Mostrar mensagens com a etiqueta Filologia e Linguística. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filologia e Linguística. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sem título/por rever


Na página do Provedor de 31.10.10, traz o do "Público", José Queiroz, à colação, um tema que me é particularmente caro que é o da precisão linguística e especificamente lexical enquanto meio de organizar minimamente a língua, protegendo-a da pressão [de da contaminação] muito forte dos modismos ligafos à "indústria da palavra" nas suas diversas formas actuais [jornalismo, política, etc.] e tentando, desse modo, proceder a uma fixação conceptual [e às vezes mesmo a reparações e rconceptualizaç~es pontuais] uma e outras tão necessárias e, em inúmeros casos, urgentes.

O texto do provedor [partindo do que entende---e a meu ver, com toda a correcção e propriedade---constituir a necessidade de distinguir os "islamitas" dos "islamistas" nos artigos de jornal e, de um modo mais lato, no debate envolvendo essa questão hoje-por-hoje candente das relações entre o mundo genericamente cristão e o muçulmano nas suas múltiplas formas e nos seus múltiplos matizes: há muito que venho, eu próprio, fazendo uma coisa em tudo análoga com "palestino" e "palestiniano"]; partindo daí, desse aspecto particular do discurso jornalístico designadamento do do "seu" jornal, dizia, o texto do provedor aponta, porém, em meu entender e em última análise, para aquela que constitui, para mim, a grande lei que rege o funcionamento correcto e epistemologicamente são das línguas vivas [não das línguas... viúvas de verdadeiro conteúdo e, em geral, da capacidade para o exprimirem de forma sempre dinâmica e eficaz]: a lógica e a educada estabilidade conceptuais [e conceptuantes] aplicadas a um corpus básico estrutural/estruturado [lexical e organizacional] de cuja re/des-construção organizada contínua se vai ininterruptamente fazendo eficieazmente a própria língua.

Ou seja: tal como eu a vejo a questão do "correcto" e do "incorrecto" em linguística constitui, de facto, num certo sentido dinâmico profundo, orgânico, global, em termos reais, um mero jogo dialéctio intermédio para se atingir o "correcto expressional" e, num certo sentido lato, "funcional" que representa a síntese dialecticamente final das duas.

Se assim não fosse, estaríamos todos hoje ainda a falar... indo-europeu correcto e não as múltiplas modalidades de indo-europeu "errado" que são as inúmeras línguas modernas à excepção do basco, como se sabe.

O problema não é "falar errado": o problema é, como titularia Saramago, não saber o que fazer lógica e, por isso, educadamente com o "erro".

As línguas modificam-se por duas ordens de razões: porque se modifica o seu próprio conteúdo [porque a realidade não é estática e as línguas 'inteligentes' estão sempre disponíveis para entenderem o fenómeno e darem-lhe epistemologicamente abrigo adequado e funcionante no seu núcleo básico de princípios, no seu código genético estável] ou porque pretendem arbitrariamente modificá-las uns quantos utilizadores ou grupos de utilizadores segundo uma i/lógica em tudo típica da que preside à fixação genérica dos diferentes tipos de "modas", algo que constitui, aliás, uma espécie de "regra" metalinguística tópica no universo da chamada "[in] cultura mediática".

A questão não é, pois, "errar" ou divergir": é a de como reintegrar e explicar linguisticamente a cada "momento construcional" o "erro dialéctico", ajudando a língua a, como gosto de dizer, "voluir" continuamente, isto é, a modificar-se, como digo, contínua mas também organizada e, sobretudo, organicamente.

Parar uma língua a pretexto do erro [que era, como é sabido... um erro comum da linguística normativa do passado] significa, na prática sufocá-la e, pior ainda [mais grave ainda!] sufocar o seu próprio conteúdo expressional possível e, de facto, desejável.

"Cortar-lhe as asas", parar a História, disciplinar a criatividade e tutelar tão autoritária quanto, de facto, gratuitamente a própria liberdade---que era algo, como também é sabido e é evidente, absolutamente típico-e-tópico dos regimes políticos que deram em geral cordial abrigo a essa visão quasi-metafísica da língua, como foi o caso português durante a ditadura.

... ou espanhol durante o franquismo período em que a pressão política traduzida na imposição oficial do uso do castelhano paralisou e quase inviabilizou definitivamente a língua basca, artificialmente presa a um léxico agrarizante, parado no tempo---e isto por muito pouco que progredisse o "tempo franquista", linguisticamente também...

Pessoalmente, terei começado a perceber isto nas aulas de Latim quando, nas famigeradas [mas utilísimas para o processo de construção e de consolidação de um modelo organizado de pensar, de estruturar o pensamento!] retroversões latinas a cada passo se punha a necessidade de "inculcar" retroactivamente na "geométrica" e robusta, fechada, gramaticidade do latim, termos como "avio, avionis" ou "televisor, televisoris", prática que o meu professor de latim da época, o saudoso José Lino Pereira Lopes, um dos melhores mestrsws que tive ocasião de conhecer, muito inteligentemente, a cada passo, incentivava...

A alternativa, como ele soube eficazmente explicar-nos, era, naturalmente, não falar de aviões ou frigoríficos, esquecer que eles existiam, simular linguística e academicamente a sua inexistência---que é como quem diz e como, de resto, facilmente se percebe, viver, desde logo, linguística mas, na realidade, conceptivamente uma quantiodade maior ou menor não de anos mas de séculos---de "séculos mentais e cognitivos" ou "cognicionais" atrás...

Assim, nas aulas, fazíamos---começámos a fazer---pela língua, neste caso, latina aquilo que ela por razões óbvias não pôde por si mesma fazer.

Mas mais: começámos sobretudo a fazer outro tanto pelo pensamento.

Pelo pensamento que subjaz às línguas, que explica a existência de línguas, que faz e/ou permite [continuar a] fazer as línguas mas que faz e permite, sobretudo, continuar a fazer o pensamento, a consciência, a identidade existencial e cognitiva estável e, à sua maneira, necessária ["necesitária", prefiro dizer...] dos indivíduos.

