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sábado, 6 de novembro de 2010

"La Mort sur L' Échafaud"


Uma bela quadra de Genet, parte de uma composição poética mais longa, ela que é, por si só, um verdadeiro poema que deixo aqui registado no âmbito de um projecto antológico pessoal, iniciado há tempos e entretanto, por várias razões, semi-abandonado.

"Je ne suis plus qu' amour
Toutes mes branches brûlent
Si j'obscurcis le jour
En moi l' ombre recule."

[Na imagem: Jean Genet por Jean Cocteau]

quarta-feira, 7 de abril de 2010

"Stopping by Woods on a Snowy Evening"


Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.
The woods are lovely, dark and deep,

But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

Robert Frost


[Na imagem "Still Winter", aguarela de Hannah Michael Gale Shapero apud pyracantha-dot-com]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

"«Febrero 89», canção por Julio Jorge Perez Venezuela, enviado por Luisana Medina"


FEBRERO 89 [*]


Está vacío el anaquel,
no hay que comer
y la sardina ya subió por quinta vez
en la semana.
Otra vez
Carlos Andrés balbucea pendejadas
Mientras nos vende y nos dispara
Por la espalda.
Dispara primero y averigua después,
ñángara muerto no vuelve a joder,
desaparecido desaparecido esno perturba,
y no perturba la paz de la clase alta
que es lo que importa pa’ la finanzay
pa’ que el Fondo Monetario nos devuelva
la confianza,
huele a hambre toda la casa,
el apetito de los críos con Perrarina se calma.
¿Quién puede sobrevir con un sueldo de albañil?
Mucho menos cuando el patrón
se monta en el avión
y le da la gana
de irse pa’ Miami
a consumir veinte botellas de Swingy
gastar nuestro salario
En su barragana.
Si el pueblo se arrecha
nadie lo va a parar,
arde el barrio a punto de estallar,
no servirá de nada la represión policial,
ladran los perros,
bajan los cerros pa’ acabar con esta vaina,
el mal gobierno caro se pagala mejilla
del obrero no aguanta otra bofetada
pa’ l candado la cizalla
y para el oligarca la justicia de las masas.
Es febrero 89
es veintiocho
y no llueve
pero la sangre se encargó
de humedecer la carretera
para que pueda resbalar
el furgón de impunidad
que transporta nuestros muertos
A dónde no los vean.
A la fosa común no le cabe uno más,
Revienta la peste con la dignidad
de los que murieron por llevar el pan
hasta su casa,
es lo que pasa si nos quedamos callados
hoy esos muertos cumplen 21 años
21 años de silencio,
21 años sepultados,
21 años esperando a que la justicia ciega
por fin le tienda los brazos,
21 años reclamando hijos desaparecidos,
cuerpos no identificados.
Cemeterio abarrotado,
órdenes de exhumación,
trámites es Fiscalía,
más planilla pa’ l cajón.
Burocracia que asesina al proceso
y no termina de encajarcon
las ideas que nos hablan de justicia,
de igualdad
y libertad.
Burocracia que asesina al proceso
y no termina de encajar.

Jorge Julio Perez Venezuela


[*] [...] no seu segundo governo, Carlos Andrés Pérez [...] em Fevereiro de 1989 [fez aprovar] um plano de austeridade fiscal que foi duramente contestado pela população venezuelana, especialmente a de Caracas. Tal descontentamento popular ficou conhecido como "Caracazo" e é tido por muitos como a génese do 'fenómeno Hugo Chávez' [...] [apud "Wikipédia"]


[Na imagem: Desenho de Diego Rivera, México, "Niño Con Taco"]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"Tu"


Quem vier aqui hoje tem prémio!

O "Quisto" hoje dá brinde!

E não dá um: dá dois: um, é o belíssimo poema de Helena Maria de Jesus Águas ["o segundo para quem vem de baixo": em baixo se diz quem é esta artista...] extraído do seu belo "A mar te".

O outro é a magnífica rosa que eu mesmo roubei do quintal de alguém chamado "double u-double u-davidsuzuki-dot-com para todos vocês, Amigos do "Quisto".

Se/quando/quem cá vier pode levá-la consigo para casa que eu não me importo: eu quando roubo, é para todos, está bem?...

... mas, por favor, façam de maneira a que o Sr. Suzuki não vos veja sair com ela, ham??

Por amor de Deus não me metam em trabalhos "ca bófia", ouviram?!...

E agora [agora é mesmo a sério!] o poema:


Como é dolorosa, esta teimosia de sofrer passiva
o drama deste mundo que se queima em cada
monte de ervas verdes!

Dóis-me. Tu não sabes como eu sinto---sempre
esta mania de me convencer que sofro. É verda-
de. Queria-te aqui. Despido de memória.
Mergulhaste neste lago e eu lavei-te a boca e
os olhos. Depois vieste dormir com o coração no meu
colo de mãe. Vem outra vez. Volta ao princípio
do mundo em que te conheci. Vem outra vez. E
outra. Eu dou-te um filho da natureza.

Tu.


[Nota: a disposição do texto foi muito ligeiramente alterada no último verso em que relativamente ao texto original a palavra que o compõe mudou de linha, passando a ocupar nesta transcrição uma linha própria destacada do resto do texto poético.

Também o título da 'entrada', "Tu", é o título da 'entrada', não o do poema---que o não tem.]

"A mar te"


descalcei-me na noite
para sentir o pulsar da terra
fechei os olhos devagar
e acordei

do outro lado do espelho


Esta 'coisa'... textualmente fulgurante e poeticamente total, que acabo de deixar registada saíu da pena de uma poetisa portuguesa contemporânea [não digo: 'viva' porque vivos estão todos os poetas, independentemente do tempo em que possam ter existido e escrito, se o que viveram---e escreveram---valeu efectivamente a pena] directamente para os nossos sentidos---caso estes se tenham conservado atentos e abertos a sinais desta natureza menos imediata e... comum.

O poema não tem nome---a Poetisa sim, chama-se Helena Maria de Jesus Águas e usou durante muito tempo o nome artístico de "Lena d'Água".

Fica registado num livrinho francamente considerável e meritório intitulado "A mar te".

Se puderem achá-lo numa livraria qualquer [editou-o a Ulmeiro em 1984, com uma capa de António Pimentel sobre um quadro de Costa Maya] permito-me humildemente sugerir que o leiam de uma ponta a outra, quanto o tempo [nem é preciso muito: são apenas 45 páginas...] o permitir.

Há lá outros emocionantes 'instantes textuais' de igual eloquente, contida concisão---e brilho poético "em plena florescência".

Quem diria, não é?...


"Sacrée Lena!"
[Imagem "gentilmente cedida" por gutenberg.com]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Le Déserteur" de Boris Vian


Foi um texto que acabou, algures no tempo, por se me 'colar' definitivamente à memória, o poema que mais vezes declamei, sobretudo em voz baixa, para mim [às vezes sem ter sequer a noção clara de que o tinha começado a fazer] em tempos---num tempo particular e íntimo que, por uma razão qualquer, estes últimos dias me trouxeram, de novo, quase integralmente revivido, ao espírito.

