segunda-feira, 6 de abril de 2009

"Nuclear, Nuclear! Nuclear, Pum Pum!!..."

Do "Expresso" de 04.04.09: "Cientistas portugueses defendem nuclear".

Defendem??!!

Quer dizer: os cientistas portugueses fartaram-se de vez de ter juízo e de portar-se como pessoas crescidas e resolveram arranjar, a juntar às que já temos, mais umas quantas chatices para... animar a República!

Por amor Daquele Que está Lá Em Cima (distraído, pelos vistos...)!

Não chega já de problemas?

Nem o título de uma local ao lado--"Portugal tem nove [!!] auto-estradas a mais"--vos faz parar para pensar, ao menos, um bocadinho?

Bom, nesse caso, tudo está perdido: se agora até já os cientistas resolveram... "passar-se" de vez e desatar por aí fora a "desconversar", está mesmo tudo perdido!

Um País que segrega (ou que... excreta?) auto-estradas como os caracóis segregam baba e que, em geral, se relaciona com aeroportos, estádios de futebol e combóios de alta velocidade exactamente como os escaravelhos se relacionam com a m.) pode dar-se ao luxo de infestar-se a si mesmo com uma data de centrais nucleares sortidas para gáudio de um senhor Barros qualquer que resolveu, um dia, "visionariamente", "desenvolver-lhe o interior", contaminando-o com o único género de porcaria que faltava depois dos políticos corruptos, dos congressos partidários e dos governos de maioria absoluta?

Isto é, se ele, País (o País dos Cavacos, dos Sócrates, dos Varas, dos Vitorinos, dos Lelos--nomezinho engraçado este último, não?...) nem é capaz de determinar de quantos milhares de quilómetros de betão, isto é: de floresta abatida, de vilas, aldeias e cidades sem conto carregadinhas de ainda mais poluição "servida ininterruptamente a domicílio" (a ainda mais domicílios!), sucessivamente golpeadas, feridas, violadas, esventradas, literalmente assassinadas algumas delas (os nomes: Barreiro, Esgueira, Aljustrel e por aí fora dizem-vos alguma coisa?...) precisa realmente; se o País em causa (que, por acaso, é aquele onde nasci e vivo...) dizia, com "cientistas" e tudo nem isso é capaz de fazer, que espécie de confiança merece ele que lhe demos para que nos invada o "quintal das traseiras", agora, com radiações atómicas e mais lixo ainda--um lixo "novo" que um Sócrates qualquer há-de vir, por sua vez, um dia, ainda a descobrir que é bom é para queimar (para... "co-incinerar", como ele diz) numa Arrábida qualquer onde ainda não tinha conseguido que lhe garantissem entrada?...

Por amor de Deus!
Vão-se mas é f...!


[Imagem ilustrativa extraída com vénia de macalester.edu]

"Happy Days" de Beckett, no Cendrev


Fomos ontem, dia 05.04.09 a Évora ver "Happy Days" de Beckett (com Isabel Bilou na "Winnie" e Rui Nuno no "Willie").

Uma encenação (de Júlio Castronuovo--assistente Maria Marrafa--com cenografia de Carlos Barreira e figurinos de Inês Carvalho) cuidada, digna, respeitabilíssima.

Quinze, vinte pessoas na sala.
Uma que dormiu o tempo todo mesmo atrás de nós, outra que saíu proferindo uma frase enigmática que registei, aliás, na íntegra: "Pois mas... não é coisa de que se goste".

Não é, de facto--num sentido literal, muito limitado, do verbo "gostar", não é seguramente...

Eu contentar-me-ia em que se ficasse razoavelmente incomodado e, por exemplo, sem vontade de jantar...

A "ópera" de Beckett (a peça é uma genuína ópera) é, com efeito, algo de profundamente perturbador no modo como (des?) cola continuamente fragmentos (em mais de um sentido...)inorgânicos da vida numa espécie de espiral de ininterrupta e obsessiva dissolução que capta, diria eu, a própria essência do "abstracto" em Arte que é a contínua (e inquieta/inquietantemente intranquila) osmose entre a forma e o (possível) conteúdo das coisas, lutando ininterruptamente entre si na desesperada tentativa de destas extraír um mínimo de "significado" ou de "significação" qualquer.

