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quarta-feira, 19 de maio de 2010

"Por Uma Biologia do Conhecer: algumas Reflexões Pessoais de Natureza---Possivelmente...---Filosófica"


Uma convicção que, há muito, venho mantendo é a de que falta ao nosso tempo ["àquele em que vivemos" e designamos usualmente, muitas vezes, sem muita demonstrável propriedade como "o nosso"] cada vez mais um "olhar orgânico" sobre a realidade em geral e sobre si próprio, em particular.

Deixámos, em resultado da especialização e, sobretudo, da funcionalização tópicas, uma e outra, da ideia de "cultura" [da ideia ou ideias contidas na palavra] de saber produzir e educar, enquanto sociedade, aquele tipo de olhar que a abarca e integra toda numa ideia, numa imagem crítica ou "criticional" única e orgânica de si.

O último grande olhar desse tipo terá sido o que o marxismo [ou os marxismos...] desenvolveram e souberam projectar consistentemente sobre a História e, num plano mais aproximado, como se diz em linguagem cinematográfica, sobre a Política onde ela se origina.

Emergem daí, dessa incapacidade temopral e cultu[r]al para produzir olhares orgânicos certas visões precisamente devido a essa tara do nosso olhar tópico caracteristicamente menos orgânicas e, por isso, imperfeitamente descontínuas e sempre fatalmente parcelares, deformadamente fragmentares de... tudo.

Recordei de um modo particular esta "tara de episteme" dos modos pensar "pós-ideológicos ocidentais" de hoje ao ler, primeiro, uma reflexão de Eduardo Lourenço e, quassee em seguida, uma outra de Ignacio Ramonet sobre o "futuro" das socuiedaes humanas ou coisa que o valha.

De um modo ou de outro, ascho que a ideia básica de ambas as reflexões era desse tipo ou ia nessa direcção e nesse sentido.

Não me recordo [talvez no"Público" onde li a de Lourenço; a de Ramonet é de um livrinho já com alguns anos intitulado "Geopolítica do Caos".

Em ambos os casos, aparece manifesta a perplexidade filosófica perante uma dicotomia que, à falta daquela aptidão cultu[r] al e até civilizacional, para olhar "organicamente" a realidade [manifesta, pelos vistos, até pela própria Filosofia "pós-ideológica mais nobre] se revela, a meu ver, deformadamente parcelar e ilusória---pura "ilusão de óptica epistemológica" ou, como prefriro dizer, numa semântica assumidamente pessoal: "epistemeoforme".

Falo da dicotomia---de uma suposta em, a meu ver, completamente virtual dicotomia---entre "coperação" e "individualismo".

De um modo ou de outro, repito, creio que era aí, a essa visão, a esse entendimento e a essa ptrojecção polares da realidade social que iam dar as análises de Ramonet e Lourenço.

E convergiam ambas numa dúvida comum: vêm aí para a humanidade tempos de "cooperação" ou, pelo contrário, de agudo e dissolutor "individualismo".

Ora, a minha visão pessoal da realidade, o meu olhar "orgânico" [ou que eu quero manter orgânico e que eu imagino que esteja a sê-lo no instante em que lanço eu próprio o meu olhar pessoal não apenas sobre o olhar que Ramonet e Lourenço, por seu turno, projectam sobre a realidade como aquele que eu mesmo autonomamentde projecto sobre a própria realidade] diz-me o meu olhar orgânico sobre ambas essas realidades, olhar e matéria olhada que... não existem nem "cooperação" nem "invidualismo" e que o entendimento da realidade que, desse modo, a partir do que entendo constituir uma mera "ficção epistemeoforme" a segmenta e fractura está condenado ao insucesso teórico, desde o primeito instante!

Na natureza, com efeito, a "cooperação" e o "egoismo", se assim posso referir-me aos comportamentos individuais ou "individuados" que nela operam são muito simplesmente faces de uma mesma única moeda que é aquilo que designo, em termos globais, por "vitação".

Eu vejo a realidade como uma entidade originalmente única, essencialmente material, que se formou a opartir de um único ponto teórico de si a que chamamos vulgarmente o 'big bang'.

Daí decorre que, num certo sentido teoricamente argumentável e até demonstrável, toda a realidade "é expandir-se", é expansão e dissolução.

Daí decorre teoricamente por seu turno que tudo quanto existe vai buscar explicação e fundamento na expansão que sofre ou que, se assim preferirmos dizer, protagoniza ou medeia.

Ou seja: que a "essência" das coisas não se acha verdadeiramente elas mas naquilo que nelas é expansão e alargamento e que elas, de facto, medeiam.

Se limitam a mediar.

Medear a expansão é, nas formas pré-conscienciais de "vitação" ou "bios" aquilo que as liga à própria estrutura e "essência" do real como todo e as conserva "orgânicas" nesse sentido de permanecerem ligadas entre si e ao real.

Há, porém, um 'instante teórico' e 'decisional' da História ou do curso expansional da realidade em que, por imperativos de estrita funcionação, o real se vê forçado a cindir-se para melhor se negociar e adaptar internamente ao seu próprio movimento expansional.

Inicia-se desse modo um movimento secundário de fragmentação funcionante ou individuação operativa da matéria que se vai continuamente secundarizando, terciarizando e por aí adiante até que chegamos às formas aparentemente autónomas de conscienção que parecem situar-se já completamente fora dessa lógica puramente expansional contínua e naturalmente negociada consigo própria [e dentro sempre de si própria] que foi a da realidade até um dado momento do seu curso específico e particular.

De facto, tal como eu a vejo, a realidade está por natureza "condenada" a desintegrar-se: des-integrar-se é a um tempo a única solução e o único problema sem... solução para a própria expansão natural da matéria.

É uma soução que é o ptroblema e um problema que é a sua própria solução.

Há---sempre me pareceu---um paradoxo matericial nuclear, um erro nuclear potencial na própria estrutura da matéria, no ponto teórico exacto em que esta se encontra com o seu próprio movimento expansional que é a prazo insusceptível de ser contido e continuamente resolvido e que há-de fatalmente conduzir ao fim da realidade, tal como a concebemos.

A realidade consegue, com efeito, ir negociando internamente a sua própria expansão, o des-encontro teórico entre movimento e identidade ou estrutura matericial através da sua própria projecção contínua em anisotropias reintegráveis, destemporalizações e retemporalizações funcionantes de si mas apenas até um dado ponto ou instante teóricos e re-estruturacionais de si---a partir do qual a matéria no seu todo se torna absolutamente insolúvel e deixa de ser capaz de conter---porque deixa de ser capaz de conter---as suas sucessivas destempralizações ou retemporalizações funcionantes.

