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quarta-feira, 11 de abril de 2012


Divertem-me
francamente, tenho de confessar, as profundas lucubrações de um mandarinato de eruditíssimos
“socialistólogos” como recentemente
fez Alfredo Barroso numa obra acabada de publicar no sentido tentar explicar a
óbvia e generalizada perda de credibilidade dos partidos a que [por uma razão qualquer
que tenho de reconhecer me escapa] teimam em designar por “socialistas”.
Tão
estimulante exegese só encontra, diria eu, paralelo na profusão de “europólogos” cuja actividade exegética
se centra na complexa “explicação”… teórica dos motivos que conduziram uma
verdadeira aberração democrática como a tal “Europa” tivesse ela própria caído miseravelmente
em desgraça a ponto de se ter transformado numa espécie de “disaster área” ou território
contaminado—económica, social e politicamente contaminado—de cuja infecção, se
fosse tumor, se pode dizer que metastatiza paulatinamente de país para país, um
pouco mais a cada novo dia.
A
verdade é que o descredito dos “pê-ésses” por esse Ocidente fora tem origem na
atmosfera mental e política que se gerou nesse mesmo Ocidente após a queda do
muro de Berlim e que levou alguns cérebros
iluminados a decretar o famoso “fim da História” que todos conhecemos defendido
pelo reaganiano Francis Fukuyama.
No
contexto dessa atmosfera de “fim” que além do mais era não sô “fim” mas
cumulativamente “natural”, às forças políticas “sobreviventes” da debâcle
comunista apenas restaria gerir um universo [politico, económico e social].
Tudo
se resumiria, segundo os analistas, “independentes” ou partidários, em geri-lo “à
direita”, isto é, como se a frustre experiência comunista institucional nunca
tivesse existido ou, em alternativa, supostamente “à esquerda”, ou seja,
visando alcançar exactamente os mesmos propósitos da direita mas de forma circunstancial
ou aparentemente “humanizada” “soft”.
Deste
imenso embuste que levou conhecidas “borboletas políticas” como Freitas do Amaral
a decretar o fim, não já da História como o já citado Fukuyama, mas da
fronteira entre esquerda e direita; foi,
pois, dizia, deste imenso embuste que emergiram não apenas o tenebroso e inefável
Blair ou, entre nós, o dificilmente qualificável e ainda muito “fresco” Sócrates
mas, de igual modo, já antes, desde os “arqueológicos” tempos da divisionista
CEUD, o conhecido nacional-populista Soares que à míngua de uma ideologia
definida, uma característica distintiva desta gente que surgiu na História como
a “esquerda da direita”, era, segundo o próprio e nas suas palavras, à falta de
melhor e mais substantivo, ”fixe”…
O
que eu quero muito claramente afirmar é que não são outras razões senão o
oportunismo e a venalidade dos pê-ésses por esse mundo fora [desde as “trapalhadas”
de um tal Bernstein, que nos idos de 20 e 30 com a sua tão sórdida quanto
desastrada colaboração com o grande capital financeiro germânico, abriu as
portas ao ascenso de Hitler ao poder que permitem explicar por que motivo os
diversos eleitorados europeus, fartos da cópia ou genérico [a falsa esquerda] optaram
por dar o seu apoio ao incomparavelmente mais transparente produto de marca [a
direita pura e dura].
Curiosamente,
é o próprio Soares quem, por mais de uma vez aponta a Blair e à sua mais do que
fraudulenta terceira via um dedo que ao próprio Soares e ao seu “projecto” que começou por ser “de inspiração marxista” para acabar “de centro esquerda” [seja lá o que for que isso signifique—ou não…] deveria em bom rigorser apontado na descredibilização generalizada da esquerda à qual nem Soares nem Blair ou Sócrates alguma vez pertenceram

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre o analfabetismo tecnológico nos dias de hoje" [Texto em construção/Incompl.]

Há muito que defendo a ideia de que um dos maiores e mais graves problemas do nosso tempo derivaa de forma a que chamaria verdadeiramente primária do desencontro verificado entre a quantidade [e o tipo!...] de tecnologia presente no dia-a-dia e a desproporcional ignorância das pessoas em geral.
Não é só como professor que me permito afirmar que a Educação e a cultura deixaram, com a evolução tecnológica generalizada no mundo ocidental de hoje, de ser um direito para passarem cada vez mais a constituir um dever das sociedades modernas e pós-modernas e muito especificamente daqueles a quem compete governá-las...
Caracterizadas todas essas sociedades precisamente por não serem "sociedades do conhecimento" no sentido preciso de este não ter [longe disso, como veremos] passado a representar [como seria desejável e necessário que acontecesse para que pudessem ser legitimamente assim designadas...] um alicerce ou fundamento natural dos próprios paradigmas tópicos de existência ou de existencialidade vigentes nas referidas sociedades, tendo em vez disso ocorrido que o conhecimento de que falamos, contaminado pelo funcionamento típico das formas de organização e exploração da realidade características do capitalismo se converteu, de forma aliás facilmente previsível e até inevitável, num capital ou pré- [ou proto-] capital, i.e. numa matéria-prima essencial no processo de re/produção de capital...
Daí resultando que, tendo, como digo, a integração histórica e, mais do que simplesmente histórica: civilizacional do conhecimento sido inevitavelmente operada nos moldes capitalistas, ter-se a propriedade dos respectivos «meios de re/produção» convertido de forma não menos inevitável e até, a seu modo, natural em propriedade privada, ou seja, num tipo de propriedade tão ferozmente privada como o próprio capital que o conhecimento é topicamente usado para re/produzir de forma contínua.
Na realidade, do conhecimento que continua a afirmar-se ser a chave das sociedades ditas tecnológicas modernas [ou «neo-modernas»] apenas chegam ao conjunto da sociedade os respectivos «produtos» inertes [isto é incapazes de gerar por si só mais saber e, portanto capital].
Quem pode [até porque há "leis" muito precisas nesse sentido político de impedi-lo! Há todo um edifício jurídico, de facto, todo um Direito] quem pode, dizia, produzir capital, desviando todo o processo dos pontos para onde ele é sistemicamente feito convergir, com recurso à propriedade de um simples telemóvel ou televisor?
Na realidade, ninguém está em condições de fazê-lo à excepção dos que, possuindo o capital, adquiriram não apenas os respectivos direitos [o direito e o Direito!]; mas a propriedade exclusiva dos meios de produção do saber.
Nas sociedades ditas comummente tecnológicas, é, pois exacto e legítimo afirmar que os produtos da tecnologia são, para todos os efeitos, usados para separar políticamente os cidadãos da própria tecnologia: são um preço, e, em termos especificamente marxistas, de alguma forma facilomente demonstrável, a sua própria mais-valia.
A mais-valia gerada a partir da propriedade política [não da propriedade social, devidamente socializada!] dos meios de produção de conhecimento e, por conseguinte de mais capital.
De tudo isto resulta, a meu ver, que, a agnosia, o não-saber representa, por seu turno, uma matéria-prima essencial no processo de produção de capital, mediado pela propriedade privada dos meios de produção de conhecimento.
É, com efeito, um mito insistentemente repetido por parte dos advogados do capitalismo esse que pretende que o mesmo capitalismo e, de um modo específico o empreendedorismo privado, esse verdadeiro deus ou fetiche neo-moderno nas sociedades do Ocidente de hoje, "gera riqueza".
Gerá-la-á admissivelmente mas de forma autónoma [alienada!] relativamente à 'bondade social' da correspondente redistribuição pelo conjunto da sociedade em que se insere mas tendo sempre cumulativamente de recorrer para o efeito de gerar a tal riqueza de que gostam de falar os seus propugnadores ao "plantar" exaustivo e [as]sistémico doses maciças do que chamo «carencialidade possibilitante» ou mesmo num certo [demonstrável] sentido, «estratégica» por toda a sociedade onde vão circular os produtos do conhecimento, os quais à face da lógica profundamente disfuncional do próprio capitalismo, retiram o seu "valor" precisamente da respectiva raridade, preexistente o criada para o efeito.
um à sociedade
-se

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Que Vergonha Não Sermos Todos Gregos!..."








Há muito que venho defendendo a ideia de uma necessária especificidade estrutural dos partidos da Esquerda.
Não que eu faça como certos "comentadores" encartados que por aí para nosso mal [e dos nossos neurónios] pululam a categoriação das forças partidárias entre os partidos "de poder" e "os outros".
De poder são-no o P.C.P. e o Bloco que são poder democraticamente eleito num grande número de municípios e juntas de freguesia.
Não é portanto disso que se trata mas de defender que o grande problema da Esquerda em Portugal é o de ela ter aoparentemente aceite ser uma bas bandas do casaco de um sistema económico-político intolerável que, sob a pressão e a "Inspiração" [ou com o pretexto] da "europeização" dos diversos países da verdadeira Europa.
Ou seja: o de terem eles aceite encaixar-se assumidamente no sistema em lugar de, como até aqui preconizavam, seguindo correctamente os ditames do marxismo, trabalharem para transformá-lo.
E se o Bloco tem a alibi ou a desculpa de ter reconhecida e assumidamente apagado por completo o passado revolucionário, pondo a zero o respectivo conta-quilómetros ideológico, pelo qual se norteavam, a U.D.P. maoísta e o P.S.R. trotskista, tendo sido gerado precisa ou imprecisamente a partir desse dificilmente explicável quasi-edipiano gesto fundador, já o P.C.P. persistindo em auto qualificar-se de marxista e até leninista tem, a meu ver, muito a explicar nestas matérias envolvendo a respectiva integração formal no sistema.
Pessoalmente, sempre defendi que o papel dos partridos de Esquerda [nos quais não incluo por razões política e intelectual ou até moralmente óbvias, o repulsivo P.S. de Soares a Sócrates, in/digno herdeiro dessa miserável social-democraxcia que, nos anos '20 do século passado, na Alemanha, levou, com as trágicas consequências que se conhecem, Hitler "ao colo" até ao poder.]
Hoje, no caso português, é o neo-corporativismo caviar da ultra-direita de Passos, Portas e do tenebroso Cagão Fálix que encontra por generosidade de Sócrates e Cª limitada a poperta aberta para o poder, num momento em que tem as costas protegidas pelo espectro da crise que a ndranghette pê-ésse importou ou nacionalizou e que fornece ao canibalismo económico e social da direita o ensejo e a justificação para as malfeitorias que finalmente surgiram à luz do dia...
Ora, neste contexto, o que menos devia interessar à Esquerda [e daí a minha discordância de fundo com os que, como Daniel de Oliveira apontam o dedo à direcção do B.E. por ter falhado no caminho da conquista do poder nacional] seria gerir a ]seja-me permitido o vernáculo] porcaria cozinhada a meias pelo capitalismo global e pela escória técnico-política que com ela lidou no plano nacional, nestes últimos decénios.
Ora, neste contexto, o que menos devia interessar à Esquerda [e daí a minha discordância de fundo com os que, como Daniel de Oliveira apontam o dedo à direcção do B.E. por ter falhado no caminho da conquista do poder nacional] seria gerir a ]seja-me permitido o vernáculo] porcaria cozinhada a meias pelo capitalismo global e pela escória técnico-política que com ela lidou no plano nacional, nestes últimos decénios.
São conhecidas as consequências da cumplicidade em tempos estabelecida e institucionalizada entre Comunistas e pê-ésses franceses, no âmbito de um malfadado "Programa comum" de governo chefiado pelo inefável Mitrã do "outro": a criação ulterior de condições para a extinção a prazo do próprio P.C.F., um partido que no "maquis" tinha ganho direito a um respeito político que se julgaria insusceptível de poder desaparecer. Sobretudo, do modo inglório como o foi.
Ora, tal como a vejo a missão histórica da Esquerda não é hoje-por-hoje, na Europa, a de ganhar berlindes, cromos ou caricas à direita, como pretendem os adeptos da ideia de imolar a liderança do Bloco por não tê-lo conseguido levando a própria Esquerda ou parte relevante dela a encaixar-se [oui enquistar-se?] ulteriormente no próprio sistema.
A missão da Esquerda é hoje a de patrocinar a emergência de uma consciência política inexistente em Portugal, ao contrário do que acontece, por exemplo, na Grécia.