Recordo-me de ter chegado a Amsterdão num dia gélido de inverno, completamente desorientado pela visão ominipresente, obsessiva, da neve e pela sucessão de escalas e imediatas repartidas sem destino, inteiramente ao sabor de um verdadeiro caos de informações contraditórias de pura circunstância ["Não pares em França, tenta a Holanda!" "Aqui na Bélgica é difícil que te legalizes: tenta a Suécia!" ou até: "Eu, se fosse a ti, tentava mas era o Chile!"---um Chile onde, aliás, escassos meses mais tarde, conduzida por uma sinistra personagem de Inquisidor "doublé de" "Mussolini Subtropical" cujo nome é indigno de ser expressamente mencionado, uma verdadeira tempestade de crimes e abjecções indizíveis, havia de seguir-se ao sangrento derrube de Allende e do metódico assassínio de quantos tiveram a veleidade de segui-lo na utópica aventura por ele, pouco antes, esperançosamente iniciada].

Recordo-me de ir de porta em porta numa Amsterdão completamente gelada e persistentemente 'crepuscular'---levei um dias inteiro a deambular por ali, planta da cidade em punho, procurando o contacto cujo nome levava, no meio de uma babel de vozes cujo sentido---pela primeira vez, desde que partira uma semana antes, de Portugal---me escapava por completo---e de, de repente, uma porta se ter aberto na velha Atjejstraat [só "Atjejstraats eram duas, a "eerste" e a "tweede"...] e alguém me ter finalmente acolhido com algo mais do que a fria e polida indiferença germânica que fora até aí presença constante desde que desembarcara, para me dizer: "É aqui, sim! Podes entrar!"

Recordo-me de uma casa enorme, um de caos indescritível de livros, discos e cartazes [cartazes da China de Mao, do MPLA---"Koffee voor Nederland, bloed van Angola", dizia um deles]---um comunitário de jovens estudantes e trabalhadores---da Catherine, da Irene, do Engelhardt e de um modo muito particular, do Mark, que, com uma guitarra e uma boa vontade verdadeiramente comovente pela genuína marca de obstinadamente muda cumplicidade mas, também, de pura humanidade que trazia consigo e me era especialmente dirigida, entoava as palavras arrepiantemente belas deste "Le Déserteur" de Vian cujas últimas palavras eu aguardava sempre com uma assustadora expectativa de que tivesssem, por miraculosa intercessão de um qualquer deus da poesia, entretanto deixado de estar lá e que pareciam---mas sobretudo porque pareciam---ecoar de forma verdadeiramente ominosa as sinistras palavras de gélida advertência daquele comissário fronteiriço em Port Bout que pouco antes me havia dito: "Oui! Vous pouvez passer par là. Mais dêpechez-vous quand-même, ham? Je vous donne cinq minutes pour en fair parce qu' après ça je fais sortir une patrouille. Ja la commanderai moi-même et... je tire bien, hein?..."



"LE DESERTEUR"

de Boris Vian

Monsieur le président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour aller à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter
Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins
Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
"Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
"S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer!"


Boris Vian

"«Al Olmo Seco» de António Machado"


Era por aqui que a minha modestíssima [sempre caracteristicamente caótica e assumidamente impressionista!] "antologia pessoal" deveria ter começado: por este sublime "Al Olmo Seco" de Machado.

Uma vez, fiz, de uma assentada todo o percurso de Sevilha a Colliure onde o Poeta está sepultado, passando por essa árida mas, para mim, íntima Soria do próprio Machado com o único propósito de reconstituir uma espécie de trajecto interior machadiano que ficou como uma das coisas mais belas, vibrantes e inesquecíveis que alguma vez, fiz na vida.

Em Soria, descobri quase por acaso [de facto, completamente ao acaso na minha costumeira errática e excitada romaria em busca de alfarrabistas que, juntamente com o liceu local, era ponto de partida obrigatório em cada cidade ou vila visitada, fosse ela qual fosse, para a respectiva 'descoberta'] um livreiro que tinha 'postais de Machado' mandados fazer especialmente por ele, esteticamente muito imperfeitos e quase pueris, mas [que é o que importa!] obviamente sentidos---e acabámos por subir juntos até ao local onde um cura anónimo, machadiano ou 'machadista militante' como nós---contou-me ele---havia mandado, em data hoje completamente irreconstituível, talvez a seguir à guerra civil, [re] plantar um velho ulmeiro em homenagem àquele Machado íntimo e comum que, como o poema lembra, ressurgira ou renascera de umas «cinzas íntimas» que não haviam, porém---é o poema ainda quem no-lo revela!---logrado dilacerá-lo nem, em caso algum, vencê-lo; esse Machado secreto e exemplar que nos havia unido a todos numa espécie de laço invisível, transmaterial e imensamente misterioso, capaz de ultrapassar as barreiras e limitações do Tempo e fazia de todos nós---mesmo do velho cura anónimo há muito desaparecido---companheiros [mais do que companheiros: cúmplices] de uma aventura interior única que sabia impor à Morte as suas próprias leis e unir o Tempo todo numa espécie de intemporal e inconsútil celebração da Beleza ideal que é aquela que resulta da errância, material ou íntima e interior, vivida sempre positivamente, como uma aprendizagem ou uma iniciação minuciosas e fecundas---que é como quem diz: da obsessiva, estóica, heróica, definitiva, contínua superação da Dor em Conhecimento e em Consciência.

Da transmutação alquímica daquela numa Beleza, final, permanente literalmente completa: obsessiva e absolutamente perfeita, numa palavra...

AL OLMO SECO

Al olmo viejo,
hendido por el rayo
y en su mitad podrido,
con las lluvias de abril y el sol de mayo,
algunas hojas verde le han salido.
¡El olmo centenario en la colina
que lame el Duero!
Un musgo amarillento
le mancha la corteza blanquecina
al tronco carcomido y polvoriento.
No será,
cual los alamos cantores
que guardan el camino y la ribera,
habitado de pardos ruiseñores.
Ejército de hormigas en hilera
va trepando por él,
y en sus entrañas
unden sus telas grises las arañas.

Antes que te derribe,
olmo del Duero,
con su hacha el leñador,
y el carpintero te convierta
en melena de campana,
lanza de carro o yugo de carreta;
antes que, rojo en el hogar, mañana
ardas, de alguna misera caseta
al borde de un camino;
antes que te descuaje un torbellino
y tronche el soplo de las sierras blancas;
antes que el río hacia la mar te empuje,
por valles y barrancas,
olmo, quiero anotar en mi cartera
la gracia de tu rama verdecida.

Mi corazón espera
también hacia la luz y hacia la vida,
otro milagro de la primavera.


