sábado, 16 de fevereiro de 2008

Do capitalismo enquanto gigantesco embuste global: um (para não variar: mau!) exemplo


Não gostaria, com toda a sinceridade, de fazer desta "entrada" no "Diário" aqui presente, um panfleto---longe disso.
A verdade, porém, é que é praticamente impossível não constatar, hoje-por-hoje, o modo como um número, no mínimo, muito considerável de ficções e de mitos largamente difundidos em matéria de História (e de Política!) contemporâneas envolve directamente o capitalismo: o capitalismo em sentido lato, o capitalismo como... "cultura" ou "residuação cultu(r)al inerte" de si mesmo, digamos assim.
Uma dessas ficções ou embustes prende-se, de modo estrutural, com a proposta de "dispensa técnica natural do Estado" propugnada, no plano (chamemos-lhe: pura---ou im-puramente?---"teórico") pela, poderíamos dizer: "esmagadora... totalidade" dos ideólogos do capitalismo hard core, muito em particular pelos da respectiva "versão" neo-liberal radical pós-moderna, correntemente em vigência entre nós em modelo "neo-reformador" e "social".
Sobre este aspecto particularmente falacioso e sofístico da Teórica da "civilização capitalista" envolvendo as (más) relações entre a "economia" e o Estado me debruço noutro ponto, pelo que me dispenso aqui de abordar esse aspecto (aliás, essencial) da questão.
Ocupo-me, agora, aqui, isso sim, de um aspecto distinto da questão, envolvendo esse tão estúpida quanto falaz ficção da "auto-suficiência absoluta da economia", uma "ideia tão cara (e tão... central, tão "de in/essência"!) relativamente àquela Teórica, em geral.
Fornece-me o ensejo imediato para essa reflexão a recente contratação por um clube desportivo (por acaso, o "meu"...) de um novo profissional para o respectivo plantel futebolístico, o avançado Ariza Makukula.
Supostamente, o essencial da Prática como da Teórica capitalistas assenta na livre troca ou na livre contratação entre não menos livres partes. No limite, advogam os ideólogos da "coisa", um Estado só serve para ajudar a consumar ou a consbstanciar este princípio nuclear e (quase?) autónomo, (quase?) auto-suficiente. Quanto à referida contratação sobre a qual tudo deve assentar, ela é (e permanece idealmente, ao longo de todo o processo) livre porque livrementre assumida e praticada, digamos assim.
Ou seja, dela todos "beneficiam" ou se sentem beneficiados no sentido exacto ao menos em que ninguém é compelido a contratar---ou a contratar-se.
Quando, porém, observamos o que se passa no futebol dito profissional, a falsidade de tudo isto fica imediatamente evidente.
Durante décadas de "economia" facista, vigorou entre nós uma figura legal caracteristicamente iníqua e desigual correntemente chamada "lei da opção" que conferia literalmener a "propriedade" dos jogadores aos clubes.
Após o 25 de Abril uma das primeiríssimas medidas tomadas pelo poder revolucionário foi a de acabar de vez com tão brutal mascarada jurídico-contratual, substituindo-a pelo princípio das livre contratação entre partes, sendo o princípio teórico subentendido o de que, se era preciso "ser capitalista" ao menos que se fosse com um mínimo de (efectivas) liberdade e justiça.
Não tardou muito, porém, até que a "restauração contrarrevolucionária" triunfante em Novembro de '75 pudesse reinventar formas ulteriores de sobre-exploração da mão-de-obra competitiva, engendrando uma leghislação transnacional de "protecção à formação" que lhe permitia gerar contínuas ultra-valias, ultra-valias "em cascata" através do expediente ("legalíssimo!) de sobre-contratualizar os serviços prestados pelos profissionais.
Recorda-nos agora, com efeito, o Diário de Notícias que as verbas da transferência de Ariza Makukula para o Sport Lisboa e Benfica vão gerar uma "cascata retroactiva" de benefícios que se estendem a todo o conjunto de clubes que... "formaram" o jogador.
A (eu diria:) a pouca vergonha da re/venda múltipla a retalho de um ser humano vai ao ponto de as verbas geradas na escandalosa manigância que é o reembolso de... coisa nenhuma prestado aos clubes "formadores" se estenderem além fronteiras (até França e Espanha) envolvendo inclusive um tal Brito Sport Clube (?) que não haverá nove pessoas... e meia em dez que sonhem sequer o que tal seja...
