sábado, 27 de setembro de 2008

"Ficção... científica"

"Spider" de David Cronenberg


Muita gente, ainda hoje (muitos leitores, seguramente alguns críticos) persiste teimosamente em relativizar, quanto mais não seja inconscientemente, a importância cultural e crítica da chamada "ficção científica".

Trata-se, indiscutivelmente, do meu ponto de vista pessoal, de um erro grosseiro de perspectiva crítica ou criticional, isto é, de uma deformação grave da visão analítica da nossa época, desde logo (é sempre, de um modo ou de outro, disso que, no limite, se trata) mas, também, no caso particular dos últimos, dos críticos, da sua própria identidade epistemológica e profissional, digamos assim.

De facto, que é, enquanto "temema cognicional" básico, elemental, puro, a ficção científica senão uma irmã gémea da própria Filosofia cujo objectivo real foi sempre, desde o início, antecipar e prever a própria realidade, exactamente como faz, sobretudo hoje, com os grandes autores, a dita ficção?

"Solaris" de Andrei Tarkovski

Com toda a franqueza e convicção sugiro que cada um pense seriamente neste facto sempre que se trate de menosprezar autores como Brian Aldiss ou Doris Lessing ou cineastas como Andrei Tarkovski ("Solaris") ou David Cronenberg ("ExistenZ" ma sobretudo "Spider" que é inquietantemente beckettiano e, como filme, simplesmente genial).

"ExistenZ" de David Cronenberg

São, todos eles (em especial "Spider", insisto) objectos narrativos espantosos que um bom professor de Filosofia não hesitaria em seleccionar como utensílio electivo de introdução às ontologias ditas "da existência", de Kirkegaard a Sartre.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

"Mais paixões"

Fotograma de "Guerra e Paz", filme de King Vidor: Mel Ferrer (Andrei Bolkonski), Audrey Hepburn (Natasha) e Henry Fonda (Pierre Bezhukov)

A adolescência é um "lugar de paixões", um "sítio de Deus".
Ou de deuses.
Os meus (os meus deuses) foram, a dado passo, além dos que noutros lugares evoco, o Mel Ferrer (o príncipe Andrei Bolkonski da "Guerra e Paz" do Vidor e essa imaterial Audrey Hepburn que, para mim, encarnava (se de "carne" se pode falar a propósito dela...) um ideal absoluto de mulher. Durante anos, odiei o Gassmann por tê-la "desencaminhado" no filme, numa altura em que "dar um mau passo", não só na Rússia czarista mas também por cá, no Portugal dos pequeninos salazarista, equivalia à morte moral absoluta, definitiva...
"Sedotta e abandonata" e coisas do género: o Intendente (ali tão perto!) estava cheio de existencialmente trágicos "aftermaths" de "casos" como o da Natasha e do Anatole...
Ah e também cheguei, confesso, a nutrir uma paixãozeca razoável pela Anita Ekberg que também entrava no filme e me fazia irresistivelmente lembrar uma prima minha chamada "Nela" que por diversas razões me fascinava...
O "Lys" aqui já desactivado como cinema

"Falando ainda de paixões..."