Era o tempo, não "do arco-íris", como na canção famosa mas dos tenebrosos "galicismos" e "anglicismos", severamente banidos e castigados com um implacável e quasi-inquisitorial rigor que se reflectia, como é evidente, tãon imediata quanto tragicamente nas "notas"...

O tempo em que partíamos diariamente à [e não emprego aqui o termo de forma gratuita!...] "cruzada" contra os "estrangeirismos" corruptores da nossa própria suposta "pureza linguística" [a cruzada contra os "detalhes" "e os "faz frio" que deixavam os nossos mestres liceais em geral apopléticos e invariavelmente nos valiam os tenebrosos "medíocres mais e menos" que tanto trabalho davam, depois, a "justificar" em casa...

Era o tempo em que era 'legalmente' impossível subtilizar ulteriormente a língua dizendo, por exemplo [é um exemplo que dou sempre porque me valeu rigorosas---e embaraçosas!---censuras públicas numa aula de Português do velho "Gil Vicente"...] a "oficina do artista" [integrando obviamente a ideia do labor, do trabalho, do suor, da "transpiração" de que falava Chaplin numa frase célebre ou, por outro lado, cumulativamente, a sugestão subtil da incapacidade de um certo artista se elevar acima da mediania: estava tudo lá, no uso subtilmente adjectivado do termo "oficina" como algo perfeita e, sobretudo, intencional, estudadamente distinto do "atelier"]---uma dinâmica expressional educadamente transgressora que os rígidos e inflexíveis códigos morais-linguísticos da época nem sequer sonhavam admitir ao menos como ideia ou conceito.

Li há dias num jornal que uma certa criancinha tinha regressado da primeira aula do ano, a clássica "Aula de Apresentação"] já ao que parece completamente "desmotivada" porque, "explicava" o pai solícito, pressuroso, o respectivo professor tinha "passado a aula toda" a dizer "prontos".

Só conheço, repito, o "episódio" [que diz, aliás, muito---que diz, afinal, tudo!---sobre o nosso paradigma---não hesito em dizer: em geral estupidamente---"puerocrata" e "pedómano" ou "pedomaníaco"---supostamente---"educativo"];

Desconheço, por isso, o grau de cultura [e em geral de inteligência] deste pai, o mimo que dá à criancinha e todos esses... "detalhes"...

... que, de resto, para o caso interessam pouco, interessando, sim, a partir do episódio, explicar como procederia um pai ou um educador realmente esclarecido e adulto.

Desde logo, explicando tudo isto, ou seja, o que chamo "a permanente instabilidade criacional continuamente ressignificável" da matéria linguística e a necessidade de ser lúcido e tolerante [sem deixar obviamente de ser contrextualizador e, sobretudo, em todos os casos, crítico!] com ela.

Porque é essa "instabilidade" ideal e inteligentemente "positivável", digamos assim, que permite, como atrás dizia, continuar eficazmente a construir "idiomaticidade", ou seja, a a participar activamente [mesmo que seja "apenas" sob forma crítica e analítica] na respectiva construção.

Um educador esclarecido e tolerante começaria, em meu entender, por explicar, desde logo, que "era curioso que a criancinha se tivesse dado conta daquela repetição", admissivelmente porque ela terá sido, de facto, muito frequente e que justamente uma primeira regra [não exclusivamente linguística, aliás!] envolvendo o bom uso dos objectos expressionais, de um modo genérico, consiste exactamente na ideia ou na pretenção de evitar o respectivo esvaziamento por repetição mecânica e, ao invés, no projecto de estabelecer um balanceamento judicioso constante entre a originalidade e essa mesma [aliás, utilíssima, genericamente funcionalíssima!] mecânica, no sentido de potenciar a primeira enquanto marca de intervenção marcadamente pessoal no processo específico de "construir língua" mas, de igual modo, a segunda enquanto componente socializadora e genericamente integradora indispensável no contexto dos dispositivos básicos de partilha global eficaz de sentido.

Este, um primeirio ponto.

Depois, esse mesmo educador explicaria, por exemplo, que aquilo que verdadeiramente faz a língua no seu todo não é [lá voltamos nós ao mesmo!] exactamente, de forma necessária, a sua correcção técnica e/ou formal [senão, repito, ainda hoje estaríamos todos a falar... "indo-europeu"] é a aceitação em larga medida "objectual" que ela encontra junto dos que a usam.

Se eu, com efeito, repetir continuamente uma determinada formulação, a tendência inevitável, a partir do momento teórico em que a respectiva "gravidade sémica" fixa a si estavelmente "sentido" ou "significado" especifico, é para que essa formulação se torne "correcta".

Torna-se correcta exactamente porque é capaz---se tornou capaz---de veicular autonomamente "sentido" ou "significado": a partir daí, impõe uma redefinição ulterior [que é sempre num cert sentido demonstrável "objectualmente dialéctica"] do próprio conceito de "correcto", sob pena de começarmos a desenquadrar [de facto, a alienar!] a língua da sua relação "lógica" e ecológica---porque ecológica---natural com a própria realidade e, portanto, consigo própria.

Explicaria [por palavras mais fáceis, mais acessíveis a uma criança, como é evidente!] ainda que há termos que se trans-substanciam e re-substanciam recategoriando-se neste contrexto dialéctico permanente.

Por exemplo: se a criança estranhou [se se... "desmotivou"] pelo facto de o professor repetir o termo "prontos" e não, por hipótese, "pronto" num contexto de menor frequência por que não, desde logo, admitir a intenção inclusiva em tese atribuível ao termo usado: "estamos todos prontos a passar a outro ponto da minha exposição ou da minha proposta de apresentação recíproca", por exemplo?

Mas há, de facto, como atrás dizia, também por exemplo, formas originalmente verbais que, a dado passo da sua "volução" concreta, adverbializam espontaneamente, sendo a partir daí, dessa recategoriação dialéctica específica, ilegítimo, sem recurso ao exercício de formas de violência arbitrária e varbitrariamente exterior sobre o processo de construção linguística, continuar simplesmente a dizer que "estão erradas".

