Conheciamo-lo lá em casa como "o primo Luís"!Era para nós uma espécie de mito que a distância (e os péssimos transportes da época) potenciavam. Sempre que alguém dizia, assim tipo pregoeiro de outros tempos e invariavelmente com uma excitação inescondível na voz, qual sistema de comunicações interno familiar: "O primo Luís vai cantar à televisão!" saltávamos todos literalmente, mortalmente angustiados com a dúvida que imediatamente se nos punha todos, membros das duas famílias directamente interessadas, os Piçarras e os Acabados: "Onde é que a gente há-de ir ouvi-lo?!")
Nessa altura, vir de Moura a Lisboa (ou vice-versa) demorava um dia. Recordo-me de ir com o meu Tio José da Costa e a minha Avó a Moura de carro (no Isabella da minha Avó), sairmos de manhã e chegarmos noite fechada. Recordo-me em particular da iluminação que NÃO havia nas terras e da emoção do esforço que nos era pedido para vermos se "aquilo" já era alguma terra. Alguma terra (Pias, Safara, etc.) de cuja presença apenas nos apercebíamos quando já estávamos lá dentro, de tal modo era escuro o campo na época. Viajar de noite era como atravessar um limbo emocionantemente insituável e etéreo, onde todo o imenso potencial de excitação infantil tinha pasto ilimitado...
Até o Hotel de Moura era emocionante com as suas salas imensas e nuas, o restaurante meio imerso na sombra quando chegávamos, a negociação da refeição improvisada, a ida às ecuras para os quartos de um dos quais se via o cinema ao ar livre...
Moura: portal manuelino da SéMoura era a pátria do "casão" da Rua das Molejas (onde brincávamos na charrette do meu Avô com a espada do meu outro Avô); da casa da Rua Garcia Peres (em cuja adega o meu tio se ia afogando um dia, salvo à justa pela minha Mãe) mas era sobretudo, o território do meu "primo Luís" onde as espantosas e míticas "aventuras" dele tinham lugar: as refeiçõe pantagruélicas, os luxos dificilmente inmagináveis da minha Tia Luísa (que, dizia-se, quand o tédio a atacava, vinha a Lisboa, ao Chiado, gastar "quinhentos escudos" em bibelots...); a imensa bonomia do meu Tio Luís, para quem a vida era, apesar de tudo, como para Calderón, "sueño"...

Deixo aqui também um fotograma de "Tristana" um fabuloso retrato da "España de charanga e pandereta, de cerrado y sacristia, devota de Frascuelo y de María/De espirito burlón y alma quieta" (como escreveu Machado), dessa Espanha contraditória, paradoxal e insolúvel que Buñuel tão bem captou no mais sadiano dos seus filmes. Um documento prodigioso sobre a ambiguidade do gostar.
António Machado
...Ah! Se eu pudesse ser ele e ter a Elaine Stewart apaixonada por mim!...
Elaine Stewart
Brandon de Wilde e James Stewart em "The Night Passage" 


Uma vantagem desta aparentemente ininterrupta cascata onomástica mais ou menos mística, mais ou menos iniciática (cá para mim, isto é Deus ou algum amigo Dele a querer dizer-nos qualquer coisa só que não sei se é bom se é, pelo contrário, horroroso o que Ele pretende que saibamos por esta via críptica tão difícil de entender...); a vantagem disto, dizia, é que, por exemplo, alguém que foi miudo na década de vinte ou trinta e como castigo do bom comportamente recebeu um cinto com o "S" da Mocidade, já não precisa de deitá-lo fora nem escondê-lo (como eu fiz com os dois capacetes da Legião que comprei na Feira da Ladra e que fazem com que toda a maltinha que vem cá a casa me pergunte, piscando-me o olho: Com que então, foste da Bufa, ham?... Meu sacana...).
Não! Agora, é só pô-lo e dizer: "Isto é uma coisa que mandei fazer de propósito para homenagear esse grande português e génio político, grande socialista, que foi (e, às vezes, quando o tiram do congelador ainda é!) o Dr. Mário Soares!".
Ou: "Tal-tal-tal-tal, coisa-e-coisa, para homenagear esse grande filantropo e modernizador do socialismo que é o Grande Sócrates, o Iluminado!"
E por aí fora.
Cavaco Silva. Outro exemplo de bonito-homem-com-esse (não há manequim da Rua dos Fanqueiros à dos bacalhoeiros que não tente em vão copiar-lhe o porte aristocrático, a expressão inteligente, o sorriso cativante que nos desarma e remete para uma caricatura de Cary Grant feita pelo Stuart, depious de um garrafão de tinto do Cartaxo, essa grande metrópole ribatejana...
Outro Silva/outro "esse"/outro grande democrata a quem a Pátria e a Kultura tanto devem!
O "velho" Tati!...