Falando de paixões: aqui estão duas das mais precoces e arraigadas. O "Rex" foi onde eu vi aquele que ficaria, durante muito tempo, a ser o meu "filme de cabeceira": "M..." de Fritz Lang. Nunca esquecerei a emoção que senti quando o vi, pela primeira vez, numa daquelas emocionantes matinés roubadas à velha "Luís de Camões" do Lino Lopes, do Fernandes Costa (juntamente com a Yvette Centeno o melhor professor que tive, ao longo de toda a minha vida de estudante!) e/ou da D. Bertha Mendes.
O "Rex" era um "Lys dos pobres". Seu "irmão" na proximidade, ficava já para além dessa fronteira invisível que se situava grosso modo, no "meridiano" da pastelaria "Paris" (que era, por seu turno, devido à situação "geográfica", já perto da zona maldita do Intendente, uma espécie de "Delta dos pobres" onde as "Senhoras" não se aventuravam sem fortes razões para tanto...)
Bons tempos...
O "outro" é o "Piolho", o único, o autêntico. (Havia quem chamasse "piolho" ao "Olympia" e ao "Arco Íris", um descuido do Éden permitira que aquele "anão" se instalasse à sua prestigiosa sombra e aí se mantivesse durante anos até se tornar numa... loja de alcatifas e tapetes mas "piolho", "piolho" era o velho "Salão Lisboa").
Pessoalmente, eu não era exactamente um "devoto" dele. Porque dele se despendia invariavelmente um cheiro atroz a suor e porque os "lanterninhas", os "arrumadores", tinham o hábito terrível de perguntar logo à entrada aos miúdos: "Tens dinheiro?"
Se não tivessemos (o que acontecia para aí seis vezes em cada... cinco), apagavam imediatamente as lanternas e deixavam-nos "entregues às feras", procurar um lugar vago, entre empurrões e pragas de quantos tínhamos de pisar para lá chegar...
A imagem que ilustra este pequeno texto evocativo é óptima porque mostra ainda o arco que existia ao lado (por baixo do qual passavam os eléctricos) e a cabine telefónico, junto à qual se vendiam livros ("Condores", "Mundos de Aventuras" e por aí fora) nuns tabuleiros improvisados, muito primitivos, por onde eu adorava passar horas a fio, contemplando fascinado a mercadoria (para mim absolutamente hipnótica!) que exibiam.
Às vezes, conseguia reunir cinco escudos e, então, comprava bilhete para o (não se lhe posso, em bom rigor chamar assim mas enfim...) para o cinema e destinava os quinze tostões que sobravam para "livros"... ´
Era uma festa nas raríssimas vezes em que isso acontecia (como daquela em que o meu Tio Jack me deu... cinco libras que haviam de dar para uma quantidade incrível de filmes e ainda uma boa mão-cheia de livros pelo meio!...)
Para a esquerda, havia um acesso à capela da Saúde e à Mouraria.
E uma esquadra de polícia que me metia, devo confessar, um medo danado! Sonhava (ao mesmo tempo que t(r)emia...) conhecer o seu interior que me parecia dever ser um antro tenebroso, uma caverna ou uma gruta sinistramente insondável, negra e literalmente sem fundo.
Ah e havia, também, uma pequena papelaria onde andei meses a fio a admirar (sem dinheiro para adquiri-lo...) um livro do Peter Cheyney (de que hoje, para me vingar, tenho não um mas DOIS exemplares... )

"Eu falei de paixões?..."

Scilla Gabel

Noutro lugar, falo de algumas 'paixões' cinematográficas de infância. De todas, uma avulta, arrebatadora e inexplicável como todas as paxões: a que nutri durante anos por uma dupla praticamente anónima da Loren (quem é que já ouviu falar no nome "Scilla Gabel"?!) que se tinha precisamente esse nome improvável: Scilla Gabel.
Durante anos, antes do 'nascimento' da Net perguntei em diversas ocasiões a mim próprio se existiria mesmo uma Scilla Gabel. Quando apareceu a Net, das primeiras coisas que fiz foi, em homenagem a essas dificilmente confessáveis (tanto quanto dificilmente explicáveis) arrebatamentos e emoções de adolescência, procurar o nome e a efígie dela aí.
Seria, de facto, como eu a imaginara? Que tipo de impressão me causaria re/vê-la tantos anos e tantas ilusões perdidas depois?
Quando a vi, claro que lhe menti dizendo-lhe que estava praticamente na mesma que é aquilo que a gente diz às pessoas que reencontra, depiois de muita idade!) ter passado por elas, deixando exactamente as mesmas marcas, interiores e exteriores, que deixou em nós...
Mas, tirando isso, gostei de a ver...
Da velha "chama" juvenil continuamente reactivada na escuridão ritual do velho "Olympia" ou do não menos velho "Salão Lisboa", o inefável "Piolho" ("chama" essa, entretanto, quase completamente consumida: nesse entretanto, apaixonei-me sucessivamente pela Silvana Mangano, pela Ingrid Bergman e ultimamente pela Nicole Kidmann...) ficou, ainda assim, uma cálida memória que, hoje, aqui, comovidamente evoco---e, sobretudo, homenageio.


