sábado, 3 de abril de 2010

"As selecções nacionais têm futuro? Qual?"


Regresso, hoje, aqui, ainda uma vez, ao futebol...

Desta vez, não ao do Benfica---"o meu próprio futebol", como tantas vezes tenho dito é esse: o Benfica...---mas ao de selecção.

Da selecção que já foi nacional e que, desde os tempos remotos em que acompanhava o meu pai na odisseia que era ir ao Jamor ver os Águas, os Colunas, os Matateus, os Carlos Duartes, os Hernânis e por aí adiante, se converteu numa espécie de grande empresa semi-privada mais ou menos multinacional também, onde grande parte do significado anterior [a parte boa dele porque havia, também definitivamente uma parte má associada ao nacionalismo-provincianismo mais bacoco e mais reprovável desses tempos distantes] se perdeu, por completo.

Nessa altura de que atrás falo, "ir à selecção" representava para um jogador o apogeu do reconhecimento da qualidade futebolística de cada um e um fim em si que dispensava outro tipo de compensação mais... sólida e material.

O aprofundamento do modelo profissional [não tenhamos ilusões: há muito já que o futebol, entre nós, o era, da "fabril" C.U.F. à universitária Académica de Coimbra!] trouxe consigo uma 'nova selecção', uma nova ideia dela---como há-de, a meu ver, trazer num futuro mais ou menos próximo, o fim da própria ideia de "selecção", senão mesmo de "nacional".

Mas esses são outros "contos" que não vêm, agora, ao caso.

Ao caso vem a "estória" dos estrangeiros "naturalizados", reaberta recentemente com a "mentira de abril" do jornal "Record" que noticiava a "alteração legislativa" que iria permitir juntar David Luís, o jogador do Benfica, ao lote dos "oriundi" de onde se incluiram, em tempos, o sul-africano [?] David Julius e o brasileiro [??] Lúcio, o também brasileiro [???] Celso e, já nos nossos dias, os também brasileiros [????] Deco, Pepe e Liedson.

Entendamo-nos, antes de prosseguir: não sou nacionalista nem tão ignorante em matéria legal que não perceba o que, em termos estr[e]itamente jurídicos subjaz à possibilidade formal de ver esses e outros [não sei se deva dizer: "estrangeiros" mas enfim...] jogarem na selecção portuguesa.

Dou até de barato que, neste caso, em tese, possam rigorosamente coincidir a forma da lei e o espírito; o conjunto de sentimentos, de puras emoções, de memórias, etc. que ligam, mais ou menos indissolúvel e definitivamente, um indivíduo a um tempo e a um lugar [a uma cidade, a um país, a um continente, até] e, por via de todas e cada uma dessas coisas, a uma representação concreta delas.

Os tempos mudam, há coisas que devem inevitavelmente, para o bem e para o mal, mudar com eles e que tenha passado a ser normal que um indivíduo que [como sucede nos casos de Deco e Pepe, desde logo] passou um dado período de tempo por Portugal tenha assimilidado tão perfeitamente o tipo de intimidade afectiva e emocional ou até mesmo de subtil e, não-raro inexprimível cumplicidade que é natural que tenha quem por cá nasceu e sempre por cá viveu que, a prazo, se tenham [volto a dizer: ao menos, em termos formais e em tese] esbatido por completo as diferenças de posicionamento existencial e afectivo-emocional que, antes, tinham forçosamente de marcar as diferenças entre as 'circunstâncias' íntimas e pessoais de uns e outros.

Continuo, por muito que tente [e já nem tento verdadeiramente: o "meu futebol" é, como disse, outro: nunca achei graça a oportunismos e chico-espertismos sejam de que tipo ou natureza forem e incomoda-me, sinceramente---para não dizer que me assustam...---manipulações, histerismos e... "tropismos de massa" como aquele que envolveu a sementeira de obedientes bandeirinhas espalhadas por tudo quanto era janela, em Portugal, ainda não há muito: fez-me lembrar outras coisas que preferia sinceramente ter há muito já esquecido...]; continuo, por muito que tente, dizia, a não me identificar com tudo isso mas, tendo como julgo ter, do meu próprio tempo e do meu próprio país a noção tão exacta quanto possível, aceito que, para outros, assim seja e pronto.

