quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Faço-o e contudo... arrepia-me que seja possível..."

... fazer isto!

"«Do Progresso, Sua Lei e Sua Causa»..."


Um exemplo esclarecedor relativamente ao tipo de modelo de “desenvolvimento” escolhido por Portugal é-nos dado por uma notícia do “Público” de 02.10.10 envolvendo aquilo que o jornal designa pelo “abrandamento” da “queda” anteriormente verificada no “mercado automóvel”.

Ora, a verdade é que só num país que fez da desactivação sistemática da rede ferroviária [muito menos poluente e por isso ambientalmente muito mais sustentável do que a rodoviária] toda uma [não] política de transporte e, de um modo mais geral, de [des] organização económica e que, cumulativamente, ainda não percebeu que entre as valências já existentes no âmbito do [aliás, como tantas vezes tenho dito e arguido: impropriamente] chamado ‘Estado social’ deviam há muito estar incluídos os transportes públicos que, com efeito, imperativos primários de sustentabilidade ambiental básica deviam ter conduzido a que estivessem hoje já substantivamente retirados da esfera do negócio privado e integrados numa rede de serviços públicos essenciais ao lado da Educação, da Saúde e da Justiça; só num país com estas características de disfuncionalidade crónica económica e ambiental, dizia, pode o “atenuar [d] a queda das vendas de automóveis” motivado pela “política” de “incentivos fiscais à troca de carro” ser visto como constituindo um dado positivo e algo em si mesmo ambicionável e desejável.

É evidente que a troca de modelos antigos e em princípio mais poluentes de veículos automóveis por outros modelos mais recentes e de menores consumos e negativos impactos ambientais é, em princípio, um dado relativamente positivo.

Agora, não é menos verdade [e devia ser também evidente para quem tem a responsabilidade de conduzir em geral as diversas políticas de um país] que qualquer factor que potencie o uso descomedido e, de um modo ou de outro, indiscriminado do carro assim como, num plano mais lato, qualquer [não] política que transfira de forma [as] sistémica para a rede viária todo ou quase todo o fluxo da mobilidade de um país é do ponto de vista ambiental e de sustentabilidade global do país e do planeta uma má política que [e porque!] insiste numa disjunção ou numa esquizofrenia completamente irresponsáveis que têm, porém, sistemática [e até sistemicamente] marcado as políticas económicas modernas das sociedades ocidentais entre “desenvolvimento”, por um lado e “ambiente” ou “sustentabilidade”, por outro.

Na realidade, há muito já que devia fazer parte do património de conhecimento implícito verdadeiramente moderno, transversal a todos os saberes e, por conseguinte, também a todas as politicas; isto é, há muito que devia constituir perspectiva informante estável e tópica dos diversos domínios da Teórica como da Prática das sociedades modernas o conceito de “organicidade nuclear do paradigma desenvolvimental” que é como quem diz que essa forma estruturalmente disfuncional e alienada de "desenvolver-se" que consiste em “cindir o átomo” no interior do paradigma desenvolvimental imaginando-o absurdamente divisível entre progresso e pressupostos de possibilitação ambiental [que tantas calamidades tem trazido à vida no e do planeta a ponto de hoje estar em causa a própria sobrevivência mais ou menos imediata deste, tal como o concebemos] devia há muito ter sido erradicada dos nossos modos estáveis, dos nossos modos [a] civilizacionais de idear e representar o mundo.

Pessoalmente, creio mesmo que aqueles [poucos…] que hoje pensam de forma crítica e independente o mundo em que vivemos se deparam, nos tempos que correm, com todo um conjunto completamente novo de modos que a agnosia e a iliteracia têm de se apresentar e de interagir disfuncionalmente com a realidade nas suas diversas formas---modos esses que, num certo sentido são ainda mais perigosos do que aqueles que historicamente os precederam exactamente porque operam sobre quantidades [e qualidades!] exponenciais de conhecimento cujo manuseamento implica, por isso mesmo, riscos de que os modelos técnicos e tecnológicos tradicionais de ignorância estavam, por definição, isentos.


[Imagem ilustrativa extraída com a devida vénia de noticiasautomotivas-dot-com-dot-br]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"Apelo"


Está na hora de o País acordar!!!
País!
Que raio! Que diabo esperas tu para acordar, de uma vez por todas, criatura??!!
Andam-te a comer as papas na cabeça e tu não percebes, não acordas??!!...
Papa-açorda d'um raio!!!...

"Os Vendilhões do Templo..."


Oh Senhor s' és mesmo Deus
Oh Senhor a quem eu rezo,

Manda teu filho outra vez,
Escuta a voz do desprezo:
É qu
’ aqueles cabrões do templo
Voltaram todos em peso
!...

