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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"«Mourir, dit-elle...», poème pour E."


De cette main féroce et indéchiffrable même pour moi
je brandis les rêves
les impitoyables rêves
la blessures des rêves
La clairière des rêves
les épaules fécondes du silence
où s'abritent mes rêves
en préméditée désordre .

la tache difficilement tangible de la mémoire enragée
cherchant comme un ciel ou un cible
la tête turgescente qu' elle bouscule
continument de bourdonnements funèbres délétères
et fidélités sagement involontaires.

les chuchotements je me mets alors à perpétrer que je trouve
un jour plus tard prisonniers de ma bouche éclairée
par la cage ombrée des dents comme des doigts fanés
comme un songe réveillé
comme un soudain éclat [ou phosphorescence...]
d' ailes abandonnées

la lumière verticale et autoritaire coupant l' après-midi
comme un dard intoxiqué
du jour acéré le bleu démoli
la purée de la lumière empoisonnée
touts eux comme des routes folles
des âmes oisives
des fureurs malades ou bien des démences fragiles et chétives
ou des fous définitifs
des coups surs
tâchant tous comme des arbres obsédées
ou d' impossibles rêves creux et impurs
d' ouvrir le soir comme un fruit mûr

............................................................................

et moi qui chante mon chant tout blanc illimité et cru
comme un chien dévasté de faim et dru
ou bien un voyage à deux faces en plus
ou encore un rêve providentiel sagement disparu...


Montemor-o-Novo, 22.12.10


[Na Imagem: "Composition grise", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado]

"Um lugar com alguém um lugar..."


... onde o espelho criador da vontade longo tempo suprimida---
subitamente desmoronada
a casa insensata de cálculos e louvores---
pousa simplesmente e canta ou arde iluminada
de imprevistos opacos mas lêvedos rumores cor de tenra esmeralda...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"Uma Ideia"


Para mim, fazer poesia é, cada vez mais, "fazer o ouvido pensar"...

[Na imagem: "A View To Eternity or Fra Mirò", colagem sobre papel impresso de Carlos Machado Acabado]

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"Espólio" [Texto em construção]


Conheço bem o som da sombra
levedando
a árvore aberta do vento
vagueando
a velocidade de cada nome
tecendo vigílias
vigiando
a cólera do tempo
levantando a arquitectura empalidecida da tristeza
num único e poderoso remoínho de
espáduas e de
espantos
incubando

a artéria espessa da luz fremindo de beleza
e altitude
a língua pensando
bombeando a sua própria incocência
para a cabeça que estremece de sombra
e de memórias
molhando de branco e azul a tarde inteira que
quer ser jardim ou canteiro
e clama também a sua inocência

pouco mais

a península da desordem
gritando a ave lépida da infecundidade respondendo
a sombra como uma lepra massacrado continuamente a tarde
e o próprio sal girando na água onde lhe nascem os silvos
a matemática dos vícios
e o vento como uma espuma que sangrasse o seu próprio movimento
bastando à tarde para construir toda a ficção de uma existência
onde habitassem gnomos e vogais adormecidas
o soro ácido da luz
sublevada
rebentando contra a ópera cómica da criação velha rameira furiosamente engalanada


[Na imagem, tela de Francis Bacon]

domingo, 29 de agosto de 2010

"Paisagente" [Texto em construção]


Com as mãos parcialmente destruídas sondo incessantemente
a noite que se desfaz
em pequenos grãos de sombra que são fogos e memórias
cruzados
com a aurora de Junho, esse lugar sem lugar onde
começa agora lentamente a arder, elementar e fria,
a tempestade inútil
que é o dia

com as mãos em silêncio
observo igualmente mudo
também a voz que fermenta lentamente na garganta
as mãos que dilaceram quase líquidas uma a uma a memória
[a anémona suspensa da memória...]
a esfera do tronco disperso imaginado
repousando completamente imóvel no seu leito escuro
de gestos
e silêncios

