sexta-feira, 12 de março de 2010

"Até Quando, Senhor?!..."


... continuarão o regabofe e a hipocrisia/cobardia que o sustentam?

Da página online da RTP retiro [e republico sem outros comentários] a seguinte notícia:


Suicídio de professor
por Paulo Alexandre Amaral, RTP actualizado às 15:01 - 12 Março '10


DREL abre inquérito a acontecimentos em escola de Fitares
publicado 12:29 12 Março '10

O Ministério da Educação quer averiguar o "enquadramento do professor" na escola e os "antecedentes e eventuais acontecimentos que antecederam o suicídio" RTP.

A Direcção Regional de Educação de Lisboa decidiu abrir um inquérito urgente ao caso do professor de música de uma escola do concelho de Sintra que se suicidou no passado dia 9 de Fevereiro devido ao clima de indisciplina e de afronta com que alegadamente se deparava durante as aulas. O retrato deste caso, que surge nas edições dos jornais "Público" e "i", já foi rejeitado por pais e professores.

Estes dois diários explicam que o professor de música, de 51 anos, com uma licenciatura em Sociologia, enfrentava problemas na sala de aula com "um grupo de alunos do 9.º ano", sendo alvo de insultos que o levaram a expor sete participações à Direcção da escola, visando "o comportamento de um aluno em particular".

De acordo com os jornais, com base nos testemunhos de outros professores e familiares, a escola não chegou a abrir qualquer inquérito.
O "Público" acrescenta que existem na Inspecção-Geral de Educação participações que apontam para alegado incumprimento daquela escola no que respeita a questões disciplinares.
Duas certezas existem para já neste caso: a 9 de Fevereiro o professor parou o carro na Ponte 25 de Abril e atirou-se ao Tejo; no computador, o docente de música que ainda vivia com os pais, em Oeiras, deixou textos que indiciam e apontam para as razões do suicídio ("Se o meu destino é sofrer, dando aulas a alunos que não me respeitam e me põem fora de mim, não tendo outras fontes de rendimento, a única solução apaziguadora será o suicídio").
Já esta manhã, o Ministério da Educação explicou que o processo de inquérito a estes acontecimentos é "urgente", destinando-se a averiguar o "enquadramento do professor" na escola e os "antecedentes e eventuais acontecimentos que antecederam o suicídio". Professores e alunos rejeitam relação entre indisciplina e suicídio.
Concentrados frente à escola de Fitares, pais dos alunos manifestaram a sua indignação por estar a ser feita a ligação entre o suicídio do professor de música e os alegados actos de indisciplina dos alunos, sentimento que encontrou eco em alguns professores.

De acordo com pais ouvidos pela Agência Lusa, as notícias veiculadas na imprensa esta sexta-feira estão a ser um factor de forte perturbação para os estudantes.
O caso respeita em particular aos alunos do 9.º B, tendo uma encarregada de educação de um dos estudantes desta turma defendido que "é impossível que o professor se tenha suicidado por causa dos alunos. Alguém que pratica um acto destes tem que ter antecedentes. Ninguém se suicida por causa de uma turma. Nunca ouvi falar de violência nas aulas".

"Quando cheguei à escola vi adolescentes muito revoltados. Os alunos do 9.º B dizem que é mentira, que não tiveram responsabilidades no suicídio do professor", acrescentou esta mãe.
Os professores ouvidos pela Lusa seguem o mesmo raciocínio e lembram que o professor de música tinha antecedentes de depressão.
"O professor estava com uma grande depressão. Estava a ter acompanhamento psicológico e a escola fez tudo o que pôde", afirmou um docente a coberto do anonimato.
"Também sou professora de música e nunca ouvi dizer que era alvo de gozo e de maus-tratos.

