sábado, 7 de agosto de 2010

"Sobre a Abertura das Grandes Superfícies ao Domingo: uma Visão de Esquerda"

Pareceu-me importante trazer hoje, aqui ao “Quisto”, a questão em epígrafe da abertura dos hipermercados ao Domingo.

E faço-o, devo dizer, assumindo conscientemente uma perspectiva que poderá naturalmente surpreender quantos me conhecem assim como àquele que é não menos assumidamente o posicionamento ideológico e político do blogue e obviamente do se titular e anfitrião: a de incondicional concordância com quantos [ainda que se trate do patronato e do social e politicamente ínfimo e menor governo de Sócrates] a preconizam.

Porque, de repente, tenha eu mesmo, sem saber, viradosocrático” ou [tão mau como isso...] “cavaquista”?

Claro que não!

Parece-me é que a tentativa [não duvido que, em si mesma, generosa e bem intencionada] de quantos vêm, num certo espírito de instintivamente generosa… “esquerdidade”, a público tomar posição solidária com o “underdog” [neste caso o “underdog” comercial que é o pequeno comércio retalhista] de deter o esmagamento final desse mesmo “underdog” não passa, de facto, do projecto, tão “quixotesco” quanto realmente vão, de deter o próprio “progresso”.

O que para o “sistema” surge óbvia e inescondivelmente como tal.

Ou seja: o que é e como se posiciona no contexto das sociedades ditas em geral [e muito acriticamente] ‘modernas’ um hipermercado?

Do ponto de vista de quem os dirige e possui é uma máquina de fazer dinheiro, claro.

De escoar produtos, próprios ou alheios.

De reciclar e multiplicar, re/produzir, capitais investidos nos diversos ciclos ou estádios do próprio processo de produzir autonomamente capital na área comercial.

Do ponto de vista do mercado [que é evidentemente uma parte e um utensílio, uma fase crucial do próprio sistema] são uma forma de fazer girar continuamente esse mesmo capital o que, do ponto de vista de quem o produz é obviamente, por sua vez, um modo de “valorizá-lo” ulteriormente e utilizá-lo na condição verdadeiramente in/essencial de “matéria-prima” da produção do próprio capital que é, como ninguém que pense um pouco duvidará, a única coisa que verdadeiramente é produzida pelo sistema como tal, sendo todos os bens de autêntico consumo em circulação actual ou futura nele meros subprodutos dessa indústria nuclear e verticial que é a da produção do próprio capital.

Do ponto de vista do consumidor médio moderno e pós-moderno, porém, eles revelam-se importantíssimos por duas razões primárias, básicas: porque lhe permitem obter preços comparativamente mais baixos dado que o investidor adquire por atacado as mercadorias que lhe servem de ferramenta no comércio de capital a que se dedica e porque lhe possibilitam compaginar os seus próprios horários de trabalho com a necessidade de comprar e, ao mesmo tempo, lhe permitem gerir com maior autonomia os períodos de necessário e justo repouso.

Para tudo isso, emergiram nas sociedades capitalistas contemporâneas as chamadas “grades superfícies”.

Tentar, ainda que generosamente, travar o “desenvolvimento” natural da própria lógica específica do capitalismo comercial “indo juridicamente um pouco atrás” buscar aqueles que essa lógica está inevitavelmente condenada a aniquilar não só não tem, do meu ponto de vista qualquer lógica em si mesmo como acaba por condenar a pouca que o sistema pode, apesar de tudo, possuir.

A solução para os problemas do pequeno comércio, sejam eles problemas de consumo, de habitação ou até de serviços, passa, em meu entender, obviamente por algo que já devia estar há muito a acontecer, patrocinado por quantos pura e simplesmente acham que “há vida para além do totem capitalista” e não aceitam consequentemente o paradigma producional e relacional por ele gerado e determinado como o único alicerce económico das sociedades modernas.

Verdadeiramente modernas.

O cooperativismo.

