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sábado, 15 de janeiro de 2011

"Falemos Um Pouco de Televisão!"


Um 'pot pourri' de informações e pequenas notícias: a Zon retirou da grelha-satélite uma das "jóias da coroa" da respectiva programação: o Canal franco-alemão ARTE, o único onde era possível ouvir, hoje-por-hoje, numa televisão, falar de Beckett e Kafka, de Scott Fitzgerald, Brecht, Freud ou Artaud, entre inúmeros outros nomes incontornáveis da Cultura.

Um verdadeiro [e imperdoável!] atentado a essa mesma Cultura tendo até em vista o que o que veio... "substituí-lo": uma "coisa" verdadeiramente inenarrável intitulada "Canção Nova" ou coisa que o valha cuja exumação [consta que já por ali tinha andado antes sem que eu, pelo menos, tivesse, alguma vez, dado por isso] se deveu, foi-me expressamente dito, ao "pedido de várias famílias".

... Ou seria aos suculentos cabedais do Vaticano, cada vez mais assustado com a perda consistente e regular de influência para "as religiões de garagem", versão "sacra" do populismo político, que ameaçam tomar de assalto a cena religiosa?

Enfim...

Esta, em todo o caso, a primeira notícia que queria aqui trazer e com a qual, não consigo deixar de referir, não me conformo: foi-se o ARTE, vai-se a seguir o meu vínculo contratual à entidade que, de uma forma tão imperdoavelmente negocista e "pesetera", pactua com o que na prática é o grande projecto global; a... parceria público-privada dedicada à descerebração consistente do conjunto da comunidade nacional [o chamado Ministério da Educação vai fazendo o que pode para nela se integrar e com ela colaborar e ajudar, isso é evidente!] eliminando de vez os "nichos de resistência" sedeados nos poucos "Mezzos" e "ARTES" que por aí, ora dentro, ora fora, vai havendo [deveria dizer: a seguir vai o meu vínculo contratual com a empresa que aceita pactuar com o vandalismo cultural por acção e omissão, impuro e nada simples que a supressão do ARTE no satélite inescondivelmente configura!...]

Passemos, porém, à segunda notícia: o "pior programa de televisão [?] de 2010" para a Associação de Telespectadores [para o crítico do "Diário de Notícias", Joel Neto--cf. "Asociações para quê?" in "D.N." de 13.01.11] trata-se mesmo "possivelmente do pior programa que alguma vez passou na TV portuguesa em horários familiares"] o inqualificável "Casa dos Segredos" é segundo ou terceiro nos "charts", valeu a quem o apresenta ter assinado "o contrato da sua vida" [é ainda Joel Neto quem o afirma] e assume mesmo o estatuto de trunfo decisivo na estratégia de uma operadora rival da Zon, julgo que a Meo [que, se bem entendi, promete---ou... ameaça?---ter a abominação em causa no ar ininterruptamente 24 horas/dia!] na conquista de mercados no âmbito da 'guerra das instalações' em curso.

Comentários?

Vale a pena fazê-los?...

Enfim, terceira notícia: segundo Francisco Penim [ex-director de programas do canal privado SIC] e Felisbela Lopes [professora universitária e "estudiosa", diz o "Diário de Notícias", na edição de 06.10.10, "do panorama audiovisual português"] a "solução para derrotar o líder" [a tenebrosa e populista TVI---sozinha com maior share diário de audiência que a totalidade da programação-cabo!---e onde a tal "Casa", digna herdeira dos nefandos "Big Brothers" que abriram uma era de insuspeitado aviltamento no "entertainment" televisivo fazendo-o descer a profundidades de vulgaridade e imbecilidade que antes não parecia possível que ele atingisse, ocupa lugar de... honra] "é fazer o mesmo mas melhor" [!!]

Poderia continuar por muito tempo ainda, a coligir e a citar documentação que pude ir compulsando, ao longo dos tempos.

Tão-pouco aqui valerá a pena: o que deixo registado bastará, penso eu, para se ter uma ideia suficientemente clara daqueles que são os cancros do panorama televisivo e, pior ainda: cultural, nacional: um inquietantemente baixo nível de exigência do cidadão/espectador médio cujas taxas de iliteracia funcional são--e não por acaso!--aquelas que se sabem; a drástica concentração dos seus interesses em matéria de cultura num estreitíssimo leque de programas organizados em torno das famigeradas "novelas" e um ou outro "concurso", minuciosamente copiado de uma série infindável de outros nacionais e estrangeiros, geralmente estrangeiros, anteriormente passados e a que agora se juntam os impropriamente chamados "reality shows", encenações confrangedoramente indigentes da realidade, onde vale literalmente tudo para prender a atenção do espectador [vale, aliás, a pena atentar um pouco neste termo] e reduzi-lo, no limite, à... impotência de que são feitas ou sobre a qual são feitas, afinal, as famosas "charts" e os não menos famosos "shares" a partir dos quais, por sua vez, toda a programação ulterior é moldada e cozinhada---de onde resulta inevitavelmente o dramático empobrecimento geral do gosto e dos critérios de escolha, potenciados, um e outros, por seu turno, por políticas culturais invariavelmente erráticas e inconsistentes [quando não meramente pretextuais e/ou orçamentalmente residuais]; e, por fim, resultante de tudo o que acima fica dito, o efeito final consistente na massificação ou progressiva transformação do conjunto das audiências numa massa amorfa, inescapavelmente refém do "gosto" médio formado [ou deformado!] todo ele, "cirurgicamente", daquele modo que atrás muito sumariamente descrevo.

Quando uma professora universitária admite que a cópia é a «melhor forma» de concorrer [noutro lugar deste "Diário" refiro--e critico!--o fenómeno tão caracteristicamente... "pós-moderno" do 'plágio legal' renobilitado sob a designação pomposa de "franchising", outra maneira adicional de condicionar o gosto e de ajudar a reduzi-lo à expressão mais simples] percebemos, de vez, o que significa hoje "concorrer" em matéria de "entertainment" televisivo privado em Portugal ["concorrer"--a concorrência, recordo, foi o supremo argumento que sustentou a introdução da iniciativa privada na televisão entre nós: da concorrência iria inevitavelmente sair a melhoria da qualidade e o consequente benefício do espectador---concorrer, dizia, não significa aqui abrir o leque, diversificar a oferta, valorizar a autonomia na definição e formação do gosto: significa somente, oferecer mais do mesmo e fazer triunfar comercialmente não programas mas empresas---é uma guerra comercial assumida que claramente já contaminou e infestou ou mesmo infectou um serviço público de televisão que ninguém verdadeiramente sabe o que seja ou logra sequer ver, marcado como está por toda uma fenomenologia gradual de osmose, de 'osmose por defeito', de que o espectador, como facilmente se compreende, pouco ou nada tem a beneficiar] do mesmo modo que ninguém consegue perceber onde se situam coisas hoje-por-hoje, pois, obsolescentes ou mesmo de todo obsoletas como a originalidade, a diversidade e a criatividade.

Quando Felisbela Lopes diz que "as novelas se alimentam umas às outras" e que "não basta uma", são precisas muitas ["É preciso ter três novelas ao mesmo tempo", diz expressamente. "Se calhar mais" (!!)] a fim de consolidar definitivamente o respectivo consumo é exactamente isto que ela está a dizer---e pior ainda, a aceitar implicitamente como estratégia de conquista de mercado e, por conseguinte, de formação ou, volto a dizer: deformação tragicamente ideal de públicos.

O que aqui deixo registado com a supressão do inimitável ARTE à cabeça bastaria, suponho, numa sociedade minimamente esclarecida e mesmo apenas sumariamente civilizada para tornar incontornável e inadiável, isto é, para repor de uma vez por todas na ordem do dia a questão de um serviço público, realmente consistente e verdadeiramente sério de televisão, liderado, não pelos habituais comissários políticos e oportunistas ou arranjistas de carreira mas por gente competente e com um projecto claro de formação de audiências [em caso algum, susceptível de ser levado à prática sem ser no âmbito de um plano conjunto nacional articulado com um Ministério da Educação onde prevalecessem, por uma vez, a inteligência e a competência educativas e não, em vez de políticas e ideias sólidas para o País, habilidades de guarda-livros de mão dada com espertezas saloias de pedagogo feito à pressa e a martelo, com meia dúzia de livrecos manhosos publicados---ou seja, todo um projecto político, cultural e até civilizacional que não há; que poucos querem que haja, no único país que, em resultado disso mesmo, era--esse sim!--fatal que houvesse e que está, aliás, em tudo quanto disse e escrevi, para nossa desgraça colectiva nacional, eloquentemente retratado...

sábado, 1 de janeiro de 2011

"Da Indústria do Plágio" [por rever]


Escreve o "D.N." de 04.10.10. que o "franchising" "continua a ser um mercado em crescimento apesar da crise" e que só em 2009 "facturou mais de cinco mil milhões de euros".

Ora, num certo sentido muito preciso e até relativamente claro---paradigmático, sem dúvida---o "franchising" é bem um retrato fiel do tempo que vivemos.

Para todos os efeitos, dê-lhe a gente as voltas que der, o "franchising" representa [basta para entendê-lo ver o que se passa em matéria de "entertainment" televisivo onde os programas de maior sucesso são todos minuciosamente decalcados de um único modelo original comum a todos eles] a consagração da cultura do "plágio legítimo" i.e. do plágio que, pago à cabeça, se torna miraculosamente, numa indústria em si, perfeitamente legítima e legal, e, pelos vistos, também promissora porque em franco progresso.

É, pois, o "franchising" um fenómeno que nos fala eloquentemente dos limites e da verdadeira natureza da 'cultura' centrada em torno da miragem da inovação ou, vista a questão de outro ângulo, em torno do 'uso ou dos usos industrais da inteligência' que estão na base das formas mais recentes do capitalismo tecnológico.

É verdade que este, nos seus centros activos que se situam nas grandes corporações das grandes economias do sistema mundial, se baseia, em larga medida, na criatividade e na originalidade que são, de facto, factores absolutamente decisivos no processo de transformação do real em valor.

Mas, uma vez concretada num conjunto definido e muito preciso de produtos [lá estão as leis; lá está todo um Direito próprio para garantir que assim é!] a acção da criatividade original, o próprio sistema que a originalmente utilizou para produzir esses objectos passa a recorrer, numa espécie de segunda fase ou estádio ulteriores do processo, a um conjunto de dispositivos de natureza, volto a dizer, especificadamente jurídica a fim de limitar e/ou "disciplinar" a aptidão da fórmula para seguir irradiando, de forma sistemicamente des-controlada, essa aptidão natural do conhecimento para re/produzir capital---entrando-se, então, na fase, em larga medida forçada e forçosamente inerte daquele, caracterizada pela imposição generalizada dos modelos originais assim como cumulativamente pela proibição da produção autónoma de outros objectos ou produtos a partir do mesmo impulso criativo que gerou os primeiros.

