domingo, 27 de dezembro de 2009

William Somerset Maugham e “Of Human Bondage” [Text in the making]



Uma crítica de Helena Vasconcelos a “Of Human Bondage” de Maugham no “Público” de 24.12.09 [Cf. “Público”, ed. 24.12.09, sup. “”ípsilon”, texto intitulado “O Sentido da Vida”] traz consigo para mim memórias antigas [os “meus” primeiros amores literários, as minhas primeiras descobertas e 'arrebatamentos textuais'—e cinematográficos—espontâneos, realmente livres—e até, em determinados casos, mais ou menos claramente transgressores: Greene—“O Terceiro Homem”, “O Nosso Agente em Havana” na belíssima edição da “Ulisseia;O Americano Tranquilo”, comprado em segunda mão igualmente na edição da “Ulisseia” no Hipólito da calçada da Glória; Hemingway e “Fiesta.O Adeus Às Armas”, oferecido num inesquecível dia de anos.
E também Jennifer Jones e Rock Hudson, no—muito mauzinho, aliás...—filme do King baseado no clássico do “velho Hem”, remake de um outro com o 'Coop' e Helen Hayes nos papéis principais—Orson Wells, Joseph Cotten e a Valli na versão cinematográfica d' “O Terceiro Homem” do Carol Reed; Alec Guinness e “O Nosso Agente em Havana” cinematográfico.
E, claro, Maugham.
Durante muito tempo, Maugham e, sobretudo, o seu “Creatures of Circumstance”—“Encontros de Acaso”, na versão portuguesa, como não podia deixar de ser da “Ulisseia”...—foi, para mim, uma referência “absoluta” que tentei, mil vezes, imitar em longos e infindáveis “ensaios de escrita” que invariavelmente terminavam antes de se tornar sequer claro de que tratavam...
Claro que “Creatures of Circumstance” nem sequer é [está longe de ser!] o melhor Maugham.
Esse está, claro, sabê-lo-ia posteriormente neste “Of Human Bondage” e em “Razor's Edge”, por exemplo—embora eu tivesse mantido por “The Confidential Agent” na edição da “Miniatura” uma relação de deslumbrada atracção [e mesmo, em mais de um sentido, de quase “dependência...] que nunca chegou, aliás, até hoje, a esmorecer e muito menos a desvanecer-se por completo...
Havia, voltando a Maugham, naquele “Creatures...” [eu, pelo menos, pensava que havia...] uma vaga, remota, atmosfera global, quase visível [e seguramente experimentável ou indirectamente experienciável através da leitura] de subtil mas, também, de um sobriamente silencioso desespero muito delicadamente sugerido nas entrelinhas que me impressionou extraordinariamente; era uma espécie de digníssima sugestão de um “estoicismo existencial” geral e difuso—ou de decadência generalizada e inelutável, fatal que, embora, como digo, não nos fosse abertamente revelada, era [para mim, pelo menos, repito] perceptível na atmosfera e nos gestos indisfarçavelmente cépticos—sofisticadamente cépticos e fatigados—daquela gente que um império já claramente condenado a desaparecer atirara para os confins do mundo, quase para fora do planeta; uma decadência, porém, digna e corajosamente vivida [e mudamente assumida!] por todos aqueles “drifters” ou “párias” de luxo; convertida mesmo, com uma trágica e estóica sobriedade, por esses mesmos obstinadamente dignos “párias”, numa “cultura” comum, completamente inexprimível por palavras cuja essência estivesse, em última instância, na partilha, precisamente muda e já reconhecivelmente resignada, de uma espera colectiva da morte impendente.
Como se todos soubessem, com efeito, que o fim estava próximo mas uma espécie de fundo e ingente decoro existencial, individual e colectiva, lhes vedasse qualquer alusão directa a ele; como se todos soubesem que a viagem de que as narrativas falavam não fosse, de facto, para lado nenhum e esse “lado nenhum” final o fosse tanto dos indivíduos como do mundo [colonial, genericamente cultu(r)al, etc.] a que [talvez, afinal, nenhum deles...] pertencesse já, na realidade.
Era, repito, isto que eu via [ou queria ver] num autor que, com grande 'generosidade crítica' [fruto, sobretudo, do cru deslumbramento com a palavra escrita que sempre marcou a minha relação pessoal com o mundo] comparava a Fitzgerald [de que li “The Great Gatsby” numa, para mim, fabulosa edição da “Portugália” com—um longo—prefácio do Rodrigues Miguéis] e que me evocava, cumulativamente, por exemplo, aqueles prodigiosamente fascinatórios destroços da “lost generation”—esses “exhiles”, como titulou Joyce que, para mim [desde que vi “The Sun Also Rises” no cinema, na versão do Henry King com o Tyrone Power já na curva descendente da vida e da carreira; a Ava Gardner, esse prodigioso arquétipo de perfeição feminina e, até, humana, em geral e um incrivelmente envelhecido Erroll Flynn] passou definitivamente a ter o rosto seco mas prodigiosamente impressivo de Mel Ferrer que, desempenhando o papel de André Bolkonski, em “Guerra e Paz”, de outro, King, Vidor este, me “impusera” [quase literalmente!] a urgência de ler a Obra do próprio Tolstoi, numa maciça edição que ainda guardo da “Inquérito”...
