domingo, 15 de março de 2009

"La Grande Illusion" de Jean Renoir

Configura um verdadeiro truísmo dizer que se trata de um dos poucos filmes que pode legitimamente aspirar aos qualificativos invejáveis de "definitivo" "imortal" e "único", na História do Cinema de todos os tempos.
Escassos outros haverá, com efeito, tão modelar e tão emblematicamente nacionais (tão paradigmaticamente francês, no caso vertente) e, ao mesmo tempo, universal e prodigiosamente humanista e tolerante, desprovido, pois, do mínimo ponto de contacto com qualquer ideia--mesmo apenas remota e secundária--de chauvinismo e/ou de sempre perverso "nacionalismo".

Vendo-o, percebem-se sem dificuldade os motivos pelos quais Vichy e os nazis o odiaram: nele, com efeito, tudo transpira ou ressuma pacifismo mas um pacifismo viril, digno e profundamente lúcido, indelevelmente marcado pela ideia, sempre muito clara e muito viva, de uma genuína solidariedade entre os homens (e mulheres!) de todas as nacionalidades e até de todas as cores ou raças (há, no filme, de facto, entre os franceses, um negro que com os restantes personagens partilha do "projecto" genuinamente popular e natural de resistência à brutalidade e à desumanidade aqui simbolizadas pela guerra enquanto facto histórico, social e político des/estruturalmente dissolutor e intrinsecamente desumanizante).

Além desse aspecto, de algum modo (como dizer?) mais interventivamente "para-teórico" ou até 'ideológico' e mesmo (quase?) militante, o (belíssimo!) filme de Renoir constitui também (algo que partilha, de resto, com essa outra obra-prima absoluta do mesmo realizador que é o também genial "La Règle de Jeu") uma lúcida reflexão sobre a História, designadamente sobre o fim de toda uma 'era civilizacional' representada pelos aristocratas Boeldieu--que significativa (e resignada--quase?--ritualmente) se "suicida", sacrificando-se pela "nova França" ou pela "nova Europa" que surge das ruínas da "velha ordem"--e pela personagem fabulosamente re/criada por esse verdadeiro «monstro sagrado do Cinema» que foi o truculento e desmesurado Eric von Stroheim (a truculência, aqui, aparece soberbamente caldeada com uma contenção e um fatalismo tragicamente ritualizados) e a ascensão de uma outra classe que vem definitivamente substitui-la (para o bem e para o mal implícitos nas múltiplas contradições--e dilacerações, individuais e colectivas!--que o processo traz consigo) na "propriedade" e na condução modernas da História.

Sem deixar de glorificar a necessidade (premente, central, essencial, repito!) da solidariedade e do humanismo na relação entre as pessoas e os povos, o filme não deixa de, apesar disso e de um modo, aliás, sempre muito inteligente e esclarecido que começa no próprio título, reflectir sobre as vicissitudes e a contínua falibilidade da lucidez histórica e política, algo, com efeito, afinal, tão frágil e vulnerável que faz com que, aquela que terá, de algum modo, começado por ser a grande esperança de um certo mundo económico, social e político moderno de ver (e de organizar!) a relação entre as pessoas e, de um modo mais amplo e genérico, entre as nações (envolvendo especificamente a ideia de uma guerra final que acabasse com todas as restantes) acabaria, afinal, por se revelar, em última instância, o enorme fracasso (ou "grande ilusão") de que fala o título do filme.

Neste e no âmbito especificamente cinematográfico, Gabin está perfeito no seu "Maréchal" tão humano e tão caracteristicamente parisiense; Pierre Fresnay com uma composição extremamente digna, sóbria e eficacíssima não desmerece--longe disso!--dos restantes; Dita Parlo compõe com extrema eficiência a figura humaníssima da mulher que a guerra deixa na situação da mais completa solidão e vulnerabilidade mas von Stroheim, no prussiano cujo corpo em ruínas carrega consigo um espírito tragicamente desencantado, não menos mutilado e sem esperança que se sabe antecipadamente morto está, como disse, incrivelmente próximo da perfeição.