Já agora: um aspecto que destaco da encenação é o modo como ela dá razão àquilo que venho defendendo há vários anos e que, aliás, nem sequer é difícil de constatar: o carácter des/estruturalmente trópico [não por acaso, Becekett surgiu entre nós integrado no que à época se chamou "literature du regard", ao lado da Sarraute de "Tropismes"...] e excrementício da fala na opus beckettiana, aspecto, do meu ponto de vista, verdadeiramente fulcral da "naughtopy", do "realismo fenomenénico" e, de uma maneira geral, da "comédia ontológica" característica do criador de Godot...


[Imagem ilustrativa extraída com vénia de kitchentheatre.org]

"A Justiça em Portugal"

Poderia começar a entrada de hoje dizendo assim: da Justiça em Portugal fala-se demais e toda a gente fala.

Estaria provavelmente certíssimo!

O facto, todavia, de que poderia, de igual modo, começar da maneira exactamente oposta com possível (provável e se calhar até demonstrável!) igual carga de razão, isto é, o facto de poder abri-la dizendo que "da Justiça, em Portugal, não se fala ainda o bastante" e que, pior, "não só isso como ainda que não é bastante a gente que entre nós dela fala" não somente me deixa, a mim pessoalmente, totalmente perplexo como parece, ao que tudo indica, indiciar já (o que é obviamente muito mais grave ainda!) aquilo que há de efectivamente muito errado naquela 'Justiça'.

A circunstância de um Pinto da Costa, de um Ferreira Torres e de uma Fátima Felgueiras, como noticiava o sempre... "espectaculoso" "Expresso" na sua edição de 04 de Abril saírem, triunfais e quase todos eles oficialmente impolutos, dos tribunais onde foram julgados por actos de uma gravidade dificilmente mensurável e seguramente também, de um modo ou de outro, dificilmente imaginável indicia, por seu turno (se não prova circunstancialmente mesmo!) que, de facto, há qualquer coisa que, de todo, não «joga bem» na Justiça em Portugal.

Porque todos são culpados?

Não necessariamente.

Mas, com certeza porque ou, efectivamente, o são e saem ilibados ou, em alternativa, porque o não são--porque nenhum deles o é!--e, então, o que se passa é que, como nação, temos é uma "Lei" que leva a tribunal demasiados inocentes e que, por conseguinte, se calhar, os institutos legais criados por essa mesma "Lei" para concretizar em termos materiais, objectuais, a presunção de inocência, carecem de urgente revisão--o que evidentemente não é melhor...

Num caso ou noutro, o que me parece fundamental é que a Cidadania se pronuncie.

Que fale.

Que tenha opinião--e daí eu ter começado por admitir que, em tese e contra aquilo que toda a gente diz, talvez, afinal, não se fale o bastante de Justiça, em Portugal.

Da Justiça em Portugal.

Claro que não chega 'falar': claro que é vital saber exactamente aquilo que se diz mas, em última instância, tudo começará, estou em crer, de um modo ou de outro, em última análise, naquela necessidade instante (e ideal) de falar que, a mim, pessoalmente, em mais este momento e esta circunstância, me invade.

Pela minha parte, estive ontem a assistir, num canal televisivo a um debate entre dois juristas sobre o processo que envolve Pinto da Costa e um árbitro a quem alegadamente teria "comprado" para beneficiar o clube a que preside.

Os factos que vieram a público (e a julgamento) numa série de questões apresentadas por uma juíza ao réu, neste âmbito, são--no mínimo--incrivelmente comprometedores: o árbitro de um jogo de futebol desloca-se de Braga a Gaia, parece, a fim de visitar em privado um dirigente importante de um dos clubes que vai a jogo dois dias depois; pede-lhe ajuda num caso íntimo envolvendo, suponho, o pai do árbitro em causa e uma suposta amante deste, em Lisboa; o dirigente em causa é designado numa conversa entre o árbitro e o dirigente que o levou a casa daquele pelo "homem do banco", pelo "caixa-chefe" ou lá o que foi; deixam o carro noutro lugar e vão dissimuladamente a casa do tal dirigente.

