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terça-feira, 3 de maio de 2011

"Epitáfio para um Guerreiro Árabe Assassinado"

[...] tumba

Sê amável com a nobreza
Que aqui te vai confiada.
Que as taciturnas núvens
Te cerquem entre raios e trovões,
Chorando por seu irmão,
Que agasalhaste da chuva,
Sob esta laje tão larga,
Com lágrimas matinais e vespertinas.
Até as gotas do orvalho te choram
Derramando-se dos astros
Que te não deram sorte.
Para sempre a bênção de Alá
Sobre a tua sepultura

************* Incontáveis vezes

Para sempre!






[Al-Mu-Tamide, poeta arábigo-andaluz do século XI nascido em Beja , trad. port. Adalberto Alves ]






terça-feira, 1 de junho de 2010

"Lenore Kandel [1932-2009]"


É uma das poetas mais ousadas e estimulantes dos "filhos de Rimbaud e Baudelaire" que se juntaram temporal e cultu[r]almente na chamada geração "beat".

A sua Poesia cruza, por vezes---de uma forma "larga" e aparentemente casual, evocando, muitas vezes, o haiku na tentativa muito... "simbolista" de ir poeticamente ao encontro de toda uma hipótese de "metafísica por absurdo" [que se encontra objectivamente configurada no projecto poético consistente em achar formas organicamente textualizadas de isolar e aprisionar o instante mágico e secreto, irrepetível, dentro do delicadíssimo arco da experiência sensorial na palavra]---o erotismo ousadamente assumido com uma espécie de reflexão existencial implícita e difusa, "translúcida", que a situa naturalmente num tempo e num espaço americanos muito próprios e característicos.

Desta Autora, recentemente falecida, reproduzo aqui três textos traduzidos por Manuel de Seabra que ilustram estes aspectos:


NOTA DE ANATOMIA

a mão é uma flor
o espaço move a mão por áreas de tempo
o gesto
floresce e morre

CANÇÃO DE JÚBILO

O meu amado maneja o seu sexo
como um beija-flor
equilibrado na delicada orla

Que prazer ser uma planta de mel
e
abrir-me

AMOR NO MEIO DO AR

AGARRA-ME!
Amo-te, confio em ti,
AGARRA-ME!
agarra o meu pé esquerdo, o meu pé
direito, a minha mão!
aqui estou eu pendurada pelos dentes
90 metros acima, no ar, e
AGARRA-ME!
aqui vou eu, voando sem asas, sem pára-quedas, fazendo um dupla tripla
super-cambalhota salto mortal
AQUI MESMO SEM
REDE E
AGARRA-ME!
agarraste-me!
amo-te!

agora é a tua vez

quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Parting Words"

Ei! Sorria…
Mas não se esconda atrás desse sorriso…
Mostre aquilo que é, sem medo.
Existem pessoas que sonham com o seu sorriso como eu.
Viva!
Tente!
A vida não passa de uma tentativa.
Ei! Ame acima de tudo, ame a tudo e a todos.
Não feche os olhos para a sujeira do mundo, não ignore a fome!
Esqueça a bomba, mas antes, faça algo para combatê-la, mesmo que se sinta incapaz.
Procure o que há de bom em tudo e em todos.
Não faça dos defeitos uma distância, e sim, uma aproximação.
Aceite!
Aceite a vida, as pessoas, inclusive faça delas a sua razão de viver.
Entenda! Entenda as pessoas que pensam de modo diferente do seu, não as reprove nem rejeite.
Ei! Olhe… Olhe em seu redor, quantos amigos…
Você já tornou alguém feliz hoje?
Ou fez alguém sofrer com o seu egoí­smo?
Ei! Não corra.
Para que tanta pressa?
Corra apenas para dentro de você mesma.
Sonhe!
Mas não prejudique ninguém e não transforme, em caso algum, o seu sonho em fuga.
Acredite!
Espere!
Haverá sempre uma saí­da, brilhará sempre uma estrela.
Chore!
Lute!
Faça aquilo de que gosta, sinta o que há dentro de você.
Ei! Ouça…
Escute o que as outras pessoas têm a dizer, é importante.
Suba… faça dos obstáculos degraus para aquilo que você acha que é preciso fazer mas não se esqueça daqueles que não conseguem subir a escada da vida.
Ei! Descubra! Descubra aquilo que há de bom dentro de você.
Procure acima de tudo ser gente, eu também vou tentar.
Ei! Você… não vá embora.
Eu preciso de lhe dizer-lhe que a adoro, simplesmente porque você existe!

http://www.youtube.com/watch?v=qE2oLDL-1aI

Charles Spencer Chaplin
[Imagem ilustrativa extraída com vénia de paulobraccini-dot-filosofo-dot-blogspot-dot-com]

terça-feira, 21 de outubro de 2008

"The House of Solomon"


O deão Swift conhecia o Portugal pós-moderno saído das infaustas eleições de "não-sei-quantos" que nos puseram no estado social, cultural e político em que em nos encontramos hoje?

