terça-feira, 5 de maio de 2009

"O sio-fascismo e o anti-racismo recentemente confundidos"


Vou, agora, falar aqui, no "Quisto" de Ahmedinejad que a propaganda "ocidental" (se não tivesse receio que me começassem já a chamar "anti-semita" diria: que a propaganda "ocidental", fortemente influenciada pela visão que dele, Ahmedinejad, tem especificamente o 'judaísmo institucional' de hoje, por sua vez, alimentado por uma espécie de grande, nebulosa, indistinta, difusa genérica culpa que herdámos, como todo, da 2ª Guerra Mundial e do modo como o povo judeu foi, então, tratado, isto é, quase dizimado); vou, dizia, pois, falar aqui de Ahmedinejad sobretudo integrando a minha abordagem do líder iraniano no contexto de uma recente iniciativa anti-racista global; Ahmedinejad de quem a propaganda "ocidental" adora, como tinha começado a dizer, repetir horrores de cada vez que ele vem a público insurgir-se, bem ou mal (ou seja, com a melhor forma e os melhores argumentos ou não: essa é outra questão que não me interessa, devo desde já dizer, particularmente, retomar aqui) contra uma realidade que, todavia, só não vê quem não quer realmente vê-la e constatá-la: a perverssíssima existência actual de um sio-fascismo (com o brutal, abjecto, apartheid que dele deriva) violentando os Estados árabes em redor e mesmo dentro do próprio estado de Israel.

Esta ideia de que um judeu possa ser, ao mesmo tempo, judeu e fascista era, para muitos de nós, até ainda há bem pouco, literalmente impensável como resultado, precisamente, do modo como projectávamos sempre uma espécie de culpa difusa generalizada (que, na realidade, era de todos apenas na medida em que todos, afinal, foram directa ou indirectamente, cúmplices do genocídio judaico, do Vaticano aos Estados Unidos e à Inglaterra, passando pela igreja protestante alemã, como o "caso Gerstner" tão eloquentemente demonstra); isso, o que atrás refiro, acontecendo pois, porque, como ia dizendo, nos habituámos a projectar sempre a sombra significadora dessa culpa colectiva à frente da lucidez e da objectividade que deveríamos, em todos os casos, pôr sempre que esteja em causa o nosso modo estável, tópico mesmo, de abordar (e representar) a História.

A verdade é que tal ideia corresponde hoje-por-hoje, a uma realidade perfeitamente observável--e demonstrável e, por isso, muito dificilmente escamoteável.

Israel é mesmo, cada vez mais, um Estado fascista e a sua História moderna assemelha-se também cada vez mais a essa tenebrosa África do Sul dos Bothas e dos Voersters de outros tempos que tanta denúncia e revolta, a seu tempo, levantou em todo o mundo.

É, de resto, idiota pretender, como fez o "Ocidente" (ou algum dele) na tal Conferência, em resultado do modo como Ahmedinejad vê o sionismo e as políticas de expansão e opressão de Israel, chamar ao líder do Irão "racista", na realidade, apenas porque se opõe ao expansionismo sio-fascista.

O que está em causa aqui, neste caso, não é, com efeito (é preciso que o entendamos claramente de uma vez por todas!) qualquer aspecto de natureza realmente rácica ou étnica: o que está em causa aqui é a religião como instrumento de dominação: uma dominação que é imediatamente cultu(r)al mas, na realidade, ou seja, num plano mais mediato, de natureza efectivamente económico-financeira e geopolítica.

A mim, pessoalmente, devo dizer, é-me de todo indiferente (e projecto esta imagem na apreciação que faço do comportamento argumentativo, retórico, verbal de Ahmedinejad relativamente a Israel) se "ser-se judeu" envolve, na essência, uma questão de índole étnica ou religiosa.

Não: a mim, o que me interessa, de facto, é a política--a política expansionista, opressora, inimaginavelmente desumana e brutal de um Estado.

A mim o que me interessa é, por outro lado, indo um pouco adinte na equacionação dos aspectos relacionados com o papel de Israel no mundo e especificamente no Médio Oriente, o modo como esse Estado representa localmente os interesses de outros Estados e faz (brutalmente!) a política (a geo-política) que convém a esses outros Estados e à sua sede de controlarem as fontes energéticas mundiais, os quais fecham, por isso mesmo, os olhos ao modo desumano e profundamente in-civilizado como Israel se relaciona com os restantes povos habitantes da região .

A raça não entra, pois, aqui para coisa alguma: nem para argumentar as posições geopolíticas israelitas nem para contradizê-las e a elas nos opormos.

Não é, insisto, a raça: é a brutalidade, a selvajaria, a perda total da dimensão humana e humanista por parte de um povo que já esteve, como se sabe, ele próprio do "outro lado" da História e que tinha, por isso, obrigação de ter aprendido, de uma vez por todas, a lição.

Pode-se, para concluir, censurar tudo a Ahmedinejad: chamar-lhe "racista", porém, só se explica, porém, pela necessidade (im!) puramente propagandística e hipócrita do chamado "Ocidente" de achar as palavras "certas", i.e. mais eficazes no sentido do propósito de desacreditatar o líder iraniano que o anima.

É que há mesmo judeus fascistas: o "pobre" Kafka assim "uniformizado" representa-as e simboliza-as, ele próprio tornado, deste modo, vítima dupla ou triplamente vítima, desta feita, de forma póstuma.
Desculpa lá, oh Franz! Foi a importância de que, como homem e como artista te revestes que te pôs, por uma vez, nesta situação...


