domingo, 21 de dezembro de 2008

Oliveira e Beckett, algumas notas de "leituração" pessoal


Noutro ponto deste "Diário" refiro que há muito me parece existir uma espécie de subtil traço de união ligando, de algum modo, o Cinema de Manoel de Oliveira ao Teatro de Beckett.
Anoto, agora, duas possibilidades do modo ou modos que pode assumir essa associação ou essa proximidade recordando, desde logo, o uso que Oliveira expressamente faz de uma longa citação do criador de Godot ("Pour Finir Encore Et Autres Foirades" na banda sonora de "O Meu Caso").

a) a descida de tom escatologizante.

No fundo, tanto Oliveira como Beckett manifestam nas respectivas obras, com o que entendo ser característica recorrência, uma espécie de persistente, distintivo, pudor relativamente a (como dizer?) um excesso de convicção ou mesmo, no caso específico de Oliveira, de no modo como abordam genericamente a realidade (metafísica, ontológica, etc.)

Ora, eu creio que é nesse pudor ou mesmo (porque não?) nesse distintivo sinal de (como poderia muito pessoanamente dizer Pessoa...) esclarecido cinicismo que mais obviamente se evidencia a 'dolorosa inteligência da realidade' que, de algum modo, é possível afirmar que caracteriza (de modos objectualmente distintos, é verdade) a obra de cada um deles.

Oliveira assume a postura em causa, a meu ver, em diversos momentos, via Buñuel--o que fica particularmente evidente em obras como esse belíssim' "O Espelho Mágico", um texto cinematográfico do criador de "Vale Abraão" que é, em meu entender, possivelmente a "coisa" mais (inconscientemente?) buñueliana por ele feita.

Devo dizer que em Buñuel eu, pessoalmente, valoro o existencialmente trágico instinto (auto?) des-sacralizador, isto é, a presença obsessiva, obsidiante mesmo, e inquieta, angustiada, da iconoclasia, algo que um filme como "Belle de Jour", a meu ver, epitomiza de modo cinematográfica e mesmo, de certo modo, cultu(r)almente definitivo, digamos assim.

A luta 'contra a inexistência de Deus' pelo "dever" incumprido de Ele existir (algo que Buñuel obviamente nunca conseguiu perdoar completamente ao Criador) e, num plano mais imediato, o ressentimento (não! O, às vezes sobretudo, estética e narrativamente violentíssimo rancor!) para com este e em geral para com a impertinência e os "excessos de Beleza" ironicamente incrustados na sua (não) Criação que daí deriva...

Por outras palavras: o drama da fé que se quer possuir mas que é, na realidade, completamente impossível sentir, experimentar--e o convulsivo rancor que tal impossibilidade causa na consciência e que se revela, desde logo, na nossa amarga, frustrante, experienciação das avulsas 'cintilações para- ou epi-divinas' que a realidade, na nossa relação inevitável com ela, nos vai dando.

Por outras palavras ainda: o ódio que se experimenta também por si mesmo em consequência de tal impossibilidade: "Tristana", do criador de "Un Chien Andalou", sendo um "retrato" microcósmico da Espanha que Machado descreveu de modo clássico como "de charanga e pandereta, de cerrado y sacristia, de espirito burlón y de alma quieta" (sobretudo "de alma quieta" e obstinadamente enamorada da sua própria abjecção e, no fundo, do seu próprio suicídio) é, também, em última instância ("en fin de partie", para re/utilizar significadamente uma expressão muito becketiana...) um filme sobre a revolta camusiana conta o "silêncio" obstinado--obstinado e cruel, perverso--de um Deus que "nos martiriza regularmente com a Perfeição" que é Sua sombra ou o seu reflexo platonianos, nunca fixados, todavia, num 'objecto' preciso, autonomamente descritível e, por conseguinte, solidamente identificável.