Quer dizer: em condições de lisura e honestidade contratual, um jogador rende aquilo que cada estádio de evolução do respectivo património pessoal técnico-competitivo permite, recebendo dele cada clube os benefícios competitivos que cada um dios estádios da referida evolução é capaz. Um clube "forma" um jogador? Pois, mas forma-o para quê? Para que o jogador jogue por esse clube. Para isso, treina-o o põe-no a jogar quando acha que ele está em condições de fazê-lo. E paga-lhe o que consideram ambos. jogador e clube, que o rendimento do jogador em causa merece. Durante um eterimnado período de tempo, o clube em causa pode permitir-se adquirir o "produto" competitivo em causa. A referida "formação" é apenas o conjunto de dispositivos técnicos de quie o clube se serve para utilizar convenientemente o jogador.
Utiliza esse conjunto de técnicas específicas (em treinos, etc.) em (natural) benefício dos seus próprios objectivos competitivos, nem mais, nem menos.
A isto não pode chamar-se legitimamente "formação", diria eu.
Pode (e deve!) sim, chamar-se-lhe, sim, a natural rentabilização de um activo competitivo a uma deteriminada escala. Um clube não é o Estado---que deve, esse sim, fornecer um serviço educacional. Um clube não "forma": valoriza, como disse, um activo.
A partir de um certo nível ou grau de crescimento técnico de um jogador, o rendimento do mesmo atinge em determinados casos um tal ponto que dita, por sua vez, um "valor de mercado" que passa a situar já fora do alcance das possibilidades económico-financeiras do clube em causa.
E naturalmente entram em cena outros intervenientes mais poderosos. É o "mercado".
O primeiro clube "formou"? Não! Comprou ou contratou o único "produto competitivo" a que podia aspirar, enquanto pôde aspirar a ele.
Pagou por ele o preço que podia pagar e teve o retorno competitivo que o "produto" em causa podia fornecer na altura.
Ou seja, trocaram-se serviços teórica ou convencionalmente equivalentes entre si por um preço entendido como "certo" e "justo" pelas partes em presença como sendo o "valor" dos mesmos serviços.
Cumprido, porém, o ciclo deve iniciar-se outro, o seguinte, com novos intervenientes de um dos lados, dado que o "produto" ou "serviço" em causa é agora entendido de forma objectiva como sendo outro substantivamente distinto.
Enquanto... "formou", o... "formador" não deixou de ter o retorno "justo" do seu investimento na preparação do jogador. Conservar sobre o jogador/produto em causa qualquer poder sobre- ou meta- ou ultra-contratual é imoral, ilegítimo e jurídico-democraticamente insustentável. Um profissional não é um caça níqueis imoralmente permanente: é alguém que "vende" um serviço por um preço. Prestado o serviço em causa, a relação contratual livremente assumida deve de imediato cessar de gerar lucros numa direcção e num sentido que se acham real e integralmente cuumpridos---e pagos.
O clube "formou" e tem, por isso, legítimo direito a uma compensação?
Então e nos casos em que a evolução do jogador em causa não deu para tornar o referido jogador numa "mina de ouro": deve o jogador em causa exigir legitimamenter ser ressarcido do fracasso da "formação" em causa, alegando, desde logo, que o formador "falhou" e não cumpriu a sua parte do acordo?
Uma Direito democrático não pode apenas valorizar positivamente a figura real ou não da formação concebendo ou aceitando um valor autónomo, tipificado, para ela: tem de simetricamente valorizar negativamente a não-formação, estipulando, para ser realmente justo, valores negativos, valores de indemnização para os casos em que o processo não siga o referido percurso triunfante ou ascensional.
O embuste de que falo no título reside exactamente aí.
(Uma nota final para a fotografia que encima esta "entrada" e que é, realmente, notável. De autor---para mim---desconhecido, a ela presto, quanto mais não sejka através do recurso de republicá-la aqui, as minhas tão sinceras quanto vibrantes homenagens).