É fase do "franchising" ou replicação secundária dos modelos triunfantes, usados, pois, na prática como formas para limitar a própria criatividade que, todavia, se começou por afirmar configurar uma chave determinante do processo.

É verdade que sim, que constituiu mas, insisto, só até ao momento em que um certo conhecimento particular se concretizou em produtos, sejam estes computadores, cosméticos ou programas de televisão e foi preciso, pois, para manter o respectivo "valor", limitar drasticamente a aptidão autónoma de outros para desse saber gerarem novos produtos ou, como me parece mais adequado porquie mais preciso dizer, introduzir no sistema produtivo as doses fundamentais de "rarefação estratégica" ou "carencialidade possibilitante" sem as quais, como tantas vezes tenho vincado, a máquina capitalista é incapaz de gerar aquele mesmo "valor" como a tal "riqueza" que se vangloria de originar e que, no fundo, serviu até há bem pouco para legitimar social e politicamente o triunfo histórico da burguesia.

[Na imagem: "Warhol - Accident & design" by Socialism Today; "The Life & Death of Andy warhol" by Victor Bockris. All images and artworks are property of The Andy Warhol Foundation © All rights reserved. Apud cokeart-com]

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Leiturando sobre os Mecanismos de Formação da Memória e da Identidade Humanas"


Dois textos da edição de 30.10.10 do "Público" sugerem-e algumas reflexões pessoais breves sobre o modo como não exactamente a "cultura" mas os nossos [vou usar uma analogia saída da minha formação académica linguística] os nossos... "culturolectos", o universo nuclear dos nossos... "culturolectos" se forma e se consolida, consolidando, de passo, o edifício tópico das nossas "identidades" individuais.

O primeiro, é um texto da autoria de Pacheco Pereira, uma pessoa de que, devo dizer, não gosto especialmente e a cujas lucubrações, em geral, demasiado pomposas, retórias, irrelevantes e invariavelmente vazias de originalidade sou confessadamente pouco sensível.

Não é, todavia, qualquer identificação de aionda assim mera circunstância com ideias por ele veiculadas no texto intitulado "Há três anos atrás seria ficção científica" que me leva a citá-lo mas tão somente as freferências que faz a um tal iPad e o facto de o texto referido ter coincidido com um outtro sobre um tema que julgo saber o autor do texto despreza e que é o futebol.

Falando sobre o iPad, Pereira traz à colação uma circunstância que já se tornou uma constante [ou aquilo a que eu chamaria um específico objectual] da nossa época: a possibilidade de registar continuamente 'memória da realidade'---"em suportes objectuais" que a tornam ilimitadamente reutilizável, é verdade, mas que são, de igual modo, num certo sentido funcional directo muito preciso, muito... "cultu[r]al", "limitadamente objectuantes" na medida em que limitam---em que a sua utilização tópica limita; em que ela tende sempre, de um modo ou de outro, a aparecer associada a formas estáveis de utilização que limitam---os 'usos teóricos' do real fora daquele universo circunscritamente funcional que faz com o que em última instância define a nossa relação relação tópica com o real seja a prática de usá-lo continuamente reinvestido em si mesmo.

Ou seja: antes da invenção das formas de registo final, tecnologicamente inargumentáveis, das imagens que somos capazes de produzir ou de gerar da realidade, era possível ao ser humano, à consciência do ser humano, reinventar autronomamente muita dessa realidade e investir nessa reinvenção formas de "criatividade emocional e e de inventiva afeccional" que desempenhavam, a meu ver, um papel particular central absolutamente relevante na construção final da identidade cognitiva mas, de igual modo, afectiva ou afeccional.

Antes da introdução do video, por exemplo, os filmes [e os rostos, as circunstâncias, a imagética dentro deles] mesmo com cinemas chamados "de reprise" disseminados pelo nosso universo institucional e cultu[r]al, eram, em regra, vistos uma vez e reinventados subsequentemente na [sub] consciência um número teoricamente ilimitado de vezes até, muitas vezes, se perderem eles mesmos por inteiro da sua "identidade" própria, devorados que eram pela memória que deles tínhamos a fim de servirem de "alimento construcional" à nossa própria identidade.

Um processo em tudo análogo ao que ocorria no âmbito mais demonstravelmente intelectualizado da formação de conceitos, por exemplo, matemáticos antes da introdução das calculadoras no domínio da do/discência e, por conseguinte, da formação de consciência ou de consciencialidade objectiva---calculadoras eesas que permitem operar elisões angulares, verticiais, "sobres/saltos epistemeoformes" na nossa relação cognitiva e operativa imediata com o real e, portanto, também, noutro plano mais estável e inteleccionalmente identitário, na nossa maneira de perceber e auto/representar autonomamente, digamos assim, aquele mesmo real.

Ou ainda, noutra fase, com os computadores e a nossa capacidade cada vez mais reduzida de perceber abstractamente formas no espaço, i.e. de pensar com espacializações puramente críticas, instintivas ou instintuais, do próprio real.

Ou seja: todas as formas de "objectuar terminalmente" o real que são um traço dominante e tópico da nossa época mental surgem para reduzir a nossa própria capacidade educável para "subjectuá-lo" quer afectiva ou afeccional quer crítica ou, como prefiro dizer, de um modo mais amplo, criticionalmente mas, igual modo, para funcionalizá-la limitando a nossa aptidão natural para produzir o que, de novo com recurso a um léxico para-linguístico, gerar autonomamente "afectemas" ou "afeccionemas" com os quais, para o bem e para o mal, pensávamos topicamente ainda não há muito tempo mental e crítico---ou "criticional".

Era infiáveis muitas dessas imagens abstrctas que gerávamos do real?

Eram-no demonstravelmente: quantos filmes re/vi eu de um mesmo filme, na infância.

Mas o que eu quero dizer é que a possibilidade tecnologicamente sustentada de não fazê-lo não configura, por si só, um bem e que no nosso mundo 'tecnologicamente categórico' de hoje grande parte das tarefas de "revolução" e de "re-humanicização" passam por tentar não amputar a identidade do seu património original em matéria de "imaginação afeccional"---algo que constitui, em meu entender, em si mesmo, algo de absolutamente essencial no processo filogénico de "individuação funcionante" ou "filo-funcionante" onde se origina, em última instância, a própria identidade como "dado ou objecto natural".

E aqui surge o segundo texto, aquele ["O excêntrico que precisa da fama para viver"] em que Filipe Escobar de Lima fala do futebolista Maradona comparando-o a Pelé, outro jogador de futebol, brasileiro esse.

De Maradona, diz o autor, possuimos toda uma parafernália de imagens que nos permitem ver o que o futebolista realmente fez.

De Pelé, diz, muito pouco: Pelé foi um homem e um futebolista de uma era anterior à nossa era tecnológica em que a memória que possuíamos/construíamos das coisas era ainda, em larguíssima medida, no caso dele, "artesanal" e [utilizo aqui o termo com total intencionalidade!] "livre" e por isso se tornou num mito.

Uma era afeccionalmente fecunda---e criticionalmente [volto a dizer: para o bem e para o mal] "livre" que permitiu que o que hoje se "sabe" de Pelé seja, em larga medida, o mito que em torno dele construímos e que vamos, a cada novo dia [e a cada novo jogador que surge] reacomodando continuamente de acordo com a nossa vontade---ou, como diria um psicanalista, com o desejo.

Aplicamos aí ainda o modelo de "pensar mitogénico" que informou o modelo tradicional informal ou total e "transversante" de História ou de historicidade popular a partir do qual construímos ainda hoje, pois, os modelos da nossa historicidfade simultaneamente "objectiva" e "científica".

Uma 'era tecnológica' é, por definição, uma era não apenas sem identidade ou com a identidade [e os mecanismos geradores de identidade] amputados de uma parte significativa de si---um não-Tempo ou um não-lugar no tempo cultu[r]al---mas, de igual modo e por essa mesma razão, sem verdadeiros mitos.

Ou com os mitos---até esses---impostos: primeiro, pela tecnologia e pelo tipo de pensar tópico que ela introduziu na sociedade e, em seguida, pela Política de que a Tecnocracia se serve exactamente para introduzi-lo---e impô-lo.


[Na imagem: Salvador Dali, "O Nascimento da Filosofia" extraído, com, a devida vénia, de]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"Salvem-nos da Gente, por Favor!..."


Meio oculto pela poeira de uma "governação" absolutamente lastimável, sem rei nem roque, o F.M.I. espera na sombra para vir 'reinar' em Portugal e fazer o que o grande capital financeiro nacional e internacional deseja que seja feito mas não encontra serventuários---homens e mulheres... públicos---dispostos a suicidar-se políticamente por ele fazendo-lhe a vontade...

Hoje, foi a vez de a U.E.F.A. obrigar Laurentinos, Madais e Co. a meterem, no saco a viola de mais um número de circo que se preparavam para levar a cabo e que seria o Mundial de não-sei-quantos num País eurovegetativo com uma economia cada vez mais de simples protectorado e um primeiro-ministro absolutamente impróprio para consumo que já deveria ter sido corrido há muito se Portugal não fosse a república bananeira que é.

A quem não tem cabeça para se governar e só sabe eleger indigentes políticos com cursos manhosos para representá-lo só mesmo alguém de fora para salvá-lo do seu pior e mais acirrado inimigo: ele próprio!...


[Imagem ilustrativa extraída com a devida vénia de abelaeabola-dot-blogspot-dot-br]

domingo, 7 de novembro de 2010

"Sexo Nunca! Somos [Excelentes!] Portugueses---Típicos?"


Num texto que divulga na edição de 05.11.10 do diário "Público" ["Sexo e Poder"] onde faz uma brevíssima abordagem comparativa da incompetência, do cretinismo, do vizirismo e, de um modo geral, de um conjunto muito vasto de formas de decadência moral e cívica entre o Portugal "socrático" e a tenebrosa [a carnavalesca! A perigosamente carnavalesca!] Itália berlusconiana e onde conclui por uma espécie de «do mal o menos cá, por enquanto, ainda não se envolvem [oficial e/ou institucionalmente, pelo menos...] menores na imoralidade e na devassidão generalizadas» [que, desse modo, permanecerão «apenas políticas, graças a Deus!»]; no texto em causa, dizia eu [ou melhor: perguntava eu!] se o professor Carlos Fiolhais que o subscreve está muito subtilmente a ironizar tendo por base um conjunto de formas mais ou menos oficiosas de encobrir abusos e branquear indignidades nessa [como noutras!] áreas concretas da nossa vida... "subpolítica" ou, pelo contrário, a fazer-se eco implícito de algo que constitui, a meu ver, uma modalidade particularmente insidiosa de totalitarismo intelectual que é o moralismo tácita---exaustiva, instintiva, muitas vezes, mesmo obsessivamente---misógino, característico de um modo, queiramo-lo ou não, sempre muito opressora e muito maniqueiamente "sexualizado" [tão português!] de [pré] conceber em geral o mundo das representações morais, de um modo lato e especificamente no que diz respeito ao modo de formular e de fixar as ideias estáveis, tópicas, cultu[r]almente referenciais de Bem e de Mal?...


