domingo, 4 de janeiro de 2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
"Uma curiosa comparação"
"Fellow-feeling"
Num tempo de barbárie recrudescida, vale mais do que nunca a pena chamar a atenção (e revalorizar, sempre que possível!) a dissonância, a denúncia da selvajaria, o sarcasmo, a insurgência...Numa palavra: qualquer tentativa de inteligência nas suas múltiplas formas ou modalidades.
['Collage' do titular do blog, anteriormente publicada em "Um Não-Alexandre Onírico"]
"Israel acomete a Faixa de Gaza por terra"
Embora a situação esteja (ainda?) longe de ser clara (ver, por exemplo, "Público online", 'entrada': "Hamas diz ter impedido entrada de forças especiais israelitas em Gaza", com data de 03.01.09) o crime ter-se-á começado a consumar, hoje, dia 3 de Janeiro de 2009, pela tarde, em Portugal!Quem detém estes bandidos?
Quem DETÉM estes criminosos?
O mundo inteiro esteve a dar-lhes tempo para completarem o massacre!
Ainda há instantes, na SKY News, Bianca Jagger falava de uma "catástrofe humanitária" impendente e, genericamente, de uma situação "appalling" em Gaza.
O mundo inteiro, mostrava também a SKY, manifesta-se escandalizado contra a impunidade com que o crime de Estado--o crime COMO Estado e o Estado como crime--se tornou (repugnante!) prática "política"... "estratégica" (não táctica, estratégica!) na região.
E, apesar disso...
Não sei quantas vezes já o disse e quantas mais hei-de voltar a dizê-lo mas a verdade é que quanto mais conheço o sionismo e os sionistas, mais gosto das inocentes e puras bestas da selva...
Não sei quantas vezes já o disse e quantas mais hei-de voltar a dizê-lo mas a verdade é que quanto mais conheço o sionismo e os sionistas, mais gosto das inocentes e puras bestas da selva...

MEU DEUS, MAS QUEM DETÉM ESTES BANDIDOS?
"Liberdade"
I"Sempre" me apresentei (a mim próprio, pelo menos...) como, entre outras coisas igualmente possíveis, "um homem que lê o 'Público'".
Não "um leitor do 'Público'. Não sou "um leitor do 'Público': sou, repito, diferentemente, apenas um homem que o lê.
São coisas substancialmente diferentes.
Leio-o, desde logo (sou "forçado" a lê-lo...) pela simples razão de que 'não há outro jornal' em Portugal actualmente.
O "Correio da Manha" é leitura de 'pied noir' ressentido (e eu nem sequer estive alguma vez em África, tirando, claro, aquela em que fui a Ceuta comprar um blusão azul que, de resto, poucas vezes vesti porque resultou ser uma coisa absolutamente abominável...); o "Diário de Notícias" é sempre demasiado "o jornal da situação" independentemente de qual ela seja e o resto é im/puro lixo com "sabores" diferentes, do "Expresso" (apesar de ser o "órgão oficial" da maior cidade do país, a Néscia Subúrbia cuja pirosa vaidade o jornal sabiamente corteja) ao repelente "24 Horas" (cujo único mérito é lá não escrever o "nosso" Harold Robbins com batatas e grelos, Não-sei-quantos Sousa Tavares).
Mas não leio, por exemplo, o 'Público' "de" Ester Mucznic (uma folha de papel intelectualmente execrável que correspondentemente abomino!) ou o "de" José Miguel Júdice--e, já agora, "de" um insuportavelmente pomposo ex-ministro do actual governo cujo nome não me ocorre--que, aliás, não desmerecem, pelas mais diversas razões (todas as piores!) minimamente dos anterior.
Não leio, de resto, diversos "outros 'Públicos'" de de que, de momento, todavia, não me lembro.
De que tento não me lembrar.
Ou de que não faço o mínimo real esforço para me lembrar.
Estarão, de qualquer modo, do meu ponto de vista pessoal, tal como os que atrás refiro, bem melhor esquecidos.
Ah! Também não leio "o de" Pulido Valente (ou será--não consigo resistir ao(s) óbvios trocadilho(s), desculpem lá!...-- "Poluído Da Mente", "Poluído e Demente", "Poluído da Lente"?--Aquilo é "Eça com feijão branco" a mais para o meu des/gosto, sinceramente.
Pose e Freud em excesso para um 'estômago crítico' delicado como o meu).
Enfim...
Já (às vezes--porque, repito, as alternativas inexistem por completo, hoje-por-hoje, entre nós)leio, por exemplo, "o de" São José Lopes, o de Villaverde Cabral e o Rui Tavares.
