quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

"Eu e o Glorioso somos um só!..."

E somos!

Desde os tempos do velho "Campo Grande", a gloriosa "Ilha" (ou "Estância") "da Madeira" e, depois, da "primeira Luz", quando ir ao futebol com o meu "velho" pressupunha almoçar muito cedo ("muito cedo" era a meio da manhã, aí pelas onze, depois de o barbeiro ir lá a casa cortar-nos o cabelo a todos menos à minha Mãe); apanhar o autocarro (no Largo de Sta. Bárbara, ainda me lembro, no fim de uma 'bicha' imensa que eu nunca deixava de pensar que iria levar horas a escoar!...); ir sei lá quantas vezes fazendo acrobacias o percurso todo até Benfica pendurado por um braço que rapidamente ficava dormente (para o qual era preciso, aliás, ir olhando para ter a certeza de que continuava "lá"!...) e a rezar para que o varão não se partisse (!) e para que ninguém lá de dentro se lembrasse de empurrar aquela mole humana imensa connosco empinado sabe-Deus-como na extremidade, para fora do carro!...; apanhar volta-e-meia cargas d' água de "criar bicho" por olivais e matas inimaginavelmente íngremes e pantanosos onde o pessoal tinha de, agarrados uns aos outros, fazer durante o que pareciam horas a fio, todo um improvável "alpinismo" com "ski vertical"--pântanos esses, aliás, que, para mal dos pecados da "malta lampiã", se estendiam interminavelmente desde a (à época, retiradíssima e quase despovoada...) Estrada da Luz até à ilha festiva e ruidosa que era, então, o Campo...

Às vezes (e não foram assim tão poucas, ham?...), chegávamos já com o jogo começado (e o primeiro golo do Arsénio ou do Águas e, depois, do Eusébio perdido!...) e ainda tinha de ouvir o "velho" resmungar o caminho todo de volta até casa--com sorte contra a Carris e não contra a minha--óbvia!--falta de vocação para acrobata--e ainda por cima também para... "esquiador vertical"...

Bons tempos!...

Hoje vai-se de carro para o Estádio, as cadeiras não são geladas no Inverno, há bancadas cobertas mas... o guarda-redes do Benfica farta-se de ir buscar bolas ao fundo da baliza e até já se pode chegar ao campo meia-hora atrasado que não se perdeu de certeza golo algum...

"Nosso", pelo menos...

A propósito de derrotas e insucessos do Benfica: um dia, lembro-me de que perdeu e eu fiquei tão danado que me levantei do sofá onde tinha visto o jogo, vesti-me (estava em pijama) e, de um único fôlego, corri à "Casa do Sporting" aqui na cidade com o propósito determinado de castigar-me fazendo-me sócio pagante da... "oposição"...

Depois, não tive coragem, veio-me à ideia que o meu Pai (lá onde o tiver levado a "Maldita") e o meu "primo Luís" (que era como conto noutro lugar parte integrante desses emocionantes "domingos encarnados" de que acima dou uma pálida imagem e que há muito se lhe deve ter juntado--no "Céu dos Benfiquistas"...) e acabei por deitar disfarçadamente a proposta fora sem ninguém ver, enquanto lhes pedia desculpa entre dentes, a um e a outro, num balbuceio indescritivelmente envergonhado...

Por causa deles (e de coisas como essa emocionante viagem ao Estádio da Luz onde o grande "Luvas Pretas" aceitou deixar-se fotografar comigo de que aqui dou saudosamente conta) ainda hoje considero que esse foi seguramente o maior pecado que até hoje terei cometido.


E olhem que (parecendo que não!...) ainda foram alguns, ham?...

Hoje estou em greve!"


Hoje estou em greve--porque estou com a greve!

Contra a despótica incompetência, a inepta pesporrência e a contumaz jericada de uma "pseudo-política" (também!) "educativa" cujas dramáticas consequências hão-de, aliás, levar anos a corrigir no futuro!...

Eu quero lá saber de desgraças! Estou em greve e pronto! Há formas de exercer o poder (as que o exercem de forma "absoluta", com toda a certeza!) que só "à porrada" entendem!
Que só quando "há porrada" se dão conta de que existe História (e a realidade de pessoas concretas!) por debaixo delas.
Tenho muita pena mas infelizmente é mesmo assim.

Aliás, se sabem de qualquer outra maneira, ao mesmo tempo digna e eficaz, de repor alguma decência naquilo que só por troça pode continuar a chamar-se "a Educação" e a (minimamente séria!) condução de uma política "educativa" em Portugal, digam-me, por favor, que eu até agradeço!...
Até lá, estou em greve e com ela--e hei-de estar tantas vezes quantas as greves que vierem a (ter de!) ser decretadas!


