerante e humana.

Ora, foi isto que a igreja claramente [ainda?] não percebeu.

Ainda hoje, de facto, em lugar de proceder, ela própria, a uma séria reflexão deste tipo, opta por posicionamentos teórica e cientificamente em si mesmos de todo insustentáveis, tentando à força e à revelia da própria História impor a "teologia" como uma "ciência" concorrente das próprias ciências [é essa claramente a linha de intervenção concreta---a estratégia---eleita pelo actual papa para intervir na sociedade moderna, numa sociedade essencialmente urbana, tecnologicamente evoluída, a uma distância abissal, portanto, daquela onde essa intervenção geralmente resultava] numa via completamente aberrante e até objectivamente suicidária que apenas pode, a prazo, conduzir a fracturas dificilmente colmatáveis da própria igreja relativamente a vastos sectores da sociedade e, no limite, ao fechamento integral do próprio catolicismo num ghetto construido por si mesmo e por uma estatégia incrivelmente inábil e autista, obstinamente míope de intervenção na vida [dita, com razão ou sem ela---essa é outra questão] "real" e "moderna".

Basta recordar o recente---e, a todos os títulos, dificilmente imaginável!---"episódio" da polémica "teológica" com Saramago para se perceber até que extremos de puro, estéril e cego escolasticismo a igreja institucional de hoje está disposta a ir...

Este, digamos, o pano de fundo sobre o qual se destaca o modo inimaginavelmente desajustado da realidade, dela teimosamente alienado, como a igreja católica se colocou perante toda uma fenomenologia cultu(r)al [ética, política, civilizacional] de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo representa, no fundo, um mero epifenómeno.

Ainda hoje, na mesma edição do jornal que citei a propósito do declínio dos valores em matéria de ordenação de sacerdotes católicos se achava uma outra envolvendo um padre português em França acusado de pedofilia e abuso de menores.

A questão é: onde é que uma instituição que tem, no domínio dos comportamentos designadamente de índolo sexual; de índole sexual envolvendo pessoas ás quais não se pode, de todo, aplicar a designação de "consenting free adults"; como é que uma instituição que, neste domínio manifesta as fragilidades e dificuldades que exibe [basta ver o recente "caso irlandês"]; onde é que uma instituição assim vai buscar autoridade moral para se pronunciar em matérias que envolvem, aí sim, os tais "consenting free adults"?

E não digo: onde vai ela buscar fundamento porque o fundamnento em causa, pura e simplesmente, não existe.

As origens dos comportamentos pedófilos não podem, a meu ver, ser dissociadas precisamente do modo [des] estruturalmente arcaico e intrinsecamente disfuncional como a igreja permanece organizada, ainsda hoje, logo desde a formação do seu pessoal; do modo teimosamente 'medievalizado' como concebe designadamente a relação entre os sexos [de que a inimaginável "questão" da ordenação de mulheres permanece uma manifestação verdadeiramente gritante de obsolescência e indigno obscurantismo discriminatório.

A pedagogia católica, com efeito, ao preconizar nos domínios específicos onde se exerce na sua forma mais 'pura' e mais ortodoxa [seminários, colégios internos, etc.] que o desenvolvimento da identidade e da consciência dos indivíduos tenha lugar num contexto "sexual e sexistamente claustrofóbico e estr[e]itamente segregado"---'segregacionista', mesmo---é que cria algumas das condições primárias para que possa emergir mais tarde o padrão de disfuncionalidade pedófila relativamente a cuja condição 'tópica' hoje já muito pouca gente duvidará em associar ao modelo eclesial em matéria especificamente pedagógica e até didáctica.

Era, porém, para , i.e. para o saneamento cuidado e criterioso das suas estruturas conceptuais e cosmovisionais básicas que a igreja institucional deveria começar por virar-se a fim de "arejar" tão desejável quanto radicalmente o seu património próprio em matéria ética na sociedade contemporânea.