Bastava que o nosso pai esclarecido e tolerante explicasse à criança que, se ela se "desmotiva" com o "prontos", deveria naturalmente "desmotivar-se" ainda mais, por exemplo, com a professora ou qualquer outra pessoa do sexo feminino que dissesse "obrigado" e não "correctamente" "obrigada" para agradecer.

Ou o professor ou professora que, falando em nome da escola que recebe os jovens [ou qualquer pessoa pronunciando-se em nome de um colectivo] não dissesse, em todos os casos, "obrigados" e até [coisa estranha!] "obrigadas" igualmente num contexto de similar agradecimento.

Isto porque, queiramo-lo ou não, o termo "obrigado" passou já por um processo normalizador de adverbialização que tende demonstravelmente para a uniformidade de género que permite, de modo prático, universalizá-lo e, num certo sentido, associado desde logo, ao princípio do menor esforço", funcionalizá-lo.

Pais e educadores esclarecidos não se "desmotivam", pois, com os fenómenos da prática linguística nem deixam que os seus filhos e educandos o façam: não estabelecem com eles, fenómenos, um "rapport" arbitrariamente "moral" e "metafísico" tentam contextualizá-los e analisar criteriorisamente a possibilidade da sua reintegração secundária na língua ou, em último caso, procuram reconstituir esse processo, no caso de já se ter verificado, reflectindo, sempre critica e, se possível, também inteligentemente, com os seus educandos, sobre ele.

Voltando ao início destas reflexões: têm toda a razão o provedor dos leitores do "Público" e o "Livro de Estilo" do jornal por fazerem este esforço particular de especificação ou 'taxonomização distintiva' da língua e assim procederem, de passo, como digo, à precisão conceptual no âmbito do uso do idioma pelos respectivos jornalistas.

O pedantismo, aliado à ignorância e ambas à pressão transversal da indústria da [chamada] comunicação levaram a língua portuguesa a altserar-se ao acaso da des/inspiração de quem a utiliza para vender informação e tem em geral como estratégia "embelezar o produto palavra" com todo o tipo de motivo de "decoração textual" supostamente sugestivo de originalidade e/ou "cosmopolitismo".

Sucedem-se os "expectáveis" e os "gratificantes", por um lado: é o tal "cosmopolitismo" a funcionar [embora aqui, como em tudo, a "correcção"---que é, por tudo quanto digo, de facto, sobretudo, uma "normalicização" ulterior do discurso acabe inevitavelmente por sobrevir, induzindo posteriormente, a contrario, por desgaste, novas intervenções indesejavelmente do mesmo tipo no léxico] e os "climatéricos" [aqui é sobretudo a "pompa textual", a falsa ciencialidade do discurso que se procura ou é, pelo menos, ela que substancia o uso de um vocábulo, "climatérico", que, à semelhança, aliás, do que preconiza o citado "Livro de Estilo" do "Público" para "islamita" e "islamista", devia ser usado para referir especificamente incidências no âmbito da meno- e da andropausas, em articulação com a variante "climático", utilizada esta palavra no contexto meteorológico para onde "climatérico" saltou, de modo, a meu ver, completamente disfuncional porque empobrecedor do próprio idioma no qual o uso indiscriminado ou cruzado induz um verdadeiro "curto-circuito sémico"].

Para concluir: à imagem do que sucede num âmbito filosófico lato, verifica-se no âmbito específico da linguística, a meu ver uma premente necessidade de operar uma "revolução" profunda a nível do próprio modo básico, de episteme, de entender e de representar histórica e cientificamente os mecanismos dinâmicos transformadores ou transformacionais da língua; uma "revolução" em tudo semelhante à que ditou a emergência histórica e especificamente filosófica dos existencialsmos.

Ou seja: é preciso readequar em termos conceptivos básicos, epistemológicos, essenciais, o estudo do próprio modo como se origina e se multiplica o "significado" e, de uma forma mais ampla, o "sentido" no interior ds diversos compartimentos inter-dinâmicos [ou «localizações significadas»] da língua, admitindo em todas as suas implicações o princípio de que, também nas línguas [também em "idiomaticidade"] a "existência precede a essência" a qual representa, na realidade, em última análise, tão-somente a atrás citada "renormalicização contínua integrada" e, neste sentido objectual---e objectualizador---específico, sempre secundariamente "orgânica" do próprio discurso levado a cabo pelos indivíduos interagindo com a sua História e com a sua própria consciência, dentro desta.

É, pois, para mim, a própria "ontologia" como a própria "metafísica" da língua que estão em causa, i.e., todo o processo ou processos de reportar esta mesma língua à História e à praxis concreta dos indivíduos e das sociedades por eles formadas.

Sucede que este processo de reflexão estrutural séria sobre os mecanismos do uso da língua pode [de facto, deve] perfeitamente começar pelo "Livro de Estilo" de um jornal diário, pela acção prudente de um "Provedor" dos respectivos leitores ou, "last but not least" pela actuação inteligente de um pai e educador.


[Imagem ilustrativa extraída com a devida vénia de ]

sábado, 9 de outubro de 2010

"Zero para Todos ou a Ignorância da Juventude Permanece um Espanto..."


Do "Diário de Notícias" de 02.08.10 do artigo "Até parecia que o Rambo andava à solta na Encarnação" sobre um exercício militar ocorrido no bairro da Encarnação e escrito por Valentina Marcelino, retiro sem mais comentários esta citação:

"Era tudo a fingir, um simulacro do Exército para testar a segurança de instalações naquele local, mas ouve um pequeno esquecimento... ninguém tinha sido informado nem mesmo a PSP".

Conclusão: zero valores para o exército em comunicação e organização, outro tanto para a jornalista mas em ortografia, zero mesnos... uma catervada enorme deles para o sistema de ensino que forma esta gente e que, por acaso, até é o mesmo que gera "Freeports" atrás uns dos outros e ainda tem tempo e feitio para sustentar uma coisa tão dificilmente justificável [e cara] nos tempos que correm como um exército que se "esquece" de avisar a polícia que vai atacar um dos seus próprios quartéis...