Pelo menos, não me envergonho de ser... "apanhado" (quanto mais não seja, por mim próprio...) a lê-los--o que, "all things considered"...) já é seguramente alguma coisa...
No "de" Rui Tavares, li, recentemente, um texto sobre a "estrutura" ou a "essência" da Liberdade.
E gostei, confesso. Nada do que lá se diz é especialmente original ou profundo.
Tem, todavia, uma qualidade inestimável: é verdade!
A liberdade é uma 'coisa concreta': só existe liberdade concreta. "Para comer", como dizia o Gracq da literatura: "C'est quelque chose à l 'estomac".
Num duplo sentido, aliás: é no estômago que se mede a liberdade das pessoas e das sociedades e (recorrendo a um aforismo, sem dúvida medíocre, mas, pronto, de momento foi o que se pôde arranjar...): "A liberdade, meus senhores, são bifes!"
É ter "qualquer coisa no estômago".
Dito assim "soa mal", claro.
Parece mais uma coisa "pensada" por um fulano como o Dr. Mário Soares dos seus 'bons tempos' ou de alguém "do género": Albarran, José Sócrates por aí.
Mas, como dizia o meu saudoso Tio "Jack", o que conta realmente é o princípio.
II
E agora vou falar "a sério": eu sempre disse que a liberdade é (tem forçosamente de ser, antes e acima de tudo o mais, uma "teoria da realidade".
É mesmo, a meu ver, o modo de representar mais até do que política, cultu(r)almente, a liberdade que separa a "Tradição" da "Pós-Modernicidade", as societações "verticais" ou "verticalizadas" das "horizontais".
Queiramo-lo ou não (leia-se: saibamos ou não percebê-lo) no quer chamo as "societações tradicionais" em geral, a liberdade tendeu sempre a ser, de um modo ou de outro, uma teorização contínua, continuada, sobre a realidade.
Quando não o foi de facto (e não o foi muuuuuitas vezes!) foi-o nas reflexões das elites intelectuais--e inteleccionais o que não é precisamente a mesma coisa mas enfim julgo que se percebe o que eu quero dizer.
Quando se forma o Estado nação (a que pessoalmente sigo preferindo, em todas as circunstâncias, chamar o "Estado consciência") moderno, este assimila, na sua estrutura teórica e institucional, esse modo consistente e tendencialmente orgânico de representar a liberdade.
Conferindo-lhe um fundamento "de episteme" que a pós-modernidade desfez por completo.
A "autoridade", por exemplo (que é, no limite, uma modalidade ou uma mutação da própria liberdade: é-o, seguramente, de um ponto de vista genérico e funcional ou funcionante) possui, no "ancien régime" um fundamento e uma substância teóricos perfeitamente reconhecíveis.
A ideia é: o Conhecimento é um valor em si mesmo. Mais do que uma utilicidade onde imediata ou mesmo apenas mediatamente se esgote, é um valor em si mesmo.
Algo que não precisa de ser demonstrado: a sociedade asenta na base de uma confiança representacional implícita onde as coisas projectam a sua sombra (ou... a sua "luz") representacional de modo perfeitamente suficiente.
Um "doutor" não tem necessariamente de 'saber muito' para seguir sendo "doutor".
Ser "doutor" (ou "arquitecto" ou "engenheiro") é um modo de estar na realidade (social, cultu(r)al) que o ancien régime neo-burguês herdou praticamente intacto da anterior sociedade de títulos.
Entre nós, o salazarismo, a "Academia" salazarista onde eu me formei, por exemplo, conferiu "títulos"... "laicos" desse tipo fora de um qualquer quadro de utilicidade objectual que só começaria a ser equacionado (e mesmo assim só muito embrionária e muito primariamente, de resto) no 'último fascismo', o de Marcello Caetano... e Veiga Simão.
Todo o sistema de fases e diuturnidades, por exemplo, no Ensino, assenta nesse princípio básico segundo o qual a "autoridade" (estritamente técnica mas de um modo mais amplo, social) tem um fundamento específico, objectivo (de facto, subjectivo mas objectivado numa teoria global de rituais e respectivas representações objectivizantes ou objectivadoras).
Em tudo equivalente à dos filhos na casa paterna que era uma espécie de fractal microcósmico da Academia e de tantas outras "circunstâncias" ou "ciorcunstanciações" cultu(r)ais da época.