A juíza (ou uma juíza: a que julgou o caso ou a que instruiu o processo, francamente não me recordo) questiona o tal dirigente sobre tudo isto assim como sobre uma frase posteriormente ao jogo proferida, em "código" (outra questão que faz "espécie" à juíza, aliás e a qualquer pessoa minimamente normal em questões de bom senso e inteligência mas enfim...) onde parece impossível não "ler" uma alusão (mal!) camuflada a um "favor"--e mesmo assim, apesar de tudo isto, para grande escândalo de um dos juristas intervenientes no debate a que atrás me refiro não resultou (não pôde, ao que parece, técnica e objectivamente resultar) a mínima condenação, fosse de quem fosse.

Era a tese (aliás, compreensível) do outro interveniente: tecnicamente, nada daquilo é crime.

Falho de ética?

Com certeza!

(Também, era melhor que nem isso fosse!)

Mas crime, não!

Ora, eu que não questiono (não posso honestamente questionar! O meu reino" não é, formal e académica--técnico-formalmente--desse "mundo"...) a razão técnica da não-condenação neste (ou: em mais este!) "caso" aquilo que digo (aquilo que não posso deixar de dizer e por dizer) é o seguinte:

Não, pois, como jurista que não sou mas como cidadão que não prescindo, em caso (e em momento algum!) de ser, a Lei, para mim, surge-me, sempre, em última e real instância, definível como a "expressão objectivada da moral abstracta de uma certa comunidade dotada de identidade jurídica de um modo ou de outro independente e auto-reconhecível", digamos assim.

Para mim, dizia, a questão põe-se, primária (mas não primariamente, quero crer..) nestes precisos termos: a Moral pensa, o Direito concretiza, realiza, objectiva.

Se, entre uma coisa e outra, entre a «Moral» e o «Direito» começam a ser perceptíveis (e mesmo--mais grave ainda--demonstráveis!) vácuos, lacunas e disfunções (indesejáveis desencontros e... "rotações") é seguramente altura de se começarem a repensar e a reavaliar muito seriamente as formas de ligação necessariamente orgânicas que assim deixaram provavelmente de existir entre ambas as faces da moeda indivisível da Justiça, na sociedade onde tal sucede.

Um dos juristas intervenientes no debate que tenho vindo a citar (acho eu pessoalmente, com toda a franqueza, que com carradas de razão--de razão ética, de razão moral, de razão cívica!) insurgia-se contra a sentença que absolve um réu que, tudo lhe indicava era grosseiramente culpado.

E respondia o seu contricante--com igual razão (Não! Com "igual", não! Com uma razão que possuía uma força e um peso, em tese, rigorosamente equivalentes mas que era, não uma razão ética, mas uma razão alternativa e autonomamente técnica) que "sim senhor, muito bem, mas que, em termos específica e rigorosamente jurídico-formais, nada disso era objectualmente tipicável como crime".

Pois...

A questão é que, volto a dizer (e a sublinhar!) quando a "parte estr(e)itamente técnica" da «Justiça» começa a poder "rodar" para um lado enquanto que a parte ética "roda" autonomamente para outro, algo já está intrínseca e (des!) estruturalmente mal na relação fatalmente orgânica entre ambas--e esse é que é o problema.

E cá está!: afinal, bem vistas as coisas, parece que sempre se fala mesmo pouco de Justiça em Portugal!

Fala-se muitas vezes mal, é verdade--mas, sobretudo, fala-se pouco, como comecei por dizer.

Isto é: fala-se mal, desde logo, também porque, num certo sentido, se fala pouco.

A Justiça não é uma questão feita para os técnicos, para os juristas: é feita por eles mas não para eles.

Ou seja: só é desejável que sejam os técnicos--os juristas--a falar quando a Cidadania (um conceito naturalmente estranho à "portugalidade" mas enfim...)--se calou.