[Imagem ilustrativa extraída de germinaliteratura-dot-com-dot-br]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

"Sob e senão"




De uma artigo do "Diário de Notícias" de 11.09.10 assinado M.M. ["Informação da RTP criticada por protagonismo dado a Cruz"] retiro a citação: "As primeiras críticas surgiram por parte dos telespectadores, o que levou o provedor a colocar no site da RTP uma nota no qual [sic] avança a sua posição: Discordo e lamento que o tratamento deste assunto não esteja a obedecer a parâmetros de equidade, privilegiando Carlos Cruz, provavelmente por critérios editoriais." Paquete de Oliveira adianta que esse tratamento "coloca a RTP sobre [sic, sublinhado meu] a acusação de parcialidade e de exercer um 'proteccionismo corporativo' descabido"".

Ainda do "D.N.", desta vez da edição de 14.09.10, de um texto da autoria de Mário Soares ["Sondagem e Orçamento" que analiso noutro lugar] retiro a frase "Senão for aprovado [o Orçamento Geral do Estado para 2011] é muito grave para todos nós".

A ideia destas citações é a de evidenciar como o uso da língua portuguesa tende gradualmente numa sociedade in/essencialmente "impressionista" e "gestaltista" em termos dos modelos dominantes de abordagem e representação da realidade, dominada pelos média a tornar-se impreciso, pouco rigoroso e pouco orgânico [pouco estrutural no bom sentido do termo] e, pelo contrário, cada vez mais difuso e apenas aproximado, sendo as confusões entra a formas das palavras [muito mais do que os verdadeiros erros] uma das características dominantes do mau falar---e pior escrever...


[Imagem ilustrativa "gentilmente cedida" por chomp-chomp-dot-com]

sábado, 7 de agosto de 2010

"Socialites e Socialixo"


Por sugestão de uma pessoa amiga do "Facebook", aderi recentemente a uma iniciativa relacionada com a minha profissão de [quase...] sempre: o Ensino.

Trata-se de uma profissão, como é sabido, cada vez menos considerada e escutada.

Ignoram-na, desde logo, os principais interessados no contrário, os alunos e os pais [ignoram-na---e/ou subvalorizam-na, de um modo geral, os respectivos "sindicatos", vulgo "Comissões de Pais", pelo menos e desacreditam-na e desertificam-na---assediam-na constantemente, é mais o termo...---as sucessivas equipas tutelares, independentemente da cor partidária, sempre prontas a cevar à tripa forra nas inúmeras debilidades de organização de uma classe profissional curiosamente muitas vezes, por alguns... "humoristas" mais imaginosos e criativos, taxada de demasiado... "corporativa".

Ignoram-na uns, depreciam-na e minam-na outros, escandalizam-na outros ainda.

Alguns e algumas deles e delas vindos das... elites.

São os e as socialites.

Uma delas ["senhora muito educada", como dizia uma cançoneta brejeira "do meu tempo" e que deve ter ido muito à escola e prestado muita atenção ao que lá ouviu enquanto tirava o curso de "pessoa célebre"...]; uma delas, dizia, com apelido de "aldeia saloia", Caneças, resolveu, um dia destes, tornar públicas algumas notas originais sobre "ronaldologia", uma "noviciência", como é sabido, muito em voga e não achou nada melhor para fazê-lo que o erudito "Correio da Manhã", na edição de 14.08.09.

... E saíu isto que se segue.

Diz a "socialite": "O Cristiano [aquilo, entre celebridades é, pelos vistos, mesmo assim, tipo... "tu-cá-tu-lá-oh-zé-da-burra": o Cristiano para aqui, a Lili para acolá, como dizia a minha avó: comemos todos da mesma gamela, não é?...] tem um corpo perfeito. E a nível de cara [repararam no estilo? "A nível de cara"! Belo, ham? Praticamente... queirozeano...] está a evoluir e está muito mais bonito [que isto de caras evoluem que se fartam, ham? É só deixá-las um instantinho sozinhas e zás! Lá estão elas a evoluir e a "ficar muito mais bonitas" sem pedirem licença a ninguém ou darem sequer cavaco aos donos ou a quem quer que seja...] .

E comenta o jornal: "A socialite Lili Caneças [é dela que se trata, já perceberam!] tiraria Cristiano Ronaldo do último lugar da lista Sexy 20" [?] e, pergunto eu, sabem o que é que lhe faria?

Não sabem?
Eu digo: "colocaria-o em primeiro lugar".

Generosa e profunda senhora para tão sábio jornal!

Tanto, tanto que eu, como prémio de tanta profundidade e de tanta erudição juntas, aproveitaria e... "mandaria-os" aos dois fazer um mestrado em "ronaldologia aplicada" em inglês técnico na Independente!...

Com a falta que há para aí de inovação, é vital premiar quem, deste modo, se dedica tão natural e tão generosamente a reinventar não apenas as ideias e os temas de indiscutível interesse jornalístico [tudo material do bom, como podem constatar---que o tal "Correio" quando se trata de servir a respectiva freguesia, não brinca em serviço!...] como, inclusivamente, a própria língua.

Ainda que seja preciso... martirizá-la um bocadinho mas nada, afinal, a que as línguas não estejam já habituadas: basta lembrar o tal "engenheiro" a passar alegremente a certidão de óbito ao inglês [no caso... nada técnico, aliás!] ou, ainda mais alegremente se possível, a... dar aquela brilhante extrema-unção linguística ao castelhano que o youtube não se esqueceu, muito merecidamente, aliás, de deixar devidamente registada e consagrada para a posteridade...


[Imagem ilustrativa extraída com a vénia da praxe de moonbattery-dot-com]

terça-feira, 20 de julho de 2010

Debate sobre o ACORDO ORTOGRÁFICO da Língua Portuguesa— 1990


Republicado de http://www.triplov.org/

Por princípio, sou contra a sobrevalorização e o uso (mesmo apenas remotamente...) excessivo da 'normalização' e da 'normatividade'.

É uma questão pessoal mas não o é arbitrariamente: é, sobretudo, uma posição lógica, ideo-lógica, e até abertamente política.

Em linguística, como nas restantes áreas do pensar e do (com) viver.