Não se pode [é quixotesco e, a todos os títulos, absurdo] pretender, de forma, por isso mesmo, arbitrária e espontânea [eu diria mesmo: “espontaneísa”] deter a poderosa máquina capitalista hoje-por-hoje solidamente instalada no “subsolo funcionante e representacional”, [“cultu[r]al”, até] das sociedades ditas “modernas” quando aquela, num determinado ponto em particular do seu funcionamento ‘normal’, fere ainda mais do que o costume os interesses dos que se acham, como diria um observador ou um falante anglófonos, “do lado errado” do próprio sistema.

Pois não---mas pode-se obstar a que destruam tudo em seu redor contrapondo-lhe paradigmas humanizados fruto de uma concepção radicalmente distinta, humanista e mesmo “essencialista” de redistribuição da riqueza e até de entendimento e consideração da natureza real dos produtos em circulação na própria sociedade.

Pode-se fazer pedagogia da relacionalidade humana nas suas diversas formas [relacionalidade dos indivíduos com a realidade, consigo mesmos e com os frutos do seu trabalho, com a vida enquanto tal, para já não falar na que deve saudavelmente estabelecer-se entre os indivíduos e os utensílios em geral de que eles se servem para “abordar e explorar” continuamente essa mesma realidade] através, repito, da contraposição aos modelos predadores em todos esses domínios de paradigmas verdadeira e responsavelmente alternativos que, neste caso, seriam [são] obviamente os tradicionais modelos de organização co-operativa e ressocializadora.

Ressocializadoramente co-operativa ou co-operativamente ressocializadora.

É, em meu entender, o único caminho coerente e consistente.

Coerente com os verdadeiros valores de Progresso---e por isso mesmo, consistente.

O resto não passa de combate contra moinhos de ventos, à partida condenado ao insucesso, generosidade vã e/ou mera “boa consciência” vácua e inutilmente apenas [“if at all] “reformista”.


[Na imagem: gravura extraída de direitoeeconomia-dot-com]

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"The Tripped-Up Civilization" [Incompleto, por rever]




quinta-feira, 5 de Agosto de 2010

Algumas notas soltas:1.


Ainda a propósito do conceito de "solidiariedade funcional" [envolvendo a necessidade de uma profunda---de facto, tal como a vejo: estratégica---reconceituação por parte da própria globalização capitalista da ideia de solidariedade internacionalista integrada na sua própria ideia e no seu próprio modelo estável de desenvolvimento em substituição da velha noção, não-expressa mas amplamente praticada, de desenvolvimento unilateral]; ainda a propósito desse conceito, dizia, encontro no "Público" 04.08.10 duas referências interessantes---e significativas---que retomo aqui porque ajudam a explicitar ulteriormente algumas das ideias que defendo nesta matéria.

Uma tem directamente que ver com o tema que abordo imediatamente a seguir neste "Diário": aquele onde se referem [e se analisam] alguns aspectos da tensão existente em França, desta vez não imediatamente a propósito da "questão" do véu islâmico mas de uma proposta de lei envolvendo a possibilidade de, em certas condições, ser retirada a nacionalidade francesa aos perturbadores da ordem social.

A ligação entre esta lei e a inaptidão dos países da chamada 'União Europeia' de um modo geral para lidarem com as questões levantadas pela imigração maciça de gente oriunda sobretudo das antigas colónias é, a todos os títulos, evidente.

É mesmo esse o cerne da questão, de resto: o modelo de "desenvolvimento descentral" adoptado pelo capitalismo exo- e endo-colonial assenta nuclearmente na «desertificação tecnólogica e produtiva» "estratégica" [aquilo a que também chamo a componente-factor "carencialidade possibilitante de valor"] das nações fornecedoras de matérias-primas e/ou sociedades-mercado---o que arrasta inevitavelmente consigo, rompidos certos níveis de "estase ecoforme" ou "de segurança" entre capital variável e capital fixo dentro e fora das nações ou sociedades envolvidas, fenómenos de "ondulação social" transfronteiriça que acabam conduzindo ao afluxo mais ou menos desordenado de pessoas das economias frágeis para as outras.