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A "alfabetização significada" e as novas formas de sindicalismo


Começa a tornar-se cada vez mais óbvia e irrecusável a necessidade de uma profunda evolução nas formas de sindicalismo até agora vigentes.

Quando digo de sindicalismo, digo do sindicalismo genuíno, entenda-se e não daquelas formas de pseudo-sindicalismo ou quinta-coluna "amarela" introduzida de modo perversamente exógeno no movimento laboral a fim de criar neste a ilusão mais ou menos estável de um poder e de uma capacidade organizativa porém completamente manipulados e, por isso, de todo inexistentes e virtuais.

A verdade é que, com a introdução muito recente na sociedade portuguesa daquelas formas de efemeridade e (des) estrutural fragilidade ou insubstancialidade da vinculação laboral que eram até aqui características do paradigma de capitalismo "liberal" puro-e-duro (cujo expoente máximo era---e continua, aliás, a ser!---o capitalismo norte-americano) a única maneira de o sindicalismo voltar a encontrar-se organizativamente com sucesso e eficácia com o seu "povo natural" e específico que são os trabalhadores consiste, a meu ver, na integração na própria actividade sindical básica e essencial daquelas formas de organização colectiva, de organização grupal, que se encontravam tradicionalmente reservadas a outras áreas do social e até do cultural.

Refiro-me, designadamente, às colectividades populares, recreativas e desportivas até aqui, como atrás dizia, um universo em princípio completamente "excêntrico" em relação ao universo laboral e reivindicativo específico.

Ora, aquilo que eu penso é que com a precarização cada vez mais estável e consistente dos vínculos laborais, quem quiser voltar a "encontrar-se com" os verdadeiros sujeitos do mundo laboral que são os trabalhadores por conta de outrem tem de procurá-los cada vez mais a montante desse mesmo mundo laboral---que é como quem diz: tem de começar a procurá-los antes (e fora!) dele, nos locais de diversão, nos de reunião, nos campos desportivos, nas próprias casas.

Tem de perceber que (como, de resto, acontecia por razões formalmente distintas antes de Abril de '74) todas estas instituições voltam a desempenhar um papel político essencial em face da desestruturação e da precarização consistente do Trabalho que, por sua vez, conduziu, como se sabe, à des-integração praticamente total do proletariado (real mas também potencial) tradicional tipo ou típico.

Ou seja, hoje, num tempo histórico e político, num tempo civilizacional, em que é praticamente impossível ver reunida uma classe operária numericamente expressiva numa qualquer fábrica (o modo como o capitalismo integrou o conhecimento sob a forma de tecnologia na própria História acabou fatalmente por conduzir à inevitabilidade da "desactivação" final de uma classe operária como aquela que em alguns pontos do mundo chegou a existir até há bem pouco tempo); num tempo histórico, civilizacional e político como este, dizia, aquilo que se impõe com o objectivo de reorganizar o universo do trabalho é a reactivação daqueles paradigmas de educatividade ou mesmo de "alfabetização significada" que, em lugares como a Margem Sul do Tejo eram ministrados pelo teatro popular, pelos cine-clubes, pelas campanhas de alfabetização segundo métodos e propósitos não exclusivamente (muito pelo contrário, de facto!) centrados na aprendizagem "pura" e simplesmente "técnica" da leitura e da escrita.

Num mundo em que a classe operária "desapareceu", pois, de todo, é tarefa essencial, básica, do sindicalismo 'fazer-se cada vez mais escola' assim como cada vez mais "civil". É tarefa sua operar agora (e de mais de uma maneira) sobre a noção e a percepção própria dessa inexistência objectiva e, muito em especial, subjectiva que é a classe. No sentido de dar a perceber por todos os meios característicos do recreio e da diversão conmo é possível (e como é vital!) fazer da não-classe uma verdadeira classe a partir da própria percepção da transformação da antiga classe no seu contrário, se assim é possível dizer.

Ou seja: com recurso à escrita e encenação de peças teatrais expressamente concebidas com o propósito de atingir níveis expressivos de 'alfabetização estética' mas também necessariamente política dos indivíduos; ao "visionamento significado", isto é, colectivamente debatido de filmes ou simples noticiários televisivos levado a cabo com o objectivo básico de dar a perceber criticamente a toda a gente (a) o modo como se chegou ao estado de total inorganicidade laboral, social e política presente; (b) o que isso significa em termos da própria im/possibilidade objectiva de participar efectiva (leia-se: democraticamente) na divisão social, histórica e política do próprio poder; (c) resumindo: quais as formas realmente eficazes de unir secundária ou terciariamente numa nova classe organizada (e, por conseguinte, também de novo orgânica) os fragmentos dispersos do antigo sector laboral.