[Na imagem: S. Jorge e o dragão, de Ernesto di Fiori. Imagem extraída com a devida vénia de cosmo-dot-uol-dot-br]

terça-feira, 2 de novembro de 2010

"Endireitando a Sombra à Vara na Famigerada «Question Tzigane»..." [por rever]


Não gosto especialmente, várias vezes o tenho repetido, da chamada União Europeia--não tenho dinheiro bastante para gostar e penso mesmo que, se Portugal já não tem,ele próprio, dinheiro bastante para manter uma sociedade, a sua própria, de que vai, como é sabido, tendo de se desfazer aos poucos [uma sociedade é cada vez mais, nos tempos que correm, um luxo bizantino, uma coisa de ricos!] onde é que vai arranjá-lo em quantidade suficiente para ajudar a manter, mesmo em parceria, várias ao mesmo tempo?...]; não gosto, pois, dizia, da tal União [que, de resto, nunca vi "ao vivo" e para acreditar que existe tenho de fazer fé na palavra de uns quantos que dizem que já viram!] por isso, confesso que estou sempre de pé atrás e nunca espero nada de verdadeiramente bom para mim e para os que como eu não têm dinheiro bastante para investir nela [tenho nas sucessivas eleições investido, sim, mas coerentemente comigo próprio, contra ela] sempre que ela se põe a 'ter ideias' e a legislar.

Sou, por outro lado, como é evidente, também [por razões morais e éticas] contra certas patologias mentais, cívicas e políticas---doenças com nomes esquisitíssimos como "Sarkosy" e "Berlusconi" [nunca hão-de me surpreender bastante, com efeito, os nomes esquisistos que os cientistas descobrem para as doenças!...] e muito em particular contra os respectivos projectos de deportar indiscriminadamente [para já...] ciganos [projectos paridos, aliás, pontualmente no quadro da tal União que se mostrou muito enfadada et al mas que não faz nada, excepto talvez, por razões muito próprias, de natureza estratégica, um bocado da tal "magistratura de influência" de que falava o outro qundo queria dizer que pouco ou podia ou queria efectivamente fazer];

Não gosto, repito, de nenuma dessas coisas e pessoas do mesmo modo que não gosto da criminosa hipocrisia dos vários governos nacionais ['locais?] a começar pelo romeno e pelo húngaro [onde o problema---a "questão"---cigana, muitas vezes esquecida, oculta pela incomparavelmente mais conhecida, mais mediática, "question juive" foi sempre, "to say the least", uma "question" complicada...] e a acabar no que vulgarmente, à falta de melhor termo, chamamos vulgarmente "o nosso" [isto de vir sempre em último parece sina, ham?...];

Por isso, quando a tal "União" se saiu com aquela do "princípio da focalização explícita mas não exclusiva" [sempre pomposa, a criatura, ham? Também, pelo dinheiro que nos custa mantê-la bem pode sê-lo, não? Isto é, andar---como dizer?---"sempre verbalmente bem-arranjadinha: é o mínimo que se exige dela, não?] achei engraçado mas desconfiei logo: acho que os princíos como as palavras sempre foram um excelente meio para manter escondida a falta de acções...

...mas pronto! Quis crer!

Fui ver e o que era o tal princípio?

Segundo revela um senhor com nome de componente do leite, George Soros, num texto vindo a lume no "Público" de 25 de Agosto deste ano de 2010 [intitulado precisamente "O destino dos ciganos"] tal princípio consiste basicamente em "permitir que fossem usados fundos estruturais para intervenção em habitações a favor de comunidades marginalizadas, com particular atenção nos ciganos".

Bonito?

Lá bonito é só que...

... só que parte logo, na prática, do princípio errado [invertido] de que o problema da marginalização económica, social [e étnico-económico-social!] se deve nuclearmente à falta de casas e não de [vamos ser claros e para isso, tenham lá paciência, temos mesmo de "ser políticos"!] por um lado, a um sistema económico-financeiro [a uma étapa da "volução" concreta, material, objectiva, histórica desse sistema] que há muito, em consequência do modo profunda e in/essencialmente disfuncional como geriu a entrada contínua de conhecimento na História deixou de saber [como Saramago ao livro...] o que fazer às pessoas que lá estavam---e estão!---dentro enquanto que, por outro, continua teimosamente a fingir ignorar que, para além das consequências social, económica, política e até civilizacionalmente trágicas da aceitação implícita do que chamo o conceito da "cidadania funcional" que é o que está, de facto, na origem da consolidação de um conjunto de formas modernas de impor civilizacionalmente a exclusão às sociedades como um preço "legítimo" a pagar pelo "desenvolvimento"] o que permite propagar [com um tristíssimo e cada vez maior sucesso] a exclusão é a falta de investimento numa cultura de dignidade humana [humanista] e cívica para a qual, porém, por um conjunto vastíssimo de razões não tem qualquer utilidade prática.

Basta ver o que se passa nos currículos escolares e, a montante ainda deles, com o tipo, o modelo, o "desenho teórico" da "filosofia" obsessivamente funcionalista e, às vezes, mesmo histericamente practicista que anima o projecto de formar e reformar aqueles: o conhecimento como um primeiríssimo capital que se vai, a prazo, investir na produção de todas as restantes formas históricas, sociais e políticas dele.

Sem se considerarem nuclear---sem se terem verticialmente em conta e, mais do que em conta: em equação---ambos esses factores: o uso sistémico do saber pelo sistema [um uso cegamente privatizador que vai romper a prazo com os instáveis, delicadíssimos, equilíbrios anteriores/interiores, dificilmente mantidos no seio da própria ecologia concreta do modo de produção entre capital variável e capital fixo, por um lado assim como, daí resultante, o que foi podendo ser historicamente mantido, com recurso à intervenção sistémica do Estado dito "social", entre cidadão produtor e cidadão-mercado];

Sem se considerar, dizia, por um lado, o papel estrutruralmebnte disfuncionante desta componente sistémica do saber-capital e, por outro, de forma cumulativa e como resultado dessa circunstância anterior, a inexistência de formas operativas de uma verdadeira cultura humanista usada para "pensar o sistema" desde a origem, desde o ovo; uma cultura que, como costumo dizer, "não desse resto zero" e valorizasse ou "valorasse" efectivamente as pessoas, isto é, que soubesse sempre converter a humanicidade como tal em "valor"] introduzindo, no seio dos diversos mecanismos e dispositivos institucionais de concretizá-la historicamente, modos reconhecíveis de recuperar social e politicamente aquele "resíduo formante" que é, no fundo, o verdadeiro objectivo da cultura e que se situava, afinal, na base das múltiplas formas de erudição pré-industrial e especificamente clássica;

Sem se considerarem nuclearmente, dizia, esses dois aspectos absolutamente angulares da "questão", não me parece; não me restam muitas dúvidas, de facto, de que se trate apenas de "brincar" [ou, mesmo, de... "jogar"] às inclusões tudo o que sejam, por aquilo que atrás digo, repito, as múltiplas formas avulsas de fingir fazê-lo, desde as que a tal União dita europeia tão vaga quanto pomposamente promove às que propõe, por seu turno, o senhor com nome de... parte do leite.

"Integrar" misturando, atirando "pêle-mêle" para o meio de comunidades exteriores comunidades "alternativas" com um longo historial de rejeição e de rejeição reactiva já substancial e até substantivamente "culturalizada" é, no fundo, um erro simétrico na disfuncionalidade como na eficácia efectiva, do "ghettizar".

Porque o problema é um problema de cultura [e de Cultura], um problema ligado ao uso social tópico das representações e das auto-representações estáveis [estabilizadas, objectualizadas] de ordem individual como colectiva e só no plano da cultura ]e, volto a dizer: da Cultura] se podem operar as transformações sobre aquele conjunto de representações e auto-representações e sobre as dinâmicas ou dinamis sociais e económicas que são um dos vértices-chave do problema.

Aliás, faça-lhe justiça, no seu artigo Soros alude a isto: a questão, a meu ver, é que não se podem dissociar sem começar de imediasto a neutralizá-las e, por conserguinte, a inoperacionalizá-las, as diversas componentes das práticas integrativas.

Dissociá-las, sobretudo, como faz a tal União começando pelos epifenómenos, pela camada epifenoménica, pode inclusivamente constituir um modo perversíssimo, oblíquo, de potenciar a conflitualidade e a própria exclusão.

É bonito e "fica bem" como escreve Soros dizer que "a principal diferença entre os ciganos e as populações maioritárias não é cultural nem de estilo de vida [...] mas a miséria e a desigualdade.

Pois, o problema é que a miséria não surge por acaso ev os seus efeitos prolongadíssimos no plano cultu[r]al acabam por converter-se, por seu turno, num problema que, num certo sentido... circular ou dialéctico, acaba por reentrar, de algum modo, central e determinantemente na História na medida em que se converteu numa forma socialmente dinâmica de representar a miséria e de lidar social e politicamente com ela.

Isto é, converteu-se já secundária e reactiva ou reaccionalmente numa identidade-casulo onde se tornou, por sua vez, muito difícil [a quem quisesse verdadeiramente fazê-lo, quanto mais aos "outros"...] penetrar mas onde se concentro já na prática o essencial dos mecanismos socialmente dinâmicos do problema.

Porque como atrás dizia a cultura [como a in-cultura que é dialecticamente uma forma perversa de cultura...] nunca "dá", de um modo ou de outro, "resto zero".

"Dá sempre resto"---e é esse resto, por existência ou absurdo que passa, a dado momento, a condicionar tudo.

É uma conscienciação [e, depois, naturalmente uma "consciência"] da realidade, uma representação subjeccional da História para cuja gravidade específica esta começa, de imediato, a ser atraída e a correr.

Lukács fala disto embora tivesse levado vários anos para chegar à formulação certa da ideia de "Psychologisches Klassbewusstsein"...

É que também ele [que era marxista e tinha potr isso uma ideia não apenas global como "teticamente orgânica" da realidade e da História] andou anos a tentar... "endireitar a sombra à vara" ...


[Na imagem: Frans Hals, "A Cigana" 1626, óleo sobre madeira, 23x20, Museu do Louvre]

domingo, 31 de outubro de 2010

"A Pilinha é o Limite..."


