quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"Quantas Repúblicas de Weimar Cabem Numa Mesma História?..."


Num texto recentemente divulgado [cf. Boaventura Sousa Santos "Sinais de Esperança" in jornal "Público" de 08.11.10] vem o conhecido sociológo levantar uma questão extremamente interessante---e especialmente oportuna numa altura em que, em Portugal, se anuncia um regresso da direita "dura" ao poder em processo de substituição da direita "social" [ainda] em exercício.

No texto em causa evoca S. Santos a recente eleição de Dilma Rousseff para a presidência do Brasil e, recordando embora especialmente aquilo que os separa, sobretudo no plano da "política" externa [do que nos E.U.A. com Obama ou sem Obama, passa por "política"o que não é precisamente a mesma coisa...] menciona, de igual modo, a América, os inicialmente muito mi[s]tificados E.U.A. "de" Obama tecendo sobre a relação entre ambos, Estados Unidos e Brasil, diversas considerações que, não constituindo embora aqui objecto de análise directa, me permito afirmar que justificam seguramente consideração atenta.

Boaventura Sousa Santos é muito claro na desmontagem que faz do neo... neo-imperialismo "ameno" e "cordial" obamista e sobre o modo como ele procura, de forma [sonsamente!] tentacular, reaver parte do capital de domínio económico e instrumentalmente político de que já gozou, de forma globalmente incontestável [e dificilmente contestável, no terreno, também!] no "seu" continente---domínio esse que, como ainda não há muito recordava, por seu turno, o Gen. Loureiro dos Santos no mesmo jornal "Público", a truculência bronca e cega da "diplomacia" bushista empenhou [para bem da autonomia económica e política da própria América no seu todo, a meu ver, aliás!] em duas guerras de pilhagem [directa e indirecta] de que não sabe, aliás, hoje já exactamente como sair.

O ângulo de toda esta questão que me interessa aqui abordar é, todavia, como disse, substancialmente distinto do que o Prof. Sousa Santos toma por seu no texto que refiro e prende-se com o modo como ambos os blocos virtuais [no fundo, os próprios E.U.A. não constituem, em meu entender, sob inúmeros pontos de vista, menos um país (ou uma entidade genericamente "para-nacional") puramente virtuais do que a própria "Europa"] integram nos paradigmas concretos relativos ao respectivo funcionamento político [ou mais exactamente: "politiforme"] a "questão" do "social".

Confrontado com as devastadoras consequências da "quaternarização" intensiva, "verticial" ou "angular" do respectivo paradigma económico [falo da mudança de estado físico das economias "motoras" da "Europa" e do mundo que, como é sabido, há muito passaram já, em larguíssima medida, do "estado (ainda globalmente, apesar de tudo) sólido" (em que ainda podem passar com algum sucesso a ideia de que se justificam social e politicamente porque "criam riqueza") representado pelo capitalismo comercial, industrial e finalmente pós-industrial, tecnológico ou ultra-tecnológico, para o respectivo "estado gasoso", insubstantivamente financeiro, caracterizado pela circunstância de as economias que integram e compõem o novo modelo [re] produzirem já, em larga medida, directamente capital sem a mediação circunstancial da produção de bens que era, volto a dizer, a respectiva 'justificação' social e política imediata---e também histórica---tradicional; confrontado, dizia, com esta realidade, o Ocidente vê-se mais ou menos clara, mais ou menos irreversivelmente, atingir o seu próprio "estádio" não já "supremo" para utilizar uma expressão e uma ideia de Lenine, ma "ultra-" ou talvez mais exactamente: "meta-supremo".

É deste estádio "meta-supremo" do capitalismo pós-moderno; da sua profunda e [des] estrutural disfuncionalidade bem como da respectiva completa in-utilidade social estrutural que nasce, afinal, a presente "crise" mundial.

