terça-feira, 17 de março de 2009

"Só é «cavaquizável» quem se quer «cavaquizar»..."

Do meu "tumultuoso" arquivo pessoal (onde vão diariamente parar os incontáveis recortes de jornal que nunca deixo de fazer) extraio hoje um número particularmente interessanto do inevitável "Público": o de 09.03.09.
Tratou-se, como disse, de um número particularmente bem sucedido, em termos de ensejos concretos para a reflexão. Eu já o disse por diversas vezes, não me considero exactamente um leitor do "Público": leio-o regularmente o que não é precisamente a mesma coisa...

Lendo-o, reconheço que (tendo sempre o cuidado de não esquecer nunca "quem é"...) que está a anos-luz de um híbrido "D.N." (um verdadeiro "case study" de intuição--ou vocação nata--para o servilismo...) para já não falar no abominável-de-truculento "C.M.", o "porta-voz do banco-de-jardim de bairro na andropausa" e por aí adiante.

Voltando, porém, ao "Público" de 03 de Março começo por um artigo de São José Almeida, inserto na página 3 onde a jornalista discorre sobre a questão da possível... "cavaquização" intensiva ou exaustiva do P.S.

Trata-se de um tema, sem dúvida, interessante.

A mim, não me restam muitas dúvidas de que sendo o País aquilo que politica e civicamente (não!) é; sendo o actual poder político exercido numa dessas democraticamente abomináveis maiorias "absolutas"; estando a clássica separação democrática de poder institucionalmente desenhada como está, com o governo a escolher o Procurador-Geral da República e as promoções dentro do Ministério Público a resultarem de propostas de uma escolha directa do poder político; assim sendo, dizia, não me resta a mais pequena dúvida de que era pura e simplesmente inevitável que toda a estrutura do Estado estivesse (como está!) "estrategicamente" governamentalizada ou, como diz São José Lapa, "cavaquizada".

Necessariamente, pois.

É, aliás, por isso mesmo--porque essa "fatalidade" é, no quadro institucional e cívico actual, virtualmente inevitável--que eu pessoalmente preconizo a extinção da possibilidade de se formarem mais maiorias destas ditas (e bem!) "absolutas" mas que advogo, sobetudo, a ideia de que qualquer projecto de esquerda, hoje, tem inevitavelmente de passar pelo investimento estratégico nas múltiplas formas possíveis de pedagogia cíviva e político como pressuposto esencial de democraticidade a que houve recurso no tempo do fascismo.

Como?

Através da potenciação das capacidades de mobilização popular e especificamente cívica das colectividades populares e, dentro delas, do Teatro, das coneferências, das actividades de leitura colectiva discutida, dos Cine-clubes, etc. etc.

Ou seja: o "povo" não mudou no essencial desde que o fascismo caíu entre nós.

A sua "vocação atávica" para (chamemos-lhe assim:) a candura política e para o seguidismo que dela quase inevitavelmente resulta (o fascismo onde existiu foi sempre, de facto, incomensuravelmente mais o resultado da inacção colectiva das massas proletárias e pequeno-burguesas do que qualquer efeito directo e autónomo de qualquer acção verdadeiramente determinante do grande capital económico-financeiro que dele extraíu, porém, benefícios monstruosos e, de resto, para servir o qual os fascismos históricos existiram); a "vocação atávica" das massas para a agnosia e para a inércia cívicas e políticas que dela directamente resultam, dizia, se sofreu um curto e muito promissor "abalo" no período que vai de Abril de '74 a Novembro de '75 (período em que podia ter finalmente surgido entre nós a "escola individual e colectiva estável da cidadania" que a História nacional nunca verdadeiramente chegou permitir no passado) quase imediatamente voltou à sua condição anterior de "específico mental circunstancial" distintivo de uma certa "lusitanidade" (e até de um certo "iberismo" ou "ibericidade") rurais tradicionais facílimas, como não é difícil entender, de "teleguiar" e objectualmente manipular por quem esteja verdadeiramente interessado em fazê-lo.

E é precisamente por esse motivo (porque a realidade do analfabetismo cívico e político se manteve in/essencialmente estável ou estabilizada na passagem do fascismo para a chamada democracia) que não se me afigura (bem pelo contrário!) despiciendo "re/inventar" alguns dos projectos de alfabetização cívica que, na altura, despontaram onde puderam nos centros operários e pequeno-burgueses do Barreiro a Almada, de Leiria ou da Marinha Grande a Torres Novas e assim por diante.

Este, um aspecto que se me oferece a propósito do texto de São José Almeida, sublinhar: a governamentalizaão não apnas dos partidos como da própria sociedade (portuguesa, neste caso) em geral não resulta de qualquer esforço original de Cavacos Silvas, Josés Sócrates e quejandos.

Resulta, como disse, inevitavelmente do próprio desenho (imperfeitíssimo!) da "democracia" nacional, "estrategicamente desactivada ou nunca activada naqueles pontos em que seria essencial que o não estivesse porque permitiriam tornar orgânico o que chamo o "tempo único" da Democracia.

Que permitiriam concretizá-la e levá-la à prática em tempo real que é o único modo de concretizar e levar à prática o ideal democrático.

Que permitirim evitar que o tempo ou temporalidade democrática se cindisse daí resultando que a negociação democrática do exercício instrumental do poder se convertesse perversamente na negociação objectiva do próprio poder, como acontece hoje-por-hoje entre nós.

A visão de São José Almeida é, a meu ver (e por isso aqui a trago ao próprio seio destas reflexões) emblemática de um equívoco gigantesco que apresenta consistentemente aquilo que é essencial no apodrecimento objectual da Democracia entre nós num mero incidente.

O que é essencial é o modo como o sistema, no seu corpo inastitucionalizado está desenhado. Os Sócrates como os Cavacos limitam-se, diria eu, a ocupar um espaço vazio, um "void", no desenho institucional (e mental! E mental! Não esqueçamos o mental!) português.

Não inventam governamentalizações nem, de um modo mais geral, situações de autocracia objectiva: viajam nelas, instalam-se nelas, achm nelas um habitat político e cívico perversamente (perversissimamente!) ideal.

Não perceber isto é mistificar.