Com os dedos anoitecidos exploro minuciosamente a abóbada insuportável
do dorso como as folhas
filtrando a luz que vem subindo rápida do sangue
sobre as mãos carcomidas pelos próprios gestos

que apodrecem
antes mesmo de nascerem e poderem florir

De um único golpe ou galope corrompido
abro os ventos ou as águas que a boca não im
pede a sede que a língua não produz
examino a página fria das pálpebras
onde se lê de uma vez só
a biografia inteira espessa e escassa impotente do olhar

da tábua vazia do peito colho
a flor da dúvida abro
na parede de névoa o furo obscuro
sintético do olhar

a lâmina do mar corta ao meio o céu
entalhado na arriba há muito estagnada

o sopro imóvel mineral
a asa estéril imensa aberta
do exausto litoral o íngreme a noite ser:
mas o litoral do corpo são o discurso e as palavras
afinal todo o ser

a espera, dizem-me, completamente branca do ver
o arco ou ficção o labirinto a intriga sem falhas do saber

é assim a terra mutilada pela própria respiração
duro lento imóvel insondável animal...
Devagar!
Devagar e sem demasiadas ilusões, pois,
que a visão das coisas em redor,
seja agora ou depois,
infecta sempre
fatalmente o próprio olhar!


[Na imagem: Francis Bacon, Study for a Landscape, after van Gogh, 1956.57]

"Silêncio a Frágil Estação"


Aqui regresso envolto em sombra ver a tarde repousando a dois incessantemente recomeçando sobre as searas
dormindo destra e descuidada sob a completa primavera
o silêncio ofuscante das dunas a ferver de cansaço
a esfera indefinida da distância com as mãos de sombra rodeando os joelhos
a coluna erecta do silêncio
as mãos de luz fulgindo no som metálico das aves a caminho do voo
a cinza intranquila dos cravos
infectando de
brilho e fogo a pesada luz de agosto.

a fadiga deslumbrante do verde enrolado em cada caule
a doença maci[ç]a da beleza cintilando de uma lenta alegria
que corrói a memória
os frágeis músculos da luz deixando vestígios de estrelas e areia ardida
no repouso vertical do arbusto dos teus braços
a ferida primaveril do horizonte

a tristeza adiada para outro dia
o dia
a etapa de ar e de silêncio
e o silêncio
ah o silêncio
a frágil estação!

[Imagem ilustrativa: "Landscape" de Levi van Veluw]

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

" Lugar Azul"


Da terra tinha a alma o tempo a fantasia
o ácido cimento do sono endurecido
a água a rútila
cicatriz do silêncio interrompido
da fome oculta o desesperado não sentido

a pele inútil do ar meio consumido
a indefinida terra a límpida agonia
da margem ou do rio apenas pressentido;
da lonjura o vento esmagado transmitido
entre o vapor da voz que envelhecido
da abóboda sangrenta da respiração vem agora corrompido

da fala o crepúsculo o labirinto flectido
da luz a glande febril a cutilada
do branco invertido
o delírio visual das aves todo erguido
na cúpula do dia já perdido; errante a sombra construía
o vício da luz toda na tardia
circunstância desordenada da falésia
que de pura perspectiva e vento em chamas
já se abria.

trovoada de branco e de morrer à luz do mar
pássaros embriaguez espacial febre de imenso
a luz é a respiração da tarde o isolado sopro do dia
ruindo em silêncio sobre as pedras em descanso.

as armas da ideia o resto rasto do sentir do querer
a casa deserta da voz sem memória



o dia flébil, pungente, lacerado, carcomido

ou apenas todo o sono todo o pó
mas invertido?...


[Na imagem: Cliffs in Britain de William Morris]

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"«La Fenêtre Impossible ou Ciel Improvisé, Une Fable Bien Durable Pour Ezul», trans-idiomatização/glosa"


Certa manhã um quase-mês,
semi-imaginário
com seu riacho de falsos dias por libertar
secante e vário
na cintura esmagadora
se pôs subitamente a uivar

Um pouco apartado, de primaveris cinzas um ano
com seu cansaço ou estio de belos meses estilhaçados
em redor do pescoço semilouco ardido
e logo em seguida saqueado
pela própria incessante inocência
trespassado
do edifício insuportável do próprio ar ou
da amarga desesperança envenenado
no próprio sangue ou sangues oculto barricado
veio junto da sólida labareda das aves
perfurado
meio furtivo e só então clamou, angustiado:

por que razão oh deus por que motivo?