Em caso algum, o Partido Comunista deveria, a meu ver, ter abandonado a ideia [e o projecto!] de uma escola política que foi sua durante decénios e de que resultou, afinal, em larga medida, o seu triunfo em diversos pontos do globo; um projecto que assentava nas conhecidas 'células' [de empresa mas agora, também de cidadãos], células essas onde se dava da realidade uma visão teórica que não só não era a do poder como era, na realidade, a oposta a essa.




Não creio, com efeito, que a selvajaria económica, social e política instalada necessite para equuiolibrá-la de uma selvajaria "de esquerda": acredito convictamente que ela precisa, sim, de uma verdadeira e generalizada oposição por parte daqueles sobre os quais ela incide.

Não creio, por isso, que entrar no sistema, como manifestamente sucedeu com os partidos nacionais dessa área seja a via correcta para a actuação certa da Esquerda nos nossos dias!




Como acontece na Grécia, por exemplo.






Choca-me a ideia de um "Esquerda instrumental", operando continuamente para viabilizar, tornando-a tendencialmente habitável em termos económicos, sociais e políticos, uma direita intratável e canibalística, insusceptível de com ela se conviver institucionalmente sem se ser por ela devorado.






Como tudo leva a crer vá muito brevemente suceder em Portugal, hoje.






Eu acredito que com a espantosa quantidade de gente brilhante que possui na reaspectiva liderança, o Bloco de Esquerda mesmo sem possuir da realidade uma visão orgânica, está especialmente vocacionado para essa tarefa de consciencialização popular que é hoje, em meu entender a verdadeira vocação da Esquerda de um sistema sem esquerda e sem possibilidade de possuir uma que não seja necessariamente sua cúmplice e seu instrumento possibilitante.






Penso que o ideal seria que se criassem entre nós condições de conscialidade política que permitissem à sociedade portuguesa replicar em Lisboa, no Porto ou nas restantes cidades e vilas do território nacional uma Atenas que foi, como é sabido e como ainda há pouco lembrava um dos piores inimigos da Democracia, precisamente a pátria desta.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011


Estou a pensar nos neo-"revolucionários" do CDS do PSD e do PS que, depois de terem feito o que puderam para sabotar a sua própria Revolução, se esganiçam, agora, a aopoiar o que entendem ser as das outros. Contra os poderes opressores que ajudaraqm a eternizar-se no poder. Leia-se o "Monde" de 18 de Fevereiro no aetigo "Les Liasons dangereuses entre la France et la Tunisie de Ben Ali". Aí se fala das negociatas entre a família da ministra do trabalho francesa e o autocrata recentemente deposto com o apoio do chamado "Ocidente". Uma desvergonha e uma hipocrisia que agora ameaça fornecer um ensejo para que a Grécia volte a pegar fogo.

Não-hão-de faltar quando o dominó começar a cair peça a peça os guinchinhos histéricos de acusação aos comunistas e aos "militantes anti-globalização" que têm, nestas coisas, como se sabe, as costas bem largas. Acho divertido que quantos internamente apontam o dedo à moção de censura ao governo, acusando-a abrir a porta a um governo de duireita radical dando de barato que é ele que vai surgir sobre os despojos de um dos económica, social e politicamente mais desprezíveis governos que o País já conheceu [e conheceu vários de Salazar e Caetano a Cavaco!]; acho imensamente divertido, dizia, que essa gente apoie hoje as revoltas que surgiram na esteira da tunisina e abra assim, senão a porta, ao menos a ja nela a um poder islamita radical quando não a um contra-ataque diplomático-militar restauracionista norte-americano-judaico com o beneplácito [e o dinheiro] das grandes petrolíferas interessadas no status quo agora ameaçado de ruptura. Claro que, para os cristãos-novos da "revolução", no Egipto como na Líbia como no Portugal de 75, esse é decididamente um mal menor. They know they will soon come up with a new handyman to do do the dirty work for them...
Pessoalmente, confesso, são decididamente sempre muito mais estes que eu temo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Da Aranha e da Sua Estratégia: a Propósito de um Artigo do «Sol»"


Do "Sol" de 01.10.10 retiro um excerto que merece seguramente alguma reflexão--desde logo a quantos, como eu próprio, não alimentam propriamente já grandes ilusões sobre a sustentabilidade do actual modelo de "democracia funcional" ou "economocracia plebiscitária" socialmente consentida, gerido em regime de co-propriedade e "leasing político" pela dupla neo-liberal "social"/neo-liberal 'hard core', "pê-ésse/pê-ésse-dê"--e chegaram a ver no aparecimento de candidaturas presidenciais aparentemente "de margem" como a de Fernando Nobre não tanto a solução em si para o problema do apodrecimento sistémico do 'regime' mas o possível ponto de partida para uma vaga de fundo capaz de conduzir à mobilização geral que permitisse, por sua vez, encontrar, no debate político sério e a sério, as saídas políticas que o 'regime', só por si, afogado entre Sócrates e Passos Coelhos, Santos Silvas e Rebelos de Sousa e tendo apenas Josés Lellos e Ângelos Correias ou Marques Mendes para oferecer, já não é manifestamente capaz de apresentar.

O excerto em causa permite, em meu entender, como se verá, independentemente daquilo que nele possa haver [e seguramente há] de interesse estr[e]itamente propagandístico, perceber exactamente o tipo de "estratégia da aranha" e/ou perversíssima i/lógica conspiratorial que tem intrinsecamente marcado, de forma persistente, o funcionamento interno do 'regime' desde a "novembrada" restauracionista de '75; o tem envenenado consistentemente por dentro---e evidencia como, de facto, já só com uma verdadeira limpeza integral é possível devolver-lhe alguma saúde básica e garantir-lhe a hipótese de sustentabilidade que, com o tipo de pessoa que, no centro mesmo, o habita--e continuamente manipula, "teleguia"--parece de facto cada vez mais dramaticamente longínqua--senão mesmo, repito, já, de todo, impossível.

O texto a que me reporto pertence ao artigo "Alegre acalma fúria de militantes" [de Graça Rosendo e Helena Pereira] e diz citando José Luís Cardoso, "capitão de Abril" e apoiante de Manuel Alegre, o candidato que, acrescento eu, apoiado ao mesmo tempo pelo "pê-ésse" e pelo Bloco, possui o singularíssimo [e improvável!] atributo de sedear e concentrar em si... a sua própria oposição:

"Mário Soares é 'pai' da candidatura de Fernando Nobre e como viu que ela se revelou um flop vem agora apoiar explicitamente Cavaco Silva.
Para Mário Soares, o mais importante é que Manuel Alegre não vença as presidenciais".

Símbolo para muitos de um "25 de Abril" que, na realidade, é apenas o "24" marcelista cirurgicamente remaquilhado de modo a parecer... mais um aos incautos, há muito que Soares deveria ter sido afastado da cena política no âmbito de um projecto verdadeiramente popular de saneamento e higienização da nossa vida colectiva, cada vez mais urgente e essencial.

A sua, não-tão-nova-como-isso, carreira como possível "pupeteer" do que são, afinal, tudo indica, goradas as esperanças de verdadeira alternativa, "zombies políticos" lançados às canelas da democracia para enredá-la, confundi-la e evitar que ela se "torne finalmente independente" vem ulteriormente demonstrar a urgência em fechar de vez essa mesma "democracia"--este híbrido de autoritarismo e 'economia total' temperada com votos--"para balanço" e reabri-la, uma vez concluído este, com uma "gerência" verdadeiramente nova [e até aqui sempre cuidadosamente evitada] e que é a de todos nós como comunidade, na condição social, económica e politicamente tão natural quanto ideal de principais protagonistas e únicos a[u]tores--com o apoio das forças políticas realmente interessadas em mudar o muito que está mal, na sociedade portuguesa: aquelas às quais não é justo exigir responsabilidades exactamente porque não é possível apontar-lhes cumplicidades de fundo no estado miserável a que o País chegou e que, por isso, justificam plenamente, mais uma vez nestas eleições, a oportunidade que aquele, o País, por excessiva credulidade ou simples inércia, sempre teimou--para sua infelicidade e persistente desgraça, afinal--em negar-lhes.

[Imagem extraída com a devida vénia de artmight-dot-com]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Religar Teoricamente o Real: Tarefa Urgente da Esquerda--breve reflexão pessoal sobre a teoria e prática da Política, hoje" [incompl./por rever]


Se eu tivesse de indicar qual é, em meu entender, o maior problema da democracia, acabaria muito provavelmente por dizer que é a ilusão, verdadeiramente fatal, de que ela existe...

De facto, tal como eu a vejo, a democracia possui o atributo realmente singular de ser algo que é preciso reiniciar, recomeçar--num certo sentido preciso: reinventar--a cada novo instante da nossa vida individual e colectiva.

Algo que [curiosamente, como os mandamentos moisaicos...] uma vez criado, existe muito mais para impedir e limitar; algo que idealmente se define ou vai definindo, em última análise, por quanto evita muito mais do que por quanto, de forma directa, possibilita e oferece.

Não se trata, porém, quero desde já dizer, de uma visão restritiva e artificialmente ascética, possivelmente "sacrificial", mesmo, da democracia: uma vez criada e continuamente re/ajustada, a si mesma e ao universo mental e social, político--humano--a que se reporta, a democracia [que é, também num certo sentido 'genético' motor, sobretudo o seu próprio espírito] assume-se como o "manual de instruções" das sociedades verdadeiramente civilizadas ou daquelas que aspiram realmente a sê-lo.

É, diria eu, num certo sentido transmissor, sempre dialéctico, de "significado", a racionalização ideal do primitivo tabu, o grande alimentador da organicidade das culturas humanas originais em matéria de sentido individual e colectivo para a sua própria existência.

