sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Rubinstein Mozart Concerto 17, 20, 21, 23 & 24.wmv

É Preciso Acreditar - Luiz Goes

"Gone With The Wind" de Victor Fleming


Gone With The Wind :

É, antes de mais, um tributo à re/conhecida megalomania do produtor: David O’ Selznick.

Pessoalmente, devo dizer que nunca o achei mais do que simplesmente um filme grande, muito distante do grande filme que alguns vêem nele.

Há [houve], claro, depois de uma busca incessante que o mito pretende tenha passado pela suposta mas historicamente inexistente recusa de Bette Davis em protagonizá-lo; houve, dizia, Vivian Leigh na ambígua e contraditória figura de Scarlett O’Hara; há os sóbrios e discretíssimos, muito eficazes, talentos de Olivia de Havilland---sacrificada, aliás, a um papel demasiado simplista e excessivamente linear de "santinha" por oposição à viperina "scarlet woman" (ou "scarlet empress"?...) da cunhada e rival no amor de Ashley---e de Leslie Howard] e há, “last but not least”, a presença imponente e a tresandar a testosterona de Clark Gable. E há, como todos sabemos, um script passado de mão de realizador em mão de realizador que acabaria por resultar numa coisa contraditória, prolixa e policêntrica ou polipolar, particularmente difícil de entender fora do contexto de um não-catolicismo para o qual a “salvação” não depende, como é sabido, causalmente das acções concretas de cada um ficando, sim, exclusivamente dependente do arbítrio "divino" da “graça. Circunstância esta que, uma vez tida presente, permite, em tese, a meu ver, ao espectador português, de formação católica romana, do filme aproximar-se talvez decisivamente da compreensão da persona de outro modo, em termos existenciais e particularmente éticos dificilmente qualificável [e muito pouco admirável...] de Scarlett O'Hara, que começa, com efeito, por nos ser apresentada tão-somente como uma mera “Southern belle” de cabecinha oca, leviana, prepotente, egoísta, inescrupulosa, cobarde, infiel, e mesmo, a dado passo, um pouco alcoólica, ela que noutros momentos parece, pelo contrário, poder constituir um modelo de coragem, tenacidade, e uma coragem não isenta de alguma dignidade no meio da inenarrável tragédia da devastadora Guerra da Secessão norte-americana e do apocalipse económico, social e, de uma formas mais lata, cultu[r]al que ela plantou na grande nação onde teve lugar.

Isolados, porém, os actos da heroína da respectiva aparentemente desejada “salvação”, isto é, vistos eles à luz de uma visão puritana-luterana que pouco tem a ver com o entendimento vaticano da ideia de pecado, a personagem de Scarlett excepcionalmente bem defendida, aliás, é preciso reconhecê-lo sem reservas, por uma luminosa Vivian Leigh, surge, então, como o paradigma, então sim, a seu modo, exemplar da mulher corajosa e tenaz, isto é, da tenaz resistentevítima de um destino histórico e existencial trágico, não merecendo, afinal, em última análise, o desprezo final de 'Rhett Butler'/Clark Gable na famigerada sequência final que o mostra abandonando-a, ao que tudo indica, desta vez definitivamente com o já clássico “Frankly, my dear, I don't give a damn!...” [que a censura tentou que tivesse muito mais decorosa mas muito mais chochamente também sido “Frankly, my dear, I couldn’t care less”].