Ah! E também quero dizer que voltei a ter razões para sentir orgulho na profissão que escolhi, ham?...

[Imagens transcritas com vénia respectivamente de blogdoces. wordpress.com e oamigodopovo.blogspot.com]

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"Uma capa"

No "Cine-clube na Biblioteca", uma iniciativa minha com o generoso apoio da Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo (e designadamente da sua eficacíssima bibliotecária, a minha Amiga Dra. Elvira Barrelas) passámos, um dia, o belíssimo "Quem És Tu?" do João Botelho.

João Botelho que, aliás, convidámos expressamente para estar presente na circunstância, conversando connosco sobre o filme mas que acabaria por não vir.

Para o programa da sessão em causa (também redigido por este V. amigo...), compôs o mesmo as capas que aqui se juntam como recordação de uma, apesar de tudo, soberba tarde de Cinema.


"Um lugar mágico"

Um lugar "mágico" para mim é, desde que li, em adolescente "Le Ragazze Di San Frediano" de Vasco Patrolini, naqueles livrinhos fabulosos da colecção "Miniatura", o "borgo di San Frediano", em Florença.

Quando lá estivemos com a rapaziada da Escola do Laranjeiro, "pisguei-me" para lá enquanto o pessoal ia comer gelados e "chatear" os italianos das lojas com perguntas e pedidos de uma invariável insolência absurda.
Depois, voltei lá já sem a rapaziada e pude, então, percorrer livremente, com a paciência e o carinho que a tarefa exige, as velhas ruas como se tivesse, de repente, entrado no universo fabuloso da Itália do mediato pós-guerra, com as suas lambretas e sobretudo as suas ilimitadas esperanças num futuro que nunca haveria, aliás, de chegar.

Vasco Pratolini

Muito mais do que o Pontevecchio ou o Duomo, Florença é, para mim, Pratolini, a casa de Dante, as lambretas mas, de algum modo, sobretudo, o 'Lungarno', no ponto exacto em que coincide com o borgo...

Fica aqui uma comovida memória de alguns deles...

Itália, Florença, Casa-museu Dante Alighieri

"A igreja dos Anjos"

Um acaso de pesquisa, conduziu-me até esta saudosa monstruosidade barroca situada em pleno coração dos velhinhos Anjos. A nossa casa (uma moradia "corpulenta" já demolida há muito!) situava-se a dois passos da sua mole ternurentamente pesada e feia.
Pessoalmente, tive-lhe durante anos um terror mortal.
Desde os tempos da "catequese" feita na tenebrosa sacristia (julgo que o era) situada na rectaguarda, no cimo de uma escada estreita com janelas de vidros sujos que nos ocultavam permanentemente a visão da rua e acentuavam a ideia irresistivelmente instalada algures no semi-consciente de cada um de que o inferno afinal era "por cima" e de que íamos, pois, "subir até ele", num tenebroso percurso de sombras e poeira milenar (corpos anónimos misteriosamente ali depostos a fim de se irem progressivamente desintegrando?...).
No meu espírito (desde que, em Moura fugi, uma noite, pela calada, da minha prima Chica aterrado com uma procissão "das velas" que para mim era sobretudo "das trevas", das trevas ondulantes, viscosas e ameaçadoramente ladainhentas...); no meu espírito, sobretudo infantil, dizia, sempre se misturaram de forma inextricável a Igreja (e esta dos Anjos deu um contributo verdadeiramente decisivo para isso...) e o sangue, o horror--numa palavra, a devoção e a morte.

A piedade e o cheiro das coisas velhas, negras e queimadas.

"El Cristo de los gitano, siempre con sangre en las manos, siempre por desenclavar", como escrevia o grande Machado.
Hoje, essa impressão faz-me, sobretudo, sorrir.

...E ter uma saudade imensa do tempo em que até o medo era inocente e puro e podíamos tê-lo porque ele apenas existia na proximidade do refúgio de um bairro que era mais do que um sítio uma alma e um segundo corpo solidamente ligados a nós quando precisávamos de nos esconder de uma certa Noite que era, na realidade, um património comum--e, no fundo, feliz!--vinculando solidamente toda a tribo...


A Almirante Reis, na esquina com a rua Maria Andrade. A raia do universinho muito salazarentamente 'burguês' dos Anjos... Aqui ficava, com efeito, uma fronteira entre a "casa" e os "serviços" de luxo da época: o cinema (o "Lys" de cuja perspectiva estamos aqui a olhar...); a pastelaria (a "Delta") onde se podia ir comer um "garibaldi" com um quarto de leite "Vigor" (raro luxo que só podíamos permiti-nos em ocasiões especiais!) ou o Café, o "Colonial" que ficava logo a seguir a esta esquina e onde se ia comer em família comer às vezes "o bife". Para cima, ia-se para o 'Chile' Lisboa 'acabava' praticamente logo a seguir, no Areeiro: só o ukltrapassavam os raríssimos felizardos que podiam permitir-se o luxo bizantino de ir viajar de avião...