Verdadeiramente fabuloso!

"A Star Is Born" de George Cukor


Não é, nem de perto nem de longe (para mim, pelo menos) "O" Cukor.

É, ainda assim, um melodrama globalmente eficaz (mau grado o evidente esquematismo de algumas das personagens assim como das situações, de uma maneira geral) e onde avulta um actor, realmente notável, soberbo mesmo: James Mason.

"O homem que as mulheres mais amavam detestar" (ou "detestavam amar"?... Talvez seja mais a primeira...) era, efectivamente, um actor extremamente versátil que, no cinema, sendo sobretudo um "vilão", foi nesse registo praticamente tudo, desde o pedófilo compulsivo e suicida de "Lolita" (passado, aliás, na televisão em "sessão dupla" com este "A Star Is Born") ao cavaleiro negro de "Ivanhoe" de Thorpe sem esquecer o muito "balcanicamente sinistro" "Rupert Hentzau" de "The Prisoner of Zenda", igualmente de Thorpe.)
Aqui, dá uma "performance" verdadeiramente inesquecível, exemplar, de contenção (e de explosiva tensão) onde transmite, com uma eficiência por vezes de facto genial, a pungente sugestão de imaturidade e apetite pela morte que faz com que o seu "Norman" tome, praticamente desde o início conta do filme, "roubando-o" a partir daí definitivamente, a todas as restantes personagens (onde se inclui, por exemplo, um solidíssimo Charles Bickford no papel do director do estúdio, amigo de "Esther" e "Norman" de quem faz, aliás, no fim do filme, o sentido "elogio fúnebre").

Na película de Cukor, a Garland, a "co-star" (que não seria propriamente uma actriz) compete canta, dar as réplicas e não desmerecer globalmente («batendo» quase sempre, no entanto, muito num registo... "un peu trop" melodramático, aliás, muito característico seu) no interior de um filme que--poderíamos seguramente pôr a questão deste modo, sumarizando o seu peso relativamente menos relevante na História do Cinema e mesmo no contexto da obra de Cukor, sobreviveu com elegância e algum brio a si mesmo, pela música (para quem gosta do género...) mas, repito, para os cinéfilos, muito em especial pelo trabalho realmnte brilhante de Mason.

Da "Sessão Dupla" da RTP, do dia 14, há a dizer, desde logo, que, mais uma vez, a RTP, a televisão dita «pública», não teve qualquer pejo em passar apenas a parte central (para aí um terço ou pouco mais do total!) de um filme cujas "bandas" optou por mandar, pois, pura e simplesmente "para o lixo", burlando o espectador ao vender-lhe um "produto" grosseiramente "avariado" que é como quem diz: ao vender-lhe, com o despudor que caracteriza o modo como trata quase invariavelmente o Cinema (em casos como, por outro exemplo, "O Leopardo" de Visconti a prática converte-se facilmente em crime de lesa-Arte...) "gato por lebre".

A juntar a isso, essa outra prática (não menos característica e invariável, aliás!) de "chutar" tudo o que não seja "telenovela" ou "concursata" bacoca para as "frias madrugadas" que, no caso vertente, por acaso, até era uma anormalmente quente para a época (a exibição do filme terminou já passava das quatro da madrugada!...) o que quer, seguramente dizer alguma coisa sobre o grau de cultura da gente que por lá anda a trabalhar na programação e organização do tal "serviço" dito, então, «público»...

quinta-feira, 12 de março de 2009

"A minha «paixão proibida» revisitada"


Eu já o disse, no blog do meu Amigo "Sou de um Clube Lutador" mas vou repeti-lo aqui: acho que o Benfica e o Rui Costa cometeram um erro tremendo ao aceitarem ficar reféns de um treinador medíocre como é o Sr. Enrique Sanchéz Flores, vulgo 'Quique' das ditas.

O Benfica foi, também já o disse, por diversas vezes estrategicamente "refundado"--e quase sempre com sucesso.