Faz, aliás, impressão o modo como uma jornalista respeitável e respeitada como São José Almeida argumenta alegadas "diferenças" (de substância?) entre um económica, social e politicamente tenebroso «cavaquismo» e o actual «socratismo»: dizendo que este é "diferente" porque não foi buscar para a direcção do "seu" partido político pessoal político de "fora" antes recorrendo a "pê-ésses de carreira"...

Como "argumento", deixa-me francamente perplexo, boquiaberto com a subtileza do raciocínio e da análise, em geral!

Quer dizer: sendo os partidos como o P.S. e o P.S.D. hoje entre nós o que são (isto é: autênticas "fábricas" ou "armazéns"--verdadeiras "linhas-de-montagem"!--de potenciais funcionários e nada mais, em última instância, do que isso: pense-se nos Mários Linos, nos Manuéis Pinhos, nas Maria de Lurdes Qualquer Coisa e por aí fora!...) dizer que recorrer à "malta" aí "asilada" para exercer o poder é contribui, de forma minimamente significativa, para bloquear a tentação governamentalizadora (e/ou para fazer qualquer mínima diferença relativamente aos que inventam governantes "completos" completamente ex-nihilo) é obra, seguramente!

Que o repitam e corroborem "politólogos" e "analistas" como António Costa Pinto ou Marina Costa Lobo não ajuda nada.

Pelo contrário: agrava!

Se os "politólogos" e "analistas" fazem "politologias" e "análises" destas que pensar dos outros--dos que não são nem "politólogos" nem "analistas"?

Só de pensar nisso, sinto arrepios!


E por aqui me fico...

segunda-feira, 16 de março de 2009

"As próximas eleições"


"As próximas eleições" é o título de um artigo de António Barreto vindo a lume no "Público" de 15.09.09.

Cito-o aqui, não porque contenha propriamente qualquer novidade particular (o texto de A. Barreto limita-se, de facto, em última instância, a repetir aquilo que toda a gente já sabe--ou que se não sabe, devia saber!--i.e. que aquilo a que chamamos comummente "democracia" é, na verdade, uma mera "demomorfia instrumental" configurando, na realidade, um modelo de "argumentação" superficialmente política primariamente orientado para a defesa da firme imutabilidade (da in/essencial imutabilidade) da base ou infraestrutura económico-financeira do 'regime').

Apenas e só isso.

E essa, sim, representa a in/essência ou «específico determinacional» estável do 'regime'--pelo que não deve constituir surpresa seja para quem for o facto de que toda a arquitectura formalmente democrática que o reveste (e suporta!) deva sempre funcionar como um mero dispositivo de suporte, des/estruturalmente móvel, insubstantivo e permanentemente in-fixo cujos "movimentos" e contínuos repreenchimentos de pura ou impura circunstância obedecem, naturalmente, aos próprios impulsos e necessidades da "base" ou infraestrutura sobre a qual assenta e ao serviço da qual se acha sempre--e daí obviamente a sua infixidez e a sua constante volubilidade.

O que diz Barreto (ou aquilo que ele lembra) é algo que se encontra também, ao lado de quanto já aqui disse (ou que eu próprio recordei) no próprio cerne de toda esta construção, realmente económico-financeira e apenas pretextualmente política.

A saber: que, apesar de aquilo que chamamos "democracia" estar, na realidade, vinculado e, por consequência, realmente ao serviço da "legitimação política" exterior de uma "ideal" imutabilidade sistemática (de facto, sistémica!) de um certo modelo de exploração económico-financeira (que todos sabemos, aliás, perfeitamente qual é); apesar, portanto, de a tal "democracia" operar na verdade como uma âncora disfarçada cuja função real é prender a economia à História e conservá-la, com, repito, uma certa forma muito precisa, a ela solidamente presa; apesar disso, dizia, não dispomos, como sociedade ou como Cidadania, dos meios (objectivos--institucionais--mas, de igual modo, subjectivos, de consciência ou inteligência da realidade--para mudar o que quer que seja de realmente fundamental e determinante num status quo constituído para beneficiar sectores muito definidos e localizados no contexto do todo social e político.

E esse é, diria eu (digo eu!) o drama senão mesmo, a... "tragédia biológica e genética" das chamada "democracias" parlamentares "ocidentais": o de operarem, no concreto da História, como autênticos travões objectuais, firmemente institucionalizados (por absurdo, ao menos) aplicados à própria possibilidade objectiva de mudar essa mesma História sempre que o interesse colectivo o exigisse--ou efectivamente exija.

Mas isso--essa in/acção de travagem "estratégica" da História "a todo o comprimento e largura desta"--não representa, em meu entender (está mesmo muito longe disso!) um mero acidente no processo de emergência e consolidação da "demomorfia" senão que configura um pressuposto primário dela. A ponto de ser adequado e correcto dizer que o papel histórico das demomorfias vulgarmente confundidas com democracias é precisamente esse de impedir que a História "se solte" e desate a "pensar e a agir por si", como se... a economia não existisse e não fosse a substância e fundamento da História e da própria realidade, em geral.

Se ela permitisse, com efeito, mudar realmente a História sempre que o interesse colectivo o exigisse, só poderia passar a desempenhar, por definição mesma, um papel objectivamente subversor--e, portanto, subversivo!--do 'regime' pelo que desta "democracia" pouco haverá, em última instância, de facto, a esperar em termos da organização de estratégias verdadeiramente saudáveis e eficazes de combate às "crises" como aquela que atravessa actualmente o capitalismo 'global' assim como, sobretudo, de estratégias realmente sustentáveis e eficazes para lidar com as diversas circunstâncias que vai revestindo a realidade (económica, social, política e até ambiental) nos tempos que correm.

Do texto de Barreto retiro, pois, sobretudo (e retiro-a porque confirma quanto venho hà muito afirmndo sobre a inexistência real de uma verdadeira Democracia entre nós, no contexto do "nosso" sistema de exploração económico-financeira da realidade--assim como da própria fortíssima!--improbabilidade teórica e sistémica de ela vir em condições ditas "normais" de fuuncionamento do "sistema" a apresentar-se-nos); do texto de Barreto, dizia, retiro, pois, sobretudo, uma frase. Concretamente aquela que diz expressamente que "Todos terão [quando chegarem as eleições e, com elas, mais uma das inefáveis "campanhas" eleitorais tão típicas dos partidos entre nós] argumentos marialvas para ecusar dizer o que pensam e o que querem. Infelizmente, o eleitorado não tem meios de o exigir" [sublinhado meu].