Claro que uma língua é básica (embora, em caso algum, primariamente...) um instrumento de (suposta?) comunicação - e que, por isso, as respectivas "chaves" devem sempre (poder?) constituir um património estavelmente comum (uma... 'comum-idade') genericamente reconhecível de todos os pontos e lugares desse mesmo "Comum", se assim me posso exprimir.

Entendo, porém, que a época das demasiado rígidas formas de 'centralização' e 'normatividade' linguística (correspondente esta última, nessa forma ou com esse estatuto, a um período cultu(r)al e especificamente político abstractamente definível pela persistência duradoura de um "estado sólido" ou mesmo de uma "coagulação epistemológica"---absolutos e totais senão mesmo totalitários---generalizados); pessoalmente entendo, dizia, que a rígida 'normatividade' não se compagina com o tempo "genericamente demomórfico" ("democracy" "is a word I rarely use without thinking", como dizia o Donovan a propósito da palavra "liberdade"...) que vivemos.

Ora, é a partir deste princípio básico que abordo, aqui como em todos os lugares e casos, a "questão" do 'Acordo'.

Não propriamente a do Acordo-em-si mas a da questão teórica prévia de um "acordo" nesta matéria.

A ideia de que a comunicação melhora drasticamente se começarmos por considerar para um 'projecto comum de falar' a uniformização de um conjunto de formas puramente exteriorese inorgânicas, i.e. não-estruturais, do aparelho comunicacional em si parece-me, devo confessar, uma ideia falível, inútil e des/estruturalmente muito redutora.

Os universos linguísticos configuram ecossistemas autónomos que "respondem" directamente perante o respectivo enquadramento físico e mental, objectivo/subjectivo, próprio e é exactamente essa interactividade contínua com o meio que determina o perfil natural e necessário (permitam-me o neologismo: "necessitário") de qualquer "boa" "evolução" mental e, obviamente, linguística.

Fixar na periferia do essencial (e à periferia do essencial!) da "idiomaticidade" as bases da "correcção" e da "in-correcção", ou seja, do "Bem" e do "Mal" em linguística parece-me um mau princípio que tem "tudo a ver" com aquela ideia básica da língua como simples forma ou "formaticidade funcionante" (e, pior ainda: como entidade autonomamente determinante!) e não como parte integrante e essencial de um pensar (que é aquilo que, a meu ver, ela deve, em todos os casos, permanecer).

Pessoalmente, sempre defendi, por exemplo, que, ao lado (ou por cima: acima) de um sistema meramente formal ou insubstantivamente 'técnico' de "correcções" e "in-correcções" da língua, deve considerar-se, sim, na base de tudo, a prevalência de um outro, estrutural, de "correcção funcional", determinado pela necessidade de "significar o real" assim como as nossas imagens comuns dele---um critério e uma atitude que ignoram a tal normatividade que comecei por pôr em causa.

Por muito heterodoxo que possa parecer à primeira vista (para mais em alguém que fez e faz do ensino de algumas línguas vivas, entre as quais a sua própria---aquela que está, de momento, a ser... "acordada") a verdade parece-me, com efeito, ser que, a partir de uma base operante ou operativa estável dada (que já está, há muito, aliás, encontrada: é o português ou são os diversos portugueses, seja lá o que for que isso signifique...) a noção de "evolução" deve ser sempre basicamente abordada daquela perspectiva "funcional" que foi, por exemplo, "politicamente roubada" durante décadas ao idioma basco pelo franquismo assim como, pelo salazarismo, ao português, através do recurso a uma concepção absurdamente "moral" do uso e da própria... propriedade das respectivas línguas).

Tomando como referência básica o português ou portugueses já existentes (eu diria: funcionalmente 'consagrados') está "certo" (e/ou é "Bom") aquilo que contribuir para a extensão ("furthering") e para o enriquecimento da capacidadede a língua não se significar mas de ela significar 'tout court'.
Aquilo que faz, em termos básicos, do português, genericamente considerado, uma idiomaticidade globalmente única e una não são as ferramentas incidentais avulsas, i.e. a "alfaia instrumental" (as palavras enquanto formas passivas e inertes, anteriores e exteriores ao respectivo funcionamento efectivo no contexto de um todo que por completo as transcende e lhes confere o sopro da 'vida conceptual e linguística') mas o modo como a própria língua respira autonomamente por elas, os paradigmas de expressivicidade que com elas se vão formando: as "figuras", as metáforas, as construções, o sistema.

Ora, essas não podem ser "acordadas" senão na relação com o meio.

Aí, não há "acordo" que opere---a menos que, por "acordo" se considere (quanto mais não seja de forma implícita...) uma prisão (talvez domiciliária...) para a língua mas, sobretudo, para o pensamento que com ela (nesse caso limite, não) se pode com ela fazer.

"Normalizar" a idiomaticidade a partir da forma avulsa é como tentar "endireitar" a sombra da vara famosa do não menos célebre lugar-comum.

É, como titulava um Autor clássico alemão, "escrever na água".

Porque em "inglês" se escreve "colour" e em... "americano" "color", há crise no universo linguístico anglo-saxónico?

Porque "realize" e "energize" também podem escrever-se "realise" e "energise", morre alguém linguisticamente por isso?

Rompe-se a unidade do universo linguístico e/ou cultu(r)al anglo-saxónico?...

Eu iria mesmo ao ponto de recusar por completo que haja "certo" e "errado" em língua e em linguística.

Que em qualquer delas exista um verdadeiro "certo" e um estrutural "errado".

Há sim, um "funcionante" e um "não-funcionante". Há, sim, "paradigmas de sucesso representativo" ou "representacional" e paradigmas ('naturalmente caducáveis') de in-sucesso.

São, aliás, aqueles, os "de sucesso", que vão, nas línguas como na Natureza, fixando autonóma e estruturalmente às diversas línguas a ilusão operativa, ou a 'ficção funcionante', de "certo" e "errado".

Ou seja: a transcendência em linguística pura e simplesmente não existe e não pode, por conseguinte, possuir (nem no plano técnico nem, a montante, no epistemológico) qualquer modo de expressão determinacional, directa ou indirecta.
Ah e as línguas também não "evoluem": "voluem".
Sofrem "mutações".