Agora, aquilo que verdadeiramente me incomoda é tipo de "argumentação" que aparentemente se encontrou para sustentar e/ou legitimar, de forma ulterior, aquela ideia envolvendo as supostas vantagens de "reforçar" as selecções com recurso ao "outsourcing" multinacional: o de que o mesmo só será utilizado "tratando-se de bons praticantes".

Ora, é precisamente aqui que as minhas dúvidas passam de mero posicionamento---chamemos-lhe moral mas seguramente subjectivo e estritamente pessoal---a questão muito mais objectiva e formal: se é, com efeito, normal porque inatacavelmente legal que, em determinadas circunstâncias concretas, um cidadão nascido no Brasil ou noutro lado qualquer tenha tanto direito a actuar pela selecção portuguesa como outro nascido em Portugal, comom justificar a ideia de que apenas os "estrangeiros" muito bons devam gozar do referido direito?

Se o único critério não-discriminatório é o da legalidade pura e simples; o da legalidade formal, a consequência parece inevitavelmente apenas poder ser a de que não existe outro limite qualquer, expresso ou implícito e que, nesse caso, a base de recrutamento da selecção se alterou de forma radical, estando os lugares na selecção a priori abertos a qualquer cidadão futebolista nascido ou não em Portugal que aqui tenha actuado um número xis de anos, não podendo, sem óbvia violação do princípio elementar da não-discriminação, ser invocado ou adiantado outro como, desde logo, esse que limita expressamente as condições de acesso à selecção admitindo apenas de forma, de um modo ou de outro, confessado ou não, excepcional, os praticantes muito bons.

Aqueles que, como se diz na linguagem própria do futebol, "fazem a diferença".

A questão não é, insisto, a de fazer qualquer "diferença": é uma questão de estrita legalidade e qualquer futebolista em determinadas condições goza do direito a concorrer a um lugar na selecção.

O limite para o número de lugares é apenas o que se encontra, de forma expressa, estatuído na lei, não qualquer aptidão ou destaque considerado excepcional.

Qualquer futebolista naquelas condições de estrita legalidade tem o direito de sentir-se discriminado caso entenda que deixou de ser considerado para um lugar na selecção por razões de simples nascimento.

E é por isso que eu digo que, desde logo, com a "Europa", as selecções nacionais estão condenadas à extinção a prazo, estando-lhes reservado o mesmo destino das velhinhas selecções regionais das Associações Distritais de Futebol cujos jogos eu ainda tive ocasião de presenciar: porque, por um lado, não vejo como se podem legalmente ser postos ao acesso a elas limites que a própria lei geral impede e expressamente proíbe mas, sobretudo, porque, por outro lado, esses limites com a igualitarização de facto e também de direito dos países do espaço dito "europeu" deixam, por si mesmos, de fazer ou conter qualquer sentido.

Por quê, com efeito, limitar no futebol [ou no basquete ou no vólei] quando é ilegal limitar na profissão médica ou na actividades jurídica e/ou ainda docente, para citar apenas estes casos?

Qualquer médico ou advogado ou professor não tem de ser excepcional relativamente aos seus pares nascidos no País para ser elegível para um cargo em Portugal, em condições de estrita igualdade: não se lhe pode apresentar qualquer pressuposto dessa natureza: ele tem é de situar-se dentro de parâmetros legais definidos e nada mais.

O que eu há muito defendo é que a tal arbitrária e discriminatória "condição" da excepcionalidade é, na realidade, pura e simplesmente ilegal e configura uma grosseira violação do princípio da igualdade sendo que não tardará provavelmente muito para que um Bosman qualquer mais determinado consiga que uma verdadeira revolução tenha lugar na competição internacional---uma "revolução" que apenas pode terminar ou com a admissível transformação das actuais selecções nacionais em "clubes excepcionais de exibição" cujo estatuto terá, todavia, de ser minuciosamente negociado com os próprios clubes já existentes ou à extinção, pura e simples.

Não deve, como digo, tardar muito para que fiquemos todos, de uma vez por todas, a sabê-lo...


[Na imagem: selecção nacional com o equipamento vulgarmente usado na década de 50]

3 comentários:

Gonçalo Eusébio disse...