[Imagem ilustrativa: "collage" original do titular do blog]

"Carlos Machado Acabado: «Reading From a Really Lively Book»"


Concebi esta colagem como tributo ao prazer, cada vez menos comum, de ler. Uma das coisas que mais me horrorizam é o modo como usamos ("we don't use: we misuse!") a tecnologia: literalmente fetichizando-a.

A tecnologia, para nós, como sociedade no tempo, digamos assim, perdeu, com efeito, já e já há muito (a pós-modernidade tem, diria eu, tudo a ver com esse modo supostamente funcional mas, na realidade, des/estruturalmente disfuncional e inteleccional, humanisticamente perverso, para onde se deu a deriva consistente que observo nos nossos modelos tópicos de nos relacionarmos estavelmente com o real...); a tecnologia, dizia, perdeu já há muito o seu carácter de "objecto" no contexto dos paradigmas civilizacionais de operarmos--e (auto) representarmos!--essa relação tópica, tendo-se tornado, sim, o seu verdadeiro sujeito estando-nos reservado, pois, a nós, o de 'objecto' ou "objeito" (falso sujeito) da referida relação tópica.

Um exemplo dessa deriva tem a ver com o modo como deixámos de integrar a leitura por prazer, a leitura (verdadeiramente) cultural e cultual entre as nossas práticas educacionais básicas.

Ler é, antes de mais, aprender a mediar criativamente o nosso rapport pessoal com o real, ou seja, é aprender a alimentar a presença de uma "almofada criacional" entre nós e a realidade onde depositamos (a fim de usarmos consistente e também conscientemente sempre que se imponha restabelecer circunstancialmente o dito rapport) aquilo que em nós pensa e (realmente) conhece.

Aquilo que em nós verdadeiramente pensa, isto é, faz operações de conhecimento e, sobretudo, cognição.

Ver, na realidade, dispensa-me quase invariavelmente de pensar.

É, num certo sentido dialéctico (e auto-criacional) profundo o oposto objectual de pensar. É por isso que a televisão inevitavelmente embrutece enquanto a rádio fascina ou está, pelo menos, muito mais naturalmente vocacionada para fazê-lo; é por isso que um cineasta como Oliveira diz (ou disse, a dado passo da sua vida como cineasta--e nisso ecoava, por exemplo, o que, por sua vez, afirmava Chaplin) achar que o Cinema é (deve ser "sempre"!) mudo e a preto-e-branco.

Que o verdadeiro, o genuíno, Cinema está no mudo e no preto-e-branco. Não pensará hoje já assim mas disse-o e realizou, em qualquer caso, os seus primeiros (e melhores?...) filmes nesse registo cinético "puro", digamos assim.

Quando se usam calculadoras, por outro lado, esquece-se a outra ginástica essencial do espírito que é a que está intimamente associada ao próprio cálculo como pressuposto autónomo de apropriação matemática do real.

As "minhas" heroinas nesta colagem são atípicas hoje exactamente porque tiveram a felicidade de não terem perdido essa aptidão educável ideal para ver que não se situa automaticamente no próprio ver mas no modo como aprendemos (como somos estimulados e educados) a usar inteligente, civilizada, humanisticamente, a aptidão natural para ver.

Que é uma coisa muuuuito distinta de saber realmente usá-la.

"Augusto Boal e Vasco Granja, mais dois Amigos que partiram..."

Cumprindo uma espécie de trágica "tradição" que pretende que as Pessoas (com maiúscula...) morrem sempre, de algum modo, "aos pares", sobretudo se possuem alguma notoriedade comum, isto é, se são Pessoas e não pessoas por se terem distinguido numa qualquer área que lhes é comum; cumprindo, pois, dizia, a trágica "tradição" deixaram-nos, com intervalo de escassas horas, dois Homens, dois Amigos, dotados de particular relevância cívica e cultural: Augusto Boal e Vasco Granja.

Não vou aqui fazer nem o panegírico sem o elogio fúnebre de qualquer dessas duas impoertantes figuras da Cidadania e da Cultura.

Vou apenas recordar, com a emoção e a saudade que não se podem traduzir pelas meras palavras de circunstância, que não apenas cada um de nós mas, diria eu, essa mesma Cidadania e essa mesma Cultura estão já a sentir das suas presenças materiais.

"Materiais", porque a outra, a importância definitiva dos grandes Homens, essa nem sentiu a diferença...


Adeus, Companheiros!

[Imagens ilustrativas extraídas com a devida vénia respectivamente de blogdoviamundo.wordpress.com e amordeperdicao.pt]

sábado, 2 de maio de 2009

"Comentadores, Comendadores e Educação no Portugal de Hoje..."

Confesso que nunca fui naturalmente sensível a Papas e Gurus--uma 'família mental e civilizacional' que, de resto, em geral, abomino e onde, por direito próprio e natural, incluo a pós-moderníssima figura do "comendador/comentador", geralmente uma espécie acabada de Papa-dos-pobres (de Papa dos pobres de espírito, dos pobres em autonomia intelectual e designamente crítica, em todo o caso) ou, se assim se preferir dizer: de "neo-moderno" e "pós-cultural" substituto final do diálogo directo entre as pessoas assim como (o que está, aliás, longe de ser secundário e irrelevante!...) dessas mesmas pessoas consigo próprias.
Das Pessoas com maiúscula.