Dito de outro modo ainda: o trabalho dos técnicos é dar FORMA ao Direito mas não o seu CONTEÚDO.

Quando, ao invés, em matéria daquilo que são os fundamentos reais da "juridicidade" (a moral social, a moral como "figura teorética social e cultu(r)al, mais ou menos estável ou continua(da)mente temporal e consentidamente metapessoal") a comunidade deixa que os técnicos falem por ela, estão criadas, a meu ver, as condições básicas e (in!) essenciais para que todo o sistema da Justiça pelo qual essa comunidade se rege, se deforme, se vá disfuncionando e acabe, tão drástica quanto inevitavelmente, corrompido.

É esse o problema básico em Portugal: sem uma Cidadania, uma Opinião Pública, consciente, responsável e interveniente (responsável porque interveniente) não há Justiça que resista.

Mais: não há sequer sociedade--numa acepção orgânica ideal que ela, por quanto disse, já perdeu substancial, se não substantivamente, hoje-por-hoje, entre nós.

Toda a fábrica do Direito se desune, se desagrega, inevitavelmente se des-integra.

E aquilo que era Justiça se corrompe até nada mais ser na, (triste e disfuncional!) realidade assim criada, do que uma temível e tenebrosamente (im?) previsível "ciência hermética" entregue a (ou «refém de»?...) uma "classe sacerdotal" onde o poder vai, em última instância, buscar os "fundamentos" materiais de um império objectivo sobre as pessoas que lhes veda por completro (com o beneplácito escandaloso da própria Lei!...) o acesso livre, o acesso natural, o acesso democrático à Cidadania e ao Futuro.

Ao Futuro?
Qual futuro!
Começa é logo por lho vedar ao próprio presente de que ficam fatalmente privadas e escorraçadas e perversamente impedidas.


[Imagem extraída com a devida vénia de dailypop.wordpress.com]

domingo, 5 de abril de 2009

"Tess" de Roman Polanski

Começo por me confessar: nunca fui... polanskista.
A obra do autor de "Pardon Me But Your Teeth Are On My Neck" (como a de Spielberg, por exemplo) sempre me deixou, com efeito, ou pura e simplesmente indiferente ou, em alguns casos até, invariavelmente irritado com os maneirismos de cada um deles, ou seja, com aquilo que, para alguns, é, afinal, o "estilo" distintivo de cada um deles.

Quando, por esse motivo, comecei a ver "Tess" de Polanski, esperava (até pela duração algo... faraónica anunciada do filme) a habitual estopada carregada com os tiques característicos do (para mim, geralmente intragável) formalismo do autor de "Repulsion".

Declaro-me, desde já, "convertido"--se não a Polanski, a "Tess", seguramente!

"Tess" é o "Barry Lyndon" do realizador polaco: um filme belíssimo com uma actriz fabulosa que lhe "rouba", aliás, grande parte do encanto da obra.

"Gaslight" de George Cukor [Ingrid Bergman]

"Under Capricorn" de Alfred Hitchcock [Ingrid Bergman]