António Machado

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"Una Gaviota"

Um poema para o Haiti que uma Amiga sul-americana, Luisana Medina, acaba de me enviar e que, depois, de tê-lo já partilhado com a Amiga Ana da "Encosta do Mar", não resisto a divulgar aqui, no "Quisto":

"Dios me bendice,
pues que me regala una tierra gentil
que nadie iguala
ni halle mejor en la extension remota

"Haiti, la llaman, es una gaviota,
es dulce, alegre, tibia, como un ala
inadvertida se vistio de gala
ante el caribe que su faz azota.

De malignas serpientes y alimañas
despejaron sus dioses las montañas

poblo la selva ibolele de trinos

Hoy como ayer deslumbra al navegante,
la que esperando al parecer amante,
extiende al mar dos brazos diamantinos.

Esther Maria Osses
Poesia en Limpio

NO ES EL INFIERNO, ES UNA GAVIOTA...
ESTA HERIDA....
Y SOLO LA CURAN LOS LATINOAMERICANOS!!!!!!!!!!
CONTINUEMOS AYUDANDO AL PUEBLO HAITIANO!!!!!!!!!!!!!!

[Imagem extraída com a devida vénia de telescopes.binoculars.co.uk]

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Consulta", soneto de Antero de Quental"


Continua a minha aparentemente insanável dificuldade para organizar e dar um sentido preciso, definido, às emoções após a inominável catástrofe que ocorreu há dois dias no Haiti.
Talvez apenas textos
[e um discurso] como aqueles que se seguem possam, com alguma possibilidade de êxito, definir o rumo exacto daquelas e definir para elas um sentido último, claro e minimamente consistente...


CONSULTA

[A Alberto Sampaio]


Chamei em volta do meu frio leito
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito...

E disse-lhes:--No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito...

Mas elas perturbaram-se--coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena...

E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: --Não, não valia a pena!

ANTERO DE QUENTAL

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"LA NOCHE DEL JABALÌ" [Republicado do «Facebook» onde mo enviou Luisiana Medina]"


LA NOCHE DEL JABALÍ

Letra y Música Alí Primera.
Intérprete: Alí Primera

Descargar en .mp3 (16 Kbps - 648 KB)
Nota: el video no esta en you tube.

Apaga la radio compañera
hay tantas cosas para conversar
no preguntes cuántas veces por segundo
mueve las alas el colibrí
pregunta por ejemplo
¿qué estamos haciendo por Haití?
¿qué dónde queda?
diceses un lugar cercado por la noche
en el inmenso cobalto del Caribe
La noche en este caso
es la miseria,
es el hambre
es la palabra presa
es negar el camino a la inteligencia
es negar que el obrero
es un poeta
es negar que el obrero
es un poeta
¿Qué cuántos habitantes tiene?
los que le quedan después de tanta masacre
¿Que si luchan?
, además de sobrevivir
¿que si luchan?
Claro que sí, pequeño amor, claro que sí
Los patriotas haitianos
andan con luces y colores en las manos
y andan florecidos
como la tierra regada por lloviznas y por cantos
pero han luchado solos, compañera,
solos aunque andan florecidos como andan los hombres
cuando andan luchandohan luchado solos,
compañera hasta que nuestra conciencia dispare
en la lucha por liberar a Haití
hasta que el mundo se alce en una sola voz luminosa, solidaria
Y entre todos hagamos posible la mañana
que acabe para siempre con la noche del jabalí
con la noche del jabalí
Ahora, pongámonos en marcha
que la palabra sin los pasos es una palabra muerta
Y el tiempo nos dice: ¡avanza!
Alma profunda en llamas, ¡avanza!
Construyamos entre todos la mañana
que acabe para siemprecon la noche del jabalí
con la noche del jabalí
No permitamos que el futuro nos pregunte
¿Qué hicieron ustedes por Haití?
y respondamos bajando la cabeza
los hombres que cayeron
son el número exacto
de las veces que en un siglo
mueve las alas el colibrí
mueve las alas el colibrí
mueve las alas el colibrí
mueve las alas el colibrí

SOLIDARIDAD CON EL PUEBLO HAITIANO, QUE NO HA PARADO DE SUFRIR!!!!!!
[Imagem extraída com vénia de poemasencantos.blogspot.com]

sábado, 24 de outubro de 2009

"O «Zé» Gomes Ferreira"


Um programa da RTP Memória trouxe-nos ainda muito recentemente (ontem, de facto, talvez porque a nova ministra da cultura entra no filme na sua condição original de pianista) a lembrança de José Gomes Ferreira.

Poeta "maldito" para o "regime" (falo do actual regime de "democracia funcional" e... pragmática") como "malditos" foram (e continuam a ser!) por razões, aliás, em tudo idênticas, Vasco Gonçalves (quando, meu Deus, se fará justiça nacional a um dos homens mais puros e mais genuínos que o País moderno teima em desconhecer?!), o Zeca (que, tirando aquele breve episódio-LUAR, "capela" alguma conseguiu, como é sabido, domesticar e levar, um dia, a passear com uma cordinha ao pescoço...); o Otelo (o "grande Otelo", outro completo "innocent abroad", naufragado num país de espertalhaços muito mais atreitos ao "pão com manteiga" ou à "tosta mista com muito queijinho derretido", na mesa à hora certa do que à utopia desinteressada...); poeta (perdão! Poeta!) maldito porque se obstinou em acreditar que tudo "aquilo" era sério e a sério e que, por isso, não hesitou em comprometer-se até às orelhas num projecto profundo de verdadeira revolução que nunca existiu de facto, na mente dos triunfadores de 75, agregados, à parte do generoso impulso transformador original, num novembrismo osco e sonsamente "pesetero", sinistramente vulpino e conspirador, a integral extensão de cuja sedição ainda hoje generalizadamente se desconhece e que rapidamente percebeu que tudo se resumia, no fundo, a um pouco de paciência (com os Estados Unidos e a Alemanha na retaguarda prontos a ajudar com a sua "experiência", os seus marcos ou os seus dólares e os seus militares se necessário fosse e a mera paciência não bastasse...) pagou com o "esquecimento estratégico" da "crítica" oficial essa sua (confessada mas imperdoável) ingenuidade.

Foi, porém, mau grado os "culturadores e consagradores oficiais", um grande Poeta e um Homem coerente que quem pode permiti-se pagar o serviço de televisão por cabo (e apenas esses...) pôde, também, ontem ficar a conhecer um pouco melhor, como, de resto, amplamente justifica e merece.

De José Gomes Ferreira, Poeta, Compositor, Homem do Cinema, deixo aqui um fragmento que bem define a sua Poesia verbalmente intransigente e seminal, escatologicamente dura mas sempre, em última instância, paradoxalmente transcendentalizadora, sinfonicamente paradoxal mas, no limite, sempre também magicamente coesiva, inquieta, vibrante, sanguínea---e agregadora.


[...]

Todos nascemos nus
---condição dos seios,
das açucenas
e dos sapos.

Mas até os seios das mães
são diferentes.
Uns cheiram a sedas quentes,
outros, a urina de cães.

[...]