Tê-lo-á começado por ser quando o Sporting "nos" veio "roubar" aquela que seria, por sua vez, a primeira grande vedeta do futebol nacional, o Artur José Pereira, ganho para a "causa" verde por uma tina de água quente, rezam as crónicas--e com ele seguiu parte da equipa, obrigando o Cosme Damião a fazer "das tripas coração" para evitar que o Clube, ainda muito jovem e inseguro, acabasse--ou pouco menos.

Antes, havia sido a "questão do campo" (ou da falta dele--que levaria à fusão do Clube de Benfica com o Sport Lisboa) e depois foram contínuos saltos qualitativos com homens como o húngaro Lipo Hretska (que trouxe consigo conhecimentos preciosos do grande futebol húngaro da época); Ted Smith (com quem entrou em Portugal a preparação física "à inglesa", dos tempos "arqueológicos" do "kick-n' rush", um tipo de preparação que, em Portugal, permitiu fazer de imediato a diferença); Otto Glória (o "Tio Otto", um brasileiro "bom malandro" mas astutíssimo, que profissionalizou o Clube e "construíu" o importantíssimo instrumento de modernização que foi o "Lar do Jogador" que eu tive ainda o privilégio de visitar; Bela Gutmann (que desse esforço tirou o partido que se sabe) e, por fim, uma meia-refundação com Eriksson que ainda levaria um Benfica em óbvio declínio a uma final europeia.

Mas o Benfica não soube aguentar o impacto da abolição da chamada "lei da opção" que permitia aos clubes ficarem proprietários (literalmente proprietários!) dos jogadores que iam, aliás maciçamente, contratando.

Dirigentes astutos teriam percebido que os novos tempos exigiam deles uma perspicácia invulgar a seleccionar e conservar os candidatos que podiam, todavia, agora, escapar-lhes "por entre os dedos", caso não houvesse em cada clube uma "máquina" bem oleada para cativá-los e rentabilizá-los.

Clubes até então "de província" souberam contornar o novo obstáculo com a organização de redes brumosamente transversais de poder que iam das instituições especificamente "futeboleiras" aos municípios e aos lugares onde havia poderio económico e financeiro: construção civil, etc.

Quer dizer: onde antes existira uma legislação leonina que permitia "engolir", "sugar" e fixar em pirâmide tudo quanto era talento futebolístico, fora-se gradualmente estabelecendo uma solidíssima rede de influências subterrâneas que logrou deslocar o eixo dessa bem sucedida tarefa de "sucção" para Norte, organizando aí um monopólio "em escadinha" onde os pequenos trabalhavam para os maiores que, por sua vez, pagavam em diversos graus de influência na partilha global do poder.
Foi o modelo inventado para substituir a prisão legal do "pé-de-obra" futebolístico, sedeado mais a Sul, numa altura em que clubes como o F.C. Porto por mais Cubillas e Flávios que contratassem, saíam, como dizia o Pedroto, da "sua" cidade (que não era, aliás, senão por acaso e adopção, a do próprio Pedroto...) sempre já a perder por 2-0...

Sucede, porém, que em Portugal, o único Clube, a meu ver, potencialmente rentável é ainda e sempre o Benfica.

O Sporting é, hoje-por-hoje, apenas um enorme equívoco e o Porto, por mais que ganhe e faça, nunca deixou, até em razão do modelo truculento e belicoso que escolheu para crescer, de ser um clube, não digo propriamente "regional" (seria injusto e inexacto!) mas seguramente "de região"--senão mesmo realmente "de cidade".