Ingrid Bergman como Joana de Arc

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"O grande Volonté"

Gian Maria Volonté
O Grande Volonté!...
Quando me falam em Cinema (em Cinema italiano, sobretudo) além do Mastroianni, do Tótó, da Loren (eu "era" da Loren "contra" a Lollobrigida mas a minha secreta paixão, nestes territórios erótico-mediterrânicos era a Mangano: que rosto fabuloso! Para mim, era a Ingrid Bergman italiana: não precisava 'representar', o rosto dela dizia "tudo", o resto era já desnecessário!), do Gassman (grande actor cómico fez dele o Monniccelli!) e do Ferreri (o desigual, delirante Ferreri de que gosto muito, entre outras coisas, de um notável "I Love You!"), há um nome que me vem, de imediato, à ideia: o do grande Volonté!
Com ele, comecei em '74, a ver, por fim, Cinema em Portugal! Vi tudo menos o "MOnstro na Primeira Página". E que pena eu tive! Na noite em que ia passar no "Stadium" em Algés, eu e a Mia éramos os únicos espectadores!... O filme, claro, não passou.
No Volonté não sei que mais admirar depois daquele fabuloso "Vanzetti" que ele fez e que passou, em Lisboa, também no "Stadium".
Hei-de voltar a falar dele com o pormenor e a atenção que merece!
Para já, hoje, dele (e dessa fabulosa Mangano!) fica aqui, com um comovido sentimento de perda, a efígie característica, única, inconfundível de ambos em duas fotografias em que, curiosamente, Volonté faz lembrar o rosto de um outro excelente actor (recentemente falecido): Anthony Franciosa...


Silvana Mangano

"A (In) Cultura da Avaliação dos Funcionários"


Aristóteles

O "Diário de Notícias" de 22.09.08 insere um texto intitulado "Rui Teixeira escapa a processo por erro grosseiro" a partir de uma breve análise e reflexão sobre cujo conteúdo é possível ter uma ideia razoavelmente nítida (pelo que lá diz como, sobretudo, por aquilo que não diz, i.e., por quanto está "activamente ausente" do que diz) da visão ou do entendimento vigentes em Portugal, hoje, relativamente à magna questão da representatividade política em Democracia.

À questão do fundamento e da substância específica da dita representatividade.

Sobre o modo como, enquanto cultura, não somos, de todo, capazes de distinguir entre negociação/contratação útil do exercício funcional do poder político e a cedência, pura e simples, do próprio poder político, disso falamos com mais detalhe e com outra amplitude noutro lado.

Aqui, trata-se, sobretudo, de discorrer sobre um aspecto particular desse equívoco verdadeiramente sistémico que faz do nosso regime político vigente muito mais um subtilísimo "despotismo (supostamente, pelo menos...) esclarecido" recauchutado e "demoformalmente decorado" do que propriamente uma genuína Democracia.

Ora, volto a dizer, aquilo que constitui o objecto mesmo da contratação social que é base distintiva do paradigma democrático é o exercício funcional do poder, não o próprio poder.

O que isto significa na prática é que a avaliação cuidada da acção dos agentes da representatividade faz parte integrante, intrínseca, indissociável do exercício da Cidadania autenticamente democrática de tal modo que pode (e deve!) dizer-se que só há democtracia ou só há, pelo menos, possibilidade efectiva e objectiva de haver democracia quando tal avaliação tiver achado suporte e expressão institucional tessitária no corpus dos dispositivos democráticos mais básicos e essenciais.

A vigilância democrática (de que a avaliação, igualmente democrática, é uma das componentes fundamentais) permite impedir, por exemplo e desde logo, o expedinte vulgar, escandalosamente ilegítimo e comum, de "insinuar" disfarçadamente, de forma cíclica, nas práticas comuns da própria democracia todo um conjunto variado de "instantes correctores" espúrios regulares, originários de concepções e/ou sistemas não-democráticos da política, com o objectivo de manter actuante aquilo que, continuando embora a ser chamado, por pura (ou impura!) "inércia crítica e analítica", "democracia" representa, afinal, já, na prática, apenas uma forma completamente apócrifa e contrafeita dela.

Estão neste caso, muito clara (e também muito perversamente!) as chamadas maiorias "absolutas", por exemplo que nada mais são em si mesmas do que uma espécie de extensão ulteriormente (dis!) funcional e ulteriormente perversa do "direito" já reconhecido na maioria das "democracias" ocidentais, a quem exerce nelas o poder...poder fazê-lo de uma forma que escapa, ainda mais indesejavelmente do que é comum, à possibilidade efectiva de fiscalização democrática em tempo real por parte da Cidadania assim como de avaliação adequada, porque proporcional e, por conseguinte, justa daquela forma específica de exercê-lo.