"Malgré Rousseau" (ou Montessori, à época, entre nós, uma intelectual ainda muito... subversiva--que, de resto, a seu modo, efectrivamente, foi...--e para muitos, suspeita...) criança nasce sem direitos. É amada, claro (quando o é mas enfim, pronto, essa é outra questão...) mas não tem propriamente "direitos", num sentido muito "político" ou "para-político" específico: adquire-os.
Melhor: vão-lhe sendo conferidos.
Como?
À medida que vai atingindo o (ou se vai aproximando do), vai chegando ao; à medida que vai subindo até ao Conhecimento. A "autoridade" (lá está!) tem, pois, um fundamento, uma substância perfeitamente reconhecíveis: o Conhecimento.
Mais precisamente: o reconhecimento soccial (e político!) não da respectiva propriedade porque o Conhecimento no 'ancien régime' (e para ele) não é nunca exactamente uma "propriedade" (o que implica sempre, no limite, um direito em si...) mas muito mais um "empréstimo"excepto, claro, para as grandes elites económicas e financeiras--e políticas!--do 'regime' com as quais, obviamente, a questão do "direito aos direitos" se põe sempre de modo estruturalmente distinto do do vulgo...).
Para o 'ancien régime' o Conhecimento pré-existe ao indivíduo, ao Cidadão. Não se cria e constrói ou "inventa": acha-se, encontra-se, está "lá fora", à espera...
É... "revelado".
O indivíduo apenas ascende a ele.
Há é, como disse, modos "rituais" de reconhecer simbolicamente essa "ascensão".
O meu pai, por exemplo, apontava como metas ou "esquinas" e "ângulos" de um percurso cerimonial em relação à "autioridade", à "liberdade" e à "igualdade" (ao contrário do que muitas vezes se pensa--e até do que ele próprio pensava!--o 'ancien régime' possuía formas muito próprias de representar a "democracia" que, ainda por cima, possuíam "substância teorética" própria, específica, particular...) : a "4ª classe", o "5º" e o "7º anos" do antigo liceu, a enttrada na Universidade, a licenciatura que era o "grau" final dessa "iniciação".
Depois da 4ª classe, tive "direito" à bicicleta; Depois do "5º ano" a uma chave de casa emprestada e a voltar para casa às 10 da noite; depois, do "7º" a voltar para casa às 2 (ia estudar para cafés) e, por fim, quando me licenciei, a ter acesso a algumas realidades "de adulto" como ver os "papéis da casa" e por aí fora...
Depois, quando comecei a leccionar, fui sendo sucessivamente "professor provisório", "efectivo", da "primeira fase", da "segunda", com uma, duas, três "diuturnidades" e por aí fora: fui tendo assento em cada vez mais conselhos escolares e a ser chamado "sr. dr." pelos directores das escolas, enfim...
Ora, a meu ver, o que (des) faz a pós-modernidade é precisamente esta necessidade implícita, "ingrained", de fundamentar e substanciar simbológica , cultu(r)al (e institucionalmente) a "liberdade" e/ou "autoridade".
De substanciar e fundamentar pontualmente a própria democracia.
A ideia de Democracia.
Hoje, com efeito, a "liberdade" e a "autoridade" assim como a própria "democracia" genericamente considerada muito mais do que um modo de teorizar consistente e organicamente sobre a realidade configuram uma metafísica sem verdadeiro contacto integrante, teoricamente orgânico, com a realidade.
Com o funcionamento possível, teoreticamente deduzido, desta.
As pessoas nascem com "direitos" cuja magnitude epistemológica torna objectivamente impraticáveis. A socialidade, a cidadania, não são mais uma prática que conduz a uma fixação teórica funcional limite mas um modelo completamente abstracto não da real mas de si próprio condenado à estéril absoluta "perfeição".
A nossa "autoridade" pós-moderna não se corrige nunca, em caso algum, par rapport à sua capacidade de relacionar-se com o fundamento específico da realidade mas sempre tendo presente a aspiração de corigir-se par rapport a si mesma, como (im) pura metafísica.
Se pretendêssemos "descrever epistemologicamente" os "nossos" tempos pós-modernos, essa seria, possivelmente, a melhor porque mais rigorosa e exacta maneira de fazê-lo...
Em relação à "liberdade" e/ou à "autoridade" (a todos os níveis e, no fundo, em todos os planos) como em relação a qualquer ponto ou circunstância do nosso "leque representacional" cultu(r)al mais estável e, sobretudo, característico.
[Na imagem: Rosaleen Linehan como "Winnie" em "Happy Days" de Beckett]
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
"Tragédia? Não! Estratégia..."