E eu terminaria dizendo: enquanto não tiver percebido isto [e, sobretudo, se o não chegar a percebê-lo!] não é difícil antever que fim reservam as sociedades modernas ao corpus doutrinário eclesial institucional; às representações de ordem "morail" que dele se obstinam em seguir gerando-se---assim como, em última análise, à própria instituição que produz tudo isso---enquanto tal...


[Na imagem: fotograma de "Blindness" de Fernando Meirelles baseado na obra "Elogio da Cegueira" de José Saramago ]

domingo, 3 de janeiro de 2010

"A Fuga de Peniche"


Celebram-se hoje [celebro-os eu, seguramente, que o resto da república "tem mais que fazer"...] 50 anos sobre a célebre fuga da prisão de Peniche, levada a cabo, entre outros, por Álvaro Cunhal.

Trata-se de um episódio heróico, na acepção literal da expressão, que pôs surpreendentemente em cheque o brutal aparelho repressivo da ditadura [para quem o Partido liderado por Cunhal era ainda apenas "o chamado Partido Comunista Português"...] e permitiu evidenciar as existência de falhas graves a que o mesmo não estava, afinal,a imune, algo que [mau grado a barreira de silêncio de que o "regime" naturalmente tentou rodear o seu próprio fracasso---agravado ainda pela defecção de um dos seus próprios guardas cuja acção seria fulcral para o sucesso da fuga e a ela, aliás, se juntaria também evadindo-se também] estava longe de ser despiciendo numa sociedade onde a repressão começava na própria cabeça de cada um alimentando-se aí, de forma perversa e habilmente encorajada pelo próprio "regime" a sugestão [ou a ficção ] da inviolabilidade do mesmo.



Nesta 'entrada' do "Quisto" comemora-se o facto e recorda-se, de um modo muito especial e muito sentido, a figura única de Álvaro Cunhal, uma das poucas figuras realmente brilhantes e, sob muitos aspectos, decisivas do breve período de empolgante "laboratório cívico, social e político" que foi o curto período que medeia entre 25 de Abril de '74 e 25 de Novembro de '75, aquele em que o "cadinho revolucionário" [com todas as suas fragilidades e hesitações---que haveriam de conduzir, de resto, a prazo, ao seu própruio suicídio---mas também com todo o nobre capital de generosidade e entusiasmo cívico e político que o marcou esteve activo.


[Na imagem: desenhos de Álvaro Cunhal, "No forte de Peniche" e "Fuga de Peniche"]

"Da suposta «ingovernabilidade» actual da república"


Estão ao rubro as lucubrações em torno da [in?] "governabilidade" da república em resultado da actual maioria relativa no poder.

Para uns, o responsável por isto seria Cavaco que, neste cenário, estaria a preparar [como nas corridas ciclistas...] o "sprint" final para a meta que é a sua própria recandidatura à presidência imolando a esse objectivo pessoal os legítimos interesses da nação.

Para outros, é o primeiro-ministro português---o inefável e indigerível José Sócrates---quem [em nova imagem "desportiva": como certos futebolistas egocêntricos ou... "fossões" de quem se diz que "gostariam de levar a bola para casa" e/ou "que tanto gostam de fintar que acabam, mais cedo ou mais tarde, fintados por si próprios"...] faz jogo só para si", tentando precipitar eleições intercalares onde imaginaria [vá-se lá saber por quê!...] poder recuperar uma expressão eleitoral esmagadora e desproporcionada que nunca deveria, de resto ter tido quanto mais ver repetida...

Na verdade, tudo se passa como se Portugal "não tivesse povo" ou, tendo-o, tivesse o mesmo concessionado definitivamente a condução da sua própria existância como povo a uma classe sacerdotal de políticos iluminados de cujas brilhantes cabecinhas fosse preciso esperar a solução para a tal "ingovernabilidade" que mais ninguém teria a mais remota ideia de como resolver.

