quinta-feira, 8 de abril de 2010

"Ubu À L' École"


Um jovem estudante do secundário passa supostamente por entre as grades da vedação da escola que frequenta [e que não menos supostamente devia lá estar para impedir isso mesmo, pormenor curiosamente, em geral, ignorado ou minimizado...] atira-se a um rio, morre e a conclusão do inquérito oficial que se segue é que... todos os envolvidos---a instância "educadora", i.e. o a direcção da escola, o Estado a quem os pais haviam confiadamente cometido a formação [e, pelos vistos mal!] também a vida do filho, "agiram com total adequação" e até se confirmou [imagine-se!] que "sabem distinguir não sei-quê de mais-não-sei-quê" envolvendo a segurança dos jovens sob sua custódia.

Num jornal semanal dito "de referência", um daqueles indigestíssimos "atletas mediáticos" e invariavelmente intragáveis "ficcionistas do comentário" com que a "Idade Mídia" circundante decidiu infernizar-nos definitivamente a inocente leitura diária da imprensa, apoiando-se na versão oficial dos factos [ainda não consegui sinceramente digerir "esta" de as entidades que deveriam estar a ser muito seriamente sindicadas em casos destes---o "Estado tutelar e educador" supostamente o representante do legítimo interesse colectivo---serem elas a sindicar-se a si mesmas, "sem terem de sair de casa" e borrifando-se, assim, alegremente para o interesse colectivo, como se este lhes pertencesse, de facto e de direito, mas enfim...]; pois, dizia, o tal "ficcionista da opinião" que atrás refiro, baseando-se na versão oficial dos factos, acha que não houve bullying a induzir o que deixou, ipso facto, de forma imediata, providencial e automática, de ser---ou de parecer ser---suicídio [a tal versão oficial e o seu porta-voz... "midieval" acham mesmo que não houve bullying ponto final], desaparece o suicídio, desaparece com ele [bruuuuxo!...] a responsabilidade tutelar, directa ou indirecta---"aquela" de os alunos poderem passar livremente pelas grades não lhes faz a mínima espécie nem confusão também de espécie alguma tal como não lhes faz tão-pouco a mais ligeira impressão o facto de que, se se sai por ali, também se pode entrar... ---são meros detalhes [Bom, bom mesmo, seria que, em vez de ter sido ao Tua, o jovem tivesse caído---ou se tivesse atirado---ao... lavatório da casa de banho para já não ser preciso estar a falar de saídas---e possíveis entradas...--- inimaginavelmente fáceis, pelos vistos, do perímetro escolar mas pronto, foi no rio, sobre isso não há nada a fazer, "mete-se" aquela de não haver bullying, fica tudo resolvido] e pronto!

Tendo todos agido, assim, na mais completa e ideal das perfeições menos o rapaz, "o resto"---a morte deste, as verdadeiras circunstâncias indutoras, motivações para ela, a questão da comprometedora---da gritante! Da inexplicável! Da escandalosa!---inabilidade que configura o facto dificilmente imaginável de uma entidade educacional tutelar pública não ter meios para, mesmo suportando a versão oficial da morte, detectar qualquer pulsão depressiva num dos jovens sob sua tutela; o "resto"---esse resto, dizia, tudo isso são... "peanuts" ["pinotes", como dizia "o outro"...] isto é, meras "contas de outro rosário" de onde a Escola [leia-se: o Estado que ela "ali" é] lavam olimpicamente as mãos, quiçá porque, numa democracia representativa "verdadeiramente livre", não compete ao Estado "meter o administrtativo impositivo nariz" em motivações privadas, mesmo adolescentes ou pré-adolescentes, mesmo inexplicavelmente [?] suicidárias, mesmo nos jovens confiadamente entregues à sua guarda, mesmo...

Dias antes [ou depois, já nem me lembro!] havia sido um professor mas, pronto, esse 'era mesmo depressivo', não conta [quem é que sendo depressivo vai dar aulas, digam-me lá?!...
Toda a gente sabe que, tal como "este mundo não é para velhos", a Escola não é lugar para depressivos e fracos, em geral, só para "arianos mentais" puros, afinal quem vai para "ali" tem de estar preparado para o pior e, se for depressivo, claro, que não está, logo...].

Por isso, também neste "caso", ninguém [excepto a família do infeliz professor e a meia-dúzia de habituais "coca-bichinhos"---ou "estraga-albardas"?...---que nunca deixam de vir resmungar sempre que casos "perfeitamente normais" como estes têm lugar na "normalíssima" Escola portuguesa] se incomodou---ou estranhou minimamente---que, em Portugal, a [chamada...] "Educação" parecesse dar mostras de ter-se, de repente, como deixo registado noutro lugar deste "Diário", tornado causa de morte entre nós...

Houve, até, uma senhora psiquiatra que veio a público [por acaso, até foi mesmo no "Público"...] dissertar sobre o péssimo hábito de os jornalistas associarem "casos" como o do colega Luís ao suicídio tout court porque "qualquer psiquiatra sabe que" não se pode "inferir automaticamente que" ou "aduzir não menos implícita e automaticamente, por outro lado que"---mau grado o depoimento expresso [o conteúdo lancinante do 'bilhete-de-suicídio electrónico'] da vítima e como se a questão ali-e-então fosse simplesmente a de saber se tecnicamente estava correcta a adução de que a causa efectiva e estr[e]itamente objectiva do acto desesperado do colega se havia situado "exactamente aqui" ou "precisamente acolá", enquanto questão médico-técnica ou interesantíssimo problema nosológico e não enquanto problema humano mas, num certo sentido lato: sobretudo, como retrato/possível sintoma arrepiante de uma situação escolar que derivou já descontroladamente para o inimaginável, para o "disaster area" institucional e mental, tutelada como vem sendo por gente que devia estar há muito impedida, pura e simplesmente, de exercer cargos públicos para os quais não tem demonstravelmente a mínima competência e a mínima idoneidade, técnica e política para já não dizer que devia, em alguns casos específicos, muito provavelmente estar a responder formalmente por negligência grave e grosseira e eventualmente condenada.