Pois não--e aí precisamente é que bate o ponto, na incomunicabilidade estratégica entre os eleitorados (a Cidadania) e os agentes políticos efectivos em tempo real.

Eu diria mesmo que a desintegração (chamemos-lhe: astuciosa e muito "disfarçada", muito manhosamente "estratégica") da temporalicidade democrática; i.e., a hábil, estratégica des-integração do "tempo orgânico da Democracia" representa a própria chave da deriva in/essencialmente anti-democrática do 'regime'.

É, aliás, por isso mesmo que o texto de Barreto é contraditório--e nessa condição eco, de resto, a maioria dos publicistas formal ou circunstancialmente críticos do 'regime', entre os quais contradições deste tipo são comuns.

Porque assim penso--e afirmo?
Porque, reconhecendo embora (e confirmando-o nas suas reflexões) a presença estável do hiato disfuncional aberto entre a Cidadania e os agentes políticos, defende, em seguida, com toda a naturalidade a intensificação ulterior desse não-espaço de desintegração e disfuncionalização do sistema dio "democrático" através da defesa que paradoxalmente faz da "necessidade" das maiorias "absolutas" para (diz ele e dizem os tais publicistas) "reformar idealmente" o 'regime'.

Ora, se sem elas já a vinculação em tempo real dos agentes às massas é o que se sabe, imagine-se (imaginem quantos não tiveram a pouco invejável "privilégio" de passar alguma vez por uma dessas maiorias...) o que ela não será (o que ela não é!) naquelas situações em que o 'regime' pode por sistema legalmente eximir-se da imprescindibilidade de ter de colocar a persuasão (na realidade, a chave do próprio específico democrático!) onde, nos casos de maiorias absolutas, os 'regimes' colocam (pura, simples e quase sempre alegremente!) a imposição...

domingo, 15 de março de 2009

"Twin Peaks" de David Lynch [por rever]


Se eu pretendesse "situar" (não diria: temática mas, de um modo diferente e mais amplo, mais genérico, com certeza) "temicamente", no contexto de um certo universo cultu(r)al "ocidental" global contemporâneo possível, o Cinema de Lynch--e, dentro dele, especificamente este "Twin Peaks"--teria, acredito eu, de começar por citar três outros grandes (três outros enormes!) nomes da Cultura e especificamente da Arte dos nossos dias: Kafka, Antonioni e Beckett.

Primeiro, Beckett.
Beckett porque é, em muitos aspectos, o meu preferido e porque é, de facto, difícil conceber uma "coisa" mais conceptual (ou conceptivamente) beckettiana do que a "mensagem" (a "bottomline", como diria, a propósito, um observador anglófono) final de "Twin Peaks"--filme onde eu, pessoalmente, vejo, com efeito, um exemplo absolutamente paradigmático--visual e conceptualmente arrebatador!--da "naughtopy" (ou "atopia") beckettiana típica, muito clara em, por exemplo, "All That Fall", uma peça radiofónica do criador de Godot onde, precisamente, o motivo do "a-ser" ou "a-ser-se", isto é, da anessência ou condição anessente ideal da condição humana (se é possível falar fácil ou aproblematicamente de "humanidade" e "condição genuinamente humana" em Beckett mas enfim...) está no próprio cerne ou no núcleo celular narracional genético da respectiva "arquitectura" (ou da respectiva "geometria"?...) "témica" básica.

Em "Twin Peaks" como no citado "All That Fall" (um texto beckettiano a que estou, aliás, pessoalmente muito ligado por razões particulares, desde logo porque me vi evolvido na experiência única de traduzi-lo pela primeira vez em português para "A Comuna", para a encenação de João Mota) a sugestão da defesa «crítica» e especificamente «dramática» de uma espécie de "estatuto" de perfeição ontológica final (ou, ao invés, original?...) obtível (por absurdo) apenas--lá está!--antes e depois da existência material dos indivíduos (constituindo esta, aliás, muito mais uma mera hipótese ou sucessão/teoria descontínua e intrinsecamente des-estrutural dessas mesmas hipóteses do que propriamente uma realidade em si, consistente e, nesse sentido, também «orgânica», segura e «pacífica»--motivo pelo qual eu punha, atrás, uma série de reservas cautelares necessárias quando falava do problema da abordagem crítica da temática do im/possível "humanismo" em Beckett).
Não de Beckett mas seguramente em Beckett, sublinhe-se...

As sequências finais do filme de Lynch, com efeito, conduzem, a meu ver (parecem conduzir?) a essa ideia ou a essa mensagem "árida" e, no fundo, sempre "desesperadamente feliz" da existência de uma espécie de "projecto teórico" de glorificação final (ou finalmente aliviada) e--lá está!) distintivamente nulotópica do Nada (da ideia/apologia de uma "dissolução feliz" ou "correcção/néantificação" apoteótica final do lapso de "ser" que aparece, por exemplo--a meu ver, pelo menos: é assim que pessoalmente "leituro" o motivo--na 'angelização' triunfal de Laura ou da morte de Laura) como "proposta" final de "atopia", encerrando--culminando--a difusa geometria (a labiríntica "geométrica") de (talvez) sucessivos, contínuos, instantes vagamente "pessoalizados" ou "personificados" (isto é: "verticializados em possíveis pessoas") a que chamamos vulgar e, às vezes indistintamente, "vida" e "viver").

Em segundo lugar, Antonioni.
Falei também de Antonioni, com efeito.