No todo, o filme, recentemente divulgado em versão DVD com um conjunto de publicações portuguesas que vão da revista “Visão” ao semanário “Expresso”, constitui hoje-por-hoje, um «monumento» icónico a um certo estrelato de época [de que Gable foi, como se sabe, um dos expoentes máximos, com “ecos” por todo o mundo de Itália (Amadeo Nazzari, v.g.) ao México (Arturo de Córdoba) e até ao Japão [Toshiro Mifune] não esquecendo Portugal e Espanha (António Vilar) assim como, de um modo mais lato, a um certo gosto pelo vulgar prodigamente decorado pela parafernália instrumental  de um certo tom de época (Cf. “Cleópatra” a de de Mille como a do incomparavelmente mais relevante Joseph. L. Mankiewicz, um grande cineasta a quem devemos o inesquecível "Sweet Smell of Sucess", "Cleópatra" essa "de" Mankiewicz que começou por ser de Rouben Mamoulian, o qual a dado passo, abandonou como se sabe, o projecto ou foi por ele abandonado].

                                    

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Guilherme Espírito Santo [1917-2012]

Começo por dizer que não me lembro sinceramente de vê-lo jogar. Recordo-me, porém, de “conhecê-lo” perfeitamente através dos famigerados “bonecos da bola” dos [medonhos!] rebuçados de tostão, sinistra mistela de açúcar e farinha em volta da qual, dobradinhos a rigor, vinham os mágicos retratos dos nossos ídolos infantis. Devo, todavia, ter visto algum jogo com ele numa, pelo menos, das várias vezes em que acompanhei o meu pai à velha Ilha “” ou “Estância de Madeira”, o exíguo e calvo Campo Grande, onde jogavam ele, o Corona, o Contreiras, o Chico Calado, o Rogério Lantres de Carvalho—o inimitável Pipi”—além do Melão, do Julinho, os para nós famosíssimos “Diabos Vermelhos” e, a breve trecho, também do menino Zé Águas além de, para dar apenas mais um exemplo, do Raul Pascoal, que hoje [quem me havia a mim de dizer, nessa altura?!] cá vou encontrando com alguma frequência nas minhas errâncias de dono de cão zeloso e cumpridor [o dono não tanto o cão…] pelas ruas da cidade onde nasceu e que faz o favor de ser meu interlocutor ocasional, num emocionado desfiar de memórias onde, volta-não-volta, lá re/emergem as referências ao extraordinário desportivismo do agora desaparecido Espírito Santo e ao aprumo com que se comportava em campo sobretudo para com os adversários.

É, de resto, uma das razões pelas quais eu próprio sou e só posso ser “do Benfica”, o único Clube que ao que conheço que protestou um jogo ganho com um penalty senão inexistente, pelo menos, duvidoso a seu favor e cujo capitão à época o mítico Cosme Damião expulsou, um dia, por comportamento incorrecto num jogo em Espanha, um companheiro—aliás, a principal vedeta da equipa, Artur José Pereira, a primeira grande estrela futebolística nacional, que haveria de nos ser “roubado” pelos ricaços de verde, ainda hoje nossos vizinhos, numa altura em que ainda não se arrastavam pela competição, sonhando emular o… regionalíssimo Sporting de Braga—…

O Espírito Santo encarnou como ninguém esse espírito de dignidade e nobreza competitiva quando o desportivismo era ainda um valor entre nós.

Numa altura em que o Melão, outro jogador negro do Glorioso, foi com o próprio Espírito Santo, impedido, numa digressão à Madeira, de se alojar com o resto da equipa num hotel da ilha que apenas aceitava brancos, vinham-me invariavelmente as lágrimas aos olhos sempre que evocava, com o meu pai, «afrcano acidental» nascido em Moçambique mas renascido em pleno Baixo Alentejo, o aprumo exemplar do Espírito Santo, o mesmo que, uma vez, recusou festejar um golo marcado ao grande Azevedo—a jogar esse jogo com um braço ou uma omoplata [não me lembro exactamente!] fracturados, para precipitar-se, afastando os companheiros de equipa naturalmente eufóricos pelo golo, a fim de ajudar o guardião adversário a levantar-se guardião esse que, após ter voado para bola na tentativa frustrasda de evitar que ela entrasse na baliza chutada pelo Espírito Santo precisamente, havia caído sobre o braço são, tendo ficado, desse modo, impossibilitado de erguer-se por si só.