[Na imagem: Piet Mondrian, "Evolution/Evolutie", tríptico]

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"La Fenêtre Impossible ou Ciel Improvisé: Une Fable Bien Durable Pour Ezul"


Un beau matin un mois
à demi imaginé
avec touts ses faux jours
absents
devant

se mit à hurler


Écartée et nue une année
avec ses plus beaux mois brisés
autour du cou
son regard fou
ravagé
percé de sa propre innocence
obstiné et mou
fit "ah!" et
se demanda

pourquoi ?


[Na imagem: Sonia Delaunnay, "Bal Bullier"]

quarta-feira, 2 de junho de 2010

"Je voudrais bien habiter, un jour le printemps..."



Je voudrais un jour habiter le printemps
oh mon charriot des neiges épouse bleue miroir hautain
récolte des ombres paysage flâneur lueur indifférent

donne-moi ta main

firmament inachevé voûte des larmes
nuit aveuglée
qui a vu fleurir les armes

donne-moi ta main

horloge essoufflé absence verte
étoile avariée fatigue ouverte
lâcheté inutile
passé fragile
inceste inerte

donne-moi ta main

incertitude brouillé
rempart de lumière
nature en bois
auspice ou loimalheur vulgaire
donne-moi ta main?

âme partagée ou
conformité rebelle nature inepte
chasteté indocile
eau fragile
cœur ou transept

donne-moi ta main

vieille nature
ennemi ou armure
couleur si dure
oiseau ou ordure
aux haletons
flamme impure
respiration immature
soleil révolté
prisonnier
de ses positions

donne-moi ta main

cyclone coquète ou
bouche grisette
misère qui danse
poitrine berceau
oh fleur de la mort
par où le silence
pénètre aux corps

butte butin
luth trottin
mandoline ou lutin
jeunesse volatile
souffle éclairé
incertitude nubile
cœur inutile
ou vent abandonné

donne-moi ta main

arbre blanche
bras ou manche
du sang une branche
de vie souvent

..............................................................................

Oh que je voudrais bien de l' aurore agile
de ses lieux si flous
de ses endroits si mobiles
faire notre foyer
en nommer domicile
en appeler chez-nous

Oh que je voudrais bien
comme un arbre enceinte
ou un soleil fulminant
du labyrinthe du temps
avec toi partager
les printemps
[Na imagem: "La Mort d' Ondine", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado]

"«Eu Gostaria de Habitar um Dia a Primavera», repoetização de um poema anterior escrito em francês"


Gostaria de habitar um dia primaveras
oh meu corcel-memória esposa-anil majestade de cristal
colheita de consumíveis sombras paisagem infirmada luar indiferente

dá-me a tua mão

imperfeito firmamento ou arco em lágrimas
aurora manual
noite paralisada
[que as armas viram florir e logo depois expirar...]

dá-me a tua mão

hora morta por asfixia
ou verde ausência
estrela corrompida fadiga infecta
cobardia inútil
ou passado
infecundo e nímio
incesto inerte

dá-me a tua mão

incerteza cilíndrica
fronteira de luz
natureza digital
auspício ou norma
desfortuna informe

dá-me a tua mão

velha natureza dorsal
empréstimo de luz
subentendido
ou rápida cor
ave ou indústria
sopro ou memória
respiração muito jovem porém precocemente seca
gasta e mirrada
sol revolto todavia
prisioneiro do rumor intensamente circular da própria
luz

dá-me a tua mão

ciclone em fogo ou cloaca em fuga
boca da cidade
quadrante em pó
peito-berço flor da morte também
por onde os silêncios
invadem progressivamente o corpo
e o lavam dos sons que já não tem

despojo-assinatura
cadência de luz muito jovem
incerteza
coração inconsútil
ou vento abandonado à sua sorte
dá-me a tua mão
alva árvore
ou braçado de lumes contrafeitos
cálculo de sangues desfiados
numa mão de puro ónix
o corredor dos dedos agitados

...................................................................