Álbum/XII

[Que tal nós, os clandestinos virtuais da Cultura; os "alternativos do espírito" que nos obstinamos em não nos rendermos à "literatura de locutor" nem, de um modo geral, à "cultura Farinha Amparo" (em embalagens de quilo e meio quilo, vendidas preço aliciante acima e abaixo de Equador...); que tal nós todos começarmos determinadamente a redescobrir---e a dar a redescobrir...---a Poesia do "" Gomes Ferreira às gerações mais novas que o desconhecem como às mais antigas que, entretanto, já o esqueceram?... ]

terça-feira, 13 de outubro de 2009

"«Ar-Visão» de Kafka, uma «leitura/ção» pessoal" [T.i.P., text in Progress]

Uma ideia que, como professor (de português, sobretudo, por razões óbvias) vi, com muita frequência, surgir na minha prática docente dizia directamente respeito à incomodidade sentida por muitas pessoas relativamente à questão da "compreensão" de um texto (ou, no caso da pequena obra que imediatamente se segue e da qual, passo em seguida, a propor uma "explicação" ou, melhor, uma---possível---"chave) de uma "textualidade" poéticos, um e outro.
Há, com efeito, enormes equívocos em torno da ideia ou ideias de "Conhecimento" poético.
Para ajudar a desfazer alguns desses equívcos começo logo por propor que eliminemos do nosso léxico analítico e crítico assim como da nossa semântica exegética, de um modo mais lato, a palavra "conhecimento".
Em alternativa, proponho que lhe prefiramos, conforme os contextos, modulações e/ou flexões do vocábulo propositadamente alternativo "cognição".
Aquilo que a Poesia nos dá, pois, são, sobretudo, cognições e, partindo para um ponto de vista mais genérico e abstracto ainda, toda uma cognicionalidade (envolvendo os outros, a realidade em geral e a nós mesmos de uma forma particular e, no limite, ideal: nós mesmos na interrelação dialéctica com tudo 'isso', nós mesmos como resultado em larga medida daquilo que nos tornamos a partir dessa mesma relação); uma cognicionalidade, pois, que partindo do texto poético vai, gradativamente, dando origem a uma espécie de "ciencialidade" e "saber" autónomos, paralelos e, sobretudo, complementadores do 'saber objectual', i.e. concretamente demonstrável, próprio da "ciências" genuínas, digamos assim.
Determinado isto, será, creio eu, mais fácil perceber que "leiturar" um texto ou uma textualidade como aquela que imediatamente se segue tem necessariamengte de constituir algo de essencialmente distinto de "ler", num certo sentido, mais simplesmente um teorema de Geometria ou uma qualquer das muitas "leis" que constituem o conhecimento Físico e/ou Químico.
"Leiturar", pois, um texto poético é, em larga medida, achar nele a figura segundo a qal ele (recorrendo, aqui, a uma imagem das ciências concretas, a geologia) como ele, por debaixo da superfície, "cristaliza" e estabiliza num "objecto-em-si", digamos assim.
No caso do texto de Kafka, intitulado, na versão proposta por Manuel João Gomes, "Ar-Visão", eu diria que os ângulos da imediatamente obscura "geometria sémica" do texto se acham nas ideias de "braço", "eu" e "homem".
O braço é obviamente o elemento desencadeador da "acção" ou "acticidade" poética(s).
Tal como o texto nos chega, com título e tudo (nunca é demais sublinhar esta questão capital da fiabilidade objectual, material, da versão portuguesa relativamente ao... "conhecimento" que, depois da "leituração" do texto, ficamos a fazer de Kafka) o texto vem, diria eu, deliberadamente desprovido de uma interpretação que idealmente deveria começar no título.
Ora, neste caso, aquilo que o título contém é muito menos uma primeiríssima "chave" do que se lhe segue do que um mero "relatório" do meio onde a "acção poética" decorre: no ar.
É uma "visão" (aqui há, admissivelmente, algo de talvez "interpretativo": "visão" oposto de "acontecimento real" ou "visão" no sentido de algo que o eu poético pretende, cripticamente, projectar e, por conseguinte, afastar de si, recusar a si---de que ele pretende libertar-se?); é, dizia, pois, uma "visão" (num destes sentidos possíveis) que decorre "no ar".
Em tempos, tive ocasião de traduzir para português um texto dramático de Joe Penhall intitulado, no original, "Blue/Orange", dele construindo uma versão que, por razões que desconheço, nnca viria a ser encenada.
Sê-lo-ia, sim, uma outra que vi representada como José Pedro Gomes num dos papéis, intitulada "Laranja Azul".
A minha nunca representada versão intitulava-se, essa, "Azul/Laranja".
Sem pretender, como é evidente, pôr minimamente em causa o título da versão realmente encenada e representada (que me pareceu, de resto, muito eficiente como texto em si para ser dito) pretendo, sim, justificar as razões por que preferi que, em português, a peça se chamasse "Azul/Laranja".
A minha intenção era (valorizando especificamente a barra entre os dois termos constante do título original) evidenciar logo nele o elemento dissociacional, esquizóide, des-integrativo dado por esse modo (chamemos-lhe) "barrado" de separar em vez de ligar o adjectivo e o nome em inglês.
Ora, voltando concretamente a ele, eu não sei como se chamou o texto de Kafka no seu original mas acredito que, a verificar-se nele, a "barragem" dos vocábulos que o compõem, o propósito do seu autor pode ter sido exactamente esse de "neutralizar" e, ao mesmo tempo, "cortar os laços" que o ligam à "acticidade poética" constante do seu escrito criando assim subliminarmente a ideia/sugestão da "ferida", do "corte", da "dor", de dissociação esquizóide, por um lado, ao mesmo tempo que insinua no próprio olhar que lança, sobre uma determinada experiência interior descrita em código, um distanciamento, uma espécie de "barreira simbólica" ou "simbológica" projectiva de impessoalização que diz seguramente algo---a ser correcta a nossa interpretação---sobre o modo como ele apercebe e integra uma realidade que, a um tempo, o atrai e ocupa (ou não seria "tema" do texto) mas, de igual modo (na "leituração" que pessoalmente do texto faço) repele.
Assusta.
Este, pois, em tese, o pano de fundo genérico da "acção" poética.
Vem, em seguida, esta propriamente dita.
Inicia-se ela com uma invocação que, a mim pessoalmente, sugere que o texto estava (como dizer?) justamente à espera que "chegássemos" para iniciar-se.
Tratar-se-á de um texto... "exibicionista"?
De uma "encenação" concebida a pensar em nós?
A ser verdade, a primeira cautela a ter na abordagem crítica do poema é obviamente começar por suspeitar dele?
Não é, com efeito, nesse caso, rigorosamente uma "confisão" (não imediata e não linearmente) mas um "sinal" ou elaborada "elicitação" que é preciso "descodificar".
[Há um vocábulo inglês de que gosto especialmente para dar esta ideia de "descodificar" um texto que pretende dele não tenhamos uma ideia demasiado clara à partida que é o termo "to crack" ou "to crack open" que não sei, francamente, como verter com verdadeiro sucesso em português.
Fiquemo-nos, pois, por aquele "descodificar", "desencriptar"]
Há, no texto, então, uma "lâmpada" que não brilha mas fala (e que bale) um braço (cujo "som" incomoda, perturba a "acção" poética---tratar-se-á da "luz" da "racionalidade", i.e. da pressão inquietante da Verdade---da verdade interior---para emergir num plano que deve, pelo contrário, permanecer ambíguo, confortavelmente "escondido" como está no universo, por sua vez, tranquilizadoramente "simbológico" e distanciador/ocultador da Poesia?).
Seja como for, "falava" e deve agora "calar-se" para que a "acção poética" possa ter lugar.
Esteve em tempos entre nós, a convite da "Comuna" e a propósito da celebração do centenário de Beckett, uma académica britânica, Julie Campbell, que apresentou uma interessantíssima tese envolvendo a ideia de "dark comedy" no criador de "Godot".
Com base nessa ideia de uma "comédia sombria" em Beckett, elaborei eu próprio um conceito autónomo baseado no estudo de alguns aspectos específicos da opus beckettiana: o de "comédia ontológica", conceito esse que fica particularmente claro na peça que, precisamente para a "Comuna" e para a encenação de João Mota eu mesmo tive ocasião de verter para o nosso idioma "All That Fall" uma peça radiofónica.
Aquilo que, a meu ver, permite substanciar, na essência, essa "comédia ontológica" é essa espécie de "achatamento ôntico" aí deliberadamente levado a cabo por Beckett a partir da matéria fónica do texto, no qual sons nimais, minerais e (muito supostamente) "humanos" se fundem numa espécie de caos cacofónico que os nivela a todos por igual, i.e. indiscriminadamente, numa orquestração global deliberadamente dissonante e grotesca, caracteristicamente amarga, sardónica (muito beckettiana, pois) que, a meu ver, constituía, aliás, a versão sonora dos rituais de mineralização física (de que "Happy Days" é o caso paradigmático mas de que "All That Fall" fornece igualmente um exemplo reconhecível, desde logo, no toponímico "Boghill", o lugar onde a acção da peça decorre) (*).
Bom, recordo agora essa circunstância a propósito deste texto de Kafka por entender quer é admissível que haja nele algo de essencialmente análogo.
Kafka é, de resto, como se sabe, desde logo, com o absolutamente incontornável "Die Verwandlung/A Metamorfose" um dos pilares cultu(r)ais desta visão desumanizadora (in/essencialmente "debasing") do humano, aqui simbolicamente comparado a um insecto---algo que o próprio Beckett recriará, aliás, em "Acto Sem Palavras" (magnificamente encenado, numa versão absolutamente notável, arrepiante, em tempos, pelo Cendrev num trabalho fabuloso de José Russo) e que Ionesco, por seu turno, "citará" em "Rhinocéros".
Aqui, re/encontramos a natureza em caos com os diversos "reinos" fundindo-se e misturando-se num ritual de desessencialização na mesma (possível) linha de que tenho vindo a falar: a luz que "fala" e "bale" e que implicitamente deixa supor uma espécie de indiferencialidade grotesca entre as coisas, os animais---e as pessoas.
Ou seja: "falar" deixa, em tese, de permitir distinguir estas últimas do resto do conjunto das formas de existencialidade circundante---tal como em Beckett, o carro que guincha, a galinha que cacareja, a bengala que "crepita" se fundem na tal espécie de concerto indiferenciado de sonordades desprovidas de uma essencialidade ontológica específica, própria que permita assegurar-nos de que o real permanece estável e provido de "sentido" igualmente estável e efectivamente consistente com a ideia que dele tradicionalmente possuímos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Quem é?"