As maiorias absolutas, não hesito em dizê-lo, representam um perversíssimo "cavalo-de-Tróia" do autoritarismo puro e simples (inexplicavelmente aceite, de forma pacífica, por todas as democracias parlamentares que conheço como parte integrante do seu utensiliário jurídico-político e institucional essencial!) embebido no coração dessas mesmas democracias na medida em que configuram a espúria concessão implícita de um aval completamente ilegítimo ao assentamento de todo o conjunto da acção política a desenvolver numa comunidade na "razão" da força em detrimento daquilo que permite exactamente distinguir, na essência, uma democracia de um regime autoritário: a consagração da necessidade nuclear, essencial, imprescindível, de fazer vencimento exclusiva e obrigatoriamente pela bondade dos argumentos, formalmente reconhecida em sede parlamentar e colocada, assim, por exigência da própria Lei, no centro mesmo dos mecanismos decisórios de natureza política na qualidade de condição e pressuposto incontornável de decisionalidade.

John Locke

Ora, aquilo que está, de facto, a requerer quem pede uma maioria absoluta é (in!) justamente que se dispense o poder político e o respectivo exercício em concreto de obecederem à referida necessidade nuclear de fazer vencimento pela força da bondade da argumentação que esse mesmo poder pode, que ele é capaz, que lhe é possível, trazer ao conhecimento da atenção e do discernimento da Cidadania a fim de que esta reconheça no momento democráticamente justo como pressuposto indispensável para que passe à prática (tempo esse que é antes de as decisões estarem tomadas e passarem à prática) o respectivo benefício para o bem colectivo.

Ou seja: não há de facto (de facto e também já agora, de direito!...) compatibilização, teórica ou prática, possível entre Democracia e maiorias absolutas.

Não há como vigiar e avaliar activamente, de forma democrática, uma "democracia" que assenta na figura democraticamente aberrante da maioria absoluta.

Porque desoptar um político ou um partido no fim de um mandato não significa realmente avaliá-los nem, como facilmente se compreende, envolve qualquer forma de vigilância activa sobre qualquer um deles.

Um exemplo limite (porque envolve a acção de uma superpotência, a independência de um país sobrerano e a morte regular de milhares e milhares de pessoas, entre muitas outras malfeitorias e iniquidades): no caso limite dos Estados Unidos e da guerra que conduzem actualmente no Iraque, por exemplo, ver (com civilizado alívio, embora!) chegado ao fim o tenebroso período do "bushismo" que a desencadeou decididamente não basta: não é ética nem politicamente legítimo que uma democracia se declare completamente ilibada de derivas autocráticas anteriores cometidas em seu nome pelo simples facto de desoptar ou desvotar, no fim ordinário de um ciclo político um agente político ou um governo indignos.


António Gramsci

Na realidade, as Democracias que não avaliam e não punem (i.e. as que não dispõem de dispositivos institucionais claros para punir e que são infelizmente a esmagadora maioria!) os políticos indignos avalizam, na prática, implícita mas real, objectivamente, as referidas derivas e ficarão para sempre suspeitas de com eles terem, de algum modo, beneficiado.

De, assim, mais ou menos episodicamente contaminada a própria genuinidade senão da letra (que é tantas vezes permissiva) seguramente do espírito democrático nelas supostamente vigente, alguém ter dessa contaminação, com o beneplácito implícito dela, impunemente beneficiado.

E isto não diz respeito respeito apenas aos casos limite como os da brutal guerra levada a cabo no Iraque pela presidência norte-americana ainda em vigência: é extensiva a qualquer acto ou conjunto de actos políticos deliberados durante as fases de "suspensão democrática efectiva" que são as m,aiorias absolutas. Incluindo, por exemplo, a extraordinária... "cruzada" conduzida actualmente pelo poder político em exercício entre nós, contra aquilo que ele próprio designa pelos "interesses".

O governo dito "socialista" chegou, com efeito, ao poder com o objectivo determinado de reduzir drasticamente e, como hoje é impossível não ver, a qualquer preço pré-determinados valores de despesa pública. Um tal projecto in/essencialmente técnico e de cariz friamente "economocrata" (que ninguém do governo alguma vez confessou, aliás, abertamente durante a campanha eleitoral assim como subtraíu à Cidadania em geral a informação leal das consequências inevitáveis do seu modo particular de conceber a "economia do Estado social"); um tal projecto, dizia, passava inevitavelmente pela desarticulação substancial senão mesmo substantiva do próprio Estado social---o que deixava obviamente perceber ir despertar a indignação e a revolta, quer de uma ampla gama de profissionais das áreas da Saúde, da Educação ou da Justiça, quer, por maioria de razão, das populações afectadas pela cegueira economaníaca "socialista". o poder político sabia que, se confessasse honestamente a todos os interesados, à Cidadania, aos por ele... "representados" as medidas que o seu próprio projecto pressupunha não teria qualquer hipótese de ser eleito exactamente porque esse "projecto" não podia com certeza ser encarado por aqueles quem gravemente afectava como bom ou sequer como minimamente "argumentável".