Durante quase 5o anos, com efeito, o diálogo foi, entre nós, bem ou mal (muitas vezes mal mas pronto!...) entre as pessoas possíveis, as que havia, as (escassas verdadeiras Pessoas) que o salazarismo ia permitindo.

Foram, de facto, poucas, essas Pessoas?

Foram--e foram, ainda por cima, muitas delas, fraquinhas (e algumas até fraquíssimas!) como Pessoas.

Pois, foram, sim senhor!

Juntavam-se, com frequência, em cafés (até o António Ferro o notou naquela que foi, seguramente, uma das poucas coisas realmente espirituosas que escreveu!) para partilharem as mais inimagináveis vulgaridades e inclusivamente, não-raro, algumas dificilmente perdoáveis baixezas, também--mas foram, em geral, Pessoas, e isso tem sempre de valer alguma coisa...


Ora, o que constatamos hoje é que o "comentador" (como, não-raro, labiríntica e pontiaguda emanação inteleccional suprema de uma certa pós-modernidade pacóvia, alarve e vazia) acabou com (ou, na melhor e, afinal, mais esperançosa das hipóteses, suspendeu oficialmente por tempo indeter... minado) as Pessoas (e as pessoas!) que agora se juntam fisicamente, sim, mas, quando o fazem, quase exclusivamente para ouvirem (ou para simplesmente consumirem, muitas delas!) ideias ou (pior ainda!) as aparências simuladas, meticulosa--"artisticamente"--contrafeitas, de ideas que, todavia, na realidade, nunca ou quase nunca existiram...

Nasceu assim uma nova indústria hoje-por-hoje, aliás, prospérima: o ideísmo de carreira (ou como carreira) o pronto-a-comer epistemológico com diversas lojas e barraquinhas-de-feira dispersas pela imprensa (e pelas mentes, em geral...) de Norte a Sul do País.

O "boom" da nova indústria é de tal ordem que mesmo fulanos sérios e circunspectos, intelectualmente idóneos e epistemologicamente respeitáveis, não conseguem, muitas vezes, evitar passar, na confusão, também eles, por "Papas" e "comentadores".

O professor Nuno Crato é um desses fulanos.

Para o que chamo "a Idade Mídia" ele (e meia-dúzia de outros como ele) funcionam um bocado como a arquitectura "de autor" para os patos bravos e os autarcas desonestos ou simplesmente rústicos e pífios: como um recurso que é suposto conferir legitimidade cultu(r)al (isto é, tornar imediata ou tornar 'exteriormente digeríveis') mamarachos, crimes urbanístico-ambientais e, até, inconfessáveis negociatas que, de outro modo, eram bem capazes de pôr as pessoas a pensar e a questionar os seus autores e mentores...

...O que não é, aliás, em caso algum ("com acento no pensar"...) propriamente a coisa mais fácil ou mais simples de fazer neste mundo mas enfim...

Seja como for, é preciso dizer que Cidadãos como o Prof. Crato assim como as reflexões que em geral produzem e, de uma forma muito particular, as que eles produzem sobre matéria educativa não devem, em caso algum, ser ignoradas, ainda quando, delas pontualmente diverjamos ou mesmo, num caso ou noutro (nos que forem... precisos) abertamente discordemos.

Pois, do Professor Crato, acabei agora mesmo de ler um artigo no "Expresso" de 01.05.09 intitulado "Vale a Pena Estudar Matemática?".

Lendo-o, percebe-se perfeitamente a distância que vai do "comentador" ao cidadão real (ou mesmo apenas potencialmente) válido e efectivamente relevante; do cidadão que, mesmo quando, repito, dele por vezes, se discorda, vale sempre a pena ouvir ao "patetinha de carreira", ao "burro-carregado-de-livros profissional" ou ao "impostor laureado" (ao... "nescium cum laude" de compêndio) , eleitos, todos eles, de um modo ou de outro, "referências cultu(r)ais" mais ou menos "absolutas" e "definitivas" desta nossa festiva Pós-modernidade "midieval"...

Aborda o texto do Prof. Crato (relevando, porém, o que interessa) uma série de questões com as quais eu próprio, como professor, me debati sem sucesso e sem glória, durante anos a fio.

E quais são, então, essas questões?

São várias--com a famigerada questão da "motivação", à cabeça de todas!

Sempre que uma aula de História, Filosofia, Matemática ou até de Inglês ou Português não lograva despertar num menino qualquer, do Minho ao Algarve, as mesmas epidérmicas "emoções" (os mesmos "thrills", idênticos "kicks") que (sei lá eu!) um jogo de computador violento qualquer ou um episódio-tipo dos famigerados "Morangos Com Açúcar" (filmado já depois da bem sucedida lobotomia do corpo de argumentistas, de preferência--a qual, como se sabe, ocorreu durante as pré-filmagens do episódio-piloto...); sempre que tal sucedia, ia dizendo, era certo-e-sabido, era "dos livros", era fatal ao pobre professor directamente envolvido no 'caso' ter de "levar" imediatamente com a berraria desesperada, os convulsos soluços e os sonoros carpidos, as torrenciais lágrimas, da criancinha guinchando por quantas tinha "que não estava motivada" (melhor: que não a tinham sabido motivar"!) para a aula em questão e que, por isso, "de certeza" ia ter negativa mas antes, claro, ia queixar-se ao ministério.

Isto, com o devido acompanhamento "à guitarra e à viola" de papás, mamãs e algumas ministras e ministros da chamada Educação, ligeirinhos e avulsos, frescos e saltitantes, aos pulinhos (aos "pulinhos argumentativos", seguramente...) pelo meio...

