sexta-feira, 9 de abril de 2010

"A César o que é de César: nunca mais?" ou "Da Realidade e do seu «Reflexo Mediático»"


Tive, em tempos [por mais de uma vez, aliás, conforme mo ia ditando a sempre cada vez mais escandalizada consciência!] de forma pública [tão pública quanto possível, em qualquer caso] ocasião de assumir posição expressa sobre a verdadeira selvajaria que vem, há anos, a ser praticada no Médio Oriente por uma... "coisa", por essa mesma razão, em termos éticos e até civilizacionais, dificilmente defensável e sustentável chamada 'Estado de Israel' que mantém na região, com a cobarde anuência, no mínimo, tácita, das chamadas "democracias parlamentares ocidentais" um regime do mais bárbaro e repugnante "apartheid" que já devia, há muito, ter-lhe, aliás, valido o ostracismo incondicional de todas as nações verdadeiramente sérias e genuinamente defensoras dos direitos humanos em todo o mundo.

Como sucedeu, de resto, ainda não há assim tanto tempo como isso, com a África do Sul e a Indonésia, para citar apenas dois casos de países, senão em si mesmos párias, desenvolvendo, em qualquer caso, políticas, internas e externas, que outra designação, em boa verdade e em bom rigor, não mereciam.

Ora, um exemplo ainda recente da brutalidade israelense ocorreu com a invasão [falhada] do Líbano durante a qual Israel cometeu, conforme diversas instâncias internacionais ligadas aos direitos humanos na altura, expressamente confirmaram, diversas operações de extermínio e crimes de guerra absolutamente abomináveis que tiveram como alvo as populações civis do Líbano e que, para qualquer pessoa com um senso mesmo apenas mínimo do rigor e da verdade tornaram, na prática, virtualmente impossível estabelecer qualquer distinção, prática ou teórica, entre Israel e os "terroristas" que aquele afirmava, apesar disso, combater.

Relativamente a mais aquela agressão israelita a um país estrangeiro, verificou-se, por parte da imprensa portuguesa, o envio de correspondentes de guerra por, pelo menos, um jornal---especificamente aquele que regularmente leio---a saber, o diário "Público".

Sucede que a pessoa que este enviou a Israel para cobrir a invasão o fez a expensas do próprio governo israelense o que, do meu ponto de vista pessoal, levanta problemas éticos e deontológicos insanáveis que fiz absoluta questão de denunciar, expressamente, junto do Provedor dos Leitores do jornal, à época, o jornalista Joaquim Vieira, se bem me recordo.

Não fui a única pessoa a fazê-lo: aliás a natureza estruturalmente questionável e etica/deontologicamente indefensável do facto é-o tanto---i.e. estruturalmente questionável e etica/deontologicamente indefensável, quero eu dizer---que difícil seria que ninguém o tivesse feito e com idêntica veemência e o mesmo escandalizado repúdio com que eu próprio o fiz.

Não se imagina, com efeito, um árbitro de qualquer modalidade desportiva que viaje para o local de jogo no autocarro de uma das equipas e a expensas desta ou um juíz que outro tanto faça e nas mesmas condições de objectiva dependência, no carro particular quer do réu quer do queixoso ou queixosos num caso que vá a seguir julgar.

Porque, se um jornalista não é um juíz formal, a verdade [incontornável!] é que ele é sempre um "mediador", um "intermediário" e/ou um "porta-vez autónomo do real" e que aquilo que ele diz ou escreve não pode, por definição e por muito que ele procure evitá-lo, deixar de conter apreciações, ao menos tácitas, sobre o real e mais ou menos expressos juizos de valor que não podem deixar de... "contaminar"; que têm fatalmente de condicionar a avaliação que daquele real é feita seja por quem for, a partir da única fonte de acesso a ele que é o proprio discurso jornalístico como tal.

Negar isto é, senão imperdoável ingenuidade---ela própria dificilmente imaginável, aliás---clara desonestidade crítica e intelectual.

A resposta do Provedor foi, porém, a de que, pela sua parte, não via qualquer incompatibilidade entre o rigor jornalístico e o envio de um correspondente pago por um dos contricantes, desde que, argumentava, houvesse da parte daquele o necessário distanciamento analítico e crítico, como, não duvidava ter havido no caso do jornal em que, à época, laboravam ele e o referido correspondente que, julgo recordar-me [eu tenho, "para aí, algures", recortes] era o próprio director de então, do jornal.

E acrescentava ainda o Provedor que, ele próprio, havia, em tempos, viajado para Timor à época da ocupação indonésia, a expensas desta última e que havia sabido de tal forma manter a isenção que até viera a ser censurado e não me recordo mesmo se expulso do país pelas mesmíssimas autoridades que o haviam convidado e custeado a sua deslocação.

Via, de resto, o Provedor nisso um exemplo da bondade intrínseca deste modo, a meu ver, todavia, demasiado próximo e promíscuo de viajar, para situações de conflito, designadamente de guerra.