Elementos vitais da democracia são, obviamente, a inteligência e a propriedade colectiva, não-dissociada, do conhecimento essencial para poder gerar em todos os pontos da comunidade as formas estáveis de 'inteligência da realidade' que evitam que o poder [como dizer?] "se quebre" e, por conseguinte, se aliene quando se transmite ou se torna função ou 'operação'.

Quando se converte em História---numa História.

Em Portugal, como no conjunto dos países capitalistas, o conhecimento assim como, naturalmente, a inteligência que dele pode derivar, são mantidos na condição estruturalmente des-igual de propriedade e de função.

Uma propriedade privada utilizada na produção de capital.

Uma propriedade que não se distingue na prática da sua função económica mas também política.

É essa natureza privada e [vou cunhar um neologismo útil] "proprietacional" do conhecimento que explica que a inteligência, quando se forma em geral, na sociedade, o faça de modo em larguíssima e des/estrutural medida, inorgânico e que, por isso, nunca chega verdadeiramente a constituir, no conjunto das sociedades capitalistas, um atributo reconhecível--e muito menos tópico!--na formação colectiva daquela inteligência da realidade de que atrás falo.

É este último aspecto que explica, a meu ver, por que motivo não existe nas sociedades que apresentam este tipo de característica de des-igualdade na propriedade do que poderia, a partir de Marx, chamar 'os meios de produção' de conhecimento e, por conseguinte e por extensão, de inteligência, uma ciência ou uma ciencialidade--um «olhar [verdadeira e organicamente] causal»--sobre os mecanismos materiais, concretosa, objectuais, da democracia, a começar por esse aspecto absolutamente crucial e nuclear que é votar.

A incapacidade para estabelecere nexos realmente estruturais entre o acto de votar, a escolha eleitoral, e a siutuação politica concreta que dele deriva é, no fundo, aquilo que melhor define o funcionamento demoformal que confundimos comummente com "democracia".

Enquanto as pessoas forem votando no político A porque foi agredido ou porque essas mesmas pessoas ofereceram a si próprias um avental ou uma esferográfica barata por intermediação do político B [que não é propriamente o mesmo que dizer--o que já seria, de resto, suficientemente mau mas enfim...--que o político B lhes ofereceu o referido avental ou a caneta em causa]; enquanto [e isto, é no fundo, exactamente a mesma coisa dita de outro modo] as pessoas não tiverem a total percepção de que o poder que, de uma forma ou de outras, imediatamente a seguir a um acto eleitoral as explora, ignora ou mesmo oprime resulta objectiva ou seja: realmente da sua acção [cá está a tal ausência de "olhar causal" de que atrás falo!] e que é precisamente para isso, para gerar resultados concretos e eleger políticos que servem as eleições e não para qualquer outra coisa alienadamente "moral" ou arbitrariamente pessoal, continuaremos a ter sonhos eleitorais que se tornam, se dificuldade, instantaneamente pesadelos, mal cumprido o acto eleitoral.

Isto não será em si novo nem difícil de perceber: o que talvez o seja é a explicação que aqui pretendo avançar e que relaciona, de forma causal directa, o modo como se aliena comummente o uso da própria democracia [o voto] com a forma como, por outro lado, enquanto modo de produção, integramos económica e politicamente o conhecimento.

Dito de outro modo: a forma estruturalmente des-igual como permitimos que os modelos ou paradigmas de inteligência em geral sejam, entre nós, topicamente produzidos.

Não, pois, a partir da propriedade realmente democratizada e, portanto, verdadeiramente democrática do conhecimento mas como algo que pode formar-se, isto é, nascer e desenvolver-se, parea todos os efeitos, independentemente dele e de forma, por conseguinte, in-orgânica relativamente àquela propriedade--a qual, ao longo de todo o processo de formação de inteligência, permaneceu sempre inatacável e sempre, em geral, inargumentadamente privado.

É esse mesmo "corte gnoseomórfico" entre acto e consequências [ao lado de doses suicidárias de des-conhecimento objectivo das leis da República, é preciso reconhecer] que explicam, de outro modo, as coisas, muitas vezes, dificilmente imagináveis, quase surrealistas, que têm vindo a ser pedidas aos candidatos à presidência da república.

Na verdade, ouvindo certas "antenas abertas", "opiniões públicas" e por aí adiante percebe-se claramente como o "olhar vagamente cívico" que muitos cidadãos anónimos, descontentes com a Política e por ela ameaçados, lançam sobre a campanha e os candidatos releva muito mais do olhar inorgânico e "mágico" ou mesmo, num certo sentido, proviodencial e "místico", directamente reportável à prece do que ao olhar que, de forma intelectual, cívica e politicamente sã--causalmente límpido, transparente--um cidadão deve lançar sobre as figuras do presidente, do voto e sobre a Política em geral.

Muitos não percebem que se encontram na triste situação de terem de pedir ao presidente, como pediriam ao "Pai" ou a um... Zeus qualquer, que intervenha na História concreta de todaos nós corrija os excessos e as loucuras, as iniquidades, de um governo inepto e composto, em muitos pontos de verdadeiros imbecis, exactamente porque ainda não há muito que ele chegou ao poder em resultado de um acto que cada uma dessas pessoas--muitas delas, em todo o caso--praticou e podia não ter praticado e que, por conseguinte, a censura que pedem, agora em desespero, ao futuro presidente que apresente ao poder seria lógica e naturalmente a si mesmas que deveriam, em bom rigor [em bom rigor causal!] apresentar.

Esta ausência de um olhar causal sobre a realidade e o seu funcionamento, para além de constituir uma consequência, volto a dizer: directa e inevitável das formas políticas desiguais vigentes de partilha política do conhecimento e da inteligência [dos «meios de produção» de inteligência] opera como uma das principais armas de dominação e controlo ou mesmo de manipulação políticos por parte da economocracia no poder.

Parece-me, por conseguinte, diria para concluir, que uma das tarefas verdadeiramente básicas e essenciais da Esquerda e, de um forma mais geral, da Revolução hoje passa nuclearmente pelo encontrar e fazer com que se instalem na mente dos indivíduos estratégias claras e eficazes de religação ou reorganicização teórica [e prática!] da realidade de modo a tornar o funcionamento desta realmente acessível a todos.


[Na imagem: poster eleitoral soviético extraído com a devidas vénia de Soviet Posters]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Vem Aí O Passado! Cuidado Com As Cabeças!..."

Se, em Portugal, tivéssemos uma elite independente e partidos políticos com capacidade para liderarem processos que são absolutamente fundamentais e cada vez mais urgentes de reflexão séria sobre as formas da nossa vida colectiva presente e futura, o artigo de Jorge Moreira da Silva no "Público" de 06.01.11 ["Sete desafios que Portugal não pode falhar"] não teria passado em claro, isto é, sem despertar reacções de, no mínimo, profunda apreensão e compreensível inquietação dos sectores económicos e sociais que são já hoje as grandes vítimas [as grandes "baixas"!] de um modelo de economia "que só vê para um lado"---e mal, pelos vistos---a avaliar pela "disaster area" em que ele tornou o nosso presente 'global' para já não falar no futuro que começa agora, para nosso horror, a delinear-se com um desemprego calamitoso, aumentos de todo o género e uma recessão de duração e efeitos imprevisíveis, aí à porta.

Não vou agora aqui repetir as propostas do autor do artigo do "Público" [era o que faltava, ser eu, a quem a maior parte delas desperta a mais séria repugnância e e a mais veemente e frontal rejeição, a fazê-lo!] remetendo aqueles poucos que, em Portugal, ainda se dão ao trabalho de pensar [e que são, como digo, meia-dúzia pouco mais...] para o texto em si: vou apenas referir os alguns aspectos que me parecem essenciais.

Começo por registar que os tais "desafios" de que fala o autor vão todos invariavelmente dar ["et pour cause"!...] ao velho pressuposto/obsessão neo-liberal puro de privatizar ou, como preferem dizer os apóstolos da ideia temendo---muito compreensivelmente, aliás---a indignada oposição dos que não ignoram onde fatalmente nos conduzirão a todos como sociedade os projectos de «regressão civilizacional» organizada [senão... "estratégica"!] dos neo-liberais em fúria articuladas com as de aprofundamento cego de um modelo intrínseca e des/estruturalmente disfuncional como é o do capitalismo neo-liberal deixado à solta; grande parte dos "desafios" em causa é, pois, dizia, aí que vão dar a esse antigo sonho distópico de "economia total" que tão graves consequências como modelo civilizacional está a ter para nós, classe média europeia e "europeia"---afirmando o seu proponente fazê-lo, pelos motivos "de prudência táctica" que acabo de referir, em termos argumentativamente "açucarados", enunciando objectivos irrecusavelmente eufónicos e de sucesso pop garantido com esse astuciosíssimo "libertar a sociedade portuguesa do peso do Estado" à cabeça, habilíssima escolha de palavras que mostra como a direita "não as deita em saco roto", sempre que se trata de ganhar posições na batalha "pela conquista e apropriação estável da História", batalha essa que vai, como ninguém duvidará, conhecer novos e importantes episódios, nos tempos mais próximos, por razões que, de tão óbvias, me dispenso de voltar a enunciar.

Propõe, por exemplo, o extensíssimo texto/programa dos "Desafios" "uma reforma estrutural ao nível das funções do Estado" [está-se mesmo a ver, não está?...] que passa por "privatizações no sector da energia, comunicação social, transportes e telecomunicações" [pois...].

É verdade que ele vai dizendo sempre querer um "Estado mais forte na relação com os privados" [?] com [maiores?] "poderes de regulação, auditoria e fiscalização" mas tranquilizam-nos esse tipo de pias intenções quando todo o tecido activo da sociedade portuguesa se encontrar já, de facto e de direito [a electricidade, a televisão, os transportes urbanos e interurbanos---que eu sempre disse que deveriam ser incluídos entre os serviços públicos básicos, ao lado da Saúde, da Educação ou da Justiça---a Internet e por aí fora, tudo ou quase coisas que são já hoje, sem neo-liberalismo "canónico" no poder, chorudas negociatas para grandes grupos económicos privados] nas mãos desses mesmos intereses privados e, como é evidente, obedecendo no seu uso social ao quadro de objectivos intrinsecamente unilaterais que eles por definição têm?

Aliás, o texto nem faz segredo do que prevê, por exemplo, para o emprego quando vem, logo a seguir, preconizar o ataque a uma "rigidez laboral" que ninguém honestamente é já hoje capaz de ver---senão obviamente quem faz absoluta questão de não ver...--- atirando o ónus da precarização vigente do mercado laboral não à cupidez dos empresários em consonância com um Estado dócil e hipocritamente cúmplice mas à tal "rigidez" que só é, todavia, repito, 'visível' da direita política, incluindo nesta, por direito próprio, aliás, a direita "social" "pê-ésse" operando na sociedade portuguesa---como é seu timbre, de resto---na condição da "lebre" da disfunção economocrata ortodoxa, chamada agora a corrigir os efeitos da incompetência [eu chamar-lhe-ia: "significada": da "incompetência significada"] dos "suspeitos do costume" que são os discípulos de Bernstein onde quer que a sua acção se faça sentir.