Eu gostaria de habitar as primaveras muito altas
e fáceis de um país-canção
onde voassem sempre certas e límpidas, por seu turno, as aves
e as águas florissem mas não de cinza ou de tristeza
um país rumoroso e exacto de sopros vagabundo
da aurora fazer corpo palavras e lugar
para viver
como uma árvore indulgente
ou um sol de alumínio
ao labirinto do tempo ir buscar
o sol para roer
e a boca para amar

e entre hemisférios
[os breves hemisférios da respiração...]
na demasiada juventude construir finalmente
a nossa casa de diurnos sempre espaços ou de estrelas
abrindo continuamente sobre a noite!...
[Na imagem: "No Man Is An Island", colagem sobre papel e cartão de Carlos Machado Acabado]

sábado, 29 de maio de 2010

"Gostaria de habitar as várias esperanças ou Uma casa abrindo continuamente sobre a noite" [Repoetização de um Texto Anterior para E.]"


Gostaria de habitar um dia primaveras
oh meu corcel memória esposa anil majestade de cristal
colheita de consumíveis sombras paisagem infirmada luar indiferente

dá-me a tua mão

imperfeito firmamento ou arco em lágrimas
noite paralisada
[que as armas viram florir e logo depois expirar...]

dá-me a tua mão

hora morta por asfixia ou ausência verde
estrela corrompida fadiga infecta
cobardia inútil
ou passado
infecundo e nímio
incesto inerte

dá-me a tua mão

incerteza cilíndrica
fronteira de luz
natureza digital
auspício ou norma
desfortuna informe

dá-me a tua mão

velha natureza dorsal
empréstimo subentendido
de luz
ou rápida cor
ave ou indústria
sopro
respiração muito jovem
sol revolto
prisioneiro fatal do próprio
curso

dá-me a tua mão

ciclone em fogo
ou boca da cidade
quadrante em pó
peito berço flor da morte
por onde os silêncios invadem progressivamente o corpo
e o lavam dos sons que já não tem

despojo assinatura
cadência de luz
muito jovem incerteza
coração inconsútil
ou vento abandonado à sua sorte

dá-me a tua mão

alva árvore
ou braçado de esplendores
cálculo de sangues desfiados
numa mão de puro ónix
o corredor dos dedos eriçados

...................................................................

Eu gostaria de habitar as primaveras de um povo
onde se movessem sempre as aves
e as águas
um povo vagabundo
da aurora fazer corpo palavras e lugar
para viver

como uma árvore indulgente
ou um sol de alumínio
ao labirinto do tempo ir buscar
o sol para roer
e a boca para amar

e entre hemisférios
[os breves hemisférios da respiração...]
na demasiada juventude construir finalmente
a nossa casa de diurnos sempre espaços ou de estrelas
abrindo continuamente sobre a noite!...


[Na imagem: "A Realidade Existe?", colagem sobre papel e cartão de Carlos Machado Acabado]

quarta-feira, 26 de maio de 2010

"J' Aimerais Un Jour Habiter Tous Les Printemps" des "Poèmes Pour E." [Texto em Construção]


Je voudrais un jour habiter le printemps
oh mon charriot des neiges épouse bleue miroir hautain
récolte des ombres paysage flâneur lueur indifférent

donne-moi ta main

firmament inachevé voûte des larmes
nuit aveuglée
qui a vu fleurir les armes

donne-moi ta main

horloge essoufflé absence verte
étoile avariée fatigue ouverte
lâcheté inutile
passé fragile
inceste inerte

donne-moi ta main

incertitude brouillé
rempart de lumière
nature en bois
auspice ou loi
malheur vulgaire

donne-moi ta main?

âme partagée ou
conformité rebelle nature inepte
chasteté indocile
eau fragile
cœur ou transept

donne-moi ta main

vieille nature
ennemi ou armure
couleur si dure
oiseau ou ordure
aux haletons
flamme impure
respiration immature
soleil révolté
prisonnier
de ses positions

donne-moi ta main

cyclone coquète ou
bouche grisette
misère qui danse
poitrine berceau oh fleur de la mort
par où le silence
pénètre aux corps

butte butin
luth trottin
mandoline ou lutin

jeunesse volatile
souffle éclairé
incertitude nubile
cœur inutile
ou vent abandonné

donne-moi ta main

arbre blanche
bras ou manche
du sang une branche
de vie souvent

..............................................................................