Ary dos Cantos

[Imagem extraída com a devida vénia de devaneios-dot-e-dot-delirios-dot-blogspot-dot-com]

Em complemento, deixo aqui a minha proposta de glosa "aggiornada" de uma velha quintilha anti-fascista e anti-salazrista:

O monstro de Loch Ness
[Por acaso, bastante chato!...]
Não me aquece nem me arrefece...
Ah! Se o mesmo dizer pudesse
Dos monstros do Largo do Rato!...

"Já Agora, Oh Cristo, Quando Vieres!..."


Sem largar a vassoura
[Que o seguro morreu de velho!...]
Quando atirares o Socas ao lixo
Não te contentes co’o bicho
E atira também o Coelho!...

Berra Junqueiro!

[Imagem ilustrativa extraída, com a devida vénia, de fx-dot-worth1000-dot-com]

domingo, 17 de outubro de 2010

"Randolph Scott, brevemente revisitado a propósito da crítica a "Decision At Sundown" de Bud Boetticher"


Porque na "entrada" que imediatamente se segue a esta se recorda um dos mais interessantes "objectos" saídos da admirável "oficina" de Bud Boetticher, o excelente "Decision at Sundown" com Randolph Scott no protagonista, virá a propósito recordar alguns aspectos da personalidade daquele que foi seguramente um dos ícones do género: o próprio Scott.

Figura, como disse, incontornável e verdadeiramente emblemática do filme do Oeste, sobretudo de um filme do Oeste injustamente descartado, muitas vezes indiscriminadamente, como "de série B", Scott foi acima, de tudo e antes de mais [no sentido preciso em que, por outro exemplo, o foi Lee Van Cleef que os italianos resgataram da sombra em que sempre vagou no seu próprio país, fazendo dele uma das suas estrelas preferidas] um rosto: um rosto duro e poderosamente seguro de si, de sorriso sarcástico e resposta pronta, directa e seca, muito ao gosto e perfeitamente dentro do espírito francamente afirmativo [pelo menos, até aos anos '60 onde se inicia lenta mas irreversivelmente o declínio] do género.

Como actor, Scott não se terá propriamente levado muito a sério: é conhecido o episódio da recusa de um certo clube de golfe norte-americano que negava filiação a "judeus e actores" mas que acabaria por aceitar Scott entre os seus membros quando este, inicialmente barrado, segundo a "lenda", terá insistindo alegando que embora "desse de vez em quando uns murros que outros filmavam" ou coisa que o valha, actor não seria seguramente...

Poderia como Ford ter dito: "My name is Randolph Scott and I make westerns"...

Não os fez no sentido em que Ford os fez [nem os interpretou com o brilho de genialidade que muitos dos que Ford realizou atingiram] mas protagonizou-os e sempre ou quase sempre com uma impressionante regularidade [algo padronizada, é verdade, embora---no que não foi, aliás, assim tão diferente de outros intérpretes famosíssimos, dentro e fora do género, a começar por Wayne e pelo próprio Audie Murphy, para já não falar de Gary Cooper de quem Scott foi "duplo"...] e uma irrecusável eficácia geral que acabaram por fazer dele, como comecei por lembrar, uma figura icónica do género e um intérprete literalmente de culto entre os frequentadores dos cinemas de reprise mais genuinamente populares de Portugal, nos anos '50 e '60, do "Olympia" [onde estreou, por exemplo, "Decision At Sundown" de Boetticher, de que falo a seguir] ao "Salão Lisboa" e ao "Arco-Íris" [ou do "Arco Bandeira" ao tenebroso "Cine-Oriente" da General Roçadas!]

Algo irónica [porque algo contraditoriamente também] num actor que ficaria definitivamente ligado a uma imagem de cowboy duro cuja virilidade nunca parece estar em causa, a vida pessoal de Scott ficaria para sempre associada a uma longa embora não exclusiva relação afectiva com outro ícone absoluto---da elegância e da beleza masculinas, esses: Cary Grant, um actor fetiche de Hitchcock---e, para mim, de facto, o actor hitchcokiano arquetípico que Ray Milland, o que mais desse arquétipo ficcional e pessoal onde Grant atingiu as culminâncias se terá aproximado---nunca conseguiu realmente ser] com quem partilhou uma habitação onde ambos se fizeram, de resto, abundantemente fotografar em imagens que hoje são, à sua maneira, também elas, clássicas.