Seria bom, desde logo---é um 'conselho de amigo' que me permito aqui deixar aos meus concidadãos habitualmente mais... "distraídos" e/ou mais sensíveis ao tipo de lugar-comum adocicado a que tanta desgraça económica, social e política recente, como país, devemos, na próxima circunstância eleitoral, normal ou extraordinária; seria bom, dizia, que se tivesse o texto/programa em causa em mente na altura de votar, enquanto for ainda tempo de evitar a americanização total da sociedade portuguesa---e isto, numa altura, em que a própria sociedade americana, que fez em geral, do estado de desregulamentação social uma mais que discutível bandeira, tenta, lutando com resistências poderosíssimas da "América profunda", na Saúde, desde logo, com Obama, encontrar formas de humanizar e efectivamente democratizar uma comunidade que, com as consequências que se conhecem, faz questão de se orgulhar do modo como, com sacrifício de si mesma e dos seus direitos mais elementares, garante chorudos negócios a quantos fazem do objectivo de espremê-la quanto podem em nome de uma desumana "liberdade", todo um projecto e todo um tópico programa social e político.

Considero, ainda, particularmente curioso e digno seguramente de reflexão aquilo que a edição do "Público" de 19.09.10 [Cf. João Caraça, "Milagre Chinês?" e "A economia poderá falar mais alto do que o Estado-providência nas legislativas suecas?", este último, aliás, um título profundamente enganador que, de alguma forma, nega o conteúdo do texto a que se reporta, como veremos mais adiante].

No primeiro daqueles textos, refere-se o caso da China, país onde "os sectores estratégicos permanecem firmemente sob o controlo do poder central, podendo nos outros sectores da economia funcionar os mecanismos de mercado", um modelo para que, ao que tudo indica, tende actualmente, flexibilizando a sua própria estrutura de modo a adaptá-la à perda de fornecedores e mercados de eleição como os socialistas, o regime cubano, por exemplo e que, mesmo não esquecendo os negativíssimos impactos não-sistémicos ambientais, tem conduzido a China ao estatuto de super-potência global emergente e concretamente à primeira linha das economias mundiais de modo a que, "a alta finança" ['global' que, como é sabido] "não mostra especial afecto pela democracia" não tenha tido já mais remédio do que aceitar reconhecê-la e até, como no caso nacional, torná-la detentora de parte da dívida pública portuguesa.

No segundo dos textos que refiro, aborda-se o bem conhecido e sempre muito propalado "caso" sueco para dizer [e, por isso, eu referia atrás que o título da peça induz em erro] o qual, lembra a autora, Francisca Gorjão Henriques, assenta em larga medida em [e cito] "uma pesada carga de impostos para financiar o Estado social" aliada a "uma economia fortemente liberal".

Uma economia" fortemente liberal" que não considera, pois, o Estado social e ipso facto o conjunto da sociedade que dele pode, assim, alguma coisa efectivamente beneficiar, um inimigo natural, curiosa singularidade!...

Mais: a campanha dos sociais-democratas suecos tem [pasme-se!] sido conduzida, diz ainda a autora, "com a garantia de não cortar os impostos" e [pasme-se ainda mais!] "até aumentar alguns no futuro".

Poder-se-ia, lendo apressadamente o artigo supor que fosse assim sob tutela governamental social-democrata [curioso termo este que tanta variedade de concepções esconde!...] mas a verdade é que Francisca Henriques tem o cuidasdo de acrescentar, noutro ponto do seu artigo, que "Com a vitória do centro-direita [actualmente no poder] não houve alterações espectaculares ou sistemáticas, nem golpes radicais no Estado-providência".

Leram bem "Com a vitória do centro-direita [...] não houve golpers radicais no Estado-povidência".

É verdade, diz a autora, que "o centro-direita tornou as regalias menos generosas, baixou impostos para os salários mais baixos e diminuiu o número de subsídios de doença" [diria eu: por alguma coisa é direita e não esquerda!...] mas, no essencial, não pôs, segundo a jornalista, em causa "os serviços públicos".

"Com", conclui a autora, "bons resultados".

... demonstrando, a meu ver, que pode haver direita e não haver selvajaria [anti] social; que pode haver direita e não retrocesso civilizacional impuro e nada simples; que pode haver direita sem recurso a fórmulas e "soluções" velhas-e-relhas que outros ou há muito já puseram, com demonstráveis bebefícios, à porta do "seu" próprio capitalismo ou estão agora a tentar, pelo menos em pequena e, sob diversos aspectos, sobretudo "simbólica", medida...

Escreve ainda a jornalista a rematar: "os eleitores parecem valorizar mais um Governo competente do que a ideologia"; curiosa conclusão, esta! A propósito dela aquilo que eu pergunto muito clara e muito firmemente é: mas não é a "questão da natureza do Estado moderno" uma questão intrínseca e nuclearmente ideológica?

É por muitos pretenderem que acreditemos que não e que as ideologias [como a própria História ou com a própria História] chegaram ao fim que, nós portugueses [vamos ser claros!] entregues criticamente indefesos nas mãos de uma social-democracia... "de aluguer" e aceitando tão implícita quanto regularmente ser a ela imolados estamos onde eastamos ou chegámos onde chegámos...

À calamidade em que se tornou a nossa existência conmo sociedade onde o melhor futuro que perece conseguir-se arranjar é... o passado que outros não quiseram!

[Imagem extraída com a devida vénia de new-dot-taringa-dot-net]

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"O 'Che'..."


O 'Che', mais que um pessoa real, um símbolo eterno de generosidade e inquietação revolucionárias e de saudável insatisfação transformadora do real!...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

"Colonialismo de Influência ou Canibalismo de Charme?..." [por rever]


A fazer fé no "Confidencial/Economia & Negócios", o suplemento do semanário "Sol", a empresa Mota Engil está "interessada na ferrovia angolana".

De acordo o jornal, já tem mesmo "quadros" no terreno a trabalhar para "garantir a concessão" das linhas de Luanda, Benguela e Moçâmedes.

Sabendo nós o fabuloso potencial lucrativo de Angola em matéria de negócios para as grandes empresas não há seja o que for de novo nisto.

Angola [como a China, outro dos alvos preferenciais da "diplomacia de recovagem" de Sócrates e Cª, a qual mete, como se sabe, compra de parte da dívida pública nacional portuguesa pela China e tudo] tem uma estrutura política que, no plano económico, pode ser referida, ressalvadas as respectivas diferenças, como "de economia teleguiada", isto é, um modelo económico, de um modo ou de outro, à medida do tipo de concepção tipicamente "lobbyista" paradoxalmente tão do agrado dos poderes económico-políticos... liberais [mesmo dos... "sociais"] os quais se movem como peixe na água em áreas onde possam mover "par... dessous le marché" o tipo de "discretas" influências [Cê-pê-éle-pês e Cª] por detrás das quais estão sempre, afinal, os grandes negócios privados.

Não há, pois, repito, o que quer que seja de novo neste apetite da Mota Engil pelo pingue mercado petro-africano.

O exercício que aqui proponho hoje, a propósito da notícia do "Sol", não se prende, pois, com qualquer "novidade" vinda propriamente do lado desse apetite ou desse interesse enquanto tal.

Não: o exercício que proponho é de outro tipo e vai muito além da constatação da existência, por um lado e da naturalidade, por outro, ainda e sempre deles, desse interesse e/ou desse apetite.

Envolve a consideração e a equacionação de um texto de Maria Cândida Proença, investigadora do Instituto de História Contemporânea Faculdade de Ciências Sociais e Humanas no suplemento "P2" do "Público" de 02.09.10 onde se aborda a visão colonial da I República [que contemplava modelos de descentralização autonomizadora progressiva das colónias] projecto esse, recorda a autora, a breve trecho bloqueado pelos "interesses económicos" aos quais a autonomia em causa estava, por razões óbvias, longe de interessar.

Foram interesses que o salazarismo não soube ou não quis contrariar [até homens de "direita civilizada" como cunha Leal o sublinharam] e que estiveram afinal na base da tragédia que foi o fim do colonialismo, também do português.

Ora, aquilo para que Maria Cãndida Proença apongta, na realidade, no seu artigo e naquele ponto em concreto que cito atrás, é num aspecto crucial de todos os colonialismos e neo-colonialismos: o bloqueio não só sistemático: sistémico também, do desenvolvimento do colonizasdo, essencial para que o próprio modelo colonuial cumpra a sua "missão" que é basicamente, como se sabe, encontrar fornecedores de matérias-primas que sejam ou também possam mercados de produtos manufacturados.

É evidente que o colonialismo só considera, nesse quadro, as formas e graus funcionais de desenvolvimento local.

A própria rede viária ou, em boa medida, a rede urbana e até a estrutura urbanística, por exemplo, obedecem aos interesses do colonizador---do transporte das matérias-primas que extrai ou interessando a distribuição dos produtos que, a partir delas, pôde gerar.

No plano laboral, o colonialismo determina proletariados não apenas extremamente rudimentares e pouco instruídos ligados, sobretudo, à extracção das matérias-primas em bruto ou quase mas, de igual modo, barato porque o segmento da fileira onde a parte relevante da técnica e da tecnologia é aplicada se situa nas metrópoles onde as matérias-primas se convertem em produtos.

Por isso, o modelo colonial é por definição um modelo económico, social e político estruturalmente des-igual: o pouco ou muito desenvolvimento que traz, trá-lo para os centros, reservando às periferias um papel meramente ancilar que não fomenta nem o desenvolvimento tecnológico nem o progresso material e económico.

Ora, quando nós, mais de três décadas depois do fim do colonialismo português vemos como a antiga colónia precisa de tecnologia externa [a fazer fé no "Sol" a tal Mota Engil tem, apesar da presença dos "quadros" prospectores no terreno, concorrência] para modernizar a sua rede viária e é-nos difícil não pensar como estamos, se calhar, afinal, bem perto da estrutura colonial ou sejam os tais "interesses económicos" bloqueadores instrumentais mas também sistémicos da autonomia local em nome do seu próprio interesse em exportar, em vender, aquilo que, sendo localmente concretizado, não necesita, por razões óbvias, de ser comprado, de ser importado.

É esse, aliás, o papel do neo-colonialismo como "mutação" politicamente "decorosa" do velho paradigma colonial puro-e-duro: simulando a tal autonomia de que falava a investigadora da FCSH na forma de uma independência política formal, aquilo que ele faz, no fundo, é limitar-se a utilizar o poder ou poderes estabelecidos como mediadores do tráfico que antes era conduzido por si próprio, não lhe alterando, em última análise, nem a natureza nem o essencial das dinâmicas de natureza económica, social e, muitas vezes, até política que o caracterizavam.