Pessoalmente, devo dizer que vejo neste modo, mais ou menos... "xamânico" e providencial, de pôr ou de equacionar a questão essencial da Democracia---porque é, na realidade, disso que [não!] estamos aqui a falar: da natureza e, sobretudo, da qualidade---quando não mesmo, no limite, da própria [im?] possibilidade---de uma Democracia em Portugal]; pessoalmente, dizia, vejo neste modo mais ou menos... "moisaico" de ver a questão da Democracia, o sinal evidente, a marca claríssima, da doença, quem sabe se fatal, que, entre nós, a corroi.

Sejamos claros: não há "democracias concessionadas".

A ideia envolve uma insolúvel contradição nos próprios termos.

Ou seja: a democracia [já era tempo de "o povo"---se existisse o que é cada vez menos certo...---ter percebido isto] não é uma coisa que se "empreste" ou se "alugue", se "concessione" [como aos toldos e às barracas na praia...] regularmente, ficando uns quantos---os seus "inquilinos cíclicos"---a "pagar renda" ao dono da casa que é sempre "o [tal] povo" que a "alugou" na óbvia "esperança" de com isso obter um rendimentozinho regular e seguro que não o obrigue a trabalhar muito e lhe vá dando para "os alfinetes" ou para... "os gastos do dia-a-dia".

[O povo português que vai a pé a Fátima; que põe bandeiras às janelas por tudo e por nada e, quando as não há, põe panos com o menino Jesus; que se baba com as "conquistas" do Ronaldo e enche os "concertos" do Toni Carreira---esse povo, dizia, é, como se sabe, "filho de uma senhora doente" e herdou a fraqueza da mãe, a Sra. de Fátima, pelo que não pode esforçar-se muito "que fica logo a transpirar"...].

Seja como for, uma Democracia não assenta na "negociação política e institucional cíclica do poder", como parece pensar ainda a maioria dos que nos governam mas, sobretudo [en mais grave, ainda!] dos que são por esses governados.

Uma Democracia assenta, sim, na negociação política do exercício funcional do poder o que pressupõe a ideia de uma governação aconmpanhada de perto pelos governados assim como, findo cada ciclo representativo, a responsabilização formal, num ou noutro9 sentido, dos representantes.

Dito de outro modo: o tempo da chamada 'democracia representativa' é, por definição um tempo dual, dissociado ou dissociacional---eu diria: sempre latentemente esquizofrénico---e isto, volto a dizer: por definição.

Há inevitavelmente um lapso, um "power" ou "powering lag", entre o 'tempo decisional' e o 'tempo crítico', dentro da unidade orgânica teórica que é o Tempo democrático.

Quando ambos os tempos "colam" por completo, já não estamos em "democracia representativa", estamos em "democracia directa", a única na qual o tempo não se cinde nem se torna necessariamente "esquizofrénico".

A democracia representativa é, pois, se assim quisermos dizer, sempre uma solução 'de recurso', ditada pelas próprias dimensões naturais das comunidades onde vigora.

A grande questão; o grande problema com que se defrontam aqueles que efectivamente se preocupam com a qualidade da democracia é, pois, na base, o de evitar que a distância [teórica e prática] entre os "tempos" da democracia se torne tão grande que estes se polarizem e a própria democracia se torne, em resultado disso, ela mesma inorgânica e apenas formal.

