
Revisito hoje, aqui, a 'Galateia' do [cinematograficamente farfalhudo, truculento, vulgar, impositivo, moderadamente visionário---e apenas razoavelmente competente] 'Pigmaleão'-O' Selznick: a recentemente desaparecida Jennifer Jones.
Vemo-la aqui naquele que foi, em Portugal, um sucesso comercial verdadeiramente assinalável: "A Farewell To Arms", na segunda versão, dirigida por Henry King com a própria Jennifer e Rock Hudson, à época provavelmente o paradigma absoluto de beleza masculina.
Em termos globais, o filme foi um "flop" imenso que precipitaria, aliás, o fim do próprio O' Selznick como todo-poderoso produtor de "coisas" cinematograficamente, de facto, muito díspares que vão do clássico 'subcultu(r)al' e 'pop', "Gone With The Wind" ["avôzinho barbudo" de "tudo quanto é "Dallas", "Dinastia" e por aí adiante...] um "pastelão" imenso marcado por uma acidentadíssima realização que teria, como se sabe, o dedo do próprio Selznick [além de conhecer um rol infindável de candidatas a 'Scarlett O' Hara', um rol que incluíu, aliás, a própria Jennifer]; de "Gone With The Wind" a "Rebecca", o clássico absoluto de Hitchcock onde, porém, Selznick terá igualmente tido uma intervenção, directa e indirecta [através de imposições variadas que não vêm agora, todavia, ao caso] substancial e substantiva.
Este "A Farewell to Arms" [regressando a ele] seria cimatograficamente fatal a Selznick cuja carreira como produtor já não se reergueu do fracasso que o filme [muito justamente, aliás, pela maldade imperdoável que fez à obra literalmente referencial de "Papa Hem"...] constituiria.
A RTP Memória "deu" recentemente em re/passar mais ou menos regularmente o filme [o que seria, aliás, óptimo porque se trata, apesar de tudo, de um documento ilustrativo da maneira, quase invariavelmente infeliz, como Hemingway foi adaptado ao cinema mas, de igual modo, uma obra, a seu modo, considerável ao menos do ponto de vista antropológico nacional para que possamos ter uma ideia daquilo que encantava e comovia os nossos pais, avós e inclusive a nós mesmos, ainda não há muito---antes das telenovelas da TVI e quejandos 'objectos' "pantanosamente subculturais" que, entretanto, se enquistaram firmemente no universo supostamente cultural dos portugueses ---o que nos prova, aliás [outro aspecto antropológico e, concretamente, político, sem dúvida, relevante!] que, bem vistas as coisas, mudámos desgraçadamente como País, afinal, muito pouco em trinta e tal anos de uma chamada "democracia" que era suposta ser também [e, num certo sentido, sobretudo] uma democracia especificamente cultu(r)al [e "intelectual", em termos mais latos] mas que, afinal, nem sequer remotamente económica, social e política conseguiu [ainda?] ser...
O pior é que, com a "sensibilidade cultural", o "bom gosto", o "esclarecimento" e o "respeito" pelas obras de arte [boas ou más, essa é outra questão...] que a caracteriza, deliberou a televisão estatal passar do filme de King apenas para aí... um terço de espaço "útil".
Ou seja, apenas os metros---a 'tranche', a... "fatia"---central do filme chegou, de facto, a casa de quantos ligaram o receptor nos dias em que o filme passou, ficando os metros--as "pontas" correspondentes a, para aí, dois terços do filme!...---que "faltaram" reservados para o público 'de cinemateca' [que, como é sabido, não prima proprianente pela quantidade, entre nós...]
...e tudo indica que não primará nos tempos mais próximos com a RTP a fazer do Cinema propaganda desta natureza---e o fomento que costuma fazer com "medidas" como aquela de suspender o globalmente notabilíssimo "Cinco Noites, Cinco Filmes" no canal 2 ou "organizando" ciclos verdadeiramente "a pontapé" [ou "com os pés"---para não dizer com outras partes ainda mais imencionáveis do corpo humano...] como aquela "coisa" que, aos sábados se dedica trapalhonamente a "misturar alhos com bugalhos cinematográficos" até [literalmente!] às "tantas da manhã" e a que a direcção de programas chama tão pomposa quanto saloiamente "Sessão Dupla"...
Enfim...
Na falta de uma "inteligência cultural institucional" que nos leve, como sociedade, de facto e de direito, para a Europa [para a Europa sem aspas, entenda-se...]; na falta de um ministério e de uma política culturais consistentes e minimamente esclarecidas, resta-nos a memória e alguma inicitiva pessoal mais ou menos voluntasrista e "espontânea" que consiga ir resistindo à "selvajaria por absurdo" que é a Cultura em Portugal, hoje, para não deixarmos morrer a própria Cultura e, dentro dela, claro, o cinema com os seus Fords, Hawks, Hitchcocks, Wells, Langs, von Stroheims, Eisensteins e até esse "facho de luxo" que foi Griffith mas também com os seus "tarefeiros" mais ou menos "históricos" [os Sam Woods, os Raoul Walshes, os William Dieterles, os Edward Dmytryks, os Leo McCareys, os Richard Fleischers] e os seus "leiteiros e padeiros" de [alguma] visão, como este Selznick que, queiramo-lo ou não, marcou [tal como, noutro plano e à sua maneira, outro tanto fez Rock Hudson---e digo Rock Hudson porque Jennifer Jones era, de facto, como actriz "de outro campeonato", como muito judiciosamente recordava ainda recentemente no respectivo---comovido---obituário o "Monde"] com a suas acção por vezes megalómana e truculenta, o cinema mundial.
De uma das coisas boas do filme, deixo aqui uma memória viva: Hudson e Jones numa cena onde o 'espectáculo' de um erotismo cuidadosamente... "secundário", muito retoricamente, aliás, sublimado numa espécie de ínvio "humanismo de cartão" ["de Corín Tellado" ou "de fotonovela": o soldado ferido, a devotada enfermeira, etc. etc.] vagamente fetichista [a nudez de Hudson, a "críptica" inclinação dos volumes no plano, o uniforme de Jones, o quase beijo de Jones no ombro nu do parceiro estrategicamente filmado em primeiríssimo plano, o difuso elemento de persuasividade que consta de toda a cena e está, desde logo, claramente configurado e presente na postura da própria Jones] emerge em toda a sua sugestiva e contraditória---de algum modo, "problemática"---glória visual e [mau grado tudo o mais...] composicional e plástica.