Começo por uma pergunta:

Alguém me consegue dizer a quem pertence a autoria deste poema?

Ar-visão

Que se cale a lâmpada e deixe de balir.
Delgado, da parede, um braço rebentou,
de palidez coberto, de azuis veias raiado, tinha os dedos ornados a pérolas de preço
sendo quente viva a mão que lhe beijei.
Tremi de medo.
Ferozmente agarrado me vi
e
tomando um facalhão
abri-lhe as veias em golpes borbotões;
Grácil, um grande gato, lambia no soalho o sangue despejado,
enquanto, horripilado, de cabelos no ar,
um homem se empinava por um pau de vassoura
encostado à parede.

Algumas pistas:

-não é português (o texto que reproduzo corresponde a uma versão de Manuel João Gomes inserta na raríssima "Antologia do Humor Negro", editada entre nós por fernando ribeiro de mello/edições afrodite)

-uma vez conhecido o seu prestigiosísimo nome associamo-lo de imediato a algumas das mais importantes obras da Literatura Universal mas em prosa;

-morreu jovem e raramente passa um dia sem que uma referência directa ou indirecta lhe seja, afinal feita...

Alguém se atreve?
Resposta: Kafka.

sábado, 3 de outubro de 2009

"Soneto à filha Violante, de Eugénio de Castro" [T.i.P., text in progress]

Reservo este espaço do "Diário" que aqui venho mantendo para uma confissão que francamente já me tem causado alguns razoáveis embaraços em público.
A confissão é, muito simplesmente, esta: não consigo ler os sonetos que Eugénio de Castro (um poeta em geral frio e distante) dedicou aos filhos sem, inevitavelmente, a dado passo, sentir um nó na garganta que me impede invariavelmente de prosseguir.

Sempre que tentei até hoje dizê-los [numa aula, em família] em público, nunca consegui que não houvesse um embaraçosíssimo momento em que a voz se me embarga e se torna, como disse, embaraçoso prosseguir.

Por muito que tenha previamente tentado prepara-me para a ocasião jurando a mim mesmo pensar até noutra coisa qualquer enquanto leio.

Impossível!

Estes sonetos (que a minha Mãe me lia em criança de uma velha "selecta" por onde ela própria estudou) assim como um pequeno acervo de outras "coisas" particularmente sentimentais e propícias a inflamar facilmente a emotividade viva de um adolescente ensimesmado, melancólico, sensível e introspectivo como eu próprio fui; "coisas" de uma sentimentaliade imediata (e imediatamente contagiante) como "A Venda dos Bois" ou empolgantemente retóricas e quase delirantemente épicas como "O Juramento do Árabe", ambas de Gonçalves Crespo e até, noutro mas, no fundo, não muito disemelhante registo, "O Noivado do Sepulcro" de Soares de Passos (que a minha Avó cantava com uma melodia monótona mas fascinante que nunca esqueci) e que era o nosso emocionantísimo "filme de terror" privado desse tempo, em certos serões familiares passados em Moura, num casarão enorme e gélido no inverno, escuríssimo, iluminado a petróleo na adega e nos quartos de baixo---enormes, altíssimos, atravancados de velhos móveis e todo o tipo de objectos fascinantes (o sabre do meu avô, a pistola, as dragonas...); esses sonetos, dizia, passaram a acompanhar-me, no fundo, toda a vida, a partir daí.