Diz uma tal Júlia Pinheiro que me garantem ser a "apresentadora" de uma coisa absolutamente inominável e indigente chamada "Casa dos Segredos" que diariamente "nos" chega aos televisores "courtesy of" uma 'borradura intelectual' não menos inominável que dá pelo nome de TVI; diz-nos a tal Júlia, pois, ia eu próprio dizendo aqui [e repete-o sem grandes comentários o "Correio da Manhã" de 19.10.10] que na coisa-em-causa [houve quem me jurasse a pés juntos tratar-se de um programa de televisão mas é questionável, não pude confirmar!...] não haverá "imagens de nudez frontal"...

Devo dizer que sempre achei que a menoridade intelectual nas suas múltiplas formas [e a TVI é, indiscutivelmente, não só das mais comuns, das mais divulgadas como também das monetariamente mais bem sucedidas nessa 'nobre' tarefa a que, desde a sua fundação, devotadamente se vem entregando de multiplicar o seu persistente primarismo e a sua distintiva falta de gosto, espalhando-os generosamente pelos quatro cantos do País...]; devo, pois, dizer que sempre considerei que a menoridade de espírito vai invariavelmente de braço dado com a hipocrisia e o preconceito que, entre indigentes culturais substitui, como se sabe, com evidentes vantagens em termos de quietação crítica e "repouso cultural", o esclarecimento e a lucidez, que é como quem diz: a inteligência, mesmo em doses mínimas.

Ora, o anúncio da Sra. Pinheiro vem, em meu entender, demonstrar como é selectiva a moralidade dos medíocres: pode-se, em televisão, fazer praticamente tudo em matéria do populismo mais primário, da inutilidade mais escandalosa e até ofensiva, do voyeurismo mais saloio, mais soez, mais farisaico e globalmente mais indigno---tudo isso passa, tudo isso é "entertainment" legítimo, tudo isso é "televisão pop", tudo isso é horário nobre, tudo isso é bom e respeitável negócio de milhões...

Pode-se, especificamente, penetrar na intimidade de um lumpen mental e cívico muitas vezes no limite da marginalidade pura e simples [e isto, a avaliar pelo que vem continuamente a público sobre a gente que frequenta o programa, é já ser optimista e generoso, ham?...]; um lumpen que vive dessa singularíssima profissão muito caracteristicamente... "pós-moderna" que consiste em abrir a braguilha em público [as diversas braguilhas de que é composta a privacidade de qualquer pessoa minima e realmente respeitável]; pode-se aceitar receber diariamente em nossa casa gente que faz do indecoroso desbraguilhamento individual e colectivo uma próspera indústria e até uma verdadeira 'cultura' de... massas]; pode-se, dizia eu fazer tudo isso [e ganhar dinheiro com isso!] mas...

...mas a pilinha e o pipi são o limite: não o céu, como no cliché---a pilinha e o pipi!

Sucede que eu sempre defendi que existe [e está muito divulgada entre nós, aliás e desde há muito!] uma anti-natural e genericamente repulsiva "pornografia obsessional da pudicícia" que o é também da auto-repressão e do farisaismo potencialmente psicopatológico, impendentemente patogénico, gerador tendencial de quadros neurotiformes [senão mesmo abertamente neuróticos] cuja evidência enquanto fenómeno social [e especificamente criminal] se tornou ultimamente, aliás, por razões que não vale a pena aqui voltar a especificar, absolutamente inescondível.

Esta cultura da elisão, do "raffoulement" ou do "empochement" completamente arbitrários---da "fetichização negativa" "por... sinédoque" de partes do corpo---confundindo estas com o respectivo uso tem, em meu entender, tudo a ver com o modo como a visão judaico-cristã do mundo, em geral, opera, no plano da formulação de representações tópicas da moral que acabaram por permear para ["that eventually oozed into"] a tradição moral formal ou teoricamente laica ocidental, especificamente católica.

Trata-se de um quadro moral estruturalmente autoritário onde se verifica muito claramente uma dissociação nuclear particularmente disfuncional entre a experiência concreta e os mecanismos básicos de construção de cultura, individual e colectiva.

Ou seja: esta visão essencialmente contra-reformista da realidade moral integra extremamente mal a ideia de autonomia dos indivíduos no que diz respeito à construção e à organização abstracta [mas também concreta!] da propria realidade---pelo que começa logo por cercear-lhe à partida, "roubando-lhe" o corpo, a possibilidade de eles, indivíduos, fazerem verdadeiras opções independentes e, por isso, efectivamente morais nesse domínio.

É uma visão que, em meu entender, não se pode dissociar, como digo, do modo como a tradição judaico-cristã vê topicamente 'o Livro', 'a Palavra', por oposição ao modo como vê ambos a tradição luterana ou calvinista divergente, ao menos como forma ou como «arquitectura genérica do olhar cognitivo e representacional», digamos assim.

Para a tradição autoritária contra-reformista, com efeito, o corpo e o pecado não podem, em última análise, dissociar-se um do outro porque se, teorética e epistemologicamente, puderem ser apresentados como entidades [ao menos tética e dialecticamente] autónomas, existe de imediato, ipso facto, a possibilidade instantaneamente percebida e representada como "disfuncional" de o indivíduo, por um lado, se reapropriar do seu próprio corpo na forma de uma ideia própria deste mas, sobretudo, por outro, de ele se apropriar autonomamente dos usos desse mesmo corpo, questionando, assim, frontalmente a Autoridade na forma de um pensar [e, a partir dele, com base nele] de um agir independentes.

A tradição contra-reformista convive, com efeito, mal ["to say the least"...] com a liberdade em geral; com a liberdade como categoria condicional básica do conhecer, preferindo sempre usar a História e tudo dentro dela como uma ilustração e mesmo como uma demonstração passiva da eternidade, situada esta sempre para além do ["jenseits", numa semântica... nietzschiana] alcance im/possivelmente transformador e até conceptuador [ou re-conceptuador] autónomo da consciência individual.

É verdade que o cristianismo introduziu na História da Cultura Ocidental relativamente às formas anteriores de conceptuação e representação do funcionamento moral da realidade [gregas e romanas] a ideia de "pecado" enquanto representação do comportamento [mais] marcadamente individual enquanto agente no processo de representação teórica do funcionamento global da realidade, retirando-o à arbitrariedade da acção pura ou quase pura do Fado.

Mas não soube---e isso é particularmente evidente, volto a dizer, no caso das sociedades onde a Contra-reforma triunfou sobre a Reforma; não soube libertar verdadeiramente o pecado, tornando-o uma verdadeira e uma genuina "propriedade moral" dos indivíduos.

Essa possibilidade é, de imediato, reinviabilizada pela proibição severa dos usos quer do corpo, quer, noutro plano, da própria História, forçando o indivíduo a cumprir esta última, num sentido amplo, global, em lugar de protagonizá-la e mais ainda: obriga-o a cumpri-la como uma forma de obediência-valor moral que rapidamente se torna também uma realidade política, como amplamente provou o facismo.

Esta "cultura" [e esta obsessão!] da castração cultu[r]al e mental; da ablação teórica do corpo [e especificamente dos órgãos genitais] fica muito clara na ideia inteleccionalmente monstruosa [e objectivamente obscurantista!] de que a questão da Educação Sexual nas escolas [outro problema importantíssimo do nosso tempo e especificamente da sociedade em que vivemos] é antes [e acima] de mais qualquer outra coisa, uma "questão" moral que obviamente não é.

É uma questão científica que não pode evidentemente ser tipificada a partir do seu próprio objecto, que o mesmo é dizer: enquanto área ou domínio do Conhecimento e da Cognição ou da cognicionalidade com expressão académica, designadamente institucional e ainda mais especificamente curricular, nada deve legitimamente "distinguir" a Educação Sexual da Educação Física, Literária ou Linguística ou de outra qualquer das múltiplas Educações que constituem o Conhecimento científico moderno: verdadeiramente científico e verdadeiramente moderno.

Nada deve, dito de outro modo, "significar" [verbo transitivo] "moralmente" à partida a respectiva natureza especificamente epistemológica como o respectivo estudo.

Não é o facto de incidir sobre o corpo [sobre esta ou aquela parte do corpo] que deve estabelecer a base ou o eixo, o vértice tipológico e tipificador dos conhecimentos, do que chamo cada uma das "ciencialidades" que o compõem enquanto objecto íntegro global----do mesmo modo que não é, no caso do tal "programa" de televisão que comecei por referir, a exibição da nudez frontal ou não que estabelece com um mínimo de substância e, sobretudo, de fundamento epistemológico a fronteira moral.

É esta incapacidade nuclear in/essencialmente contrária à possibilidade objectiva de formulação um pensamento verdadeiramente científico; esta incapacidade de discernir entre o corpo e os seus usos [a moral deve naturalmente incidir sobre os usos, não sobre o corpo em si que, como é óbvio, é algo moralmente neutral, algo intrinsecamente objectual] que explica que se continuem a considerar pornografia o conjunto da maioria dos actos que têm o sexo e a sexualidade por objecto.

Que se considere pornografia o que os tem porque os tem.

[Existe, como é sabido e consta, aliás, da própria lei uma "distinção"---tão desprovida, de resto, de fundamento credível como aquela de que atrás falámos---entre sexo com e sem penetração: o primeiro---que curiosamente envolve ou pode envolver, representações sublimadas ou sublimacionais de auto-repressão...---é legalmente "erotismo"; o segundo é, nos termos da lei, "pornografia"...]

Não deixa de ser curioso [e nada gratuito, nada mesmo!...] que o sexo "bom" [ou "menos mau" porque, no fundo, "não há" sexo "bom"...] seja o que assenta, afinal, no escamoteio e na auto/repressão implícita, pressupostamente revalorada da própria natureza: há, de facto, uma ecologia da sexualidade que é ali a priori violada---nesta se reflectindo, aliás, o próprio fundamento, a essência mesma, do que chamo a "pornografia da pudicícia" ou "por pudicícia".

Mas voltando um pouco atrás, insisto: é aquela incapacidade des/estruturalmente acientífica e mesmo anti-científica para distinguir entre fenómenos ou [seja-me permitido que recorra aqui ao uso de uma semântica completamente pessoal:] "sequências causantes ou causacionais", fenomenológicas puras e meros epifenómenos---entre corpo e respectivos usos---que bloqueia qualquer projecto de moral fundamentada e acreditavelmente substanciada por parte de quem a integra nas respectivas formulações teóricas; é aquela incapacidade, dizia, que explica que a verdadeira pornografia [que é aquela que pode ser essencialmente definida como todo e qualquer comportamento que envolva [e, sobretudo, que valorize utilizando-a para atrair] a "colonização" de uma sexualidade por outra e de ambas por terceiros---como acontece, aliás, topicamente nos chamados "reality shows"] do que não passa de actos ou funções ["acticidades" e "funcionalidades"] absolutamente normais e naturais do corpo.

