quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"Mudança Política e Consciência de Classe" [Título provisório/Texto em construção]

Insere o "Público" de hoje um texto de Rui Tavares, candidato europeu recente do Bloco de Esquerda, sobre o que entende ser, creio eu, no limite, a necessidade de redefinir por completo (ou pouco menos) a nossa concepção nacional de organização autárquica.
De como chegar a possuir uma organização autárquica renovada das "impurezas" que (de forma cada vez mais óbvia) a contaminaram desde que o 25 de Abril no-la trouxe numa forma "democrática" ou, no mínimo, democratizada.
Segundo Rui Tavares, a derrota do Bloco nas recentes eleições locais deveria abrir a porta à dita reflexão.
Ora, com todo o respeito por Rui Tavares, eu não creio sinceramente que o Bloco tenha perdido o que quer que seja das legislativas (onde, de facto, "arrasou") para as autárquicas (onde voltou---a meu ver, com toda a naturalidade---a minguar).
O Bloco é uma realidade (i) urbana e (ii) em larguíssima medida, reaccional, especular, digamos assim.
Num certo sentido, o Bloco não existe: é uma espécie de refúgio e, ao mesmo tempo, de confessionário onde os circunstanciais desencantados dos partidos aos quais está "concessionado" o sistema político português, tendem cada vez mais a ir "contar ciclicamente as suas máguas", sempre que, por uma razão ou por outra, estas ocorrem.
De resto, por muito simpático e até, naquele sentido dialéctico e especular, necessário que seja, o Bloco é, desde a sua origem, uma impossibilidade ou uma vitualidade praticamente total.
Não me interpretem mal, ham?
Eu até 'gosto' do Bloco: acho-o, em mais de um sentido, uma lufada de ar fresco na política e, do ponto de vista da Esquerda clássica, marxista, um acicate importante e (lá está!) um espelho no qual aquela squerda pode, se tiver "juízo, olhar-se e corrigir diversos aspectos de si, do modo como surge a quantos a olham de fora e que, com base nesse olhar que sobre ela lançam, vão, por sua vez, fazer as respectivas escolhas.
Neste aspecto, o Bloco é tão relevante quanto o foram, a seu tempo, a U.D.P. que constitui um dos (improváveis, volto a dizer) "founding fathers" do actual Bloco.
O problema começa logo por ser que a própria U.D.P. (e eu tenho obrigação de saber do que falo: "ajudei" a fundá-la em '74, com a minha assinatura e ainda cheguei a andar por lá uns tempinhos até que, no seguimentro de um processo de consolidação identitária que correu invariavelmente mal... "desavermelhou", como na altura se disse); o problema, dizia, é que a U.D.P. sempre teve um probglema de identidade e de conteúdo que, no fundo, nunca resolveu e que talvez tenha acabado por trazer para dentro da organização que fundou, como se sabe, com o P.S.R.) trotsquista saído de uma, para mim, até hoje inexplicada, 'revisão' ou circunstancial refundação da velhinha L.C.I.) e a Política XXI.
Ora, se ela própria sozinha sempre teve crises proofundas de identidade, como pôde a U.D.P. maoista casar com o P.S.R. trotsquista e deixar de tê-los?!
Se o seu conteúdo ideológico se caracterizou sempre pela mobilidade e pela infidez (recordo-me, por exemplo, do desconforto ideológico da "primeira U.D.P." perante a figura e o obra do Che que o partido nunca conseguiu perceber se lhe "agradava" ou não, i.e. se era para "agradar" ou não, tendo consistentemente deixado, figura e obra num limbo feito de silêncios e permanente incomodidade...); se, dizia, o conteúdo ideológico da U.D.P. sempre foi, em última análise, um insondável mistério senão, bem vistas as coisas, uma pura e simples inexistência, como pode ter saído alguma coisa minimamente orgânica e consistente, em termos de uma "teoria da realidade", ela própria, minimamente reconhecível da sua fusão com o seu exacto contrário (Mao e Trotski que casamento improvável... "made in hell")??!!