Oh que je voudrais bien de l' aurore agile
de ses lieux si flous
de ses endroits si mobiles
faire notre foyer
en nommer domicile
en appeler chez-nous

Oh que je voudrais bien
comme un arbre enceinte
ou un soleil fulminant
du labyrinthe du temps
avec toi partager
les printemps


[Na imagem: "O Sono da Razão" colagem sobre papel e cartão de Carlos Machado Acabado]

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"La Rose L' Éclat: versão/releitura portuguesa---em curso/muito incompleto"


Esta voz de prata rápida---muito breve
---ou este olhar de céu rítmico oxidado
esta labareda ausente ou este sol meio derramado

[esta ternura escarlate e infirmada
esta chama nua, imóvel, feminina]

este vento tão festivo e tão assíduo estes trigos
estes bosques ébrios, repetidos
estas cidades imaginárias, estaladiças e desertas
esta memória transparente
declinada
esta obediência azul quase feroz
esta cor quase a explodir
este espaço sem espaço e sem raízes
esta noite infecta e brusca
sacudida
esta natureza deserta, imolada
de partida
este sol interior ciliciado
esta boca e esta lama surpresas, tão pesadas

[o manietado lodo absolutamente imóvel no centro]

esta áspera dignidade ou
esta bela estação de veneráveis pesadelos

[o trémulo aço da madrugada acabada de colher]

este eu a toda a prova transformado
este pigmeu esventrado este sorriso de mulher
esta voluta e esta solidão de ave recém-cortada

[o vulto geométrico da brisa crepitando na espuma das cabeças
áureas das searas]

estas soberbas rusgas de ácido cinzel
esta ferida sem fim da loucura até meio devorada
este amor [tão] próprio e tão claro,
estes ramos dormentes de um amor de cobre endurecido

[a chaga viva---a cutilada---desse amor]

esta infância que uiva de branco e de sono amputado
esta idade-solidão onde acordarei talvez de pó um dia
esta juventude de gesso e de água
que me apresto a desnudar
esta morte [ou estas mortes] a solitária morte despejada
esta mulher múltipla imolada
esta erva que cresce em grandes haustos verdes
de um verde túmido estranhamente adormecido.

[Esta paisagem discípula dócil do absurdo,
esta presença ilusória da ausência
este nada intacto onde me enleio,
terno e fundo---e me resto
da aromática ciência o abraço desfeito e funesto]

Esta aurora de soluços, glaciais, pontiagudos
Esta mão-cheia de ventos naufragados
estes vermes súbitos dos olhos limitados
estes secretos conciliábulos
ignorados
estes gritos de aço embaciados
das cidades fulgurantes de bairros amestrados
estes sonhos-fera brancos devassados
estes dias e noites cobardes ancorados
esta vigília exausta estes sonos suprimidos
emboscados
este eu persistente, nocturno e cego
esta tão insólita hipótese de flor
de lírio assente e cru
esta rua ruiva que matura no silêncio
de múltiplas sedes acumuladas
este pai violador este sangue imperfeito e nu
esta montanha andaime de estiagens concentradas
estes gritos jovens calcinados
este hábito imperceptível de morrer
em idiomas estrangeiros esventrados
esta voz este peso estes fogos ossificados
estes jardins que uivam este pomar de murmúrios sitiados
estes dias pela própria mão
da primavera estrangulados

esta noite que ronda e espreita a luz a toda a volta
a tarde feroz, a noite líquida a luz nas mãos a dor triunfal gasosa
é a aurora cedendo bruscamente o seu lugar à flor
a madrugada espessa e pálida abrindo triunfalmente seu peito à rosa!

"La Rose L' Éclat---poème sans nombre pour E."