A matéria torna-se objectual e demonstravelmente in-orgânica.

Eu creio mesmo que a "consciênciação" [que consiste na re-nucleação quase integtral da matéria em seres, por sua vez, quasi-autonomamente auto-representáveis como nós próprios, seres humanos] é já claramente um momento angular ou verticial decisivo de desintegração objectualmente irrecuperável da matéria e é nesse exacto sentido teórico que eu digo que a consciência é, no fundo, o primeiro e determinante crime ecológico cometido por essa entidade puramente aparente ou aparencial que é a a natureza sobre si mesma.

No preciso sentido em que fragmenta e descontinua por completo o real e a sua lógica expansional orgânica até aí mantida íntegra ou integradamente funcionante.

Quando falamos de "coopperação" e de "individualismo" ou até "de egoísmo" é tudo isto que temos de ter presente.

Os indivíduos tal como os concebemos na sua forma conscienciada e consciencial aoparentemente autónoma originam-se de individuações funcionantes que começaram por ser criadas pela matéria ao expandir-se para melhor se ajustar ela mesma à sua expansão.

Não começam por ser algo exterior e até concorrente com a matéria e a [sua] realidade.

Só quando se tornam capazes de reiniciar, em termos amplos, latos, continuamente formas selectas, fragmentares e até concorrenciais de realicidade segundo um tempo ou uma temporalidade próprios passa a ter de pôr-se o problema até aí inexistente de articular aentre si e inter-resolvê-las as lógicas objectualmente divergentes da "consciência", por um lado e do próprio real, por outro.

Quando, voltando um pouco atrás, a matéria pré-consciencial se individua, as formas que ela gera possuem ainda uma lógica global que as conserva, embora materialmente extrínsecas, funcionantemente íntegras.

Elas não cooperam: medeiam objectualmente a matéria, a estrutura material ou matericial que ainda são.

Só quando formas já para-identitarizantes ou pré-identitárias funcionantes auto-representáveis, animais, de fixar autonomanente as funções de mediar a matéria segundo uma dimensão temporal-realicional que já não é a da matéria no seu todo se constituem é que a questão da cooperação se começa a pôr.

Na realidade, ela "cooperação", como categoria de realicidade ou da realicidade em si não existe: num certo sentido orgânico efectivo, ela configura, de facto, um mero eco aparencial puro, um resíduo puramente projectivo [é assim que temos de vê-la se queremos entender a sua génese e a sua natureza reais] da própria natureza originalmente orgânica da matéria que, entretanto, se des-integrou já de tal modo que não consegue identificar-se a si mesma já como todo.

Mesmo entre as espécies animais, a "cooperação" e o "egoísmo" cruzam-se, na realidade, de tal modo que, num certo sentido teórico limite, se confundem.

O animal nasce do desejo da matéria de conservar-se objectualmente possível ao longo de todo o seu próprio movimento de expansão.

Ele não nasce para ser: nasce para... "esser", isto é, nasce com um vínculo funcionante perceptível à matéria de que é constituído e que emerge para mediar.

A matéria como todo possui, diria eu, uma lei básica e/ou uma obrigação atómica ou molecular estrita primária que que é continuar-se.

Muitas vezes, à falta de melhor termo, tenho falado numa "propriedade continuacional básica e essencial/essenciante" da matéria que é, afinal, uma mera mutação do movimento que lhe foi imprimido na origem.

O que chamamos o "instinto de sobrevivência" dos animais que leva a matéria essente a cooperar consigo mesma é, afinal, a aplicação simples daquela "lei" ou "propriedade básica" da matéria, uma mutação funcionante desse dever da matéria consigo mesma de conservar-se, enquanto lhe for objectualmente possível, íntegra e orgânica.

Quando, entre os animais, há "cooperação" [ou entre os humanos "solidariedade"] aquilo que, na realidade, existe é a cooperação [são transmutações ecoantes] da matéria consigo própria; ecos funcionantes do próprio movimento ou do próprio desejo molecular de a matéria permanecer íntegra que perderam a percepção original do seu seu próprio centro matericial fundamentante e que continuam a ser secundária, terciariamente realizadas pela matéria, cada vez masis unida a si própria apenas pelos seus ecos funcionantes ou pela forma geral das suas propriedades e/ou atributos genéricos ou performações mutacionais em abstracto.

Ou seja: só olhando o mundo e a realidade desta perspectiva orgânica se percebe aquilo que eu designaria pela vocação integrativa original e natural da realidade e/ou a sua natureza, de alguma forma, rigorosamente geométrica [eu chamr-lhe-ia: demonstravelmente concêntrica] e estruturalmente dinâmica .

Se lhe percebem os fundamentos e as "leis" que a determinam e, num certo sentido muito preciso, animam---e, sobretudo, explicam.

Não basta, com efeito, para explicar a realidade equacionar as respectivas aparencialidades secundárias: é preciso tentar captar-lhe a lógica global, perceber como ela opera ou é teoricamente possível que opere e concentrar, a partir daí, dessa base biomórfica determinante, então sim, na reflexão abstracta quaisquer esforços de enquadramento e contextualização teórica posterior do real já que não é possível haver uma Filosofia e um filosofar contra a Ciência e o cientizar...


[Na imagem, "Mausolus", mármore, c. 350 a.C. British Museum, extraído com a devida vénia de sweetpickles-dot-com]

sábado, 1 de maio de 2010

"Da vocação natural da matéria para a dissipação como fundamento último de «Realicidade»"


Muitas vezes tenho aqui falado de "sociedades" e/ou "societações" inorgânicas, umas e outras, associadas à ideia global de "Pós-modernidade".

Devo, talvez, esclarecer que pessoalmente alimento a crença de que as origens ou as raízes do 'social' penetram fundo na própria estrutura mais imediata e mais intrinsecamente material da realidade e aí encontram, afinal, em última mas real instância, a sua 'explicação' e, sobretudo, o seu 'fundamento' último.