São ainda aqui e sempre os usos do corpo que permitem estabelecer de forma substanciada a fronteira moral: os usos [e os abusos] de uma sexualidade por outra; os usos [e os abusos] por parte das várias sexualidades espectadoras de ambas as anteriores, designadamente para compensar falhas e taras existentes ao nível da "cultura" individual e colectiva, no âmbito da referida 'ecologia da sexualidade'.

A ideia de que, se eu vir um corpo nu me... "corrompo" ipso facto, é absurda.

De facto, é essa ideia, ese princípio, em si mesmo monstruosamente anti-natural: começando desde logo por ser pouco lisongeiro para o corpo, ele coarcta de imediato, de forma claríssima, a minha liberdade, inclusive a de fazer por escolha pessoal independente aquilo que o código moral referencial, ortodoxo, acha o "Bem" na [moral e intelectualmente absurda] medida em que obriga---me condena---em todos os casos, a fazê-lo...

Claro que não se pede à TVI que contribua para o que quer que seja em matéria intrinsecamente cultural: o papel do entertainment privado encontra-se infelizmente reduzido, em última análise, ao de alimentar continuamente fantasmas cultu[r]ais de todo o tipo, colocando-se num lugar perversamente privilegiado para redifundi-los entre a comunidade onde se originaram.

Esse papel de formar públicos devia, como tantas vezes tenho dito, estar entregue a um televisão pública, seguramente a um canal dela.

Mas devia sobretudo está-lo a um Ministério da Educação que soubesse realmente o que anda a fazer e que infelizmente nunca teremos tido entre nós em momento algum desde os tempos de um ministério Sottomayor Cardia de má [de péssima!] memória.

Concluo deixando por responde [para que cada um o faça por si, livremente] uma questão que é: terá alguma relação com essa inexistência o facto de, se ela não se verificasse, a "grande indústria do obscurantismo, do atraso e da ignorância" que hoje faz fortunas [também] no entertainment televisivo ficar, a prazo, fatal e, também irremediavelmente, comprometida?...


[Na imagem o David de Miguel Ângelo extraído com a devida vénia de revistaestilo-dot-abril-dot-com-dot-br]

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Uma Falsa Ideia de Progresso"


Muitas vezes penso que aquilo que verdadeiramente nos distingue dos animais é a percepção moral: os animais possuem-na naturalmente…

O carácter epistemologicamente credível, efectivamente fundamentado, de um sistema moral operando como autêntica teoria da realidade e saber genuíno é algo que, de um modo geral, não faz, com efeito, parte do arsenal representacional tópico dos humanos, em geral.

Quero eu dizer: alguns homens de excepção ao longo da História foram possuindo imagens próprias [em larga medida, ulteriormente trabalhadas e educadas, por cada um deles, à sua maneira pessoal de modo a configurarem no seu conjunto um verdadeiro conhecimento, uma filosofia] dessa espécie de percepção ecoforme da realidade que faz da experiência sensível e intelectual da mesma um acto [ou, em termos genéricos, uma acticidade] verdadeiramente necessários porque em autêntica consonância com as leis que regem o funcionamento [em tese, pelo menos] natural da realidade e permitem que a ela nos conservemos ligados por traços de, nesse caso, pois, genuína necessidade---no mínimo dos mínimos, crítica.

As religiões, por outro lado, como desmodelações puramente arbitrárias de um conjunto de conhecimentos originais que o que entendo constituir o fundo de expansão/dissipação material subjacente aos mecanismos básicos de geração de realidade deformou até tornar completamente irreconhecível e, sobretudo, completamente inútil como meio de representar o real; as religiões, por outro lado, dizia, deixaram já há muito de valer de forma efectiva como conhecimento possível, antes se interpondo, isso sim, frequentemente, de modo completamente disfuncional e disfuncionante entre o homem, a consciência humana e o seu apetite natural pela geração de imagens estáveis, tópicas e epistemologicamente acreditáveis do real.

As religiões e o cristianismo em particular introduziram entre os nossos modos característicos de conceber ou de inteligir abstractamente o real deformações persistentes [tão persistentes que passaram, a operar como uma componente implícita significadora do próprio olhar e mesmo, no limite, como o próprio olhar enquanto tal] que contaminaram não apenas a visão que num plano mais comum, mais laico, dele fazemos mas inclusive aquela ou aquelas que as ciências, em geral, são capazes de produzir.

A ideia de que o real possui um horizonte exterior a si e, por conseguinte, em geral pressupostamente um sentido e um significado finais, por exemplo, ainda quando não explicitamente expressa [ou mesmo quando à outrance negada] por exemplo, é um dos casos tópicos dessa contaminação que nos faz, por exemplo, partir implicitamente muitas vezes [demasiadas vezes!] do princípio de que o “progresso puro” e não-crítico [e/ou não-moral num sentido intelectualmente independente e nobre]; o progresso como um objecto natural situado não apenas fora do próprio real---numa espécie de futuro providencial imanente senão mesmo, para muitos efeitos e sob diversos aspectos, transcendente---mas situado, também, fora do alcance da consciência crítica e dispensando-a, em última instância, em resultado da sua suposta inevitabilidade objectual.

Tenho para mim que grande parte da des-ordem em que se situam as formas contemporâneas de “progresso”, técnico mas não só, provem daí desse “finalismo pressuposto” que infectou muitas das nossas formulações científicas e faz com que, fiados numa suposta natureza providencial do “progresso” que herdámos ou “transcrevemos” mais ou menos instintivamente do domínio formal do “sagrado”, utilizemos, muitas vezes, os objectos ou produtos do progresso como se este não tivesse de ser construído e, depois, escrutinado, passo a passo, como qualquer criação humana inevitavelmente falível e possuidora de efeitos secundários eventual ou potencialmente prejudiciais e aqueles produtos estivessem ao invés providencialmente isentos de riscos construcionais de todo o tipo oferecidos ao presente que os viu nascer por um qualquer futuro pré-significado que viesse, por seu turno, santificá-los, significá-los e, desse modo, e isentar o respectivo uso de qualquer mácula ou risco.

Temos hoje, como recordo noutro ponto, formas extremamente perigosas de agnosia e iliteracia que se prendem nuclearmente com esse modo à sua maneira pré-significado e arbitrariamente transcendentalizado de conceber o mundo que vê cada presente não como uma construção completamente original de si mesmo mas como uma mensagem imanente vinda de um futuro preexistente que muito mais do que ser construído com todos os riscos inerentes a uma construção tem, na realidade, de ser apenas descoberto, atribuindo-se desse modo à consciência o estatuto de uma grande memória de coisas que na realidade enquanto projecto de imanência ou mesmo, insisto, de transcendência não apenas já aconteceram como tinham necessária e, de algum modo, inevitavelmente de acontecer.


[Na imagem: Joan Mirò, "Hand Catching a Bird"]

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"A História e a Máquina do Real"


É minha firme convicção há muito, de resto, já firmada que ocorre hoje, no âmbito da chamada Pedo-psicologia [ecoando, aliás, aquilo que acontece no conjunto das sociedades ocidentais, de um modo mais alargado] uma verdadeira revolução… coperniciana] sob muitos aspectos análoga à que, nas décadas de 60 e 70, teve lugar na Psiquiatria e que deu origem ao aparecimento de homens como R.D. Laing, o mais conhecido dos chamados “anti-psiquiatras”.

Senão, vejamos.

Inspirando-se [apressadamente] num, ainda por cima, muito mal compreendido e muito desajeitadamente recontextualizado Rousseau e integrando, por outro lado, os efeitos socialmente disruptivos e---também---existencialmente, a mais de um título, disfuncionais da adopção generalizada, pelas formas de capitalismo pós-industrial que começaram, na altura, a consolidar-se, envolvendo a adopção generalizada de novos paradigmas laborais que, assentes cada vez mais na efemerização e na pauperização dos padrões de trabalho, impactaram destrutivamente sobre os modelos mais tradicionais de família; inspirando-se, dizia, nuns e tentando, de passo, criar respostas teóricas---e institucionais!---tão operativas quanto possível para os outros, as sociedades ocidentais modernas e pós-modernas acabaram por operar em si mesmas aquilo a que chamo uma profunda [e tópica] des-ecologização dos modelos de [des] organização familiar e, a partir desta, social em sentido mais lato---modelos esses que, em meu entender, tinham tradicionalmente constituído “culturalizações” globalmente satisfatórias e, por isso, genericamente bem sucedidas, das formas de estruturação do mundo natural, do mundo biológico ou biomórfico, de onde foram, em meu entender, originalmente “copiadas” e transformadas em História, por um lado e em Cultura, por outro.

Estas “culturalizações” baseavam-se, diria eu, teoricamente, num paradigma natural: o dos modelos ou protótipos triunfantes [bio-triunfantes e filo-triunfantes] a confirmar os quais as espécies e os indivíduos dentro delas eram [ou, de um modo ou de outro, são] ciclicamente chamados.

Trata-se de um paradigma eminentemente centrípeto a partir do qual as ideias ou, como prefiro designá-las: as ideações culturais de “liberdade” e de “autoridade”, por exemplo, se transformam secundariamente num discurso lógico, num logos, portanto, provido de uma fundamentação reconhecível a que toda a arquitectura institucional, objectiva mas igualmente subjectiva, das sociedades, em geral, se encontrava em condições de fornecer respostas concretas que o concretizavam e operacionalizavam.Dito de outro modo, o modelo assenta na ideia de que a realidade vai encontrando formas particulares tópicas de lidar consigo própria e de se organizar no interior de si própria tendo em conta a interacção estrutural das diversas formas que a constituem [o que se chama em Biologia, por exemplo, a evolução natural] e que os indivíduos dentro de cada espécie nascem precisamente com o objectivo [o fundamento, repito] básicos e demonstráveis de replicar continuamente o modelo original, ganhando, em matéria social e cultu[r]al, direitos progressivamente à medida que vão vencendo etapas [em larga medida biológicas ou delas desmodeladas] no percurso em direcção ao ponto de coincidência possível com o arquétipo pré-definido para cada espécie.

O que eu pretendo dizer é o seguinte: nas sociedades a que chamo tradicionais [as que vigoraram grosso modo até à eclosão da I guerra mundial] os modelos organizacionais e de um modo mais específico as diversas representações culturais ou até simplesmente mentais no seu interior possuem ainda fundamentos concretos, reconhecíveis, mais ou menos aceites pelo conjunto da sociedade---fundamentos sobre os quais assenta, em última análise, todo o edifício da ordem [social, cultural, política, etc.]