Quando isto acontece [e nos os sistemas "demoformais" a operar em regime de maioria absoluta é inevitável que isto aconteça!] aos supostos representados [ao "povo"] fica reservado um 'tempo' completamente inorgânico e exclusivamente [chamemos-lhe] "moral" que é o resultado da desintegração ou apodrecimento [des] estrutural do "tempo crítico" o qual, deixando de ter capacidade para intervir efectivamente na máquina da democracia, passa, então, com ela, a inorgânico ou, como lhe chamei também, meramente "moral": eu posso discordar; posso fazê-lo publicamente sem [em princípio...] sofrer represálias; posso divulgar, também mais ou menos livremente, disfunções do funcionamento do próprio sistema [um equívoco comum, muitas vezes, usado de dentro do próprio sistema para simular uma sanidade política que, de facto não existe ou pode não existir, consiste em confundir esta possibilidade de divulgar, chamemos-lhe: "platonicamente" males do funcionamento do sistema com "democracia" tout court] mas não posso agir efectivamente no sentido de corrigir de facto os males em causa porque o "poder" a que chamei moral se esgota na sua própria expressão não tendo outras consequências seja de que natureza prática for, a começar por consequências de natureza correctora real.

A democracia não se torna "ingovernável" por possuir um governo que entende a função representativa como traduzindo-se na prática na conversão do próprio governo em "agente índio" ou "broker" dos interesses privados: torna-se porque, em resultado do modo imperfeito como está institucionalmente organizada, permite que seja possível a um governo dito democrático agir desse modo e não ser efectivamente responsabilizado.

A democracia não se torna também ingovernável por possuir uma presidência da república [supostamente, pelo menos] mais preocupada em continuar a sê-lo do que em defender prioritariamente o interesse público: torna-se porque todo o sistema não encontrar meios concretos, institucionalizados, de vigiar-se democraticamente em tempo tão real quanto possível.

Torna-se porque, em vez de fazê-lo [através de uma rede de organizações de base capazes de constituirem-se em interlocutor activo e efectivo do poder político] aceitou, como comecei por dizer, "concessionar" passivamente o conjunto do próprio sistema político, reservando-se o "poder" de des-votar ciclicamente a posteriori os políticos disfuncionais [os incompetentes, os desonestos, os corruptos, os oportunistas e carreiristas, os venais, etc.] numas espécie de triste paródia... "retrocrática" da próprias democracia.

Costumo dizer que, se a verdadeira democracia está configurada no direito legítimo de os indivíduos e os povos escolherem livremente as formasd e modalidades do seu próprio futuro, a "retrocracia", tal como fica atrás definida, consiste no estranho privilégio de esses mesmos indivíduos e povos elegerem livremente as formas do seu próprio... passado.

O que torna o país, senão ingovernável, com certeza muito dificilmente governável não são, pois, os maus políticos: é a ausência de uma Cidadania responsável, atenta, consciente e organizada [mais uma vez o repito: que podia idealmente ter nascido da maturação conceptual e do consequente amadurecimento institucional das "comissões"--de moradores, de utentes dos serviços públicos, de inquilinos, etc.---através das quais o 25 de Abril trouxe---efemeramente, embora---a Cidadania para a Política]; a ausência de uma Cidadania que siga de perto a acção do poder dito representativo [para que esta passe, efectivamente, a sê-lo] e disponhas de meios para obrigar aquele poder a responder de facto e, também, de direito perante uma comunidade dotada de reais poderes para sancionar os maus políticos, como é apanágio do verdadeiro espírito e da verdadeira prática democráticos.

A perda da maioria absoluta pelo partido vencedor levanta outra questão: a da existência [mais grave, ainda: da existência desejável, para alguns---entre os quais se contam, aliás, os própruos constitucionalistas originais e legisladores, em geral que nada fazem no sentido de corrigir o mal] de dispositivos, de... "cookies" institucionais [para usar uma linguagem, de computador...]---falo das maiorias chamadas "absolutas"---colocados no interior da própria máquina democrática a fim de procederem ao que não pode ser descrito de outro modo senão como a desmontagem ou desactivação estratégica da mesma, manobra essa supostamente "essencial" para que determinadas "soluções" políticas ditas "mais difíceis" possam ser tomadas.

A cada passo ouvimos [ad nauseam] repetir este verdadeiro refrão: o que diz que é vital para o sistema que ciclicamente se formem as referidas maiorias sem as quais não se podem fazer, numa expresssão muito comum e que já se tornou, de facto, um cliché, "as reformas indispensáveis".

