domingo, 14 de março de 2010

"Definitivamente..."


... Não ao 'bullying' animal!!

Quem quer provar que é inteligente usa para tal outros padrões que não a inteligência dos animais!...


[Imagem extraída com vénia do lugar de Fora Assessins de Bous de Catalunya, no "Facebook"]

15 comentários:

Gonçalo Eusébio disse...

Infelizmente os dois (muito) lamentáveis casos recentes ocorridos em escolas apenas vêem confirmar o vazio total em que se encontra a nossa sociedade de alto a baixo.O Estado lava as mãos e tenta manter a todo o custo aquilo em que só os idiotas ainda acreditam: A ideia de que há Educação,Justiça,etc.

Ava Santos disse...

Definitivamente o Gonçalo Eusébio disse tudo! O país chegou a um ponto, que eu não sei do que será dele.
É desmoralizante ver no que se transformaram os sonhos de um passado não assim tão distante e inquieta-me não só como mãe, mas também como cidadã, qual o futuro que os nossos filhos encontraram pela frente neste Portugal à beira mar plantado.

Um beijo, Ava.

Gonçalo Eusébio disse...

Se existe uma ERC em Portugal como é possível que à luz do dia ou da noite se transmitam em sinal aberto programas obscenos como "Morangos com Acúcar","Lua Vermelha" ou Wrestling, uma coisa muito americana que representa bem um certo espírito rural e belicista,da América que foi alegremente para o Vietname e continua a ir para o Afeganistão mas que sendo transmitido em Portugal pode ter um efeito perverso retirando-se do contexto?
O que há ali de didáctico,de educativo?

Carlos Machado Acabado disse...

Lava as mãos o Estado, lava as mãos a direcção da escola, lava as mãos o resto do corpo docente, lavam as mãos os pais, tudo lava as mãos e o resultado é este!
Quem é fraco ou tenta remar contra a maré é engolido, quem é esperto aprende a adaptar-se.
Só que...
Só que adaptar-se ao que existe é perpetuar os erros e é por isso que estamos onde---e como---estamos.
E é pena porque que sofre é o País que se vai continuamente afastando do resto da Europa: da "Europa-com-aspas" e da Europa a sério...
Meu caro: cabe, acima de tudo, à SUA geração lutar para que tudo mude.
A minha... já deu o que tinha a dar e além disso quem a ouve?...

Gonçalo Eusébio disse...

Estes acontecimentos principalmente o do Leandro,fazem-me lembrar a revolta que senti quando andava na escola porque tal como todos os que lá andaram também sofri na pele de certo modo.Quando haviam aqueles alunos os chamados "problemáticos" ou de famílias carenciadas ou que eram logo rotulados pelos órgãos da escola pelo sítio de onde vinham, esses alunos eram sistematicamente desculpados pelos funcionários e alunos como eu que não sendo um aluno excepcional era um aluno acima da média e que me esforçava não tinham tanto essa tolerância.Mesmo nos casos de violência haviam alunos que eram muito mais (ou quase sempre) desculpados.Era muito mais fácil expulsar um aluno que não fosse do tal grupo de risco do que algum dos outros.Haviam sanções mas não eram aplicadas de igual modo.O problema é que muitos desses alunos agora já são pais e não são responsáveis pela educação dos filhos ou pelo menos alguém lhes fez sentir durante o crescimento de que eles não eram responsáveis.Por isso é que muitos pais querem que os filhos estejam na escola o maior número de tempo possível porque não teem capacidade para os educar.Quanto mais tempo os miúdos não incomodarem os paizinhos melhor.E esta situação vai ter (já tem) consequências desastrosas num futuro próximo.O caso do leandro foi um desses casos não há que estar com meias tintas, os pais e a escola não assumiram as responsabilidades.Este país vive nisto,ninguém é responsável de nada.

Gonçalo Eusébio disse...

Eu assumo as responsabilidades do que eu faço não tenha dúvidas disso, não sei se a minha geração ou a sua as assumirá cada um que fale por si.

Carlos Machado Acabado disse...