Para mim, foram, sobretudo, como que um momento de súbita e irreprimível vulnerabilidade de Eugénio de Castro (que eu "conhecia", aliás, perfeitamente da fotografia severa, impressa na "selecta" e que me parecia uma pessoa austera, incapaz de exibir por hábito as suas fragilidades íntimas em público e por isso mais valor tinham esses momentos em que se me afigurava, subtitamente, fraquejar...).

Gostava de pensar a propósito que não se tratava exactamente de sonetos publicados mas de genuínas confissões que apenas a nós, pessoal e muito intimamente, haviam sido feitas...

Durante muito tempo, persuadi-me disso e alimentei a propósito a ilusão de que ninguém mais conhecia as dores e vacilações---a insegurança geralmente disfarçada com sucesso---do Poeta; e acreditei que ninguém mais podia conhecer além de nós três, a minha Mãe, a minha Avó e eu próprio exactamente porque nos haviam sido confiados a nós e apenas a nós em segredo---em confidência: apenas a nós, na adega da casa de Moura...

É ela---a casa---e são elas: a minha Mãe que pouco depois nos deixaria para sempre e a minha Avó de quem a vida me afastou também, não haveria de tardar muito, mas por outras razões; é tudo isso que eu revejo e volto fugazmente a possuir pelos brevíssimos instantes de cada leitura!

São elas, esses fantasmas perdidos, que regressam nesses fugidios momentos que ela dura (a parte que dela consigo fazer...); é a minha própria infância distante, o tempo da inocência, o Alentejo mítico de então para o qual o resto do País, logo a partir de Vila Franca de Xira, era "lá para o Norte", o calor dessas duas mulheres de cuja companhia e cumplicidade, por motivos distintos mas igualmente difíceis (e, num caso---o da minha Mãe---trágico mesmo) pouco pude gozar---é tudo isso que regressa nestes, para mim, únicos sonetos de Eugénio de Castro de que deixo aqui hoje um dos mais melancólicos, sentidos e pungentes dedicado à filha Violante.


SONETO

Acorda cedo como os passarinhos
e vem logo direita à minha cama;
sacode-me com jeito, por mim chama
e abre-me os olhos com os seus dedinhos.

Estremunhado, zango-me. -
"Beijinhos,
não quer beijinhos?
" - com voz de ouro exclama.
Da minha ira empalidece a chama,
e, acarinhando-a, pago os seus carinhos.

Senhor! Que amor de filha tu me deste!
Dá-lhe um caminho brando e sem abrolhos,
dá-lhe a Virtude por amparo e guia!

e destina também, ó Pai celeste,
que a mão com que ela agora me abre os olhos,
seja a que há-de fecharmos algum dia!


Eugénio de Castro


[Imagem extraída com vénia de img2.allposters.com]

"Hilaire Belloc, «Tarantella»"


Um dos textos poéticos que, desde muito cedo mais me intrigaram (e fascinaram!) contribuindo (provavelmente de forma decisiva) para o despertar da minha paixão posterior pela Poesia, foi esta musicalíssima, encantatória "trifle textual" de Hilaire Belloc.

Embora possa, à primeira vista, surpreender devo dizer que a comparo, instintivamente, a certos textos (ou a certas textualidades) de, por exemplo, José Afonso com quem esta curiosidade poética de Belloc partilha oum gosto particular e muito nítido pela musicalidade textual 'pura'---uma registo (quase) meta-poético (meta-linguístico num duplo sentido, com certeza!) onde as palavras começam já visível (e, também inquietantemente!) a diluir-se, de modo subtil mas, como disse, encantatório, diante dos nossos olhos irremediavelmente presos das claríssimas, 'mediterrânicas', sonoridades criadas, até muito perto do fecho do poema, por Belloc; onde as palavras como tal começam, dizia, já visivelmente a diluir-se na sua própria forma ou (talvez possamos dizer deste modo:) no seu próprio "revestimento fónico" puro, fazendo no texto o que a pintura fez, a dado passo, a partir de Cézanne, por exemplo, consigo própria, i.e. começando progressivamente a levar as Formas que constituem o a sua substância para o vazio, para a des-integração total, "abstractizando-se", pois, a partir da reflexão plástica contínua sobre os seus próprios materiais---e, em mais de um sentido, fundamentos e limites.

Em Belloc é, sobretudo, o projecto de re/criar na poesia a melopeia da tarantella napolitana com os seus sons claros, brilhantes e metálicos, cheios de sol e júbilo muito mais que de profundidade de reflexão.
A verdade, porém, é que esse tom de despreocupação fónica se rompe brutalmenre, deixando-nos versos finais suspensos sobre o próprio vazio como se, de súbito, toda a alegria e todas as certezas se tivessem bruscamente suspendido, deixando-nos a contemplar de frente algo que se assemelha ateradoramente à própria Morte: "doom", o "juízo final", a "fatalidade".

É, porém, sobretudo, naquilo que atrás refiro que o texto se aproxima, em meu entender, claramente de alguma poesia do Zeca que recorria, como se sabe, com frequência a este registo quase hipnoticamente surreal---"nonsensical", mesmo, com frequência---registo que ele ia buscar a uma certa poesia popular, a um certo folclore para onde terão confluido ao longo dos tempos determinados conteúdos témicos que esse mesmo tempo se encarregou, todavia, de des-integrar e des-articular, conferindo-lhe, desse modo, o cunho quase literalmente mágico das fórmulas de iniciação, encantação e enfeitiçamento.

Fazendo delas, no seu melhor, portas para o desconhecido ("doors of perception" chamou classicamente Huxley a algo, na in/essência, não muito diverso) senão mesmo para o Vazio: no fundo, uma forma subtilmente "para-onirizada" de reflectir sobre a própria Morte, esconjurando, de passo, no mesmo acto, os medos atávicos subconscientes que a ela estão intrinsecamente associados, experimentando controladamente (ritual ou ritualizadamente?) por via da expressão artística, o temor e a simultânea atracção, o pavor e o fascínio um e outro, dificilmente resistíveis, deliciosos, embriegadores de paradigmas absolutamente "puros" de ordem---situados para além dos limites estr(e)itos do que chamamos comummente o "indivíduo" e a (sua?) "razão"---pelo próprio Nada.

Desconstruindo-se a si próprio numa Forma (quase) "pura" onde o sentido na acepção mais estr(e)ita e limitada do termo tende por completo (triunfalmente, embora) a "perder-se", o texto metaforiza, afinal, o receio humano atávico, instintivo, de ver as coisas perderem esse mesmo 'sentido' e aponta para o convocar do "sagrado", com o propósito "mágico", transcendentalizador, exactamente de garantir que o processo ocorre, afinal, em última [e, agora, 'mágica'] instância, ordeiramente e "em perfeita segurança": a "segurança" que a Arte como (o) Ritual permite(m), organiza(m), codifica(m)---e, por isso, ela(s) representa(m) uma forma própria e---de algum modo reconhecível, essencial [uma forma limite?] mesmo---de Conhecimento.