Tradicionalmente, as potências colonizadoras foram, a dado passo, percebendo a conveniência de "desenvolver educada ou mitigadamente" as sociedades fornecedoras de matérias-primas mas sempre em função dos seus próprios interesses económico-financeiros e sempre sem que os níveis de investimento em "carencialidade estratégica" baixassem a ponto de permitir um verdadeiro desenvolvimento local e, portanto, pudessem envolver a ameaça de concorrência efectiva, real, por parte das nações colonizadas, fornecedoras de matérias-primas.

Os próprios padrões culturais e cultuais de desenvolvimento associados a factores de ordem política e político-jurídica [independência formal das antigas colónias co a não menos sobretudo formal ascenção do colonizado a cidadão, com direitos e exigências próprios] ou, por exemplo, climáticos assim como, centralmente, à ruptura dos valores 'de segurança' no âmbito da equação capital constante-capital variável levaram a que a partir de dado ponto se tornasse impossível reter na periferia de um sistema global que desertificara económica e social ou até politicamente as respectivas margens grandes massas humanas também perifericamente desaproveitadas pela e para produção.

É precisamente de toda esta situação atrás descrita que emerge a minha ideia de que, às potências que resultaram da reconversão política e obviamente económica das antigas nações colonizadoras; à "Europa" demo-capitalista, desde logo, se torne absolutamente imprescindível, por imperativos de sobrevivência objectiva, integrar no seu próprio paradigma de "desenvolvimento" [que pessoalmente, não aceito e não subscrevo mas estou por razões evidentes impedido pela própria realidade de negar] políticas de investimento incomparavelmente mais "avançadas" no desenvolvimento local a fim de reduzir a fuga de mão-de-obra desactivada ou não-utilizada para o centro, algo que a própria "liberdade" hoje-por-joje formamente garantida aos antigos colonizados torna particularmente difícil de impedir.

Só com recurso a "leis" discriminatórias e brutalmente invasivas como a que agora propõe o presidente francês para tentar fazer face à insegurança cívica suburbana pobre que rebenta constantemente nas mãos da "outra França" ["jovens franceses, cujos pais ou avós, eles sim, foram imigrantes, que não ultrapassaram o estigma da pobreza", diz a autora do texto "Acusado de deriva securitária e xenofobia, Sarkosi prepara nova lei de imigração", Clara Barata, in "Público" de 04.08.10].

No artigo que cito na "entrada" a seguir, fala-se de 40% de desempregados entre estes...

É, portanto um caso evidente em que a política tem de intervir, agora no plano externo, a fim de tentar atenuar os sobressaltos de uma economia que faz todos os dias novas vítimas---e hoje por maioria de razão uma vez que os anteriores mecanismos de "ressocialização estratégica do emprego" ou "uso recapitalizador e ulteriormente possibilitador" do chamado "Estado Social", o expediente keynesiano de enxertar emprego num modelo económico privado que, ligado ao uso significado, privado, da tecnologia o destrói regularmente, deixou, por várias razões, de ser possível com a liberalidade com que tradicionalmente o havia sido...

Outro exemplo, vem do Afeganistão e é a versão militar deste mesmo aspecto em tese conducente à revalorização chamemos-lhe: "educada" ou mitigada do papel da política no Ocidente demo-capitalista e neo-liberal.

É o caso de um texto envolvendo recentes fugas [?] de informação sobre algumas práticas particularmente contestáveis pela sua violência e arbitrariedade da intervenção norte-americana no Afeganistão---fugas essas para a chamada "Wikileaks", uma espécie de "enciclopédia de exacções" ou actos mais ou menos "negros" da actividade militar, desconheço se exclusivamente norte-americana se desta e dos seus... "aliados" militares.