A "solução"? A "solução" foi pedir a maioria absoluta!

Georgy Lukacs


Com ela contornava o poder político (com a óbvia deslealdade que facilmente se reconhece, aliás!) a mais que previsível revolta, a compreensível indignação, os naturalíssimos protestos das populações lesadas!

As maiorias absolutas (que são um meio conveniente, habilidoso, subtil, de "dar a volta por cima" com o beneplácito da Lei à questão do des/controlo nuclear da acção política) não visam, de facto, eu sempre o disse, outra coisa senão a possibilidade de opção aberta ao poder por formas mais ou menos regulares de interrupção "estratégica" da democracia quando esse mesmo poder político é detentor de um projecto demasiado unilateral e "significado" de sociedade, no contexto da luta social, económica e política entre os cidadãos ou, melhor dizendo, entre os grupos ou classes de cidadãos.

Com uma maioria dessas visa-se, na realidade, no que não pode em justiça deixar de ser entendido como uma grotesca 'paródia' de Democracia, eleger não um governo com um programa para servir uma Cidadania ou uma sociedade mas na realidade, completamente ao contrário, eleger... uma sociedade a fim de servir um projecto político pré-existente.

O "Diário de Notícias" ao publicar a notícia acima começada por referir relativamente à avaliação (assim como à consequente responsabilização, é bom não esquercer!) dos juízes volta a trazer à colação (se calhar sem propriamente o desejar mas enfim!..) o problema essencial da responsabilidade em Democracia: os juízes (como os médicos ou os professores) devem ser avaliados no contexto da respectiva acção profissional?

Com certeza!

Mas se, no caso de todos esses profissionais é... "com certeza", como admitir que não tenha necessária, obrigatória, impreterivelmente se sê-lo (e ainda mais... "com certeza"!) no caso dos cidadãos a quem compete gerir socialmente, de forma global, nacional, a respectiva actividade??!!

domingo, 21 de setembro de 2008

Um Pouco Mais de "Pós-Modernidade e Neo-modernidade" em matéria política"


Quando, na "entrada" imediatamente a seguir, falo (por outras palavras) na necessidade, a meu ver, verdadeiramente essencial, de agregar, de forma estável e, sobretudo, orgânica, mecanismos institucionais de ajustamento e correcção da Democracia em tempo real às formas desta já existentes, quero referir-me muito especificamente a uma coisa que considero absolutamente fundamental: a necessidade de adicionar, como atrás volto a insistir, às ferramentas ou utensílios democráticos típicos já existentes, uma Autoridade de Verificação e Controlo Democráticos com poderes tribunalícios comparáveis, por exemplo, aos do Tribunal de Contas ou mesmo aos dos tribunais fiscais), poderes esses cuja natureza básica, de resto, abordo muito levemente embora, no próprio texto.

Desenvolvendo, porém, agora, aqui, a ideia aí esboçada: para que numa democracia não se instale estável e (como dizer?) também "confortavelmente", sob a forma de uma prática tacitamente aceite por todos, a autêntica chicana, configurada v.g. nas famigeradas "promessas" eleitorais (que ninguém, no fundo, acredita que vão ser cumpridas por quem que seja mas que são sempre, paradoxalmnte, uma---aliás, desonestíssima!---"arma" na ela mesma geralmente desonesta luta pelo acesso ao poder...); para que, dizia, tal prática eticamente intolerável não se "institucionalize", seria (a meu ver, pelo menos) absolutamente essencial que uma das regras básicas do próprio sistema democrático como tal fosse a obrigatoriedade absoluta da deposição, prévia, num órgão próprio de verificação formal dos mesmos, do texto integral do programa de cada candidato a cargo eleitoral assim como uma descrição detalhada, tecnicamente fundamentada, das vias previstas pelos candidatos para passá-las à prática.

