domingo, 21 de setembro de 2008

"Pós-modernidade" e "neo-modernidade"


Sendo, embora, particularmente difícil de precisar, o conceito de "pós-modernidade" (ou, como prefiro designá-la "neo-modernidade") contém, a meu ver, alguns aspectos mais ou menos estáveis e característos que são já, hoje, passíveis de identificação, de consideração específica e, sobretudo, de análise tendo em vista a precisão possível do conceito em causa.

Um desses aspectos (que é seguramente dos mais perigosos e, por esse motivo, mais indesejáveis) consiste, diria eu, na incapacidade persistente e, pior ainda, (des!) estrutural de as sociedades que compõem globalmente a "neo-modernidade" gerarem, a partir do seu próprio interior, da dinâmica ou das dinamias do seu "desenvolvimento" contínuo, massa crítica ou opinião (chamemos-lhe:) 'independente', capaz de, por seu turno, se concretizar numa qualquer forma de ideologia capaz da tarefa absolutamente essencial de realmente pensá-la.

De organizá-la dialecticamente em pensamento ou consciência minimamente reconhecível e geralmente aceite de si.

Capaz de se concretizar num olhar ideológico (ou mesmo apenas e muito menos formalmente, para-ideológico) susceptível de poder, por seu turno, vir a dar, como dissemos, origem a uma qualquer forma de "consciência" estável de si, nos termos daquela que foi a acção típica das "intelligentsias" tradicionais no "Ocidente".

Tradicionalmente, com efeito, as sociedades do tal "Ocidente" foram sempre, de um modo ou de outro (em meu entender, pelo menos) capazes de gerar vanguardas e/ou, por vezes, apenas formas de "contra-cultura significada" que, pela sua natureza interpelante e interactiva com o próprio núcleo característico do sistema ou da ordem podiam facilmente funcionar como a tal "consciência ínsita" ("inset consciousness") do próprio sistema de ordem, formal ou informalmente, 'estabelecido'.

Instituído.

Aconteceu assim, por exemplo, com uma certa poesia decadentista e marginal latina e continuou, de um modo ou de outro, a acontecer com globalmente ininterrupta regularidade, até ainda não há muito, com Émile Zola (basta recordar o "caso" "J'Accuse"), os surrealistas ou Sartre.

Cada um à sua maneira, com efeito, todos eles interpelaram aspectos relevantes, essenciais e também essenciantes (a intervenção simetrizadora das vanguardas demonsttra essa sua natureza dialecticamente essenciante enttretanto perdida: é a minha tese) da 'ordem estabelecida' e envolveram, em maior ou menor escala, as massas" na dissecação e na crítica dessa mesma ordem, alcançando aqui e ali mudanças de sinal histórico, social, político, civilizacional, etc. sem dúvida, importantes.

O meu ponto de vista é que a pós-.modernidade (e isso define-a, em meu entender, de modo perfeitamente reconhecível) "devorou", "engoliu" as respectivas elites, convetendo-as de "consciência" objectual do sistema em "justificação" formal desse mesmo sistema.

Em lugar de Zolas, Bretons e Sartres, temos hoje comentadores televisivos cuja acção política (a qual não pode, obviamente, da teoria de tácticas/estratégias partidárias e mesmo pessoais) é pelo próprio sistema usada, não para interpelar-se mas, pelo contrário, para "demonstrar-se" e conservar-se e para perpetuar-se. Para justificar-se e legitimar-se no plano meramente político-formal: se existe quem pareça pensar o sistema, então, o sistema deve admissivelmente pensar-se, isto é, provavelmente e ao que tudo indica, pensa.

Na realidade, o que sucede é que a sociedade "mediática" permitiu amputar democraticamenre o sistema da sua própria consciência.

Do mesmo modo como procedeu, por exemplo, para a "democracia": tradicionalmente a Democracia funcionou sempre como um capítulo da Política e, ao menos no plano dos desígnios teóricos e até utópicos, uma propriedade colectiva e independente dos povos.

Na "neo-modernidade" a "democracia" (re/convertida em im/pura "demomorfia instrumental"), engolida que foi, como atrás vimos acontecer com a própria consciência autónoma das sociedades em geral, foi chamada à tarefa falsamente "orgânica" e disfuncionalmente "integrada" de legitimar a sua própria base infrastrutural económica.