Em "O Espelho Mágico", Oliveira trabalha minuciosamente com (digamos assim:) constantes e... "estratégicos" anti-símbolos da 'própria convencional (ou convencionada) perfeição' (o seu modo de introduzir no discurso a "quebra de tom para-escatologizante" de que atrás falo) numa vasta gama que vai desde a ideia de fazer do (ex) presidiário o herói (e vice versa: do herói um ex-presidiário) até à ideia básica de transformar a "aparição" da virgem em torno da qual gira todo o temário do filme (a presença do sagrado no mundo?) num jogo de burlões (Deus mediado--ou mesmo Deus simbologicamente substituído--por vigaristas que são quem no filme, de facto, "manda a Virgem à Terra" e, em última instância se pode dizer que são quem "comanda a (não) aparição" (do não-facto) em torno do qual, repito, todo ele gira.

É certo que a mensagem (a "bottom line") do filme é que "todos os homens são, na sua insondável mas estr(e)ita humanicidade, respeitáveis" mas são-no, sobretudo, porque se obstinam em acreditar, não necessariamente por esse seu acreditar ter verdadeiro fundamento e autêntica substância. Por cada uma dessas coisas ser algo objectualmente demonstrável, digamos assim.

Tal como em Beckett (que leva constantemente esta pulsão escatologizante até ao paroxismo); Beckett para quem vivemos todos como espécie num "pântano" (senão mesmo, admissivelmente, numa "esterqueira", numa "latrina") "verticais", num "boghill" , também (com outra "discrição" e outro "recato narrativo" ou "narracional") em Oliveira damos connosco volta-e-meia de frente com o reflexo-no-espelho (no espelho 'mágico' que é, afinal, toda a "realidade em volta") da própria ideia implícita, apriorística, acrítica, de sagrado.
Este, pois, a meu ver, um ponto genericamente comum na Obra de ambos os autores.

Outro é:

b) a possibilidade tética, "teórica" de a realidade, o próprio mundo, em última instância, não existirem.

Uma obra como "All That Fall", por exemplo, é, no fundo, toda ela sobre gente e coisas que nunca existiram ou existirão--a começar pelas próprias "personagens" como tal, às quais o Autor deliberadamente mutilou ou amputou, des-integrou, dos respectivos inexistentes, imateriais, corpos.

Ora, em tese não por acaso, se "O Espelho Mágico" era um filme sobre uma "aparição" que nunca se concretiza, que inexiste como facto, um outro filme como "O Meu Caso" é-o sobre uma peça que nunca chega, ela mesma, a ser.

Esta ideia de que, "se calhar afinal o real não existe, não passa de uma suposição teórica que é preciso re/construir pacientemente a partir do nada" constitui, a meu ver, um segundo traço ligando entre si a obra de dois dos mais estimulantes artistas/narradores da contemporaneidade.

Aos nomes e à obra destes junto (tentando eu própro des-sacralizar um pouco a (im?) possível 'solenidade hermenêutica' destas notas...) o nome de Arkadi Avertchenko, um dos meus autores de referência, criador de um interesantíssimo "Um Filósofo Original", onde este mesmo tipo de berkeleyana "hipotética" ou idealística teorização (tratando-se em todos estes casos, de uma "teorética" ou de uma "teorização"... "em exercício") aparece dada como um divertidíssimo episódio do pícaro quotidiano de dois preguiçosos, impagáveis, foliões.

1 comentário:

Edimara Lisboa disse...

Sobre a segunda aproximação que você faz, acho que se pode exemplificar também com uma fala do soldado Manuel (Diogo Dória) em "Non, ou a vã glória de mandar": "É loucura, eu sei, mas às vezes penso que o universo e a humanidade não são mais que uma fuga da imaginação de Deus". O ponto de vista do soldado Manuel na conversa filosófica de Non, penso, é o ponto de vista do próprio Manoel de Oliveira sobre àquelas questões. Há um dado momento dizem-lhe: "Desculpa lá, Furriel Manuel, mas fazia de ti uma pessoa mais positiva", ao que ele responde: "As aparências enganam"