Ora, o problema tinha tudo a ver com duas coisas: por um lado, com a "entrada" franca (patrocinada, aliás, alegremente por sucessivos governos desta nossa leda "república dos figos") da "sociedade dita civil" (eu não disse "servil": disse "civil", ham?...) na Epistemologia, isto é, nos territórios respeitáveis das diversas ciências e áreas do saber dotadas de presença curricular, como forma de... "intervenção cívica" e/ou de exercício de "responsável (!) cidadania" (!!) "democrática" (!!!) e, por outro lado, com a completa incompreensão (perdoável na tal "sociedade civil" mas absolutamente indesculpável num ministro da Educação, mesmo "pê-ésse"...) do que é "motivação" em matéria educativa ou, de uma forma mais global e abstracta, educacional.

Na semântica desoladoramente suburbana de muitos (não sei se da maioria mas de muitos com toda a certeza!) dos papás e mamãs "que vão às reuniões", "motivar" significava no fundo rigorosamente o mesmo que "divertir", "encher o papinho de gozo", "partir a moca a rir", "pôr o adolescente ou a adolescente bem-dispostos e felizes e com vontade de ir à escola de uma forma, todavia, completamente independente da qualidade efectiva do trabalho que lá--não!--se vai fazer" e por aí fora.

Trocada em miúdos, a palavra-de-ordem era ou é, por outras palavras: se custa, não é motivador.

Se não diverte, desmotiva.

Ou seja: o critério dos "Morangos" e dos programas do Goucha ou da Júlia Pinheiro aplicado às práticas da Inteligência e ao Conhecimento...

Ora, a verdade é que isto nada mais é, na realidade, do que a formação da Consciência mas exactamente ao contrário, i.e. o projecto em causa visto como se tudo em matéria educacional devesse partir do pressuposto básico virtualmente inegociável de que a Inteligência e o Gosto não se educam nem se enriquecem: que nascem um e outro com a gente e vão, no fundo, ideal e gloriosamente virgens com cada um de nós, no fim, para a cova...

É preciso, porém, dizer o seguinte: num certo sentido muito preciso, "motivar" (como, de resto, muito lucidamente discorre, no texto citado, o Prof. Crato) pode efectivamente até nem "passar muito longe" do gostar.
Melhor: pode e deve passar efectivamente pelo gostar!

A diferença é que tem de chegar lá, não partir de lá!

Dito de outro modo: eu acredito (e julgo poder legitimamente supor da leitura do texto do Prof. Crato que este também assim pensa) que se possa, em tese, com inteligência, trabalho e responsabilidade, partir do grau... 'Coliseu dos Recreios' ou do nível TVI do Conhecimento para chegar idealmente, em última instância, ao grau S. Carlos ou ao nível Mezzo/Canal Arte desse mesmo Conhecimento ou dessa mesma Inteligência.

...Ou que se pode, por outro exemplo, partir do grau "Equador" ou do nível "A Favorita" da criatividade para se chegar, cumprido um certo percurso inteleccional, crítico, cultu(r)al, auto-formacional determinado, ao ponto Kafka ou ao ponto Beckett, ao ponto "Mon Oncle" e "Playtime" de Tati.

Isto é, acredito que as pessoas não estão fatalmente condenadas à mediocridade; acredito na viabilidade razoavelmente generalizável da "mobilidade cultu(r)al" como factor-chave de valorização dos Indivíduos e dos Cidadãos como tal, em ambos os casos--assim como acredito, a montante e em termos ainda mais genéricos e de princípio, que "a cultura ou é sempre e em todos os casos, ela mesma, um acto de... cultura ou não é".
Que entre a Educação no verdadeiro e mais nobre sentido da palavra (ou mesmo entre a "simples" Seriedade) e as "Relações Públicas" vai um passo de gigante, não (como escreveu classicamente o Zé Mário Branco numa canção célebre) "o passo de um anão" que segundo muitos parece dever existir.

"Motivar" é "ensinar a gostar", sim senhor, como "estar motivado" pode até ser, sobretudo, "gostar".

A questão, porém, precisando um pouco mais quanto já disse; a questão é: (i) gostar para quê e (ii) gostar porquê.

Esclareça-se, desde logo, que "para quê" e "por quê" não têm forçosamente, ao contrário do tantos parecem hoje-por-hoje supor, opostos entre si.

Ou seja: que a utilicidade das "coisas" não se cinge, volto a dizer, de forma limitadíssima e anti-culturalmente muito míope, ao seu uso material e à utilidade imediata dessas mesmas coisas; ao seu "valor" como simples investimento num projecto específico e limitado de mera sobrevivencialidade mais ou menos imediata, por muito respeitável e... essencial (por muito respeitável porque essencial!) que seja às pessoas cultas (como, de resto, às outras, às que o não são) comerem e, em geral, sobre/viverem.

Mas enquanto não se perceber (e enquanto, depois, a ideal percepção que daí resulta não achar tradução institucional e metodológica adequada) que existem não uma mas diversas formas, (umas menos materiais, menos imediatas ou menos imediatistas) de (auto) representar a "utilidade" e a "necessidade" em matéria de construção de cada projecto educacional (e) pessoal específico--formas essas que acompanham (lá está!) idealmente, ponto por ponto, todo um percurso, a construção de todo um edifício pessoal e cultu(r)al a ir sendo progressivamente erguido ou armado; enquanto, dizia, tal não acontecer os equívocos e as violências cultu(r)ais e até civilizacionais de toda a ordem (ainda que mais ou menos engenhosamente disfarçadas de ágeis e desempoeiradas "políticas para a modernidade") não deixarão de multiplicar-se e de corromper, no fundo tudo, na sociedade ou sociedades onde ocorrem.