Ora, a minha tese sobre toda esta questão é :

a. que uma das grandes mistificações que possibilitaram que o capitalismo industrial passasse de um mero dispositivo de capitalicização privada [ou de transformação contínua, sistémica, da própria realidade em "valor"] a 'modelo civilizacional' e desse finalmente origem a uma civilização própria foi o sucesso que alcançou o mito por ele propagado e rapidamente "culturalizado" de que "produzia riqueza"---isto é, de que tinha ascendido à condução [e à "propriedade"!] da História porque produzia mais e melhor riqueza do que os paradigmas que historicamente o antecederam---o que até começou, de resto, por ser, num certo sentido imediato, verdade e continuou, aliás, durante muito tempo ainda, a constituir uma circunstância em si mesma [i.e. considerada de forma independente relativamente aos aspectos ligados à maneira como essa mesma riqueza era produzida e como ela era socialmente distribuida] sempre e apenas naquele sentido imediato atrás referido, verdadeira;

b. que o cerne do embuste em causa está em que ele não produz, de facto, riqueza: produz apenas e somente, capital;

c. Mais: que, para produzi-lo, ele precisou de semear ou de "plantar sistemicamente" nas sociedades onde se instalou doses estratégicas de "carencialidade possibilitante" sem a qual não consegue---e não consegue por definição!---gerar os mecanismos primários de produção de "valor" indispensáveis à produção final de capital.

d. É verdade que nessa produção de capital entra, por sua vez, a produção funcional [ou se quisermos ser mais claros: a produção sistemicamente pretextual] de bens, entre os quais o emprego---numa palavra, a tal "riqueza" que é aquilo que permite ao sistema simular objectualmente a utilidade social que reivindica para si mas que, na realidade, não passa, para ele, de uma questão meramente técnica, de uma componente ou mesmo de um subproduto de produção que ele, sendo capaz de, até certo ponto, condicionar [forçando a sua "cultura" própria a representar social e cultu(r)almente "necessidades" e padrões de necessidade de que se serve, em seguida para gerar "valor"---necessidades essas que são, primariamente, dele sistema pois é aí que se situa o mercado, sem o qual o sistema por razões óbvias não pode existir] não pode, por definição, dispensar.

e. Que, a fim de se transformar numa "cultura" e agir eficazmente sobre a sociedade ele precisa de um Estado.

f. Que o Estado é, pois, o veículo indispensável do sistema [é ele quem se encarrega da tarefa de converter continuamente em "cultura" ou em "ideia"---uma e outra, "independentes"---o projecto capitalista de apropriar-se da realidade, convertendo-a centralmente numa propriedade privada com um número limitado de 'donos'] e é ele quem permite fazer a ligação operativa constante entre a infra-estrutura económica determinante e o utensílio-sociedade [ou o utensílio-História] colocando entre ambos, numa posição estratégica essencial, a alfaia "Política" funcionando como "link operativo" directo ou imediato entre ambas aquelas realidades.

g. Que, de facto, o Estado [a que chama ardilosamente "social", a partir de dada altura, a fim de dar resposta às pulsões adversárias vindas das camadas sociais que o modelo teve inevitavelmente de sacrificar para ser historicamente possível] desempenha outros papéis igualmente vitais para o sistema, como tantas vezes tenho dito: por um lado, capitaliza-o continuamente devolvendo-lhe globalmente íntegro o mercado que ele não consegue assegurar-se funcionando na forma extrema de capitalismo total que, aliás, por mais de uma vez tentou e, por outro lado, evita precisamente as consequências disfuncionais, sociais e políticas, da própria des-igualdade des/estrutural do modelo, tornando-o genericamente "habitável" e até, para alguns [indivíduos e classes...] mais crédulos e mais fáceis de persuadir, "desejável".

h. Que, na realidade, como tantas vezes tenho repetido, por tudo quanto acabo de dizer, o sistema não é, pura e simplesmente, sustentável sem o vértice operante que é o Estado, o tal Estado "social" que [repito-o ainda uma vez, para sintetizar, porque este é um aspecto absolutamente determinante e essencial!] [a] recapitaliza continuamente o modelo devolvendo-lhe o mercado sempre que este entra em "crise" cíclica; [b] reintegra social e políticamente através de um sistema de... "roldanas politiformes", conhecidas vulgarmente por "eleições", as pulsões descentracionais e, em geral, dis- e desfuncionais que lhe chegam do autêntico social e, por fim [c] opera como laboratório cultu[r]al onde o que, na realidade, é, volto também a dizer, propósito sistémico de sector e de classe se converte numa "cultura" abstracta e aparentemente autónoma, comum a todas as classes, através da qual o sistema como tal parece transformar-se quer numa coisa, num objecto "natural" anterior e exterior ao sistema, quer, no limite, na objectuação mesma do desejo colectivo, como atrás referi.

