sábado, 22 de janeiro de 2011
MI jJuventud...
...y mi locura se han casado ambas y tienen ahora ele mismo nombre azul por lo que grito quando quiero estardefinitivamente seguro de que todavía soy you el que habla y de que etsoy vivo
Joan Manuel Serrat - Cantares
La muerte me ha muy recientemente visitado, la aguardava en ela cais de embarque pronto para segirla, como siempre ligero de equipaje casi desnudo con o los hijos de la mar
sábado, 15 de janeiro de 2011
"Falemos Um Pouco de Televisão!"

Um 'pot pourri' de informações e pequenas notícias: a Zon retirou da grelha-satélite uma das "jóias da coroa" da respectiva programação: o Canal franco-alemão ARTE, o único onde era possível ouvir, hoje-por-hoje, numa televisão, falar de Beckett e Kafka, de Scott Fitzgerald, Brecht, Freud ou Artaud, entre inúmeros outros nomes incontornáveis da Cultura.
Um verdadeiro [e imperdoável!] atentado a essa mesma Cultura tendo até em vista o que o que veio... "substituí-lo": uma "coisa" verdadeiramente inenarrável intitulada "Canção Nova" ou coisa que o valha cuja exumação [consta que já por ali tinha andado antes sem que eu, pelo menos, tivesse, alguma vez, dado por isso] se deveu, foi-me expressamente dito, ao "pedido de várias famílias".
... Ou seria aos suculentos cabedais do Vaticano, cada vez mais assustado com a perda consistente e regular de influência para "as religiões de garagem", versão "sacra" do populismo político, que ameaçam tomar de assalto a cena religiosa?
Enfim...
Esta, em todo o caso, a primeira notícia que queria aqui trazer e com a qual, não consigo deixar de referir, não me conformo: foi-se o ARTE, vai-se a seguir o meu vínculo contratual à entidade que, de uma forma tão imperdoavelmente negocista e "pesetera", pactua com o que na prática é o grande projecto global; a... parceria público-privada dedicada à descerebração consistente do conjunto da comunidade nacional [o chamado Ministério da Educação vai fazendo o que pode para nela se integrar e com ela colaborar e ajudar, isso é evidente!] eliminando de vez os "nichos de resistência" sedeados nos poucos "Mezzos" e "ARTES" que por aí, ora dentro, ora fora, vai havendo [deveria dizer: a seguir vai o meu vínculo contratual com a empresa que aceita pactuar com o vandalismo cultural por acção e omissão, impuro e nada simples que a supressão do ARTE no satélite inescondivelmente configura!...]
Passemos, porém, à segunda notícia: o "pior programa de televisão [?] de 2010" para a Associação de Telespectadores [para o crítico do "Diário de Notícias", Joel Neto--cf. "Asociações para quê?" in "D.N." de 13.01.11] trata-se mesmo "possivelmente do pior programa que alguma vez passou na TV portuguesa em horários familiares"] o inqualificável "Casa dos Segredos" é segundo ou terceiro nos "charts", valeu a quem o apresenta ter assinado "o contrato da sua vida" [é ainda Joel Neto quem o afirma] e assume mesmo o estatuto de trunfo decisivo na estratégia de uma operadora rival da Zon, julgo que a Meo [que, se bem entendi, promete---ou... ameaça?---ter a abominação em causa no ar ininterruptamente 24 horas/dia!] na conquista de mercados no âmbito da 'guerra das instalações' em curso.
Comentários?
Vale a pena fazê-los?...
Enfim, terceira notícia: segundo Francisco Penim [ex-director de programas do canal privado SIC] e Felisbela Lopes [professora universitária e "estudiosa", diz o "Diário de Notícias", na edição de 06.10.10, "do panorama audiovisual português"] a "solução para derrotar o líder" [a tenebrosa e populista TVI---sozinha com maior share diário de audiência que a totalidade da programação-cabo!---e onde a tal "Casa", digna herdeira dos nefandos "Big Brothers" que abriram uma era de insuspeitado aviltamento no "entertainment" televisivo fazendo-o descer a profundidades de vulgaridade e imbecilidade que antes não parecia possível que ele atingisse, ocupa lugar de... honra] "é fazer o mesmo mas melhor" [!!]