Ou seja: 'perdida' numa primeira fase a Fábrica ou o Escritório, é tempo de o "novo trabalhismo" começar muito "mais atrás" a fim de encontrar activamente a Cidade nos mais diversos sentidos e acepções do termo---e, sobretudo, da Ideia.




A incultura é uma próspera indústria "socialista"


Assim parece, com efeito!

É, de resto, qualquer coisa para a qual eu próprio (com toda a modéstia e o quase anonimato que naturalmente permite caracterizar as minhas reflexões---também---neste âmbito) já tinha alertado, entre outros ensejos e ocasiões, num artigo publicado n "O Professor".

N "O Professor" de "outros tempos", entenda-se---mas isso são outros contos...

Aquilo que aqui interessa agora é basicamente sublinhar (e escandalizadamente verberar!) o modo como a prodigiosa (e escandalosa!) petulância do chamado Ministério da Educação dito (ou dita) "socialista" se propõe objectivamente fazer, desta vez ao ensino musical (que é, pura e simplesmente acabar com ele de vez, reduzindo-o àquele estado cataléptico de "pouco-mais-ou-menos generalizado" que é a Cultura para ele) é algo que decorre naturalmente da sua... política global para a... "Educação" e que era, aliás, já há muito, no fundo, fácil de antecipar ou de adivinhar por quantos não lhe ignoram as manhas e já lhe conhecem de gingeira as habilidades e os truques.

Ou seja, dito de outro modo: quando se pretende entregar, por todos os modos e maneiras possíveis, a condução da política... "educativa" a praticamente "toda e qualquer coisa que mexa" na sociedade (com a única excepção dos educadores, claro!); quando, para um poder "político", "educar" é, em última (mas real!) instância, produzir (leia-se: fabricar, arquitectar, engenhar: "to cater"...) por encomenda "quadros" feitos à medida da respectiva avulsa requisição pelo inveteradamente bronco e geralmente 'arqueológico', tecnológica para já não dizer social, mental e até civilizacionalmente ultramontano, charro, primário (primaríssimo!), fatalmente tapado, empresariado nacional, "cozinhando" currículos à medida dos venalíssimos anseios deste; quando as "escolas" são por ele vistas como grandes usinas de "peças humanas" para "El-rei Produção" assim como (claro!) locais de... "eleição" onde a insegurança, a efemeridade, a discricionaridade, a instabilidade ou, numa palavra, a... "flexibilidade" começam a ser tão precocemente quanto possível ensinadas e (idealmente) aprendidas; quando assim acontece, quem pode honestamente espantar-se se essas coisas estruturalmente in-úteis, económico-financeiramente "neutras" e, por conseguinte, naturalmente in(o)portunas que são a Cultura, o (livre e realmente educado!) Pensamento (alcançável através do Estudo sério e consistente---do Estudo autónomo, não-mercenário---da Filosofia, da Literatura, da Música e por aí fora) se tornam excrescências para não dizer: "naturalíssimas"... excreções no contexto de um "sólido e consistente" plano de... "estudos"?...

Quem, na verdade!

Só os de todo muito ingénuos ou muito tolos, seguramente!...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Da política como "ciencialidade pós-moderna" por excelência...



Segundo alguns, viveríamos todos nós, portugueses, hoje-por-hoje, numa "era" (não do vazio, como dizia o Lipovetski) mas (vivó luxo, estamos a viver bem!) "da informação" e "do conhecimento".


Há mesmo quem (um tal Sócrates que, em alguns círculos mais fáceis de persuadir passa muitas vezes por engenheiro e---mais extraordinário e divertido, ainda!---por primeiro-ministro de um país europeu...); há quem, dizia, pretenda mesmo que apanhámos todos um... choque, um choque, chama-lhe ele: tecnológico.


O mundo, ao que parece, está cada vez mais cheio destes ficcionistas e "malabaristas pós-éticos da argumentação" capazes de verem tecnologia onde há quase somente gente que lê a "Caras" e vê o "Não-sei-quem-na-têvê"; que não perde um episódio desses narrativamente tenebrosos "Fascínios da TVI" e chama "inteligente e culto" ao Rebelo de Sousa e (até, imagine-se!) "escritor" ao Sousa Tavares...