Sucede que, depois do inimaginável "Carna... vale Azevedo", o Benfica não conseguiu com um gestor hábil como é Luís Filipe Vieira tirar total partido da revitalização e redignificação institucional do Clube por esse mesmo Vieira trazida.
E não soube porque Vieira é, realmente, um excelente gestor mas "de gabinete" ou "de secretaria": de futebol não percebe rigorosamente coisa alguma.
É uma pessoa lúcida e hábil, dotada de ambição e visão, é verdade: levou tempo mas acabou por perceber que, se não se rodeasse de quem sabe, o benefício que a sua gestão trouxe no imediato (e trouxe!) corria sério risco de se esgotar a curto ou médio prazo porque a "máquina" sem vitórias emperra inevitavelmente.
A dado passo, pareceu mesmo embriegado pelo poder, gerindo o Clube como coisa sua, contratando e despedindo treinadores e jogadores como se o Benfica fosse a colectividade do bairro que obviamente não é mas cedo percebeu que assim "não dava" mesmo e acabou, como disse, por arrepiar caminho.

E veio Rui Costa.

O Clube parecia, finalmente, a dois passos de mais uma "refundação" ou salto qualitativo porque agora havia gente tecnicamente boa nos lugares-chave.

Ou parecia haver...

Porque Rui Costa inaugurou, de facto, o seu "consulado" com uma série difícil de entender de equívocos: foi o "caso" (o falhanço da re/contratação de) Eriksson; foi a fantasia Queiroz (que já vai sendo tempo de se perceber de vez que é, sobretudo, uma ficção que muito poucos se atrevem porém, por várias razões todas elas remetendo exclusivamente para o passado, ainda hoje a expor) e foi, por fim, o 'capricho «Quique» Flores' ao qual Rui Costa inexplicavelmente continua, mau grado os contínuos falhanços de objectivo, a obstinar-se em hipotecar o futuro do Clube.

Ora, a verdade é que Flores é tudo menos o homem certo para "refundar" o Benfica com Vieira e o próprio Rui Costa: é por natureza (tem-no amplamente demonstrado!) um treinador típico de clube pequeno, sem ideias nem a visão táctica e estratégica que o momento um Clube como o Benfica exige.

Compará-lo, por exemplo, a Mourinho só por troça.

A Camacho, sim, com certeza: Flores é mesmo, em meu entender, em última análise, isso mesmo, isto é, um Camacho um tudo-nada mais sofisticado.
Tudo indica que será mais uma "baixa" a prazo de uma suposta "maldição" benfiquista que não tem, porém, nada que ver com azar e tem, sim, tudo a ver com uma série de péssimas opções em matéria de selecção de pessoal técnico, uma "selecção" que engloba nomes que vão de um inimaginável Ebbe Skovdahl (alguém sabe quem é ou quem foi?); passando por um dificilmente descritível Graham Sounness (uma nulidade como "técnico" de futebol! Onde anda ele hoje??!! Que clube treina??!!); por um cinzento, limitadíssimo, globalmente medíocre Fernando Santos; por um pura e simplesmente inexistente Ronald Koeman; a um Camacho cuja maior (ou cuja única?...) "qualificação" para o cargo era a de ter passado férias no Verão com o presidente...

Perante "casos" como estes, como é possível alguém falar de "maldição"??!!

Incompetência, isso sim, com certeza--e muita!

Tudo isto é sabido.
A única coisa que surpreende é que no contexto desta inépcia toda, o nome de Rui Costa comece a ser cada vez mais insistentemente mencionado.

Rui Costa??

Como é possível???


[Na fotografia--aliás repetida, aqui no blog--um grupo de jogadores do Benfica onde se inclui o "Diamante" este ano contratado e quase mediatamente após "encostado" por se ter atrevido a reafirmar aquilo que qualquer benfiquista sério e a sério sabe, diz e deseja: que a equipa de futebol não pode contentar-se em achar que "já não é nada mau" empatar com o Sporting em casa...
Mas o "Diamante", claro, conhece por dentro a mística e a cultura do benfiquismo--o que não manifestamente acontece com alguns outros...
Nota: na foto, tirada no velho Estádio da Luz, o "Diamante" é o segundo a contar da direita, entre o Chalana e o malogrado 'Manel' Bento]

"A Origem da Vida"