Poderia continuar por muito tempo ainda, a coligir e a citar documentação que pude ir compulsando, ao longo dos tempos.
Tão-pouco aqui valerá a pena: o que deixo registado bastará, penso eu, para se ter uma ideia suficientemente clara daqueles que são os cancros do panorama televisivo e, pior ainda: cultural, nacional: um inquietantemente baixo nível de exigência do cidadão/espectador médio cujas taxas de iliteracia funcional são--e não por acaso!--aquelas que se sabem; a drástica concentração dos seus interesses em matéria de cultura num estreitíssimo leque de programas organizados em torno das famigeradas "novelas" e um ou outro "concurso", minuciosamente copiado de uma série infindável de outros nacionais e estrangeiros, geralmente estrangeiros, anteriormente passados e a que agora se juntam os impropriamente chamados "reality shows", encenações confrangedoramente indigentes da realidade, onde vale literalmente tudo para prender a atenção do espectador [vale, aliás, a pena atentar um pouco neste termo] e reduzi-lo, no limite, à... impotência de que são feitas ou sobre a qual são feitas, afinal, as famosas "charts" e os não menos famosos "shares" a partir dos quais, por sua vez, toda a programação ulterior é moldada e cozinhada---de onde resulta inevitavelmente o dramático empobrecimento geral do gosto e dos critérios de escolha, potenciados, um e outros, por seu turno, por políticas culturais invariavelmente erráticas e inconsistentes [quando não meramente pretextuais e/ou orçamentalmente residuais]; e, por fim, resultante de tudo o que acima fica dito, o efeito final consistente na massificação ou progressiva transformação do conjunto das audiências numa massa amorfa, inescapavelmente refém do "gosto" médio formado [ou deformado!] todo ele, "cirurgicamente", daquele modo que atrás muito sumariamente descrevo.
Quando uma professora universitária admite que a cópia é a «melhor forma» de concorrer [noutro lugar deste "Diário" refiro--e critico!--o fenómeno tão caracteristicamente... "pós-moderno" do 'plágio legal' renobilitado sob a designação pomposa de "franchising", outra maneira adicional de condicionar o gosto e de ajudar a reduzi-lo à expressão mais simples] percebemos, de vez, o que significa hoje "concorrer" em matéria de "entertainment" televisivo privado em Portugal ["concorrer"--a concorrência, recordo, foi o supremo argumento que sustentou a introdução da iniciativa privada na televisão entre nós: da concorrência iria inevitavelmente sair a melhoria da qualidade e o consequente benefício do espectador---concorrer, dizia, não significa aqui abrir o leque, diversificar a oferta, valorizar a autonomia na definição e formação do gosto: significa somente, oferecer mais do mesmo e fazer triunfar comercialmente não programas mas empresas---é uma guerra comercial assumida que claramente já contaminou e infestou ou mesmo infectou um serviço público de televisão que ninguém verdadeiramente sabe o que seja ou logra sequer ver, marcado como está por toda uma fenomenologia gradual de osmose, de 'osmose por defeito', de que o espectador, como facilmente se compreende, pouco ou nada tem a beneficiar] do mesmo modo que ninguém consegue perceber onde se situam coisas hoje-por-hoje, pois, obsolescentes ou mesmo de todo obsoletas como a originalidade, a diversidade e a criatividade.
Quando Felisbela Lopes diz que "as novelas se alimentam umas às outras" e que "não basta uma", são precisas muitas ["É preciso ter três novelas ao mesmo tempo", diz expressamente. "Se calhar mais" (!!)] a fim de consolidar definitivamente o respectivo consumo é exactamente isto que ela está a dizer---e pior ainda, a aceitar implicitamente como estratégia de conquista de mercado e, por conseguinte, de formação ou, volto a dizer: deformação tragicamente ideal de públicos.