i. Mais ainda---e esta é que, em suma, "all things considered", como diria um observador inglês, a questão de fundo que nos faz passar da "Política" ou do "político" para o 'civilizacional': que desaparecido o alibi, a justificação social e política da "produção de bens" [de facto, não esqueçamos, um mero subproduto, em larga medida, inorgânico e inerte, da produção de capital!] [1] é---devia ser, do ponto de vista da Esquerda, para todos os efeitos, evidente que é o próprio capitalismo que passa a estar automaticamente em causa como modelo histórico e, no concreto, como edifício ou institucionalidade social, política, cultu[r]al, ética e/ou até simplesmente mental.

j. Ora, aqui é que entra aquele aspecto por onde comecei da política "social" vista por norte-americanos e brasileiros, por um lado, e pelos tais "europeus", por outro.

k. Parece difícil não ver como do lado de lá do Atlântico [e isto não podendo estar mais longe dos meus propósitos qualquer intenção de mi(s)tificação do papel social, quer de Obama, quer da própria recém-eleita presidente "lulista" brasileira em cada um dos respectivos países!] sobretudo, no "caso" dos E.U.A.; parece difícil não ver, dizia, como depois de anos a fio de liberalismo puro e duro e de institucionalização [e mesmo aberta "policialização"!] do combate anti-comunista [aliás, um conceito ou uma... conceituação sobre os limites de cuja abrangência "your guess is as good as mine"...] uma espécie de discretíssimo mas talvez tendencialmente significativo "afterthought" parece emergir no horizonte político "mainstream" ["loom in the horizon of mainstream U.S. politics"] ainda que, como é sabido, despertando, de imediato, a reacção, de resto, fácil de prever numa não-sociedade e num não-lugar cultu[r]al, político e até mental com as características dos E.U.A.: uma "nacionalidade inorgânica", polipolar [objectiva e, depois, voluntariamente] descentral, em larguíssima medida pretextual, mitificadora da "fronteira" e dos valores violentamente egocêntricos [intrinsecamente associais ou apenas funcionalmente sociais] da "fronteira" e que nunca se resignou completamente à ideia de "ser país", pelo menos, tal como entendemos na Europa Ocidental, de hoje, a ideia de país.

l. Como europeu e como português, causa-me particular inquietação constatar, desde logo, duas coisas: primeira, o modo como as ideias de, por um lado, "sustentabilidade objectual do modelo social" [de facto, não é tanto a sustentabilidade como a imediata habitabilidade desse mesmo modelo que está para mim, que não pretendo vê-lo perpetuar-se indefinidamente, em causa; para mim para quem a questão da justificação do modelo está há muito, por tudo quanto atrás deixo dito, resolvida e já deixou há muito de ser, por isso, uma verdadeira "questão"...] e de "Estado "social", por outro, se encontram---eu diria: tessitariamente interligadas, sendo previsíveis perturbações de alcance dificilmente calculável, dificilmente antecipável, caso se concretize o processo de "divórcio" entre ambas, proposto, hoje-por-hoje já de forma expressa---oficial até---pelos abencerragens do capitalismo... "quaternário" instalado [embora social e politicamente muito mal consolidado... "benza-o Deus"!] na tal "Europa" de que toda a gente fala.

m. Que por outro lado ainda e, por extensão natural, preocupa-me [e muito!] verificar como do lado de lá do Atlântico [muito débil e muito problematicamente, no terreno, é verdade!] se começa exactamente a dar conta da insustentabilidade objectiva do modelo liberal puro-e-duro, antecipando, talvez, a percepção de como da perda de justificação sistémica e da inabitabilidade de um sistema economicamente des-igual e socialmente violentíssimo ao qual foi imprevidentemente retirada [ou mantida ausente para lá de um determinado momento teórico de dificilmente reversível des-integração] a almofada de segurança do Estado se passa facilmente para a insustentabilidade pura e simples do mesmo.

n. É claro que nós vivemos hoje numa "Europa" de Angelas Merkels ["cette petite absurdité parvenue, politiquement factice et personellement négligeable"] de Sarkosys ["cet espèce de petit voyou bêcheur et péteux"] ou, noutro grau e noutra dimensão, dos inqualificáveis Sócrates, Durões Barrosos e quejandos, gente sem dimensão intelectual nem política para perceber o mundo à sua volta quanto mais aquele em que, por des-integração sistémica desse, tudo leva a crer que venhamos todos a ter de [sobre] viver muito em breve.