Do Antonioni de "Blow-Up", seguramente: basta recordar aquela sequência final, verdadeiramente fabulosa mas também aterradora, arrepiante, do jogo de ténis sem bola, soberba metáfora do absurdo real da existência, representada aqui por um jogo, um código "puro", isto é, uma gramática integralmente inventada pelo respectivo sujeito (ou objecto? "Objeito" poderá ser um bom termo para referir esta entidade refém de um idioma que cria autonomamente--ou que segrega, excreta, autonomamente?--de modo contínuo, a sua própria ilusão/ficção de um conteúdo e de um sentido finais para si?); um código, dizia, de onde, pois, o verdadeiro sentido (figurado no filme especificamente pelo vazio deixado continuamente pela bola ausente) está, ele mesmo, na realidade im-presente, constituindo, neste quadro, a existência (no filme de Antonioni como no de Lynch) apenas uma sucessão de gestos realmente vazios de sentido e fundamento--uma "dança dos espectros" completamente desprovida de essência ou (essencialidade intrínseca) reconhecível e a que apenas a «inércia crítica» pura dos "sujeitos" (ou dos "objeitos") permite conferir a aparência imediata e (im?) puramente exterior de um sentido, na realidade, todavia, como dissemos, demonstravelmente inexistente.

De algum modo, tudo se passa em Lynch (muito se passa, em todo o caso nele e para ele) como um lucidíssimo Vergílio Ferreira diz que as mesmas "coisas" se passam em Kafka--e, por isso, o nome do autor d' "O Processo" e d' "A Metamorfose" me acorreu, como atrás digo, de imediato ao espírito enquanto re/via "Twin Peaks".
Observa Vergílio Ferreira num ensaio incidindo sobre aspectos específicos da ficção de Kafka, com efeito, que a essência da técnica narrativa deste consiste em contar realisticamente uma "estória" a que falta, contudo, uma chave que permita afirmar que toda a estrutura (e toda a extensão!) da "anedota" é correspondentemente (é realmente!) "realista".

Este des-encontro, esta programada (intencionalíssima, pois) des-continuicidade estrutural, premeditadamente estabelecida entre a técnica e o conteúdo é, diz Vergílio Ferreira, em última instância, aquilo que realmente perturba (e inquieta!) em Kafka--daí resultando o paradoxo que consiste em ter sido possível originar um «objecto narrativo» profundamente inquietante caracterizado (que é profundamente inquietante porque caracterizado!) pelo facto singularíssimo de quanto mais "realista" conseguir ele ir sendo, menos realista, afinal, se ir proporcional ou proporcionadamente tornando.

Lynch, em concreto, aplica, a meu ver, esta mesma "fórmula" desestrutural (e desestruturada, desestruturantemente!) inversional ao universo "de plástico" ou "de cartão" do "pulp" e (como faz, por exemplo, Carpenter com a subcultura "pop" nas suas diversas formas, designadamente televisivas) dos mídia, especificamente das "soap operas" norte-americanas (recorde-se, por exemplo, no filme a figura enigmática, misteriosíssima, do "homem sem braço"--um eco da série "The Fugitive", um "clássico" da "trivia" norte-americana e mundial?...).

Soltada por completo de um reconhecível (ou de um minimamente demonstrável) "suporte significador ínsito", a angústia surge, no filme (como acontece, voltando inevitavelmente a ele, em Beckett) como um «objecto em si», isto é, como algo de amputado, mutilado e obsessional que não pertence rigorosamente a circunstância reconhecivelmente necessária e lógica alguma, antes gravitando (ou ressurgindo, reemergindo) ciclicamente na (sub?) consciência dos indivíduos, na forma de espectro angustiado de um sentido que se perdeu definitivamente, dele ficando apenas o grito (estaremos aqui a falar, por exemplo, também de um Munch ou de um Van Gogh?) "em estado puro".

Em Lynch (como, volto a dizer, em Beckett) a angústia (como a própria fala) não é o despertar--e o início!--de coisa alguma senão que são, uma e outra, precisa ou imprecisamente o contrário: o fim de tudo.

(Embora Maria do Céu Guerra--quem conversei uma vez sobre o assunto e que interpretou, como se sabe, o papel de "Mrs. Rooney" em "All That Fall" não concorde) continuo, hoje como nessa altura, firmemente persuadido de que a linguagem (e, já agora, também a própria angústia e o próprio desespero como tal) desempenham em Beckett, como agora em Lynch, um papel muito semelhante ao dos excrementos, isto é, linguagem, angústia e desespero situam-se, como atrás disse, num e noutro autores, no fim não no princípio (e muito menos no princípio activo) do próprio mecanismo de expressão e comunicação humanas.

Ou seja: a linguagem não visa, neste(s) caso(s), realmente comunicar: na verdade, ela é (limita-se a ser!) o que Ginzberg chamava (ou definia) como um "howl", um "uivo", uma reacção instintual pura e literalmente indecomponível, des/estruturalmente assintáctica, subsumível em (quase?) tudo, pois, às secreções e excreções animais (acontecendo que é precisamente isto que, assim observado e assim equacionado, permite, em meu entender, fundamentar a minha própria ideia--a que, muito imodestamente chamo, às vezes, tese...--da existência e da prevalência característica de uma comédia ontológica beckettiana, em "resposta" à tese envolvendo o princípio crítico de uma "dark comedy" defendida por Julie Campbel num outro debate organizado pel' "A Comuna" a propósito de Beckett, onde tive ocasião de estar igualmente presente).

Também o desespero (de que há no filme de Lynch, aliás, exemplos diversos) partilha, a meu ver, dessa condição ou desse estatuto objectual "puro" e limite: na verdade, ele surge-nos sempre como algo que "sai espontânea ou autonomamente do corpo" (da matéria do próprio corpo!) sem vir necessariamente 'preso a' uma vontade e, sobretudo, a um fundamento reconhecível, sendo na realidade, pois, algo que (como os monstros de Gigger ou de Bacon) habita e parasita o corpo, invadindo-o e dilacerando-o, segundo uma i/lógica específica onde a "razão" humana não penetra para "entender" e, menos ainda, para organizar.
Que invade, dilacera e viola o corpo.
Antes de terminar, acrescentaria ainda: se me fosse dada a possibilidade de organizar um ciclo de homenagem beckettiana envolvendo o conjunto das Artes conhecidas, além de poemas de Herberto Helder (o mais beckettiano dos poetas portugueses), exporia reproduções de telas de Bacon, Paula Rego e Gigger e passaria filmes como "Memento" de , "Spider" de Cronenberg, "The Naked Lunch" ogualmente de de Cronenberg, "Blow-Up" de Antonioni mas, em caso algum deixaria de incluir de Lynch, além de "Eraserhead", este singularíssimo e literalmente fascinante"Twin Peaks".