E aqui voltamos, mais uma vez, ao texto do Professor Crato que nos tem, de um modo ou de outro, servido de 'leit motiv' e que, também ele, faz referência directa àquele que é um equívoco absolutamente inevitável (fácil de prever, em todo o caso) quando, como atrás dizia, a "invasão" (e a "pilhagem", o "saque"!) das epistemologias e das metodologias, patrocinada por poderes públicos irresponsáveis passaram já há há muito a constituir... política oficial do Estado.

É a tal questão de o objectivo, a... utilicidade, da Educação não poderem, em caso algum, ser uma questão simples e exclusiva ou mesmo prioritariamente económica e economicista.

A Educação não pode ser , por muito humano, desejável e necessário que tal desiderato em si mesmo seja, ter ou querer ter um emprego e o dinheiro que ele legitimamente pode proporcionar; não pode ser ter tal propósito como "projecto geral de cidadania": se o propósito essencial da Educação não é (e obviamente que não é!) divertir e manter os sujeitos da educatividade durante um certo tempo ocupados/entretidos, não pode, por outro lado, ser apenas "preparar-se--passar xis anos a preparar-se--para ganhar dinheiro".

Deve (tem de se!) ser, antes de mais ou acima de tudo o mais, na base de tudo, uma questão de Inteligência e de Cultura, uma exigência básica, autónoma, válida também por si mesma e em si mesma, de enriquecimento objectivo, específico, da Condição Humana como tal.

Aprender a apreciar Beethoven, Mozart, Beckett ou Fritz Lang é uma tarefa que não faz «civilizacional e humanisticamente sentido» se for feita apenas a pensar no dinheiro que se pode vir a ganhar ou a deixar, pelo contrário, de ganhar se (não) se concretizar tal projecto ou tal "programa" particular de acção e de vida.

Melhor: que não pode materialmente ocorrer se eu partir para a Educação com aquele desígnio, já nem digo exclusiva mas mesmo apenas prioritariamente em mira e se, no fundo, todo o edifício educacional de uma sociedade inteira for, na prática--embora que possivelmente (ainda?) não na teoria--concebido com esse mesmo único ou com esse determinante propósito em mente.

É inquietante, é horrível (assusta pelo que realmente significa em termos do futuro da sociedade ou sociedades que estamos lentamente a des/construir!) abrir uma publicação como um tal "Portugal Positivo", uma publicação gratuitamente distribuída com, pelo menos, um dos jornais diários nacionais e observar como, para tantos presidentes de Conselho Executivo que nele expõem, os seus pontos de vista sobre a questão educativa, "educar" gerou já, de forma inquietantemente exclusiv(ist)a e natural, um léxico--toda uma semântica!--e por detrás dela, toda uma ideologia particular, específica, subentendida, onde se multiplicam uma após outra expressões (e, insisto, o que elas contêm em termos de implícito "projecto civilizacional"): expressões como "forte ligação entre a escola e o tecido empresarial"; "aproximação da escola à comunidade empresarial"; onde se repetem quase obsessiva, quase... liturgicamente propósitos e mesmo projectos educativos inteiros expressos em formulações do tipo: a "grande Opção Estratégica" (sublinhado meu] do nosso "Projecto Educativo" assim como do das restantes escolas [o "desenvolvimento a nível local depende em grande parte" disso] deve ser "a promoção de cursos de formação profissional que permitam uma melhor e mais rápida integração dos jovens na vida activa"; ou onde se afirma textualmente que [e cito] "as mais-valias" [da escola] são a "motivação ("here we go again"!...) das empresas [sublinhado meu] e instituições (especificamente quais? Não justificam menção expressa? Porquê?) inseridas na nossa Comunidade Educativa".

Entendamo-nos: tratar-se-á, em todos estes casos, a nosso ver, na perspectiva do "Quisto", de "maus" projectos e de "más" intenções das Escolas ou da Escola pública portuguesa?

De modo algum: o problema não é que se trate de maus propósitos: o problema é que não podem nem devem é, em caso algum, ser eles, como directa ou indirecta, implícita ou subententendidamente se infere de algumas das próprias formulações enunciadas o paradigma educacional nem único nem sequer prioritária e/ou tendencialmente dominante de uma sociedade verdadeiramente moderna e verdadeiramente vertebrada em termos civilizacionais.

Não devem, por outras palavras, ser eles a concentrar em si e a monopolizar toda a arquitectura teórica do edifício educacional, contaminando-lhe tão gradual quanto inevitavelmente a visão específica "de episteme" e condicionando, de passo, intensiva e extensivamente, o respectivo conteúdo didáctico particular e específico.

Não se desejam nem se aconselham "torres de marfim", como é evidente.

