domingo, 16 de maio de 2010

"Sobre a Impossibilidade Natural de Uma Democracia do Conhecimento"


Nunca deixa de me causar uma fortíssima impressão o modo com Portugal [vamos dizer deste modo] "se pensa em geral a realidade".

A realidade em termos latos [quase?] filosóficos mas, de facto, todas as formas de realidade com a qual nos deparamos no dia-a-dia.
É todo um modo de pensar, uma cultura de abordagem ou de apropriação teórica e representação estável, consistente, tópica do real.
Supostamente, seríamos hoje, com a [chamada...] 'democracia, a "Europa" e tudo o mais que para muitos substancia, de forma bastante, o regime democrático uma "gnoseotopia", um "lugar gnoseotópico" ou, como prefere, vulgarmente, dizer o poder político: uma sociedade "do conhecimento".

Ora, para que possa dizer-se com propriedade e legitimidade epistemológica demonstrável, contender-se, afirmar-se, que uma sociedade tem legítimo direito a ser reconheciada como sendo de facto como de direito "do conhecimento" é preciso que esse mesmo conhecimento [i.e. as tais formas, os tais modelos consistentes e substantivamente fiáveis de abordagem e apropriação do real] se encontram efectivamente democratizados, ou seja, que eles não entratam na História das sociedades [e na Política delas e no Direito próprio delas e na Cultura delas!] na forma de um proto-capital ou matéria-prima da produção social de capital com que hoje entram no universo económico, político, jurídico, cultural etc. das sociedades ocidentais.
É [seria!] preciso que [vou mais uma vez utilizar a expressão de uma forma perfeitamente deliberada e intencional!]; seria presciso que os meios de produção de conhecimento, ou seja, de imagens estáveis fiáveis da realidade em geral constituissem uma propriedade e um património de toda a sociedade e não apenas de um conjunto de proprietários privados [reconhecidos por um Direito, por toda uma cultura e até pela própria Cultura] que os utilizam precisamente da produção de capital só depois, desactivado o conhecimento desse papel convencional que o sistemas económico-político [muitas vezes confundido com "Civilização"...] lhe atribui o libertam para as instâncias públicas ou do Estado.

Para todos nós, como sociedade.
Muitas vezes tenho afirmado que este modelo de distribuição social de conhecimento mas, sobretudo das formas concretas de acesso ao real assim como da capaciddade genérica abstracta para adquirir autonomamente conhecimento; da ciência e da técnica de transformar em imagens teóricas consistentes e fiáveis as informações obtidas no contacto directo, politicamenter imediado, da consciência com o próprio real; muitas vezes tenho afirmado, dizia, que o modelo cultural e político vigente de distribuição dos meios de produção de conhecimento é, hoje, aquilo que, de facto, se não cria, mantém, pelo menos---e de que maneira!---as classes sociais e conómicas estavelmente separadas entre si.

É também com base nestes pressupostos que venho há muito defendendo, de um modo muito claro e assumido, que uma das grandes burlas ideológicas do nosso tempo é, sem dúvida, a que é praticada pelo chamado neo-liberalismo económico que se "especializou", no plano "teórico", justamente com o propósito de esconder as gravíssimas disfuncionalidades; as profundas deformações de todo o tipo que introduz na História dos povos e das sociedades onde prevalece, em deprimir tericamente o papel do Estado [do que chamo o Estado consciência moderno] na sociedade.

No funcionamentro supostamente saudável das sociedades contemporâneas.
É conhecido o cliché do "menos Eastado, melhor Estado" com o qual os advogados da "sociedade zero" ou... "sociedade [e democracia] funcionais" tentam substanciar teoricamente a defesa que fazem da sunstituição da velha noção de Cidadania pela de uma espécie de "proletariado cívico" ou de "cidadania instrumental".