"Trouble In Paradise" ("collage" do titular do blog)

Enquanto nos perdemos em conflitos absurdos, alguém nos encerra sempre, fatalmente, numa prisão qualquer, aproveitando a nossa momentânea 'distracção'...

"Um «exemplo» de isenção, de idoneidade epistemológica e competência crítica..."


Um "bom" (com aspas...) "exemplo" (com mais aspas...) da genérica "isenção" da actual imprensa portuguesa em matérias de incidência social e política (uma imprensa pertencente, como se sabe, hoje-por-hoje, assumidamente, de forma maciça, aos grandes grupos económico-financeiros recém-reconstituídos, compreensivelmente satisfeitos com as políticas do chamado "pê-ésse"); pois, um "bom" exemplo da tal "isenção", dizia, é-nos dado por 'metade' do editorial do "Diário de Notícias" de 28.11.08, especificamente na parte em que aí é levantada a questão por resolver (e que a actual titular parece, de resto, manifestamente capaz de levar a bom porto) da avaliação do desempenho dos professores.

As questões envolvendo os professores e a actividade docente em geral permanecem, aliás, hoje-por-joje, autenticamnte "roupa-de-franceses" onde "graças-a-deus" tudo mete o bedelho e relativamente à qual tudo tem opinião e soluções...

...Até o "Diário de Notícias"!

É caso para dizer, como no título célebre de uma saudosa 'revista' popular de grande cucesso no imediato pós-25 de Abril: "ao qu' isto chegou", meu Deus!...

Bom mas vamos lá, então, à questão propriamente dita.

Foi o caso de o movimento espontâneo (e sublinho "espontâneo"!) de professores resultante da progressiva organização da mais do que legítima revolta destes profissionais perante o autoritarismo e a evidente inépcia ministerial para conduzir qualquer processo minimamnte capaz de reformas nos mais diversos capítulos do âmbito tutelar respectivo; farto das completamente irrazoáveis "soluções" encontradas por uma equipa de burocratas e meros contabilistas travestidos de "pedagogos" e das não-raro provocatórias imposições e caprichos dessa invulgar tutela em matéria específica de avaliação do desempenho profissional docente ter decidido finalmente pôr de parte divergências tácticas em matéria de organização e de intervenção sobretudo laboral e ter assumido a (aliás, correctíssima!) posição de impor o reinício a partir do zero e agora com a participação directa dos principais interessados que são eles mesmos, professores, todo um processo de reformas que é e deve permanecer, essencial, reconhecível e acreditavelmente técnico e que a má cabeça dos dirigentes sempre se obstinou em que fosse (in!) consistentemente comandado por interesses por sua vez (in!) essencialmente de natureza económica e (de má!) política.

O impasse vigente no próprio momento em que escrevo esta 'entrada' deve-se a que o ministério se obstina em "reformar" a Educação deixando os professores (isto é, os principais agentes de qualquer reforma nesta matéria!) não só "de fora" mas tentando teimosamente conduzi-la agora também contra eles.

Qualquer imprensa séria e com um mínimo de bom senso já teria percebido que (i) não deve ser por acaso que tanta gente, tantos profissionais de todo o País, se decidiram abandonar de vez um reconhecido pendor para a abulia e para uma certa (substantiva) 'frieza e indiferença sindicais' assim como que (ii) em qualquer caso, com a razão que, de facto lhes assiste (mas disso não tem o "D.N." que não é especialista obrigação de perceber...) ou até, em tese, sem ela, nas condições a que a tutela irresponsavelmente deixou chegar todo o processo não sobrevive hoje, hipótese credível (hipótese possível!) de "reforma".

Com estes protagonistas, francamente, não me parece que haja e como não se podem (embora, aliás, o governo não possa ser "acusado" de não tentar--haja em vista a quantidade verdadeiramente arrepiante de professores experientes com vários anos de prática que preferiram a aposentação imediata, fortemente penalizada, a qualquer cumplicidade com a tal "reforma"!...); com estes protagonistas, dizia, não parece honestamente possível e como não se pode "deitar fora" de uma só vez uma classe inteira, a única hipótese para já consiste na substituição da actual equipa tutelar por gente de bom senso, de espírito aberto (e) democrático e realmente conhecedora daquilo que anda a fazer e concretamente das matérias (pedagógicas, didácticas, etc.) que lhe compete tutelar.

Qualquer escrúpulo de isenção deveria, aliás, numa palavra, levar os jornalistas a não perorarem magistralmente sobre aquilo que não são matérias da sua competência.