A ideia de ‘liberdade’, por exemplo, possui um fundamento mais ou menos preciso mas também, em geral, demonstrável que é o saber, o conhecimento, a propriedade da chave ou chaves da realidade, um estatuto que, na natureza está reservado aos indivíduos adultos e na cultura aos velhos, aos mais experientes de cada comunidade ou de cada sociedade.

Refiro-me àquelas chaves que permitem abrir o interior da realidade à respectiva utilização concreta pelos indivíduos e pelas comunidades por eles formadas e, por conseguinte, possibilitam que a realidade continue, não se interrompa---a realidade tal como vinha “de trás” definida e “acondicionada” num sistema ou teoria do que designei por “protótipos triunfantes” e que eram aqui, sobretudo, de ordem abstracta, cultural, se quisermos, mas em caso algum gratuitos ou aleatórios.

Há, pois, toda uma ecologia da organização social e da respectiva forma de expressão global concreta que é a política sobre a qual assenta todo o edifício objectivo e subjectivo da ‘ordem’ onde este vai buscar o sentido que lhe é, em geral reconhecido.

Há, diria eu, uma dinâmica mais ou menos freudiana [edípica/electriana] de replicação modelar que confere aos “velhos” e, por conseguinte, à autoridade um papel não apenas central como, na realidade, nuclear e determinante.

Os “velhos”, com efeito, desempenham neste quadro duplicacional ou replicacional dinâmico de organização o papel do “Pai” e da “Mãe” freudianos configurando os laços estruturacionais que vão ligando os diversos “segmentos” ou “fragmentos” sincrónicos da História e da Ordem o fundamento mesmo da Autoridade enquanto figura cultu[r]al globalmente reconhecida e respeitada por todas essas partes ou fragmentos quer são os indivíduos exactamente enquanto indivíduos, obviamente e desde logo, e os indivíduos enquanto cidadãos mas que são também, em termos mais latos, as gerações a que eles pertencem.

Genericamente os mecanismos de ascensão social [ou de progressão profissional] reflectem este modelo de aproximação individual ou até grupal ao arquétipo que é como quem diz todos eles possuem este fundamento reconhecível no quadro de uma ecologia da habitação da História e da cultura ou culturas que se mantém em geral, como disse, estável até à eclosão da I Guerra.

Claro que os limites da de muitos desses mecanismos de ascensão social e/ou de progressão profissional na História são curtos e possuem adicionalmente valores de previsibilidade demasiado grandes para que essa mesma História possa “deslocar-se em si mesma”, digamos assim, com a espontaneidade e a autonomia que seriam desejáveis.

A verdade, porém [e é isto que pretendo aqui sublinhar de um modo muito particular], é que a Liberdade [e, com ela, a Autoridade] vão-se adquirindo de um modo que não é aleatório, que não é arbitrário mas que possui, ao invés, um fundamento que nem por ser em larga medida de natureza simbólica e convencional ou convencionada é menos discernível e aceitável pelo conjunto dos indivíduos da comunidade.

À medida que se adquire conhecimento [isto é, que se cumpre o percurso que é etário mas que conduz, também, através de um conjunto de mecanismos institucionais capacitados para outorgar reconhecimento, à apropriação legítima das chaves do real] vai-se cada um aproximando do nível de conhecimento, de saber e de autoridade dos “velhos” e vai assim e por isso conquistando o direito a possuir um lugar entre eles e análogo ao deles.

A Pedagogia enquanto representação cultural determinante reflecte esta dinâmica e, em geral, toda esta realidade: os alunos vão cumprindo um circuito iniciatório que os há-de conduzir à propriedade de um património de saber e, por conseguinte, de Autoridade que outrora era exclusivo dos mestres enquanto figuração modelar universalmente reconhecida.

É óbvio que a realidade é sempre um pouco [ou… um muito] diferente dos respectivos modelos teóricos e que aos jovens até por imperativo... freudiano específico nem sempre é fácil aceitarem pacificamente a autoridade.

A verdade, porém, é que todo o sistema enquanto armadura institucional está apto a fazer valer essa visão informante global, ou seja, dito de outro modo, a Autoridade simbológica, abstracta; a Autoridade enquanto “unidade antropológica e cultu[r]al” possui meios concretos [regulamentares, jurídicos, “simplesmente” morais ou intelectuais, etc.] de fazer-se acatar pelos indivíduos nos casos em que estes manifestem intenção de impor-lhe a sua própria vontade e esta seja, no todo ou em parte, contrária---exactamente porque a Autoridade é, enquanto tal, implícita e, como disse, explicitamente reconhecida pelo conjunto da sociedade.

Há, diria eu, falando numa linguagem mais ou menos, alquímica uma correlação sempre globalmente estável entre um macrocosmo representacional comum ao conjunto do corpus cultu[r]al e um microcosmo institucional e regulamentar que o operacionaliza e/ou operativiza, em geral, continuamente.

Só em casos excepcionais um Jesus pode apresentar-se no Templo para debater com os mestres em pé de igualdade---e o facto de o verdadeiro Jesus ter podido fazê-lo deriva exactamente da excepcionalidade deste e é comummente usado precisamente para demonstrá-la só se entendendo em toda a sua simbólica plenitude tendo em conta exactamente essa natureza de invulgaridade cultu[r]al e mental.

Ora, com a I Guerra Mundial todo este modo de conceber a realidade se altera profundamente num fenómeno de desintegração cultural que a II Guerra duas décadas depois irá aprofundar.

Há todo um conjunto de fundamentos convencionais para o real que se perdem e nunca mais hão-de reencontrar-se.

De facto, toda a realidade se solta de si própria podendo aquele que é essencialmente um fenómeno de dissociação e des-integração consciencial e cultural durante algum tempo ser visto como uma espécie de estádio supremo, como diria Lenine, de libertação.

Ora, é preciso que se entenda aqui que quando eu digo que o não é, não o faço de uma perspectiva moral ou politicamente conservadora---longe disso!---mas objectiva e objectivamente ecológica.

Num certo sentido filosófico [e filosoficamente argumentável] o fim do Ancien Régime ou “Ancienne Histoire” representou, de facto, o fim da possibilidade de a realidade se fundamentar continuamente em termos abstractos e de fazer decorrer desses fundamentos estáveis de realidade todo o edifício de uma ordem social e até política precisa: nem sempre [quase nunca, de facto!] económica, social e politicamente bem utilizada mas, a meu ver, sempre potencialmente fecunda.

Quando [voltando ao aspecto pedagógico que comecei por referir] todo este universo mental, cosmovisional, concepcional, se des-integra e desmorona são os próprios mecanismos de ascensão social tradicionais que ficam em causa.

A prazo [embora não apenas por isso] é toda uma ideia de escola e de educação baseada nessa outra ideação rosseauiana de um “contrato social” que fica condenada.

A Educação e a Escola como seu instrumento electivo serviu, numa fase muito precoce da tomada histórica de poder pela burguesia para que esta justificasse o seu direito de reclamar a propriedade deixada vaga pela aristocracia.

Nesta fase, a Educação serve claramente para promover e induzir, pôr em prática os mecanismos de ascensão económica e social: é ainda e sempre a velha “ideia natural” de que a propriedade do conhecimento porque permite manobrar o real; controlar o funcionamento do real confere a propriedade [e fundamenta a propriedade] política do poder.

Mas a Revolução que pôs fim ao Ancien Régime foi essencialmente uma revolução burguesa, não popular.

É certo que o povo intervém nela e está nela representado mas ele é na realidade apenas o instrumento de que a burguesia se serve para reforçar as suas próprias fileiras.

Quando ocupa a propriedade vaga, a burguesia trava de imediato as potencialidades ascensionais da Educação no plano histórico e político.

A partir daí, a Educação vai ainda durante um período considerável de tempo operar como um dispositivo de ascensão mas no quadro de uma ordem social e política precisa que ela já não ajuda a romper nem alterar ou subverter.

Seja como for, dentro dos limites precisos desse quadro e dessa ordem, ela ainda promove mas agora promove de um modo que confirma a ordem, não já de um modo revolucionário.

Promove operários a contramestres e até [no caso português] alguns “blue collars” a “white collars” mas para operarem no contexto de uma ordem vertical em que os “white” e os “blue” collars não se confundem em caso algum, enquanto classes ou expressão de classes.

Pode-se “fugir” da destes últimos para a dos “outros” situados… “mais acima” mas não está em causa alterar o que quer que seja na ordem de que ambos fazem parte integrante.

Por via da Educação, não.

Agora, é verdade que dentro desse quadro e enquanto dispositivo de ascensão, a Educação funciona.

A sua função histórica e política é, de resto, agora essencialmente essa, de confirmar e atestar a ordem: de demonstrá-la e justificá-la.

Perpetuá-la.

E as pessoas percebem isso: interiorizam isso e cumprem isso.

Também por isso, a autoridade do mestre [que é---chamemos-lhe assim: um «fragmento operativo funcionante» da da própria Escola enquanto instituição, enquanto figura cultu[r]al e política] é em geral acatada: porque ele personifica [e facilita, veicula, medeia!] a viagem ascensional possível no interior da ordem.

O que a pós-modernidade traz é, não apenas a inversão mas, na realidade, a subversão desta ordem e a consagração da não-ordem des-estruturada e des-fundamentada ou des-fundamentacional do real.

Agora, figuras teóricas ou ideações como “liberdade” [que, no contexto do modelo anterior tradicional operava como parte de uma verdadeira teoria geral da realidade que elas integravam e reprojectavam continuamente sobre o conjunto do real e especificamente sobre cada mecanismo de re/produção natural desse mesmo real] ou “autoridade” aparecem completamente desligadas do funcionamento natural destes mecanismos estabelecendo com eles relações que deixaram, para todos os efeitos, de ser abstractamente marcadas pela “necessidade” e pela indispensabilidade causal universal digamos assim.

Isto é, deixou de haver uma relação intrínseca e, ao mesmo tempo, necessária entre os percursos individuais e o cumprimento não apenas de um papel lógico por parte dos indivíduos dentro da “máquina da realidade” como entre esses percursos individuais e o cumprimento da própria realidade enquanto tal.

A liberdade e a autoridade perderam o seu fundamento sistémico e a transacção, o comércio, o trânsito de ambas dentro do social e até do económico e do político deixou de constituir um verdadeiro discurso ou um logos.

Por isso, eu digo que o que define a pós-modernidade, falando especificamente de liberdade [e/ou de autoridade, conceitos tantas vezes invocados e para já não falar de democracia] é a opacidade des/estrutural as/sistémica de todas elas ou, de uma forma mais geral, o desaparecimento, o eclipse nuclear, da ideia de necessidade.

Ora, era [e é!] exactamente a ideia de necessidade aquilo que permite tornar os sistemas e as sociedades realmente democráticos.