Ora, a burla, o embuste em causa [que só pode persistir exactamente porque a capacidade para formar as tais imagens teóricas do real não se encontra nem pode, tendo em conta a própria estrutura natural e estruturalmente desigual do modelo efectivamente democratizada] fica muito claro quando se ouvem, a cada passo, os economistas do regime entre os quais aquele que desempenha hoje as funções de Presidente da República defenderem mais ou menos acerrimamente o investimento público, numa perspectiva que, se não é, de facto, abertamente keynesiana anda, na [in?] essência, lá perto desempenhando o papel que não é, porém, meramente episódico e circunstancial, como defendem esses economistas "do regime" mas que é absolutamente nuclear e estrutural, [sublinho: estrutural embora, de outra perspectiva crítica pudesse, de igual modo, com igual propriedade, chamar-lhe... des-estrutural] do próprio modelo neo-liberal papel esse que é o de recapitalizador cíclico [eu iria --vou!--até ao ponto de lhe chamar: estratégico] dos mercados e ao mesmo tempo corrector periódico essencial de um conjunto de disfunções de outro modo inévitáveis e também em si mesmas insustentáveis que são [porque são!] inerentes e ínsitas ao próprio modelo.
Reconhece isto---reconhece... o óbvio!---com todas as letras [ou com a falta de muito poucas...] o presidente da CIP, Arnaldo Saraiva, numa entrevista ao "Correio da Manhã" publicada ne edição de hoje, dia10.05.10 ao dizer expressamente, a dado passo: "[nós privados] se gerimos com uma rede sólida por baixo podemos dar as piruetas que quisermos. A rede sustenta-nos sempre. Quando não temos rede é bem mais difícil. Por isso é necessário que o Estado reduza a despesa."
E acrescenta, esclarecendo, de imediato: "E não é congelando ops salários da Função Pública".
Evidentemente que não é!
Só uma sociedade que não interiorizou formas integrantes causais e orgânicas---formas científicas---de pensar pode acreditar no mito-embuste da economacria e da respectiva viabilidade.

Ao reduzir, congelando os salários respectivos, o poder de compra de um sector ainda fulcral da sociedade portuguesa, a escassez de ideias do vesgo poder político vigente dá, a um tempo, um sinal claro para que idêntico impulso de contracção contamine maqis ou menos de imediato o sector privado mas mais grave ainda reduz drasticamente o mercado [ele que na sua desorientação e completo descontrolo político, tinha tomado já medidas supostamente sociais conducents à baixa geral dos salários] incumprindo, assim, de várias maneiras, aquela que é uma das funções primárias do "Estado broker" [do "Estado-almocreve"] e da "democracia funcional" que obedientemente o serve nas sociedades economocratas neo-liberais de hoje: exactamente essa função e esse papel verdadeiramente fundamentais----sistémicos, mesmo----mesmo, de recapitalizar continua ou, pelo menos, ciclicamente um sistema económico-político que se disfunciona regularmente por definição e tanto mais está condenado a fazê-lo quanto as quantidades de conhecimento na forma de tecnologia integradas em si [desequilibrando continuamente a relação existente e ainda funcionante entre o capital constante e o capital variável] forem aumentando---ele, conhecimento, que é, hoje-por-hoje, a chave do "crescimento" material efectivo de todo o sistema.

A disfuncionalidade ou a des-igualdade intrínseca do sistema revela-se no modo como ele opera.
De facto, o sistema opera segundo um padrão tópico constante que o obriga a produzir doses maciças, doses sistémicas, estratégicas, de carência a fim de fazer "saltar" o "valor" dos objectos---porque, do ponto de vista do sistema, o "valor" surge da escassez que ele próprio planta a montante, sem a qual esse "valor", tal como ele o entende, não se "liberta" dos objectos.
É outro embuste gritante sobre o qual tabém já aqui deixei expressa a minha posição pessoal: o de que sistema "produz riqueza": tal como stá estruturado, ele utiliza como matéria-prima essencial na produção da tal riqueza além do próprio conhecimento que transforma em produtos a criação de doses maciças de "agnosia funcional" [através, desde logo, do recurso a um Direito que funciona, por sua vez, como as antigas "enclosures" da Revolução Industral] que nunca é, por razões óbvias, mencionada nas loas dos advogados do modelo.
Que é, porém, uma componente verdadeiramente nuclear do sistema: sem a criação de uma "carencialidade estratégica" a montante, não se verifica pura e simplesmente a libertação de "valor" dos objectos.