Pois, a verdade é bem diferente---e por razões históricas e políticas perfeitamente identificáveis e definidas.


O "desenvolvimento" segundo o capitalismo faz-se, não em obediência a qualquer paradigma reconhecível de partilha minimamente democrática (e minimamente possível!) do Capital-conhecimento ou do Capital-informação mas, exactamente ao invés, e, repito, por razões histórica e politicamente demonstráveis, segundo modelos de estr(e)ita e rigorosa privatização do conhecimento essencial---operação que é, obviamente, um pressuposto autenticamente elemental e nuclear de transformação "sistémica" de si mesmo em "valor", digamos assim.


Na sequência directa e natural do processo político de "enclosure" que marcou a ascenção do capitalismo industrial a "regime" económico-político e 'civilizacional' e do "Ocidente", o próprio "desdobramento" (o "deployment") subsequente do processo ou do «modelo civilizacional» forçou a que da terra e das "coisas" da terra se passasse ao próprio saber necessário para extrair dela(s) "valor significado" o que teria de conduzir tão inevitável quanto "naturalmente" ao paradigma básico de "cisão gnoseológica nuclear" sobre o qual assenta primariamente o modelo de "desenvolvimento" capitalista contemporâneo, tal como o (não?) conhecemos.


Não passa de um completo embuste, nestas condições históricas, económicas e políticas, falar de sociedade "do conhecimento" ou "da informação": do uso ou usos económico-políticos da informaão e do conhecimento, sem dúvida.


Mas alguém se atreve sequer a dizer que esta é uma sociedade "da democratização efectiva do Capital, por exemplo?


Ora, sabendo nós (e sabendo as grandes multinacionais que o convertem tão laboriosa quanto, no fundo, secretamente em "valor") que o Conhecimento nas mais diversas formas e com as mais diversas aparências se tornou, hoje-por-hoje na verdadeira matéria-prima básica e essencial da "re/produção" de Capital, como pode alguém dizer que a "propriedade deste se socialixzou ou democratizou"?


Mais: como pode alguém imaginar sequer que essa "socialização" e essa "democratização" sejam, em si mesmas, possiveis?


Ao contrário daquilo que historicamente aconteceu quando, com a Revolução Francesa, a burguesia se viu, em resultado da pressão directa da própria História, obrigada a ser revolucionária, hoje essa mesma burguesia que outrora o foi está, em resultado das novas formas que assumiu aquela pressão, obrigada a ver como literalmente "subversiva" qualquer verdadeira alteração dos padrões de propriedade histórica e política, estr(e)itamente privada dos (vou dizer assim intencionalmente) meios de produção de saber ou conhecimento.


Há que perceber cabalmente a in/essência deste fenómeno histórico, económico e político no seu todo (assim como tê-lo sempre presente no espírito quando se pretende equacionar, hoje-por-hoje, desde logo e por exemplo---do meu ponto de vista pessoal e profissional, prioritário---o problema da Escola, sobretudo pública, contemporânea.


Tal como qualquer sector ou área do Estado em geral, ela está hoje completamente desacreditada pelo próprio sistema e reduzida à condição literalmente ancilar e menor de receptáculo inerte do conhecimento-capital, continuamente desactivado pelo sector do capital privado, logo que deixou de servir como a tal matéria-prima elemental da produção de "valor".


É a isto que eu chamo o pós-Escola.


E é aí que se faz, a meu ver, a divisão clara entre uma burguesia ainda revolucionária (e que utilizou consistentemente o argumento-saber para legitimar histórica e politicamente o seu direito a aceder à propriedade da propriedade assim como da própria História em geral, deixada naturalmente vaga pela aristocracia decadente---situação que, por seu turno, determinou a emergência na História de uma Escola burguesa realmente democrática: a da primeira burguesia ou burguesia positivista); é aí, pois, dizia, que se faz, então, a divisão entre essa primeira burguesia revolucionária e a actual burguesia que lhe sucedeu e que resulta de se ter esgotado definitivamente (pelo menos, em termos de ciclo) o acesso à propriedade, uma vez preenchidas as vagas existentes nesta.
[Na imagem: um friso de "baixas" do Progresso]



Há dias em que não sou mesmo nada "de esquerda"...