O pormenor, do ponto de vista da atenção humanista que me meve, é irrelevante: exacções e abusos são exacções e abusos e, embora o atutor do artigo "O significado dos Wikileaks e a guerrilha no Afeganistão", Bruno C. Reis, procure manifestamernte "desdramatizar", vulgarizando-os como actos frequentes em todo o género de guerras umas e outros ["Não existem guerras sem crimes de guerra", escreve ele acrescentando, mais ou menos, tranquilizadoramente que "o número de civis mortos (desta) é baixo" entre, calcula ele, 12.000 e 32.000] a verdade é que conforta pouco quem da política [e da geopolítica] possui a visão humanista que aqui se defende e pratica, mesmo 12.000 pessoas, comparadas com as entre 62.000 e 2. 000.000 da guerra do Vietname ou o milhão/milhão e meio da invasão russa é gente demais é demasiada gente civil; são um número dificilmente imaginável [e seguramente intolerável, verdadeiramente imperdoável!] de mulheres, crianças e velhos abatidos "por acidente" no decurso de uma guerra que, diz ainda o articulista, "está a ser difícil" de ser ganha no Afeganistão.

E por quê?

O autor do artigo cita duas condicionantes: a vitória sobre a insurgência guerrilheira exige "boas informações" mas cumulativamente "requer o quase completo isolamento das guerrilhas do apoio exterior".

E interior, permitir-me-ia acrescentaria eu.

Sucede que esse "apoio" interior é muitas vezes [a História recente do colonialismo português, para não irmos mais longe, testemunha-o amplamente] o das próprias circunstâncias objectivas que desencadeiam e/ou potenciam ulteriormente, por seu turno, as de natureza subjectiva que com elas concorrem para reforçar e consolidar e até 'legitimar' na prática, em última análise, a própria guerrilha.Essas condições objectivas podem ser o nacionalismo mas são seguramente também condicionantes de ordem económica, social e política conduzindo, directa ou indirectamente, ao subdesenvolvimento.

Nem de propósito, o mesmo "Público" de 04.08.10 inseria, no suplemento P2, uma reportagem com o carmelita norte-americano Peter Hindle o qual, sendo entrevistado por Alexandra Lucas Coelho sobre o narcotráfico no México diz, a dado passo, com todas as letras:"A verdadeira guerra aqui é a dos ditos "países do primeiro mundo" com os do terceiro, e a guerra do narco é em função dessa, porque o narco entrava em colapso, se não houvesse uma tremenda desigualdade de salários, o empobrecimento do México. Os 'narcos' não poderiam recrutar o exército, ou a polícia, ou os miúdos que não têm trabalho nem oportunidades de estudo".

E acrescenta: "É o que acontecia com as ditaduras apoiadas pelas empresas norte-americanas nos anos 70. E eles estão dispostos a limpar zonas inteiras de gente de forma a garantir os interesses dessas empresas. Portanto, essa é a guerra: as grandes empresas contra a maioria das pessoas [...]

É difícil [de facto, não é: basta procurar na literatura independente...] ter-se um retrato mais fiel das causas profundas do tipo de disfuncionalidade social e política [tendencialnmente política, ao menos] que minam as sociedades-fortaleza do Ocidente de hoje e, ao mesmo tempo, mais eloquente ilustração da minha própria tese da "solidariedade funcional" que, a breve trecho e se esse mesmo Ocidente pretender sobreviver a si próprio ainda algum tempo mais, vaio ter inevitavelmente de substituir o pasradigma de "desenvolvimento unilateral" que tem sido apanágio do paradigma de capitalismo moderno industrial e pós-industrial.

Basta mudar a designação dos países e o tipo exterior de perturbação para se perceber como é, na realidade impossível dissociar o conjunto de ameaças bem reais que, no plano económico, social e político, impendem sobre e ameaçam as sociedades ocidentais do próprio paradigma económico-político sobre o qual assentam as respectivas concepções "desenvolvimentistas".



[Na imagem: Carl Roberts, "The Tripped-Up Man"]

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"Face oculta ou face oculta pela... oculta"


O "Expresso" de 24.07.10 incluía, entre os numerosos "exemplos" de palavrosa inutilidade que caracterizam o conteúdo habitual do semanário, uma reportagem sobre a "questão" do uso do véu islâmico entre as comunidades árabes residentes na Europa, designadamente em França e Espanha.