Termino, repetindo ainda uma vez: só não entende tudo isto quem foi perdendo aos poucos não apenas o conhecimento da realidade como, sobretudo, a própria maneira de adquirir conhecimento.
Formas operativas efectivamente democratizadas de um pensamento orgânico e causal, científico, que é hoje-por-hoje, de facto [e, também, de direito, já o disse] estrita-e-estreita propriedade privada.
E que não pode deixar de sê-lo sem que isso implique o colapso puro e simples do próprio modelo como tal.


[Na imagem: detalhe da capa do disco "Fields of Disbelief" dos "Pissing Razors"]

4 comentários:

Gonçalo Eusébio disse...

Eu na minha opinião sobre a grave situação que se passa no nosso país em particular e na Europa de um modo geral, porque com o Euro produz-se na Economia uma espécie de choque em cadeia que não sei mesmo se não será uma situação de resolução mais complicada do que sem o Euro. Há de facto um esbanjamento brutal do Estado nacional e não é de agora, diria que já vem desde a despesa com a Guerra Colonial, é uma situação que se acumula há dezenas de anos e que está quase a atingir um ponto de ruptura iminente.
Penso que o problema essencial de Portugal ou da Grécia e Espanha está no desfasamento na relação custo-produção:
É esse desfasamento que se verifica num tribunal ou numa escola,ou numa biblioteca.
Há investimento feito pelo Estado que tem melhorado muito as condições de trabalho,principalmente em termos de informatização, há uma remuneração dos funcionários que é das melhores da Europa (acontecendo de resto mesmo com os privados) senão a melhor tendo em conta o rendimento médio europeu e há estudos que comprovam o que digo, mas não há a produção ou o resultado correspondente.
O funcionário público tem no entanto de um modo geral um conjunto de regalias que o funcionário privado não possui e além disso beneficia do suporte sindical que lhe legitima o direito à greve.É só ver o número de faltas e atrasos que um funcionário público dá em comparação com o particular durante um ano e ver o diferencial custo/produção de cada um, os sindicatos não podem contornar esse aspecto que toda a gente que ande aí a tratar da vida conhece.
O problema é por isso de fundo, estrutural de mau funcionamento da Democracia,que se manteve com vícios da Ditadura principalmente no aspecto do acesso aos serviços básicos e da falta de exigência falo principalmente da área da saúde e da educação, um sistema devidamente democrático tem de em minha opinião assentar numa função pública mais bem preparada e mais responsável e melhor avaliada,porque eu não consigo desligar nada na cadeia de funções que forma a Função pública no seu todo. Só pode haver uma melhor Democracia ou uma Democracia verdadeira e não funcional quando
os seus componentes forem devidamente avaliados (políticos,professores,médicos,alunos,cantoneiros,etc.).
A avaliação evita a injustiça anti-democrática que é pôr todos no mesmo saco e exigir a todos
os mesmos cortes quando a qualidade e competência de cada um não é levada em conta.
Continuando assim, tudo isto não passa de paliativos...

Um abraço
Gonçalo

Gonçalo Eusébio disse...

Por lapso onde digo remuneração dos funcionários que é das melhores da Europa queria dizer remuneração dos gestores públicos e privados.

Carlos Machado Acabado disse...