O que aqui deixo registado com a supressão do inimitável ARTE à cabeça bastaria, suponho, numa sociedade minimamente esclarecida e mesmo apenas sumariamente civilizada para tornar incontornável e inadiável, isto é, para repor de uma vez por todas na ordem do dia a questão de um serviço público, realmente consistente e verdadeiramente sério de televisão, liderado, não pelos habituais comissários políticos e oportunistas ou arranjistas de carreira mas por gente competente e com um projecto claro de formação de audiências [em caso algum, susceptível de ser levado à prática sem ser no âmbito de um plano conjunto nacional articulado com um Ministério da Educação onde prevalecessem, por uma vez, a inteligência e a competência educativas e não, em vez de políticas e ideias sólidas para o País, habilidades de guarda-livros de mão dada com espertezas saloias de pedagogo feito à pressa e a martelo, com meia dúzia de livrecos manhosos publicados---ou seja, todo um projecto político, cultural e até civilizacional que não há; que poucos querem que haja, no único país que, em resultado disso mesmo, era--esse sim!--fatal que houvesse e que está, aliás, em tudo quanto disse e escrevi, para nossa desgraça colectiva nacional, eloquentemente retratado...
"Portugal Parque Temático Mental, Zoo Vivo do Oitocentismo Económico e Social Mais... «Puro»"

Um homem foi recentemente baleado na sequência de uma perseguição policial de que foi objecto por ter roubado... dois sacos com pão!
Contrariamente ao que poderia quase instintivamente pensar quem assim tomasse conhecimento da notícia, não se trata do início de um romance naturalista de Zola ou dos Goncourt e tão pouco provém ela de qualquer obra dos criadores de David Copperfield ou Jean Valjean assim como, tão-pouco, de um filme de Eisenstein ou Pudovkin: aconteceu, segundo uma edição recente do "Público" [que prometo, logo que encontre tempo e feitio, localizar no meio do imenso caos que é cada vez mais a minha hemeroteca pessoal...] e teve lugar no europeíssimo Portugal 'de' Sócrates---que ainda o é e já se apresta a ser do FMI com o "alto patrocínio" de um Coelho ou Coelha qualquer... perto de si.
Portugal, uma esplendorosa ficção social e política---uma deslumbrante ilusão temporal e quebra-cabeças histórico---que decidiu recentemente converter-se, adicionalmente, no museu arqueológico mental ou no parque temático institucional de uma Europa económica e social oitocentista, há muito enterrada já no cemitério das civilizações, no jazigo das coisas tão definitiva quando felizmente ultrapassadas...
Não fosse ele e não fosse Sócrates e as suas geniais inspirações... políticas que, de vitória em [esplendorosa!] vitória, à actual calamidade nos trouxeram e correríamos todos, com efeito, o risco de pensar que, por exemplo, "Les Misérables" não passava, afinal, do simples fruto de uma crise de fígado de um pessimista dotado de mórbida inventiva e que "Oliver Twist" mais não era, afinal, do que um simples e mal-disfarçado "remake" da "Comédia" de Dante na parte do Inferno escrita por algum hipocondríaco misantropo arvorado em cronista das suas próprias tormentosas fantasias e tempestuosos fantasmas pessoais...
[Na imagem: Gravura ilustrando a "instrução" de Oliver Twist, ministrada pelos jovens ladrões de Fagin]
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Actualidade e Reflexão Política
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
"Entre «bê-pê-énes» e «bê-pê-is»..."