O tema é, de facto, cada vez vez mais importante e premente e, sendo bom que o "Expresso" o tenha trazido para as suas páginas, seria óptimo que todos nós, portugueses, aproveitando o ensejo fornecido pela reportagem de Paulo Gaião, lhe dedicássemos a séria reflexão que merece.

Nesse sentido e com esse objectivo em mente, é preciso começar por dizer que a questão do véu islâmico não é, de facto, a questão do véu islâmico: é muito claramente, como o próprio jornal sugere, uma questão de natureza económica e política que apenas pode ser resolvida no âmbito da seriíssima e cada vez mais urgente reflexão colectiva sobre o sistema económico hoje-por-hoje em vigor [e em profundíssima crise!] nas sociedades europeias e especificamente "europeias".

"Europeias" com aspas e "europeias" no plural.

A "Europa" como é sabido não existe: é uma ficção económica e financeira, pretextualmente política [ou ancilarmente politiforme] que reproduz, na sua génese, os defeitos gravíssimos em matéria de organização e [des] estruturação social, económica e política, de cada uma das sociedades/nações que a compõem onde, como tantas vezes tenho repetido, a "aparelhagem institucional" da democracia é instrumentalmente utilizada, de forma habitual e consistente, de forma substantiva, como dispositivo de legitimação formal da infra-estrutura económico-financeira estável, fixa, solidamente "aparafusada" ao "chão da História", "chão" esse de a "Política" opera sempre como mero "revestimento politiforme" móvel e insubstantivo em si mesmo.

Essa ideia de que a "democracia" deva responder na realidade [de facto, senão completa e assumidamente de direito] perante o modelo económico-financeiro que lhe subjaz e não, de forma autónoma e substantiva, perante a sociedade ou sociedades e os seus interesses colectivos básicos, essenciais e legítimos, no seu todo, adequadamente expressos de forma naturalmente independente das respectivas formações ou formulações de índole instrumentalmente possibilitante como a própria economia constitui mesmo, a meu ver, o que poderíamos chamar "o erro de Descartes" das formas mais comuns de "democracia" vigentes nas sociedades do Ocidente, hoje.

Essa ideia de que a Democracia é, na realidade, "um capítulo funcional da economia" e não um domínio genuína e intrínseca, indissociavelmente político vem há muito contaminando e disfuncionando todo o modelo civilizacional ocidental, primeiro, no plano nacional, nos diversos planos nacionais e, em seguida, no "europeu".

Já por diversas vezes me referi, nos mais diversos lugares e ocasiões, à ideia, estritamente pessoal, de que, longe de estarmos como realidade económico-política, como sistema, a viver a 'simples' "crise" de que todos falam, estaremos, isso sim, próximos de atingir um verdadeiro "vértice civilizacional" cujo fundamento disfuncional se situa basicamente no modo como o capitalismo geriu a integração sistémica do conhecimento convertendo-o sempre topicamente numa propriedade e num primeiro capital destinado a ser utilizado significada e estreitamente na re/produção contínua do próprioo capital e a prazo como vertente necessariamente desequilibradora da equação capital variável/capital constante sobre a estase global da qual assentara, "tant bien que mal" mas ainda assim reconhecivelmente, a ecologia do modelo nou modo de produção industrial.

Ou seja, fala-se hoje, continuamente na crise [ou mesmo alguns no fim] do chamado "Estado social"; a hipótese muito séria que eu ponho é a de que deveríamos [a Esquerda seguramente!] já estar sim a equacionar, em termos tanto práticos como, siobretudo, para já, teóricos, a viabilidade ulterior do próprio modelo demo-capitalista como tal e, muito em particular, os modos de considerar a forma sistémica do respectivo "aftermath" institucional mas também civilizacional de um modo que não repita ou não replique simplesemente as taras e os defeitos do modelo anterior ainda vigente.