Informam os noticiários que, na Palestina, em Gaza, o número de mortos conhecidos subiu para aproximadamente quatrocentos, neste dia 1. Seriam quatrocentos mais mortos na consciência de um povo se este (tratando-se de quem se trata) tivesse a mínima ideia do que tal possa ser...
Trágico?
Não!
Canalhice, pura e simples, disfarçada de política!
Até quando, meu Deus?
"Re/vendo "Teorema" de Pier Paolo Pasolini"
Revi-o hoje ao regravá-lo em DVD. Revê-lo suscitou-me algumas reflexões que passo a enunciar. Primeira: a re/confirmação da existência... transnacional de uma espécie de "grande famille" de 'originais' e 'provocadores'--uma 'família' onde se incluem nomes como os de Oliveira, entre nós; de Buñuel, em Espanha (sem esquecer a França, claro); de Straub ou Godard, nesta última e de Ferreri e Pasolini, em Itália.
Para apenas citar estes, claro.
Trata-se, diria eu, de artistas (literalmente!) inqualificáveis e esteticamente insituáveis, de méritos especificamente cinematográficos argumentativamente distintos cujo (talvez...) principal mérito consiste, num certo sentido (também) formal, no modo como provocam e inquietam--no modo como desafiam e nos levam continuamente a reformular, desde logo as nossas maneiras (chamemos-lhes) mais tradicionais ou mesmo mais... burguesas de (não?) conceber a Arte, designadamente a cinematográfica.
Todos eles, de um modo ou de outro, acharam, claramente, maneira(s) em maior ou menor escala próprias e originais de reflectir, em quanto fazem ou fizeram, sobre o próprio meio de que se servem para discorrer, afinal, sobre tudo--da Estética enquanto tal, à própria condição humana, nos seus múltiplos aspectos, em última (e, sem dúvida, mais relevante) instância.
"Teorema", falando especificamente dele, sem ser propriamente uma obra-prima do cinema é, acima de tudo, um filme idóneo quanto às propostas, chamemos-lhes assim: teóricas ao mesmo tempo que se revela quase sempre sempre interessante enquanto objecto fílmico propriamente dito.
É, desde logo, um filme de firme recusa às fórmulas ou aos... teoremas.
A sua grande lição é, de resto, exactamente essa: fórmula alguma é susceptível de, enquanto tal, isto é, enquanto fórmula, cartilha ou dogma, devolver a felicidade a uma sociedade que se extraviou decididamente dos seus próprios objectivos individuais e colectivos, das suas referências existenciais... essenciais (se me é permitido dizer deste modo apenas aparentemente paradoxal).
"Teorema" é Pasolini, como sempre interveniente e reflexivo, problematizador e também problemático, provocador e, de algum modo, também subversivo.
Subversivo a vários planos e nas mais diversas áreas: subversor relativamente a uma Esquerda oficial à qual repugna a lúcida insatisfação ideológica do escritor e cineasta--uma Esquerda que, a dado passo, iniciará na Itália "de" Pasolini, um processo de acelerada descaracterização e desintegração que a levará, primeiro, ao famigerado "compromisso histórico" que, por sua vez, a afastará definitivamente da juventude urbana que nela e nas suas hesitações e contínuas concessões à "ordem" estabelecida deixa progressivamente de rever-se e, por fim, à dissolução pura e simples; subversor, por outro lado, de uma Itália "média" ou "profunda", tácita (para não dizer: inerte e mecanica) mente católica que não lhe perdoa a lucidez com que denuncia mitos e põe em cheque estreitezas morais e dogmatismos de toda a ordem e natureza, as ousadias e, por fim, a homossexualidade.
Homossexualidade que está, aliás, "em todo o lado", em "Teorema".
Um dos aspectos chamemos-lhes: curiosos do filme reside, de resto, precisamente aí, no modo contraditório e até, um pouco (ou um muito?) surpreendentemente contraditório como Pasolini parece no filme equacionar senão mesmo associar directamente a (homo) sexualidade e o 'huit clos' de uma sociedade que se busca a si mesma nos lugares errados, digamos asim.
Parece, com efeito, poder admitir-se que, com a chegada daquele misterioso indivíduo que (como Cristo) vem subverter radicalmente as (in?) consciências (ou induzir despertar e, em derradeira instância, possibilitar) estas últimas e lançar a completa des-ordem num microcosmo económico-social e cultu(r)al até aí aparentemente conformado com (inconsciente relativamente a) o vazio existencial em que se acha encalhado sem do facto se dar conta, todos acabam, de um modo ou de outro, iniciando um processo de busca pessoal distinto que há-de levar alguns (como a Mãe) à promiscuidade sexual onde a busca acabará fatalmente frustrada (uma fabulosa expressão da fabulosa Mangano di-lo sem precisar de palavras de um modo magistral).