Mas essas "mutações", insisto, são naturalmente determinadas e ditadas, volto a dizer, pela necessidade ecológica intrínseca, não por imperativos de ordem... "moral" exógena, digamos assim.

Durante décadas, a linguística portuguesa (Cândido de Figueiredo será o paradigma "simbólico" ou "simbológico" máximo do processo) foi um "arianismo idiomático disfarçado" que se auto-mutilou e auto-sacrificou consustentemente a um "ideal de pureza" que a castrou e esterilizou. Que bloqueou a bio-diversidade linguística e, mais grave ainda, conceptiva ou conceptual.

Conceptuante.

Cognitiva.

Procurava-se, era evidente, que (também!) a "propriedade da língua" permanecesse fora do alcance do cidadão (ou do súbdito?...) médio.

Visava-se que este a "usasse" mas sempre sob a tutela rígida do poder disfarçado de... linguista.
Ora, a língua (como Laing e Reich diziam e faziam para a Psiquiatria) deve ser feita e des-feita por todos.

Sem normas?

Não, claro. Mas com aquelas que o próprio uso consciente e "educado" de si determina de modo natural e necessário.

É um processo estrutural/estruturante completamente distinto, em si mesmo, do "acordar politicamente" "segmentos inertes da própria idiomaticidade como tal".

Enquanto professor, sempre parti da ideia de que é essencial conhecer as regras mas para des-construí-las autonomamente como parte integrante do processo intelectual nobre global de continuar a tarefa cultu(r)al de construí-las a partir da própria experiência ou experienciaçãodo real.

"Igualizar" meia dúzia de "fórmulas" é apenas uma ínfima e, no fundo, in-significante parte do processo.


"Reforme-se" ou "acorde-se!" a língua sim mas a partir da sua essência, não da sua pura ou impura circunstãncia formal.

Nesta pode, ocasionalmente, "dar-se um jeito" no sentido da aproximação incidental.

Não virá daí mal ao mundo, suponho.


Mas não se espere em boa verdade que venha "salvação", "non plus"...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Em Defesa de uma Ecologia do Pensar Linguístico---algumas notas"


Diz-me a minha formação académica nessa área e diz-mo a experiência que adquiri observando e ensinando que uma língua é basicamente um sistema e/ou um organismo em si, antes de ser qualquer outra coisa: de facto, ela possui uma ecologia própria e opera essencialmente como um mecanismo que reage consigo próprio de um modo [e segundo uma lógica muito própria, muito específica]; segundo, como diria Kant, uma "razão" muito própria, muito particular, que se "explica", em última análise, pelo modo como a língua ecoa sistemicamente o meio exterior e que, nesse mesmo modo, muito concretamente se fundamenta enquanto 'coisa' ou 'objecto'.

A lógica e o próprio sentido da língua A, B ou C [de qualquer língua, de facto] vêm-lhe dessa capacidade própria para ajustar-se continuamente ao mundo exterior e integrar cada um desses mesmos contínuos ajustes em si, re-formando-se e, muitas vezes, reinventando-se continuamente a partir deles e da necessidade de a eles proceder.
De Saussure disse-o: uma língua não possui qualquer espécie de lógica imanente própria: não é um objecto natural enquanto conteúdo de si própria.
Sê-lo-á [objecto natural] enquanto---e apenas enquanto!---atributo biológico e filogénico da espécie mas, repito, apenas nesse sentido e nessa medida.
O sentido chega à língua como o "significado" ou a "significação" para a "vida" chega à consciência: como uma construção estritamente cultural, "regional" e até pessoal.

Não há significado fora da experiência [e até da experimentação] linguísticas.
O que Ferdinand de Saussure propõe é o "existencialismo linguístico", uma espécie de translação coperniciana nos modos tradicionais de concebver a linguicidade aplicada ao uso da fala humana.

Nesse sentido, o que em termos genéricos se seguiu a de Saussure foi o ateísmo linguístico a que pretendem opor-se os revisionistas ou neo-metafísicos da linguística de que o famigerado "Acordo Ortográfico" opera como uma manifestação avulsa, gratuita, inorgânica e completamente absurda.

A essência da língua [como, em boa verdade tudo à nossa volta] consiste em mutar-se interna ou sistemicamente reagindo com o meio.
Isto não quer obviamente dizer que as línguas não possuam uma essência e uma identidade mais ou menos sistemicamente estabilizadas: quer dizer que tentar aprisionar de uma forma que transcende, de modo completamente desfuncional, a experiência ou a experieciação linguísticas é algo que não possui em si mesmo qualquer sentido linguístico.

Uma língua não se constrói por decreto: quando muito des-constrói-se e des-funciona-se desse modo.
Uma língua constrói-se na relação directa conm o meio geográfico, cultural, etc.
A única bitola correcta de evolucionalidade linguística é essa, situa-se aí: na relação dela com o meio e no modo ou modos como ela expressa sistemicamente essa relação, esse "rapport" directo verdadeiramente determinante e fundamental com o respectivo "chão epistemológico".
Aquilo que o "Acordo" pretende é legislar sobre a própria respiração natural da língua que é esse rapport com a geografia e com a cultura, impondo-lhe "leis" que vêm "à antiga", de fora do universo ou da ecologia naturais da língua.
É regressar ao essencialismo linguístico e à visão da língua como uma "liturgia" ou uma "metafísica do pensar", "torcendo-a" a partir da sua própria personalidade epistemológica a fim de poder caber" num conceito autoritário prévio, completamente dis- e des-funcional, in/essencialmente anti-científico, de idiomaticidade.

É esta concebida como se a História não existisse e a Cultura não passasse de mera ficção e acessório im/puramente insubstantivo e no fundo gratuito das sociedades humanas.


[Imagem extraída com a devida vénia de dubroom-dot-org]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Universidade de «Vrije» ou Universidade de... «Libre»?"


Professor de Inglês ao longo de mais de três décadas, tive por diversas vezes ocasião de leccionar a disciplina de Técnicas de Tradução.

Aí um dos meus cuidados básicos consistia em explicar aos alunos que a disciplina com essa designação era não UMA mas, na realidade... várias.