"La Grande Illusion" de Jean Renoir

Configura um verdadeiro truísmo dizer que se trata de um dos poucos filmes que pode legitimamente aspirar aos qualificativos invejáveis de "definitivo" "imortal" e "único", na História do Cinema de todos os tempos.
Escassos outros haverá, com efeito, tão modelar e tão emblematicamente nacionais (tão paradigmaticamente francês, no caso vertente) e, ao mesmo tempo, universal e prodigiosamente humanista e tolerante, desprovido, pois, do mínimo ponto de contacto com qualquer ideia--mesmo apenas remota e secundária--de chauvinismo e/ou de sempre perverso "nacionalismo".

Vendo-o, percebem-se sem dificuldade os motivos pelos quais Vichy e os nazis o odiaram: nele, com efeito, tudo transpira ou ressuma pacifismo mas um pacifismo viril, digno e profundamente lúcido, indelevelmente marcado pela ideia, sempre muito clara e muito viva, de uma genuína solidariedade entre os homens (e mulheres!) de todas as nacionalidades e até de todas as cores ou raças (há, no filme, de facto, entre os franceses, um negro que com os restantes personagens partilha do "projecto" genuinamente popular e natural de resistência à brutalidade e à desumanidade aqui simbolizadas pela guerra enquanto facto histórico, social e político des/estruturalmente dissolutor e intrinsecamente desumanizante).

Além desse aspecto, de algum modo (como dizer?) mais interventivamente "para-teórico" ou até 'ideológico' e mesmo (quase?) militante, o (belíssimo!) filme de Renoir constitui também (algo que partilha, de resto, com essa outra obra-prima absoluta do mesmo realizador que é o também genial "La Règle de Jeu") uma lúcida reflexão sobre a História, designadamente sobre o fim de toda uma 'era civilizacional' representada pelos aristocratas Boeldieu--que significativa (e resignada--quase?--ritualmente) se "suicida", sacrificando-se pela "nova França" ou pela "nova Europa" que surge das ruínas da "velha ordem"--e pela personagem fabulosamente re/criada por esse verdadeiro «monstro sagrado do Cinema» que foi o truculento e desmesurado Eric von Stroheim (a truculência, aqui, aparece soberbamente caldeada com uma contenção e um fatalismo tragicamente ritualizados) e a ascensão de uma outra classe que vem definitivamente substitui-la (para o bem e para o mal implícitos nas múltiplas contradições--e dilacerações, individuais e colectivas!--que o processo traz consigo) na "propriedade" e na condução modernas da História.

Sem deixar de glorificar a necessidade (premente, central, essencial, repito!) da solidariedade e do humanismo na relação entre as pessoas e os povos, o filme não deixa de, apesar disso e de um modo, aliás, sempre muito inteligente e esclarecido que começa no próprio título, reflectir sobre as vicissitudes e a contínua falibilidade da lucidez histórica e política, algo, com efeito, afinal, tão frágil e vulnerável que faz com que, aquela que terá, de algum modo, começado por ser a grande esperança de um certo mundo económico, social e político moderno de ver (e de organizar!) a relação entre as pessoas e, de um modo mais amplo e genérico, entre as nações (envolvendo especificamente a ideia de uma guerra final que acabasse com todas as restantes) acabaria, afinal, por se revelar, em última instância, o enorme fracasso (ou "grande ilusão") de que fala o título do filme.

Neste e no âmbito especificamente cinematográfico, Gabin está perfeito no seu "Maréchal" tão humano e tão caracteristicamente parisiense; Pierre Fresnay com uma composição extremamente digna, sóbria e eficacíssima não desmerece--longe disso!--dos restantes; Dita Parlo compõe com extrema eficiência a figura humaníssima da mulher que a guerra deixa na situação da mais completa solidão e vulnerabilidade mas von Stroheim, no prussiano cujo corpo em ruínas carrega consigo um espírito tragicamente desencantado, não menos mutilado e sem esperança que se sabe antecipadamente morto está, como disse, incrivelmente próximo da perfeição.

Verdadeiramente fabuloso!

"A Star Is Born" de George Cukor


Não é, nem de perto nem de longe (para mim, pelo menos) "O" Cukor.

É, ainda assim, um melodrama globalmente eficaz (mau grado o evidente esquematismo de algumas das personagens assim como das situações, de uma maneira geral) e onde avulta um actor, realmente notável, soberbo mesmo: James Mason.

"O homem que as mulheres mais amavam detestar" (ou "detestavam amar"?... Talvez seja mais a primeira...) era, efectivamente, um actor extremamente versátil que, no cinema, sendo sobretudo um "vilão", foi nesse registo praticamente tudo, desde o pedófilo compulsivo e suicida de "Lolita" (passado, aliás, na televisão em "sessão dupla" com este "A Star Is Born") ao cavaleiro negro de "Ivanhoe" de Thorpe sem esquecer o muito "balcanicamente sinistro" "Rupert Hentzau" de "The Prisoner of Zenda", igualmente de Thorpe.)
Aqui, dá uma "performance" verdadeiramente inesquecível, exemplar, de contenção (e de explosiva tensão) onde transmite, com uma eficiência por vezes de facto genial, a pungente sugestão de imaturidade e apetite pela morte que faz com que o seu "Norman" tome, praticamente desde o início conta do filme, "roubando-o" a partir daí definitivamente, a todas as restantes personagens (onde se inclui, por exemplo, um solidíssimo Charles Bickford no papel do director do estúdio, amigo de "Esther" e "Norman" de quem faz, aliás, no fim do filme, o sentido "elogio fúnebre").

Na película de Cukor, a Garland, a "co-star" (que não seria propriamente uma actriz) compete canta, dar as réplicas e não desmerecer globalmente («batendo» quase sempre, no entanto, muito num registo... "un peu trop" melodramático, aliás, muito característico seu) no interior de um filme que--poderíamos seguramente pôr a questão deste modo, sumarizando o seu peso relativamente menos relevante na História do Cinema e mesmo no contexto da obra de Cukor, sobreviveu com elegância e algum brio a si mesmo, pela música (para quem gosta do género...) mas, repito, para os cinéfilos, muito em especial pelo trabalho realmnte brilhante de Mason.