Não credibiliza, com efeito, seja quem for, jornalista ou não, pôr-se a "dar palpites" ex-cathedra e com opinião visivelmente pré-formada sobre uma proposta alternativa de avaliação do desempenho que ainda não foi dada a conhecer.

E não foi dada em detalhe a conhecer porque, na objectiva e isentíssima semântica do editorialista "os professores não acham que valha a pena darem-se ao esforço de (sic, sublinhado meu) de redigir a sua proposta sem ambiguidades (re-sic, sublinhado meu).

Mais: não possuindo por definição estatuto técnico de especialista em matéria educativa, o jornal permite-se concluir que "no essencial, voltamos aos célebres relatórios dos regimes de avaliação anteriores, que, conjugados com créditos de formação pedagógica para todos os gostos (sic, sublinhado meu), tão bons resultados davam: salvo em casos de disfunção cabal, todos os senhores professores sempre foram francamente bons e mereceram progredir em ordem formada (?) para o escalão seguinte ao ritmo do calendário".


Ora, sobre isto é preciso dizer muito claramente o seguinte: não deveria passar pela cabeça fosse de quem fosse que a (chamemos-lhe assim) "estação eliminatória" no âmbito da actividade docente (de qualquer actividade profisional) se pudesse e devesse situar no fim do período de formação académica do docente ou do profissional em causa.

Não faz sentido!

Não faz humana mas, sobretudo, não faz técnica e institucionalmente qualquer sentido!

Ou seja: qualquer avaliação situada nesta fase do processo de formação e desempenho tem por definição de incidir sobre a prestação objectiva e circunstancial do profissional em causa e não genericamente sobre a sua capacidade ínsita para desempenhar profissão em causa.

Porquê?

Porque (como já tive, de resto, oportunidade de escrever num artigo publicado na revista "O Professor") qualquer modelo de avaliação exclusiva nesta fase do processo, parecendo incidir sobre o professor e parecendo, de igual modo, muito piamente interessado na qualidade do desempenho e do serviço prestado à comunidade, incide na realidade sobre um sistema vocacionado para delapidar sistemicamente fundos a fim de formar academicamente profissionais que, em seguida, se permite rejeitar alegremente à entrada na profissão, como se ele próprio sistema não tivesse qualquer responsabilidade técnica e institucional no desmando e no desperdício em causa.

Que horror se "todos" tinham "bom", indigna-se o editorialista que usa a propósito o termo "desfaçatez"!

Mas que horror porquê??!!

Quem chegou ali caíu acaso ali de paraquedas?

Não tem uma longa formação universitária concluída em princípio numa licenciatura?

Não está, pois, licenciado pelas instituições competentes reconhecidas para exercer uma profissão?

Que espanta, portanto, que seja em princípio e por princípio bom no respectivo desempenho?

Será assim tão difícil de entender o princípio, em causa, isto é, a filosofia mesma de um processo de avaliação coerente e orgânico?

Coerente porque orgânico?

Ponto um.

Ponto dois: num sistema que soubesse de facto formar (e é sobre isso que deve realmente comçar por incidir qualquer projecto inteligente e adequado de avaliação do desempenho); isto é, num sistema assente na confiança tecnicamente fundamentada do próprio sistema nas suas instituições formacionais muito do que era a silhueta epistemológica dos paradigmas anteriores perde aquela carga suspeita que amadores apressados tentam no seu óbvio amadorismo analítico descarregar sobre ele.

Note-se que isto não tem nada que ver com aquilo que o jornal insinua, isto é, que se trata de cada profesor "dar nota a si próprio"; trata-se sim de credibilizar e de operacionalizar as instituições académicas como tal.

Sabe o editorialista o que é (e, sobretudo, aquilo que deve ser!) o Conselho Pedagógico de uma escola?

Se, com efeito, não acreditamos na capacidade do Conselho Pedagógico para intervir com carácter substancial e substantivo na vida pedagógica da escola, que é que estamos realmente a dizer sobre um sistema educativo que gera e integra sistemicamenta Conselhos Pedagógicos? Para que os gera ele, então?

Para "decorar" o próprio sistema?

Para se entreter nas horas vagas?

Para brincar um pouco?

Por amor de Deus!...

O que não podemos ter são ministros-guarda livros que tentam por todos os meios conferir aparência pedagógica a toda uma prática orçamental restritiva e menor, tendo para impor o respectivo modelo e no sentido preciso de cortar as veleiades da mais do que previsível justíssima indignação das respectivas vítimas de humilhá-las, de enxovalhá-las, de mantê-las constantemente acorrentadas a tarefas mandarinescas que são outros tantos meios de mostrar-lhes "quem manda"--medidas escandalosamente vexatórias destinadas obviamente a tentar (com o sucesso que constata...) desarticular aquilo que não pode deixar de ser a legítima revolta de profissionais sérios e geralmente conscientes.