Pois o problema das "tê-vê-ices" e coisas semelhantes é uma... pescadinha de rabo na boca: se não há, as pessoas exiigem, e se exigem... há!
Quais são as publicações que se vendem?
Os canais de televisão que lideram?
Os livros que [apesar de tudo!] ainda se lêem ou, pelo menos, compram?
E isso acontece por acaso?
Alguém é obrigado a ver aqueles mamarrachos inomináveis da TVI ou da SIC?
Não!
Desgraçadamente, Portugal é MESMO "aquilo" e é por isso que temos os políticos que temos e a sociedade que temos.
Que mete medo à Ava que é Mãe e Cidadã e ao Eusébio que, sendo jovem, tem opiniões, tem um ponto de vista sobre a realidade que o rodeia.
Mas infelizmente a sociedade não é toda feita de Avas e Gonçalos Eusébios e são precisamente esses outros que o não são mas que são a maioria quem elege os medíocres e os incompetentes [para não dizer outra coisa pior ainda...] e os vai trocando entre si, agora este, depois aquele e, a seguir, volta ao princípio...
E quem se insurge é um "chato" e as pessoas acabam por se cansar e baixar os braços e tudo continua como era e...
...e Portugal está como está: sem futuro ou com um futuro que, às vezes, mais valia sei lá o quê!...
E, depois, ficamos todos muito admirados se os professores e os alunos se suicidam e quem pode foge, como o Saramago...

Carlos Machado Acabado disse...

Eu sobre a responsabilidade que cabe a cada um, não tenho dúvidas nem deixo de ter!
Não me compete a mim tê-las nem sou juíz das responsabilidades de cada um, entendamo-nos, de uma vez!
Não sou Deus nem quero ser!
Tenho, obviamente, uma opinião sobre o conjunto da sociedade portuguesa mas relativamente a cada um que cada um assuma as que lhe competem: se age bem, tanto melhor!
Agora, há, de facto, globalmente, uma sensação de "ausência de movimento na História", de imponderabilidade histórica que arrepia!
E aquilo de os alunos serem tratados com pinças, isso é verdade!
Imolam-se, por vezes, de um modo ou de outro e das mais diversas maneiras, os fracos porque dá menos trabalho, menos problemas e ainda tem a vantagem adicional de simular para o exterior uma eficácia que, de facto, não existe
Eu tive conhecimento directo de casos desses, de alunos que faltavam sistematicamente e cujas faltas eram sistematicamente justificadas [ou ignoradas pura e simplesmente] porque "coitados, têm problemas em casa, o pai é alcoólico e a mãe outra coisa qualquer" numa turma onde um desgraçado faltava uma semana por estar doente e era um cão-e-um- furão para lhe justificarem as faltas.
Ou, no primeiro caso, "desapareciam" pura e simplesmente e, no segundo, enchiam as pautas de vermelho, tranasmitindo para o exterior a ideia de que o "aluno-problema" afinal era um exemplo e o desgraçado do outro, um faltista danado...
E este era um exemplo menor porque às vezes até as classificações reflectiam injustiças terríveis porque o mau aluno tinha conseguido um "cinco" e, no caso dele, já "revelava progressos assinaláveis" enquanto que o outro aluno "de treze", se tinha o azar de atravessar um período menos bom, era penalizado, os pais [que ATÉ VINHAM À ESCOLA...] chamados e havia, muitas vezes "mosquitos por cordas".
O "sistema" funciona assim, não há psicólogos escolares no edifício institucional, cada professor faz "como lhe parece": eu tive um aluno que não fazia rigorosamente nada, faltava que se fartava mas, porque "os pais eram divorciados" nem faltas tinha e quanto a testes só ia se lhe apetecia.
Claro que os outros alunos queixavam-se e com razão de que se faltavam eram penalizados e acusados de faltar por medo enquanto que ao F. se faziam testes especiais sempre que se lembrava de faltar.
Eu já andava pelos cabelos com aquilo e, um dia, em que o moço faltou a um teste e me apareceu no dia seguinte, perguntando-me com o ar mais trocista deste mundo quando eu é que lhe fazia o teste dele, houve chatice: eu disse-lhe que, pura e simplesmente, não estava para lhe fazer mais um teste especial para ele e o rapaz ameaçou-me que se ia queixar à directora de turma.
Eu nem hesitei: disse logo à colega que testes especiais nunca mais e que ia exigir em reunião que todas as faltas do moço passassem a ficar averbadas e que quem assumisse a responsabiluidade de justificá-las fosse identificado e obrigado a explicitar os critérios.
Fui chamado de "mau" mas a verdade é que a rebaldaria acabou e o moço não teve mais remédio senão trabalhar e a sério se quis passar...
Felizmente o conselho directivo tinha colegas que não se amedrontaram nem cederam a chantagens e o moço até passou a acabaram-se as injustiças...
Mas, de facto, a regra geral é outra...

Gonçalo Eusébio disse...