Curiosamente, o filme de que a seguir falo, "Decision At Sundown" de Bud Boetticher pode, de algum modo, ser directamente associado a esse aspecto de duplicidade, de "problemática especularidade", de eu oculto posto gradualmente em evidência ["exposed", um termo inglês muito esclarecedor] no jogo entre o Scott-intérprete e o homem, o indivíduo Randolph Scott---na medida em que, num certo sentido, como refiro na breve crítica que faço ao filme, todo ele, filme, é [e o seu grande mérito situa-se, a meu ver, aliás, exactamente aí] um pouco o minucioso desconstruir da persona exterior do homem determinado mas unidimensional, excessivamente linear que Scott foi em tantos dos "seus" filmes, figura para a qual as sequências iniciais do filme [quase ostensivamente!] apontam, revelando, por baixo dessa capa simplista a que se encontra topicamente associado o 'herói', o homem cheio de contradições, dilemas, fragilidades, dúvidas [quase?] existenciais e inseguranças---que é como quem diz: problematizando já o que antes era tipo e era certeza pessoal mas também cultu[r]al virtualmente absoluta.

É minha convicção pessoal que a leitura que Boetticher faz do ícone [e, em última instância, do próprio Scott... "público", icónico] ganha consideravelmente quando a re-abordagem deste é feita com esse conhecimento prévio que humaniza profundamente o actor para além do próprio papel e faz deste último uma espécie de espelho que é também, num certo sentido, um biombo que revela enquanto esconde e esconde ao revelar assim nos lembrando, afinal, essa verdade importantíssima [equacionar nas suas diversas formas é, aliás, tal como a vejo, missão indissociável da Arte, seja ela qual fort e sob que forma e/ou género se apresente] que é que coisa alguma na vida é, afinal, tão simples e linear como parece...

Uma excelente lição sobre a qual vale seguramente a pena meditar uns minutos ou umas horas só que seja: pelo menos aquelas que leva a ver este respeitabilíssimo filme saído do, sem dúvida, muito considerável "estaleiro" de um dos mais interessantes e seguros "operários do cinema" que conheço: Bud Boetticher...

[Na imagem: Scott e Cary Grant na intimidade]

sábado, 16 de outubro de 2010

"«Decision At Sundown» de Bud Boetticher"


Pessoalmente, devo confessar, sempre tive por este 'cinematograficamente simpático' [e nada irrelevante!] artesão [mais um que os "Cahiers", desta feita, por intermédio de Bertrand Tavernier que o entrevistou em 1964, tiveram influência determinante no sentido de impô-lo definitivamente à atenção dos cinéfilos... "sérios", no quadro da "politique d' auteurisme" iniciada com o famoso texto de '54, da autoria de Truffaut...]; pessoalmente dizia, sempre tive por esse amável artesão do cinema que foi Bud Boetticher um afecto cinematográfico e uma estima intelectual [e até moral] que, devo desde já adiantar, não me recordo de ver "traídas"...

Grande parte de ambos esses sentimentos ou dessas impressões se deve [por que não revelá-lo, desde já?] a este considerável e, em boa medida, desconcertante "Decision At Sundown", recentemente "reposto" entre nós pelo Canal Hollywood.

Isto, sem dúvida, entre outras razões, porque o filme [estreado em Portugal no velho "Olympia" no ano que fechou a década de '50 do século passado: 1959] ilustra na perfeição um dos aspectos ou uma das componentes mais tópicas e intelectualmente mais fascinantes [porque também mais sérias, mais profundas] do cinema de Boetticher que o crítico João Lopes refere, com grande perspicácia e lucidez, aliás, como sendo o d"a exploração de formas mais ou menos ritualizadas de desafio à morte (no que qualquer desafio envolve também, paradoxalmente, de convivência) [...]".

Num certo sentido, com efeito, é possível ver "Decision At Sundown" basicamente como a crónica de um suicídio ritual, um trágico e complexo cerimonial de morte, vivido com uma solenidade e uma dignidade verdadeiramente admiráveis a que é, uma vez conhecidas as causas do mesmo, impossível ficar indiferente e considerar sem franca admiração e respeito.

Mas o que mais particularmente ainda sobressai no filme é, a meu ver, o modo quase... hitchcokiano escolhido por Boetticher [o argumento do filme é de Charles Lang, construido sobre uma novela de Vernon C. Fluharty] para encenar todo o desesperado e trágico exercício de absurdidade que é, no fundo, o longo cerimonial envolvendo o "suicídio" do herói, preenchido com uma tão caleidoscópica quanto implacável sucessão de episódios de queda de máscaras [e algumas amargas perdas de inocência!] mas também de estóica humanização de personagens que impressiona exactamente pela seriedade e pela amarga, desencantada, tomada de consciência da falta de um verdadeiro sentido para os actos humanos que toda essa maquinaria conceptual e narrativa envolve, pressupõe e explora narrativamente com uma eficiência técnica e artística global que chega a arrebatar e a que o rosto pétreo indissociável da 'persona cinematográfica' de Randolph Scott, impiedosamente des-construída passo a passo diante dos nossos olhos, está longe de ser alheio.

