quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"En El Desierto" [Ver a propósito, 'entrada' anterior]


[Existe na RDP uma rubrica matinal que, ocasionalmente, oiço intitulada "As Canções da Minha Vida".

É um programa como qualquer outro que oiço muitas vezes, em larga medida, 'por dever de ofício' uma vez que não tem os negregados anúncios da praxe a interromper obscenamente a programação e a destruir impiedosamente mesmo a mais remota hipótese de discurso minimamente consequente e adulto, hoje-por-hoje, aliás, uma verdadeira raridade senão, na maioria das rádios, uma pura e simples... saudade.

Seja como for, lembrei-me de "copiar" a ideia (eles, RDP, copiaram-me, em tempos, o título de uma colagem que expus publicamente na Bienal de Artes Plásticas do Avante, agora é a minha vez de plagiá-los a eles numa coisa que, de resto, nem sequer é propriamente original mas enfim...---reportando-a, em qualquer caso, todavia, à Poesia: aos meus "lugares selectos textuais" particulares].

Assim sendo, começo hoje mesmo com este espantoso texto de um poeta da Guatemala, chamado Otto René Castillo (1934-1967) extraído de uma Antologia de Poesia latino-americana e que tem a inestimável, a imensa qualidade de, sob forma poética---aliás, textualmente 'luminosa'!---avançar todo um projecto implícito de intervenção cívica e, claro, política (potencialmente política, ao menos, quase 'luminosamente', volto a dizer, anarquista no melhor sentido da palavra); tudo isso sem sacrificar minimamente (bem pelo contrário, aliás!) a fabulosa concisão e a brilhantíssima mestria global na construção do soberbo edifício textual final.

... Que é, de facto, literalmente de antologia.]


Tu agua,
Ligea,
no tiene propietarios
ni señores!

Si dueño tiene
tu agua,
es, solo el que se ahoga de sed

en el desierto.

[Do livro "Mi Buena Amiga Muerte y Otros Poemas"]

4 comentários:

Ana disse...

Belíssimo poema de um poeta que desconheço e que irei pesquisar.

Obrigada pela resposta ao meu comentário.
Um beijo.

Carlos Machado Acabado disse...

É de facto notável.
Pela concisão, pelo rigor textual, por tudo!
Também para mim foi uma surpesa, em tempos.
Cheguei a traduzi-lo e dá-lo nas aulas de Português: mesmo traduzido, é belíssimo, de facto!

Vieira Calado disse...

Na América latina estão, quanto a mim, dos melhores poetas deste mundo!

Obrigado pela mostra.

Um abraço

Carlos Machado Acabado disse...

Sem dúvida, Amigo Vieira Calado!
E este Otto René Castillo, um compatriota comparativamente desconhecido de Miguel Angel Asturias (que foi Nobel em 67), é um magnífico exemplo disso mesmo.
Internamente reconhecido com vários prémios permanece, em larguíssima medida ignorado no estrangeiro, sobretudo na Europa o que é uma enorme e completamente injustificada injustiça, da qual somos nós, que gostamos de Poesia, os maiores lesados...