Falo aqui especificamente do quadro de Courbet (Courbet, senhora jornalista do "Público", não "Coubert"...)
Falo dele a partir de um texto de Pedro Mexia, igualmente vindo a lume no "Público" (que é que querem que eu faça, que eu leia? Não há mais nenhum!!...)
Não sei muito bem (humildemente o confesso!) quem é exactamente este Pedro Mexia que, dizem-me alguns, é escritor.
Seja! Bom proveito lhe faça: não são o Rodrigues dos Santos e o Guedes de Carvalho "escritores"? Então?...
De qualquer modo é a partir de um texto daquele, do Mexia, que retomo aqui a "polémica questão" do Courbet e da sua "Origem da Vida".
Ao que parece o quadro era mesmo para ser "pornografia".
'Isto da' pornografia tem, aliás, 'que se lhe diga'. A pornografia de ontem não é a de hoje e muuuuito provavelmente há-de pouco ou nada ter em comum com a de amanhã.
Se houver "amanhã", claro o que está muito longe de ser coisa garantida mas enfim...

Essa é outra questão...

A que pretendo levantar, aqui, agora, é a questão 'teórica' da "essência (im?) possível" da pornografia.
O quadro do Courbet tê-lo-á sido numa época de "proibição" rigorosa e oficial do corpo, uma época cultural (e cultual!) em que a 'suspensão'--senão mesmo a declarada "ilegalização" (ditas, uma e outra, "estruturais" ou "naturais")--deste eram dados genericamente adquiridos e globalmente «pacíficos».
Romper ("violar"!) através da emergência irrecusável (da emergência ou da evidência "brutal": "brutalmente irrecusável"!) dos factos a "barreira de segurança" constituída por tal tácita proibição era (podia ser precisamente na medida em que inquietava e perturbava "tudo", isto é, na medida em que induzia a--quase?--«urgência sensível» de uma reflexão autónoma, individual sobre "tudo", uma reflexão para mais totalmente desapoiada pela inércia tranquilizadora de um qualquer «catecismo» ou simplesmente da in/acção crítica "pura" das massas); proceder deste modo, dizia, era por tudo quanto disse, "pornografia".
A Cultura «ocidental» ("a-cidental"?) sempre, de algum modo, se caracterizou precisamente por usar as ideias (ou a "sugestão" abstracta delas na forma inteleccionalmente espúria de 'convicções') como uma protecção e uma arma contra os factos--no limite, contra o próprio Conhecimento como tal ou como possibilidade teórica de si.
Para mim, um dos mais importantes pensadores (dos mais lucidamente representativos, em todo o caso) do «Ocidente» é, não por acaso, Zenão de Eleia, o filósofo das aporias, da seta que teoricamente nunca chega ao destino e por aí adiante...
O catolicismo, uma vez completo como «objecto canónico» erigiu a agnosia (melhor: a semântica, no limite--"en fin de partie", como diria Beckett!) em "religião do oficial do Estado".

Dos Estados.

Se os factos (a factualidade objectual em redor) perturba(m), teorizam-se uns e outra continuamente (literalmente!) até ao infinito: algures na labiríntica geometria de uma hábil infinitamente reticular teorização há-de idealmente perder-se a própria noção possível de facto e, com ela (Deus seja louvado!) a necessidade, de algum modo, imperiosa mas sempre fatalmente inquietante, mortífera, da experiência...

Sade, por exemplo, foi "pornógrafo"?

Sade foi um dos mais lúcidos e brilhantes escritores do "Ocidente", um "Swift total", "seminal" (façam a experiência de ler, por exemplo--mas de ler sem ideias pré-concebidas!--toda a primeira parte da "Justine", esse "Candide" escrito "da cintura para baixo" que era a parte que faltava ao clássico voltaireano...) que elevou premonitoriamente o experimentalismo quase puramente "teórico" do 'iluminismo' ("salvaram-se" Rousseau, "algum Diderot" e pouco mais...) ao estatuto existencial ou (auto) dilacerantemente existencializado de "Conhecimento".

Antecipou, de golpe, Freud e Antonin Artaud.