Na verdade, ela deixou de operar como um capítulo autónomo da Política para passar a funcionar, de facto senão de direito, como um capítulo im/puramente funcional e/ou meramente instrumental da Economia, destinado a justificar e a legitimar politicamente esta última com uma certa forma e um certo conteúdo precisos que o respectivo "revestimento demomórfico" amiude confundido com "Política" deve justamentre evitar que se altere.
Isto é: ao contrário daquilo que acontecia com a Democracia "antes de ser completamente engolida pela economia", ela é agora, para o sistema que a devorou, precisamente aquilo que prende o modelo económico infrastrutural à História, i.e., aquilo que deve evitar que o paradigma relacional solidamente estabelecido entre a "economia" e a História possa alterar-se.

Ou seja, ainda: por monstruoso e politicamente abominável que possa parecer, a "apropriação" tipicamente neo-moderna ("pós-ideológica") ocorrida entre a Economia (entidade apropriadora) e a Política (o elemento apropriado, passivo) conferiu à Democracia o papel histórica, política, e até civilizacionalmente aberrante (e opressor!) que outrora (no início, nas primeiras décadas do século XX, desde logo) esteve formalmente entregue à politicamente "musculada" e expressamente admitida, acção dos regimes políticos formalmente totalitários!

Para a neo-modernidade economocrata o revestimento político instrumentalmente "democrático" de que se serve não possui, de facto (nem, já agora, realmente de direito!), com o disse, qualquer independência efectiva relativamente à sua base económica: está-lhe, como também disse, desde logo, vedada possibilidade de alterar significativamente a História. Na verdade, o seu papel neo-moderno, como parte integrante e ancilar, estr(e)itamnte funcional, do paradigma economocêntrico e ecomomocrata em vigor, é monstruosamente conservador e mesmo abertamente reaccionário.

É por isso que eu digo, por exemplo, que o reconhecimento do direito à livre expressão do pensamento não constitui (longe disso!) por si só e em si mesmo, ao contrário daquilo que muita gente parece pensar um pressuposto sequer minimamente relevante de democraticidade. Embora ouçamos, com efeito, constantemente dizer que, "hoje, ao menos, os crimes e os abusos, económicos, políticos, etc. não ficam escondidos" e que, por exemplo, a imprensa desempenha, hoje, o papel "democraticamente essencial" de "ajudar" a democracia a consolidar-se, denunciando muitos desses crimes e abusos, a inexistência (gritante!) de mecanismos correctores efectivos que permitissem transformar realmente aquilo que, na realidade, não passa de um direito, em larguíssima medida "simbólico" e in/essencialmente "moral", num verdadeiro instrumento activo de prática democrática persiste e não deixa que a democracia passe de um vago e infixo projecto abstracto, como lhe chamei, in/essencialmente "moral", a autêntica Democracia.

Na verdade, o 'direito' em causa, desligado deste dispositivo ou conjunto de dispositivos realmente correctores das disfunções pode até configurar, no limite, um modo extremamente perverso de um sistema ser realmente anti-democrático, na medida em que a possibilidade de falar e de ver falados nos jornais, por exemplo, os referidos abusos pode contribuir para criar a ilusão, na realidade, ausente de Democracia.

Seria a existência dos referidos dispositivos correctores, tal como os descrevo noutro lugar, que impediria o espectáculo verdadedeiramente escandaloso da "demomorfia oscilatória" presene nos sistemas políticos objectivamente duais, bi-partidários, do "Ocidente".

Ainda há pouco eu lia um texto, aliás particularmente discutível em termos da (a) moralidade (política, desde logo, mas não apenas dessa forma de a/moralidade) que lhe subjaz, da autoria de Teresa de Sousa, inserto no "Público" de 11 de Setembro de 2008 ("Do 9/11 ao 8/8 ou como gerir o (relativo) declínio americano") onde se fazia uma espécie de breve balanço do verdadeiramente recente bushismo, agora (felizmente!) perto do fim de um tenebrosa vigência que parece nunca mais acabar. No texto em causa se relatam os contínuos desmandos de um mandato caraterizado pela brutalidade política, económica, jurídica, democrática, etc. mais extrema e repugnante.