Kinski, com efeito, com um rosto por vezes inquietantemente ("spookily"...) "bergmaniano" (há planos do seu rosto onde é impossível não re/ver o "fantasma" da belíssima Ingrid Bergman.
Da Ingrid Bergman de "Under Capricorn" de Hitchcock ou "Gaslight" de Cukor, seguramente.
Mas o filme de Polanski é, também (como o romance original de Hardy, aliás) um estudo interessantíssimo sobre o declínio histórico (social e político) da aristocracia, neste caso inglesa, completamente incapaz de acompanhar a contínua e acelerada complexificação tecnológica do mundo consecutivo à Revolução Industrial, ela mesma, aliás, "presente" no filme através da desajeitada e deselegante, descomunal, assustadora, maquinaria agrícola da época.
Neste sentido, o filme (como o livro, aliás, volto a dizer) "retoma", de resto, com uma subtileza e até um humour invulgares, aquele que é, no fundo, o motivo (e a inquietação cultu(r)al!) de Maria Edgeworth, no seu belíssimo "Castle Reckrent", um dos mais interessantes e característicos exemplos de obra literária centrada nesta espécie de socialmente dolorosa "esquina civilizacional" da História que foi o parto da modernidade, aí, ao longo de todo o século XIX, situado.
A errância dos d' Urbervilles reconstituida no filme tem muito de discreta (e até grotescamente trágico e, simultaneamente, épico); algo de remotamente tolstoiano, ecoante designadamente da "Guerra e Paz", localizada esta, aliás, temporalmente, como se sabe, no período de onde, no fundo e em última instância, se originou a própria Revolução Industrial inglesa: a Revolução Francesa de onde, por sua vez, viria a emergir, triunfante, a burguesia que há-de ou, pura e simplesmente, "devorar" e substituir ao "volante da História" ou, em muitos casos, "integrar" e "engolir" em si a aristocracia entrada em acelerada queda económica, social, tecnológica, política e civilizacional.
O humour de "Tess" está, desde logo, no modo como os autores do livro e do filme, Thomas Hardy e Roman Polanski na sequência deste, escolheram representar nas suas respectivas obras essa mesma aristocracia: na figura de uma família económica e socialmente decadente, ignorante e ignorante do seu passado (privada de qualquer memória directa deste), liderada por um pai alcoólico a quem a cupidez e a súbita (mas bronca, míope, desoladoramente mesquinha!) obsessão com a fortuna faz com que tenha lugar a "venda" (e, no fundo, toda a tragédia dela decorrente) da bela Tess d' Urbervilles.
Na escolha da actriz que lhe dá corpo e rosto (voltando agora, muito merecidamente aliás, a ela) Polanski revelou, de facto, uma intuição ou uma percepção assinaláveis: Kinski é, ao longo de todo o filme, um espantoso "estudo" vivo sobre a pureza e a inocência, sucessivamente revelada e perdida, imolada a um mundo sem piedade onde só a riqueza, subitamente em processo de (convulsíssima) redistribuição histórica, conta.
Na arquitectura narrativa do filme, há, a meu ver, apenas uma falha--embora algo notória e pesada, digamos assim: a que envolve a (falta de real) motivação de Tess para matar o amante.
Deixá-lo, conforme o filme se desenrola, com certeza.
Mas matá-lo parece, no contexto, de facto, francamente deslocado e forçado.
Mas, volto a dizer, o filme recria com particular eficácia essa inquietante impressão, muito difusa de brumosa desfixação, de resignada errância e dolorosíssimo desenraizamento que constitui, no fundo, a expressão narrativa do próprio desenraizamento e da errância da aristocracia, perdida por momentos da História mas também e de algum modo, sobretudo, nela.
Circunstância que um uso muito amplo da câmara (e do próprio espaço--da vasta, aberta, espacialidade--do grande écrã)--a esparsa, embaciada horizontalidade, as largas pinceladas da câmara de Polanski--exprimem com assinalável brio e mesmo, como disse, de um modo geral, com inegável brilho.

sábado, 4 de abril de 2009

"Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal", de Clint Eastwood [inc.]


Uma das mais marcantes características de Clint Eastwood foi, sem dúvida, desde sempre, a sua inegável (dupla!) capacidade para "renascer" e para surpreender pelas mais diversas razões, de um modo ou de outro associadas a cada uma dessas marcantes, quase sempre desconcertantes... "reencarnações".

Designadamente depois da polémica envolvendo os famigerados "Dirty Harry", Eastwood--que havia, como se sabe, feito um (geralmente "complicado" e sempre muito problemático) percurso da televisão para o grande écrã--pareceu definitivamente condenado à irregressível insignificância, desde logo, pelo estatuto de "maldito" que, entre os críticos, rapidamente logrou assegurar para a sua (cinematograficamente por vários motivos invulgaríssima) pessoa.