Em dois ou três domínios, não o sou, com efeito.

Quero eu dizer: dessa espécie de... 'esquerdalha' acéfala, interesseirona e obstinadamente indefinível que até há bem pouco se acoitava no 'meloso' "pê-ésse" de Soares & Co. e que hoje parece ter-se definitivamente "mudado para" (ou "alojado" no?) pós-político (e eticamente... "desempoeirado" ou "descontraído" e sempre alegremente por completo "descomprometido") "neo-pê-ésse" de Sócrates e quejandos.

Por exemplo(s): sou (determinadamente!) pela legislação anti-tabágica (que, de resto, continua a parecer-me ainda excessivamente permissiva e, sobretudo, permissivista, digamos assim); também discordo (e frontalmente!) da "legalização" do consumo de (mais?) drogas; e, inclusivamente em matéria de 'despenalização do aborto', mantenho as (aliás, seriíssimas!) reservas que nesse âmbito sempre mantive (não por acaso nem por desleixo ou por ausência de consciência cívica e política, fiz, aliás, questão essencial de não votar no respectivo referendo).

Mas comecemos, então, por este último caso, o da famosa 'despenalização do aborto': no domínio deste, discordo obviamente daquilo que, a meu ver, em termos práticos, é muito provável que venha a resumir-se, em última instância, ao abandonar mais ou menos definitivo de qualquer projecto minimamente consistente e sólido de Educação Sexual e Planeamento Familiar a levar a cabo no improvável dia em que Portugal consiga finalmente ter um governo simultaneamente sério---e a sério.

É claro que, na prática, haverá sempre os que, em público (mui virtuosamente, aliás!) hão-de fazer um verdadeiro "espectáculo" (às vezes, de marionetas mas enfim...) do caracteristicamente sonoro vociferar contra a "cultura de morte, em defesa da vida" e coisas similares mas que, na confidencialidade das urnas onde tudo se decide realmente (nas Democracias como nas... "retrocracias" e nas "demomorfias instrumentais" do tipo daquela sob a qual temos todos de---não sei se será correcto dizer assim: viver) não deixarão de dar o seu inestimável contributo para continuar a entregar o poder de conservar literalmente intacto o statu quo cívico, civilizacional, institucional e, em geral, político aos mesmos que da manutenção integral desse mesmo statu quo fazem um (aliás, chorudo!) modo-de-vida senão mesmo uma mais do que lucrativa... indústria, económica e política.

Não percebendo ou fingindo não perceber esses cidadãos eleitores que, enquanto supostos políticos com os virtualmente incontrolados poderes que hoje possuem puderem seguir "democraticamente" mantendo-os (e sobretudo, mantendo-os nessa obscena condição de poder objectivamente absoluto) nada mudará, naquele plano ou naquele nível onde ela realmente se forma e se determina, na tal cultura "de morte" que, todavia, fazem pública (e sempre convenientemente ostensiva e ruidosa!) questão de seguir "veementemente desaprovando"...

Depois, a "tal" questão das drogas: também aqui, "despenalizar" equivale, em termos práticos, a avalizar a "transferência" política do pingue negócio da "aquiescência política objectiva" e/ou da "alienação por via química" das mãos das (quase?) "margens" do próprio sistema económico-político-financeiro como tal para o próprio interior deste, com tão óbvia quanto incalculável sobrevantagem para a indústria química "legal", num amplíssimo (mas imoralíssimo!) leque que vai das multinacionais suiças às norte-americanas, das Roches às Pfizer e ao próprio sistema bancário no seu todo---e vice versa.

Também, aqui, se não consegue, muitas vezes, discernir entre lutar efectivamente (neste caso, contra as drogas) e fazer exteriormente que se luta com o único propósito (político, meus senhores, político! Político mas no pior dos sentidos possíveis da palavra!) de conservar sob tão "relativo" quanto "exteriormente decoroso" controlo os inevitáveis "efeitos im/puramente colaterais" do consumo generalizado dessas mesmas drogas (designadamente, as taxas de incidência do HIV ou da hepatite B).