É outro aspecto da famigerada justificação histórica e política---civilizacional, também---do capitalismo de que "gera desenvolvimento" e "produz riqueza" e por isso possui legitimidade para, como costumo dizer, se conservar "por trás do motor ou do volante da História": de facto, como tantas vezeas tenho insistido, ele só gera riqueza porque multiplica a montante as carências, a estrutura de "carencialidade significada", que, do ponto de vista dele e da sua i/lógica de produção, constitui uma matéria-prima vital na re/produção de capital que constitui a sua actividade real, efectiva: quando, com efeito, ele afirma que "desenvolve", esquece-se de dizer que esse desenvolvimento se caracteriza pela sua estrutural [mas desestruturante!] des-igualdade a todos os níveis [exactamente porque é parte integrante do seu modo de produzir e de gerar "valor"] e mesmo nos casos em que gera equipamentos estes têm sempre como referência de utilidade ainda e sempre os tais interesses do colonizador e, naturalmente, do mediador, seu associado no processo.

[Na imagem: colonialismo, gravura extraída com a devida vénia de neocolonialismo7-dot-blogspot-dot-com ]

"Sobre o [Im?] Possível Papel da Igreja no Mundo de Hoje"


De um "D.N." [o de 09.02.10] extraio um recorte que me permite documentar e, assim, de alguma forma, completar, as reflexões que faço na 'entrada' imediatamente a seguir.

Intitula-se o texto a que me reporto, significativamente, "Papa afirma que inferno existe e pede aos fiés jejum de palavras" e começa por dizer:

"O Papa Bento XVI defendeu a existência do Inferno, a seu ver, um lugar real, não vazio".

E mais adiante: "A tese de Bento XVI não é exactamente nova, pois o Papa já em 2007 havia afirmado que i inferno era um lugar, para além disso eterno.

Sempre o disse: não gosto de Papas, confesso e repugna-me, sobretudo, a ideia de "Papado".

Nunca obtive, por exemplo, resposta à pergunta: "Quem ou o quê começa por dizer aos papas as coisas que eles, em seguida, repetem... urbi et orbi ou coisa que o valha e como 'se arranjavam' as pessoas, no plano teológico e até prático, moral, antes disso?"

E, já agora, "Porquê aos Papas?"

"Por que necessita a Verdade de mediação [esta é uma questão-chave com diversos aspectos ou graus, chamemos-lhes assim e de que os Papas, muito naturalmente, nem querem ouvir falar...] e que efeitos tem---ou deveria ter---essa mediação nos indivíduos escolhidos para protagonizá-la?"

"Ficam permanentemente omniscientes?"

"É mediúnica?"

"Sonham os Papas com ela?"

"É um transe?"

"Possui natureza xamânica?"

[Se eu pretendesse ser brejeiro ou coisa pior perguntaria se os Papas vão jantar com Deus e é depois do café e do brandy que Deus comunica aos Papas a Verdade na forma "das últimas", tipo: "Bento, queres, então, saber as últimas, filho? Vamos lá, então! Tens papel e lápis?"...]

Mas, enfim, digamos que não pretendo ser brejeiro e, por isso, pergunto apenas mais "por quantos é a Verdade divísível", isto é, se as verdades não vêm todas de uma vez [se viessem continuaria a justificar-se que houvesse mais Papas daí em diante?...] quando é que a Verdade... «fica completa»"?

Há muitas outras questões que o princípio da infalibilidade papal [quem a fixa? Quem a legitima? etc.] levanta e que nem vale a pena aqui referir.

A pena vale, sim, dizer que é precisamente esta linha seguida pela igreja institucional para fazer face à questão do seu lugar e muito especificamente da sua pertinência, da sua fundamentada e fundamental [ou não...] relevância no mundo de hoje que, a meu ver, está em causa e deveria ser [ao lado de outras levantadas por verdadeiros momentos de abominação mental intelectual, civilizacional, etc. dificilmente imaginável envolvendo, por exemplo, a questão feminina que mais do que uma questão abstractamente ontológica e até ideológica ou teo[i]lógica é uma questão elementar de humanidade e até de direitos humanos básicos]; a pena vale, sim, reflectir, dizia, sobre a oportunidade perdida no plano da afirmação de uma genuína relevância civilizacional por uma instituição capaz de, apesar de tudo, obter eco no conjunto da sociedade humana inclusive naquela parte desta que, valorizando a essência da atitude ou da praxis crística tal como ela nos chegou, nela se revê sem nunca deixar de ser, para aquilo que, em termos humanos básicos, conta, Esquerda.

Uma instituição, porém, que parece mil vezes mais interessada em desafiar a inteligência, o bom senso, a própria ciência---o Tempo, a História, numa palavra---através de uma espécie de teimoso projecto ou programa de resistência que passa por opor a toas essas coisas algo, um modo de pensar, que se aproxima, como nos casos que acabo de citar, perigosamente do medievalismo e do obscurantismo impuros e nada simples...

[Imagem extraída com a devida vénia de pliniocorreadeoliveira-dot-info]

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"É A História, Meu Caro!..."


Santana Lopes [Santana Lopes "of all people"!...] reflecte no "Sol" de 12.11.10 ["Que é feito da Espanha católica?"] sobre o que entende ser a "laicização radical do país vizinho".

Não vou agora aqui pronunciar-me sobre a evolução da 'Espanha mental, cultu[r]al, social e sociológica' no pós-franquismo.

Não sou antropólogo ou sociólogo para me abalançar a fazê-lo de uma forma minimamente séria e responsável.

Digamos, no entanto, que tenho uma "educada impressão" da questão, formada a partir, sobretudo, do meu contacto directo com a sociedade espanhola [sem excluir outras fontes mais académicas e literárias sem falar na imprensa, desde logo e por exemplo] e que essa "educada impressão" vai francamente no sentido da formulação de uma ideia globalmente lisongeira da evolução da Espanha, sobretudo da Espanha urbana, nesse período da sua História mental, cultu[r]al e até política recente.

Não ignoro o bem consolidado consumismo da sociedade espanhola nem, por outro lado e noutro plano mais relevante envolvendo a vida colectiva, a cedência substantiva de uma parte importante da sociedade espanhola a um mitário [como dizer?] "facilmente demomórfico" [isto é, mais determinado pela acção de lugares-comuns eufónicos e, por essa razão, de fácil assimilação pelo cidadão médio do que por uma verdadeira reflexão de ordem realmente e, sobretudo, consistentemente política] que a levou, por exemplo, à eleição dos ilusórios Felipe González ou José Luis Zapatero [para já não falar no embaraçoso "deslize" democrático e até humanitário que foi o do politicamente minúsculo Aznar].

A Espanha é, no entanto, em termos globais um país ainda fortemente traumatizado pela sangrenta Guerra Civil resultante da sedição franquista e pelo doloroso [e não menos sangrento] processo de consolidação da ditadura que se lhe seguiu e que deixou, a meu ver, fundas marcas no inconsciente colectivo espanhol.

Ora é minha firme convicção que aí a cumplicidade do catolicismo oficial e institucional com a opressão/repressão fascista terá, por isso mesmo, i.e. porque se tratou de pactuar com [e até de oficialmente con/sagrar] um regime com aspectos dificilmente contornáveis de ditadura militar e política obscurantista, ultramontana, instrumentalmente genocída onde as 'operações' de sanguinária "limpeza" política ["political cleansing"] atingiram limites que não alcançaram, desde logo, entre nós, onde o salazarismo [cujas cumplicidades no plano eclesial institucional, assumiram aspectos, porém, substancialmente similares] se revelou, como é sabido, basicamente um fascismo... "descafeinado" cujas mãos puderam sempre sujar-se "a bom recato" [nos calabouços e salas de "interrogatório" da Pide] ou suficientemente longe [e entre povos... "primitivos"] para não incomodar demasiado as consciências, em geral; é minha firme convicção, dizia, que essa cumplicidade e esse papel consagrador da ditadura por parte da igreja católica oficial desempenhou um papel decisivo, no modo como a consciência espanhola relativamente às suas próprias instituições e ao seu passado se foi formando e desenvolvendo.

Não me custa, por isso, admitir como tese que a repugnância mesmo se muitas vezes instalada, sobretudo, como digo, sob forma muita vaga e muito 'esquemática', demasiado linear, até, talvez, em tese, no subconsciente colectivo da Espanha resistentemente legalista e/ou civilizada; não me custa, por isso, dizia, a crer que a repugnância ou mesmo até simplesmente a indiferença de uma parte considerável da Espanha contemporânea relativamente a esse trágico período da História do país com as inúmeras abjecções e vilezas que trouxe consigo [a começar pela da própria sedição que está nos genes do franquismo e com a qual muitos, de uma forma ou outra, acabaram por pactuar] e por quem o protagonizou ou caucionou tenha acelerado um processo de, a meu ver, inevitável laicização generalizada das sociedades modernas---uma laicização para cujo ascenso muito terá contribuído a tenaz obstinação da estrutura vaticana e naturalmente das suas ramificações locais no sentido de se eternizarem como um persistente corpo cada vez mais estranho no tecido [ético mas também cultural, mental, cognicional, especificamente científico, etc.] da sociedade moderna e com a sua dificilmente compreensível teimosia em não percebê-la não só onde ela é mais lúcida e esclarecida do que a própria igreja mas também onde ela é simplesmente vã e desprovida de substância humanista assim como de verdadeiros valores.

Santana Lopes espanta-se [e inquieta-se] com a laicização espanhola; eu, sinceramente, não.

Isto é, inquieto-me---porque acredito que uma Igreja-consciência poderia ter um papel absolutamente vital na humanização global de um mundo que perdeu já, por completo, a noção de demasiadas coisas essenciais para poder permanecer, em termos genéricos, civilizacionalmente respeitável e digno---mas não me espanto.

Se eu fosse dado a clichés e esse tipo de coisa que dá, aliás, sempre muito jeito para "fechar" textos e reflexões como esta---sendo, como sou, além disso, uma pessoa em geral verbalmente contida e bem educada---seria tentado a encerrar esta brevíssima "lucubração" com a frase dirigida ao autor do artigo do "Sol", atirando-lhe, mutatis mutandis, com o já clássico 'bushismo': "É a História... meu caro!..."


[Na imagem: "As Horas de Maria" da série "Sacrilégios Escolhidos", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, inédito]

O Estado 'Broker' ou Estado Almocreve..."


É uma tese antiga minha: a consistente involução civilizacional operada pós-modernamente nas sociedades do Ocidente pelo triunfo e consolidação do capitalismo tecnológico encontrou no neo-liberalismo político [o qual, ao contrário do que pretendem alguns mais... distraídos, não é, em última instância, assim tão difícil de identificar e definir nos seus traços essenciais] e na 'demomorfia instrumental' o rosto social até aqui 'perfeito', funcionante] deu origem à deriva do modelo burguês anterior de 'Estado nação' [e do seu, chamemos-lhe: 'específico subjeccional', o «Estado-consciência»] para o que chamo o "Estado funcional", o "Estado broker" ou o "Estado almocreve", recoveiro dos interesses privados [e coveiro dos públicos, já agora...] de que é expressão... política adequada o modelo de "democracia instrumental" que nos rege desde '75.