o. Ninguém sabe, designadamente, onde poderá conduzir a des-integração do modelo, uma vez amputado formalmente da "alfaia possibilitante" do 'Estado funcional' a que gosta de seguir chamando [no próprio momento de aliená-lo----e não emprego aqui o termo ao acaso, quero deixar bem sublinhado...] "Social".

p. Sabe-se, todavia---não é difícil prevê-lo e há ene "Repúblicas de Weimar" na História anterior para ajudar a pôr tudo em perspectiva...---que tudo indica que não seja, efectivamente, nada de bom...



[1] A capacidade ulterior para gerá-la foi, como se sabe, o argumento-chave da burguesia europeia para se 'apoderar politicamente da História' e passar a ocupar, desde o século XVIII, o lugar electivo aos seus comandos que ainda hoje conserva---hoje, numa altura em que as mutações sofridas pelo paradigma perderem já, em termos práticos---nunca será demais repeti-lo e sublinhá-lo!---esse grande fundamento, em si mesmo revolucionário, de que era preciso justificar pontualmente a propriedade---a começar pela propriedade material da História que é, na realidade, o princípio que está na própria base de todas as formas ulteriores de representação ou representacionalidade e de democracia que entraram [ao menos, teoricamente] na História a partir dessa altura.


[Imagem ilustrativa extraída com a devia vénia de posterlovers-dot-com]

6 comentários:

São disse...

Admiro Sousa Santos, muito. E lamento imenso a sua ausência da televisão, tal como a de outros nomes.

Tudo de bom

Carlos Machado Acabado disse...

É uma triste evidência, essa, São!
Desgraçadamente, o chamado «serviço público de televisão» tornou a comunicação num autêntico condomínio fechado onde só vai quem o poder deseja e quem o poder admite.
Quando muito, quem o poder tolera...
Ainda há pouco um impotente e, por isso mesmo, no fundo, irrelevante "Provedor dos Telespectadores" constatava isso mesmo: o afunilamento da informação e da opinião em Portugal com a consequente extinção... "estratégica" da "biodiversidade intelectual e crítica" da sociedade portuguesa que, muitas vezes, outro modo não tem de se... informar e formar opinião.
Boaventura Sousa Santos é apenas um caso entre muitos!
"Aquilo" está cheio de "atletas mediáticos" intelectual e culturalmente de todo irrelevantes substituidos por verdadeiras nulidades coroadas que nada nos trazem de importante, de intelectualmente saudável e [ou porque] de cientificamente credível a todos nós, como sociedade e como país.

Um beijinho e a continuação de uma óptima semana!

Gonçalo Eusébio disse...

Sim estou de acordo com o que escreve, o Estado social é um modo de manter o mercado do sistema capitalista, sustentado forçosamente através do aumento dos imposto em contrapartida ao carenciamento dos trabalhadores ou dos salários, de um modo geral de todo o aparelho produtivo nomeadamente do sector primário e secundário e consequente diminuição da capacidade exportadora do país.

Amigo Carlos Acabado tenho pena que tenha deixado de seguir o meu blogue, se lá voltar será bem recebido como sempre.

Carlos Machado Acabado disse...

Eu ando extremamente desapontado com o Benfica, confesso, e nada estimulado no sentido de me dar muito com ele mas tenho muito gosto em aceitar o seu amável convite, Eusébio.
Um dia destes, "vê-me" por lá de novo, vai ver.
Um abraço!

Gonçalo Eusébio disse...

Compreendo bem o que sente. E encontro muitas semelhanças com o que senti em 87-88 tinha eu 8 anos e o Benfica até tinha sido campeão mas eu já tinha sofrido muito com os 1-7 de Alvalade e depois de um início de época desastroso que culminou com uma impensável derrota em casa com o Marítimo fiquei sem paciência e deixei de gostar do Benfica como gostava também por influência da minha mãe que detesta futebol e me castigava quando eu chorava ou amuava por causa do jogo.São sentimentos tão genuínos que hoje em dia parecem estar a perder-se. Mas acho que não é caso para desligar-se do Benfica.

Carlos Machado Acabado disse...

Se calhar é só uma fase mas, de facto...
Enfim, veremos...