Outros (como o Pai) à entrega da fábrica aos operários e a uma espécie de retracção ascética ou ascetizante (o despir-se simbolicamente e o empreendimento de uma travessia não menos frustre do deserto onde acabará clamando, como no paradigma bíblico clássico, são sinais claros) de "erro"--um erro que, seguindo uma via aparentemente distinta da anterior, há-de , como ela, terminar, todavia, no fracasso.
Outros (como a filha) petrificarão, agarrados a um mistério que nunca decifraremos e que permanecerá, por isso, como marca distintiva do seu convulso isolamento, da sua trágica solidão, da sua incapacidade irregressível de comunicar e fazer-se ouvir.
Outros, ainda, como o filho (Pasolini? Algo de Pasolini?) buscarão numa Arte vivida às cegas, numa procura angustiada e solitária, a razão de existir (e de co-existir) que dolorosamente lhe falta e que Arte alguma enquanto tal lhe pode dar.
Esta personagem (e por isso me questiono sobre quanto de Pasolini há nela) vive o drama do isolamento cultu(r)al e politicamente trágico do intelectual na sociedade materialista de hoje (dos anos '70, em todo o caso) após ter vivido o não menos trágico e dilacerante drama da homossexualidade que, ao invés da do pai, se disfarça apenas muito imperfeita e muito insatisfatoriamente de "camaradagem" e mera "cumplicidade".
É, da família, o único para quem Pasolini parece ter reservado um olhar, apesar de tudo, simpático e até cordial: vive, como disse, um drama que é o do próprio Pasolini e, sob diversos aspectos, o do intelectual nos dias e na sociedade de hoje.
Todos eles começam por sentir o apelo da consciência por via (homo) sexual, sendo que as personagens "positivas" (o filho e uma outra que até aqui propositadamente deixei de fora destas brevíssimas considerações, a de Emília, a criada, papel desempenhado pela pasoliniana Laura Betti de que adiante falarei com mais detalhe) acabam, de um modo ou de outro, transcendendo, superando, o que parece ser o "simples" ponto de partida, a mera porta de entrada da própria consciência que há-de conduzir Emília à ruptura com o universo burguês (e) da servidão; a um regresso/reinício às próprias origens, num recomeço simbólico da própria existência; à "ressurreição" e à "ascensão" finais que mais nenhuma das personagens... "burguesas" conhecerá.
Emília, com efeito, num plano particularmente eficaz em termos plásticos e narrativos, após uma espécie de purga da afluência anteriormente vivida (vivida num plano secundário e ancilar) parece, a dado momento, erguer-se no ar e subir aos céus numa muito tolstoiana "ressurreição" ("Senhor e Servo" de Tolstoi, autor, ele mesmo, de uma clássuica "Ressurreição", é expressamente citado no filme).
E nem é relevante saber se, efectivamente, "subiu" ou não ao céu, se teve uma alucinação devida aos jejuns, se foi a imaginação popular daqueles "mujiks lombardos" que assim a julgou ver: o que é importante é que a minúscula partícula da "classe operária" italiana (por cuja representação directa o filme abre, de resto) acha neste um lugar particular marcado pela ruptura com um determinado código de (anti?) valores excessivamente materiais (até em algumas das "soluções" achadas para preencher o vazio) e um simbólico regresso às origens que são, com o se sabe, estruturalmente distintas das das restantes personagens do filme.
Soluções concretas?
Pasolini, como disse, não as dá no filme como na vida: em diversas entrevistas o referiu. Não há soluções milagrosas nem "receitas" para a felicidade individual ou colectiva.
O seu propósito parece, pelo contrário, ser o da valorização das vias pessoais e da ruptura ou das rupturas como pressuposto básico e essencial de "ressurreição"---social, cultu(r)al, política, a todos os níveis.
Como filme, "Teorema" é, quase sempre, no mínimo, estimulante.
Joga (ecoando de forma natural, no plano plástico-narrativo, a proposta fundamental do próprio argumento) na cesura, no corte, na dissonância, num certo quase "gauchismo" da Forma por onde, à semelhança de Godard ou Straub (e à dissemelhança de Costa-Gravas ou Sotto) a "revolução" deve fatalmente iniciar-se.

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