Da "Sessão Dupla" da RTP, do dia 14, há a dizer, desde logo, que, mais uma vez, a RTP, a televisão dita «pública», não teve qualquer pejo em passar apenas a parte central (para aí um terço ou pouco mais do total!) de um filme cujas "bandas" optou por mandar, pois, pura e simplesmente "para o lixo", burlando o espectador ao vender-lhe um "produto" grosseiramente "avariado" que é como quem diz: ao vender-lhe, com o despudor que caracteriza o modo como trata quase invariavelmente o Cinema (em casos como, por outro exemplo, "O Leopardo" de Visconti a prática converte-se facilmente em crime de lesa-Arte...) "gato por lebre".

A juntar a isso, essa outra prática (não menos característica e invariável, aliás!) de "chutar" tudo o que não seja "telenovela" ou "concursata" bacoca para as "frias madrugadas" que, no caso vertente, por acaso, até era uma anormalmente quente para a época (a exibição do filme terminou já passava das quatro da madrugada!...) o que quer, seguramente dizer alguma coisa sobre o grau de cultura da gente que por lá anda a trabalhar na programação e organização do tal "serviço" dito, então, «público»...

quinta-feira, 12 de março de 2009

"A minha «paixão proibida» revisitada"


Eu já o disse, no blog do meu Amigo "Sou de um Clube Lutador" mas vou repeti-lo aqui: acho que o Benfica e o Rui Costa cometeram um erro tremendo ao aceitarem ficar reféns de um treinador medíocre como é o Sr. Enrique Sanchéz Flores, vulgo 'Quique' das ditas.

O Benfica foi, também já o disse, por diversas vezes estrategicamente "refundado"--e quase sempre com sucesso.

Tê-lo-á começado por ser quando o Sporting "nos" veio "roubar" aquela que seria, por sua vez, a primeira grande vedeta do futebol nacional, o Artur José Pereira, ganho para a "causa" verde por uma tina de água quente, rezam as crónicas--e com ele seguiu parte da equipa, obrigando o Cosme Damião a fazer "das tripas coração" para evitar que o Clube, ainda muito jovem e inseguro, acabasse--ou pouco menos.

Antes, havia sido a "questão do campo" (ou da falta dele--que levaria à fusão do Clube de Benfica com o Sport Lisboa) e depois foram contínuos saltos qualitativos com homens como o húngaro Lipo Hretska (que trouxe consigo conhecimentos preciosos do grande futebol húngaro da época); Ted Smith (com quem entrou em Portugal a preparação física "à inglesa", dos tempos "arqueológicos" do "kick-n' rush", um tipo de preparação que, em Portugal, permitiu fazer de imediato a diferença); Otto Glória (o "Tio Otto", um brasileiro "bom malandro" mas astutíssimo, que profissionalizou o Clube e "construíu" o importantíssimo instrumento de modernização que foi o "Lar do Jogador" que eu tive ainda o privilégio de visitar; Bela Gutmann (que desse esforço tirou o partido que se sabe) e, por fim, uma meia-refundação com Eriksson que ainda levaria um Benfica em óbvio declínio a uma final europeia.

Mas o Benfica não soube aguentar o impacto da abolição da chamada "lei da opção" que permitia aos clubes ficarem proprietários (literalmente proprietários!) dos jogadores que iam, aliás maciçamente, contratando.

Dirigentes astutos teriam percebido que os novos tempos exigiam deles uma perspicácia invulgar a seleccionar e conservar os candidatos que podiam, todavia, agora, escapar-lhes "por entre os dedos", caso não houvesse em cada clube uma "máquina" bem oleada para cativá-los e rentabilizá-los.

Clubes até então "de província" souberam contornar o novo obstáculo com a organização de redes brumosamente transversais de poder que iam das instituições especificamente "futeboleiras" aos municípios e aos lugares onde havia poderio económico e financeiro: construção civil, etc.

Quer dizer: onde antes existira uma legislação leonina que permitia "engolir", "sugar" e fixar em pirâmide tudo quanto era talento futebolístico, fora-se gradualmente estabelecendo uma solidíssima rede de influências subterrâneas que logrou deslocar o eixo dessa bem sucedida tarefa de "sucção" para Norte, organizando aí um monopólio "em escadinha" onde os pequenos trabalhavam para os maiores que, por sua vez, pagavam em diversos graus de influência na partilha global do poder.
Foi o modelo inventado para substituir a prisão legal do "pé-de-obra" futebolístico, sedeado mais a Sul, numa altura em que clubes como o F.C. Porto por mais Cubillas e Flávios que contratassem, saíam, como dizia o Pedroto, da "sua" cidade (que não era, aliás, senão por acaso e adopção, a do próprio Pedroto...) sempre já a perder por 2-0...

Sucede, porém, que em Portugal, o único Clube, a meu ver, potencialmente rentável é ainda e sempre o Benfica.

O Sporting é, hoje-por-hoje, apenas um enorme equívoco e o Porto, por mais que ganhe e faça, nunca deixou, até em razão do modelo truculento e belicoso que escolheu para crescer, de ser um clube, não digo propriamente "regional" (seria injusto e inexacto!) mas seguramente "de região"--senão mesmo realmente "de cidade".

Sucede que, depois do inimaginável "Carna... vale Azevedo", o Benfica não conseguiu com um gestor hábil como é Luís Filipe Vieira tirar total partido da revitalização e redignificação institucional do Clube por esse mesmo Vieira trazida.
E não soube porque Vieira é, realmente, um excelente gestor mas "de gabinete" ou "de secretaria": de futebol não percebe rigorosamente coisa alguma.
É uma pessoa lúcida e hábil, dotada de ambição e visão, é verdade: levou tempo mas acabou por perceber que, se não se rodeasse de quem sabe, o benefício que a sua gestão trouxe no imediato (e trouxe!) corria sério risco de se esgotar a curto ou médio prazo porque a "máquina" sem vitórias emperra inevitavelmente.
A dado passo, pareceu mesmo embriegado pelo poder, gerindo o Clube como coisa sua, contratando e despedindo treinadores e jogadores como se o Benfica fosse a colectividade do bairro que obviamente não é mas cedo percebeu que assim "não dava" mesmo e acabou, como disse, por arrepiar caminho.