Muitas.

Tantas que era, no limite, materialmente impossível quantificá-las.

"Traduzir" um texto, com efeito, não é, ao contrário daquilo que muitas vezes erradamente se pensa, "passar" palavras e frases de uma língua para outra.

"Traduzir" se é alguma coisa [e é, também, em tese, debatível que no limite o seja mas essa é outra questão...] é "passar" uma MENSAGEM de uma língua para outra.

Um meta-texto ou uma meta-textualicidade [um complexo textual: um texto, um estilo ou uma estilicidade, um espírito, uma constante ou uma identidade textual estável e um---ou vários conhecimentos---a tudo isso associados] que está longe de se esgotar nas palavras ou até nas meras frases como tal.

É por [tudo] isso eu [e muito mais...] que eu digo que 'Técnicas de Tradução'... são muitas---são, de facto, inúmeras---disciplinas que vão da Matemática à Poesia, da Música às Ciências Naturais num arco objectivamente ilimitado de matérias e saberes.

Por outro lado, por razões de metodologia e de didáctica específica era, porém, possível "dividir" em termos sobretudo práticos, operativos, o conteúdo da disciplina de Técnicas de Tradução em duas grandes áreas: uma, muito aberta, que contemplava a abordagem selecta, no fundo, por amostragem tão tópica quanto possível daqueles saberes "externos mas não exteriores" à cadeira em si [uma área didáctica onde eram "arumados" os itens referentes a este domínio rumados" e uma outra de que aspectos vários da mecânica do processo de tradução ou "translação textual" e especificamente linguística" constituiam o objecto central.

Em qualquer caso, esta área funcionava sempre como uma espécie de instrumento prático [chamemos-lhe "objectuante" ou "objectuador", basicamente instrumental] daquilo a que comummente chamamos "traduzir".

Dito de outro modo: para além de saber "mexer na língua" ou melhor: "nas línguas", o tradutor tem de ser teórica ou tendencialmente para-enciclopédico de modo a converter essa habilidade [essa... "ability"] meramente técnica ou tecniforme num verdadeiro saber.

Porque esta perspectiva teórica sempre me pareceu estar, na essência, ausente das abordagens que da disciplina faziam muitos dos meus colegas com quem eu fazia questão de ir trocando informação e experiências e como, por outro lado, pretender que Ministérios da Educação profundamente burocratizados e por via de regra didacticamente vesgos para além de pedagógicamente incompetentes patrocinassem debates verdadeiramente sérios em matéria didáctico-pedagógica era pouco menos do que irrealista; porque assim era, dizia, sempre me deu ideia de que, em Portugal, muitos dos "tradutores" formados a este nível tinham forçosamente de evidenciar enormes limitações de todo o tipo.

Para mais, sabendo nós o que "pensa" geralmente o Ministério sobre o tema da "Escola Cultural"...

Ocorreram-me ao espírito estas reflexões, ao ler no "Público" de 22.02.10, no artigo "Os bastardos da guerra descobrem as suas raízes" da autoria de Edward Cody [traduzido por ?]: "O que vivemos e as privações que sentimos durante todas as nossas vidas levaram-nos a fazer ouvir as nossas vozes", explica Gerlina Swillen, uma belga professora do ensino secundário e investigadora da Universidade de Vrije [sic], em Bruxelas".

Ora, eu por acaso até conheço Bruxelas por lá ter vivido e sei por isso que não existe Universidade alguma "de Vrije" na capital belga ou em qualquer outro ponto do país.

Um aluno ao qual tivessem sido ministrados conhecimentos básicos de linguística comparativa [da mecânica da evolução linguística em campos idiomáticos particulares, neste caso, germânicos] teria possivelmente detectado de imediato as semelhanças entre aquele "Vrije" [lido "Fraia"] e o alemão "Frei" ou o inglês "free", todos eles contendo a ideia básica do que em português expressamos pelo termo "livre".

Bastar-lhe-ia, agora reportando-se à outra área mais vasta da disciplina que, em Bruxelas existe uma Universidade Livre a que os francófonos se referem usualmente designando-a pelas iniciais U.L.B. alusivas à designação oficial "Université Libre de Bruxelles" para "desconfiar" e [agora existe essa arma inestimável!] recorrer à Net para tirar dúvidas, evitando desse modo aquele caricato "Universidade de Vrije" que evidencia os claríssimos limites da ciência do tradutor.


[Na imagem: Torre sineira da U.L.B.]

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Sobre o chamado «Acordo Ortográfico»" [Text in the Making]


Ainda, em larga medida, com o espírito [e o coração] noutro lugar, abordo, hoje, aqui, alguns aspectos específicos do famigerado "Acordo Ortográfico", divulgando inquietações, perplexidades e dúvidas que ele me levantas e que serão, em tese, as de outros portugueses, amigos e visitas habituais do "Quisto".

Não se entende, de todo, por exemplo---não o entendo eu, seguramente!] o "argumento" invocado por Malaca Casteleiro para tentar contrariar a ideia de uma mais do que previsível perturbação que os, por sua vez, mais do que discutíveis "ajustes" casuísticos introduzidos ao nível morfológico na língua portuguesa pelo "Acordo" vêm, por sua vez, transmitir ao plano fonológico [e, a prazo, por natural contaminação em toda a mecânica] da língua---argumento esse que é o de que a oralidade precede a escrita e, por conseguinte, quando se começa a registar o idioma já se sabe articulá-lo adequadamente.

Bom mas, então, onde é que essa visão "bifásica" [e, no fundo, 'inorgânica'] da aprendizagem de uma língua deixa a respectiva pedagogia e a correspondente didáctica?

"Aprender" uma língua na escola é, pois, no [in?] essencial, apenas [ou sobretudo] registá-la?