"Da Aranha e da Sua Estratégia: a Propósito de um Artigo do «Sol»"

Do "Sol" de 01.10.10 retiro um excerto que merece seguramente alguma reflexão--desde logo a quantos, como eu próprio, não alimentam propriamente já grandes ilusões sobre a sustentabilidade do actual modelo de "democracia funcional" ou "economocracia plebiscitária" socialmente consentida, gerido em regime de co-propriedade e "leasing político" pela dupla neo-liberal "social"/neo-liberal 'hard core', "pê-ésse/pê-ésse-dê"--e chegaram a ver no aparecimento de candidaturas presidenciais aparentemente "de margem" como a de Fernando Nobre não tanto a solução em si para o problema do apodrecimento sistémico do 'regime' mas o possível ponto de partida para uma vaga de fundo capaz de conduzir à mobilização geral que permitisse, por sua vez, encontrar, no debate político sério e a sério, as saídas políticas que o 'regime', só por si, afogado entre Sócrates e Passos Coelhos, Santos Silvas e Rebelos de Sousa e tendo apenas Josés Lellos e Ângelos Correias ou Marques Mendes para oferecer, já não é manifestamente capaz de apresentar.
O excerto em causa permite, em meu entender, como se verá, independentemente daquilo que nele possa haver [e seguramente há] de interesse estr[e]itamente propagandístico, perceber exactamente o tipo de "estratégia da aranha" e/ou perversíssima i/lógica conspiratorial que tem intrinsecamente marcado, de forma persistente, o funcionamento interno do 'regime' desde a "novembrada" restauracionista de '75; o tem envenenado consistentemente por dentro---e evidencia como, de facto, já só com uma verdadeira limpeza integral é possível devolver-lhe alguma saúde básica e garantir-lhe a hipótese de sustentabilidade que, com o tipo de pessoa que, no centro mesmo, o habita--e continuamente manipula, "teleguia"--parece de facto cada vez mais dramaticamente longínqua--senão mesmo, repito, já, de todo, impossível.
O texto a que me reporto pertence ao artigo "Alegre acalma fúria de militantes" [de Graça Rosendo e Helena Pereira] e diz citando José Luís Cardoso, "capitão de Abril" e apoiante de Manuel Alegre, o candidato que, acrescento eu, apoiado ao mesmo tempo pelo "pê-ésse" e pelo Bloco, possui o singularíssimo [e improvável!] atributo de sedear e concentrar em si... a sua própria oposição:
"Mário Soares é 'pai' da candidatura de Fernando Nobre e como viu que ela se revelou um flop vem agora apoiar explicitamente Cavaco Silva.
Para Mário Soares, o mais importante é que Manuel Alegre não vença as presidenciais".
Símbolo para muitos de um "25 de Abril" que, na realidade, é apenas o "24" marcelista cirurgicamente remaquilhado de modo a parecer... mais um aos incautos, há muito que Soares deveria ter sido afastado da cena política no âmbito de um projecto verdadeiramente popular de saneamento e higienização da nossa vida colectiva, cada vez mais urgente e essencial.
A sua, não-tão-nova-como-isso, carreira como possível "pupeteer" do que são, afinal, tudo indica, goradas as esperanças de verdadeira alternativa, "zombies políticos" lançados às canelas da democracia para enredá-la, confundi-la e evitar que ela se "torne finalmente independente" vem ulteriormente demonstrar a urgência em fechar de vez essa mesma "democracia"--este híbrido de autoritarismo e 'economia total' temperada com votos--"para balanço" e reabri-la, uma vez concluído este, com uma "gerência" verdadeiramente nova [e até aqui sempre cuidadosamente evitada] e que é a de todos nós como comunidade, na condição social, económica e politicamente tão natural quanto ideal de principais protagonistas e únicos a[u]tores--com o apoio das forças políticas realmente interessadas em mudar o muito que está mal, na sociedade portuguesa: aquelas às quais não é justo exigir responsabilidades exactamente porque não é possível apontar-lhes cumplicidades de fundo no estado miserável a que o País chegou e que, por isso, justificam plenamente, mais uma vez nestas eleições, a oportunidade que aquele, o País, por excessiva credulidade ou simples inércia, sempre teimou--para sua infelicidade e persistente desgraça, afinal--em negar-lhes.