Sem dúvida! A avaliação de todo o edifício institucional da democracia é essencial.
Mas, como professor, não tenho dúvidas do seguinte: avalia-se sempre em função de objectivos.
Tomando o caso da minha classe profissional: os professores.
O actual poder político decidiu "entrar a matar" fazendo [desculpe-me a expressão!] um 'escarcéu dos diabos', mal se iniciou, em torno da avaliação dos professores.
O ruído que fez logo de início [guerra aos "interesses corporativos" e não sei que mais] era já um sinal premonitório de que o objectivo final não iria ser a definição de quadros de qualidade fiáveis e demonstravelmente credíveis, mas carregar sobre uma classe inteira com outro objectivo qualquer que, na altura, ainda não era muito claro.
Tornou-se claro, depois: afinal, o objectivo da tal "avaliação" era tão somente limitar drasticamente a despesa com o ensino e designadamente com os professores.
Tudo o que se seguiu, o deplorável espectáculo de uma pseudo-ministra cega e surda enfrentando cada vez mais solitária [e também cada vez mais histericamente!] uma classe profissional inteira foi mau demais para ser verdade e não serviu minimamente para qualificar a docência e, com ela, a qualidade da Educação em Portugal.
Terá servido o objectivo... merceeiro de poupar... umas "coroas"?
Isso, talvez.
Mas em termos pedagógicos e educativos, nada!
Zero!
Ora, "avaliações" destas não resolvem coisa alguma!
Não melhoram as áreas que são supostas melhorar e não melhoram a Democracia.
É uma questão de seriedade e de competência políticas e técnicas.
Ou, se quisermos, é uma questão de Cidadania.
Porque logo que surgiu a tal Maria de Lurdes Rodrigues com "coisas" dificilmente imagináveis, surrealistas mesmo, como aquela de os pais avaliarem os professores, se, em Portugal, houvesse uma Opinião Pública, ter-se-ia levantado, de imediato, uma tal indignação e uma tal revolta que a coisa ficava logo ali!
É isso que, em meu entender, falta: a melhor forma de avaliar, de testar, de corrigir e aperfeiçoar continuamente a Democracia que é sempre a vigilância cívica, a intervenção atenta e cidadã responsável.
Entregar o País ciclicamente a meia dúzia de parolos e chicos espertos "iluminados" que sabem tudo não sabendo, afinal, coisa alguma mas que dispõem invariavelmente da possibilidade de não serem eles mesmos avaliados seriamente e responsabilizados quando e como devem sê-lo só pode conduzir ao presente caos.
Avaliar, sim!
TUDO!
Mas com rigor, com critérios de seriedade, com transparência e uma ideia de Portugal que, é evidente, quem lá está nunca teve e quem previsivelmente vai entrar nem me parece que saiba o que é...
É essa a tragédia nacional: a falta de uma sociedade, de uma verdadeira sociedade.
País, terra, já temos....
Gente é que parece que ainda falta arranjar...

Ezul disse...

Pois eu acredito que existem dois grandes problemas este país: o primeiro passa por um conjunto de políticos que têm pouca ou nenhuma vontade de lutar pela melhoria da realidade portuguesa ou, dizendo melhor,daquela que diz respeito à generalidade da população e não a um grupo de privilegiados. É um mundo de onde desapareceu, desde há muito, a honestidade, a generosidade, a capacidade de trabalho e a dignidade de se ser verdadeiro. Se assim não fosse, não assistiríamos ao desperdício de tantas verbas e à tomada de medidas que mais não servem do que para fazer propaganda de medidas avulsas, mal pensadas e pior executadas, que pouco ou nenhum efeito têm sobre problemas estruturais que afectam a nossa realidade. Ah, mas a demagogia, essa evolui e de que maneira, até sob a forma de choque tecnológico...
E o segundo problema diz respeito ao exercício da cidadania e à capacidade para se observar e para se questionar esta realidade em que nos inserimos. Se esta capacidade existisse, as atitudes demagógicas seriam facilmente desmontadas, até porque acredito que qualquer cidadão teria a capacidade para deixar o seu muro privado das lamentações e começar a conhecer efectivamente os outros, a interrogar-se sobre as suas condições de vida e de trabalho, para as avaliar com justiça e imparcialidade. Quando o cidadão comum fizer um esforço para se conhecer a si próprio e ao outro, quando estiver preparado para assumir que as responsabilidades, numa sociedade, têm de ser partilhadas por todos, e que todos têm o direito de exigir a verdade e a honestidade, talvez este país ainda se possa construir!