Se conhecia (ou se foi capaz de prever) qualquer dessas calamidades civilizacionais a que temos o extaordinário costume de chamar "políticos", não sei; agora que tem todo o ar disso, ai, isso tem!...

Senão, vejamos os seguintes excertos da terceira parte de "Gulliver's Travels" onde se evocam (e se satirizam convenientemente...) os brilhantes "iluminados" que, pelos vistos, em toda a parte e em todos os tempos se dedicam (se me é permitida a---humildemente o reconheço ---extrema vulgaridade da imagética...) "baixam periodicamente as calções" (expondo e activando, assim, de passo, a única parte do corpo com que são capazes de simular o acto ou actos de pensar...) para emitirem os brilhantes "juízos teóricos sobre a realidade" com que se empenham em martitirizar sociedades inteiras a eles por desgraça (melhor dizendo: por exclusivo efeito da imensa, insondável ignorância destas) submetidas:


"I had hitherto seen only one side of the academy, the other being appropriated to the advancers of speculative learning, of whom I shall say something when I have mentioned one illustrious person more, who is called (...) the universal artist. He told us he had been thirty years employing his thoughts for the improvement of human life. He had two large rooms full of wonderful curiosities, and fifty men at work. Some were condensing air into a dry tangible substance, by extracting the nitre, and softening marble for pillows and pin-cushions; others, petrifying the hoofs of a living horse to preserve them from foundering. The artist himself was at that time busy upon two great designs; the first, to sow land with chaff, wherein he affirmed the true seminal virtue to be contained, as he demonstrated by several experiments which I was not skilful enough to comprehend. The other was, by a certain composition of gums, minerals, and vegetables otwardly applied, to prevent the growth of wool upon two lambs; and he hoped in a reasonable time to propagate the breed of naked sheep all over the kingdom."


Com umas quantas (pequeníssimas) alterações de circunstância possuiremos, por exemplo, uma imagem espantosamente nítida de um certo tipo de "inteligente" ou mesmo "génio de carreira" que continua, hoje-por-hoje, imperturbável, indiferente a revoluções e democracias, a infestar os nossos iluminados ministérios---a começar por esse espantoso mártir da mediocridade dos políticos que é o da (chamada) Educação.

...da chamada "Educação" onde aparentemente pilhas e pilhas destes "especialistas em bizarrias e swifteanas inanidades" de todo o género conspiram afanosamente para tornar a Educação impossível e ensinar um luxo que não podemos de todo permitir-nos...

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Já agora, para completar este ponto da "Antologia" que aqui me proponho reunir ("agora" quer dizer: nestes estranhos tempos de neo-liBERAlismo "social" que todos os dias "deita alegremente fora" um lote inteiro de "professores usados", isto é, dos poucos que ainda vão sabendo "qualquer coisinha"); já agora, dizia, porque não completar, então, este ponto da "Antologia" com esta eloquente descrição do "professor rodrigueano tipo", o único apto a suportar a selvajaria epistemológica e profissional característica destes neo-modernos tempos de pós-História e trans-política...


"The first professor I saw was in a very large room, with forty pupils about him. After salutation, observing me to look earnestly upon a frame, which took up the greatest part of both the length and the breadth of the room, he said perhaps I might wonder to see him employed in a project for improving speculative knoeledge by practical and mechanical operations. But the world would soon be sensible to its usefulness, and he flattered himself that a more noble exalted thought never sprang in any other man's head. Every one knew how laborious the usual method is of attaining to arts and sciences; whereas by his contrivance the most ignorant person at a reasonable charge, and a little bodily labour, may write books ion philosophy, poetry, politics, law, mathematics, and theology, without the least assistance from genius or study. He the led me to the frame, about the sides whereof all his pupils stood in ranks. It was twenty foot square, placed in the middle of the room. The superficies was composed of several bits of wood, about the bigness of a die, but some larger than others. They were all linked together by slender wires. These bits of wood were covered on every square with paper pasted on them, and on these papers were written all the words of their language, in their several moods, tenses, and declensions, but without any order. the professor then desired me to observe, for he was going to set his engine at work. The pupils at his command took each of them hold of an iron handle, whereof there were forty fixed round the edges of the frame, and giving them a sudden turn, the whle disposition of the words was entirely changed. He then commanded six and thirty of the lads to read the several lines softly as they appeared upon the frame; and where they found three ou four words together that might be part of a sentence, they dictated to the four remaining boys who were scribes. This work was repeated three or four times, and at every turn the engine was so contrived that the words shifted into new places, as the square bits of wood moved upside down.
Six hours a day the young students were employed in this labour, and the professor shoed me several volumes in large folio already collected, of broken sentences, which he intended to piece together, and out of those rich materials to give the world a complete body of all arts and sciences; which, however, might still be improved, and much expedited, if the public would raise a fund for making and employing five hundred such frames in Lagado, and oblige the managers to contribute in common their several collections."