Kafka e Charles Bukowski ou mais obviamente Jean Genêt.

Pasolini, Burroughs, Virginia Wolf e Joyce.

Numa palavra: foi maldito porque não soube parar.

Ora, a pornografia é, num certo sentido, precisamente "não saber parar".
Para o bem e para o mal (eu não disse "Bem" e "Mal", ham?! Disse só "bem" e "mal" que é muito diferente, entendamo-nos).
Uma "novela" da TVI ou uma "homilia" dominical de Marcelo Rebelo de Sousa são evidentemente (im) puríssima, verdadeiramente sórdida, pornografia; como, todavia, se limitam a ecoar de forma mecânica e infinitesimamente pormenorizada a imoralidade (im) puramente tácita e completamente animal das massas em redor, ninguém percebe e ninguém descobre que o são.
Outro tanto se passa, aliás, com os artigos "de opinião" de "ex-fascistas encartados" que acordaram, uma manhã, de repente "socialistas"--e subitamente inteligentes "par dessus le marché"...
...Ou com a solidariedade viscosa e moralmente tóxica dos falsos engenheiros e dos falsíssimos democratas em geral que os acolhem ternamente "em seu seio".
No que comummente se chama "pornografia" o que há de pornográfico (sem aspas: sem "ásperas", como diz uma vizinha minha...) nada tem, ao contrário do que defendem os hipócritas e os polícias de Braga, de especificamente sexual: o que há de pornográfico na "pornografia" (agora com aspas...) comum é o "ideal" de colonização de uma sexualidade por outra e de um dos sexos formais ou oficiais pelo outro.

Apenas isso.

Ou quase apenas isso: o resto é má qualidade narrativa, miséria plástica, indigência intelectual, etc.
Mas isso não é (nem de longe!) um exclusivo da vida sexual das formigas (das formigas morais e políticas, pelo menos) que somos.
Há-o (e de que maneira! Em que escandalosa profusão!) volto a dizer, nas lucubrações pantanosas dos tais ex-fascistas, por exemplo.

Ou num cachorro da Murk Donald's, para não irmos mais longe.
A pornografia é fazer das mulheres instrumento no sexo e do sexo instrumento nas "novelas".

Mas eu prometi que ia abordar o tema (a "questão": já repararam como a palavra questão tende a tornar-se uma palavra-chave numa certa semântica fascista típica? A "questão judaica"--eu não morro propriamente de amores pelos judeus mas por outras razões que não uma sua suposta inferioridade natural"...-- a "questão homossexual", "a questão feminina", etc. etc.); eu prometi, dizia, que ia abordar o tema a partir do texto de Pedro Mexia.
Que, no seu artigo, defende expressamente a natureza objectiva (e subjectivamente!) 'pornográfica' da obra de Courbet.
Diz ele (ensina ele!) que foi comprada por não sei quem que a pendurou não sei onde para fazer não-sei-o-quê com ela e por aí fora.

Pornografia, portanto.

Ora, já vimos como tudo isto é escorregadio e equívoco.

A pornografia na tela de Courbet está, como comecei por dizer, "in the eyes of the cultu(r)al beholder"--que Mexia também, claro, é.
É que ela está sempre, aliás.
Aí, isto é: nos fantasmas e tabus de cada um.
Quando o século XIX deixou, no caso vertente, por acção de um tal Courbet, de poder esconder a sua sensualidade numa "redoma teórica de segurança" chamada "Arte", reforçada por uma outra ainda mais aridamente abstractizante e teórica chamada "catecismo" ou mesmo "funcionalidade", deu de súbito consigo de caras, perigosamente nu e desprotegido perante a evidência aterradora dos «objectos» avulsos da Arte e/ou da funcionalidade como tal da "condição" (dita) humana e viu-se cada um na necessidade cada vez mais incontornável de formular um ponto de vista completamente autónomo e independente sobre eles.
A solução foi gritar "Pornografia! Pornografia!" até ficar (até ficar tudo em volta!) ideal (e literalmente!) surdo.
Neste sentido preciso, a pornografia é, pois, a sucessora, a "herdeira conceptiva" dilecta e legítima (mas também a cúmplice secreta!) da agnosia e da própria virtude, vista esta como a expressão atópica pura do zero crítico perfeito.
A virtude, aqui, é não pensar.
Para isso, que tal "pensar"?
"Semantizar".
Diluir-se idealmente numa onto-semântica onde tudo regresse ordeiramente aos seus lugares.
Deus ausentou-se por breves instantes?
"No problemo", como dizia o conhecido hominídeo ex-austríaco: invoca-se-lhe o Santo Nome por delicioso absurdo... na farda de um flic.
Às vezes, basta, até, para muitos, um simples... 'Flic' La Féria...