TARANTELLA


Do you remember an Inn,
Miranda?
Do you remember an Inn?
And the tedding and the spreading
Of the straw for a bedding,
And the fleas that tease in the High Pyrennes
And the wine that tasted of the tar?
And the cheers and the jeers of the young muleteers
(Under the vine of the dark verandah)?
Do you remember an Inn, Miranda?
Do you remember an Inn?
And the cheers and the jeers of the young muleteers
Who hadn't got a penny
And who weren't paying any?
And the hammer at the doors of the Din?
And the Hip! Hop! Hap!
Of the clap
Of the hands to the twirl and the swirl
Of the girl gone chancing,
Glancing
Dancing
Backing and advancing
Snapping of a clapper to the spin
Out and in--
And the Ting, Tong, Tang, of the guitar?
Do you remember an In,
Miranda?
Do you remember an Inn?

Never more,
Miranda
Never more.
Only the high peaks hoar;
and Aragon a torrent at the door.
No sound
In the walls of the Halls where falls
The tread
Of the feet of the dead to the ground
No sound
But the boom
Of the Waterfall like Doom.

Hilaire Belloc
[Imagem extraída com a devida vénia de lion.edu]

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"Tanatopia e pensar tanatópico nacional" [T.i.P, text in Progress]


Se há autores portugueses cujo estudo seja essencial para a elaboração da tese do que chamo a tanatopia nacional portuguesa, António Feijó [Ignacio de Abreu e Lima] juntamente com António Patrício e até Manuel Laranjeira ou Álvaro do Carvalhal é seguramente um desses autores.

Onde Laranjeira foi, sobretudo, analítico e reflexivo [sendo que o seu suicídio constitui, afinal, uma espécie de angustiada e inevitável consequência da percepção final da incapacidade das elites entre nós para ligarem uma qualquer forma de inteligência (no caso de Laranjeira, desesperadamente lúcida e atenta, agudíssima) da realidade à própria realidade]; onde, dizia, Laranjeira foi, sobretudo, reflexivo, Patrício foi um esteta que não apenas se refugia como, sobretudo, se pune (e acaba imolando-se) pela Arte e Carvalhal foi o talento trágico e precoce que transformou em fantasmas de génio a sua própria, pessoal pulsão ou fascínio ritual pela Morte.

Pelo "Fim", titularia Patrício.

Em todos eles, a Morte surge, de um modo ou de outro, como a única possível saída de uma trgédia histórica, social, política e genericamente cultu(r)al, incapaz de resolver-se pontualmente na História.

O amor que em Patrício (como em Beckett, mais tarde: Listopad tem inquestionavelmente fundamento material para aproximá-los) é sobretudo impossibilidade e tragédia (dilaceração e dor sem fim, revolver obsessivo e agudamente lúcido de fantasmas pessoais e mais latamente a auto-revelação de uma impotência que é tanto individual como colectiva; tanto externa e objectiva como interior e subjectiva e que se projecta idealmente na sua revaloração secundária, na sua e consagração---na sua "sacre"---final em arquétipo de renúncia e ascese totais); o amor, dizia, surge no autor de "Pedro e Inês" como uma maldição (e isso é incontestavelmente "beckettiano"!) sobretudo porque permite que a tragédia da existência se atarde e se eternize sempre um pouco mais, impedindo o encontro final apaixonado e redentor com a Morte (cf. por exemplo a simbologia diversamente contida em "All That Fall", de Beckett) que surge essa como a vocação longamente suspensa de todo um povo.

Em Carvalhal, são os casamentos "para morrer", os casamentos simbológicos com a Morte que também, por exemplo, Soares de Passos deixaria versões lancinantes que deliciaram toda uma sociedade que os declamava (e cantava!) abundantemente.

Manuel João Gomes (que reedita entre nós as "Histórias Frenéticas" do autor d' "Os Canibais") tem toda a frazão em sublinhar os "Verfremdungseffekte" que Carvalhal usa para se distinguir dos autores genuinamente fantásticos e que, a meu ver, dão a nota exacta de pungente lucidez na reflexão sobre o "Fim" (o "finis Patriae", também) que está na sua génese; no "subsconsciente " dos fulgurantes e visionários, torrenciais, paroxísticos, literariamente 'luminosos' e torturadamente "neo-barrocos", textos de Carvalhal.

Já Feijó, o homem da "Pálida e Loura"; o homem que, como nota Óscar Lopes num lucidíssimo ensaio, lamenta, a propósito de uma das suas heróinas, que não esteja morta para se parecer ainda mais com alguém que amou no passado (um arquétipo perdido que se reencontra, assim, de todo simbolicamente no anseio ou no desejo embriegador da Morte vista como uma protagonista inesperada de um "eternel retour" feito de sombras e sofisticadas ritualizaçães do suicídio).

É por isso que não resisto, falando de um "pensar tanatópico" que se instala definitivamente engtre nós, à sombra ou "à boleia" da teologia expiatória e ressureccional crística em "roubar" ao meu Amigo Armando Nascimento Rosa o termo de "complexo de Inês" para referir este consistente desvio sombrio do desejo que é, sobretudo, o emergir de uma inteligência da realidade cultu(r)al e civilizacional portuguesa e que a relativa e forçada "abertura política" ocorrida com o fim do século XVIII (a extinção da Real Mesa Censória permitindo uma ligeiríssima aproximação ao exterior peninsular e, sobretudo, trans-peninsular, as invasões francesas, a guerra civil e os exílios) veio transformar num cotejo inevitável com o "outro", incomparavelmente, a vários títulos, mais evoluído.

No trajecto simbológico inesiano há toda a matéria témica que, "roubada" ela mesma ao cristianismo permite retratar na perfeição a tanatopia nacional.

A Cristo e ao cristianismo vai ela buscar a incompreensão e até um certo horror que dela nasce pela matéria, pelo corpo, como sede de contradições irresolúveis de todo o tipo.

Aí vai ele buscar também a ideia de que é preciso morrer (não apenas é necessário: é vital, é uma condição de superação das contradições) morrer para que todas essas contradições e inibições se resolvam e, desaparecida a sede e causa do Mal (a hispanidade de Inês, a sua sensualidade, o desafio a que submete, com a sua vontade estritamente individual oposta à visão sacrificial pessoal e política, a opressiva e castradora religiosidade de um país estruturalmente medievalizado e, de mais de uma maneira, pobre; a inexperiência---a "agnosia"---de D. Sebastião, a sua juvenil irreflexão, no caso tópico de um certo "sebastianismo" popular, entre nós); aí, dizia, ao pensar crístico enraizado vai a tanatopia buscar a ideia de uma Morte redentora (Inês torna-se arquétipo amoroso e Lopes Vieira em "A Paixão de Pedro o Cru" chega a compará-la objectivamente a Santa Isabel, outro motivo de renúncia e deserotização/desmaterialização simbológica clássica na cultura, sobretudo, popular portuguesa; D. Sebastião, que não soube ser rei de um único tempo e de um único país vai tornar-se iniciaticamente "rei" de todos eles) como porta de entrada na ausência perfeita de acção que é a Morte re/vista, pois, finalmente como "valor".