Mas não temos dúvidas que de evitar seja categoricamente também que a História e a própria Civilização, depois de terem feito um mais ou menos prolongado "estágio" num neo-rousseauísmo educacional tão vão quanto serôdio, passem a ser, agora, "discretamente aconselhadas" a regressarem, uma e outra, àquela fase da "Pré-história da Modernidade" (correspondente ao apogeu do Materialismo Positivista burguês oitocentista e industrial) em que Educação e Instrução por instantes de todo entre si, num dado nível, se confundiram de forma mais ou menos inextricável.
Devemos, repito, impedir que isso ocorra hoje de novo, desta vez, em nome de uma "modernidade" ou, mais precisamente, de uma "pós-modernidade" que "se separou" ou que "se soltou" já, em inúmeros aspectos, por completo, de uma longa e até há pouco, aparentemente sólida tradição de Humanismo e de Inteligência que nos habituámos a reconhecer, de um modo ou de outro, como nossa--a grande tradição cultural de raiz greco-latina que gerou a máquina a vapor ou, no caso português, por exemplo, o comércio mundial das especiarias mas sem por isso ter deixado de possuir vitalidade intrínseca para, de passo, gerar também Homero, Platão, Aristóteles, Dante, Miguel Ângelo, Da Vinci ou Camões, entre tantos outros...

[Imagem extraída com vénia de didaxisvisual.files.wordpress.com]

sexta-feira, 1 de maio de 2009

"Candice--a bela Candice!--em "Soldier Blue" de Ralph Nelson"

À esquerda: Peter Strauss, "Honus Gant".

""Soldier Blue" revisitado"


Revi hoje (com o agrado e o encantamento de sempre, aliás!) o "Soldier Blue" de Ralph Nelson.

O pretexto (se pretexto é necessário para rever aquele que é um dos mais estimulantes e generosos filmes que conheço foi o pedido de uma ex-colega para que "volte à escola" com o objectivo de apresentar um ciclo de filmes subordinado ao tema genérico de "questões de género".

Ora, "Soldier Blue" é, entre outras coisas, uma "comédia sexual" também.

Como esse outro inesquecível clássico, "Rio Bravo", de Hawks.

O grande mérito deste Nelson (como o de Hawks, de resto) é o de terem, um e outro, sabido com assinalável embora algo distinta mestria (Hawks foi um génio do Cinema) "encaixar" a "comédia sexual" no contexto de temáticas de evidente seriedade--maior seriedade a de Nelson.

Nelson que faz aqui o filme.

Atrás falei de méritos distintos em Hawks e no realizador deste "Soldier Blue". Quis sobretudo dizer que este foi sempre um realizador desigual em qualidade(s), é aliás isso mesmo que o separa de Hawks que raras vezes terá ao longo da sua notável carreira de ser, ao menos, sólido e cinematograficamente respeitável e consistente.

No caso destes filmes, porém, a diferença nota-se pouco porque Nelson foi, aqui, de facto, brilhante ainda quando as temáticas e o modo como aqui-e-ali as aborda possuam uma marca "de época" imediatamente reconhecível: o modo muito "soissantard" como equaciona o motivo do retorno à natureza, por exemplo.

Se é certo que o filme começa com um massacre praticado por índios, a imagem que Nelson dá da aldeia destes e do modo como se relacionam entre si (quase?) como poderiam fazê-lo os habitantes de uma cidade europeia qualquer remete para uma certa ideia implícita de "bon sauvagisme" segundo a qual as relações entre os seres humanos see degradam na razão inversa do modo como se vão "civilizando".

A maneira como o chefe "Spotted Wolf" renuncia com uma tolerância e um cavalheirismo dificilmente imagináveis à "squaw" branca, Cresta Maribelle Lee, quando a descobre apaixonada por Gant tem, a meu ver, subtilmente inscrita "nos genes" uma cultura de liberalismo e tolerância sexual muito "west coast" de '60 que, vista, porém, de uma certa perspectiva fabular ou apologal que o filme tem, acaba por se aceitar embora persista, a meu ver, um certo admissível desequilíbrio objectual de registo entre a "primeira" (divertidíssima--um verdadeiro achado, no âmbitpo específico da referida "comédia sexual"!) e a "segunda" onde, por vezes, a tentação excessivamente "demonstrativista" (questionar e "descrever significadamente" a guerra do Vietname) conduz Nelson a simplificações e esquematismos um tudo-nada "fora de tom" inteligentemente divertido do início.

Globalmente, porém, insisto, o filme funciona excepcionalmente bem com um Peter Strauss (que nunca foi exactamente uma "estrela") a dar excelente conta do recado mas, sobretudo, uma Candice Bergen explosiva, seminal, prodigiosamente eficaz.


[Na imagem: sequência inicial de "Soldier Blue" de Ralph Nelson]

O 25 de Abril quer houve e o que DEVIA ter havido..."


Esta 'entrada' do "Quisto" é especialmente dedicada a Otelo Saraiva de Carvalho


Duas observações, duas avaliações altamente "significadas" sobre a realidade nacional vão hoje, aqui, servir-nos, por absurdo, de ponto de partida para umas quantas reflexões pessoais sobre aquela mesma realidade: sobre, em todo o caso, uma certa realidade nacional ainda recente, origem (sob inúmeros aspectos, frustre) de muito do que (não!) somos hoje como sociedade.

Refiro-me especificamente a duas das muitas que vejo continuamente expendidas na imprensa burguesa actual; duas avaliações, no fundo análogas, na (chamar-lhe-ia eu:) brutal incompreensão que partilham relativamente ao que considero serem os nossos naturais interesses como sociedade e como nação: uma dessas 'coisas' é uma observação de José Miguel Júdice (uma observação que, sendo uma única frase, é, apesar disso, todo um modo de "ver" o mundo e até, sem grande esforço, todo um "programa" social e político que lhe está, queiramo-lo ou não, lá subtentendido); outra um dificilmente qualificável (dificilmente entendível, lhe chamei, num protesto formal que enviei ao director do jornal onde foi publicado) texto de Rui Moreira, inserto no "Público" de 27.04.09 sob o título de "Tudo bons rapazes

Vale a pena acrescentar que todo o texto, vindo a lume dois dias apenas sobre o completamento de três décadas e meia sobre o 25 de Abril de '74 (e inserido, suponho, nas respectivas... comemorações) é uma longa e ácida objurgatória contra duas das figuras (outra vez: queiramo-lo ou não) emblemáticas desse momento marcante da nossa História colectiva recente: Rosa Coutinho (o ódio de estimação da comunidade "pied noir" portuguesa da década de '70...) e, sobretudo, Otelo Saraiva de Carvalho, de uma forma ou de outra, a alma do próprio 25 de Abril.