Estou, desde logo, muito concretamente persuadido de que, estando na própria base, no próprio núcleo, na génese mesma, da nossa imagem teórica [da minha, seguramente!] de real a ideia [e o princípio] da dissipação e/ou da des-integração contínuas e irreversíveis da matéria no espaço, é teoricamente possível que os paradigmas de "societação" formados na História, pelo menos a partir de um dado ponto dessa mesma desintegração, estejam adequadamente condenados, pela própria natureza a um tempo única e finita do real, a possuir características de inorganicidade em tudo análogas àquelas que marcam o próprio real no seu todo [o real enquanto matéria] gerando-se assim aquela fenomenologia particular a que atribuo a designação muito concreta e precisa de Pós-modernidade.

Acredito, pois, dito de outro modo, numa Biologia [e numa mineralogia e numa astronomia, numa Matemática etc.] do social; acredito que a capacidade do real para permanecer uno reintegrando continuamente em si as anisotropias que a partir da matéria original se foram formando é ela mesma limitada, havendo um ponto teórico a partir do qual a matéria em cada forma particular se desencontra atómica ou molecularmente de si própria e se torna activamente plural---daí derivando, aliás, aquela "lei" ou "princípio" geral da realidade que se encontra na base da inorganicidade enquanto fenómeno natural que diz que, tal como tem "horror ao vazio", a realidade e a matéria da realidade têm "horror ao demasiado grande".

O movimento natural da matéria dobrando-se continuamente sobre si própria e [como dizer?] "puxando atomicamente, em contínuo, para o seu próprio passado" a fim de conservar-se coesa choca, a meu ver, com o modelo por ela paradoxalmente escolhido para "evoluir" ou, como prefiro não-argumentativamente dizer, "voluir" ["voluir" é tornar-se "funcionantemente plural", é reindividuar ou renuclear, é gerir a expansão---e a inevitável dissipação da matéria que a acompanha---ganhando formas que a cada uma delas se adeque].

Reside, a meu ver, aí nesse desencontro [inevitável em face da natureza própria e intrínseca da realidade] entre a vocação ou o 'instinto' naturais da matétria para permanecer coesa e a necessidade de se 'adequar funcionantemente' à própria dissipação a explicação e o fundamernto para a minha asserção da impossibilidade nuclear da matéria.

Muitas vezes tenho afirmado, com efeito, que, em meu entender "a matéria é em última análise, impossível", isto é, que ela é "uma impossibilidade material em si mesma" querendo, com isto dizer, que a pressão de sinais completamente contrários a que está sujeito o real enquanto matéria---pressionado, por um lado, pelo que designei pela sua vocação ou instinto naturais para a coesão e, por outro, pela necessidade estrutural [seria mais adequado dizer: des-estrutural] de acompanhar-se continuamente a si mesmo enquanto movimento expansional puro; muitas vezes, tenho afirmado, dizia, que sujeito a este sistema de pressões de sinal contrário, o real está a prazo condenado à sua própria impossibilidade teoricamente demonstrável a partir do tal ponto teórico em que deixa de ser capaz de reintegrar a rede anisotrópica criada paradoxalmente para possibilitá-lo passando a integrar, sim, a própria dissipação por resolver.

A minha tese, falando especificamente do social é que a expressão justamente social deste fenómeno de irresolucionabilidade é a Pós-modernidade, aquele ponto da História das sociedades em que estas deixam de ser capazes de rever-se num único ponto projeccional das suas aspirações colectivas mais estáveis e tópicas---um ponto que, num determinado plano cultu[r]al foram as elites e, noutro institucionalmente mais concreto e definido que foi o que chamo o "Estado consciências" moderno.

Que a Pós-modernidade tornou o Estado, para todos os efeitos, impossível parece-me evidente; agora, que esse fenómeno se prende com a própria estrutura material da realidade reflectindo-se numa das suas componentes cultu[r]ais maqis representativas---o domínio do social---eis o que pode, em tese, constituir uma novidade que aqui deixo na forma de uma hipótese de epistemologia ou olhar teórico global e, sobretudo, orgânico sobre o próprio real.


[Na imagem: "Plato's Cave", escola flamenga]

sábado, 24 de abril de 2010

"A História tem Futuro?"