Garrett fá-lo no "Frei Luís de Sousa" (do qual faço pessoalmente uma leitura ou uma "leituração" civilizacional que não posso agora retomar aqui mas que tem tudo a ver com um fechamento brutal a que se chega entre nós com o esgotamento do modelo aristocrático de conduzir a História e a completa incapacidade burguesa nacional para pegar no testemunho abandonado); Garrett, dizia, fá-lo no "Frei Luís de Sousa" mas Patrício fá-lo na sua Rainha que, no "Fim" antecipa não apenas algum Beckett como, de igual modo, algum Sartre, por outro exemplo e Feijó na sua poesia de que deixo aqui hoje um fragmento significativo, capaz de encaixar-se na perfeição neste quadro de dissolução e desintegração pessoal e cultu(r)al que começa, aqui, pela Morte da própria Razão que antecede o mergulho final na Sombra como antecâmara e momento condicionalmente propiciatório da libertação final, ainda e sempre, pelo casamento angular, verticial, significador e redentor, com a Morte.


[...] Eu era a Phantasia,
Tu a Razão... Quem viu estola que as enlace?
Na boda em que a Razão toma parte, a Poesia
Esconde soluçando a dolorosa Face...


[António Feijó (Ignacio de Abreu e Lima) in "Novas Bailatas"]


Vale seguramente a pena ler e reler (de preferência em voz alta) este musicalíssimo e nostálgico fragmento onde os sons se interpelam continuamente num suavíssimo e fonicamente labitríntico ondular cortado em dois momentos de quase ruptura pela vocalidade clara, imprevistamente límpida, quase agressivamente premonitória, ominosa, do "a" aberto contido nos substantivos "enlace", "parte" e "Face"...

Um belísimo momento de Poesia a propósito de um Autor que vale seguramente, por mais de uma razão, a pena recordar.


[Na imagem: o Ultimatum inglês visto por Rafael Bordalo Pinheiro ]

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"«Esparsa»" de D. João Manuel"


Termino, por hoje (hoje foi dia de... "antologiar") com uma mui barrocamente camoneana reflexão (de D. João Manuel) sobre um certo "desconcerto [pessoal] do mundo" que é, sobretudo um "desconcerto do mundo pessoal".

Uma confissão: não adiro geralmente ao Barroco (quando muito ao rococó---a algum rococó austríaco ou alemão do sul, bávaro, por exemplo).

Mas, ainda assim, não demasiado...

Com excepção da Música (a música barroca é, para mim, definitivamente um "caso" àparte...) e de um ou outro poeta entre os quais incluo Camões (o lírico---que do Barroco nos soube quase sempre dar uma versão profundamente "existencializada" e, às vezes, mesmo franca---e sofridamente...---pré-"existencialista") e os metafísicos ingleses, com Donne (de quem já aqui falei e que é seu mais labiríntico e, a vários títlos, estimulante representante) à cabeça.

O poema de D. João Manuel que aqui incluo não fica muito longe (em meu entender, pelo menos) de algum Camões mais intelectualizadamente introspectivo, mais habilmente elíptico e também mais poeticamente reflexivo.

O ritmo global do poema é notável de fluidez---uma espécie de "fluidez espiral" assente num jogo cuidadosíssimo de sons "escuros" e sibilantes sugerindo a dorida e complexa, melancólica e labiríntica, subjectividade do próprio tema, tudo isso pontuado por "ângulos fónicos" vivos que agitam inesperadamente a própria "água do poema" por cuja superfície lançam "estratégicamente" círculos concêntricos de som que o são também de emoção e sempre intelectualizadíssima, muito 'pensada', dor.


ESPARSA


Se me atormenta a tristeza
Que tantos males ordena
É porque minha firmeza
É maior que minha pena.
E que me veja matar
Conforto devo de ter
Em ver tão viva ficar
A razão de assim não ser.


D. João Manuel [in "Poesia Portuguesa do Século XII a 1915", selecção de Cabral do Nascimento, Editorial Verbo, col. Livros RTP, Lisboa, 1972]


[Na imagem: "Everything in the Garden", colagem sobre papel de Carlos Machado Acabado, republicada de "De um Não-Alexandre Onírico" in www.triplov.org]

"A Democracia Segundo Rimbaud/Cesariny"


Numa altura em que "os-mesmos-de-sempre" voltam à carga para tentar, ainda uma vez, persuadir-nos de que aquilo que fazem é não só democrático como a própria Democracia vale seguramente a pena re/ler esta belíssima reflexão poética do sempre cintilante Rimbaud sobre o tema.

Para mais, possuindo nós uma versão do não menos geralmente fulgurante Cesariny...


DEMOCRACIA


A bandeira reflecte a paisagem imunda
e a nossa gíria abafa o som do tambor
Nos centros, alimentaremos a mais cínica prostituição
Massacraremos as revoltas lógicas.

Às terras aromáticas e dóceis--ao serviço
das mais monstruosas explorações industriais ou militares.

Até mais ver, onde quer que seja.

Recrutas do próprio querer, teremos uma filosofia feroz;
inaptos para a ciência, esgotados para o conforto;
e que o mundo rebente.

Este o caminho!
Em frente! Marche!


Jean Arthur Rimbaud, Democracia (in Iluminações, trad. port. Mário Cesariny)



[Imagem extraída com a devida vénia de the400blows]


"Pessoas Como O Pessoa Não Podiam Faltar Aqui..."


[REFLEXÃO IDENTITÁRIA/A QUESTÃO HETERONÍMICA]



O BOM PORTUGUÊS É VÁRIAS PESSOAS


Não sei quem sou, que alma tenho.


Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.


Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.


Como o panteísta se sente árvore e até flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço [...]




[Eu] plural como o universo.




Fernando Pessoa



[Imagem extraída com a devida vénia de rosamuraro.zip.net]

"«Le Cancre/O Cábula», de Jacques Prévert"


Um maravilhoso instante de pura e poética rebeldia (a fazer lembrar Jean Vigo e o seu genial "Zero de Conduite" mas um Jean Vigo para cuja amargura algo da poesia do Cinema de um Renoir, de um Tati ou mesmo de um Albert Lamorisse tivesse já substantivamente perpassado) transformando o que era, na origem, inquietação e amargura num empolgante momento de libertação sensorial (e, por isso, de algum modo, mais extrema e mais subversiva---ou simplesmente mais pura, mais instintiva e total. Mais pura porque instintiva e, assim, 'total').


LE CANCRE
il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le coeur
il dit oui à ce qu' il aime
il dit non au professeur
il est debout on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.
Jacques Prévert, "Paroles"

[Na imagem: Fotogramas de "Zéro de Conduite" de Jean Vigo e "Le Balon Rouge" de Albert Lamorisse]