A verdade, porém, é que Eastwood (que, depois de dado o passo decisivo que o levou do universo menor das séries televisivas para o cinema--o cinema visionário e caracteristicamente excessivo, idiossincrático, de Leone) surpreendera, no seu regresso vitorioso aos "States" pela violência e pela eticamente--no mínimo...--ambígua e, aliás, já algo... "europeizada" qualidade de alguns dos seus mais conhecidos filmes de então--sempre, de uma maneira ou de outra, centrados em torno da "ideia", de algum modo, muito americana--embora com ela diversos realizadores italianos, designadamente Leone, tenham ajudado a, em alguma medida, 'refazer' o próprio cinema europeu--de que entre a «razão da acção» e a «acção da razão» a opção dos Homens "verdadeiramente grandes" está "naturalmente" feita e vai sempre pela primeira destas hipóteses--trata-se de uma velha obsessão envolvendo, por exemplo e caracteristicamente, o termo "politics" recontextualizado numa "semântica cultu(r)al" muito própria que o coloca definitivamente entre as piores "four letter words" conhecidas, por oposição a um não menos velho e não menos caracteristicamente americano, desembaraçado, "frontier spirit", consagrado, aliás, por este mesmo Eastwood depois de o ter sido--por exemplo talvez máximo--pelo "gigantesco" e "tutelar" John Wayne); a verdade, porém, dizia, é que o brutal Harry Calaghan (ficaria famoso pelo repugnante "make my day!", eco exponenciado do comparativamente mais discreto "Go ahead! I wish you did!" (1) de Wayne em "Rio Bravo" de Hawks) nos reservaria ainda enormes surpresas, uma vez passado para trás da câmara de filmar.

Nessa altura, com efeito, um novo Eastwood (res) surgiria completamente metamorfoseado das cinzas do anterior: um homem com preocupações de natureza não apenas (surpresa!) estética--é verdade que o cinema onde ele terá feito grande parte do seu tirocínio como realizador, o de Sergio Leone, era um cinema apenas aparentemente 'despreocupado' em termos da sua--muito pelo contrário!--sofisticadíssima, barroca, por vezes, mesmo abertamente operática, "arquitectura narracional" mas (surpresa maior ainda!) ética; um homem com uma visão de tolerância e humanismo e um artista com um domínio supreendentemente refrescante, amadurecido e completamente inesperado, do "tempo" ou dos tempos da narratividade, algo que distingue, afinal, os grandes contadores de histórias, independentemente do meio de que se servem para contá-las.

Este invulgaríssimo "Midnight In The Garden of Good And Evil" integra-se (é mesmo essa uma das suas grandes qualidades!) nesse espírito de amadurecida tolerância e, ao mesmo tempo, de esclarecido, subtilíssimo, domínio da mecânica específica da narrativa que Eastwood virá, depois, como é sabido, a sublimar em obras absolutamente definitivas como "The Unforgiven", "Million-Dollar Baby" ou (sobretudo) "Letters From Iwo Jima".

Arrebata, empolga mesmo, o modo como Eastwood se decide aaqui a arriscar tudo num tema particularmente... "íngreme" e reconhecidamente ingrato como o da homossexualidadeousadamente "sobreposto", aliás, a outro não menos... "complicado" envolvendo a questão da "negritude" no Sul dos E.U.A.--conseguindo, porém, sempre evitar, através de uma concepção soberbamente contida e assinalavelmente sóbria da narrativa, a armadilha, por um lado, da retórica e do "óbvio" e, por outro, do "exotismo" ou mesmo do "freak show", mérito esse que partilha, de resto, com um elenco absolutamente notável, solidíssimo, onde avulta esse perturbador (ou essa perturbadora?) figura que é "Lady Chablis" (uma espécie de "eco" involuntário, físico e não só, do escritor negro James Baldwin) bem suportada, aliás, por um eficacíssimo John Cusack, "todo um actor" com o grande mérito de quase nunca "se dar por isso", se me é permitida a expressão...

Do filme em si pode dizer-se que ele... são várias coisas, todas elas interessantes e todas dignas de particular consideração: é, por exemplo, um "courtroom flick", um estudo sobre rostos e sobre o modo eficaz de arrancar deles instantes e expressões: esteticamente, quando bem encenado e cinematograficamente bem tratado, um "jogo" sempre fascinante (como muito sabiamente descobriram homens como Billy Wilder, Otto Preminger ou Sidney Lumet).