Concretamente nas relações internacionais, trata-se de [deixem-me que recorra aqui uma terminologia pessoal que julgo, porém, suficientemente eloquente e expressiva] "des-reduzi-las" ou mesmo "desrelativizá-las" da ideia de "mercado" que as tem, no in/essencial [no caso "europeu", isso é evidente!] obsessivamente caracterizado, recorrendo à teoria [à "velha" e nobilíssima ideia do "internacionalismo", um motivo-chave do ideário da Esquerda] a fim de, no limite [e por paradoxal que possa imediatamente parecer...] repossibilitar não apenas diversas formas de "ecologia social e política" interna, hoje-por-hoje também elas em profunda "crise" conforme reporta o dossier do "Expresso", como, no limite, o próprio mercado cuja crise não é, nos tempos que correm, menos evidente, sendo até, para alguns [a meu ver e por quanto já vimos, muito redutoramente, mas enfim] a causa mater da própria "crise".

Ou seja, é vital que percebamos que só generalizando sistémica e também estrategicamente formas de verdadeira democracia económica global [o que implica, desde logo, à partida, reeequacionar por completo o papel do conhecimento na forma sobretudo---mas não só...---de tecnologia na produção de capital assim como o próprio objectivo ou objectivos finais da produção que hoje se limita, de facto, à de... capital, o produto real do modo de produção de onde derivam diversos "subprodutos" que não passam do respectivo conteúdo aparente: os bens de consumo]; é vital que percebamos, por outras palavras, que só libertando a política da sua presente condição de refém [as] sistémico da economia vendo nela um meio de humanizar todo o processo ou processos de produção de bens; só assim, dizia, restabelecendo, pois, a ecologia global do desenvolvimento é possível por um lado evitar as crises [que não são abstractamente "da economia" mas do modo como ela se posiciona relativamente à Política e à própria Civilização] e, por outro, controlar os surtos de disfuncionalidade social e política cada vez mais frequentes e tópicos e de que a xenofobia é apenas o rosto ou dos dos rostos imediatos.

Ou seja, dito de outra forma ainda: o velho modelo des-igual e, no fundo, realmente unidireccional do colonialismo clássico [que foi possível assegurar em determinadas circunstâncias tecnológicas e populacionais associadas, desde logo, às quantidades de tecnologia existentes "em suspensão" nas sociedades envolvidas no processo assim como à sua relação mais ou menos estável e até, num certo sentido, estrutural com as de capital variável igualmente delas contantes]; o velho modelo do colonialismo clássico encontra-se historicamente esgotado e só novos paradigmas de relacionalidade global baseados em formas politicamente muito mais avançadas de redistribuição global da economia e da capacidade estrutural local para gerá-la e fixá-la localmente em condições de incomparavelmente maior igualicidade podem permitir não apenas económica mas também social e políticamente a realidade concreta de um Progresso.

Não é por muito mais tempo possível continuar a drenar sistemática e, sobretudo, sistemicamente as diversas economias marginais, instrumentalizando-as no sentido de continuarem a alimentar unilateral, contínua e sobretudo exaustivamente as economias centrais, esvaziando [ou permitindo sem intervir que permaneçam marginalmente esvaziados em nome precisamente da própria natureza intrinsecamente des-igual do modelo] a capacidade produtiva e originando, desse modo, maciços movimentos migratórios para o "centro" onde, devido exactamente aos novas paradigmas de relacionalidade sistémica entre o capital constante e o capital variável, o seu papel é ulteriormente excedentário]; não é, por muito mais tempo, possível assentar nesse modelo a própria ulterioridade do sistema sem gravíssimoas consequências de natureza social e política como aquelas que o "Expresso" reporta no caso francês e cujo sinal exterior é a "questão" do véu islâmico.