Aí, também, se afirma ou se recorda como "a América" acabou por se ver compelida a moderar a sua, como é sabido muitas vezes sangrenta, "teoria do domínio" e da unilateralidade geopolítica, via que, imagina-se, deverá prosseguir, sobretudo se Obama for eleito como próximo presidente.

Na verdade, o que o texto de T. Sousa diz (e por isso lhe questionei e questiono o substracto, a substância, os fundamentos éticos ou ético-políticos) é que um "político" medíocre e desprovido de verdadeira idoneidade democrática como Bush pode ser eleito, subverter na prática por completo todo o sistema demoformal a que (também) nos Estados Unidos chamam "democrático"; fazer do país que governa um verdadeiro Estado objectivamene pária em termos do (criminoso, despudorado, continuado des) respeito pelas regras mais elementares do modelo democrático e dos acordos e convenções internacionais; obter determinados resultados precisos, específicos com esse seu bárbaro e imoral comportamento "político", sair, entregar a outrem a gestão dos destinos do país sem que os resultados políticos e geopolíticos obtidos através da barbárie sejam devidamente ressarcisos, pir um lado e evitados futuramente, por outro.

Esta é, de resto, diria eu, uma das "chaves" do funcionamento essencialmente anti-democrático (instrumentalmente demomórfico) do "regime".

Ou seja: o recurso cíclico, "estratégico", por parte do que chamo "demomorfia instrumental" ao reverso da própria Democracia não consttui, de facto (e, pior ainda: de direito!) um acidente no funcionamento 'normal' dessas mesmas demomorfias.

Pelo contrário! É essa a (i) lógica mesma, a prática normal, do modelo demomórfico como tal---modelo esse que, exactamente porque não opera como uma teoria genuína da realidade destinada a guiar e a estruturar previamente o nosso "uso" ou o nosso "consumo" político e civilizacional dela mas, de facto (e, volto a dizer: pior ainda de direito!), como mero revestimento exterior im/puramente funcional que se "atrela" ao carro da economia" com o único propósito de "decorá-lo politicamente", a única maneira que o "sistema inversional" formado por uma economia "com uma política instrumentalmente móvel a toda a volta", cumprimdo contínuas órbitas em seu redor tem de absorver os inevitáveis choques que a sua naureza des/estruturalmente disfuncional está condenada a gerar é essa de recorrer ciclica (e/Ou "estrategicamente"!) ao oposto de si a fim de (como dizer?) ir-se "tant bien que mal" equilibrando sobre a própria História, se assim me posso exprimir.

Não foi só o tandem ou "sistema", o citado ciclo, Bush/Clinton, por exemplo: foram, entre nós os ciclos duais Cavaco Silva/Guterres ou Durão Barroso e Santana Lopes/Sócrates como há-de previsivelmente ser o que vai, ao que tudo indica, ser formado por esse mesmo Sócrates e qualquer outro ou outra a que o "regime" se veja obrigado a recorrer a fim de gerir, então, mais... "democraticamente" os sucessivos abusos e gravosos desmandos sociais úteis cuja prossecução entregou a esse mesmo Sócrates, logo que a maioria absoluta por ele arrancada à sociedade portuguesa que o elegeu lhe permitiu "contornar democraticamente" as regras essenciais da própria Democracia, a começar pela que diz que, ao contrário do que sucede nas ditaduras formais, nas democracias a "razão da força" deve, em todos os casos, ceder o passo à força da própria razão, pelo que as maiorias não só não têm de como não devem ser absolutas para permanecerem, em todos os seus posicionamentos e decisões, efectivamente democráticas.

Se, entre nós como nos Estados Unidos, houvesse em vigência uma Democracia verdadeira, autonomamente política e não, como disse, apenas instrumentalmente demomórfica (o que significa: se houvesse em efectivo funcionamento, num caso como noutro, uma Autoridade Fomal de Controlo Democrático, com poderes tribunalícios efectivos, a fim de fiscalizar o estrito controlo dos programas políticos e para sancionar efectivamente os prevaricadores, nunca o bushismo, o cavaquismo ou o socratismo poderiam ficar a rir-se por terem ferido gravemente a democracia a coberto de falhas gritantes existentes nela--e mais: ninguém, sector económico, social, político poderia congratular-se por tal ter na realidade acontecido, antes de a democracia voltar a adquirir, obtidos certos resultados "úteis" da sua "subtil, educada elisão", os traços que mais vulgar e mais caracteristicamente a distinguem.