Do suplemento "Economia & Negócios" do semanário "Sol", retiro para a minha recolha pessoal de "monstruosidades vulgares" mediáticas, o seguinte excerto de uma entrevista ao "Presidente executivo da EDP", António Mexia:


P- "Não era mais saudável o Estado não estar nas empresas?" [velha mata-mata neo-liberal


R- "Distingo a gestão boa da má e não necessariamente a natureza dos accionistas.

Não há razão nenhuma para que, na EDP, a presença do Estado seja negativa, pelo contrário.


Tem sido positiva para a nossa capacidade de desenvolvimento, e o seu apoio, em conjunto com o dos outros sócios, nacionais e internacionais, à estratégia de crescimento e de diversificação geográfica e de mercados foi importante [...]"


Estado "syndicat d' inniciative" ou num registo mais picarescamente "argot", "Estado Maquereau" são outras designações possíveis para esta diplomacia de guarda-livros a que vieram desembocar as antigas e, em geral [ao menos oficialmente... ] nobres funções da diplomacia formal...


[Na imagem: Imagens de financeiro e soldado por Georg Grosz]

"O Novo Fardo do Homem---Cristão ou Não..."


Do "Público" de 31.12.10 relevo um texto de José Manuel Fernandes ["O novo fardo do homem, e cristão"] sobre o que segundo o ex-director do jornal tem vindo a constituir a discriminatória e supostamente generalizada "indiferença" do Ocidente perante alguns ataques de que tem sido ultimamente vítima [os exemplos que dá são todos recentes] a prática do cristianismo no mundo.

Contrapõe Fernandes essa indiferença [o termo é seu] às denúncias que, em sua opinião, invariavelmente acompanham a intolerância religiosa sempre que estão em causa outras confissões que não as que compõem o cristianismo.

Ora, não passará pela cabeça de nenhum homem ou mulher de hoje civilizados e minimamente bem formados caucionar a intolerância, seja sob que forma for e seja ela praticada pelo ou contra qualquer parecela do universo religioso, incluindo, naturalmente, o seu próprio.

Aliás, discriminar, comparar, graduar poderá já até ser, no limite, entendido como uma forma---muito subtil, embora e até aparentemente piedosa---de abrir discretissimamente a porta a uma atitude muito subtilmente "significada" que é, a meu ver, em tese, debatível se não fará já mesmo parte de uma espécie de 'cone de penumbra mental e crítico' do qual não andará já muito longe, em embrião, larvarmente, a própria intolerância, como tal.

Mas seja como for o que me interessa aqui, sobretudo, a mim, sempre partindo desse pressuposto prévio de que não há intolerâncias boas e más [mas de que tão pouco há humanisticamente, de um modo ou de outro, um "ranking" delas...] é tentar perceber---e fundamentar credivelmente---as origens assim como algumas decorrências e possíveis ilações do que poderá, em tese, ser visto como a "parte" da intolerância [e da intolerância reactiva desgraçaadamente generalizada que "coube" ao cristianismo na grande massa das que continuam teimosamente a afectar o mundo "civilizado" de hoje e a marcar, de forma indelével, os paradigmas relacionais inter-humanos e inter-cul[r]ais contemporâneos, em geral.

Em última instância, aquilo que suubjaz a muita dessa intolerância é reaccional, residuantemente reaccional, e prende-se, em muitos casos, de forma óbvia, com o modelo de organização imperial [de "imperialização"] mundial que marcou, por seu turno, topicamente, de um modo ou de outro, a História das Civilizações.

A partir, sobretudo, das Descobertas portuguesas e espanholas, com muitas das nações europeias definitivamente estabilizadas e detentoras de comparativamente maior poder tecnológico global, o modelo "europeicizou-se" definitivamente e ganhou uma espécie de 'identidade civilizacional' estável que não veio propriamente a ser negada, antes acrescentada e reforçada com a emergência geo-política dos E.U.A. num matiz identitário "aggiornado" que só muito recentemente começa, de resto, a ser posto em causa com a emergência de novas potências geo-económicas e geo-políticas.

Embora citando Bérnard-Henry Lévy, Fernandes fale, no seu artigo, de "disparate imenso" a verdade é que é difícil não concordar com a ideia de que, de um modo ou de outro, o cristianismo sempre forneceu voluntariamente o ensejo legitimador do impulso expansionista/imperialista europeu operando no seio dos mecanismos de apropriação e gestão da História como um polo estável fixador e redifusor do etnocentrismo cultu[r]al mas também político, muitas vezes, abertamente genocida, sistemática quando não sistemicamente devorista e saqueador, «reorganizador significado» unilateral do mundo [ainda hoje há ene conflitos em África e na própria Ásia emergente que são directa ou indirectamente resultantes das políticas de "state engineeering" resultantes da partilha imperial do mundo e da imposição de modos de pensar e sentir a realidade que interessavam, em exclusivo, ao colonizador, extractor de matérias-primas e cumulativo construtor de mercados].

É difícil não ver tudo isso assim como é difícil não entender como num grande leque de universos cultu[r]ais situados sistemicamente "do lado errado" da imperialicização mundial ou heerdeiros desses, objecto de "cruzadas" cíclicas, interiorizaram e culturalizaram, inclusive com recurso às suas próprias formas de religião, formas de planteamento reactivo que tendem, por seu turno, pendularmente a regressar ao primeiro plano da História---fenómeno que verdadeiras e inomináveis barbaridades e novas "cruzadas" [movidas, aliás, por motivações de um tipo que faz com que, em última instância, em pouco ou nada difiram das que substanciaram o colonialismo económico clássico, como a recente abominação económica, militar e política das invasões do Iraque, por exemplo] não contribuiram, como é evidente, em nada, para atenuar...

Este, um aspecto que queria aqui abordar a propósito do texto de José Manuel Fernandes: como tantas culturas e nações [incluindo a 'nossa' própria] descobriram amargamente, mais cedo ou mais tarde, não se coloniza sem um ónus, i.e., sem custos históricos que além de serem elevadíssimos, é muito raro que se circunscrevam também tranquilizadoramente no tempo.

E que, por outro lado, não se fornece ao aparelho colonizador/imperializador todo um argumentário teórico preciso e à sua maneira sistémico [como aconteceu no caso das Cruzadas] sem se ser naturalmente chamado, a dado passo, a partilhar desses mesmos custos.

Claro que é preciso contextualizar a violência, seja ela militar, cultural ou política mas a minha tese [que me parece, aliás, óbvia!] é que não é menos necessário contextualizar adequadamente as formas de integração ou de assimilação cultural e política [leia-se: de "culturalização"] do impulso ou impulsos reactivos desencadeados a partir dos fenómenos [e epifenómenos!] originais que, por sua vez, desencadearam todo o processo de fabrico e construção ou partilha des-iguais anterior da História.

E vou mesmo mais longe: não se trata aqui de sempre debatíveis pedidos de desculpas a posteriori.

Trata-se, sim---e a meu ver, o ensejo cultu[r]al dificilmente podia, por diversos motivos, alguns deles, aliás, bem mauzinhos, ser mais propício!---de o próprio cristianismo institucional perceber, de uma vez por todas, que a via para a reconversão ou readequação histórica e sobretudo civilizacional; para a credível modernização do seu papel na História não passa---não pode admissivelmente, por todos os motivos e mais um, passar!---pela insistência num modelo gnoseomórfico completamente esgotado, moralmente insubstantivo, epistemologicamente unilateral que o coloca em conflito com a própria inteligência, cultu[r]al e até intelectualmente intrusivo porque arbitrariamente impositivo mas, exactamente ao invés, pela adopção de um pensar de natureza ou de raiz, humilde mas, ao mesmo tempo, corajosamente fenomenológica, capaz de "empocher" aqueles aspectos ligados a uma fase ela própria esgotada de pensamento científico em favor da assunção de um papel transversal ou "transversantemente" ético genuinamente 'ecuménico' que lige em vez de separar e, sobretudo, que contribua para dotar a História de uma consciência e de um rigor ético e consciencial que ela há muito já perdeu.

[Imagem Flickr]

sábado, 1 de janeiro de 2011

"«Folclore epissistémico» e «epifenomenologia» da 'crise'" [por rever]


Do Editorial do "Público" de 19.09.10 ["Toda a fome do mundo/Empreendedorismo e «falsos» Empresários", extraio um conjunto de desencantadíssimas reflexões sobre o "empresariado" no Portugal "crítico" [de "crise"] de hoje.

O problema parece ser o de convicção e fé no Estado.

Deixa-me atónito que as conclusões extraídas no texto sejam de natureza tão epifenoménica e casuística e não sejam reportadas a essa difuncionalização consistente da Política e da História e da própria Civilização que foi a extinção do modelo de "Estado Consciência" que era, no fundo, a alma ou o espírito de uma certa ideia [ou ideação de Estado, de "estaticidade"] a que comummente se deu o nome de 'Estado nação'.

'Estado nação' era o corpo do modelo: a sua "alma" e o seu "espírito" estavam nesse «Estado consciência» que era como que a imagem do anterior estavelmente devolvida pelo espelho-écrã da nossa identidade e da nossa consciência colectiva dela.

De cada uma das nossas consciência nacionais colectivas---mesmo nos casos em que estas pareciam oscilar um pouco onde engenharias nacionais forçadíssimas ou traumas recentes tinham feito a sua aparição na História.

A perda da referência do Estado consciência acarretou inevitavelmente consigo a des-integração da identidade e de uma consciência colectivas [da possibilidade de uma consciência estável e consistente do colectivo] onde radicava a confiança no próprio Estado.

[Atente-se, por exemplo, no seguinte: na obsessão neo-liberal com a "avaliação" dos funcionários.

A avaliação dos funcionários com esse carácter de quasi-obsessão programática para o partido da 'direita social' (ou da "esquerda"... "funcional") no poder é uma figura institucional pós-moderna (com aspectos, aliás, absolutamente caricatos como esse de "avaliar" no fim do ciclo de formação académica anterior à entrada na vida activa que não lembrava ao demo pelo desperdício que configura); a avaliação dos funcionários, dizia, com esse carácter de quase obsessão é um fenómeno moderno que substituiu já a velha representação comum da confiança institucional---do Estado nos seus funcionários, destes no "seu" Estado mas, em última análise, do Estado, como coisa pública, em si mesmo e na sua capacidade para formar) tudo isso expresso no sistema de progressão profissional por 'fases', 'diuturnidades' e por aí adiante.