Quando, como reporta o jornal, 40% da população dos guetos suburbanos franceses se encontra desempregada [e está-o porque a própria dinâmica interna e externa do capitalismo francês força a essa situação na medida em que a importação de matérias-primas de que se alimenta a sua indústria e a própria ultra-economia que a partir dela se forma pressupõe nuclearmente a "rarefacção industrial significada" no plano local] [1]; quando assim é, dizia, e quando as perspectivas sistémicas internas e externas não variam [aprópria "Europa" como comecei por dizer mais não faz do que internacionalizar as disfuncionalidades dos próprios modelos locais] que outra coisa esperar senão que qualquer "questão" [2] como esta do véu que agora tende circunstancialmente a polarizar as diversas insatisfações envolvidas no próprio processo que aqui estivemos muito sumariamente a analisar.



[1] É a velha questão da "justificação" histórica, política a até civilizacional do capitalismo como sendo capaz de "produzir riqueza".

De facto, como tantas vezes tenho dito, ele produ-la só que [a] a produz mas "se esquece depois de redistribui-la" equiatativamente pelo conjunto daqueles de quem se serve para produzi-la e hoje, sobretudo, para consumi-la: está-lhe vedado mesmo que o quisesse porque se trata de um sistema intrinsecamente des-igual e [b] apenas pode produzi-la, interna ou externamente, a partir da produção prévia de "quantidades significadas" de "carencialidade sistémica" de onde, na sua lógica particular, ele faz emergir o que chama "valor".

O "valor capitalista" é, pois, na sua in/essência, uma variável da quantidade de carência ou necessitação por esvaziamento sistémico possibilitante que a sua componente funcional "política" [sem esquecer a jurídica...] introduz como "pressuposto funcionante" do próprio sistema enquanto tal.

Hoje, com efeito, promover o desenvolvimento estratégico dos diversos mundos [daqueles que ainda o não fizeram mesmo daquela forma asmbiental e até socialmente discutível que conhecemos...]; dialogar com os povos no sentido de facilitar os diversos desenvolvimentos locais [em África, por exemplo, no caso português] não é apenas um problema de solidariedade e/ou generosidade desinteressada: configura, como disse, um desígnio civilizacional mas, também do ponto de vista do próprio demo-capitalismo em vigor, um verdadeiro pressuposto de sobrevivência material, objectiva, a vários [senão a todos!] os níveis.


[2] Utilizo aqui o termo "questão" naquele sentido significado muito específico que ela adquire em expressões ideogramáticas do tipo "question juive" ou "question homossexuelle", num certo sentido, uma "herdeira" cultu[r]al, concepcional e política da anterior, uma clássica forma de historicização e até de conceptualicização tópica da discriminação e da intolerância com os trágicos resultadosd que todos conhecemos.


[Imagem extraída com a devida vénia de "Flat Rock, The Journey Matters"]

terça-feira, 3 de agosto de 2010

"Dead End..."


... by BenWill...

"His Opacity' s Dog...[Epigram Written After Alexander Pope]"


I am his Opacity's dog at the E.E.C.;
Pray, tell me sir, whose dog are you prepared to be?...

"Alfama"

O deslumbramento absoluto, o puro êxtase, o rendilhado deslumbrante da loucura visual na sua forma, íntima, total, secreta e absolutamente perfeita!...

"Cultura Oficinalis---breves reflexões pessoais sobre a génese da cultura"


Interessante e muito esclarecedor, sem dúvida, o texto do "Expresso" de 24.07.10, sobre o uso do véu feminino.

De facto, o texto do jornal "é" sobre muito mais do que isso: é, também [e é, mesmo, num certo sentido, sobretudo---de forma implícita, ao menos] sobre o modo como se formam e se fundamentam os universos cultu[r]ais, em mais de um sentido meros receptáculos de anteriores biofilofuncionalidades ulteriormente desactivadas dos usos originais pelos indivíduos e pelas espécies e retidas em "bolsas subconscienciais" situadas mais ou menos "imediatamente abaixo" da «memória funcional» dos indivíduos [admito que, em certas espécies não-conscienciais, o processo ocorra também sob formas genericamente em tudo semelhantes] que se originam na própria capacidade, ela mesma funcional ou funcionante, de os indivíduos reterem informação com ela formando a prazo, sempre tendo em vida a informação sobrevivencial que os anima e, em tese, no fundo, explica, verdadeiras "identidades" estáveis destinadas a servirem de suporte a um modelo significado de "inteligência [ou de "inteligenciação"] da realidade", intrinsecamente associada ao que chamo, em geral, a "propriedade ou atributo continuacional básico da matéria", por sua vez, ligada à própria estrutura e natureza 'expansional original da realidade' material.