Georgy Lucács

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

"Eu sou daqueles que..." ou "Situation hopeless but not serious"


Eu sou daqueles que, "desde o liceu" (como "antigamente" se dizia...) se pelam por uma boa revolução... Nunca fiz propriamente nenhuma mas gosto de ver "os outros" fazerem-nas. Aliás, é melhor ver os outros fazerem-nas do que fazê-las a gente mesmo, dirão alguns mais inclinados à cómoda prudência da mediterraneidade. Assim, se elas derem para o torto, a gente pode olhar para o outro lado e fingir que não sabia de nada. Como o P.P.D./P.S.D. do "outro" (outro "outro"...) que ainda não há assim tanto tempo andava a caminhar com uma determinação que fazia inveja para a "sociedade sem classes" e hoje está reduzido a alimentar pachorrentamente Jardins, Menezes e Mendes Botas a pão de ló...


Ou o P.S. dos Barrosos e dos Soares (dá uma vontade irresistível de dizer: da Mafia... Barroso, tantos são os Barrosos, homens, mulheres et al que por ali erram ou que dali regularmente saem para os respectivos conchegos de vida---cátedras nos jornais, etc.---uns atrás dos outros, em carreirinho, como a formiga do Zeca ou os eléctricos do depósito...); o P.S. que ainda parece que foi ontem vendia postais do Allende e posterzinhos com a efígie barbuda do Marx e hoje está reduzido aos engenheiros que ninguém mais quer...


E aos ex-comunistas que, um dia, viram a luz---e não estou a falar do Estádio...


Vital Moreira, por exemplo: o vital Moreira que, integrado numa populosa equipa de "pensadores" encartados onde se incluem, entre muitos outros a inefável "líder" da comunidade judaica em Lisboa e o sólido mas sempre muito poligonal Júdice (o homem tem, com efeito, mais "lados" que um trapézio dos grandes, tipo aqueles "coisa-e-tal-edros" com que costumavam moer-me a paciência no velho Gil antes de conseguir por fim cumprir o fadário de "fazer ciências para poder finalmente assentar nas letras", como desejava---e sonhava...)


Mas, dizia eu, o vital Moreira; pois. Eu acho giro isto de uma pessoa ser coerente et al.

Não é que eu seja, claro, mas gosto, pronto! É, se quiserem, como "aquilo" das Revoluções de que eu falava há pouco: é giro a gente vê-las fazer como se estivéssemos parados a ver montras, gostássemos de uma coisa que víssemos numa delas, entrássemos para perguntar o preço, não comprássemos, voltássemos a sair para, no fim, dizermos a nós mesmos, imensamente consolados: "Hoje estive quase a ser rico: então não é que estive quase para comprar isto ou aquilo que vi numa montra da loja "tal" ou "tal", caríssima?...


Gente com muito mais pano na carapuça do que eu fez grandes revoluções desse modo, muito portuguêsmente cauteloso e poupadinho: viram a montra, entraram, perguntaram o preço---e saíram...


Se tivessem mesmo feito as revoluções pertinho das quais estiveram (ou diante de cuja montra estiveram um dia excitadamente parados a ver) até podiam ter-se tramado sem que na prática o resultado se tivesse alterado um milímetro: a Revolução foi como todas as revoluções ao fundo e alguns, menos prudentes, não se safaram de ir ao fundo com ela...


Sem benefício para ninguém...


E hoje enchem a boca nos jantares de amigos, tipo páginas de opinião do "Público", com o que podiam ter comprado nessa tumultuosa verdadeira "Zara das Revoluções" que foi, para muitos o 25 de Abril...


A propósito, aliás, destas (não) Revoluções---que (não!) são, como se sabe, cada vez mais feitas, de um modo ou de outro, hoje-por-hoje com o patrocínio do banco coiso ou da construtora tal--- permitirme-ia ainda dizer que apreciei devidamente o que obre elas teoriza, precisamente, Vitakl Moreira, no "chat" para suburbanos ilustrados que é a sua coluna no já referido "Público". Lembra ou ele (ou argumenta ele) que uma tal "revolução" está hoje em curso (imagine-se!) no Ensino em Portugal.