Cette voix d' argent rapide et léger
ou ce regard de ciel rythmique et rouillé
ce feu absent ou ce soleil désemparé

[cette tendresse écarlate et enfantine
cette flamme nue, immobile et féminine]

ce vent fidèle, ces blés
ces bois ivres et répétés
ces villes ignorantes et abandonnés
ces souvenirs transparents
touts conjugués
cette obéissance toute bleue cet espace ouvert déraciné
cette nuit infecte et brusque, saccadée
cette nature isolée
ce soleil intérieur, violemment discipliné
cette bouche ou boue surprise et lourde
ligotée
cette âpre dignité
cette belle saison des cauchemars
annoncés
ce frisson couteau de l' aube écrasée
ce moi mis à l' épreuve, transformé
ce pauvre coeur éphémère vertigineux
et grésillé
ce pygmée creux ce sourire de femme aux oiseaux d' automne
évadés
ce colis un peu trop luisant
[ou géographique?] de la fumée
ces belles rides acides ciselés
cette blessure éternelle de la folie mi-dévorée
cet amour [si?] propre décrété
ces branches endormis de cet amour coupée
cette enfance hurlante et dévidée
où je vais me réveiller
cette jeunesse en plâtre et pluie
qui je vais déshabiller
cette mort seule solitaire dépouillée
cette femme double enceinte sacrifiée
cet herbe que rit aux éclats
de vert d'un vert dur ressuscité

[ce paysage disciple fidèle de l' absurde
[?] et de la perfection
cette présence illusoire
de l'absence
ce rien éternel et fond
se présentant...]

cet aurore aux sanglots glaciales et pointés
cette poignée de vents
chavirés
ces mystérieuses paroles ignorées
ces cris si purs en acier
de monstrueuses villes fulminées
ces rêves fauves blancs dévastés
ce faux temps demi-mûr et renversé
ce jour lâche accroupi et abîmé
cet observance épuisée
ce moi persistent, nocturne et sombre
vidé
cet étrange hypothèse de rose ou de lys déshabillé
ce père violent et meurtrier
cette montagne distante échafaudage de l'été
ce bonheur pillé ce blanc faible
et a peu près divisé
cette rue blonde qui mûrit de plusieurs soifs accumulées
cette terre courbe et patiente presque étouffée
qui sommeille et bouillit étourdie et saccagée
ces herbes exactes et creusés
ces cris si jeunes brulés
cet enfant improbable comblé
cet habitude imperceptible de mourir
en langages inconnues y renfermé
cette voix souple réfugié
dans sa gorge de feux éparpillés
ce poids proche lourd et violé
cette rose étincelante multipliée

Ces jardins de cris ou ces soupirs spiralés
Cette cerisaie de jours cette bouffée de noms
de nouveaux nés

et puis la vie la terre
la nature qui ne s'a arrête toujours pas:
je parle de
cette métamorphose secrète,
totale et parfaite
de l' aurore en toi.

"Rêve/Rhytme---poème II pour E."


J'ai le rêve impossible de faire de ma folie
une espèce de courage parfait et immobile
fragile, imperceptible et accroupi
qui puisse me parler sens cesse
de la longueur inavouable de la tentaculaire justesse
des routes
de l' oubli...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

"Pão e Pó: Pátria a Toda a Prova!"


Falemos franco oh deusa
disse ao sol o abismo
[abismo deusa láctea dos corpos]
sem primavera sem
destino

destino ou fado o destino anunciou
seu próprio sangue
seu volume destruído
[que o sangue
---o sangue mesmo, piedosa mentira!---
havia muito coagulara
num único ser
episódico e deserto preso à boca
toda a noite]
pelo sangue continuamente escarrado!

o sangue escarranchado no sorriso concêntrico---corrigiu:
"toda a sede
implantada una e louca na garganta veloz
desértica como uma crítica castidade cobrando continuamente
juros de solidão
---uma faca adormecida em vez de sombra"!...

um nome anunciado
um nome manchado
um nome desmanchado
um nome que era
a sua própria única primavera...

oh este olhar imenso perdido de insecto, disseste
coberto pela própria juventude!
o sangue que se desmancha desmorona
[funde? Dilui? Continuamente]
na [com a?] memória
o insecto ferida aberta da memória
a morte sem som percorrendo já o labirinto álgido da voz
o corpo imediato e impenitente que fala
[rosa púbica "obviamente estrangeira"...]
de um prazer que o corpo não soube libertar.

o dia ardendo de palha
de esquina em esquina
era o verão que se erguia como um corcel de crimes magoados
num silêncio completamente imóvel que era também
a sua própria cicatriz.

as suas próprias cicatrizes
de pão:
de pão era o diálogo sobre o pão e o pão
se erguia do cérebro todo aberto à esperança
brandindo a mão que o tingia de formas e odores
as veias/folhas os músculos da côdea
a solidão

diálogo e palidez
pó e pedras: o medo
a rampa intacta de tristeza
o ocasional grito inútil
do perder-se.