Ora, sucede---e aqui é que bate o ponto!---que, onde o provedor via bondade através do que, em seu entender, era a possibilidade natural de dissociar a coisa em si [viajar a expensas de uma das partes beligerantes] de inerências [leia-se: mais do que indesejáveis dependências com natural reflexo na neutralidade e na objectividade intrínseca do 'produto' jornalístico final] profundamente disfuncionais e perversas; sucede, dizia, que onde o provedor vê ou via bondade é exactamente onde eu próprio vejo rigorosamente o contrário.

E onde o mesmo Provedor via uma simples incidência avulsa [a violenta reacção indonésia à independência com que ele, enquanto jornalista, reportava a situação no terreno] vejo eu uma decorrência em si mesma estrutural, básica, inerente e inevitável de um comportamento que, por isso mesmo, se me afigura, tanto ética como deontologicamente, em si mesmo, indefensável.

Porque demonstra, afinal, para além de qualquer dúvida legítima, aquele que é o meu próprio ponto de vista de princípio nesta questão: quem paga, espera naturalmente obter algo em troca.

Por que 'cargas de água' há-de, com efeito, um governo que, na guerra de hoje, está a gastar biliões de uma divisa qualquer por dia ou por semana ou por mês em operações militares, dispor-se a gastar mais umas centenas ou milhares, convidando a visitar o teatro de guerra uns fulanos que ele nunca viu mais gordos, apenas por amor à verdade histórica e ao rigor jornalístico, como tal?...

Alguém acredita honestamente nesta possibilidade---para mais numa época em que a propaganda assume formas tão sofisticadas como aquelas que ela, na sua vertente estr[e]itamente comercial como na política, assume hoje?

Por isso mesmo aquilo que a reacção indonésia à independência jornalística manifestada, na circunstância e na sua condição de jornalista, pelo Provedor dos Leitores do "Público" demonstra é exactamente que o que o [vou empregar aqui o termo deliberadamente, ham?] o investidor indonésio estava à espera... não ocorreu e ele se sentiu, naturalmente frustrado nos seus propósitos que eram obviamente conseguir que a imagem final da situação [no caso, a que se vivia em Timor Leste ocupado] a ser divulgada por via de uma voz jornalística "independente" coincidisse, no essencial, isto é, naquilo que interessava à sua propaganda, com a sua própria, de ocupante.

Defendi esta posição, então, exactamente, nos mesmos precisos termos, em que continuo a defendê-la hoje: como dizia um título famoso, que enquanto lema entrou já na semântica [e no anedotário verbal e conceptual neo-liberal [pós] moderno] "não há almoços grátis": o do jornalista do "Público" manifestamente não o era e o governo indonésio fê-lo muito claramente saber ao jornalista cuja viagem havia [sempre em meu entender: tudo menos desinteressadamente] pago.

Vem isto, agora, a propósito de nova iniciativa do jornal---tratando-se, desta vez, de viajar até França, a expensas de uma marca de iogurtes, em seguida, amplamente publicitados, na forma de uma "reportagem" neutra em três páginas do jornal.

Não se trata de uma guerra, desta vez.

De uma guerra formal, pelo menos, com mortos reais, refugiados reais, baixas reais.

É uma "guerra" meramente comercial, pois é---mas as guerras [mesmo com "Isreáis e quejandos" pelo meio...] hoje, num mundo supostamente [volto a dizer: apesar dos tais "Israeis e quejandos"!...] em termos gerais, civiliizado e, portanto, pacificado, constituem a excepção---enquanto que o condicionamento, insidiosamente camuflado ou não, ao consumo opera, pelo contrário, como uma componente [e uma condicionante!] regulares e mesmo, a seu modo, sistémicas do típico mundo que nos rodeia na suposta paz que vivemos.

E é o próprio modo como o jornal se posiciona perante a realidade de que pretende ser um espelho reflector ou um écrã, um e outro, escrupulosamente idóneos e inatacavelmente independentes [in-dependentes!] e [por esse motivo] fiáveis que está---que volta a estar!---claramente em causa.

Não se pode, muito claramente, ser, por uma questão de princípio [e de princípios!] mediador isento e menos ainda juíz idóneo da realidade quando se recebe, de um modo ou de outro... "dinheiro por ela".

Tenho, muito sinceramente, pena de que o "Público" não o haja manifestamente, até hoje, percebido ainda.

E inquieta-me, perturba-me, choca-me o poder pensar que existe [objectivamente, existe mesmo, note-se: o simples facto de a hipótese poder ser, mesmo apenas, em tese e como tese, posta, atesta-o!] por trás de mais esta "aventura noticiosa" do único jornal português que leio de forma regular, uma qualquer forma de associar a reportagem a que, desta feita, me reporto [envolvendo não-sei-nem-me-interessa-saber que marca de iogurtes ou lá o que é aquilo que pagou a viagem ao jornalista] com o facto de, por detrás do próprio jornal, existir um grupo económico com interesses na área da venda justamente, entre outras coisas, de... iogurtes.

Guerra formal, desta vez não existe.

Existirão, todavia, outras de que nada sabemos?

Eu não digo---nem sequer propriamente insinuo---que exista: o que reporto são factos---factos que não posso deixar de relacionar com uma prática informativa que---é esse o essencial destas notas---venho há muito rejeitando exactamente por coisas e situações como esta...

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