Da minha, relativamente longa [e, pelos mais diversos motivos, nem sempre fácil!] carreira docente, recordo, da última fase, cumprida numa escola secundária do interior, com particular desconforto pessoal e profissional, três episódios todos eles unidos entre si pelo denominador comum da Cultura e, especificamente, da atitude da comunidade escolar relativamente a ela.
Protagonizaram sucessivamente os três episódios que refiro, o Maestro José Atalaya [que devotadamente se prontificou a dirigir uma sessão de introdução à Música e de fomento do conhecimento e do gosto musicais entre os alunos da instituição onde eu leccionava Inglês]; o Cendrev, o Centro Dramático de Évora, que com idêntica perspectriva de devotado fomento da cultura teatral se disponibilizou para apresentar um espectáculo no Cine-Teatro local e, por fim, indirectamente o grande cineasta francês recentemente desaparecido, Eric Rohmer, cujo clássico "Ma Nuit Chez Maud", igualmente aí passou.
Devo desde já adiantar que a reacção do público escolar ao qual se destinavam as três iniciativas foi, para pôr a questão em termos, chamemos-lhes: contidos, amenos e tão simpáticos quanto possível, verdadeiramente deplorável.
Não me vou alargar em pormenores, apenas referir que ela contituíu, efectivamente, um óbvio e tremendo embaraço para a escola e, designadamente, para os professores que, como eu próprio no caso concreto da sessão com o maestro Atalaya, na circunstância a representaram.
Creio mesmo que a exibição do filme de Rohmer não terá chegado ao seu termo, decidindo, se bem me lembro, os professores do grupo pedagógico que a haviam promovido, a dado passo suspendê-la definitivamente.
Esta deplorável sequência de episódios que culminaram na inimaginável sessão com o maestro teve mesmo prolongamento em Conselho Pedagógico e foi aí que o meu incómodo e o meu embaraço originais com tudo isto se converteram, de forma, aliás, totalmente imprevista e, à partida, dificilmente imaginável, em escândalo e na mais completa incredulidade.
É que, em vez de verberar firmemente o comportamento verdadeiramente inqualificável dos seus alunos e eventualmente avançar mesmo para medidas concretas, não necessariamente punitivas mas, com certeza, de esclarecimento [sempre acompanhado da mais firme e incondicional condenação pelos factos ocorridos, aliás!] optou o Conselho, para minha completa surpresa, repito, por criticar severamente a escolha da peça, no caso do grupo teatral, do catálogo musical, no da sessão com o maestro e, por fim, até o grupo pedagógico que [com escassa sensibilidade cultural e especificamente pedagógica e ainda menos cultura cinematográfica, é preciso dizer!...] não achou melhor forma de lidar com a parte que mais directamente lhe coube neste tristíssimo conjunto de incidentes que desprestigiaram a escola e, directa ou indirectamente, puseram em causa o próprio corpo docente da mesma... apresentar desculpas pela escolha do filme [recordo distintamente os qualificativos apresentados] que era, penitenciavam-se os colegas, uma obra "filosófica e a preto e branco" [!!].
Como se um filme ser filosófico [?] fosse uma defeito e o preto-e-branco uma qualquer imperdoável mácula ou desdouro que adicionalmente agravasse o pecado... original!
Não se questiona a leviandade evidente da opção pela obra de Rohmer tratando-se de jovens em idades muito precoces: questiona-se, sim, o péssimo serviço prestado à Cultura exactamente numa idade ou num leque de idades em que as referências, culturais e não só, se constroem e o gosto se direcciona e consolida----e questiona-se---verbera-se!---muito em particular a caução dada pelo órgão pedagógico por execelência de uma escola pública a uma atitude que, não tive dúvidas em dizê-lo na circunstância como não tenho em reiterar agora, se aproxima perigosamente do puro e simples fascismo...
É, com efeito, uma atitude em si mesma tipicamente fascista essa de reagir ao que não se percebe, agredindo-o e há que ter a coragem de reconhecer que caucionar esse tipo de comportamento não é exactamente aquilo que se espera e muito menos se deseja de uma escola responsável e consciente do seu papel, naturalmente fulcral, na formação da consciência [ética, estética, cívica, etc.] dos indivíduos que a frequentam e, por conseguinte, no limite, inevitavelmente da própria sociedade em que está inserida.
Haveria muitas formas de censurar esta insólita e absolutamente indesculpável---objectiva, ao menos---cumplicidade com aquilo que é um acto de barbárie cultural... "em botão" admissivelmente compreensível em indivíduos muito jovens e, além disso, como era o caso, com escassa formação cultural mas completamente imperdoável em pessoas adultas, profssionais que fazem da educação uma carreira e a prática de uma vida inteira.