Caro Carlos Acabado,enfiei a carapuça. Porque é que a minha geração tem de se responsabilizar por fazer com que as coisas mudem se as anteriores não o fizeram? Os nossos políticos são da minha geração, têem 30 anos? Não ouviram a sua como não ouvem a minha e muito menos ouvirão as que se irão seguir. E sabe porquê? Porque as melhores "cabeças" da minha geração já saíram daqui há muito e as outras farão o mesmo.

Ezul disse...

E, já agora, que se faça também referência às benditas provas de recuperação, que apenas serviram para atirar mais uma boa dose de burocracia para cima dos professores e que penalizaram os alunos que faltaram justificadamente. Sim, apenas penalizou quem não merecia porque os que faltaram descaradamente às aulas, com a conivência dos pais, ou com a demissão destes, o que vai dar no mesmo, continuaram a faltar. Quando não faltavam às próprias provas de recuperação, apareciam para as fazer mas com um ar trocista de quem se está a borrifar para aquilo tudo e sem levar sequer uma esferográfica.
É bom que se diga que, se há professores que cedem perante certas situações, é porque também são forçados a isso. Afinal de contas, quem é que não se ressente de pressões das hierarquias, sejam as que existem no local onde se trabalha, sejam as de outros organismos superiores, que a toda a hora arranjam formas de controlar, inventando questionários, formulários, preenchimento de estatísticas, organização de painéis, etc,etc,etc (já para não referir a maquiavélica teia da tão falada avaliação de desempenho). Ah, então e os designados "encarregados" da "educação" (que não se tem e que não se dá, em muitos casos)de muitos dos alunos com falta de aproveitamento, que correm a exigir trabalhos mais fáceis, a reclamar da exigência dos professores (imagine-se que até se chega a dizer que um professor de Língua Portuguesa é exigente porque corrige os erros ortográficos...), da marcação de testes, da quantidade de assuntos que têm de ser estudados e de mil uma coisa que não lembra ao diabo.
Pedem ao professores que façam o pino em situações em que o aluno não quer, simplesmente, estudar; em situações em que o aluno não leva o livro, em que deita fora as fichas de trabalho, em que não traz os materiais, em que não faz a tarefa indicada, em que não adquire conhecimentos porque não ouve, não lê, não faz um exercício, não estuda! E o que é que se pede, o que é que se exige ao professor? Que justifique, muito bem justificado, por que razão o aluno não sabe rigorosamente nada! Então, senhor professor, não fez joguinhos para motivar o aluno? Então, senhor professor, a matéria não pode ser colorida, e divertida, e leve, e apelativa? Faça-a parecer um jogo de computador que assim ela marcha mais facilmente!
Ora bolas! Será que neste país há alguém que conheça o significado da palavra esforço e trabalho? Nem tudo é divertido, nem tudo é fácil!!! Pois bem, se há professores que são levados na onda é porque também os obrigam a isso e porque não querem ir também parar ao Tejo!

Carlos Machado Acabado disse...

