domingo, 11 de abril de 2010

"Democracia Efectiva ou «Democracia... Induzida»"


Hoje no "Público", Pulido Valente ["the" Pulido...] vem declarar solenemente que [nem mais nem menos!] "Alegre divide o P.S."

Eu não estava lá para ver quando ou se ele o dividiu---e com quê.

Francamente não gosto de autópsias e tenho reservas instintivas em relação à dissecação de cadáveres---embora compreenda a utilidade objectiva da prática, obviamente...

Não posso, por isso, nem confirmar nem desmentir a circunstância do desmembramento em causa.

Mas posso pôr uma dúvida, não?

É um dos fundadores do partido [ao qual, repito, não me liga qualquer proximidade, afeição ou simpatia, sejam elas de tipo forem, bem pelo contrário: acho que está na essência por determinar com o rigor que o respeito devido à nossa própria História colectiva para não dizer: simplesmente, à verdade histórica tout court imporia qual o verdadeiro papel do P.S. e especificamente de Mário Soares e---por que não?---do próprio Alegre no abrupto fim do período de fecundo laboratório social que foi o 25 de Abril]; mas, perguntava eu: é um dos fundadores da "coisa" que, erguendo a bandeira que é, no fundo, a dos princípios [bons ou maus, genuínos ou hipocritamente usados para maquilhar "outras coisas" politicamente bem menos louváveis] que presidiram à constituição da "coisa" quem divide aquilo que deu seguramente um contributo relevante para que fosse criado ou o verdadeiro bando de mariolas e arrivistas avulsos, sem ideias nem ideais e mais ou menos "caído do céu"---salvo seja!---que manifestamente tomou conta daquilo nestes últimos tempos e que chegou ali virtualmente "de para-quedas" há meia-dúzia de dias ou meses?

Eu sempre tive a lealdade [e lisonjeio-me pensando que, também a independência intelectual] de declarar "à cabeça" que não "morro propriamente de amores" por "inteligentes profissionais" que passam a vida a explicar-nos por que exacta razão a evidência de quanto vemos é, afinal, tudo menos óbvia [para toda a gente menos para nós, ainda por cima...] e que o nosso próprio suicídio social, económico e político colectivo é, muitas vezes, algo por que todos devíamos estar ansiosamente a orar que o próprio Deus nos enviasse na figura de um demagogo qualquer de falinhas mansas e bolsos do tamanho da própria lábia da simpatia do "iluminato" em causa.

Nunca escondi tão pouco que, de "pêésses e quejandos"... nem pó, para recorrer à eloquente formulação do santo orago da cidade que escolhi há tempos para residência.

Agora, caramba! A César o que é de César!

Claro que os partidos [como o voto dos cidadãos] não pertencem a quem quer que seja---senão aos próprios e à sua própria, muita ou pouca, inteligência, honestidade e esclarecimento, no caso dos votos.

Mas admitir de forma implícita [lapsus calami?] e---pior ainda!--- também liminar que quem está "ali" de direito são, no fundo, as "visitas" e que o intruso é o próprio dono-da-casa ou um deles---é capaz de ser um bocado demais, homem!

Eu fui buscar o texto de P. Valente porque ele evidencia à saciedade as razões que me levam a mudar instintivamente de passeio sempre vejo mesmo à dfistância um só que seja dos chamados "comentadores".

Senão, repare-se já agora nisto: diz Valente, na sequência do que até aqui já aduziu, que a direita "deve" ganhar as próximas eleições presidenciais porque se ganhar Alegre porque o Bloco que o apoia [o "limita", descreve Valente] não-sei-quê e, depois, o próprio "pê-ésse" não-sei-que-mais.

Mas agora pergunto: e se o eleitorado decidir mesmo votar Alegre?

Se ele decidir que, ao contrário do que parece acontecer com Valente, os seus próprios interesses ou o que ela considera que o sejam devem falar mais alto do que quaisquer conveniência ou jogos partidários [para quais "perigos" e "prejuízos" como avança Valente] e se estiver [desculpem-me a vulgaridade da formulação!] pura e simplesmente borrifando para estas e/ou para estes?

Não é isso que év suposto que as eleições sejam: uma circunstância ou um ensejo para as pessoas exprimirem a sua vontade?

Não é esse, exactamente, o espiríto mesmo da democracia: que o povo decida e que os partidos respeitem essa decisão e se posicionem em conformidade com ela e não ao contrário, como está obviamente pressuiposto na formulação de Valente?

O que está mais ou menos subtilmente pressuposto na argumentação de Valente é que isto de o eleitoral se manifestar é muito bonito e até pode substanciar em si mesmo todo um sistema político e um todo um regime mas... com maneiras---que é como quem diz: é um bem e algo que se pode cumprir-se sem demasiados problemas desde que se faça tendo primariamente presentes determinados... pressupostos que são, afinal, aqueles que a sua, dele, Valente, própria ideia de sociedade e de arrumação dos sistemas concretos de poder dentro dela dita e determina...

O ideal parece, sempre, ser que, em última análise, houvesse pessoas e sociedades para os partidos e não partidos para as pessoas e para as sociedades---e é precisamente esta visão ou estev des-entendimento primário da democracia, completamente disfuncionais e pervertidos uma e outro que me leva a contestar aquilo que hoje passa regularmente por "análise" e "comentário" políticos.

É esta permanente [e perigosa!] promiscuidade entre objectividade e mera convicção; entre demonstravelmente legítima idoneidade analítica e crítica e simples "persuasão com-o-rabo-de-fora"; esta pretensão de "tutelar democraticamente" a própria democracia; de [como dizer?] induzi-la habilmente "embrulhada" em inocente reflexão e trabalho mental de verdadeiras elites que me irrita neles e mais do que irrita escandaliza---e repugna!

Meus caros senhores: quando eu precisar de "outsourcing" para pensar a minha própria vida pública ou privada, não faço política: meto-me no eléctrico para o Alto de S. João e fico logo lá: é que já devo estar morto há algum tempo sem ter até aí ainda dado por isso...

"Demasiado morto", em todo o caso, para coisas tão sérias, tão relevantes, tão pessoais e tão ínsitas e inseparáveis da liberdade de cada um e, directa ou indirectamente do bem-estar de todos como o exercício da Cidadania que é que, queiram-no vocês ou não, uma coisa [que, como outra que não digo...] ninguém pode, em democracia, fazer por nós"...

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