Era à tarde: o sol, preso ao papel onde morria,
lentamente iniciava a viagem intensamente pálida
do ritmo: ar água
mar mágoa
lar frágua
---a paisagem a toda a prova!

o grupo quase ilimitado dos ruídos prorrompendo
o desespero intenso do voo preso ao vento
descrevendo círculos de pura opala na espuma álgida da brisa
primaveril.

Os cabelos brancos da aurora completamente desfraldada
desfolhada
luz a luz pela mão sábia do silêncio:
silêncio vocação do peito prisioneiro
o corpo rouco de sentir em vão
abrindo maduro na espuma de um espelho
incessante que bate!

Ah! Voltou a pátria à pátria

de uma só primavera
oh saudade:
devias estar em casa, de novo, oh saudade!


[Na imagem: "Prometheus Unbound", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado]

sábado, 3 de abril de 2010

"«Voina i Mir: a limerick» [ou «Tolstoi revisto por Ogden Nash»: o mais sucinto dos «resumos» do épico tolstoiano]"



Guerra e Paz...
...................
... catrapaz!
...................
[Na imagem "Quijote", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado]

sábado, 27 de março de 2010

"Dispersa [como] até aqui...


... toda a doença une-se com [o] um brusco
punho de espuma
que me cinge
reconsolida
alimenta
---e abre na voz suspensa
uma dor única compacta
que derramo toda inteira num vaso
de leituras
e de cinza

a dor por folhas ou
praticada num pão alto
vertiginoso e doente
que não alimenta mas injecta
o remorso todo inteiro
nas aves completamente líquidas de que é
a partir de hoje todo imóvel
feito o sonho e
feita a álgebra gelada
do abraço

o pão a galope
o pão hermético
o pão fechado
o pão em cruz
o pão em crise
o pão em merda

e tu, dor que
ensinaste a lua ao mar
e o verão à terra;
o outono ao chão e
ensinaste a solidão à massa funda
do sangue
ensina-me a regressar em dias de esperança e
ramos
demasiados

o crâneo ardido e independente
o volume da dor
o desenho da voz
o inquérito do sangue
a geometria da morte
o episódio da solidão
outra vez, o volume da tristeza
e do pânico
recobrado a golpes de vida desconhecida
à luz do mar
o leito das pedras onde corre a primavera
de regresso
ao veneno que de esperança infecta
o olhar apodrece a liberdade
a primavera de regresso
à chuva às raizes às fezes
a cascata das canções
da noite a primavera
de regresso à noite

o patamar ferido do horizonte
o pedal do sentido
a branca memória
a memória a memória

tu oh dor onde se oculta toda a casa
ensina-me a regressar de puro vento
sangue e pão no bolso
camisa madura de luz
esperança de palavras
nervos por palavras

sem dizer
meu nome
sem reunir
meus ossos a minha vida corrompida
o alimento
a esperança até ser noite...


firme crua flor de suor oh frágil noite
dos sentidos
devassados
conta-me de um só
ininterrupta voz toda a história
da matéria que cegou.


Fundo e exausto concluo aqui o inventário
aberto da dúvida o trémulo fulgor
o relâmpago sumptuoso da cabeça que crepita
de saudade
e pura pasmosa
espumosa ignorância:
não há que procurar mais
perguntar mais
querer saber mais


[de hoje em diante vou viver só de poesia
Em poesia]

Carlos Machado Acabado


[Na imagem: "Full Face", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, a partir de uma fotografia de Jorge Molder]

sábado, 20 de março de 2010

"Lisboa, Declaração de Amor"


Lisboa,
com os teus segredos, o teu fundo mistério, a tua sábia altitude
o teu sangue aceso, luminoso, sempre encostado à Luz
se faz música;

com a tua ilimitada água, uma sede perfeita;
Com o teu infinito, uma ordem
que queima e abrasa

sem fatigar

Com as cicatrizes todas do teu espaço definido e límpido
de puro vidro ou fogo, dia!

O dia em que virás sobre o mar.