A verdade, todavia, é que seria democrática e até civilizacionalmente vital que se entendesse com toda a clareza que ceder dessa forma no combate às causas últimas que favorecem o consumo equivale, em última mas real instância, a caucionar de facto todo um modo de vida económico, social e político, toda uma injustíssima... "civilização" assente na geração (de facto, in) essencial das mais profundas e inevitáveis desigualdades; na desestruturação constante e consistente das famílias; na "produção" estável e "sistemicamente elemental" de carência(s) de toda a ordem e obviamente de níveis cada vez mais gravosos de desemprego, (como dizer?) "indexado" que se encontra este último, como se sabe, à injustissima e descentralíssima "integração política" da tecnologia na História feita pelo capitalismo industrial mas, sobretudo, pós-industrial; numa "civilização", numa palavra, assente em tudo aquilo que gera em muitos de nós a pulsão consumidora primária que é, afinal, o que alimenta na base a produção e o comércio ou a indústria hoje-por-hoje, de facto apenas aparentemente ilegal das drogas, onde quer que ele exista e/ou floresça.

Por último, o item tabaco.

O neo-obscurantismo pró-tabágico que pretende de uma forma tão estúpida quanto intelectualmente criminosa (de uma forma, na in/essência, em tudo... 'medieval'!) fazer da negação das conquistas (e até das evidências!) científicas uma mera questão supostamente "filosófica" de "liberdade" e (epistemológica e cientificamente mais grave ainda) "de opinião" encarniça-se a propugnar pelo triunfo do "direito democrático" ao "livre arbítrio" e à "livre" opção via vício.

Ora, eu poderia até aceitar que cada um pudesse (ou mesmo, em tese, devesse) gozar de um qualquer 'direito democrático' a matar-se "por roleta russa" ou por qualquer outro meio mais ou menos "excitante", "gozoso" e "estatístico"; aquilo que já, porém, não admito em caso algum é que os 'suicidas estatísticos por via nicotínica' beneficiem do direito a ocupar o lugar, no que resta do Serviço Nacional de Saúde, de nem que seja um único daqueles cidadãos doentes que, porém, nada mais fizeram para contrair os respectivos padecimentos do que trabalhar ou simplesmente viver e que têm, assim, tantas vezes, de esperar que aquele cada vez mais decrépito e periclitante 'Serviço'... "Social" atenda os... suicidas para poder, então, dedicar-lhes uns minutos (e uns euros públicos!) de cuidados...

Mais: não posso admitir (nem admito!) que uns tantos "comam os figos" de uma boa cigarrada ou de uma "suculenta" cachimbada mas seja a outros (a todos nós, afinal) que "rebente a boca" quando se trata de custear o "prazeiroso direito" daqueles cidadãos tão injustamente privilegiados no acesso ao... "livre" "suicídio nicotínico"!...

Assim, é fácil (e comparativamente barato!) ter "direitos individuais": se for (como efectivamente é!) em 'regime' de "eu gozo, todos pagamos" até nem se pode dizer que seja mau negócio!...

Ora, é nestes casos que eu decididamente não sou nem quero ser... "de esquerda".

Mas "de esquerda" com aspas, entenda-se...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Com o teatro de António Patrício, a caminho da abstracção integral


Regresso a António Patrício para salientar uma ideia que me parece (ao menos, possivelmente) relevante e (talvez) significativa; uma ideia ou impressão que, de resto, avanço já noutro ponto deste "Diário": a de que há na obra do Autor de "Denis e Isabel", tantos instantes marcados pela existência de um registo desesperada (ou mesmo: desesperançadamente) paroxístico não apenas circunstancialmente reconhecível mas também possivelmente distintivo e significativo que se é, sem dificuldade, levado, com frequência, a discernir (eu diria: por debaixo da) em geral reconhecivelmente 'figurativa' ordem dos textos, uma espécie de emergente (e persistente!) descontinuidade ou "corte" [no mínimo: de subtil, (in) discreta "ranhura gnoseológica"] entre as emoções representadas e a sua origem factual (ou fáctica)---situação que, a ser verdade, poderia encorajar a que, também por este ângulo ou por este... vértice, digamos assim, devêssemos, hoje-por-hoje, proceder a uma reconsideração atenta e, mais do que sistemática, sob diversos aspectos: sistémica, da opus patriciana, no seu todo.
A (minha) ideia, pormenorizando-a um pouco mais, é esta: existe no registo patriciano (melhor dizendo: persiste---volto a dizer: em tese---nele) uma espécie de impulso (ao que tudo indica, de dificílimo controlo autoral) no sentido da focagem (chamemos-lhe: conceptiva, teórica, teorética) em predominância no enquistamento e/ou "residuação/absolutização" persistente das emoções e dos estados de espírito em geral (da impressionalidade aí contida)---verificando-se isto com tal persistência e tal admissível relevância, repito, que é difícil, em meu entender, não ver aí uma porta (chamemos-lhe:) 'de episteme' para uma gradual abstractização (des?) estrutural e, ainda assim, possivelmente orgânica da própria escrita do Autor, no seu todo.