Bom mas comecemos a nossa própria análise (não tanto, esclareço desde já, das frases e das opiniões ou avaliações citadas mas realmente da circunstância económica, social e política a que elas, uma em particular, para--sejamos benévolos!...--para a criticarem, se reportam); mas comecemos, dizia, a nossa análise pela frase de Júdice: frase seca, lacónica, "conclusiva" (um inglês diria a propósito: "matter-of-factly final") supostamente doutoral, deixada cair "comme par hasard" no contexto de uma série de reflexões que não vêm, aliás, aqui ao caso: deixada cair, pois, dizia, como se fosse algo de definitivo e inquestionável--e para quê, com efeito, deter-nos sobre coisas inquestionáveis?).

A frase a que me reporto fala de um determinado político, ex-comunista que, como seria de esperar, Júdice acha hoje "curado" do (e cito) "esquerdismo institucional e bacoco que dominou os muitos anos (?) que se seguiram ao 25 de Abril".

Contraponhamos-lhe o texto de Moreira.

Um texto, no mínimo, curioso onde, como digo, todos os males de "Abril" aparecem (vá-se lá saber por quê!) centrados nas duas figuras históricas atrás citadas: um, hoje-por-hoje quase esquecido, Rosa Coutinho (experimentem, por exemplo, perguntar às gerações mais jovens quem foi e o que fez...

É certo que essa experiênciaque, nada diz em si mesma de verdadeiramente essencial sobre o bem ou o mal a que a figura do Almirante Rosa Coutinho possa estar, directa e causalmente, associada mas a verdade é que também não ajuda minimamente a perceber por quê o Almirante e não outro qualquer...); o outro, Otelo, Otelo Saraiva de Carvalho, uma das mais desconcertantes (que não mais in-significantes nem--longe disso!--para o--muito!--bem e, com certeza, para o--algum--mal dispensáveis e ignoráveis) figuras, primeiro do golpe propriamente (sabemos hoje que, sem Otelo, não teria havido "Abril" e é isso o que provavelmente incomoda muita gente ainda hoje...) e, em seguida, da própria Revolução: interessantíssima figura de homem contraditoriamente activo e politicamente ingénuo--ele próprio por diversas vezes, o admitiu--generoso, cândido, corajoso, impulsivo, interventor, a dado passo central, "sem mapas", como diria Graham Greene, numa História que lhe chegou "às mãos" de repente, literalmente em processo de ser feita e de ser feita "sem manual de instruções") Otelo despertou, como se sabe, reacções e sentimentos radicalmente opostos, numa sociedade onde o esclarecimento político e uma consistente cultura cívica eram--e continuam a ser!--autênticas raridades.

O texto de Moreira é, de resto, a prova talvez mais recente de que, trinta e cinco anos (!) após o 25 de Abril não se esgotaram ainda as reacções de intolerância e de puro ressentimento que a sua participação no complexíssimo processo revolucionário (que, não por acaso, aliás, ficou até hoje asociado à expressão "em curso", sublinhando o modo como, na circunstância, a História ia "brotando tão torrencial quanto imprevisivelmente... da própria História" e em, tempo real) não deixou de despertar.

Mas o que me interessava aqui relevar, citando as duas (negativíssimas!) apreciações do 25 de Abril que ficam atrás... exaradas é o modo como efectivamente (chamemos-lhe:) "um certo Portugal" nunca percebeu "what April was all about", como diria, outra vez, um inglês.

Ou tê-lo-á percebido até bem demais, também pode ser isso...

Terá, nesse caso, percebido bem demais aquilo que foi mas, sobretudo, terá temido (e nunca perdoado o temor sentido--parece-me francamente que o problema é, sobretudo, esse!) aquilo que poderia ter sido esse crucial momento da nossa História recente.

É que se, com efeito, para aquele "certo Portugal" o 25 de Abril poderia ter sido a tal maneira radicalmente nova de recomeçar a portugalidade ou refundar a nacionalidade com que muitos de nós sonhámos mas isso (que pareceu, a dado passo, estar prestes a ocorrer) não correspondia ao "25 de Abril" daquele tal "certo Portugal"; é que, dizia, se ameaçou poder sê-lo, nunca efectivamente o foi.

Lamentam-no os que sonharam que pudesse tê-lo sido; não o lamenta o "tal Portugal" que se assustou quando a "História pareceu, num dado momento, ir atrever-se a mudar sem "pedir licença" àqueles que até aí (de facto até hoje) se tinham e têm na conta de seus legítimos... "proprietários".

E o que podia a História ter sido--ter começado a ser-em '74 que não chegou, porém, a ser?