[Imagem extraída com a devida vénia de artmight-dot-com]
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Actualidade e Reflexão Histórica e Política
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
"Religar Teoricamente o Real: Tarefa Urgente da Esquerda--breve reflexão pessoal sobre a teoria e prática da Política, hoje" [incompl./por rever]

Se eu tivesse de indicar qual é, em meu entender, o maior problema da democracia, acabaria muito provavelmente por dizer que é a ilusão, verdadeiramente fatal, de que ela existe...
De facto, tal como eu a vejo, a democracia possui o atributo realmente singular de ser algo que é preciso reiniciar, recomeçar--num certo sentido preciso: reinventar--a cada novo instante da nossa vida individual e colectiva.
Algo que [curiosamente, como os mandamentos moisaicos...] uma vez criado, existe muito mais para impedir e limitar; algo que idealmente se define ou vai definindo, em última análise, por quanto evita muito mais do que por quanto, de forma directa, possibilita e oferece.
Não se trata, porém, quero desde já dizer, de uma visão restritiva e artificialmente ascética, possivelmente "sacrificial", mesmo, da democracia: uma vez criada e continuamente re/ajustada, a si mesma e ao universo mental e social, político--humano--a que se reporta, a democracia [que é, também num certo sentido 'genético' motor, sobretudo o seu próprio espírito] assume-se como o "manual de instruções" das sociedades verdadeiramente civilizadas ou daquelas que aspiram realmente a sê-lo.
É, diria eu, num certo sentido transmissor, sempre dialéctico, de "significado", a racionalização ideal do primitivo tabu, o grande alimentador da organicidade das culturas humanas originais em matéria de sentido individual e colectivo para a sua própria existência.
Elementos vitais da democracia são, obviamente, a inteligência e a propriedade colectiva, não-dissociada, do conhecimento essencial para poder gerar em todos os pontos da comunidade as formas estáveis de 'inteligência da realidade' que evitam que o poder [como dizer?] "se quebre" e, por conseguinte, se aliene quando se transmite ou se torna função ou 'operação'.
Quando se converte em História---numa História.
Em Portugal, como no conjunto dos países capitalistas, o conhecimento assim como, naturalmente, a inteligência que dele pode derivar, são mantidos na condição estruturalmente des-igual de propriedade e de função.
Uma propriedade privada utilizada na produção de capital.
Uma propriedade que não se distingue na prática da sua função económica mas também política.
É essa natureza privada e [vou cunhar um neologismo útil] "proprietacional" do conhecimento que explica que a inteligência, quando se forma em geral, na sociedade, o faça de modo em larguíssima e des/estrutural medida, inorgânico e que, por isso, nunca chega verdadeiramente a constituir, no conjunto das sociedades capitalistas, um atributo reconhecível--e muito menos tópico!--na formação colectiva daquela inteligência da realidade de que atrás falo.
É este último aspecto que explica, a meu ver, por que motivo não existe nas sociedades que apresentam este tipo de característica de des-igualdade na propriedade do que poderia, a partir de Marx, chamar 'os meios de produção' de conhecimento e, por conseguinte e por extensão, de inteligência, uma ciência ou uma ciencialidade--um «olhar [verdadeira e organicamente] causal»--sobre os mecanismos materiais, concretosa, objectuais, da democracia, a começar por esse aspecto absolutamente crucial e nuclear que é votar.
A incapacidade para estabelecere nexos realmente estruturais entre o acto de votar, a escolha eleitoral, e a siutuação politica concreta que dele deriva é, no fundo, aquilo que melhor define o funcionamento demoformal que confundimos comummente com "democracia".