Ele nunca nos disse nada", apontou uma docente igualmente sob anonimato. FNE defende apoio psicológico a professores.
A Federação Nacional de Educação já veio defender que no actual contexto de casos de bullying que já está a afectar os professores deveria ser patrocinado o apoio psicológico a estes profissionais.
Num comentário ao caso do professor de música de Rio de Mouro hoje relatado pelos jornais, a FNE aponta para que seja um caso pontual, não deixando contudo de alertar para o crescente aparecimento de casos de depressão entre os professores.
Nesse sentido, apela à implementação de medidas que visem acompanhar este tipo de indisciplina por parte dos alunos e sugere que os encarregados de educação sejam de futuro responsabilizados pelos actos destes dentro das escolas.

Sem se referir a este caso, o secretário-geral da FNE considera que "deve haver uma responsabilização dos pais ou encarregados de educação em relação ao comportamento de desrespeito dos alunos para com os professores e funcionários das escolas".
João Dias da Silva pede a implementação de "mecanismos que façam com que os pais sejam também responsabilizados".

Na passada semana a Confederação das Associações de Pais (Confap) apontava para a retirada de apoios sociais às famílias que vierem a ser responsabilizadas pelos actos de violência dentro das escolas das crianças e adolescentes que tenham a seu cargo.


[Na imagem: "angry mob" apud "The Simpsons"]

6 comentários:

Ezul disse...

Que eu saiba, já está mais do que provado que se registam elevadas percentagens de depressão e de recurso a ajuda especializada nesta profissão. E se temos estes números, também sabemos ler os sinais que nos são dados pela sociedade actual e, nomeadamente, pela Escola. A referência a valores como o do respeito pelo outro, o respeito pela diferença, por formas de autoridade (justificadas pelos diferentes papéis desempenhados dentro de uma instituição) deixou de ser um factor comum para muitas das pessoas que convivem no mesmo local. Assiste-se, diariamente, ao esvaziamento desses valores ainda que, por vezes, haja quem faça um esforço inglório para fazer compreender que esta ou aquela atitude não é correcta, que… Enfim, o lema actual é “sensibilizar”. Sensibilizar os jovens para a democracia, para a tolerância, para a cidadania… sensibilizar, sensibilizar, sensibilizar… E, enquanto isto, nada se exige ou, mais grave ainda, não se tem o direito de exigir o que quer que seja, correndo-se o risco de ser acusado de provocar traumas. Por conseguinte, temos uma sociedade composta por traumatizados, por agressores (que são sempre classificados como vítimas de alguma coisa ou de alguém mas que também nunca tiveram uma resposta adequada e eficaz, que lhes desse equilíbrio) e pelos outros, que também têm todo o direito de não quererem ser vítimas, mas para cima dos quais as instituições (que não têm respostas) atiram sempre o rótulo da culpa. Para mim, é nisto que consiste a hipocrisia. É ter que conviver diariamente com comportamentos incorrectos mas esbarrar num sem número de limitações à nossa acção que nos tornam cada vez mais impotentes. Desta forma, quem é que pode estranhar que os jovenzinhos de 10 ou de 12 anos agridam outro colega à nossa frente? Quem é que pode estranhar que a criança com 8, 9 anos, se recuse a acatar uma simples indicação de trabalho ou uma repreensão? E as penalizações previstas pela legislação surtem algum efeito dissuasor? E o espírito de civismo dos Portugueses está suficientemente desenvolvido para funcionar como um factor de inibição das incorrecções alheias?
E, entre a desculpabilização e a impunidade, vai-se assistindo a exemplos de uma violência desmedida, que fazem ultrapassar os limites do desespero, nos casos de suicídio, ou da mais perfeita barbárie, no caso do linchamento de um jovem por alguns populares.

Carlos Machado Acabado disse...