De facto corre-se esse risco de as selecções se descaracterizarem de tal modo que deixem de fazer sentido.Mas aí eu realçava também a importância da formação de jogadores. No futebol de formação dá-se o caso de nas principais equipas jogarem muitos jogadores filhos de emigrantes ou seja que já são portugueses por direito e não precisam de se nacionalizar.Esses jogadores jovens podem optar por jogar pelo país onde vivem,esse fenómeno até está a acontecer mais rapidamente nas selecções jovens do que na principal mas irá certamente afectar a prinicpal.Mas há na selecção principal uma situação que não consigo digerir de um jogador, o Deco,que foi para a selecção A apenas e exclusivamente pelo aspecto financeiro porque a transferência do Porto valorizava-se se jogasse na selecção e pelo interesse da FPF no aspecto financeiro e desportivo.Quando se nota claramente que esse jogador não está com a selecção,que tem frustração de não jogar pelo Brasil, sempre que fala nota-se que está arrependido disso e depois ainda se compara à Naide Gomes e ao Obikwelu(situações de desportos individuais completamente distintas, aliás a Naide Gomes e o Nélson Évora só obtiveram a nacionalidade quando a Federação de Atletismo percebeu de que ali lá estava a tal mais valia de que fala no texto) penso que se devia repensar a nacionalização de jogadores apenas para reforçar ou porque é preciso no momento, como aconteceu também com o Liedson e o Pepe, embora estes não se mostrem arrependidos e noto neles uma maior vontade de "lá estar" do que no Deco.Eu acredito que há jogadores naquela selecção que estejam lá não por motivos financeiros mas por amor à camisola.

Carlos Machado Acabado disse...

Eu continuo, sinceramente, a achar isto tudo uma trapalhada onde daqui a pouco ninguém se entende, já, de todo!
É que há nisto uma contradição insanável, de base: ou existe [e, legalmente, TEM DE existir!] uma total e incondicionada [porque formalmente incondicionável!] igualdade de acesso que é rigorosamente idêntica para os Paulos Bentos que vêm de Oviedo a Lisboa, de carro, a guiar a noite toda para jogar na selecção porque a sentem e para os Decos que aceitam jogar... jogos "esquisitos", com a selecção pelo meio, como aquele que refere e que só jogam naquela porque é a que "está mais à mão" ou, em [im-possível] alternativa, se restringe [Quem? Com que direito mas, sobretudo, com que Direito?] o acesso às selecções aos tais "excepcionais" mas aí em claríssima violação do princípio básico e primário da não-discriminação.
É por isto mesmo que a alternativa não existe: aberto o "saco dos ventos", ninguém volta a metê-los todos outra vez lá dentro: criada a lei que permite contornar... 'confortavelmente' a própria realidade, não se pode deter a máquina.
Foi assim com a lei Bosman e tem obrigatoriamente de ser assim no caso das selecções.
A selecção, para mim, mesmo na circunstância competitiva assumidamente 'industrial' que se vive hoje no... "desporto", deve fazer parte [até pelo modo como 'mexe' com sectores tão amplos da população] de uma espécie de último reduto da identidade---e até da generosidade---colectivas, onde se actue por "amor à arte" e não por qualquer estipêndio, em numerário ou em... géneros.
Eu diria que, na actualidade, é um imperativo identitário e cultu[r]al!
Não podemos aceitar TUDO, meu Deus!
Claro que é bom ganhar----mesmo quando são, na realidade, outros a ganhar por nós, como sucede no Desporto como no "desporto"; mas ganhar com um golo marcado com a mão, pelo apanha-bolas, conseguido para além da hora?...
Eu continuo a não conceber "vitórias" dessas...
A imagem que escolhi para ilustrar esta "entrada" é de uma selecção que não ganhava rigorosamente coisa alguma mas que era, com todas as implicações, boas e más que a época lhe conferia, "asseadinha" do ponto de vista dos respectivos pressupostos competitivos.
E que era, sobretudo, o espelho fiel da realidade competitiva nacional da época.
Boa?
Má?
Com coisas horríveis mas que ninguém [para além daquela "fantasia", tentada muito a medo e logo deixada cair, do David Julius e do Lúcio] teve a "coragem negativa" de "maquilhar" para meter uns tostões no bolso de meia dúzia de carreiristas de profissão para quem, na prática, vale... tudo.
Também aqui é uma questão de princípio.

Carlos Machado Acabado disse...

Ou melhor: de princípios!...