'74 é o ano das "comissões". Por toda a parte, a toda a hora, elas surgiram--das de moradores (algumas das quais, ainda hoje, mais ou menos formalmente existem) às de utentes dos serviços, por exemplo, de saúde; das de estudantes às de inquilinos ao ritmo das necessidades da intervenção cívica, determinadas pela aspiração dos grupos sociais a formas operativas e realmente intervenientes e autónomas de organização.

Qualquer actividade, a dado momento, gerou a sua ou as suas.

"Sovietes" para muitos (lá está o tal medo do tal "certo Portugal" de que atrás falávamos perante a imperdoável ameaça da refundação da sociedade que nunca chegou a haver...) elas foram, entre muitas outras coisas, uma fugacíssima mas potencialmente inestimável escola de organização popular e, cumulativamente uma não menos inestimável (e essa menos gorada) de líderes cívicos contrariando o absurdo "mito" de que hoje temos, como nação bons políticos (!) aos quais temos de pagar bem exactamente porque são bons (?) e, ainda por cima, escassos (??).

Mas, o "Portugal das comissões" foi, sobretudo (não o "soviete" que o "Portugal caviar e reformista" sempre temeu) mas o embrião vivo de um Portugal socialmente desperto e civicamente estruturado que é como quem diz: o germe de uma opinião pública e de uma Cidadania efectivamente actuantes e verdadeiramente nacionais, isto é, envolvendo (comprometendo, "engaging") activamente a totalidade do corpo nacional.

O núcleo de uma organização que não se substituísse ao poder (e que, por isso, nada tinha de "soviético" ou "leninista") mas que dialogasse organizada (eu diria mesmo: que dialogasse organicamente) com o poder tendo antes gerado responsavelmente esse mesmo poder.

Foi isso que faltou--foi isso que foi, de facto, cortado cerce de entre as diversas hipóteses que a História tinha de se resolver a si própria em '74 e parte de '75 em Novembro deste último ano--a Portugal na circunstância: a capacidade ou o esclarecimento para consolidar, primeiro, social e, em seguida, politicamente o difícil parto desse Portugal--e aqui eu devo dizer que pessoalmente penso que, com todas as suas contradições e limitações e com toda a sua (de resto, confessa!) candura ideológica e política, Otelo Saraiva de Carvalho fez, conscientemente ou ser ter tido a completa noção do que estava a tentar fazer, quanto pôde para que tal desiderato; para que tal projecto nacional se concretizasse e daí o lugar que ocupa no meu respeito pessoal, sem dúvida mas, também e sobretudo, na própria História (na real como na que nunca chegou a existir) de um Portugal contemporâneo que as elites económico-políticas desejavam que se "reformasse" numa série de aspectos inessencialmente "funcionais" mas, em caso algum, que mudasse efectivamente.

As "elites" em causa tinham, para Portugal, um projecto (o que chamo um "25 de Abril funcional") que a Revolução interrompeu durante mais de um ano.

Durante não mais do que um ano.

É preciso dizê-lo com toda a clareza: as elites económico-financeiras internas, os chamados "liberais", em '74 estão fartos de salazarismo.

Querem mudanças mas mudanças, insisto, meramente funcionais: querem mercados abertos; querem, por isso, que o corporativismo, que lhes veda o acesso efectivo ao mercado (e porque lho veda) seja formalmente extinto e (não hesito um instante em dizê-lo!) substituído por formas não-juridicamente impostas , por foramas... "democráticas" de controlo económico-financeiro e social-político objectivamente decorrentes da sua capacidade para se apropriarem na prática desse mesmo mercado e de conservá-lo, a partir daí, sólida mas de modo não juridicamente imposto dele; querem, pois, que a sociedade portuguesa adopte como "as outras" formas incomparavelmente mais sofisticadas de (porém em nada menos firme do que o anterior!) controlo no âmbito da redistribuição social da riqueza assim como dos mecanismos políticos que impedem que essa situação se altere no essencial; querem, numa palavra, que a organização social não se altere embora a política possa mudar exteriormente mas, precisamente, apenas para obstar a que a 'outra', a que lhes interessa, mude.

Querem uma "democracia" que mantenha o paradigma económico-financeiro e social (as relações de produção) "solidamente ligadas à História", "firmemente atarrachadas a ela"; uma "democracia" que seja o instrumento político electivo da "economia" (uma economia com uma "democracia" a toda a volta), a "justificação" política definitiva de ela não mudar--sendo que (supremo sofisma) sonham, pois, com uma "democracia" que seja, afinal, o argumento supremo da "economia" que ela pode invocar para que tudo se mantenha, no (in) essencial, como essa economia deseja e para que a História não mude.

Uma "democracia" que explique sempre de forma genericamente acreditável à comunidade por que "exacta" razão a História NÃO pode, em caso algum, mudar...

Por isso, esta visão da "democracia" como um "entrave ideal" à mudança (que triufa em Novembro de '75) se dá tão mal com aqueles que, bem ou mal, habilmente ou de forma, por vezes, canhestra e irrealista sonharam para "Abril" com mudanças reais.

São dois paradigmas radical, polarmente, opostos, esses o dos que pretendiam (com grande dose de idealismo, inocência e alguma--óbvia!--falta de "jeito") mudar a Histórias e os que apenas pretendiam (como dizer?) "limpar as paredes exteriores a essa mesma História" conservando, todavia, os compartimentos interiores (onde agora inham assento) intactos.

Por isso, se permitem hoje vingar-se do medo que tiveram e por isso Abril lhes parece "bacoco"...

Pois...


[Imagem representando "La Liberté Guidant Le Peuple" de Eugene Delacroix, extraída com vénia de picasa.google.com]