Um texto muito interessante [sobretudo pelas possibilidades de análise e reflexão que oferece] é o de José Vítor Malheiros, intitulado "A angústia do jornalista perante a Internet", dado à estampa no "Público" de 26.01.10.
Sobre a tal "angústia" do título julgo poder concluir que incide sobre uma certa "prise du pouvoir" [e não utilizo gratuitramente a expressão, note-se!] informativo ou talvez mais exactamente "informacional" pelo... "povo" facilitada ou mesmo induzida pelo aparecimento da Internet e prenunciadora de uma certa previsível morte do mediador cognitivo qwue era o "velho" jornal
Angústia é, também, a dúvida deste sobre "o que fazer" [outra expressão nada gratuita, no contexto e com a intenção com que a utilizo aqui...] relativamente à previsibilidade dessa "morte": como reconverter-se a fim de acompanhar essa circunstância em que a realidade se deforma drástica e sobretudo significadamente e modos completamente novos de lidar com ela se tornam, por isso, imperativos.
Ora, a verdade é que, sem ser de uma perspectiva imediatamente profissional e até corporativa, digamos assim, o que José Vítor Malheiros diz---o conteúdo do seu depoimento, a essência do seu testemunho---ao contrário de angústia parece poder sobretudo despertar esperança e optimismo.
Porque é, aparentemente, de uma "prise du pouvoir" directa que o artigo fala.
Desde há muito que um dos males básicos, primários, das sociedades ditas "de consumo" [a que, eu próprio, por razões que detalho noutros lugares, prefiro designar por expressões como "de endocolonialismo secundário" consiste, precisamente, no modo como as sociedades humanas aceitaram prescindir [negociar conm as formas do respectivo poder económico e político] as modalidades de acesso cognitivo à realidade e, com elas, a possibilidade efectiva de a transformarem, como preconizava Marx.
Há muito que, pondo a questão de outro modo, as sociedades "endocoliniais sdecundárias" tinham aceitado negociar com o poder ou poderes políticos que aceitam e reconhecem a propriedade dos meios de produção de representações estáveis da realidade---a propriedade do próprio Conhecimento e com esta a do Conhecer.
É neste sentido que se pode dizer que a expressão política institucional adequada deste modo de aceder ao real, a chamada democracia representativa, configura, wem si mersma, tal como se apresenta hoje, primariamente um meio de ancorar [para não dizer: acorrentar...] a História a si própria impedindo-a de se deslocar e, por conseguinte, de ser verdadeiramente uma História.
Assim sendo, pareceria mais ou menos claro que um "medium" que elidisse um dos diversos "intermediátrios" ou "revendedores de realidade" dos muitos que o endocolonialismo comporta e de que ele é feito, mais do que qualquer 'angústia'; em vez de angústia, devesse gerar, como atrás digo, optimismop e expectativas risonhas de "libertação da sociedade" de uma das peias institucionais que sobre ela actuam, hoje.
Ora, eu creio, sinceramente, que pensar assim seria aceitar protagionizar um novo equívoco semelhante àquele que consiste em pensar que há democracia numa sociedade [como a portuguesa de hoje, por exemplo] pelo simples facto de nela existirem eleições e um parlamento.
Eleições e um parlamento [como a Internet] constituem "alfaias ou instrumentos de democraticidade", não a própria democraticidade.
Existir uma Internet que compete com as formas tradicionais de "mediaticidade" não significa, só por si, que aquela que é a grande característica [e o principal problema!] das societações pós-modernas---a inorganicidade---seja automaticamente resolvido.
As "societações" de hoje são societações in/essencialmente inorgânicas: tornaram-se inorgânicas quando aceitaram negociar com o poder, consigo mesmas e com a própria História também o conceito de 'Estado consciência' que constituía o suporte e o específico filosófico mesmos da ideia civilizacional de Estado-nação.
Hoje, com efeito, as sociedasdes não apenas se tornaram estável e topicamente incapazes de auto-representar-se reconhecivelmente num Estado [numa... "estaticidade"] que seja o depositário ou a depositária de um conjunto de valores nos quais a comunidade se reveja como, sobretudo, assentaram ou deixaram que passsasse a assentar nessa recusa todo um modelo dito "civilizacional" onde ela passou absurda e disfuncional---suicidariamente, diria eu...---a "valor".
Eu tenho, devo dizer, da "natureza da realidade", em termos filosóficos genéricos, amplos mas também, simultaneamente específicos [não há qualquer contradição ou paradoxo nesta formulação, juro!...]; eu tenho, dizia, dessa possível e filosófica "natureza do real" a ideia de que a sua "explicação" e o fundamento de tudo quanto existe se acha na dissipação de que ele é concretação e o próprio curso.
Tudo no real se explica pelo modo como se acha materialmente forçado a dissipar-se e a des-integrar-se continuamente.
As sociedades pós-modernas e a "Pós-modernidade" em geral mais não são do que expressões organizacionais da dissipação.
O grande problema é que as sociedades de hoje deixaram de ser capazes de transformar a percepção da natureza instável e naturalmente in-fixa da realidade enquanto idea, enquanto imagem filosófica e crítica ou "criticional" de si, num modo de lidar com a própria des-integração, de transformá-la em Conhecimwento e reinvesti-la pontualmente nos paradigmas estáveis e tópicos de vivê-la.
Angústia?
Sim mas dessa natureza [ou desse "estádio"] inorgânico do pensamento a que teremos chegado como "civilização" e que não nos dá grandes esperanças de durabilidade, isto é, de futuro para a própria História...

sábado, 17 de abril de 2010

"Do Pensar Dicotómico Enquanto Ponto-de-Vista Teórico Sobre a Realidade"


Sempre considerei, confesso, um certo paradigma mais ou menos corrente [e, admissivelmente, em muitos aspectos, 'instintivo'] de "pensar dicotómico" que encontro documentado nos mais diversos sectores das sociedades, desde o que terá, para muitos, oposto Shakespeare a Marlowe na Inglaterra isabelina àquele muito mais recente que forçava uma boa parte da classe média-baixa caracteristicamente embrutecida do anterior regime a "optar" entre uma certa Madalena Iglésias e uma certa Simone de Oliveira numa espécie de paródia ainda mais provinciana e bacoca da que obrigava a análogas "escolhas" entre divass operáticas, algumas "de mera importação" na não menos campónia e pós-rural Lisboa de Oiotocentos.

Sou, porém, devo dizer, um 'crente' na utilidade possivel deste mesmo modelo de pensar dicotómico, usado com critério e conservado sempre na estrita [e dinâmica] condição de perspectiva ou ponto-de-vista dialécticos [e] instrumentais, sobre a realidade.
Creio, como já por diversas vezes, tenho dito na natureza [e, inclusive, no fundamento, infixo e especificamente expansional] da realidade e acredito, por isso, que apenas modos permanente dinâmicos e, de igual modo, infixos de abordá-la dispõem de alguma possibilidade teórica de "percebê-la" e, seja para que efeito e com que profundidade for, posteriormente representá-la.

É, desta perspectiva tética de princípio, que sou, devo dizer... "picassista" e "anti-daliísta".

Conheço razoavelmente a obra de ambos os artistas Picasso e Dali; fiz, tanto quanto a carteira e o tempo mo permitiram, os "percusos" respectivos de Málaga a Paris, no caso de Picasso, envolvendo aventurosas peregrinações a Cadaquès e a Figueres, no de Dali, tenho, com a superficialidade relativa do mero amador, frequentemente---num caso como noutro, por muito estranho que, perante aquilo que disse, possa parecer...--- "embasbacado", admito [e assumo!] pontos-de-vista pessoais sobre o talento quer de um quer de outro e, no fim [de facto, no princípio!] tornei-me, então, "picassista".

Só que, como disse, me tornei dialecticamente "picassista", tal como tento sempre que seja dialéctico o modo cvomo me torno qualquer coisa.

Fascina-me [é o termo!] o surrealismo daliano!

"Un Chien Andalou", feito de---empolgante! Intelectual e cultu[r]almente gigantesca!---parceria com Buñuel é, para mim, uma referência cultural e aqui, também abertamente cultual, 'absoluta'---se o modo como topicamente penso o mundo tolera e integra "absolutos"; delicio-me [empolgo-me interiormente!] com a "estória" que dele se conta de que um dia terá, na apesar de tudo conservadoríssima Catalunha do século em que nasceu, ido com um grupo de amigos e amigas nadar nu nas águas do mar fronteiro a Cadaquès e que, afrontado pelo pai que, escandalizado, verberava a "orgia", se terá deliberadamernte masturbado e lançado o sémen à cara do pai dizendo qualquer coisa como: "Toma! Aí tens o que te devo! Agora sou livre!"

Conheço, de facto, poucos instantes simbolizadores de um grito interior de... "sublevação edípica", real ou mítica, factual ou premeditadamente inventada---para o caso... a ideia é tão dalianamente brilhante que a verdade é aqui, em definitivo, de tudo, o que menos interessa!---mais geniais e definitivos do que este.