O acaso é, de facto, o grande mestre dos mediocres?

A mediocridade, a inteligência dos ineptos e dos social e politicamente--dos historicamente---inúteis?

Com certeza mas já nem sequer isso tem o mérito da novidade: Swift já o havia descoberto há três ou quatro séculos por tantos lugares por quantos andou.

De Lagado a Laputa.


"And back again"...
Jonathan Swift

terça-feira, 30 de setembro de 2008

ANTOLOGIA 1: "Um país de imigração, de Paulo Portas e do Dr. Cavaco"


Portugal, o Portugal "tecnologicamente basbaque", desesperadamente campónio do Sr. Sócrates (que o Dr. Portas quer "social e nacionalmente incontaminado" ou para aí e onde o dr. Cavaco acha que vive uma "raça"...); o "Portugal-feira-cabisbaixa" de "saca-de-orelhas" ao lombo (para utilizar as saborosas expressões do O' Neill) gosta, hoje-por-hoje, de se "armar cultu(r)al e sociologicamente em parvo", acreditando, por exemplo, parecer mais importante quando desdenha (de preferência, tão ruidosamente quanto possível!...) dos imigrantes.

Sendo um país que, ainda hoje, para não sossobrar de vez tem de exportar regularmente cidadãos para as sete partes do mundo, é caso para dizer que sobra em descoco o que lhe falta em esclarecimento, em memória (ainda não há muito se arrastava, atolado em porcaria até aos joelhos por tudo quanto era "bidonville" e "banliena" parisiente...) e, sobretudo, em humanidade.

No âmbito da "Semana do Diálogo Social", vamos passar, juntamente com um clássico absoluto de Chaplin ("The Immigrant") um filme, de Alain Jessua, uma alegoria terrível com a malograda Girardot e esse belo canastrão do Delon, onde os emigrantes portugueses em França são simbolicamente sangrados (no filme são realmente sangrados!...) para extracção das glândulas (das quais é fabricada, no filme, uma espécie de soro da juventude, adquirido, depois, a preço de ouro pela alta burguesia francesa...)

Hoje-por-hoje são as perseguições na Irlanda ou a desenfreada exploração na Holanda: mudam os lugares, permanece tragicamente desgraça...

Lembrando essa terrível época (que, de resto, conheci de perto, naquele acidentado início da década de '70) trago hoje aqui, para uma "antologia" pessoal que agora se inicia, um texto de "Max et les Ferrailleurs", um policial de Claude Neron, editado nos "Livres de Poche" onde se fala justamente de um "bidonville" à portuguesa:

Bidonville de Nanterre



"(...) et vous verrez les bidonville des Portugais, en carton, et il vous ferra tout visiter Jésus, seulement faites attention qu'il ne tombe pas, et quand il tombe il s'endort, et vous ne pourrez plus retrouver les portes de la Misère pour vous en aller, et il ne faut pas que Jésus tombe, et il vous emmènera, et vous verrez le bidonville des Algeriens et c'est pas mal non plus, mais eux ce n'est pas en carton, ils préfèrent la brique creuse mais des fois ils oublient de mettre le toit, alors ils tendent cette bâche, et quand il pleut cela fait toujours une réserve d'eau (...)".



Bidonville de Noisy


Esclarecedora imagem, sem dúvida, esta de uma época em que África (uma certa imagem fortemente "colonial" de África...) começava de facto nos Pirinéus...

Recordo-me, aliás, de em Bruxelas, me terem um dia perguntado se eu era árabe.

Quando esclareci que não, que era português, o meu interlocutor (com o ar característico de quem 'não se enganou, afinal, por muitos'...) mundo comentou: "Ah bon mais c' ést à peu prés la même chose, non?..."


Claude Neron e Alain Jessua (entre tantos outros) achavam, seguramente, que sim...

Fotograma de "Traitement de Choc" de Alain Jessua