Curiosamente, ainda agora mesmo, enquanto jantava, ouvia José Gil chamar a atenção numa entrevista na SIC para uma coisa que há muito eu venho pensando---e pondo assumidamente em causa: o papel extremamente ambíguo, equívoco [para não dizer outra coisa...] de uma certa psicologia mais ou menos 'oficial', "da situação" cujo papel parece ser basicamente o de legitimar e dar cobertura aparentemente científica à des-ordem, ao des-ordenamento educacional e, por extensão, naturalmente social que aí se origina tal como este vai surgindo "espontaneamente" na sociedade.
Tal papel foi anteriormente o de uma certa psiquiatria 'sistémica' [ainda não há muito, traduzi uma peça de Joe Penhall sobre o gigantesco embuste político da socialização dos doentes mentais] contra a qual surgiram, com todos os seus excessos e desvios, Reich e Laing, por exemplo.
Exactamente para tentar arrancar a psiquiatria do seu confortável nicho legitimador do sistema repressional que [invertido embora nos nossos dias "pedocratas" e "infantocratas"] apenas mudou circunstancialmente a forma da repressão, de modo nenhum o seu conteúdo repressor e opressor.
Ao que parece, agora, a questão põe-se em termos de evitar que a psicologia, especialmente a pedopsicologia, ocupe, no plano estritamente educacional o papel disfuncional outrora "distribuído" à psiquiatria.
Basta ler a revista "Pública" ao Domingo para perceber como se deforma a opinião e a sociedade a partir do uso apócrifo, objectivamente político, no pior sentido da palavra, da Ciência para legitimar o que na verdade não passa de incivilidade e, muitas vezes, pura selvajaria.

Ava Santos disse...

Sou uma mãe de uma aluna do 6º ano, e o meu ponto de vista passa por um outro pormenor que é família. O que vejo em muitos dos colegas que sempre acompanharam a minha filha, parece-me que a educação foi dada à escola e aos professores em vez de começar em casa. Desde muito cedo que os miúdos não tem educação nem respeito pelos mais velhos nem pela instituição que é a escola. Não estou a falar das traquinices próprias da idade, da irreverência de qualquer criança, eu também já fui criança mas nunca mandei calar um professor nem ofendi uma pessoa mais velha.
Os pais dizem-se ocupados demais com a vida que não é fácil e acham que a escola tem por obrigação de educar os seus filhos, de substituir-los nesse papel. O que é completamente falso e impróprio.
E como se isso não bastasse, a escola hoje em dia, e ao meu ver, parece um depósito de crianças, que têm uma pesada carga horária entre aulas e actividades extra curriculares, que os reprime com um regime de falta injusto e que lhes vai criando uma pressão e desconforto para aqueles que de alguma forma sofrem nas mãos dos colegas, pois falasse muito nos casos de bulling extremos, mas o bulling tem outras formas mais suaves que magoam e abrem feridas que nem sempre são visíveis.
E com este sistema de educação, e a continuarmos a ter a falta de civismo que o nosso povo, de brandos costumes continua a ter e a meu ver até a piorar, não me parece, de forma nenhuma que teremos no futuro um Portugal melhor.

Um beijo Ava.

Carlos Machado Acabado disse...

Ava: por umas razão qualquer daquelas que só os computadores entendem, a resposta que dei ao seu 'post'... desapareceu, engolida por este "cavalheiro" que, pura e simplesmente, a "papou" sem me dar sequer uma explicação.
Mas como acho que as questões que levanta são de grande importância para um debate [que está, aliás, no fundo, integralmente todo por fazer] sobre a Educação em Portugal, vou redigir uma 'entrada' com a minha opinião sobre alguns aspectos que levanta e, depois, me dirá o que pensda, está bem?
Um beijinho e... daqui a bocadinho já cá está a 'entrada' em causa!

Gonçalo Eusébio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gonçalo Eusébio disse...

Ainda não tinha lido o comentário da Ava, é para lhe dizer que faço minhas as suas palavras.Portugal é o País da União Europeia em que os miúdos passam mais tempo na escola mas também é o país da suposta União que passa mais telenovelas por dia.O que é perigoso é quando os pais ou avós deixam os miúdos consumir doses industriais de "Morangos" que fazem muito mal à saúde...