E aqui temos efectivamente outra marca da mesma doença democrática profunda de que sofremos como sociedade---e como sistema político: aquela que além do que já disse parte do "esquecimento" daquele que é o específico da própria democracia e que é a necessidade incontornável de colocar a persuasão no centro ou nos "genes", da própria estrutura decisional política.

É isso o que, na realidade, permite, em última mas real instância, distinguir os regimes autocráticos dos democráticos.

As democracias não devem servir para gerir apenas uma certa normalidade social e política ou económica mais ou menos inerte---tendo de ir ciclicamente [como dizer?] "reabastecer-se em matéria decisional" àqueles mesmos sistemas e regimes políticos de que dizem ser o oposto.

As maiorias relativas [ou, como prefiro dizer: "relativais"] e a capacidade para gerir a vida pública no contexto específico e único delas recorrendo obrigatoriamente à bondade dos argumentos para fundamentar as decisões tomadas não são um mal nem um acidente político nas sociedades em geral: são, na realidade, a própria essência da vida democrática, como tal.

O facto de existir, no núcleo mesmo da máquina decisional política, essa necessidade incontornável [institucionalmente incontornável!] de persuadir como pressuposto essencial para fazer vencimento, longe, repito, de ser uma disfunção ou um incómodo indesejável para a vida [efectivamente] democrática é, pelo contrário, no fundo, o único meio de confirmar e se substanciar na prática a própria essência do espírito democrático como tal.

É o meio de os sistemas políticos [assim como as sociedades que eles servem] se assegurarem que o tempo decisional não se cinde nem se polariza---não se des-integra nem se torna "esquizofrénico" conduzindo à deriva demomórfica da própria democracias.

Aquilo que os propugnadores destas "maiorias estratégicas", na realidade, afirmam é que os povos em matéria política, só... "atrapalham" porque são, em geral, tolos e/ou incapazes de se auto-gerirem; que não sabem, em geral, aquilo que efectivamente configura a defesa dos seus interesses---sendo, por conseguinte, necessário que uns quantos "iluminados de carreira"' comecem por lhes impor umas quantas medidas supostamente consubstanciadoras da defesa daqueles interesses a fim de que, depois, numa fase posterior, eles possam então constatar a respectiva bondade [que eram, porém, demasiado cegos para ver logo de início]...

Dito de outro modo: que a democracia é boa mas, afinal, na prática, apenas para gerir aquilo que só o contrário da própria democracia [ou, no mínimo, a respectiva... "suspensão funcional estratégica"...] consegue realizar.

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E eu terminaria dizendo: aquilo que a mim, pessoalmente, mais me preocupa, como português e especificamente como cidadão, é que o comportamento inimaginavelmente passivo da sociedade portuguesa em geral perante a tal suposta "ingovernabilidade" ou "para-ingovernabilidade" do sistema político português---que, na prática, nada mais é, porém, do que a escandalosa prossecução de um conjunto de jogos de interesses sectoriais cruzados, levados a cabo no contexto de um sistema onde às "elites" é permitido que actuem, precisamente, como tenho vindo a dizer, de um modo completamente dissociado da vontade e do próprio interesse colectivos; onde às tais "elites" é permitido que ajam, para todos os efeitos, como "se o povo não existisse" ou "não contasse" e as formas da sua intervenção cívica e política se limitassem a ser o esperar que aquelas "elites" se ponham finalmente de acordo no rateio das quotas de poder real, pessoal e político; aquilo que a mim, pessoalmente, mais me preocupa, dizia, é que mantendo uma atitude inimaginavelmente passiva e desinteressada perante toda esta situação, "o povo" venha apenas dar razão àqueles que o desrespeitam inventando sempre novas formas "democráticas" de conservá-lo longe do poder e, de uma forma ou outra, sem efectivo acesso a ele.