A "cultura" [o que chamamos "Cultura"] explica-se, em tese, a meu ver, por aí por essa inaptidão da consciência para perder conteúdo, por um lado e, por outro, pelo atributo consciencial de ela se fixar a si própria segundo percepções próprias inteiramente críticas ou "criticionais" do Tempo ["tempo consciencial" ligado à capacidade para gerar imagens puras ou puramente teóricas do real] acumuladas numa "consciência funcional" estabilizada a que passámos, a dado passo, a atribuir o nome específico de "identidade".

De facto, a identidade não passa, em última instância, de um "acúmulo significado" de informação que se retira [que a "consciência" "retira funcionantemente" retira] do seu 'curso temporal' original a fim de ser utilizada ou contínua e ulteriormente investida na prossecução das «tarefas vivenciais» ou «vitacionais» que, a meu ver, explicam---e fundamentam---a existência [a essência ou "condição essente"] dos indivíduos das distintas espécies.

A Cultura deriva, pois, em última [mas real] análise da própria natureza expansional/dissipacional da realidade: é um resíduo da própria funcionalidade original desta que ela integra instintualmente em si porque vem dotada da 'pulsão funcionante' para se auto-reconhecer na própria informação que gera de modo a ser capaz de reutilizá-la continuamente a partir do momento em qjue é gerada.

A ilusão que temos de possuir uma "identidade" resulta, em meu entender, precisamente daí.

Ora, no caso do véu feminino, é evidente que, na origem, se encontra a função da multiplicação de "filobioparadigmas significados" [a geração das «anisotropias ou individuicidades funcionantes» que compõem as novas formas/funcionalidades da matéria, a partir de dado ponto vda sua "volução"] e a necessidade original sentida pela matéria assim 're/distribuida' de gerir o próprio processo de re/produção das mesmas, sempre alimentada por uma informação funcionante onde, insisto, radicam "en fin de partie", as formas "conscienciais" [isto é pós- ou meta-funcionais] de "moral[idade] sexual".

O cobrir do corpo feminino [que dá origem ao pudor, uma "desconstrução conscienciante significada" da necessidade de controlar o próprio processo de geração de novos indivíduos ou individuicidades] dá origem às formas meta-funcionais [descentral ou descentrantradamente cultu(r)ais] que hoje conhecemos onde se integra o uso simbólico do véu.

Como acontece com o matrimónio, a fidelidade sexual como "valor", etc.

O "problema" da consciência é que ela se revela incapaz de refuncionalizar a informação que retém e, sobretudo, de ressignificá-la e/ou de triá-la de modo a evitar o completo "achatamento epistemeomórfico" e os "curto-circuitos gnoseomórficos" quando a informação ulteriormente desactivada da respectiva funcionalidade original entra na "cultura"---ou, de um modo mais radical, mudando de estado físico e passando "ao estado gasoso da cognicionalidade" se torna, ela mesma, "cultura".

Por enquanto consciência e consciências reflectidas fixamente numa "cultura" não percebermos realmente tudo isto é que surgem problemas como o "problema do véu" que começando por se encontrar mais ou menos "simbologicamente neutralizado" num código "religioso", a dado momento extravasou para o domínio cultu[r]al sentido amplo e o contaminou de forma que ameaça criar situações de ruptura como as que estão a ocorrer em França, por exemplo, com o célebre véu islâmico.


[Imagem extraída com a devida vénia do site do Centro Cultural Beneficente Islâmico do Ceará, Brasil]