Of Human Bondage”, regressando expressamente a ele, era, porém, excessivamente complexo, para mim, à época e, como é óbvio, nem o entendi nem o apreciei por aí além.
Helena Vasconcelos vem, agora, numa curta mas consistente e esclarecedora abordagem dele, ajudar o leitor mais jovem [para quem Maugham será, hoje, sobretudo, uma figura do passado e provavelmente de todo desconhecido] a contextualizá-lo—e até a situá-lo, em termos do valor literário intrínseco, próprio—relativamente a alguns dos respectivos [verdadeiramente grandes] contemporâneos, designadamente Lawrence, Joyce e o já citado F.S. Fitzgerald.
Do filme [de que tenho, alías uma versão cinematográfica apenas moderadamente tolerável e tematicamente muito distante do original, com Bette Davis e Leslie Howard] relevo, sobretudo, a sublimação, a 'encriptada' projecção ficcional da homossexualidade do autor que [e, aqui reside, a meu ver, aliás, o seu interesse possivelmente maior] sobre ela “discorre” figuradamente intelectualizando-o e “fechando-a” no que admito poder constituir uma espécie de 'jogo fabular' próprio a que liga, de forma argumentativamente dsem dúvida hábil, a proposta de contenção existencial de Spinoza de cuja obra, como recorda Helena Vasconcelos, provém tambérm o próprio título do livro.
Não por acaso, a figura de 'Mildred', a figura que protagoniza directamente [e, sobretudo, que, num certo sentido muito evidente, de resto, no livro, manipula] o masoquismo figuradamente auto-punitivo e projectivamente expiatório de 'Philip' é [recorro aqui à descrição que dela faz Helena Vasconcelos] um ser “andógino, sem peito, magro, destituído de atractivos femininos, tanto físicos como morais [...]”.
Há, a meu ver, com efeito uma des-sexualização equívoca mas não gratuita da figura que atormenta 'Philip' ao longo do livro, des-sexualização essa na qual se esconde/expõe o objecto da atracção erótica de Maugham, deixado, desse modo, significativamente num limbo identitário equívoco que reflecte, ficcional/simbolicamente as hesitações da própria identidade sexual de Maugham.
Maugham que recorre a Spinoza para racionalizar a pulsão auto-punitiva, intelectualizando-a e “abstractizando-a” num apelo teórico à contenção por trás do qual se oculta a verdadeira intenção de reprimir o impulso culpável.
É nesta subtil ligação entre o plano imediato e próximo da existência estrita [mas não estreitamente!] pessoal e o universo teoreticamente 'nobre' das ideias [onde entra a lição de Spinoza] que, repito, reside, em meu entender, o interesse maior da obra de um Maugham que foi, sobretudo, como também refere Helena Vasconcelos um competente contador de “estórias”—“estórias”, acrescento eu envolvendo indivíduos desenraizados [uma personagem que, igualmente, me “deslumbrou” foi a de 'Sadie Thompson', da narrativa “Rain”, uma evidente figura de “drifter” a que Rita Hayworth deu rosto no cinema] e, de algum modo, expatriados de um lar que, também ele, opera, no contexto simbológico da obra de Maugham, como uma espécie de ponte recorrente entre o concreto e o abstracto, o individual e o colectivo: entre a pátria física e o “estrangeiro”, entre o 'lar cultu(r)al' e a subtil perda de referências identitárias a um nível que é, no fundo, também, voloto a dizer e a sublinhar, o de toda uma época que vai irregressivelmente chegando ao seu termo, por trás da qual, se estende, a perder de vista, o Desconhecido.
Se mais não é, para mim, é isto que Maugham há-de sempre, em última análise, ficar a ser.

Torres Novas em 26.12.09

2 comentários:

Ezul disse...

Sinto, à luz deste magnífico texto, uma imperiosa necessidade de reler uma das obras que mais me impressionaram na adolescência. Refere a questão da fatalidade e recordo, a propósito da personagem principal (apesar das imagens já muito diluídas que guardo do romance), essa impressão. O que mais me marcou nessa leitura foi a percepção de um ser atormentado e subjugado por um destino a que não podia escapar. Hoje em dia, interrogo-me se a minha atracção por esse tipo de personagens não seria uma projecção do meu próprio pessimismo, ou de uma forma exacerbada de encarar o sofrimento humano, que me “agarrou” durante tanto tempo. Eram obras como essa que, após uma leitura voraz e obsessiva, continuavam presentes no espírito, por longo tempo, numa identificação sofrida e, sem dúvida, profundamente exagerada. Creio que será um exercício a fazer, regressar à leitura deste livros e de outros como “Judas, o Obscuro”; “O Idiota”; “Crime e Castigo”...

gulosas.virtuais disse...

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