Ora, isto, a mim, parece-me bonito, sim, sem dúvida mas também, francamente, optimismo a mais.


Optimismo a mais para um homem só.


Para um povo só.


Ou optimismo a mais ou "entrada a destempo", como se diz no futebol. Uma delas é. Quer dizer: então agora que o Ensino acabou é que vão revolucioná-lo??!! Não pode, não é?


Mas pronto como, no fundo, à nossa volta, a "lei" parece hoje ser: "tudo o que não pode, é", até nem será propriamente grave (ou absurdo) que se revolucione também, já agora, uma coisa que não existe.


Não! Não é isso! Isso está resolvido: não há, melhora-se. Não há, revoluciona-se. Tudo bem.


Em matéria de disparate, estamos em casa e cada um toma o que quer e quanto quer. Não é, pois, isso.


Eu lembrei-me foi de uma "estória" muito gira que me contaram a propósito de "revoluções" e "revolucionários" pós-modernos e que gostaria de evocar aqui a propósito de tudo isto de "gente" que um dia parou diante da montra da modernidade (social, políica, etc.); que entrou na loja onde ela se "vendia" mas que acabou por sair sem comprar nada, satisfeito com apenas a visita.


É o caso de aquela caterva toda de ministros, secretários e coiso que este ano foram inugurar anos lectivos pelo País fora. Pois, parece que um deles para quem como para Vital Moreira "está em curso uma autêntica e necessária revolução no ensino em Portugal" ou coisa do género (uma que, porém, parece que tem de ser muito bem explicadinha tim-tim-por-tim-tim e muito minuciosamente apontadinha senão ninguém a vê passar: é tipo cometa, estilo "vapiti-vúpiti", como eram em geral as coisas na escolinha do Professor Raimundo...); pois, parece, dizia, que um desses fulanos estava a descrever a uma turminha de meninos da primária (ou do primeiro ciclo, como agora de re/diz) as maravilhas da dita "revolução": aquilo eram computadores às carradas, choques tecnológicos atrás uns dos outros, eu sei lá!


"The works".


"El fetén", como dizem os espanhóis aos quais a gente já vendeu metade da "horta do Afonso" [Henriques] (que é Portugal, a Horta, não o Afonso).


No fim da homilia, vai o tal ministro ou lá o que é, "para sobremesa" e pergunta a um menino: "Olha lá, filho, e tu, um dia, quando os frutos da "revolução em marcha" estiverem por fim maduros e prontos , finalmente, a saborear por meninos como tu que tiveram a sorte de nascer quando a gente (nós, o governo) ia a passar, o que é que queres ser?"


E o menino, espertinho, se calhar daqueles que vão àquela escola no Algarve para sobredotados: "Olhe, senhor ministro ou secretário ou coisa assim: eu não me importava nada de ser Ronaldo. Até mesmo Maniche ou Simão Sabrosa. Se tiver de ser um deles, já fico contente. Mas aquilo que eu gostava mesmo, mesmo, mesmo ser, era de poder ser, um dia, menino português! Isso é que devia ser! Isso, isso é que era!"...


Lembrei-me desta "estória" quando li no "Público" 16 de Setembro de 2008 aquele artigo sobre "A revolução no ensino"...

Pois...

E muito bom dia!


[Para terminar, deixo, com sentida comoção (e aqui não estou a brincar, ham?!) e como ilustração a esta "entrada", como podem ver, três retratos: um do meu amigo Otelo que é um tipo pacholíssimo extraordinariamente generoso que foi suficientemente "naïf" para fazer mesmo uma Revolução (que, no fundo, ninguém, pelos vistos, lhe agradece e no ressaca da qual viria a cometer a proeza, aliás, única de ser promovido "para trás", isto é, de general para tenente-coronel como recompensa dos brilhantes serviços prestados à Nação...); outro de Vasco Gonçalves, um Homem a quem, como País, todos tanto devemos e que, mais do que um Amigo que foi meu, foi um Amigo de todos nós com quem, como País, nos comportámos (e, o que é pior, continuamos a comportar-nos!) infamemente; e de Álvaro Cunhal, o único verdadeiro Homem da Renascença que tive o privilégio de conhecer.]