Há, a meu ver, uma tácita e dificilmente explicável desvalorização objectiva do ensino formal e do papel orgânico da Escola; um estranhíssimo "entendimento" [?] do papel dinâmico, estrutrural e verdadeiramente estruturante, da pedagogia e da didáctica das línguas e, por via dela, da própria formação da consciência dos sujeitos do estudo destas implícita no "argumento" apresentado por um dos principais responsáveis pelo "Acordo" precisamente para justificar a sua existência nos moldes em que esta surgiu.
Moldes esses que eu não hesitaria, de resto, em classificar de, no mínimo, altamente discutíveis, porque, sob diversos aspectos, em larga medida gratuítos e tecnicamente insustentáveis---e isto, a vários níveis, aliás: propriamente linguístico, académico, pedagógico e didáctico, etc.

Se tivesse havido o que, demonstravelmente, pudesse ser designado por uma rigorosa fixação de paradigmas ao menos sectoriais de linguagem escrita ainda haveria a possibilidade de se invocar o mérito de uma certa "arrumação morfológica" que facilitasse a sua aprendizagem e, por conseguinte, o objectivo final de melhorar o respectivo uso específico.

A verdade é que não é isso que acontece: as mudanças morfológicas introduzidas não só vêm originar algumas confusões bem dispensáveis como não possuem aquele carácter exaustivo que poderia, de algum modo, "fazer lei" de acordo com o princípio da "universalidade tética" que preside naturalmente à formulação destas em qualquer saber ou ciência.

Mas, ainda assim, fixar uma ortografia só faz sentido se o propósito for fixá-la bem.

Como distinguir, por exemplo, "recessão" e "recepção/receção"?

Claro que existe o factor particular da contextuação mas para quê criar uma confusão de princípio por não se ter percebido [e isto surpreende e perturba, de facto, tratando-se de académicos com este tipo de encargo e de responsabilidade!] que há, na língua portuguesa [que é uma língua que, na sua versão estritamente ibérica, 'lusitana' não "abre" ou não "projecta completamente para o exterior", em toda a sua extensão, de forma natural, determinadas circunstâncas vocálicas em que o "a", o "e" e o próprio "o" tendem a permanecer "escuros"; por quê, dizia, criar estas situações de possível confusão adicional por não se ter percebido que o idioma gerou secundariamente aquilo que costimo classificar de "consoantes funcionais" [o "p", desde logo] cuja função estrutural na língyua não é necessariamente o serem lidas mas o de abrirem ou "aclararem" vogais que, sem esse suporte, tendem a permanecer "escuras" e, por conseguinte, a contaminar a fonética e por conmseguinte a disfuncionar o uso específico da língua.

Como é que se ensina; como é que, em casos como o do binómio "recessão"/"recepção", se fundamenta de forma minimamente racional o ensino---no sentido de evitar que o único suporte [i] lógico de aprendizagem voltem a ser, em última instância, como em tempos passados, a "palavra do mestre" e, na sequência desta, a memorização pura e simples, dos conteúdos de aprendizagem?
De facto, a meu ver, a ideia que preside ao "Acordo" em termos teóricos latos é, em última instância, muito discutível: é, de facto, a prazo, ou completamente impossível [e não me restam dúvidas de que o é!] "teleguiar" os paradigmas de evolucionalidade linguística simultaneamente nas diversas áreas do globo onde se fala português ou, em alternativa, configura tal desiderato um acto de absurdo... "absolutismo epistemológico" que nada justifica, explica---e/ou fundamenta.

As línguas são organismos vivos que respondem perante as necessidades concretas sentidas pelas culturas para exprimirem fundamentalmente ideias---não para respeitarem "leis" de índole primariamente formal que as limitem e indesejavelmente aprisionem.

Basta recordar o modo como o franquismo esterilizou "legalmente" a língua basca impondo o uso oficial do castelhano o que viria a ter efeitos dramáticos a nível da aptidão do basco para acompanhar no plano da produção linguística a própria evolução material da História [das ciências, da técnica, etc.] algo que veio a ter de fazer forçosa e, de algum modo, também forçadamente após a queda do regime ditatorial.

De resto, é preciso ter aquele princípio básico da estrita mas não não estreita funcionalicidade das línguas quando se projectam reformas e acordos da natureza do actual.

A filologia impositiva e in/essencialmente "formal" do fascismo sempre teve na sua base a ideia de uma "pureza técnica" chamemos-lhe "arquetipal" pura completamente autónoma e, por conseguinte nuclearmente desligada da componente expressional dinâmica assente numa perspectiva "educasdamente conteudizante" da própria língua.

O fascismo foi, por definição, um regime [obviamente político mas também mental e até cognicional] fortemente cventtralizado, directivo e autoritárioque não goistava de iniciativas individuais---no plano político como no da formulação autónoma de consciência e/ou pensamento.

Daí o ter usado essa perspectiva quase... "neo-platonizante" da pedagogia e da didáctica das línguas; um paradigma de educatividade específica sempre categorialmente orientado para um 'passado ideal' comum, generalizador e cuidadamente uniformizador---que o era no plano linguístico mas que o era, também, decorrentemente, no próprio domínio essencial da criação original de pensamento.

Havia, aliás, o seu quê de "pureza" nos paradigmas cultu(r)ais envolvendo o uso social da língua que permitiam, sem grande dificuldade, aliás, fazer uma espécie de ponte com outras "purezas" bem mais graves que tiveram, noutros domínios mais abertamente políticos e noutros sociedades onde o fascismo foi levado às últimas---e bem trágicas!---consequências, os resultados que se conhecem...

Note-se quer aquilo que está aqui a ser preconizado como perspectiva de episteme em matéria de normalização linguística, designadamente, não é [longe disso!] qualquer des-sistematização arbitrária ou "espontaneamente" pragmatizante da língua: é, sim, muito claramente a sua "educada funcionalização", ou seja, a de aferir sempre a adequação da "evolução" linguística pela sua capacidade de dar resposta a necessidades orgânicas do pensamento e, em caso algum, por imperativos de mera correcção formal e/ou mecânica.

Ou, já agora, exogenamente "política".

Que é, todavia, para onde aponta o sentido global das "reformas" que agora se pretendem ver introduzidas---circunstância que explica, aliás, a meu ver, em última [mas real!] análise, muitas das disfuncionalidades de que o "Acordo" vem, em meu entender, demonstravelmente, desde o início, [des] estruturalmente inquinado.


[Imagem extraída com a devida vénia de ?]