Com o Espírito Santo, ficou para todos nós, não-brancos no Portugal dos anos 50 [Espírito Santo retirou-se em 1949, quatro anos depois de eu próprio ter nascido] um pouco menos complicado sê-lo exactamente porque havia aquele espécime único de cidadão e futebolista exemplar, hábil e velocíssimo, modelo dificilmente igualável da “superioridade moral do benfiquismo” que tornou o Clube a referência desportiva perfeita em Portugal—e não só.

Viriam, depois, como é sabido, os apitos e a famigerada fruta e um universo competitivo com muitas analogias com um certo pugilismo profissional corrupto norte-americano denunciado pela literatura e pelo cinema [“Requiem For a Heavyweight” de Ralph Nelson ou “The Left Hand of God” de Dymitryk, para já não falar no soberbo “Raging Bull” de Scorcese, por exemplo] e um tempo [i] moral onde “sportsmen” íntegros como Espírito Santo não passavam já de mero anacronismo incompreensível para a maioria dos frequentadores de estádios e/ou pavilhões.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

E agora, venha o SIS!


Como pacifista e ex-refractário da guerra colonial salazarista, seria eu a última pessoa em Portugal a pensar em caucionar e/ou abonar acções violentas como aquela que ocorreu na sequência da greve geral recente diante da Assembleia da República, acção protagonizada por um grupo de “angry young men” mais interveniente e exaltado, munido de pedras da calçada] diante de uma verdadeira muralha-da-China de polícias “de choque” armados até aos dentes que pareciam saídos do Chile de Pinochet para proteger os directa ou indirectamente responsáveis pela catástrofe económica e social em que estamos todos metidos.
Agora, o que eu não posso, desta vez como homem de Esquerda ou até como simples cidadão—em quem não luz a mais remota résteaa de simpatia quer pessoal quer política pela figura insuportavelmente dogmática, pseudo-senatorial, [falsamente “cardinalícia” e apenas supostamente magistral desse "Keynes das alfarrobas" que é Aníbal Cavaco Silva—é o modo como este responsável-chave da desarticulação e desmembramento do aparelho produtivo nacional [cumprindo o desígnio da tal C.E.E. para o nosso país que envolvia fazer dele uma espécie de «endocolónia» da “Grande (e—verdadeira!—Europa” e digo “Grande Europa” como outros dizem ou diziam “Grande Sérvia) fornecedora de matérias-primas (e devidamente desarticulada como autonomia produtora) mercado electivo das agriculturas e das pescas francesas, espanholas e italianas; o que não posso, dizia, é aceitar em silêncio o modo como a personagem em causa não se eximiu numa entrevista recente a mandar mais um dos seus intragáveis “bitaites” tentando desligar causalmente a violenta (re) acção dos jovens da calamidade social em que, volto a dizer, nos achamos, como sociedade de repente metidos.
A verdade é que, com ou sem bitaites [serão “sound bitaites”?] de Cavaco a “meia dúzia de profissionais da arruaça” ou lá como foi que ele lhes chamou ecoam de forma arrepiante pela estupidez de que constituem gritante “exemplo” a famigerada “escassa meia dúzia de terroristas” que Salazar e os fascistas se deliciavam a citar a propósito dos movimentos de independência anti-colonial e são o resultado directo e natural não apenas de se ter esticado a corda das desigualdades e da moralidade económica e social como também de sucessivas “políticas” de escandalosa conivência com a indisciplina e a violência escolares por parte de contínuos maus governos e muito em especial péssimos ministros da educação série iniciada logo com o primeiro governo constitucional e seu famigerado "Sotomaior C'ardia".

Aliás, se se tratava de um pequeno grupo de profissionais da arruaça por quê carregar brutalmente sobre centenas senão milhares de manifestantes pacíficos?Ver mais

EMMANUEL PAHUD Mozart Flute Concerto in G - 1 mov.