Enquanto as pessoas forem votando no político A porque foi agredido ou porque essas mesmas pessoas ofereceram a si próprias um avental ou uma esferográfica barata por intermediação do político B [que não é propriamente o mesmo que dizer--o que já seria, de resto, suficientemente mau mas enfim...--que o político B lhes ofereceu o referido avental ou a caneta em causa]; enquanto [e isto, é no fundo, exactamente a mesma coisa dita de outro modo] as pessoas não tiverem a total percepção de que o poder que, de uma forma ou de outras, imediatamente a seguir a um acto eleitoral as explora, ignora ou mesmo oprime resulta objectiva ou seja: realmente da sua acção [cá está a tal ausência de "olhar causal" de que atrás falo!] e que é precisamente para isso, para gerar resultados concretos e eleger políticos que servem as eleições e não para qualquer outra coisa alienadamente "moral" ou arbitrariamente pessoal, continuaremos a ter sonhos eleitorais que se tornam, se dificuldade, instantaneamente pesadelos, mal cumprido o acto eleitoral.
Isto não será em si novo nem difícil de perceber: o que talvez o seja é a explicação que aqui pretendo avançar e que relaciona, de forma causal directa, o modo como se aliena comummente o uso da própria democracia [o voto] com a forma como, por outro lado, enquanto modo de produção, integramos económica e politicamente o conhecimento.
Dito de outro modo: a forma estruturalmente des-igual como permitimos que os modelos ou paradigmas de inteligência em geral sejam, entre nós, topicamente produzidos.
Não, pois, a partir da propriedade realmente democratizada e, portanto, verdadeiramente democrática do conhecimento mas como algo que pode formar-se, isto é, nascer e desenvolver-se, parea todos os efeitos, independentemente dele e de forma, por conseguinte, in-orgânica relativamente àquela propriedade--a qual, ao longo de todo o processo de formação de inteligência, permaneceu sempre inatacável e sempre, em geral, inargumentadamente privado.
É esse mesmo "corte gnoseomórfico" entre acto e consequências [ao lado de doses suicidárias de des-conhecimento objectivo das leis da República, é preciso reconhecer] que explicam, de outro modo, as coisas, muitas vezes, dificilmente imagináveis, quase surrealistas, que têm vindo a ser pedidas aos candidatos à presidência da república.
Na verdade, ouvindo certas "antenas abertas", "opiniões públicas" e por aí adiante percebe-se claramente como o "olhar vagamente cívico" que muitos cidadãos anónimos, descontentes com a Política e por ela ameaçados, lançam sobre a campanha e os candidatos releva muito mais do olhar inorgânico e "mágico" ou mesmo, num certo sentido, proviodencial e "místico", directamente reportável à prece do que ao olhar que, de forma intelectual, cívica e politicamente sã--causalmente límpido, transparente--um cidadão deve lançar sobre as figuras do presidente, do voto e sobre a Política em geral.
Muitos não percebem que se encontram na triste situação de terem de pedir ao presidente, como pediriam ao "Pai" ou a um... Zeus qualquer, que intervenha na História concreta de todaos nós corrija os excessos e as loucuras, as iniquidades, de um governo inepto e composto, em muitos pontos de verdadeiros imbecis, exactamente porque ainda não há muito que ele chegou ao poder em resultado de um acto que cada uma dessas pessoas--muitas delas, em todo o caso--praticou e podia não ter praticado e que, por conseguinte, a censura que pedem, agora em desespero, ao futuro presidente que apresente ao poder seria lógica e naturalmente a si mesmas que deveriam, em bom rigor [em bom rigor causal!] apresentar.
Esta ausência de um olhar causal sobre a realidade e o seu funcionamento, para além de constituir uma consequência, volto a dizer: directa e inevitável das formas políticas desiguais vigentes de partilha política do conhecimento e da inteligência [dos «meios de produção» de inteligência] opera como uma das principais armas de dominação e controlo ou mesmo de manipulação políticos por parte da economocracia no poder.
Parece-me, por conseguinte, diria para concluir, que uma das tarefas verdadeiramente básicas e essenciais da Esquerda e, de um forma mais geral, da Revolução hoje passa nuclearmente pelo encontrar e fazer com que se instalem na mente dos indivíduos estratégias claras e eficazes de religação ou reorganicização teórica [e prática!] da realidade de modo a tornar o funcionamento desta realmente acessível a todos.
[Na imagem: poster eleitoral soviético extraído com a devidas vénia de Soviet Posters]
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