Perdeu-se assim uma ocasião objectivamente, ao fim e ao cabo, "perfeita" para educar naquilo que é a própria base de qualquer acto educativo, por muito simples e banal que possa ser: a construção consciente e cuidada da atitude de disponibilidade intelectual, firme e clara, para o novo; a indução e o fomento da postura de receptividade permanente para o desafio do diferente ou, no mínimo dos mínimos, o fomento e a construção do respeito devido a qualquer daquelas características anteriormente citadas na condição, pedagogicamente fecunda e essencial, de indutores absolutamente fundamentais de desenvolvimento intelectual e cognitivo e de progresso mental, em termos amplos e dinâmicos.
Na prática, o que a atitude da escola, através da postura do seu Conselho Pedagógico, reflectia era uma preocupante insensibilidade cultural que [muito mais do que na---questionável---escolha dos instrumentos com que pretendera---apesar de tudo, generosamente, sem dúvida---contribuir para alargar os horizontes culturais dos seus alunos] se reflectia nessa gritante incapacidade para lidar com os fenómenos de primarismo cultural e mental cujo futuro, porém, se decide exactamente, em larguíssima medida, aí, na idade em que, como atrás digo, o gosto se forma e as referências se decidem e vão irreversivelmente sedimentando.
Não temos hoje, com efeito, nem uma verdadeira escola da inteligência e do conhecimento onde a forma e os mecanismos basais nucleares de qualquer daquelas realidades sejam consistentemente transmitidos por uns e assimiliados por outros nem---o que é mais grave e mais preocupante ainda!---condições técnicas e políticas para tê-la.
Temos sucessivos ministérios geridos por gente indescritivelmente incompetente e demasiadas vezes medíocre---sendo algumas dessas pessoas verdadeiros indigentes mentais sem ideias, sem políticas, sem perspectivas, sem coisa alguma.
Temos associações de pais que são outros tantos absurdos e impensáveis "sindicatos discentes", com uma visão estúpida e permanentemente "guerreira" da relação professor [ou escola]/aluno na qual se obstinam em ver uma espécie de cópia caricatural feita à pressa e a papel químico da luta de classes quando não do que em matéria de relações enttre indivíduos ocorre nos tribunais com os juízes e os réus.
Temos governos para quem o Ministério da Educação é, em última instância, na prática, uma espécie de filial ou de entidade sempre desoladoramente ancilar do da Economia e do das Finanças, um gigantesco [um tentacular!] gabinete de contabilidade com professores e alunos dentro... "para disfarçar" e manter até onde for possível a ficção de uma educação pública com a qual, porém, já há muito, ninguém sabe exactamente o que fazer.
Temos professores avaliados "a martelo" pelo critério [ou pela completa e escandalosa falta dele!] desta gente toda apenas interessada em "fazer pela vidinha" ou "pela carreirinha" nuns casos, em pavonear-se em terrenos que deviam ser sempre domínios escrupulosamente técnicos convenientemente protegidos por quem é eleito para assegurar que daquilo que faz, no fim do percurso... sai Educação e sai Cultura; gente que anda por ali sem ter a mínima noção do que anda a... desfazer no pouco que aos professores vai ainda sendo possível [no meio de todo este mar de inépcias e desta torrente completamente descomandada e, na prática, objectivamente incontrolável de vaidades mesquinhas] fazer.
O resultado está à vista e os exemplos que referi dão da deprimente realidade do nosso universo educacional institucional público uma ideia infelizmente bem esclarecedora e eloquente.
Recordei aquela triste sequência de episódios que ficaram a manchar os últimos anos da minha prática docente a propósito do recente "caso" da professora de Mirandela.
Não conheço nem estou especialmente interessado, avanço desde já, em conhecer os pormenores do "caso".
Dele interessa-me, tal como nos outros que referi extraídos da minha própria prática docente, destacar a oportunidade perdida por todo um sistema educativo que reclama a toda hora uma "autonomia" que, porém, é manifesto que não tem capacidade nem idoneidade cultural e institucional para exercer; deste caso, dizia, interessa-me, sobretudo, destacar em abstracto, a oportunidade perdida para a Academia [incluo nela, obviamente, a Universidade] assumir o papel cultural que devia caber-lhe na luta contra o obscurantismo e os fantasmas que ele fatalmente traz consigo para todos os âmbitos, níveis e planos da sociedade portuguesa.
Que me conste a docente não foi afastada do ensino [leia-se: punida com a proibição do exercício de uma profissão que por acaso também é a minha] em caso algum por não estar perfeitamente habilitada para desempenhá-la---isso é algo que ninguém, tanto pude apurar das declarações das partes envolvidas, põe sequer, em momento algum, em causa.
A docente foi punida, na realidade, por ter aquilo que toda a gente tem e que é um corpo.
Esta incapacidade quase estrutural que como sociedade temos para lidar com o nosso próprio corpo é algo que assusta pelo que é e pelo que significa.