É também, voltando a Eastwood e ao seu "Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal", um (subtilíssimo!) filme sobre aspectos particularmente significativos e relevantes dos mecanismos de manipulação dos grupos humanos mas, sobretudo, sempre muito discreta e muito subtilmente, sobre o modo como, na vida, se consolida e, em última instância, "fundamenta" aquilo a que convencionámos chamar "verdade".

Pior ainda: A 'Verdade'.

É, designadamente, um filme (esclarecidíssimo!) sobre as cautelas a ter com essa "fundamentação" e, em geral, com o modo como chegamos a essa 'verdade'.

Sobre os limites inevitáveis e naturais dela.

Notável é, sobretudo, a discrição e a subtileza como o motivo é tratado no filme: sempre, diria eu, muito habilmente "embrulhado" no próprio... "tecido narrativo", isto é, sempre sem recurso a intrusivos discursos teóricos ou a outra qualquer forma, imediatamente reconhecível, de retórica.

Mais hábil (e respeitável!) ainda, é modo como o realizador Eastwood "encaixa" nesta base o motivo extremamente espinhoso da homossexualidade: de facto, é especificamente através dele que Eastwood chega à ideia da necessidade de ser particularmente prudente nos julgamentos que fazemos sobre as pessoas e sobre os factos a ela associados.

Sobre o direito de cada um à diferença--sobre o direito de cada um à dignidade--e a ser julgado, de facto, por aquilo que, independentemente da garantia do direito a esse... direito, são os actos em si de cada indivíduo: de cada ser humano.

Caracteristicamente, o argumento "resolve" completamente a "questão" da homossexulidade do réu, separando claramente essa questão da outra, da do crime, nunca deixando (até pela valorizaão que faz da Pessoa de "Lady Chablis" e do seu contributo para a resolução do "caso".



(1) Profere a frase em causa a persongem do sheriff John T. Chance a um inimigo que tenta surpreendê-lo apoderando-se sorrateiramente de uma arma a fim de atingi-lo à traição.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"À Yvette K. Centeno"

É legítimo dizer que esta Senhora, de algum modo revolucionou (é perfeitamente adequado pôr a questão nestes termos...) o ensino em Letras. O ensino (?) à época era uma confusa e deletéria mistura de "catedrismo serôdio" e um "teorismo" desoladoramente estéril onde uma máquina de decorar (e fazer decorar!) como o Padre Manuel Antunes ou uma nulidade absolutamente "exemplar" e pardigmática como um tal Mário de Albuquerque faziam figura de «Referências» incontornáveis...

Aliás, num certo sentido muito preciso, eram-no, de facto: um do árido, jesuítico enciclopedismo que passava à época por um profundo "saber". O outro, da boçalidade no seu estado puro e ideal de... "insecto perfeito".

Mas havia outros, claro!

O Nemésio (que não sabia minimamente comunicar e era amiude apontado... exactamente por isso pelos "analfabetos de carreira" como a epítome mesma dos comunicadores...); o Grilo, o Monteiro Grilo, o poeta (?) Thomaz Kim (que dava as "teóricas" de... "Teoria da Literatura"--um pleonasmo deliciosamente esclarecedor--e que era de um pedantismo só igualado pela completa ausência de mensagem--e de interesse!--das suas inimaginavelmente "sedativas"... "aulas", depois de almoço, no faraónico «Anfiteatro 1»!...); o inominável Gonçalves Rodrigues que para justificar o anexim popular de que "um mal nunca vem só" tinha um filho que o ajudava a chatear (e a esterilizar) completamente o pessoal que lhe(s) passava ao alcance da (dificilmente descritível) mediocridade e um tal Correia Marques que (dizem! Eu nunca notei...) "orientou" o meu seminário sobre "Nelson Algren e os Caminhos do Realismo Norte-Americano"...