Pois, agora, vem o Dr. Santana Castilho [um dos poucos sobreviventes de um "país ético, crítico e mental" civica e até civilizacionalmente idóneo, já desaparecido] no "Público" de 31 de Março ["Suicidou-se outro professor"] registar, como o próprio título refere, novo suicídio docente, agora o do colega de Matemática e Ciências da Natureza, José António Fernandes Martins, professor na Escola EB 23 de Vouzela.

Numa carta à viúva deixou escrito: "Não consigo viver neste sofrimento, não suporto ouvir falar de escola. Não vou conseguir dar mais aulas".

E mais adiante: "Não consigo mais continuar a ser um bom professor. Esta ministra conseguiu secar tudo o que havia de bom na profissão docente".

Não sei [não posso saber, claro!] se irá haver mais "inquéritos oficiais" concluindo que o professor passou pelas... grades de uma desculpa leviana e criminosamente irresponsável qualquer, se aquilo foi o resultado de uma "depressão autónoma não estrutural e não causalmente associável, de forma ínsita e necessariamente determinante, a uma situação específica" ou outra qualquer farfalhuda e erudita, pomposamente distanciadora, banalidade do mesmo arrogante e arrepiantemente desumanizado[r] tipo e natureza.

A única coisa que eu sei perguntar é: teremos enlouquecido já todos, como País?

Mais: teremos já todos morrido [interiormente, pelo menos] sem dar por isso?

Estaremos, para aí encalhados numa esquina qualquer da História, naufragados algures no Portugal "de charanga y pandereta/de cerrado y sacristía/de [...] alma quieta/devoto [...] de María", como escrevia Machado---um Portugal que atirava a tudo quanto mexia, nem que fosse apenas mental e/ou só intelectualmente diferente e "perturbador" da boa ordem oficial, da "felicidade civilizacional e política" imposta por decreto?

Será isto, esta "portugalidade de anedota e de manicómio", uma doença mental que desconheçamos todos, ignorantes de que a possuímos e levamos connosco fatalmente, como um virus ou uma contaminação de outro microbiológico tipo qualquer, para todo o lado, mental, material e/ou institucional para onde nos desloquemos?

Ou será isto o inferno---na forma de uma sociedade completamente irresponsável e imbecilizada, sempre disponível para rever-se nos piores e mais dificilmente concebíveis; nos mais despudorados e vis intrujões e nos ratoneiros de toda a espécie; para eleger os maiores incompetentes e servir docilmente os mais improváveis ineptos e medíocres; uma sociedade que deixa alegremente morrer os seus jovens para proteger instituições que os não sabem guardar e respeitar e que começam logo, aliás, por não se saberem respeitar a si próprias; que encolhe alvarmente os ombros perante a trágica [e inimaginável] auto-extinção, agora também já literalmente física, das suas elites e que, perante a trágica realidade da sua própria anunciada auto-extinção, não encontra melhor do que teorizar abstractamente sobre os aspectos técnicos e/ou alternativa ou cumulativamente jurídicos e seca/estr[e]itamente regulamentares das mortes que vai continuamente deixando atrás de si na louca corrida para o "Fim" de que falava Patrício, que obviamente há muito empreendeu, numa grotesca e patética paródia da queda da Roma histórica, assediada por toda a espécie de hordas bárbaras, externas e internas, prontas a cevar vorazmente na sua inimaginável pusilanimidade e na sua suicidária indiferença.

Será isto, meu Deus---este "tragicamente apoteótico" delírio individual e colectivo; este apogeu surreal de um, afinal, mais trágico do que fársico gordo "Ubu peninsular", o inferno a que teremos, há muito, como País, sido, por faltas graves [como essa de eleger continuamente medíocres para governar-nos---e/ou aceitar docilmente que os mais escandalosos incompetentes impunemente o façam] condenados?...


[Na imagem: Miró, "La Naissance d' Ubu"]

3 comentários:

Gonçalo Eusébio disse...

Sim é uma situação muito triste, enfim. No final de contas o miúdo ainda fica como o principal ou único culpado do que se passou.

Carlos Machado Acabado disse...

É isso: dos fracos não reza definitivamente a nossa actual História...
O país dos Coen não era para velhos: o "nosso" não é para fracos...
Em alguma coisa, havíamos de estar em sintonia com o resto do mundo...
Vé lá!
Um abraço!
Volte sempre que lhe apeteça!
É sempre bem vindo!

Gonçalo Eusébio disse...

Retribuo-lhe o convite para passar nos meus "Números" que não morreram mas para ser franco eu tenho uma relação de um certo amor-ódio com os blogues: Entendo os blogues como um dos poucos espaços onde ainda se poderiam trocar ideias livremente sem condicionamentos, onde para mim a discussão só os enriquece.Um espaço de dialéctica que ganha vida a cada momento. O problema é que praticamente todos os que visito parecem ter na sua essência (ou na essência de quem os cria...) uma aversão ao confronto de ideias, à discussão livre, muitos já vêem armadilhados com avisos de que certos comentários podem ser eliminados se não agradarem ao autor. Caramba, se nem aqui houver espaço para a tal discussão, ao confronto de argumentos cada vez mais necessário na nossa sociedade onde haverá?

Já não vinha aqui há bastante tempo encontro sempre temas variados e vou também comentar dois textos que deixou sobre o Benfica e a selecção nacional.