Só que [e, por isso é que eu, no fim, opto sempre por se assumir como "dialecticamente picassista!"] de algum modo "Dali acaba aqui", precisamente, na ideia ou no papel de Dali.

Dali é, para mim, com efeito, muito mais isso mesmo: a ideia de um Dali, o projecto global de um Dali---servido embora por uma técnica soberba, magnífica!---do que propriamente um Dali.

Deste ponto-de-vista, ele goza, de resto, de um mérito verdadeiramente único: o de desafiar a cultura a existir, o de forçá-la mesmo a existir.

O de 'encostar a cultura às cordas' e... possibilitar os Picassos, criar as condições essenciais para que haja Picassos.

Os Picassos que são, no fundo, quanto Dali não conseguiu ser: "apenas e só" um [extraordinário] Artista.

Há, no "Musée Picasso" em Paris uma "escultura", uma cabeça de touro, feita com... um selim de bicicleta onde está, no fundo, todo o Picasso, todo o imenso artista, o visionário total, que é Picasso.

Picasso não "teve tempo nem feito" para interpelar e desafiar a Arte: foi Arte.

A sua cabeça, os seus olhos, eram a Arte---que de um e outro, no limite, não se distinguiam.

Não precisou de "encenar" o olhar estético: ele de/corria nastural e instintivamente do seu próprio olhar individual.

Dali era um homem estruturalmente desprovido de imaginação, sempre o considerei.

Teve a inestimável felicidade histórica, epocal, de apanhar pelo caminho um surrealismo que lhe permitiu "colar" directamente o imenso talento manual que possuía a uma criatividade enormemente imperfeita e francamente discutível.

O surrealismo possibilitou-lhe o reconhecimento e o triunfo utilizando simplesmente o delírio [por vezes---ao contrário da sua própria ideia de que ele seria estimulante e profanador---apenas desagradável] como um sucedâneo eficaz da imaginação de que, insisto, era completamente desprovido.


E no entanto...


E, no entanto, "se não fosse" Dali não seríamos, talvez, capazes de situar, equacionar, perspectivar, fruir em pleno, apreciar exactamente o verdadeiro, o genuíno talento artístico---de Picasso, desde logo, mas o próprio conceito de talento artístico.

Claro que, no limite, deste cada um de nós tem o seu próprio.

O que eu digo, porém, é que, próprio ou não, ele teria seguramente muito maior dificuldade em estabilizar-se apropriadamente em fixar-se [se é que coisa alguma, na realidade, se fixa ou, fixando-se, funciona a partir daí, adequadamente mas enfim...] sem esse tipo de cruzamento ou de exercício ideal de aferição dialéctica constante que a "oposição" entre Dali e Picasso, tal como a vejo, permite.

Dali tem, como digo, o grande mérito de ter sido dos últimos artistas europeus [a América, como se sabe, não existe...] a funcionar como "consciência"---estética mas, de igual modo [muito por absurdo, aliás!] ética de uma sociedade que, daí para cá, deixou desgraçadamente de possuir "indutores conscienciais", individuais e, sobretudo, colectivos [uma intelligentsia estável] própria e estável que a reflectissem e permitissem que ela, no fundo, se fosse [como dizer?] refractando continuamente a si própria e, refractando-se, desse modo, se fosse, afinal, possibiltando a si mesma, sempre ulteriormente.

Isto é, que ela permanecesse, nessa espécie de "jogo especular consciencial" verdadeiramente inestimável e, de mais de uma maneira, "cúmplice" que jogava com os seus artistas e intelectuais, orgânica.

Que é algo que "Cultura" deixou, talvez definitivamente, de ser até hoje.

A propósito desta "metamorfose da cultura" e da própria identidade eu costumo falar, julgo que com adequação e fundamento, de sociedades [ou "societações"] "da tradição" ou ainda "verticais" ["trickle-down societatations"] e "sociedades/societações horizontais" ou "shedding societations".

Não cabe agora aqui retomar detalhadamente tais conceitos [de matriz freudiana admissível: conceitos como os meus próprios de "estruturacionalidade e substanciação edípica" cunhados a partir de Freud são-lhe fácil---mas não "facilmente"...---aplicáveis]; cabe sim perceber o nexo primário, essencial, que existe em toda esta fenomenologia da dissipação ontológica e cultural chegando a ela como conceito teórico justamente a partir das respectivas circunstâncias incidentais mas, em caso algum, acidentais.

E essa é que é precisamente a questão: a questão é, à medida que o própruio real no seu todo se vai tornando "naturalmente inorgânico" que consigamos nós mesmos que o olhar se sobre ela lançamos não caia ele próprio na tentação de tornar-se inorgânico.


[Na imagem, Pablo Picasso, "Guitarra"]

sábado, 10 de abril de 2010

"Subsídios para uma História Natural da Realidade: algumas reflexões pessoais" [Por rever]


Dizem-nos os fisiologistas, biólogos, médicos ou que quer que seja que não-sei-quantos por cento do nosso corpo é composto por água.

De fisiologia, biologia o que quer que seja pouco mais sei do que aquilo ou do que aquela que uso diariamente no gasto regular.

Mas em termos abstractos e recorrendo à equação fisiológica referida, eu diria que outros tantos por cento da consciência humana são compostos de infixidez---mutação secundária do movimento puramente expansional que está na origem última do que chamamos "realidade".

A minha tese nesse âmbito da génese e fundamento do real é muito clara e podetria ser expressa deste modo sucinto:

a) todo o real é movimento;

b) todo o real é movimento de e explica-se, no limite, pelo seu próprio centro;

c) o real é, por definição, original e, por conseguinte, naturalmente íntegro;

d) todo o real tende, por isso, de forma natural, a reintegrar-se continuamente a si mesmo à medida que se expande;

e) A "consciência" interrompe estrategicamente o real, desdobrando-o [de facto, des-integrando-o criticionalmente] em puras "imagens" teóricas de si;

f) a consciência é a forma "perfeita" de "anisotropia" presidindo ao "reagrupamento anisotrópico" da matéria que está na origem do "segundo real" ou "para-real consciencial" puro que nós próprios somos.

g) o real "está errado" a partir do momento em que "consciencia" ou, como costumo dizer, se "reagrupa ["reassembles itself"] secundariamente numa pura hipótese ou teoria sistémica de hipóteses puramente teóricas e abstracta de si;

h) devido à própria natureza expansional-funcionante do real, a "consciência" não configura, ao contrário daquilo que somos vulgarmente levados a admitir, um objecto contendo o seu próprio fundamento e explicação [o seu próprio "centro" estável e independente] mas uma pura técnica que do ponto de vista estruturacional se explica, ainda e sempre, em última instância, pelo movimento.

i) É, na realidade, apenas a "expressão funcionante" do movimento original.