Um crítico de cinema lembrava numa obra, aliás, extremamente interessante [Antonio Weinrichter in "El Nuevo Cine Americano", col. «Lee y Discute» ed. zero zyx, s/d] o modo como os géneros em cinema tendem a acabar historicamente gerando obras mais ou menos terminais em que a reflexão cada vez mais crítica, distanciada ]e até, num certo sentido muito preciso, desencantada e mesmo não raro cínica] não só sobre a experiência, chamemos-lhe cultu[r]al ou cosmovisional primária original, que os animava e compunha como sobre o próprio género enquanto tal, enquanto [categoriação ou "categoriação" teorética e narracional] substitui a prática "simples" e directa do cânone original.

Tendo essa ideia presente, é possível também afirmar que "Decision At Sundown" é uma obra com a característica histórica curiosa de constituir já, na viragem para os "terríveis" anos 60 [os anos da dessacralização, simbólica e real, definitiva de tanta coisa até aí literalmente intocável!] uma reflexão sobre o western, sobre os móbeis que mais estavelmente o animavam como, noutro plano, admissivelmente [é a leitura que pessoalmente faço] sobre os fundamentos mesmos das acções humanas de uma forma mais geral, tal como os codificou simbologicamente o western, sobre [recuperando uma designação/conceptuação carlyleana] 'os heróis'---e especificamente, num âmbito mais estrita [mas não mais estreitamente...] cinematográfico, sobre o herói que foi Randolph Scott, o homem que segundo o mitário hollywodesco foi aceite num clube de golfe [a sua grande paixão] onde não aceitavam "actores ou judeus" porque era "um fulano que dava uns socos mas actor é que nunca" ou coisa parecida...

Scott [como John Wayne, por exemplo, em filmes como "Rooster Cogburn"] protagoniza aqui, embora num sentido distinto desse corporizado por Wayne no filme em causa] a desconstrução da sua personagem de sempre [sempre, desde que começou a fazer westerns e se converteu mesmo num ícone absoluto do género] e que aqui surge inesperadamente despida das grandes e inabaláveis certezas de outrora, elas mesmas bruscamente derrubadas, mortalmente atingidas no seu próprio fundamento, constituindo todo o filme, como disse, a partir desse impulso dessacralizador original todo um amargo [e inquietante!] exercício de perda de sentido para a acção---e para a morte, para a qual a personagem de Scott, um vingador sem vingança nem sentido para ela, acabaria por arrastar um amigo incondicional, personagem a cargo de 'Sam' [Noah Beery, Jr.] que a defende, como lhe foi obviamente pedido, num registo de "sidekick" onde lhe é, sobretudo, exigido que cruze a cena com sobriedade dando as 'deixas' para a parte de leão a cargo do [anti?] herói Scott/'Bart Allison'.

Ao contrário do percurso ficcional da personagem de 'Bart', num pouco "confortável" e [no melhor sentido!] atípico western onde muita gente sai a perder e o [apenas putativo] vencedor é uma entidade anónima, a população da cidade, o 'vilão', 'Tate Kimborough'/John Carroll que se apresenta inicialmente de uma forma parece ir tipificá-lo "a traço grosso" como tal [muito inteligente e muito eficaz o modo como Boetticher prepara a sua entrada em cena, caracterizando-o tão indirecta quanto subtilmente através de pequenos gestos, fugazes olhares, discretos sinais, depoimentos mais sugeridos do que efectivamente expressados de outras personagens] para, no fim, emergir, muito longe do "tipo" e do mero cliché, como um simples ser humano ["nada más que todo un hombre", como diria Unamuno ou "mensclich, menschlich, allzuviel menschlich", como expressaria, por seu turno, Goethe] isto é, como alguém que situando-se, é verdade, consideravelmente longe da perfeição ética ou individualmente moral, não é, afinal, nem melhor nem pior do que qualquer outro ser humano, colocado em idênticas circuntâncias: decididamente, para Boetticher, bons ou maus, o "tempo dos heróis" começa lentamente a desvanecer-se...

Se, com efeito, um Leone, por exemplo, deve ser visto como uma espécie de 'Verdi ou Rossini do western', um género que ele converte terminalmente em ópera e ballett e Rossen [num excelente "They Came To Cordura"] se aproxima da perspectiva existencialista da procura de um sentido integrador para os actos e, de um modo mais amplo, para a acção] humanos, Boetticher surge-nos aqui como o céptico que escava impiedosamente "por baixo" mesmo da heroicidade, em busca dos alicerces de uma condição mítica, exemplar ou até de uma consistência e de uma universalidade éticas assim como, no limite, metafísicas que a década seguinte iria continuar a descobrir, primeiro visivelmente empolgada e, por fim, talvez, irremediavelmente desencantada ter-se tornado completamente inacessível, que é como quem diz uma [insisto: talvez] absoluta impossibilidade.