Caro Eusébio, eu poderia responder à questão que formula dizendo: cabe à sua EXACTAMENTE POR ISSO: porque a minha e as outras anteriores nada fizeram e se a sua não quer ver-se acusada de uma inércia idêntica, tem, de ser ela a fazer o que as outras não fizeram ...
Seria UMA maneira de responder.
Outra seria: o que está aqui em causa não é um tira-teimas entre gerações porque o adversário de cada uma delas não são as que a rodeiam temporalmente mas os males da História comum de todas elas---o que projecta qualquer 'luta' para fora do estr[e]ito âmbito dos conflitos generacionais.
Ora, sucede que esta é a resposta que prefiro porque me parece também a mais construtiva.
Aliás, há uma terceira que seria: "Mas a minha geração até fez: esteve [seria de mais dizer: "fez"]; mas esteve activamente---esteve até, se quiser, romanticamente---no "laboratório social e político" que foi o período entre Abril '74 e Novembro '75 e já antes tinha estado, por exemplo, na diáspora contribuindo para a mudança que Abril de '74 PODERIA ter trazido ao País.
O que eu acho é o seguinte: se cada uma das gerações que cada época comporta em simultâneo se dispuser humildemente a aceitar a colaboração das outras no debate sobre cada uma das questões que todas elas entendem ser aquelas sobre as quais devem incidir as alterações de carácter social, político, cultural, etc., então, TALVEZ Portugal ainda "seja possível", como dizia 'o outro'---um outro qualquer que até podia ser este...
Este que agora escreve, entenda-se!
Não podemos impedir que alguns "cérebros" se "evadam" mas podemos manter a lucidez e a humildade intelectual e, juntando as duas, avançar ideias, construir modelos críticos de desenvolvimento, propor soluções concretas para o que consideramos serem os problemas do País.
Nos partidos?
Nos partidos e fora deles.
Eu vivi muito activa e, como digo, muito romanticamente a vida partidária até há cinco/seis anos mas hoje, confesso e não tenho qualquer reserva em fazê-lo, estou francamente mais perto de uma visão organizativa mais de base, mais coperativa até do que rigidamente partidária.
Eu acredito sinceramente nas virtualidades da organização cooperativa: de habitação, de consumo, até de serviços.
Sou sócio de várias, tenho uma casa de cooperativa.
Concordo com a visão de António Sérgio nesta matéria.
Mas sabe uma coisa?
Eu caí uma vez na asneira de me deixar eleger para uma junta de freguesia da cidade onde vivo que é uma cidade média, com uma estrutura urbana ainda razoavelmente orgânica.
Ultimamente, porém, começou a crescer e a perder essa estrutura orgânica: começou a deixar que se formassem embriões de futuros dormitórios suburbanos, marginais que, ao que tudo indica, acabarão por levar à desintegração final da identidade urbana da cidade.
Pois na Junta de freguesia propus que se começasse já a atacar essa tendência dispersiva obrigando à construção estratégica de equipamentos de fixação [sobretudo, cultural] da população assim como de sociabilização: um pequeno clube equipado com uma salinha de convívio, espectáculos, biblioteca, etc.
E sabe o que me responderam alguns com o ar mais natural deste mundo?
"Pois, é engraçada a ideia mas... e como é que vamos convencer as pessoas das moradias a conviverem num mesmo espaço com as do bairro da cooperativa?..."
Quando este entendimento 'tribal' da vida colectiva está já entranhado, de algum modo, na própria visão oficial que fazer?...
Desistir, não, claro mas que é um trabalho duro e complexo, ah! Isso, com certeza e, como dizia [outra vez...] 'o outro', todos não seremos de mais se queremos que ele dê frutos...

Carlos Machado Acabado disse...

Bom isso que diz, no fim, Ezul é o verdadeiro cancro do ensino em Portugal!
Há anos que assim é!
Eu nunca me esqueço da angústia de um grupo de professoras de Matemática de uma escola que não vale a pena identificar [seria desnecessariamente cruel e até injusto porque as pessoas são sempre as vítimas de um processo que cada vez mais as engole e obriga a auto-deformarem-se para acompanharem o ritmo de uma coisa que se encontra ela própria toda deformada]; mas, dizia, eu, recordo-me sempre da angústia das colegas em causa que, na sala dos professores, discutiam o planeamento de várias unidades lectivas da matéria que tinham de dar.
E dizia uma delas: "Mas como é que nós vamos dar este ponto da matéria se disto é virtualmente impossível fazer um jogo, uma actividade lúdica, algo que [e lá vinha o chavão horroroso da praxe!] algo «que motive»?
E respondia outra: "Podemos dar essa parte mais depressa, mais "a correr" e depois «encaixar» aí a outra parte da matéria com a qual já se podem fazer jogos!"
Isto é tão verdade como no meu ano de estágio andarmos a inventar joguinhos para dar o mais pequeno ponto da matéria; joguinhos de chacha, alguns de uma imbecilidade embaraçosa [e valha a verdade que tentámos sempre evitar que o nível daquiolo baixasse até à miséria pura e simples]; joguinhos que nada ensinavam, muitas vezes, que tivesse a mínima utilidade efectiva mas, antes das aulas, íamos juntos dos alunos e explicávamos cuidadosamente aquilo que, dias depois, em aulas assistidas, ia ser dado... pela primeira vez e com um sucesso estrondoso, nas aulas assistidas!
Nenhum de nós estagiários [volto a dizer: honra nos seja feita!] fazia "aquilo" por convicção e com convicção assim como nenhum de nós se orgulhou e orgulha ainda hoje de ter sido forçado a embarcar naquela autêntica burla que era, de resto, um verdadeiro 'segredo de polichinelo', dentro e fora da escola...
Mas se algum de nós tinha a infelizs ideia de tentar argumentar [e eu, que gosto francamente pouco de brincar com coisas sérias cheguei a estar praticamente incompatibilizado com a orientação do estágio por manifestar abertamente a minha discordância com muito do que lá se passava em matéria pedagógica e didáctica] a resposta invariável era: "Quando os senhores forem efectivos, farão como entenderem mas agora as normas são estas..."
Eu que, confesso, não sou exactamente bom de assoar quando me tentam mater os dedos pelos olhos, cheguei a dizer nas aulas assistidfas: "O que vamos fazer a seguir é uma coisa com a qual estou em total desacordo mas tenho instruções formais para fazê-lo e, por isso, rapaziada, vamos a isto que, quanto mais depressa eu despachar o encargo, mais depressa começo a aula..."