A necessidade constitui um verdadeiro pressuposto epistemológico de [passe o pleonasmo: autêntica] democracia.

É como se os mecanismos ascensionais [e, em geral, toda a máquina de “produção de realidade] obedecessem a códigos completamente distintos, diferentes, para cada indivíduo ou grupo de indivíduos---ou classes.
Na verdade, não é “como se”: é [de facto e cada vez mais de direito, também] exactamente assim.

As civilizações infantocratas como a nossa resultaram do esmagamento total dos mecanismos tradicionais de iniciação lógica dos indivíduos no poder.

Eles teorizam sobre os diversos modos de integrar o eclipse da necessidade fazendo deste um logos onde as estruturas não exactamente do acaso [ou não necessariamente do acaso] mas seguramente tão pouco da necessidade tal como filosoficamente a concebemos passaram já a constituir uma forma completamente autónoma extremamente singular e própria de necessidade.

No domínio específico da Pedagogia, o papel da Pedo-psicologia “do sistema” tem sido exactamente esse de tentar lidar a um nível ou num plano epistemológico com a não-necessidade utilizada [in] exactamente como uma forma completamente autónoma de necessidade, tentando arranjar maneiras operativas de reintegrar continuamente as disfunções [uma “autoridade” e/ou uma “liberdade” completamente decapitada dos respectivos fundamentos de episteme cultu[r]al] que o processo inevitavelmente arrasta consigo no próprio tecido de uma realidade que assim se vai continuamente construindo a partir das próprias, contínuas, corrupções e deformações.


[Imagem: worldwidephotos-dot-org]

domingo, 10 de outubro de 2010

"De uma espécie de «função do orgasmo» em Cultura"


Uma coisa que me parece evidente é que se escreve cada vez pior português.


Claro que em torno desta evidência, se podem pôr diversas questões.


Uma dessas questões, começou José Saramago com a auitoridade moral e intrelectual que a sua tripla condição de português, de escritor e de homem do seu [e do nosso!] tempo por levantá-la uma vez em que se referiu a um aspecto dela que é geralmente ignorado ou, pelo menos, frequentemente elidido do debate: o facto de vivermos numa sociedade de imagens.


E, acrescentaria eu, de funções ou de funcionalidades.


Numa sociedade que interiorizou e culturalizou já, em larga medida, as ideias [as... ideações] tipicamente capitalistas de "valor" e de "mercado" integrando-as inclusive no modo estável e tópico de abordar em abstracto a Arte e a Cultura [1], i.e. de uma maneira que desvaloriza objectiva [e também paradoxalmente numa sociedade eminente---embora não educadamente!---sensorializada e erotocêntrica] o peso do "prazer" em favor do da "utilicidade" que é, chamemos-lhe assim, uma "valoração significada" de aspectos particulares da relação do indivíduo com a Cultura apta a converter-se secundária [e geralmente, alienada] mas também facilmente em "mercado"; numa sociedade assim modelada, dizia, é perfeitamente natural que as coisas possuam uma natureza eminentemente in-fixa [exactamente porque não são concebidas em geral para ficar, para permanecer mas, sobretudo, para gerar valor que pode também assumir a forma de uma utilidade que deriva é certo dos objectos; que "vive" nelas mas que é também algo de in/essencialmente isolável ou se quisermos alienável dos objectos como tal] e que elas, de facto, nunca "estejam verdadeiramente em si mesmas" mas, na realidade no valor que quisermos autonomamente atribuir-lhes.


O que eu digo [sem, todavia, me alongar demasiado, neste momento, sobre esta questão] é que, com esse fechamento do capitalismo mental e cultu[r] sobre o "valor da realidade" muito mais do que sobre ela mesma [bastará isso para explicar, juntamente com a de Deus, uma certa morte pós-moderna da Filosofia?] , tornou-se [hoje como no tempo em que Reich, que tinha desta questão uma percepção agudíssima e uma visão em geral muito lúcida e muito esclarecida, desenvolveu a sua teoria do orgasmo como expressão ou atitude eminentemente insurrecionais e mesmo em mais de um sentido revolucionárias]; o que eu digo é que, se hoje pretendermos, ser revolucionários a partir da própria essência mais abstracta do ser revolucionário, temos de começar por devolver aos objectos e ao prazer que é possível derivar da nossa relação indvidual e colectiva com eles [i] o seu estatuto natural de coisa ou coisas em si [Dinge an sich] opondo [ii] mesmo essa "Ding-heit an sich" das coisas e das sensações ao seu uso político alienado, construindo mesmo, em torno dessa perspectiva redentora da realação verdadeiramente livre do Eu com a outricidade objectual toda uma pedagogia e, se quisermos, uma Cultura.


Quando Saramago falava naquela possibilidade de "justificar" o mau uso da língua com uma certa obsolescência objectual das fotrmasc de intelecção e de expressão que prioritariamente a usavam, ele está, a meu ver, na prática, a constatar a existência deste fenómeno de "alienação global significada" que envolve também, de uma foma muitro clara o uso da língua.


A língua, hoje [como a Arte, a Cultura e as próprios indívíduos] "serve [ou servem] para", deixaram todas essas coisas simplesmente de "ser".


Há, pois, uma des-essencialização estável, persistente, das coisas [o que, enquanto expressão particular de um Zeitgeist que nos deu, por exemplo, o "existencialismo", não é necessariamente um mal] cuja re-essencialização sistémica e conjuntural, porém, está longe de possuir o mérito epistemológico e crítico daquelas outras formas intelectualmente nobres de impacto des-essencializador.


Fala-se hoje mal português, pois, em suma, porque o valor da língua---os valores que dela emergem ou podem emergir enquanto projecção consciencial do próprio indivíduo que, desse modo, manifesta perante ela enquanto criação do espírito o respeito que ela lhe merece---foi todo colocado fora dela e para além [jenseits] dela.


Alienado dela.




[1] Um fenómeno a que designo por "translação epistemeoforme" da informação ou do conhecimento]


[Imagem ilustrativa extraída com a devida vénia de photoshopsupport-dot-com]

"Algumas Reflexões Pessoais Em Torno da Morte de Deus" [título experimental/por rever]


Trago hoje aqui um tema que está, em meu entender, por mais de um motivo, na ordem do dia: o da "morte de Deus" cientificamernte decretada por Stephen Hawking numa obra recente.

Eu diria que o tema se encontra na ordem do dia, primeiro porque encontrando-se Deus há muito nessa condição de falecido [a revistas "Time", se bem me lembro, fez capa com o óbito do Criador ainda nadécada 70 do século passado] o que explica eticamente, em última instância, todo o mundo de hoje à nossa volta não podem senão os efeitos práticos, objectivos, materiais dessa realidade.

Não somos hoje, com efeito, em termos sistémicos, i.e. enquanto paradigma civilizacional outra coisa senão um mundo em que a ideia de Deus [se para alguma coisa serviu--no sentido em que preconizava a sua existência secundária, "por necessidade estruturacional", um Voltaire] não foi seguramente para substanciar eticamente um mundo real directa e, sobretudo, necessariamente derivado de si.

Que haja, agora, quem ponha cientificamente a nu a realidade que subjaz a essa, chamemos-lhe "percepção objectuada", de ordem sistémica, só pode, por seu turno, ser entendido como um encontro final---e formal!---de um modelo civilizacional sistemicamente descentral e genesicamente des-igual com a sua própria realidade consciencial natural.

Ou seja: o mundo de hoje aceitou, por fim, segundo esta visão tética que apresento, reconciliar-se com [e assumir, reconhecendo implicitamente a respectiva evidência] a sua própria [sua, dele, mundo] forma, há muito implantada e consagrada, de conscienciar efectivamente os modelos concretos da sua relação tópica com o real.

Daí, o segundo aspecto que pretendia aqui trazer: a ausência de uma reacção que, aqui há cinquenta anos ainda, seria previsivelmente [em certas sociedades europeias, pelo menos] ruidosa que o "decreto de Hawkins" despertou para além de um ou outro teólogo... "avulso" que, ao invés da estrutura oficial de uma igreja [a qual, por sua vez, há muito que tinha já conhecimento directo do conteúdo da "notícia" devido precisamente às suas "fontes" privilegiadas...] achou necessário vir a público obtemperar.

No fundo, com efeito, como nas doenças incuráveis já, toda a gente estava à espera de "uma coisa assim", de uma "nótícia destas": toda a sociedade, toda a sistémica [e, naturalmente, toda a prática] capitalistas o tinham há muito intuído---e, volto a insistir, praticado.

Um terceiro aspecto da questão da questão do "óbito divino" [dava-me jeito recordar ainda, do meu latinório liceal, o modo preciso, com os ablativos e dativos todos no sítio, de dizer isto na idioma de César: dá logo outro sainete e até outra aparente substância à coisa...] prende-se com a constatação inevitável da escassíssima relevância do papel desempenhado pelas elites éticas e, em geral, pelas vanguardas epistemológicas e [a] críticas no "Ocidente" de hoje.

De facto ["if at all"], apenas elas pareceram incomodar-se o que quer que seja com uma notícia que, volto a dizer, aqui há cinquenta/sessenta anos [ou talvez nem tanto...] teria levantado ondas de escândalo e de verdadeiro furor em países e sociedades como a italiana ou a portuguesa.

Todos estaremos ainda recordados, por exemplo, dos "escândalos" "Pato Com Laranja" ou "Je Vous Salue, Marie" [que o jornal "Público" vai agora reeditar em DVD, na... "paz do Senhor" e sem que algum furibundo e quixotesco presidente de Câmara sem mais que fazer se lembre de propor o assalto ao cinema---neste caso à sede do jornal e quem sabe à casa de cada um dos prospectivos compradores do filme]...

Houve o recente "caso Caim/Saramago", é verdade mas aí tratou-se, na realidade e muito simplesmente, de um consabido e persistente furor [ou terror...] anti-comunista sendo que a incidência teológica do "caso" nada mais representou do que o veículo ou o instrumento da demanda/pendência reacionária...

É verdade que no "Diário de Notícias" [de 18.09.10] houve quem viesse a público abordar o tema.

Foi, de resto, daí que eu próprio o extraí como tema para abordá-lo eu mesmo aqui, do artigo de Anselmo Borges intitulado "Hawkins e Deus", ali dado à estampa.

Chamou-me a atenção por isso [por ter sido um dos poucos e veiculando o que me parece ser um ponto-de-vista estritamente pessoal e até assistémico relativamente à, digamos assim, voz oficial da igreja---cujo olhar lançado sobre estas matérias é hoje muito mais total e até projectadamente orgânico] e por ser o reconhecimento implícito da 'irredutibilidade últimativa' do pensar científico relativamente ao pensar "sagrado" [ou---por que não dizê-lo?---efectivamente mítico].

