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terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Gene Kelly"


Revendo recentemente no insubstituível ARTE um tributo a Stravinski e à sua colaboração com Diaguilev, designadamente no revolucionário "Pássaro de Fogo" [na versão do Marinski, com a coreografia original de Nijinski reconstituída a partir da documentação existente] tive ocasião de reavaliar o que já era, de resto, a minha própria enorme admiração pelo [nem sempre suficientemente valorizado] trabalho de Kelly, como bailarino e, num certo sentido, sobretudo, como coreógrafo.

Muito menos clássico ou, pelo menos, não tão canónico ou tão ortodoxo como Fred Astaire [a imediata referência---"the ultimate reference"...---da dança no cinema] Kelly foi, a meu ver, muito mais longe e, sobretudo, muito mais fundo na concepção de dança e da sua possível---questionadora e não-raro, abertamente subversora---relação com o real.

Há no cerne da sua visão da dança uma, por vezes, cáustica ironia e uma permanente inquietação [a angústia existencial e até, em mais de um sentido, ontológica...] magicamente sublimada em orgástica festividade, em ritual celebratório triunfalmente "primitivo"] que vêm, em meu entender, precisamente daqui, das rupturas introduzidas por Stravinski e Diaguilev/Nijinski na dança do século XX, tradição que Kelly "apanha" muito bem e que retransporta, com uma argúcia e uma inteligência visual, por vezes prodigiosamente triunfal e contagiante para a realidade pop do seu tempo.

... Que, todavia, o não acompanharia até ao fim tendo o seu "Hello, Dolly" marcado o término de uma carreira notabilíssima marcada por momentos absolutamente geniais e cinematograficamente definitivos de onde sobressaem, entre outros, as participações nos inesquecíveis "Singing in the Rain" [co-dirigdo com Stanley Donan] ou "An American in Paris", de Minelli, com Cole Porter 'a fazer de' Stravinski.

sábado, 20 de março de 2010

"Olga Roriz..."


... e a caleidoscópica aventura estética por ela teimosamente protagonizada, aqui, ainda uma vez, recordadas a partir de uma espécie de triste e ininterrupta efeméride, recentemente retomada no "Facebook", de onde a imagem que ilustra esta nota é extraída: a extinção do Ballet Gulbenkian de que se redivulga aqui um momento de "Seres Imaginários" pelo extinto Ballet Gulbenkian, com coreografia da Artista.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Fellini sobre essa ninfa 'insondável e absoluta, Pina Bausch' "


Fellini falando sobre o seu encontro com Pina Bausch nos dias que antecederam o início das filmagens de "E La Nave Va" [contado em Giovanni Grazzini em "Fellini por Fellini", trad. port. de Helder Pereira Rodrigues, ed. port. Publicações D. Quixote, Lisboa, 1985]:

Entre as [...] personagens que eu ainda não tinha encontrado , na véspera de começar os trabalhos, havia uma importantíssima, a princesa de uma corte austro-húngara, cega de nascença. Nem sequer eu sabia bem o que procurava, o que queria, que rosto, que actriz. Não tinha pontos de referência exactos para escolher uma princesa austro-húngara. Nunca tinha conhecido nenhuma. Mas eis que ali diante de mim, uma noite, no vaivém confuso e suado dos camarins do teatro Argentina, entre um esvoaçar de toalhas de rosto e de portas a abrir e a fechar, tímida, descomposta, diáfana, vestida de escuro, estava a minha princesa austríaca. Era Pina Bausch. Uma freira com gelado, uma santa em patins de rodas, um rosto de santa no exílio, de fundadora de uma ordem religiosa, de juiz de um tribunal metafísico que, de repente, nos pisca o olho... Com o seu rosto aristocrático, terno e cruel, misterioso e familiar, fechado numa enigmática imobilidade, Pina Bausch sorria-me para se dar a reconhecer. Que lindo rosto! Um daqueles rostos destinados a olharem para nós, gigantescos e conturbantes [sic] dos écrans do cinema.
[...]
[...] Eu nada sabia de Pina Bausch. Por outro lado, confesso os meus limites, eu nunca soube quase nada sobre tudo o que diz respeito a óperas e a ballets... [...] Tenho vergonha de o dizer, mas tenho dificuldade em ficar até ao fim.
O espectáculo de Pina Bausch vi-o do princípio ao fim e gostava que tivesse continuado ainda.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"Olga Roriz «revisitada»: se há perfeição, está aqui, prodigiosamente unida ao sentir!"


Quando me preparava já para 'fechar a loja' por hoje, deparei-me com estas duas soberbas imagens de Olga Roriz no "Facebook" que não resisti a incluir aqui...


Plasticamente perfeitas, sugerem, uma e outra, na sua ideal complementaridade, de forma poderosamente irresistível, esse estados de alma indefiníveis, etéreos e inconsúteis---essa sublime e contraditória suspensão absoluta do Tempo que emerge da Beleza em estado puro sendo impiedosamente cortada [ou talhada!] à nossa frente com a faca de luz do dorso ideal convulso [o dorso convulso do Ideal?]---o sangue augusto do êxtase... em êxtase---esse decidido e permanente cortejar da Morte com o grito mudo do corpo inteiro em chamas, a arder de luz e pura energia bruscamente libertada---essa ortografia magicamente vertical e intensa [a máquina explosiva da vontade e do desejo subindo agilmente pela forma sucessiva, obsessiva e rutilante, de ambos]---o território secreto, íntimo, da luz e dos gestos---dos gestos que nascem da visão líquida, superiormente determinada, do corpo humano "traduzido idealmente para movimento"; todo o arrebatamento e toda a translúcida, perfeita, estudada, ideal inquietaçãoda Beleza, enfim, gerada por essa sublime "ontologia sem palavras" e/ou "metafísica por imagens" que é a dança nas mãos---e no corpo---de "quem priva regularmente com os deuses" na linguagem primaveril e máxima dessa água inteligente e poderosa que é o sentir!...