O seu único limite teórico, a sua "circunferência possibilitacional", digamos assim, é a aptidão própria para mutar-se continuamente em "infixidez funcionante";

j) da natureza estrutural do real, deriva, de igual modo, a conclusão de que o "futuro", tal como vulgarmente o supomos, não existe: o único futuro da realidade situa-se no seu próprio passado.

k) quando digo, não existe, não me refiro ao facto de ele "ainda não ter acontecido": quero dizer algo incomparabvelmente mais profundo e relevante que é que a ideia de um futuro não é naturalmente representável ou naturalmente concebível, nem mesmo como atributo ínsito imediado por qualquer forma de "percepção" ou "reverticialização funcionante" de um tipo análogo, pela própria matéria, como tal.

De facto, a matéria explica-se sempre, em termos composicionais, pelo/a partir do seu próprio "passado" e pelo modo como este é continuamente reintegrado em si pelo impacto da hipótese funcionante-"presente", i.e. pela possibilidade puramente teórica da existência e mesmo da "presença" de um "presente".

l) neste [e em todos os sentidos, de facto] o real, a matéria, "caminham sempre continuamente para o seu próprio passado".

O 'futuro' dos objectos é uma mera forma puramente teórica de integrar contínua e funcionantemente o 'passado'.

m) se ao real retirássemos as anisotropias que o compõem ou 'povoam' obteríamos a "recta perfeita": em si mesma inexistente poréma deslocando-se ininterruptamente a partir de um ponto teórico remoto que é a sua "explicação" e o seu efectivo "futuro".

n) se lográssemos proceder a esse esvaziamento limite do real, libertando-o de todos os acidentes que o compõem, perceberíamos finalmente qual a natureza autêntica da realidade, o "graal" da única ontologia acreditável que é a que se obtém ligando a ciência à filosofia, radicando e disciplinando, assim, idealmente esta de modo a conferir-lhe a possibilidade efectiva de cumprir o seu trabalho que é precisamente "explicar acreditavelmente o real".

o) não podemos esquecer, ainda assim, que as armas de que diospomos nos são fornecidas pela própria realidade e que, por conseguinte, com ou sem ciência, elas estão semptre, por definição, muito mais disponíveis para se porem ao serviço da própria matéria do que da "consciência" que não passa, como vimos [e devemos ter sempre presente!] de uma mera projecção ou "especularização funcionante" puramente teóricas da própria matéria.

Num certo sentido muito limitado, de um simples 'atributo funcionante' desta.

p) a causalidade, por exemplo, não passa de uma mera hipótese teorética ligada enquanto ideia incomparavelmentre mais à conscviência que temos ou fazemos das coisas do que às coisas propriamente ditas.

De facto, se não houvesse movimento, a causalidade não existiria ela própria porque ela é movimento.

Não uma ordem mas um movimento.

É claro que havendo objectos "ao alcance do" movimento estes tendem a dispor-se por uma certa ordem ou sequência.

A ordem porém não representa ela mesma um "dever", naquele sentido impositivo e quase "moral" que muitas vezes quando nela pensamos, lhe atribuimos; tal como eu a concebo, a "ordem" no real [e a "causalidade" dentro dela e como forma por ela pontualmente assumida] uma mera disposição, na in/essência, puramente espacial dos objectos; uma simples geometria animada, movida do exterior pela conjunto do real em contínua expansão/desintegração [e des-integração] em caso algum, um "dever" de natureza abstractamente, mesmo de uma forma muito remota, "moral".

p) eu defendo, asliás, que é necessário rever radicalmente a nossa ideia de "moral".

É esencial que reportemos sempre qualquer modelo ou qualquer paradigma de 'moralicidade' à matéria e à sua deslocação contínua no espaço, que é como quem diz: à sua deslocção através de si mesma.

A 'moral' não passa, em meu entender, de uma secundarização ou terciarização puras de informação funcionante vinda da matéria que se abstractizou, acompanhando a desintegração do conjunto do real, a tal ponto que parece autónoma relativamente aos seus própruios fundamentos materiais.

Se queremos perceber a natureza da moral, temos, assim, de proceder quase como Platão---mas exactamente ao contrário, isto é, concebendo o mundo dos "arquétipos" [ou, como poderímos também designá-lo: das puras "idealidades"] como situando-se, enquanto "abstractização residuante" do funcionamento tópico e natural do real, inertemente depois deste e/ou para além ["jenseits"] deste.

A moral, tal como eu próprio a vejo, configura, de facto, uma mera "descarga crítica ou criticional" puramente residuante da acção da consciência.

Não é um código substantivo, é um mero "resíduo sobre-funcional" de "conhecimento" que renucleou numa meta- ou numa a-ciencialidade autónoma [lá está!] por mera residuação inertizada da acção primária, efectivamente relevante, do próprio real.

Há, pois, numa palavra, uma "ecologia" e uma "filobiologia" da "moral" que tem de ser, sempre e em todos os casos, considerada.

Tomemos a ideia de "solidariedade", por exemplo.

Eu diria que a esmagadora maioria dos indivíduos que compõem a humanidade e que pregam a "solidariedade" não possuem uma noção minimamente apropriada e excacta da "coisa-solidariedade".

Na verdade, ela não passa de uma expressão do que chamo o "princípio continuacional de toda a matéria" que tem que ver, em tese, por sua vez, com leis físicas tanto quanto sei ainda incompletamente entendidas mas que presidem à propriedade ou à acção coesiva da matéria sobre si própria que impede as formas demasiado imediatas de desintegração da mesma.

A minha tese é que este princípio sofre uma mutação [insisto: "todo o real é, em última instância, rigorosamente concêntrico" o que explica a sua vocação natural para conservar-se "orgânico"---é um dos princípios que defendo para tentar descrever e explicar a natureza última do próprio real]; a minha tese, dizia, é que este princípio sofre uma mutação quando o real passa pelas primeiras formas de "individuação funcionante" que caracterizam o seu curso global e passa a operar entre os indivíduos mediadores da espécie no mesmo exacto sentido em que actuavam as forças coesivas originas.