E veio Rui Costa.

O Clube parecia, finalmente, a dois passos de mais uma "refundação" ou salto qualitativo porque agora havia gente tecnicamente boa nos lugares-chave.

Ou parecia haver...

Porque Rui Costa inaugurou, de facto, o seu "consulado" com uma série difícil de entender de equívocos: foi o "caso" (o falhanço da re/contratação de) Eriksson; foi a fantasia Queiroz (que já vai sendo tempo de se perceber de vez que é, sobretudo, uma ficção que muito poucos se atrevem porém, por várias razões todas elas remetendo exclusivamente para o passado, ainda hoje a expor) e foi, por fim, o 'capricho «Quique» Flores' ao qual Rui Costa inexplicavelmente continua, mau grado os contínuos falhanços de objectivo, a obstinar-se em hipotecar o futuro do Clube.

Ora, a verdade é que Flores é tudo menos o homem certo para "refundar" o Benfica com Vieira e o próprio Rui Costa: é por natureza (tem-no amplamente demonstrado!) um treinador típico de clube pequeno, sem ideias nem a visão táctica e estratégica que o momento um Clube como o Benfica exige.

Compará-lo, por exemplo, a Mourinho só por troça.

A Camacho, sim, com certeza: Flores é mesmo, em meu entender, em última análise, isso mesmo, isto é, um Camacho um tudo-nada mais sofisticado.
Tudo indica que será mais uma "baixa" a prazo de uma suposta "maldição" benfiquista que não tem, porém, nada que ver com azar e tem, sim, tudo a ver com uma série de péssimas opções em matéria de selecção de pessoal técnico, uma "selecção" que engloba nomes que vão de um inimaginável Ebbe Skovdahl (alguém sabe quem é ou quem foi?); passando por um dificilmente descritível Graham Sounness (uma nulidade como "técnico" de futebol! Onde anda ele hoje??!! Que clube treina??!!); por um cinzento, limitadíssimo, globalmente medíocre Fernando Santos; por um pura e simplesmente inexistente Ronald Koeman; a um Camacho cuja maior (ou cuja única?...) "qualificação" para o cargo era a de ter passado férias no Verão com o presidente...

Perante "casos" como estes, como é possível alguém falar de "maldição"??!!

Incompetência, isso sim, com certeza--e muita!

Tudo isto é sabido.
A única coisa que surpreende é que no contexto desta inépcia toda, o nome de Rui Costa comece a ser cada vez mais insistentemente mencionado.

Rui Costa??

Como é possível???


[Na fotografia--aliás repetida, aqui no blog--um grupo de jogadores do Benfica onde se inclui o "Diamante" este ano contratado e quase mediatamente após "encostado" por se ter atrevido a reafirmar aquilo que qualquer benfiquista sério e a sério sabe, diz e deseja: que a equipa de futebol não pode contentar-se em achar que "já não é nada mau" empatar com o Sporting em casa...
Mas o "Diamante", claro, conhece por dentro a mística e a cultura do benfiquismo--o que não manifestamente acontece com alguns outros...
Nota: na foto, tirada no velho Estádio da Luz, o "Diamante" é o segundo a contar da direita, entre o Chalana e o malogrado 'Manel' Bento]

"A Origem da Vida"

Falo aqui especificamente do quadro de Courbet (Courbet, senhora jornalista do "Público", não "Coubert"...)
Falo dele a partir de um texto de Pedro Mexia, igualmente vindo a lume no "Público" (que é que querem que eu faça, que eu leia? Não há mais nenhum!!...)
Não sei muito bem (humildemente o confesso!) quem é exactamente este Pedro Mexia que, dizem-me alguns, é escritor.
Seja! Bom proveito lhe faça: não são o Rodrigues dos Santos e o Guedes de Carvalho "escritores"? Então?...
De qualquer modo é a partir de um texto daquele, do Mexia, que retomo aqui a "polémica questão" do Courbet e da sua "Origem da Vida".
Ao que parece o quadro era mesmo para ser "pornografia".
'Isto da' pornografia tem, aliás, 'que se lhe diga'. A pornografia de ontem não é a de hoje e muuuuito provavelmente há-de pouco ou nada ter em comum com a de amanhã.
Se houver "amanhã", claro o que está muito longe de ser coisa garantida mas enfim...

Essa é outra questão...

A que pretendo levantar, aqui, agora, é a questão 'teórica' da "essência (im?) possível" da pornografia.
O quadro do Courbet tê-lo-á sido numa época de "proibição" rigorosa e oficial do corpo, uma época cultural (e cultual!) em que a 'suspensão'--senão mesmo a declarada "ilegalização" (ditas, uma e outra, "estruturais" ou "naturais")--deste eram dados genericamente adquiridos e globalmente «pacíficos».
Romper ("violar"!) através da emergência irrecusável (da emergência ou da evidência "brutal": "brutalmente irrecusável"!) dos factos a "barreira de segurança" constituída por tal tácita proibição era (podia ser precisamente na medida em que inquietava e perturbava "tudo", isto é, na medida em que induzia a--quase?--«urgência sensível» de uma reflexão autónoma, individual sobre "tudo", uma reflexão para mais totalmente desapoiada pela inércia tranquilizadora de um qualquer «catecismo» ou simplesmente da in/acção crítica "pura" das massas); proceder deste modo, dizia, era por tudo quanto disse, "pornografia".
A Cultura «ocidental» ("a-cidental"?) sempre, de algum modo, se caracterizou precisamente por usar as ideias (ou a "sugestão" abstracta delas na forma inteleccionalmente espúria de 'convicções') como uma protecção e uma arma contra os factos--no limite, contra o próprio Conhecimento como tal ou como possibilidade teórica de si.
Para mim, um dos mais importantes pensadores (dos mais lucidamente representativos, em todo o caso) do «Ocidente» é, não por acaso, Zenão de Eleia, o filósofo das aporias, da seta que teoricamente nunca chega ao destino e por aí adiante...
O catolicismo, uma vez completo como «objecto canónico» erigiu a agnosia (melhor: a semântica, no limite--"en fin de partie", como diria Beckett!) em "religião do oficial do Estado".