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

"A Menhora Sinistra"

A "tenebrosa tenência" da (chamada...) Educação, num cartoon de Henrique Neto. É caso para dizer: "Bem feito!"

"O meu primo Luís"

Conheciamo-lo lá em casa como "o primo Luís"!

Era para nós uma espécie de mito que a distância (e os péssimos transportes da época) potenciavam. Sempre que alguém dizia, assim tipo pregoeiro de outros tempos e invariavelmente com uma excitação inescondível na voz, qual sistema de comunicações interno familiar: "O primo Luís vai cantar à televisão!" saltávamos todos literalmente, mortalmente angustiados com a dúvida que imediatamente se nos punha todos, membros das duas famílias directamente interessadas, os Piçarras e os Acabados: "Onde é que a gente há-de ir ouvi-lo?!")

Nessa altura, vir de Moura a Lisboa (ou vice-versa) demorava um dia. Recordo-me de ir com o meu Tio José da Costa e a minha Avó a Moura de carro (no Isabella da minha Avó), sairmos de manhã e chegarmos noite fechada. Recordo-me em particular da iluminação que NÃO havia nas terras e da emoção do esforço que nos era pedido para vermos se "aquilo" já era alguma terra. Alguma terra (Pias, Safara, etc.) de cuja presença apenas nos apercebíamos quando já estávamos lá dentro, de tal modo era escuro o campo na época. Viajar de noite era como atravessar um limbo emocionantemente insituável e etéreo, onde todo o imenso potencial de excitação infantil tinha pasto ilimitado...

Até o Hotel de Moura era emocionante com as suas salas imensas e nuas, o restaurante meio imerso na sombra quando chegávamos, a negociação da refeição improvisada, a ida às ecuras para os quartos de um dos quais se via o cinema ao ar livre...
Moura: portal manuelino da Sé

Moura era a pátria do "casão" da Rua das Molejas (onde brincávamos na charrette do meu Avô com a espada do meu outro Avô); da casa da Rua Garcia Peres (em cuja adega o meu tio se ia afogando um dia, salvo à justa pela minha Mãe) mas era sobretudo, o território do meu "primo Luís" onde as espantosas e míticas "aventuras" dele tinham lugar: as refeiçõe pantagruélicas, os luxos dificilmente inmagináveis da minha Tia Luísa (que, dizia-se, quand o tédio a atacava, vinha a Lisboa, ao Chiado, gastar "quinhentos escudos" em bibelots...); a imensa bonomia do meu Tio Luís, para quem a vida era, apesar de tudo, como para Calderón, "sueño"...

"Olha quem é ele!..."

Cá está o "Shane"!... Andei "séculos" a ouvir falar do filme sem poder vê-lo! Uma estúpida censura (sob a forma de classificação de filmes por idades) impediu-me, durante um montão incrível de tempo, de vê-lo! Acabei por ter a oportunidade de vê-lo no "Condes", em reposição.

Logo-logo, tive um choque tremendo: não era (estava longe de ser!) um filme "claro" e "limpinho" como aqueles que eu gostava de ver. Aquela sequência do duelo ente o Elisha Cook Jr. e o Jack Palance/Jack Wilson naquela rua inimaginavelmente lamacenta (isto muitos anos antes das "óperas" expressionistas italianas do Leone...) deixou-me confuso durante muito tempo. Gostei ou não?... Completamente, quero eu dizer (tive a mesma dúvida com o "Rio Sem Regresso" do Preminger---a que, todavia, aderi mais rapidamente, tendo-me decidido com muito maior presteza). Hoje reconheço que essa dúvida, um dúvida dessa natureza, é talvez a melhor marca da qualidade e do interesse de um filme. Ou livro. Ou peça de teatro e por aí fora.

Como o Gaudì e a obra dele ou o Miró. Como o Ferreri. Como o Buñuel. Quando a gente vê e, de repente, todas as nossas certezas oscilam e somos forçados a repassá-las, uma por uma, a fim de acomodar o que vimos e as impresões que isso nos causou. É isso a dialéctica, suponho. Ou é isso TAMBÉM a dialéctica.
A Dialéctica foi removida da realidade, como se sabe, pelas telenovelas da TVI ficando nós e a nossa consciência reduzidos às duas dimensões que identificam e permitem identificar classicamente as consciencialidades exclusivamente animais...