Não basta, com efeito (é imoral, aliás! É pura e simplesmente desonesto!) prometer que se vão, a um tempo, baixar impostos, aumentar salários e criar postos de trabalho. Muitos autênticos vigaristas e trapceiros "encartados" apressadamente disfarçados de políticos têm, é verdade, logrado ser eleitos para cargos importantíssimos por esse (moralmente discutível) meio, todos o sabemos. A questão não é, pois, essa: a questão consiste precisamente em criar as condições mínimas institucionais que permitam impedir que tal aconteça.

De acordo cpom o que proponho, cada candidato a um cargo público de representação política devia estar obrigado a explicar aos técnicos da Autoridade quais as medidas por ele concebidas para lidar com uma determinada situação do foro público em concreto, assim como os cálucluos por ele feitos para a consecução do propósito em causa.

Vivemos numa sociedade em que há "ene" cidadãos aos quais, por razões que se prendem com um consabido défice de conhecimentos, é fácil persuadir que se podem baixar impostos, aumentar salários e criar "xis" postos de trabalho, por... obra e graça do Divino Espírito Santo (basta intercalar nas promessas sonoramente avançadas meia-dúzia de frases arrancadas ao sempre eufónico "mumbo jumbo" económico para o efeito ser muitas vezes persuasivo e "fulminante" junto de uma população cujo défice cultural é, como disse, amplamente conhecido...).

Ora, a Democracia não consiste na cedência regular do poder senão que na da cedência, igualmente regular, do EXERCÍCIO instrumental desse mesmo poder, que é uma coisa muito mas muito diferente. A obrigatoriedade da deposição do programa político acompabnhado dos respectivos "cálculos" se, por um lado, vincula um político ao respectivo cumprimento, permite, por outro, limitar rigorosamente o âmbito do poder ou poderes cedidos.


Alexis de Tocqueville

Ou seja: um político assim eleito apenas tem legitimidade para pôr em prática as medidas com as quais formalmente se comprometeu (e só essas!) das quais teve, como é da mais elementar honestidade democrática, naturalmente de dar ao eleitorado prévio e detalhado conhecimento.


A velha "estória" de se ser eleito sem, na prática, se ficar vinculado rigorosamente a coisa alguma (e o facto de o próprio sistema político permitir que um tal escândalo subsista enquistado no conjunto de práticas comuns do regime!) ficaria, desse modo, por inteiro impossibilitada.

Mais: aquilo que proponho aqui passa ulteriormente por uma cuidada redefinição do artigo número 20 da Constituição, designadamente no que se refere aos pressupostos essenciais para a suspenção de um cargo de representação pública: um político não deve, em nome da mais elementar transparência e ética políticas, estar a coberto de sanções específicas que podem (porque não?) ir até à própria suspensão temporária, mais ou menos prolongada, do direito a desempenhar cargos públicos em caso de incumprimento doloso (ou simplesmente por incompetência) dos seus deveres respectivos de representação.

Um político é um "public servant", um servidor público: não é um enviado de Deus à terra com poderes milagrosos a fim de resolver tão providencial quanto miraculosamente os problemas da coisa comum.

Quanto aos cidadãos não têm obviamente obrigação de perceber de economia ou de finanças mas têm, com certeza, o direito de ver a confiança que são forçados a depositar no cidadão A ou B que reclama a propriedade do conhecimento que a eles lhes lhes falta, suportada em instituições credíveis e actuantes, capazes de reporem a verdade e refazerem a justiça ameaçada em caso de voluntário ou involuntário incumprimento por parte do político ou políticos em causa.

Não há Democracia sem vigilância mas sem vigilância, entendamo-nos, em tempo real ou tão real quanto possível. Várias vezes o tenho repetido: não se vota para trás. A Democracia é o poder de escolher livremente o nosso futuro colectivo, não o (absurdo) "poder" de escolher livremente o nosso... passado colectivo.

Desoptar ou des-votar (n)um político não é um comportamento que releve da DEmocracia mas da.. "retrocracia" ou "demomorfia" completamente "inerte", desenvolvendo-se ao longo de um "tempo político im/puramente simbólico" que contrasta com a "temporalidade activa", "efectiva", reservada em exclusivo aos políticos que, no contexto do actual sistema, só nos resta mandar ciclicamente "para casa" (quando não para pingues e chorudos cargos privados, cujo acesso foi cuidadosamente preparado em pleno desempenho dos cargos públicos...)---os políticos que faltaram ao respeito devido ao respectivos cargos que é como quem diz à Cidadania que se comprometeram a servir.



Só assim, insisto, será possível acreditar na possibilidade de uma Democracia em... Democracia.