O Estado usa, de facto, a "avaliação" basicamente a fim de pretextuar a desarticulação progressiva de si mas não deixa de ser significativo o modo como ele se vai naturalmente demitindo de formar e em seguida de se considerar vinculado a essa cada vez mais, pela sua parte, inexistente---porque privatizada---formação considerando os funcionários como "gente de fora" que entra e não já, reconhecivelmente, como parte naturalmente constitutiva e integrante de si senão mesmo, idealmente, tout court como outra forma de se referenciar a si mesmo]

Seja como for, a questão da perda de confiança no Estado decorre de forma natural do modo como o estado consciência se foi gradualmente erodindo arrastado na queda pela desarticulação maior do Estado Nação [de que essa outra perda histórica, a do Estado dito social, configura um aspecto cumulativo, a mais de um título, importantíssimo].

Aponta a editorialista do "Público" o dedo da falta de iniciativa ou de vontade dos desempregados e despedidos portugueses para passarem a empresários a "instransponíveis obstáculos" ligados, por exemplo, ao "endividamento" e aos "recibos verdes".

Um economista cujo nome sinceramente esqueci acusava ainda não há muito no mesmo jornal a que pertence o editorial que cito ["Empreendedorismo e falsos «empresários»" de deixar criar pequenas empresas para deliberadamente as sufocar com encargos a fim de provar a "Bruxelas" o seu "empenhamento" e o seu "rigor" na condução das políticas "europeias" ou coisa que o valha.

Sabendo o que sei, não me custa a crer que haja algo de substantivamente admissível em tão [literalmente] maquiavélico desígnio.

A verdade, porém, é que a questão me parece ir bastante além disso---como, aliás, perceberam os homens generosos e cândidos que "fizeram" o 25 de Abril---ou que tentaram fazer dele o que poderia ter sido se houvessem sido percebidos e acompanhados como mereciam quando pretenderam centtrar num corpo bancário estrategicamente nacionalizado o curso ulterior do desenvolvimento económico nacional.

Ou seja: aquilo que eles perceberam e a maioria de nós não percebeu ou não quis perceber foi que com este sistema bancário de agiotagem descontrolada não há economia que resista.

Que vivemos hoje e que protagonizamos, no fundo, passivamente hoje um paradigma economocrata dis e desfuncionalmente "terciarializado" onde a banca não alimenta nerm sequer funcional e secundariamente o desenvolvimento---mesmo o muito des-igual modelo de "desenvolvimento significado" capitalista típico---mas exactamente ao invés se alimenta dele, o preda, consumindo e devorando tudo à sua passagem [os "exemplos" são às dúzias!] criando áreas cada vez maiores de "desertificação estrutural" económica e social que acabaram por conduzir à actual "crise" e pior ainda ao status quo igualmente estrutural completamente desarmado para reagir à tal "crise" de outro modo que não seja através da aceitação do "back kick" ou "coice recessional" que as formas de "combate" atabalhoadamente divisadas pelo poder político para lhe fazer face no imediato anunciam [e preparam!] sem margem para dúvidas.

O problema da confiança é, pois, um problema sistémico: política mas, sobretudo [tendo em conta a natureza inessencialmente ancilar e instrumental da política no Ocidente neo-liberal de hoje] economicamente sistémico---um problema que decorre inevitavelmente das formas de meta-economicização e mesmo de, a vários títulos, des-economicização encontradas pelo capitalismo contemporâneo para sobreviver.

Tudo o mais não passa de "folclore epissistémico" ou mera epifenomenologia.

Enquanto o não percebermos vai ser muito difíccil mdar o que quer que seja na sociedade à nossa volta.


[Na imagem: foto de Dorothea Lange sobre a Grande Depressão nos Estados Unidos ]

"«Os Eles»" [Texto em construção]


1 de Janeiro de 2011: primeiro dia de um ano que se anuncia negro, marcado pela ideia de 'saque', adoptada, como é sabido e, esgotados todos os outros, como último e desesperado recurso para simular uma política e, por trás dela, um país.

Sempre tive a impressão [com a brevíssima excepção do período a que chamo de "laboratório social" entalado entre 25 de Abril de '74 e o tenebroso dia 25 de Novembro de '75] de que Portugal era um país ocupado.

Uma terra sob ocupação estrangeira.

Com essa maravilhosa mas fugacíssima excepção, sempre dei, com efeito, comigo a falar do poder como "eles": "os Eles".

De Salazar---o 'bafiento e repulsivo objecto cultu[r]al e genético' que com esse nome volta-e-meia lá regressa aos tombos pelo não-espaço/tempo fora à arena dos nossos pesadelos colectivos mais persistentes e que foi o primeiro "Ele" que [graças a Zeus não] conheci---a Sócrates a última das "sete pragas" que politicamente nos couberam, na lotaria da História e do "Progresso".

Vieram, entretanto, o patético Caetano [que nem de ser verdadeiramente mau foi capaz] e uma enfiada de outros "Eles" de muitos dos quais já nem sequer memória minimamente aproveitável ficou.

Há, agora, pois, repito, este tal Sócrates---que, no momento em que escrevo ainda parece mexer politicamente mas que, cá para mim, é um "Ele" com os dias contados, i.e. com a 'ficha' já feita e guia de marcha para um lugar qualquer no Olimpo dos galifões onde, ao que tudo indica, ficará ainda, muitos e... maus, como tantos outros que, de debaixo da asa tutelar da geringonça a que, por uma razão qualquer, hoje teimamos em chamar "governo" e "português", em seu tempo já saíram para as Eurominas, Motas-Engis e sei-lá-que-mais desse fabuloso "rai-que-os-parta-a-todos" que eu e outros como eu andamos há anos a alimentar a pão-de-ló, jurando a pés juntos que temos de fazê-lo a fim de "cruiarmos postos de trabalho" porque "geram" uma "riqueza" a que, de resto, muito poucos tiveram, todavia, até hoje o raríssimo privilégio de pôr a vista em cima.

Mas, dizia eu, que sempre, de um modo ou de outro, tive, a propósito deste "meu" desgraçado país; desta roupa-de-franceses económica e política a que chamamos Portugal, aquela ideia de uma terra ocupada que, mais cedo ou mais tarde, iria ser declarada, como a Roma de Rossellini, "cidade aberta", esgotada que fosse a capacidade de resistência ao invasor dos nativos.

A disponibilidade destes para oporem ao invasor o simulacro de uma [ao menos, possível!] indignação que lhes metesse algum medo---o bastante, em todo o caso, para os fazer pensar duas vezes [eles que só se desviam da sua obsessão milenar pelo dinheiro---a única coisa que parece, realmente, fazer aquelas cabeças produzirem qualquer coisa que se pareça remotamente com um pensamento...---para pensarem em mais dinheiro...] antes de completarem a obra de secar a mina a que parecem, todos à vez, obstinadamente agarrados.

Pois, terá chegado o momento!

O instante fatal do saque: persuadidos finalmente de que o inimigo está vencido, chegou, dos altos comandos do ocupante, a ordem para o saque!

Passou, pois... "o instante do judeu".

O "instante do judeu" é uma velha "private joke" familiar e tem a ver com uma antiquíssima "estória" meio anti-semita [polidamente anti-semita, uma coisa asim muito açucaradamente... dreyffusiana que os "Almanaques Bertrand"---que como os bébés vinham de França, do Papá Hachette a que eu não chegava por causa da língua que o "Français au Lycée" não dava para grandes voos linguísticos---me trouxeram em criança]; uma "estória" lida num daqueles míticos "Almanaques Bertrand" da minha meninice [emprestado por um tio com biblioteca que mos ia pasando um a um, desde o de 1907 o meu preferido, o mais fascinante porque mais sublimemente "arqueológico"] protagonizada por um judeu oculista que ensinava o filho a vender dizendo-lhe: "Quando o cliente escolheu as lentes, fazes o preço: tantos escudos [na altura, eram "réis"] e tantos centavos".

"Se o cliente [na altura era "freguês"] não disser nada, acrescentas melifluamente" [os judeus da minha infância eram todos muito bons a sorrir melifluamente, uma coisa que faziam na perfeição por baixo de narizes aduncos de bruxa macbethiana, de preferência decorados com verrugas a condizer...] "Só a armação, claro!"

Se, ainda assim, o freguês se limitar a acenar afirmativamente com a cabeça, continuas: "As lentes são tantos réis!"

Se, mesmo então, o silêncio anuente persistir, não hesitas e avanças: "Cada lente, claro!"

Sempre sondando subtilmente a reacção da "vítima", vais paulatinamente tecendo a tua teia: "Tantos réis aos quais é preciso juntar, como é evidente, a mão-de-obra, a taxa de importação dos parafusos, o imposto sobre o vidro, o outro imposto sobre o metal, o desconto para o Sindicato dos Mineiros e para a Sociedade Protectora das Tartarugas e por aí adiante até detectares os sinais inequívocos de rejeição que fatalmente hão-de surgir".

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Ignoro se o tal Sócrates é judeu---pelo menos em sentido literal, estrito.

Mas, se não é, à face daquela injustíssima mas perfeitamente instalada ideia de "judeu" [com expressão semântica própria consagrada e tudo] parece.

A táctica que o ocupante [de que ele é administrador-de-posto---e "o outro" régulo e soba confirmado] parece decalcadinha ponto-por-ponto da desses astutíssimos personagens de almanaque onde o anti-semitismo e a discriminação se convertiam mais ou menos reconfortantemente em simpática e bonómica anedota familiar.

Foi ele, ocupante, sempre pé-ante-pé vendo até onde é que podia ir com segurança na estratégia-da-aranha de depenar o país e deixá-lo exangue ["la chegaremos! Lá Chegaremos! Deixem-nos trabalhar!...] e só quando percebeu que podia... ir longe, desfechou o golpe fatal, o "coup de grâce" orçamental---cujo momento, ao que tudo parece indicar, finalmente chegou.

...E tão hábil se revelou a fazê-lo que os "fregueses" [que somos todos nós, portugueses] nem tiveram, como o "almanáquico" cliente do velho Shylock oculista, artes de reclamar com o aparecimento da "conta" final: quando deu por si, já estava comprador e não havia volta a dar à coisa.

Isto de a política ter sido levada; de ela ter descido ao nível de um miserável esquema de venda de colchões a casais de reformados é uma fatalidade nacional---é, como diria um inglês, "it's the story of our lives"...

Não estranha, não surpreende, já nem incomoda: pelo contrário, identifica.

Tranquiliza.

Um historiador, Jacinto Baptista, descreve o 5 de Outubro como [cito completamente de cor] 'uma coisa de tiros na Rotunda e burgueses pachorentos, em mangas de camisa, a sachar paulatinamente pés de couve em Campolide'...

Confirmei-o, hoje mesmo, de manhã: saindo com as minhas cadelas para o passeio diário, abordou-me excitadíssima uma vaga vizinha, gesticulante e rumorosa, que, acercando-se de mim pelas costas, me desfecha bruscamente à queima-roupa: "Estou felicíssima! Ganhou o António!!!"