Deixo aqui também um fotograma de "Tristana" um fabuloso retrato da "España de charanga e pandereta, de cerrado y sacristia, devota de Frascuelo y de María/De espirito burlón y alma quieta" (como escreveu Machado), dessa Espanha contraditória, paradoxal e insolúvel que Buñuel tão bem captou no mais sadiano dos seus filmes. Um documento prodigioso sobre a ambiguidade do gostar.

António Machado


"O Audie Murphy! Ah! O Audie Murphy!... Se eu pudesse ser ele!..."

...Ah! Se eu pudesse ser ele e ter a Elaine Stewart apaixonada por mim!...

Quando o "Duelo de Gigantes" (que raio de tradução do original "The Night Passage"!...) foi ao Lys, fui lá vê-lo umas três vezes a seguir, se bem me lembro! O filme tinha também o James Stewart (mas eu era demasiado jovem para poder apreciar integralmente a "persona" contida do Stewart de que o Anthony Mann e, sobretudo o Ford titaram tanto (e tão brilhante partido!...).

O tipo nunca sacava da pistola, não matava ninguém, para ele os duelas eram de livros como n' "O Homem que Matou Liberty Valance!", dava conselhos como os nosos pais e professores... Ná!... Bom, bom era o Murphy. Até porque era baixinho (como o Alan Ladd) mas isso até "dava jeito" porque "provava" que um tipo não tem de ser grandalhão (e eu era um lingrinhas!...) para se fazer ouvir e "respeitar". Era bom (ajudava...) se tivesse uma voz cava como o Ladd (o Murphy não tinha mas não "havia azar": era só puxar da fusca e tudo entrava logo nos eixos...)

Elaine Stewart

Soube que morreu jovem e fiquei incrédulo dias a fio. Foi das primeiras vezes, suponho, em que pensei que era uma "chatice" a gente não conhecer previamente o "script" da realidade e, sobretudo, não poder alterá-lo quando queria...

Brandon de Wilde e James Stewart em "The Night Passage"

"Quando eu era puto..."

Quando eu era 'puto' queria ser guarda-redes. Guarda-fredes de futebol, claro! Guarda-redes "é" ("era"!) de futebol. Era-se guarda-redes com aquelas joelheiras "às tiras" (cheguei a ter UMA que arranjei já não sei onde nem como com aquelas fascinantes tiras de uma coisa esponjosa e seca, a cair) e uns calções acolchoados...


"Como" o Costa Pereira!


Pois... eu era do Benfica, via jogar o Costa Pereira, queria ser o Costa Pereira. O pior é que, lá no fundo, o meu ídolo inconfessável era, nem mais nem menos, do que o guarda-redes da "oposição", o Carlos Gomes, o "maluco". Acho que era o ser maluco que me enfeitiçava. O tipo tinha aqueles beiços improváveis (começava logo aí: o Costa Pereira era atiladinho, penteado, certinho, tinha aquele aspecto de menino bem que não parte um prato, o Gomes era maluco e ainda por cima vestia-se de preto, era qualquer coisa 'de outra dimensão'). Soube mais tarde que tinha muitas namoradas, que metia os outros 'putos' no Estádio "à borla" ("Se os putos não entrarem, arranjem outro guarda-redes que eu não jogo!...") e tinha "ido à cara" (ou quase...) a um PIDE que o chateara. Enfim... Era o fulano ideal para enfeitiçar um miúdo que vê filmes de cowboys e tem no Audie Murphy o seu herói...
Pobre Carlos Gomes! Não sei, francamene, se aquela história com a menor foi real ou se, como ele diz, se tratou de um "truque" sujo da PIDE. Teve de se exilar, era pitosga, jogou em Marrocos e em Espanha (em Oviedo) tornou-se uma figura quase lendária. Morreu com Alzheimer, suponho. Na Áustria. Recordo-o aqui, comovido.

Quanto a mim (voltando a mim...), como não podia (não era "justo", não era "leal"...) "ser" o Carlos Gomes nos jogos no Jardim dos Anjos (eu era do Benfica, caramba!), "era" o Bráulio porque achava que "ser" o Costa Pereira podia "chatear" o Carlos Gomes: era demasiado manifesto e excessivamente hostil...