Carlos Machado Acabado disse...

[cont.]
Eu efectivei-me com uma nota que até nem foi má de todo mas fui claramente penalizado pela minha recusa a "engolir" todos os sapos que, a meu ver, degradavam o meu trabalho e eu não admitia engoli-los sem que se percebesse perfeitamente que eu estava exactamente a engoli-los---e por quê.
Porque há, de facto, uma puerocracia instalada para a qual se tenta até achar expressão científica e técnica com a caricatura da ideias como a de motivação identificada com a de "entretenimento" puro e simples.
Eu sempre achei que mal do aluno que precisa que lhe expliquem tim-tim-por-tim-tim por que razão anda ali.
Mal do aluno que não percebe por que razão vai à escola.
E mal do professor que tem de explicar-lho dia após dia.
Quando dei aulas numa outra escola, todas as semanas recebia queixas sobre um colega de História que, dizia-me a delegada da turma [do 10º ano], "não motivava os alunos".
Eu já estava pelos cabelos com aquela conversa e, um dia, quando a moça me veio pela 'enésima' vez fazer queixinhas do colega, fingindo ostensivamente estar distraído, perguntei-lhe que fumo era aquele que se via à distância [de onde nós estávamos via-se a chaminé de uma fábrica vizinha que era o grande polo de fixação dos quadros formados na escola] pelo que, às tantas, com aquela petulância própria de uma certa juventude, a moça me chamou a atenção: "Oh! Professor! Eu estou aqui a falar-lhe de um assunto sério e o professor a perguntar-me pelo fumo! Com franqueza!..."
Era o que eu queria ouvir.
A partir dali ferrei-lhe uma descasca que ela nunca mais me veio chatear com aquilo.
Disse-lhe: "Sabe! É que eu também lhe estou a falar de um assunto muito sério.
E até mais sério para si do que para mim.
É que a S. fala-me de motivação mas engana-se no sítio onde ela deve, no seu caso, estar.
No seu caso e no da turma é ALI naquele fumo que ela deve estar. No emprego que aquele fumo identifica, que ele referencia e sinaliza.
Emprego que só se consegue se vocês aqui tiverem sucesso.
Por isso, a medida da V. motivação está ali, no emprego, não aqui, na diversão ou não que as aulas proporcionam.
Daqui em diante, quando se sentirem desmotivados, olhem pela janela, pensem um bocadinho no que eu acabo de dizer e, se pensarem bem, vão ver que a motivação aparece logo!..."
Porque, de facto, quem reduz a motivação ao mero consumo de sensações de 'usar e deitar fora' [e o próprio sistema, na prática, é isso que faz, como nós bem sabemos!] está, como dizem os moços "a ver o filme todo ao contrário".
E o pior é que geralmente até está!
Mais: é encorajado a vê-lo assim, que ainda é mais grave!

João Soares disse...

A polítik é isso mesmo que quer: cidadãos assoberbados de trabalho, invadidos de burocracia,cansando-nos e levando-nos a ausência de massa crítica...ou lançados na precariedade e adormecidos com telelixo.
A crise principal é a crise política.
Carlos, não sei se sabias, mas o teu blogue tb está no meu Dossiê Educação.
Um forte abraço

Carlos Machado Acabado disse...

Não sabia, João, mas agradeço, sensibilizado, a tua generosidade.
Infelizmente, tudo "isto", esta nossa "aventura virtual" diária, me parece uma espécie de longo monólogo partilhado por dois ou três Amigos... 'diferentes' [entre os quais tu próprio] do que o embrião do grande [e urgente!] debate colectivo sobre nós próprios como sociedade e como país que eu muito romanticamente sonhei que pudesse, um dia, ser...
No fundo, é possível---e legítimo---dizer que a utopia se mudou para aqui e que gente "vai lá dentro" sempre na fagueira esperança de que o inestimável e paciente labor de esclarecimento e a incansável intervenção cultural e cívica dos Joões Soares, das "Ezuis", das Avas e de mais umas quantas vozes que se obstinam em ir, apesar de tudo, clamando incansável e incessantemente no deserto, faça que um milagre possa, afinal, acontecer um dia destes, como pareceu, ainda não há muito, ir acontecer...

Um grande abraço para ti e... "força na Bio", ham?!
Afinal de contas, enquanto há Vida, há esperança, não é verdade?!...