É um verdadeiro fantasma cultu[r]al que ninguém tem coragem para afrontar [a Câmara Municipal não a teve, a escola local tão-pouco] enquanto a Universidade permanece muda, a Cultura em geral "tem mais que fazer" e o atavicamente medievalizado "Portugal profundo" rejubila porque todo o edifício da Cultura nacional lhe deixou, afinal, um dos seus fantasmas preferidos mais uma vez completamente intacto e na... "sagrada" [neste caso, bem questionável!] paz das coisas eternas e intocáveis.
Houve incompetência da parte da professora?
Parece que não---volto a dizer: ninguém o contende.
Protagonizou ela comportamentos efectivamente indecorosos, demonstravelmente imorais, comprovadamente anti-sociais e capazes de pôr fundamentadamente em causa a convencional moralidade e os não menos consagrados e geralmente reconhecidos bons costumes?
Despiu-se---algo que toda a gente faz, pelo menos uma vez por dia, milhares ou milhões de vezes ao longo da vida, eis tudo!
O proibido---o pecado---é, pois, o próprio corpo.
Já nem é o que se faz com ele: é o corpo, ponto final.
Ou seja: em pleno século XXI, em Portugal, o corpo permanece [como em qualquer obscuro recanto temporal e cultu(r)al dessa Idade Média---em inglês: "dark ages"...---de onde, afinal, pelos vistos nos obstinamos como sociedade em não sair] algo de "física e materialmente inconfessável"---já nem é, repito... "in-exercível": é mesmo inconfessável---algo que é preciso elidir, pôr entre parênteses, ter mas não revelar, não... confessar, etc.
Diz alguma... "boa gente" da terra que é "mau exemplo para os jovens"---resta saber de quê.
Se, com efeito, um professor, por exemplo, fumar nas instalações escolares [o que faz na sua esfera privada é outra história, entenda-se!...] além de, hoje-por-hoje, violar uma lei [que tardou, de resto, anos em ser aprovada] dá, objectivamente, porque ninguém disputará honestamente que fumar é algo de demonstravelmente nocivo, um exemplo negativo na medida em que, queira-o ou não o fumador, ao menos potencialmente, corre sempre por definição o risco de encorajar quem o escuta noutras matérias---os respectivos alunos, a população escolar---a fazer outro tanto no que aos hábitos higiénicos pessoais diz respeito.
Mas... ter corpo é mau?
Suficientememte mau, erm qualquer caso, para ocultá-lo das outras pessoas, igualmente portadoras de um---pelo menos até ao pescoço, até à cabeça---à parte exterior desta uma vez que por dentro, até que me provem o contrário, para além de sombras e de um insondável mistério generalizado, permance duvidoso o que mais pode por lá reinar...
É, insisto, o corpo é em si mesmo uma coisa perversa que só se pode ter escondida, que apenas se pode possuir às ocultas, [quase?] na clandestinidade, quase como se de um crime se tratasse?
O problema, devo recordar, até nem é despiciendo porque, se se tapar... demais, outro tipo de problema pode, de imediato, ser gerado---porque isto de loidar com sociedades interiormente primitivas tem "que se lhe diga": haja em vista o que se passa, por exemplo, em França ou na Bélgica com o lenço islâmico por exemplo---e aí o problema da opressão cultu[r]al, da acção disfuncional do moralismo "vigilante" já "passou para o outro lado": aí, a questão é, com efeito, a de... ter roupa a mais...
Quem decide se é de mais ou de menos?
Está-se mesmo a ver, não?
As boas almas, o "bom povo" instituído em "lynching mob dos costumes"
Mau exemplo?
Cá para mim, o mau---o péssimo, o cultural e existencialmente criminoso---exemplo é, pelo contrário, esse de alimentar fantasmas e cultivar obsessões, sombras, espectros individuais e colectivos, monstros mais ou menos inconscientes [ remetidos para lá, para esse insondável limbo onde se geram as mais perversas monstruosidades e onde nascem as mais perigosas abjecções das sociedades e dos grupos humanos e lá continuamente alimentados com reacções da mais acéfala, obscurantista e, a todos os títulos, condenável cumplicidade material como estas agora tidas pelas autoridades municipais e escolares] papões que fazem da sociedade em que vivemos um pouco mais a "sociedade neurótica" [e às vezes, o mero "bando", a simples e histérica "mob", que, afinal, tão obviamente seguimos colectivamente, na paz do... Senhor, sendo.
Razão tinham o dramaturgo Nelson Rodrigues e o cineasta brasileiro, Arnaldo Jabor, em titular o primeiro uma peça sua primeiro e em conservar o segundo no filme que a partir dela fez o título original: "Toda a Nudez Será Castigada".
A da própria Verdade, seguramente, já dizia Eça...
É assim entre as sociedades primitivas, sobretudo entre aquelas que teimam em permanecer nessa triste e abominável condição ao longo dos tempos e das eras, incansavelmente um após outra, obstinadamente uma após outra...