É preciso, porém, entender que, na lógica natural, os indivíduos não respondem, de facto, uns perante os outros senão num sentido meramente prático e/ou funcionante: eles respondem realmente perante a matéria que os compõem e da qual eles ooperam como simples mediadores ou "agentes".

Trata-se, pois, não de uma exo-funcionalicidade mas, exactamente ao contrário, de uma endo-funcionalidade que tem tudo a ver com aquela ideia de o "futuro" da matéria se achar, de facto, "atrás", não "à frente", dela e de o real tender sempre para reencontrar a organicidade perdida [e achar sempre formas sucessivamente secundarizadas, terciarizadas, etc. de expressar essa "vocação"] mesmo quando separado dela pelo seu próprio movimento ou pelas dinamias funcionantes que gera, digamos assim.

Interrogo-me mesmo sobre se um certo folclore cultural ligado a ideias como as de "âge d'or", "paraíso perdido" ou até a algum platonismo e neo-platonismo não devem poder ser explicadas por esta espécie de "nostalgia molecular" que tivesse encontrado o caminho para as formas já conscienciais e conscienciadas de a matéria se expressar, aí tendo ficado abstracta mas, também e sobretudo: naturalmente, retidas.

É seguramente uma hipótese teórica de aprofundar o nosso conhecimento dos fundamentos da realidade.


[Na imagem: René Magritte, "Le Double Secret", 1972]

sábado, 20 de março de 2010

"«Por uma Sexualidade Não-repressiva nem Repressora»---fragmentos de um manifesto a organizar"


Insisto: é completamente errada a identificação que invariavelmente nas culturas modernas e pós-modernas se faz entre pornografia e sexo---ou sexualidade.

A pornografia não está no conjunto de actos que consubstanciam a relação sexual: está no uso in-justo, iníquo e opressor desses mesmos actos; está na projecção, de um modo ou de outro, activa de padrões de dominação literalmente colonial sobre eles---que é uma coisa muito diferente.

Vista deste prisma específico, a pornografia estáb longe de se restringir ao domínio específico da sexualidade.

Há diversaas pornografias particulares que vão da religião ao cinema, por exemplo [basta considerar o que se vende hoje nas televisões, de uma maneira geral]: há uma pornografia da estupidez, da fealdade, da má política e das más políticas---e há uma que a um espírito instintivamenmte libertário [e mesmo---por que não?---um pouco libertino...] como eu repugna de forma particular e muito forte: a pornografia da [falsa] piedade e da pudicícia---a partir da qual, de resto, se gera e se gere a maior parte das diversas pornografias individuais.


[Acima: "Mask" de Ron Mueck, imagem "gentilmente cedida" por brooklynmuseum-dot-org]

"Será absolutamente necessário...


... que entre revolução e sexualidade exista a permanente suspeita que a cada 'volta' ou a cada 'esquina' da História humana reconfirmamos continuamente persistir?...

Se as sociedades podem, ainda que muito breve, muito fugazmente, libertar-se da opressão da própria História, não pode o corpo fazer outro tanto relativamente àquela que parecem ter-lhe obstinadamente destinado as inúmeras avulsas "morais" que enchem invariavelmente alguma falsa política mal sai da cabeça dos que a vêm até à própria História propor?...


[Imagem ilustrativa extraída conm a devida vénia de liberdadeparacabeça.dot-blogspot-com]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"Sobre a fala animal: algumas reflexões teóricas pessoais" [não-revisto]


Quem possui cão, alguma, mesmo não muito profunda, formação linguística e um mínimo de capacidade de observação não pode, penso eu, deixar de dar-se conta da aptidão biológica dos cães para sonharem.

Ora, na essência e ainda que, tanto quanto julgo saber no que respeita à função específica do edifício onírico persistam dúvidas e sobre existam sobretudo hipóteses teóricas, o sonho define-se enquanto fenómeno em si pela capacidade biológica de os indivíduos para des-realizarem ou des-materializarem intelectivamente apondo-lhe um tempo existencial e mesmo conceptual, interpretacional, próprio a experiência directa e em-si da realidade.

Numa palavra: a capacidade para recompor oniricamente a experiência ou experienciação do real pressupõe naturalmente a existência de uma qualquer forma de identidade auto-representável estável ou estabilizada e não dependente---autónoma, portanto---quanto mais não fosse pelo próprio sonho que produz ou gera---da própria realidade como todo à qual o indivíduo e a espécie foram, evolucionalmente, "arrancados" já, realizando-se num tempo funcionalmente 'conceptivo' próprio já.

Muitas vezes tenho pensado que a fragmentação do real em "individuações funcionantes" [i] constitui o efeito, a consequência, naturais do processo global de expansão e des-integração [des-integração diferente de desintegração] da matéria que está na origem do real tal como o conhecemos ou podemos supor criticamente e/ou teorizar e que [ii] não existindo, para mim, propruiamente "evolução" mas mera e objectiva "volução" no real, este em lugar de se "explicar" [de ser "teoricamente explicável"] por "avançar" para um "futuro" abstractamente situado diante de si, se "explica" e define, exactamente ao contrário, por "vir de um passado" onde estão, de resto, contidos o seu "presente" e o seu "futuro"---os únicos que verdadeiramente existem na realidade; não existindo, então, dizia, nesta, realidade, um "futuro" como categoria ou entidade "explicativa" do real, o único futuiro que o real é capaz de integrar naturalmente em si é esse "pequeno futuro inteiramente reaccional" [de facto, um passado material "atirado, por razões de mera funcionalidade imediata, para a frente"...].

Daí resulta que o real nunca, em última instância, "melhora" senão que se limita a "mutar reactivamente" ao "presente/futuro" situado, como disse, "imediatamente atrás de si" o que implica, por sua vez, que qualquer 'mudança significada' operada no tecido do real esteja teoricamente condenada a emergir sempre desprovida de qualquer outro "significado" que transcenda essa sua natureza imediata, contextual e exclusivamente reaccional.

Ou seja, dito de outro modo: o único "significado" que se pode teoricamente admitir possuir a realidade como tal aparece sempre necessariamente desprovido de qualidade transcendente que a signifique [verbo transitivo] de forma exógena e/ou providencial pelo que, sendo o "futuro" tal como o concebemos, volto a dizer, um verdadeiro [e mero] "void realicional"; um "buraco negro puramente teórico" [uma figura concepcional estranha à linguagem própria, específica da matéria] situada num não-espaço desmaterial onde "ainda não existe real" e onde se precipita todo o edifício material da realidade no seu percurso expansional/dissociacional, o curso da realidade apresenta-se naturalmente "cheio de erros" que o são apenas quando vistos teoricamente a partir de um ponto situado na tal zona que o real puramente teórica da realidade que é o "falso futuro olhando para trás", algo estranho à realidade.