Isto, repito, numa altura em que a via de "moderrnização" seguida pela igreja institucional, vaticana, é [a meu ver erradamente] a da "literalicidade" do "logos teótico" que insiste, se obstina, em [como no inimaginável "caso" do preservativo] lançar a teologia contra a própria ciência evitando que nesta se fundamente e substancie uma ética verdadeiramente necessitária e não-previamente significada [para não dizer: pré- conceituada].

A defesa do carácter apologal e essencial [ou 'essenciantemente'] simbólico do logos bíblico aí apresentada [se bem que constituindo uma via argumentativa longe de estar isenta de escolhos de todo o tipo, como veremos] defendendo uma espécie de logos alternativo "residuante" para o sagrado, destacando-o do científico é, a meu ver, a única via certa para permitir ao sagrado que permaneça possivelmente vivo num mundo como o de hoje.

Já por mais de uma vez o disse, aliás: se quer efectivamente ser mais do que um modo folclórico de organizar a resistência à própria História, o cristianismo, a igreja no Ocidente, tem de renunciar de vez a constituir senão uma teoria da realidade pelo menos uma explicação cabal para ela.

Tem de recuperar [tem de investir, um termo particularmente caro ao léxico e à semântica sistémicos dos nossos dias] o seu caráctrer humanizador em abstracto e reintegrá-lo na História de forma [eu diria:] infinitamente mais assistémica e «independente» do que aquilo que tem consistentemente feito até aqui, em que, em vez de operar como uma consciência ética autónoma do sistema, ela se posicionou sempre [e posicionou, em geral, o conteúdo do seu logos próprio] como uma justificação pontual, minuciosa, desse mesmo sistema---como o assustador [e, sob muitos aspectos, tenebroso!] consulado do anterior Papa demonstrou à saciedade.

O nosso tempo precisa de contrapartes morais independentes [como o de Voltaire, que já assim pensava, no seu próprio século] e isso pode, em tese, justificar a criação e o estabelecimento de um Deus, salvando-o, desse modo, de uma "morte de Hawkins" como aquela que agora sofreu.
Tornando-a argumentativa e menos... definitiva, em qualquer caso.

A morte de Deus é uma morte epistemológica [um caso ontológico] mas poderia ser [como no pensamento iniciático, por exemplo] o começo de uma nova existência, nas mãos [e no esclarecimento, na---todavia, menifestamente inábil e até inexistente---lucidez, na---dificilmente provável, porém---sensibilidade civilizacional ou civilizacionante] de um outro papado e de "uma outra" igreja.

Anselmo Borges di-lo---reconhece-o---abertamente qualquer coisa que pode, talvez, ser assim formulada: é preciso poupar Deus à humilhação e ao embaraço mas, sobretudo, ao risco de ter de demonstrar-se.

Concordo: deixemos esse trabalho para as chamadas 'ciências'.

O sagrado não tem [não pode ter] uma lógica de ciencialidade e/ou de cienciação.

Possui uma i/lógica de organização das anteriores mas tem de buscar o seu fundamento fora da mesma demonstrabilidade delas.

Tem de assumir-se como uma Filosofia---que é, no fundo, o que faz o autor de "Hawkins e Deus" quando se propõe retirar formalmente Deus daquela necessidade que eu há pouco referia de demonstrar-se.

A demonstração de Deus, de um Deus para o nosso tempo, tem de ser ética e não onto-metafísica.

Deus tem de ser hoje um imperativo moral, não-kantiano nesse sentido, de algum modo, naturalmente imperativo e, no fundo, intrinsecamente necessitário que lhe atribui o autor das "Críticas" mas um imperativo de reflexionalidade moral e humana, humanitária.

Um dado mental e crítico reflexional e épico, no sentido específico que Brecht atribuíu ao termo.

Tem de perder a transcendência revelacional a fim de ganhar a sua própria transcendentalicidade consciencial e crítica.


A este Deus não precisa [não podendo] a ciência demonstrar: tem de fazê-lo o que nos homens está acima da maioria dos animais...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"Pride, Prejudice & the Mechanics of Progress"


Sem querer parecer [e ainda menos, ser!] retórico, diria que é cada vez mais firme convicção pessoal minha que grande parte do que entendemos serem as grandes "conquistas" civilizacionais se deve muito mais a vitórias arduamente obtidas pelos indivíduos e pelas sociedades por eles constituidas sobre os seus próprios pré-juízos e 'fantasmas' interiores [mentais, conceptuais, etc.] de toda a espécie do que propriamente aos que, indivíduos e sociedades humanas, julgamos ter conseguido vencer, com muita frequência pela força, nos outros.

Dou três exemplos que, um pouco ao acaso, me chegaram recentemente.

O primeiro tem a ver com feminismo e vem de uma obra de Joel Serrão ["Da Situação da Mulher Portuguesa no Século XIX", ed. Livros Horizonte, col. Horizonte, nº 48, Lisboa, 1987].

Na obra em causa, se debruça, como o próprio título expressa, Joel Serrão sobre a obra da pedagoga e estudiosa Maria Amália Vaz sde Carvalho, e diz textualmente:


[...] segundo pensava, a mulher "nunca será um funcionário pontual, nem um magistrado íntegro e inexorável, nem um operador de execução firme e rápida, nem um médico, nem um legislador.

Os que pretendem", insiste, "persuadir-lhe que exijka eses privilégios masculinos detestam-na, e querem perdê-la irremediavelmente". "E porquê essa condenação eterna ao limbo da secundaridade? Bem...É melhor voltar a conceder a palavra à escritora:

"A vida psíquica [da mulher] é periodicamente e crudelissimamente perturbada pelas crises da sua vida fisiológica. Eis o mistério sagrado e doloroso, que, revelado, dá a chave de todas as suas contradições e de todos os seus errros".


É preciso dizer que esta visão inescondivelmente positivista e materialista da realidade que hoje não pode, repito, deixar de causar estranheza e mesmo, no imediasto, algum reconhecível [e entendível] desconforto intelectual e crítico, possui, mau grado isso, uma relevância dialéctica específica que seria leviano ignorar---isto na medida em que, exactamente porque a História [e dentro dela a cultura são como os "caminhos" de Machado, isto é, antes de mais "estelas en la mar" sendo que não existem verdadeiramente caminhos, fazendo-se na realidade caminho "a andar"] ela, visão positivista, representou, na realidade, em si mesma, um avanço considerável sobre as formas de pensamento providencialista e transcendentalista e, por isso, disfuncionalmente "finalicista", que, de um modo global, influenciaram as formas tópicas de representação da realidade que antecederam a emergência do positivismo no século XIX europeu e deram origem a muitas das visões "metalinguísticas da História" que ainda hoje, aqui e ali tendem, apesar de tudo, a perdurar.


Lido o texto de Maria Amália Vaz de Carvalho, hoje, é, com efeito, quase irresistível a tentação de questionar instintivamente: Maria Amália Vaz de Carvalho, cujo nome foi escolhido para a designação de um dos mais prestigiados liceus femininos da capital lisboeta um caso de... machismo?

Obviamente, a esposa [e depois jovem viúva] do poeta Gonçalves Crespo foi, na visão que teve da Mulher, um fruto natural das concepções do seu tempo em matéria de identidade [e/ou de estrutura biológica] de género [e até, em termos mais amplos, de condição humana] que teve---necessariamente, de resto---de fazer passar para a sua importante obra de pedagoga e educadora.

Está, por conseguinte, de um modo muito claro, longe de constituir propósito de quem aqui a cita proceder a qualquer absurdo 'julgamento' a posteriori das ideias de Maria Amália Vaz de Carvalho [aqui contidas na obra "Cartas a Luisa"] mas tão somente demonstrar o caminho que foi preciso percorrer até se alcançar o quadro de igualdade [formal, pelo menos: efectiva, é outra coisa...]

Exactamente ao contrário [quero voltar a sublinhar isto de modo muito claro, muito particular e muito terminante] para o tipo de abordagem marxista do real e especificamente da História que pretendo que seja em todos os casos a que de qualquer delas faço, nada do que sucede no tempo [no tempo político, no tempo cultural, no tempo social, no tempo civilizacional] é organicamente dissociável desse mesmo tempo em que ocorre, num processo contínuo de interacção dialéctica onde toda a realidade "é feita", é construida e é enviada [sempre inevitavelmente... por construir] para o futuro onde o processo prossegue sempre, tão activa quanto ininterrupta e sempre organicamente.

Aquilo que aqui moveu a transcrição do texto de Joel Serrão incluindo nele a citação de Maria Amália Vaz de Carvalho foi, pois, precisamente dentro dessa linha dialéctica e sempre escrupulosamente dialectizadora da abordagem da matéria histórica, evidenciar como a modernização formal do País, nesta como em diversas outras matérias, é antes de mais um processo recentíssimo, não sendo por isso, no fundo, de estranhar, como também escrevi, que muitos dos fantasmas e dos espectros cultu[r]ais que cada um de nós foi tendo de eliminar e enterrar definitivamente no curso deste último século em inúmeros domínios e matérias constantes da nossa existência histórica e mental ou cultural comum persistam teimosamente em reapresentar-se de forma recorrente à nossa vivência inconsciente [mas, não-raro, perfeitamente consciente, também!] colectiva ainda hoje e em muitos casos sem que disso [e do que isso pode em termos práticos significar] nos demos verdadeira conta.

Mas porque falei em Marx e porque o autor de "Das Kapital" representa assumidamente para mim um referencial estável de concepcionação das realidade, devo dizer que nem o própruio Marx estará possivelmente inocente de pré-juizo e meras convicções [ou "conviccionações" passando correntemente por juizos objectivos e sempre objectualmente argumentáveis .

É, pelo menos, essa a persuasão de Jean Barrué que, em "Bakunine e os «Anais Franco-Alemães» (1843)" escreve : "Bakunine pan-eslavista? Marx pan-germanista? São fórmulas de polémica exageradas ou caluniosas. Digamos que Marx era ferozmente anti-eslavo [artigos de «Nouvelle gazette rhénane» em 1848-1849, são testemunho); mas digamos também que Bakunine foi várias vezes anti-alemão.

O seu ódio ao pan-geramanismo, ao Estado e ao militarismo prussianos, estendeu-o ao povo alemão em geral, ou utilizou fórmulas, por vezes, confusas. Na «Confissão», fala com complacência do ódio natural do eslavo ao alemão"


[Cf. Jean Barrué, "O Anarquismo Hoje", trad. port. de José Gabriel, ed. port. Assírio & Alvim, Cadernos Peninsulares, nova série, nº 17, Lisboa 1976]

[Na imagem: Capa da edição original de "Pride and Prejudice and Zombies" de SethGrahame- Smithe]