Uma anedota--verídica--"ilustra" bem o tipo de... "ensino" então praticado nessas (apesar de tudo, saudosas!...) Letras onde Pessoas como a Yvette Centeno ou uma outra professora de "práticas", a Ana Maria Bracinha de História da Cultura e das Instituições Medievais, conseguiram, com enormes dificuldades, introduzir um pouco de inteligência e esclarecimento, quase diria: a... golpes de machado e picareta...

Foi o caso de um colega de Santarém (acho eu, se a memória não me falha) se ter lembrado (e do que ele se havia ele de lembrar, Santo Deus!...) de se propor fazer tese sobre o "Doutor Fausto"--mas o "Doutor Fausto" do Thomas Mann, não o do Goethe.

Foi propô-lo ao Gonçalves Rodrigues, Pai (catedrático, director do I.S.L.A., à época a única, suponho, Escola Superior privada; Gonçalves Rodrigues que tinha poderes para aceitar ou recusar temas de seminário!) e que teve para com o referido colega esta saída hoje inimaginável: "O "Doutor Fausto" do Mann, é?... Pois, olhe! Faça, faça lá tese obre ele.
Eu nunca li mas deve ser giro!..."

Era assim Letras nos anos 60!...

Agora uma "estória" envolvendo a Yvette Centeno: um outro aluno (um daqueles "ursos" de que Letras conheceu alguns--fulano todos eles assim tipo "livros, mais livros e nem uma única ideia original"...) foi por ela interpelado sobre, salvo erro, um poema de Verlaine (os "Cemitérios Marinhos"?).

"Qual o seu ponto de vista sobre tal-e-tal aspecto da obra?", pergunta a Yvette, com aquele seu ar seráfico, um pouco trocista que nunca deixava de intimidar (a mim, pelo menos, porque eram a expressão exterior da inteligência e do esclarecimento) muito mais do que, por exemplo, as truculências invariavelmente lôbregas do Albuquerque (que, ainda por cima, estava convencido de que era pessoa e tinha espírito...) ou a grosseria boçal do Rodrigues.

O rapaz saca de imediato do bolso (ou da "bem fornida" pasta, não sou capaz de precisar mas todos os "ursos" faziam absoluta questão de trazer uma, sempre atafulhada de livros, aliás...) de um molho de fichas e desata a citar.

A Yvette Centeno ouviu-o calmamente e voltou a pedir-lhe, com o mesmo ar impassível e discretamente trocista: "O seu ponto de vista sobre..."

E o colega: "Pois mas como diz Fulano..."

E de ponto de vista pessoal, nada!

Estiveram naquilo uns bons quarenta minutos, até ao fim da aula: um a citar autores, outro (outra!) a pedir algo que nunca havia, aliás, de chegar.

No fim, depois de uma animada sessão de citações a boa da Yvette conclui: "Pois, a opinião desses, conheço eu: a sua é que permanece para mim o mais insondável embora ilustre dos mistérios..."

Acho que ele nunca lhe perdoou mas o mais grave é que, se calhar, nem percebeu nada!...

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Era assim a Faculdade e (felizmente!) era assim a Yvette Centeno que eu conheci e cuja memória guardo com especial admiração e um enorme carinho, tantos anos volvidos...


[Na imagem: retrato de Yvette K. Centeno por Tóssan, extraído com vénia de nocturnocomgatos.weblog.com.pt ]

"Com um abraço especial para um Amigo-e"


Um dia destes vou fazer a vontade ao Gonçalo--que é benfiquista como eu e que (como a maioria dos benfiquistas, aliás!) sabe sê-lo e vou pôr aqui um post dando a minha opinião sobre o tema que sugere...

E cá espero as suas sempre bem vindas opiniões...

[Imagem extraída com a devida vénia de gana.blogs.sapo.pt com a curiosidade de os "matrecos" estarem dispostos pela ordem certa, i.e. do maior para o... mais pequeno, do central para o local, ou como dizia o meu 'velho' professor de Lógica Formal, o inesquecível Fernandes Costa, um dos melhores que alguma vez tive juntamente com a Yvette K. Centeno, já na Faculdade: do universal para o... particular...]