Dos Estados.

Se os factos (a factualidade objectual em redor) perturba(m), teorizam-se uns e outra continuamente (literalmente!) até ao infinito: algures na labiríntica geometria de uma hábil infinitamente reticular teorização há-de idealmente perder-se a própria noção possível de facto e, com ela (Deus seja louvado!) a necessidade, de algum modo, imperiosa mas sempre fatalmente inquietante, mortífera, da experiência...

Sade, por exemplo, foi "pornógrafo"?

Sade foi um dos mais lúcidos e brilhantes escritores do "Ocidente", um "Swift total", "seminal" (façam a experiência de ler, por exemplo--mas de ler sem ideias pré-concebidas!--toda a primeira parte da "Justine", esse "Candide" escrito "da cintura para baixo" que era a parte que faltava ao clássico voltaireano...) que elevou premonitoriamente o experimentalismo quase puramente "teórico" do 'iluminismo' ("salvaram-se" Rousseau, "algum Diderot" e pouco mais...) ao estatuto existencial ou (auto) dilacerantemente existencializado de "Conhecimento".

Antecipou, de golpe, Freud e Antonin Artaud.

Kafka e Charles Bukowski ou mais obviamente Jean Genêt.

Pasolini, Burroughs, Virginia Wolf e Joyce.

Numa palavra: foi maldito porque não soube parar.

Ora, a pornografia é, num certo sentido, precisamente "não saber parar".
Para o bem e para o mal (eu não disse "Bem" e "Mal", ham?! Disse só "bem" e "mal" que é muito diferente, entendamo-nos).
Uma "novela" da TVI ou uma "homilia" dominical de Marcelo Rebelo de Sousa são evidentemente (im) puríssima, verdadeiramente sórdida, pornografia; como, todavia, se limitam a ecoar de forma mecânica e infinitesimamente pormenorizada a imoralidade (im) puramente tácita e completamente animal das massas em redor, ninguém percebe e ninguém descobre que o são.
Outro tanto se passa, aliás, com os artigos "de opinião" de "ex-fascistas encartados" que acordaram, uma manhã, de repente "socialistas"--e subitamente inteligentes "par dessus le marché"...
...Ou com a solidariedade viscosa e moralmente tóxica dos falsos engenheiros e dos falsíssimos democratas em geral que os acolhem ternamente "em seu seio".
No que comummente se chama "pornografia" o que há de pornográfico (sem aspas: sem "ásperas", como diz uma vizinha minha...) nada tem, ao contrário do que defendem os hipócritas e os polícias de Braga, de especificamente sexual: o que há de pornográfico na "pornografia" (agora com aspas...) comum é o "ideal" de colonização de uma sexualidade por outra e de um dos sexos formais ou oficiais pelo outro.

Apenas isso.

Ou quase apenas isso: o resto é má qualidade narrativa, miséria plástica, indigência intelectual, etc.
Mas isso não é (nem de longe!) um exclusivo da vida sexual das formigas (das formigas morais e políticas, pelo menos) que somos.
Há-o (e de que maneira! Em que escandalosa profusão!) volto a dizer, nas lucubrações pantanosas dos tais ex-fascistas, por exemplo.

Ou num cachorro da Murk Donald's, para não irmos mais longe.
A pornografia é fazer das mulheres instrumento no sexo e do sexo instrumento nas "novelas".

Mas eu prometi que ia abordar o tema (a "questão": já repararam como a palavra questão tende a tornar-se uma palavra-chave numa certa semântica fascista típica? A "questão judaica"--eu não morro propriamente de amores pelos judeus mas por outras razões que não uma sua suposta inferioridade natural"...-- a "questão homossexual", "a questão feminina", etc. etc.); eu prometi, dizia, que ia abordar o tema a partir do texto de Pedro Mexia.
Que, no seu artigo, defende expressamente a natureza objectiva (e subjectivamente!) 'pornográfica' da obra de Courbet.
Diz ele (ensina ele!) que foi comprada por não sei quem que a pendurou não sei onde para fazer não-sei-o-quê com ela e por aí fora.

Pornografia, portanto.

Ora, já vimos como tudo isto é escorregadio e equívoco.

A pornografia na tela de Courbet está, como comecei por dizer, "in the eyes of the cultu(r)al beholder"--que Mexia também, claro, é.
É aí que ela está sempre, aliás.
Aí, isto é: nos fantasmas e tabus de cada um.
Quando o século XIX deixou, no caso vertente, por acção de um tal Courbet, de poder esconder a sua sensualidade numa "redoma teórica de segurança" chamada "Arte", reforçada por uma outra ainda mais aridamente abstractizante e teórica chamada "catecismo" ou mesmo "funcionalidade", deu de súbito consigo de caras, perigosamente nu e desprotegido perante a evidência aterradora dos «objectos» avulsos da Arte e/ou da funcionalidade como tal da "condição" (dita) humana e viu-se cada um na necessidade cada vez mais incontornável de formular um ponto de vista completamente autónomo e independente sobre eles.
A solução foi gritar "Pornografia! Pornografia!" até ficar (até ficar tudo em volta!) ideal (e literalmente!) surdo.
Neste sentido preciso, a pornografia é, pois, a sucessora, a "herdeira conceptiva" dilecta e legítima (mas também a cúmplice secreta!) da agnosia e da própria virtude, vista esta como a expressão atópica pura do zero crítico perfeito.
A virtude, aqui, é não pensar.
Para isso, que tal "pensar"?
"Semantizar".
Diluir-se idealmente numa onto-semântica onde tudo regresse ordeiramente aos seus lugares.
Deus ausentou-se por breves instantes?
"No problemo", como dizia o conhecido hominídeo ex-austríaco: invoca-se-lhe o Santo Nome por delicioso absurdo... na farda de um flic.
Às vezes, basta, até, para muitos, um simples... 'Flic' La Féria...