Eu volto a dizer: tudo na vida e, em particular, na sociedade e na História, é dialéctico---é Dialéctica---e o surgimento do Bloco vindo contrapor-se relativamente à Esquerda pré-existente tinha, de facto, potencialidades dialectizantes e identitárias verdadeiramente inestimáveis.
O problema é que, com toda a sinceridade, para além obviamnt que o contributo de figuras com a consistência e a dimensão intelectuais de homens como F. Louçã e F. Rosas, por exemplo, o Bloco configura, na (in) essência, aquilo a que eu chamaria um partido "em negativo": o negativo fotográfico de um partido onde todos, de um modo ou de outro, se olham, sem, todavia, realmente vê-lo.
Por isso, eu não creio, como disse, que o Bloco tenha perdido o que quer que seja: de facto, ele recolheu, a dado passo, contextualmente estilhaços do P.S. e do P.C.P. e procedeu, de imediato (é talvez outra prova da inexistência de um aparelho teórico que lhe permita sondar a História com a segurança e o rigor necessários) a considerar como "seus" aqueles votos.
Por outro lado (é uma verdadeira maldição nacional) em Portugal, uma sociedade politicamente primária e rudimentar, tem-se em geral da filiação partidária um entendimento essencialmente acrítico e... "desportivo", mimetizado do tipo de relação que cada um estabelece topicamente com o seu clube desportivo favorito.
Seria, por exemplo, sem dúvida, interessante saber quantos militantes de cada um dos principais partidos do arco partidário 'ortodoxo' leram os programas das respectivas formações...
Álvaro Cunhal costumava confrontar militantes do P.S.D. e do P.S. com propostas e afirmações que muito os chocavam... antes de saberem que tinham vindo direitinhas dos programas dos referidos partidos a cujos ideais, porém, cada um deles havia jurado fidelidade eterna...
Não é, por isso, fácil convencer um militante do P.S. ou do P.S.D. (e, felizmente mas tenho para mim que por razões distintas, do P.C.P.) a mudar-se de vez para o Bloco.
Pode (não pensem que estou a minimizar o que quer que seja ou a ridicularizar, de igual modo, o que quer que seja) "achar graça" a uma outra das questões ou causas que o partido vai abraçando mas (inda que as suas exigências em matéria ideológica sejam, no mínimo, modestas...) vai sempre acabar por sentir que traíu alguma coisa ou alguém (especialmente alguém: a política sem ideias faz-se, sobretudo, com pessoas e com as caras e as 'imagens virtuais' delas, cuidadosamente retocadas, reinventadas, em muitos casos, integralmente recriadas por hábeis técnicos de marketing...).
Vai sempre achar que traíu e que, no sítio para onde "se mudou" faltam coisas: ideias, princípios (mesmo se incumpridos), uma História, uma "cultura" a que se habituaram e que, para elas, é o próprio partido.
É o próprio "pertencer" (e não é em vão que uso o termo...) a um partido.
Mas eu não rejeito (pelo contrário!) a ideia de que é preciso repensar

2 comentários:

Gonçalo Eusébio disse...

Sobre a UDP eu já contei aqui a estória de uns amigos meus que foram da UDP na época do pós 25 de Abril mas que agora votam PS para não desperdiçar votos.Se calhar nem os próprios militantes desse partido percebiam a sua ideologia,no caso deles até são pessoas da classe baixa só com a 4ª classe.

Carlos Machado Acabado disse...

Bom mas em geral os militantes da UDP eram, pelo contrário, estudantes, gente cheia de óptimas intenções mas a quem a ideia de mudança política substancial passava completamente ao lado.
Era, sim, a adolescência política de quase todos nós...
Vendiam-se umas "Vozes do Povo", discutia-se "questões absolutamente essenciais" como a de saber se Guevara era uma referência política e ideológica ou um mero aventureiro ("assunto" para várias e acaloradas assembleias gerais de núcleo...) e por aí fora.
As intenções eram, como digo, as melhores o pior era "o resto": o mundo, a História, que cá fora iam exigindo posicionamentos responáveis, organizados, maduros sensatos e realmente revolucionários...
Enfim... alguns de nós terão aprendido alguma coisa com os erros.
Infelizmente, mesmo para esses (ou ESPECIALMENTE para esses!) era demasiado tarde...