É, diria eu, um processo em tudo idêntico de "desfixação" ou "descentração" do continuum objectivo/subjectivo que leva um Cézanne ou um Van Gogh, por exemplo, a "descobrirem", mais ou menos unilateral ou mais ou menos espontaneamente, a pintura "abstracta".

Ora, é, a meu ver, por aqui que se chega, também, de Patrício a... Kafka---e vice-versa.

É por essa impressão de que as... impressões se desfixam e residuam, autonomamente e de modo consistente, dos factos ou da factualidade que, em tese e em princípio, as determinou e gerou.

Ou seja, é, no limite, por aí, se vai da organicidade conceptiva mais ou menos consistente e em geral estável (que caracteriza globalmente a Modernidade Cultu(r)al dita «ocidental») para a inorganicidade completamente desestrutural característica da Pós-modernidade, isto é, quando as emoções e as impressões se "soltam" integralmente dos factos, se alienam e se convertem secundariamente em objectos mais ou menos puros que, em vez de daqueles seguirem naturalmente derivando, iniciam, por sua vez, um (des) processo próprio independente, segundo o qual as afrontam e, tão autonóma quanto consistentemente, desafiam e emulam.

E, por essa via, chamemos-lhe plenamente inversional passam a ser eles a determinar autonomamente factos e "factualidade(s)" completas próprias---totalmente independentes.

E aí, pronto--aí é já Kafka.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Ainda "Kafka e António Patrício"


Quando, noutro lugar, digo que António Patrício "prevê com grande precisão Kafka" (não foi rigorosamente assim que o disse mas a ideia é basicamente essa, sem dúvida) quero, na realidade, (ainda) dizer que há, com efeito, no Autor d' "O Fim", seguramente, uma tal paroxística pungência (mesmo quando se disfarça de estóico e resignado fatalismo); um tal "espírito" (ou um tal obsidiante, desesperado "élan") concentracionário (que vejo, de resto, também, por exemplo, no Garrett do "Frei Luís de Sousa" onde, como acontece claramente n' "O Fim" de Patrício, toda aquela gente se junta para morrer ou para se extinguir definitivamente numa espécie de orgíaco ou mesmo orgástico, metaforicamente sempre um pouco incestuoso cerimonial de Morte. "Jeu de massacre" me permiti chamar-lhe algures...); quando, pois, afirmei aquela ideia que atrás refiro, queria claramente dizer que há, no Autor d' "O Fim", um tão profundamente erotizado fascínio pela impossibilidade, pelo 'huit clos' e pela extinção (pela impossibilidade estrutural de Razão e pelo sonho natural da extinção num mundo---e de um mundo---completamente "nu" dela); um mundo onde as impressões e as emoções se soltaram já dramaticamente dos laços que, em tese, poderiam prendê-as (e conservá-las presas) a um qualquer "sentido" reconhecível minimamente estável; um mundo onde a realidade é tão desmesuradamente grande para a frágil Razão possivel que a cada um de nós só resta renunciar de vez a ela e aceitar naturalmente a normalicidade absoluta da loucura; quando, retomando o início da frase, tudo isto é (em tese, pelo menos...) possível ou passível de ser dito a propósito do Autor d' "O Fim", é, na realidade, a meu ver, por outro lado, muito difícil não ser levado a "re/ver" (integralmente?) não apenas Patrício à luz de Kafka mas (porque não?!) de algum modo, o próprio Kafka (a sua inserção, o lugar que ocupa, na cultura ocidental, seguramente) à luz do que sabemos (ou julgamos saber) sobre diversas outras obras "descobertas ou a descobrir"---a começar pela Obra visionária, única e, sob tantos aspectos, premonitória do Autor d' "O Fim".
[Na imagem: Kafka em Tativille]