O que isto quer dizer é que a realidade, de facto, não "erra": "futura" ou "futura-se circunstancialmente a si mesma" a partir de informação recebida do seu próprio futuro anterior e compõe, desse modo, o que, parecendo ser um percurso nada mais é, de facto do que gestão necessariamente circunstanciada [porque---lá está: por definição, apenas circunstanciável] da des-integração, não constando, em caso algum, da semântica da realidade como tal os conceitos "absolutos", puramente teóricos", de um "Bom" e de um "Mau", fora da respectiva sintaxe natural e necessariamente circunstancial.

Por isso, nenhuma "mutação" do real é definitiva e, por isso, nenhuma é a "ideal"---algo, uma ideia ou ideação, que o real, pela sua natureza própria e específica, não é original ou naturalmente capaz de formular "sem" [diria eu] "a contribuição completamente descentral da consciência".

A "consciência" que é [eu assim a entendo] o primeiro verdadeiramente "grave" "incidente" [ou... "acidente?] ecológicos que se conhecem.

Porque vem "descentrar" completamente o real, interrompendo-o objectualmente [através da produção de individuações ou renucleações individuacionais originalmente funcionantes do próprio real] que passam a levar consigo a tarefa de gerir ulteriormente a desintegração a partir do exterior crítico ou "criticional" desta, por assim dizer.

A "consciência" vem trazer ao real uma noção teórica ou "pura" de Tempo---um "tempo longo" puramente teórico que não existia e para a qual o real não possui instrumentos naturais que verdadeiramente a integrem e adequada---ou melhor: ecologicamente---permitam utilizar. Vem apor ao funcionamento do real categorias críticas ou criticionais "puras" e absolutas ou "absolutiformes" que lhe são estranhas e alheias: vem trazer ao real um ponto de vista exterior, alienado da experiência de si [que é, diria eu, a forma ecológica e natural de "consciência"] sobre si que, a prazo, perturba definitivamente toda a gramática da realidade tal como ela própria a protagoniza---e/ou configura.

Tudo isto para tentar contextualizar objectualmente o fenómeno do "sonho" nos seres vivos.

O "sonho", seja qual for a "função" que se lhe descubra [ou "eduucada e acreditavelmente se lhe suponha"] é objectivamente um claro efeito da "descentração individuante" ou "renucleação ulteriormente funcionante" sofrida pelo real a fim de negociar continuamente a des-integração que lhe é própria.

Deste ponto de vista observacional, o sonho é importante como sinal porque mostra como há estádios e matizes operantes na [de?] formação da "consciência" que não dependem visivelmente da vontade dela mas são traços residuantes da ligação dinâmica intrínseca das "partes" ao "todo".

No sonho, a tese dos "dois reais" [dois "reais sobrepostos" operando segundo tempos ou "imagens" do tempo completamente diferentes e inconciliáveis] aparece como uma [quase] evidência observacional, evidenciando como o "real secundário" ou "crítico" roda continuamente sobre o "outro", original, criando "não-espaços realicionais" no corpo da realidade como todo; não-espaços observacionalmente demonstráveis onde o "real não penetra", i.e. que ele não "entende" e onde, enfim, se pode constatar experimentalmente toda a perturbação introduzida no curso global do real pela aposição via individuação originalmente funcional ou funcionante do indivíduo ou "individuação", primeiro, e depois, da "identidade" e, finalmente, da "consciência".

O "sonho" arranca a "gestão crítica" [agora, "crítica" ou "criticional"] do real ao próprio real: fixa-se e fixa-o, já "abstractamente", num ponto teórico exterior à experiência de si [de si, real] e demonstra a passagem do real-experienciação ao real-experiência teórica onde este já não figura mas meras imagens teóricas de si.

O grande problema [e por isso é comum eu referir-me, no curso da reflexão que faço sobre o reasl e a sua génese e possível natureza intrínsecas, à consciência como um primeiro grande desastre ecológico ou, no mínimo, ecomórfico natural----"natural" num duplo sentido, aliás] é que, expansionando-se continuamente e des-integrando-se naturalmente o real, será, em tese im-possível reconstituir a unidade original do real.

Há, é verdade, teses que falam de "contracção" e re-redução teórica do real a um "ponto" mas ignoro qual a respectiva possibilidade ou mesmo, admissibilidade.

Mas essa é uma via sobre a qual não pretendo aqui especular.

Interessa-me aqui sim dizer ainda o seguinte:

a] Se o animal, o cão, no meu exemplo, consegue reter, sob forma abstracta, experiência e convertê-la em imagem crítica pura, organizada segundo um tempo que lhe é próprio e que não depende do não-tempo real original, então, é possível afirmar teoricamente, ao menos, o cão "já fala", "já diz alguma coisa", tendo-lhe faltado apenas o passo "volucional" seguinte que consiste em articular, isto é, em "pôr o aparelho fonador a jeito" daqulo que o cérebro começou a fornecer como informação "para baixo" e concretizar, por conseguinte, a fala.

b] Esta começa, sempre, em tese, por ser ela mesma segregacional, excrementícia e reactiva encerrando um processo reaccional anterior só, em tese, depois, iniciando um processo próprio que é, ele mesmo, início de "comunicação".

Ou seja: primeiro, a "linguagem" representa ou configura um "eco fónico" global e reflexo de impressões anteriores de que ela opera na in/essência como o términus expressional---o latido do cão, o miar do gato, etc.

É admissível que haja formas possivelmente demonstráveis de comunicação nesta fase mas eu penso que a natureza estruturalmente reactiva ou reaccional do feómemo claramente prevalece e predomina em todo o processo.

Só quando por trás da "fala" está já uma "consciência" razoavelmentde definida e auto-perceptível, a "fala" deixa de ser primariamente "fim", para se converter num "início".

O que é, aliás, perfeitamente consonante com a mecânica de emergência gradual da "parte" a partir da de-composição, funcionante embora, de um tosdo original: o "diálogo" da paerte começa naturalmenten por fazer-se consigo mesma e, só depois, com o exterior.

O modo como surge a "consciência" nas crianças permite perceber de forma concentrada no tempo como "voluíu" a "fala" de reacção para acção.

Teórica ou crítica, ao menos.