quarta-feira, 11 de março de 2009

"Vou ser... tio!"

Ah! É verdade! Vou ser Tio. De uma Sara ou de um Guilherme. Filho ou filha do Ricardo e da Cláudia a quem mando daqui, desde já, um beijinho.
E vejam lá se se despacham a pôr cá deste lado a minha sobrinha ou o meu sobrinho, ham?...
Vejam-me lá isso, pela vossa saúde, ham?!...

"Port Bou"


Se alguém soubesse os momentos verdadeiramente surreais, de puro susto, que eu passei aqui em Port Bou!...

Aqui, neste "God forsaken" cu-de-judas catalão, tive uma lição de vida absolutamente fabulosa vinda de onde eu menos esperava e um primeiro encontro (ou recontro?...) com uma França "negra", o avesso da pátria de Zola (o Zola de "J' Accuse", por exemplo) ou de Sartre (o Sartre activista, contraditório e---generosamente!---«burguês) que fez questão de vir a Portugal em '74, o mesmo que tinha prefaciado "Aden-Arábia" do Henri Alleg contra o colonialismo francês.

Eu e a Mia vínhamos a fugir da guerra, eu nem papéis trazia, tinha um mandato de captura à ordem da Polícia Militar, acreditava piamente que se conseguisse passar de Espanha para o lado francês (tinham-me dito: tenta a Catalunha: «eles» não contam que passes por ...) estava safo.


Afinal...


Afinal, demos uma série incrível de voltas por aquela falésia imensa, aos trambolhões pela serra, às apalpadelas, de cócoras, a tactear o chão, completamente às escuras para, numa volta do caminho, irmos dar de caras com o posto fronteiriço!

Nem me quero lembrar do que me passou pela cabeça nesse instante!

Pensei: "Pronto! Acabou-se! Já me viram! Se tentar voltar para trás, os tipos vêm todos por aí fora atrás de mim. Prendem-me, claro (eu nem papéis tenho!) e amanhã sou entregue à PIDE! Como é que diabo é que eu fui cair nisto, meu Deus??!!

Como é que diabo é que eu ando aqui quase duas horas às voltas imaginando estar a afastar-me do posto, a contorná-lo, a encaminhar-me sempre para França, a entrar em França e acabo por vir cair direitinho nas mãos «deles»??!!"

Sem outra alternativa (era para aí meia-noite, um parzinho a pé na montanha, de mochilas às costas, completamente desorientado relativamente ao local onde se encontra---que há-de fazer num caso daqueles senão entregar-se?)...


...entreguei-me.
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No posto, estavam uns quatro ou cinco Guardas Civis, um deles lia (juro!) uma biografia de Hitler (sinistra coincidência!) e eu entro por ali e declaro: "Vim entregar-me! Sou português, fugitivo da conscrição em Portugal. Estou perdido. Entrego-me"

O oficial espenhol foi absolutamente fabuloso! Depois de me ouvir em silêncio, olhou longamente para nós e apenas me perguntou: "Dá-me a sua palavra de honra de que o único motivo por que aqui está é não querer fazer a guerra?

Garante-me que não roubou nem matou nem vem fugido da polícia civil por ter cometido qualquer crime?"

Claro que lha dei.