Ainda atordoado, tento: "O Oliveira? O de Santa Comba? Esse ganha sempre! Mesmo depois de morto nunca deixou de ganhar. De voltar e de ganhar. É o nosso espectro hamletiano nacional, o Benfica da nossa miséria mental e política colectiva!"

"Qual Oliveira! O António "da" TVI! Grande programa! O quê?? Não sabia?! Você não vê?! Mas... em que mundo vive você, afinal??!!"

Se calhar, no outro, D. Teresa!!

Se calhar, morri já e não dei por isso.

Se calhar, isto onde me encontro já não é Portugal, o meu Portugal, o Portugal real, o que, entre Salazares e D. Joões Terceiros a dar com um pau, ainda teve artes e energia para parir meia-dúzia de Eças, uns O'Neis sortidos e alguns Saramagos pelo meio; se calhar, já não é o Portugal do "nós", da desesperada inteligência mas o Purgatório ou o Inferno---o Purgatório ou o Inferno "themselves"!---e V. Excia. um diabinho disfarçado, um enviado de Lúcifer, divindade natural d' "os Eles" todos desta Terra, que vem cumprir o programa diário de tortura a que terei sido condenado por me obstinar em tentar teimosamente resistir ao que parece ser um verdadeiro destino, um autêntico desígnio colectivo nacional: a estupidificação, a mumificação mental em vida, a decadência como projectom ou modo-de-vida e táctica para atingir, um dia, esse inspirado estado de cataléptica graça intelectual, mental, crítica, colectiva que é o "fim", como luminosamente anteviu e titulou António Patrício há quase dois séculos, num apólogo dramático eloquente, hoje piedosamente ["et pour cause"] quase esquecido...

Portugal é hoje, com efeito, um narcótico poderoso, um veneno que embriaga e leva fatalmente à loucura; uma gigantesca coisa de ligar-e-desligar cuja utilidade muito poucos verdadeiramente conhecem já e cujo mecanismo interior dá ideia de se ter avariado de vez ou de estar prestes a fazê-lo; um objecto familiar, caro, no fundo, inexplicável e à sua maneira, por vezes, tragicamente divertido que alguém se prepara para declarar inderdito---e encerrar de vez por falta de utilidade e de viabilidade cívica e mental...

[Na imagem: Eça de Queiroz, extraído com a devida vénia de bnportugal-dot-pt]

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

"Da História e Seus Vértices---Algumas Breves Reflexões Pessoais sobre a Pobreza Hoje"


Há um conjunto de conceitos ou de conceituações de natureza pessoal que uso em geral para reflectir e por cuja introdução no nosso léxico crítico comum venho há muito propugnando---conceitos conceituações entre os quais incluo, começo já por dizer, aqueles dois sobre os quais me proponho fazer incidir as brevíssimas notas e reflexões que imediatamente se seguem.

Falo, desde logo, das expressões "pensar e pensamento orgânicos", sendo o primeiro o verbo [transitivo e intransitivo] e o segundo, obviamente, o substantivo, i.e., a subnstanciação dos actos mentais e críticos contidos no primeiro.

Pessoalmente, acredito que a minha formação marxista me sensibilizou para essa necessidade de, em geral, 'pensar organicamente' o real---algo que entendo, aliás, ser fundamental para dele podermos aspirar vir a possuir "imagens criticionais" [outro item útil de semântica pessoal que me atrevo a avançar aqui...] e "representações operativas" minimamente estáveis e fiáveis com as quais pensar com [lá está!] alguma segurança crítica mínima demonstrável, a realidade.

Ocorre-me trazer aqui ainda uma vez as expressões [e as conceituações!] "pensar e pensamento orgânicos" ao ver no "Diário de Notícias" [na edição de 23.12.10, num texto intitulado "Europa 2020 e pobreza", da autoria de Glória Rebelo] de abordada a questão da pobreza nas sociedades capitalistas de hoje.

Nele, começa a autora por recordar que o ano que agora chega ao seu termo foi por muitio estranho que pareça num ano em que ela se tornou, de forma alargada, política de Estado entre nós, com consagração orçamental e tudo, o Ano europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social para passar, de seguida, a constatar algo que é, de facto, inescondível, evidente, ou seja, a "realidade pluridimensional da pobreza", um eufónico eufemismo para referir algo que a mim, pessoalmente, repito, daquela perspectiva orgânica que utilizo como método de abordagem crítica para pensar, em todos os casos, o real se me afigura, de facto, absolutamente óbvio e incontornável.

A própria autora o diz lucidamente logo a seguir quando fala da necessidade primária de "reformar o sistema financeiro internacional" como pressuposto básico para sustentar com um mínimo de desejável eficácia o tal "combate" de que 2010 era, como comecei por referir, suposto ser o ano: o que deveríamos, como siociedade, estar todos a efectivamente empreender e não apenas neste ano que agora finda contra a pobreza.

O problema é que a pobreza não é hoje uma questão autónioma.

O problema é que a pobreza é hoje uma questão sistémica directamente ligada, como tantas vezes tenho dito, à ruptura nuclear da "ecologia producional" tradicionalmente vigente no Ocidente envolvendo formas objectualmente operativas de estase entre, por um lado, "propriedade" e "conhecimento" e, por outro, decorrente dessa mesma dicotomia primária, as que vigoraram em geral entre o que Marx chamou capital constante e capital variável.

Quer dizer: não é possível pensar hoje a pobreza de outro modo que não seja integrando-a organicamente no funcionamento normal do capitalismo pós-industrial e, por muitos "anos europeus de combate" que contra ela se organizem, não subsiste a mínima hipótese séria de contrapor-lhe alguma resistência minimamente eficaz sem que a consideremos integrada naturalmente no todo que é o edifício institucional e até mental do capitalismo tecnológico e mais: como uma resultante inevitável precisamente do modelo de funcionalização e tecnologização intensiva da produção que subjaz àquele e que, em resultado da própria dinânmica concorrencial primária que o anima [e que ele valoriza de forma expressa considerando-a um estímulo essencial ao seu próprio funcionamento] ele, ainda que o quisesse, em caso algum, poderia descartar.

Resulta im/precisamente, pois, de uma forma disfuncionalmente casuística e in-orgânica de pensar a tese de que a pobreza se pode combater de modo autónomo, isto é, isolando-a do funcionamento não apenas normal como, sobretudo, inevitável do sistema e tomando-a, para todos os efeitos, como um mero epifenómeno de circunstância relativamente a todo ele.

O que eu digo é que não há, de facto um "problema de pobreza" [uma... "question" naquele sentido falsa ou mesmo hipocritamente sério que o termo contém em contextos como o de "question juive"...] no Ocidente, hoje: há um modelo de "desenvolvimento" ou de "volução" global das sociedades pós-industriais que o compõem---um modelo baseado na privatização, por um lado, e na funcionalização intensiva do conhecimento, por outro; i.e. na transformação literalmente industrial dos modos de conhecer ou de cognicionar e representar abstractamente a realidade; de estabelecer com esta laços operativos que são continuamente convertidos em "valor", "valor" esse que acaba tornando-se não apenas o objectivo do "conhecer" como, mais grave, o seu próprio objectivo final

Gerar valor é, com efeito, hoje o projecto nuclear das sociedades capitalistas ocidentais: não apenas do capital---das sociedades onde ele determina a direcção e o sentido da História, no seu todo.

O capitalismo agregou a si, com efeito, as sociedades onde vigora envolvendo-as---usando-as---no seu projecto primário de produzir continuamente capital com recurso a formas intermédias, instrumentais, de produção---de bens de consumo, desde logo.

O grande problema [que nos coloca, de resto, hoje, em meu entender, num autêntico vértice da História] é que esse projecto de produzir continuamente capital [não "riqueza", não "bens": capital!] que, durante décadas, teve capacidade para envolver, genérica ainda que muito des-igualmente, as diversas classes sociais, emergindo à superfície da História, de um modo ou de outro, como um projecto social, político e até civilizacional, em termos objectuais, fundamentadamente comum, deixou, em resultado im/precisamente do modo como o capitalismo tecnológico pós-industrial integrou o saber na História [como uma propriedade ou uma propriedade instrumental destinada a produzir capital]; o grande problema, dizia, é que esse projecto de que falo e que esteve na base da relativa estase social, política e civilizacional, no Ocidente deixou de ser possível a partir do momento teórico em que as formas pré-existentes de equilíbrio entre o conhecimento e a tecnologia concretados um e outro num "proletariado mecânico" cada vez mais inteligente e, por isso, auto-suficiente e a sociedade humana se rompeu conduzindo ao absurdo do que chamo a eszifroneia sistémuica do capitalismo moderno i.e. coexistência impossível da prescindibilidade dos indivíduos como produtores, como proletariado e como capital variável com a respectiva imprescindibilidade enquanto mercado que um Estado falsamente "social" [de facto im/puramente instrumental] deixou [por um conjunto de razões que têm, de resto, tudo a ver, elas próprias, com aquele modo nuclearmente disfuncional de integrar continuamente o conhecimento no modelo económico e, de uma forma mais ampla, na História] de ser capaz de seguir recapitalizando, como até aqui.

Não por acaso, a autora do artigo que comecei por citar junta aos pobres 'clássicos' um tipo novo ["pós-moderníssimo'...] de pobres e de pobreza: não já aqueles e aquela que o sistema colocou nas margens estabilizadas de si, tentando sempre encontrar formas operativas de ultrapasssar aquela impossibilidade objectual que consiste em criar e manter, alimentar, um «des-proletariado sistémico», pago com des-salários de dinheiro público a fim de conservar-se estrategicamente fora do sistema, a montante, apenas reentrando nele como mercado; não já esse mas o próprio proletariado interno, o próprio Trabalho canónico, cada vez mais volatilizado e desfixado para além, obviamente, de mal-pago.

Um 'pensar orgânico' incidindo responsavelmenmte sobre a realidade sistémica do capitalismo pós-industrial dos nossos decisivos dias percebe tudo isto e percebe, em última análise, aquilo que eu próprio comecei aqui por afirmar: isto é, que não há maneira de enfrentar o "problema da pobreza" [com aspas por aquelas razões que atrás refiro envolvendo a in-existência de uma pobreza autónoma, marginal ou circunstancial, relativamente ao modo de funcionamento do sistema económico-político na sua forma actual] fora da consideração da necessidade [de facto, da urgência material!] em repensar desde a base todo o modo de produção e, dentro dele, as formas mais modernas da aliança objectiva das classes que tradicionalmente o faziam mover, tendo por base aquela «prescindibilidade paradoxal» de parte substantiva da sociedade humana para fazê-lo começar a funcionar mas a respectiva contraditória e dicotómica indispensabilidade dessa mesma sociedade para comprar os produtos inertes e pretextuais de que ele se serve para re/produzir capital permitindo que todo o modelo siga sendo materialmente possível.


[Na imagem: foto extraída com a devida vénia de yogadork-dot-com]