Então, ele acrescentou: "Você compreende que eu só mando obviamente deste lado.

Mas se me garante que é verdade que apenas pretende evitar fazer a guerra, vá falar com o comissário francês. A sua companheira fica aqui. Você vá falar com ele, conte-lhe tudo quanto acaba de me contar. Se ele o deixar passar (virando-se para os outros:) "por aqui no ha pasado nadie, ham?"

Fui falar com o francês, um tipo frio, seco, de olhos azuis gélidos (alsaciano?) que, depois de eu lhe contar ao que ia, me respondeu olhando-me fixamente que o dever de um cidadão é obedecer aos chefes e defender a pátria. Se eu havia sido mandado preparar-me para a guerra, a única coisa que tinha de fazer era obedecer e ir para a guerra.

Ele próprio--explicou-me--tinha estado na Argélia a combater a F.N.L.A e tinha muito orgulho nisso...

Respondi-lhe que não pensava como ele e que aquela guerra não fazia, para mim, qualquer sentido. Que não via como meu dever ajudar a oprimir outros povos, que tinha acabado de me formar, que tudo queria era dar aulas, casar, viver em paz comigo próprio e com toda a gente. Que, para mim, defender a pátria era muito mais educá-la ou ajudar a educá-la na paz do que matar ainda que fosse em nome dela (ou de uma certa ideia que não perfilhava) dela.

Respondeu-me sempre olhando-me com o mesmo olhar gelado que me trespassava: "Bon, ça va! Voilà ce qu'on va faire. Je vous done, metons, quinze minutes pour passer, vous et votre femme. Alors je ferai sortir una patrouille et je la commanderai moi-même, ham?...

Ah! Et je tire bien, ham?..."

Fiquei gelado! Pensei que agora é que tudo ia acabar ali: fuga, hipótese de passar, a liberdade! Só pensava: "Chegarei a estar preso ou irei directamente para um quartel qualquer, para uma companhia disciplinar?"


"Et pourtant..."


[Na imagem: a gare de Port Bou onde (como contarei de outra vez, terminando a narrativa que agora deixo intencionalmente incompleta) dormimos, a Mia e eu nessa noite literalmente única, inesquecível...
Num banco corrido de madeira, com um saquinho de pano contendo tudo quanto tínhamos---um rolo com cerca de 19 "contos", uma "fortuna", para a época!---cuidadosamente entalados entre o corpo e as ripas incrivelmente duras do banco, à mistura com ciganos, contrabandistas, vagabundos, etc.
E uma incerteza verdadeiramente arrepiante, devastadora, inimaginável quanto ao dia seguinte...]

"Reformadores!..."

Já agora...
A propósito do "A Propósito" que se segue...

Por causa de "reformadores iluminados" das línguas como aqueles que decretaram o "Acordo" linguístico mais recente, andámos, eu e a Mia, numa célebre madrugada, completamente alucinados, às voltas, por Barcelona, à procura de uma tal "Pucherdá" que devia permitir-nos sair da Catalunha em direcção a Port Bou e a França e que era, afinal... "Puig Cerda".

Só quando, de repente, me lembrei que, em catalão, a sequência "-uig" se pode ler de um modo muito parecido com "uch" (como em alemão em que o "-ig" em final de palavra se lê "ich") e que os acentos podem não estar 'lá' é que percebi que aquele "Puig Cerda" das placas era, afinal, "none other than" o "nosso" "Pucherdá"...

Já quase tínhamos desistido de sair nos havíamos já meio resignado a acabar os nossos dias junto da pátria do Aleixandre e do Gaudì quando tive esta "brainwave" que nos salvou e nos permitiu seguir, para aí duas ou três horas depois de termos partido, em "peregrinatio ad loca infecta" que é como quem diz em "peregrinação" até essa lunar Port Bou onde, como relato noutro local, a sorte nos conduziu um dia, nos já distantes "idos de 70"...


[Nota: A imagem que ilustra esta 'entrada' é da colunata desaxaliazada do Parc Güell]